• 27/04/2006

    Informe nº 712: Em depoimento, indígenas acusados da morte de policiais dizem que foram obrigados a assinar depoimento na Polícia Civil

    Na tarde de quarta-feira, 26 de abril, foi realizado o depoimento de três dos nove indígenas acusados pela morte de dois policiais civis em Porto Cambira, no interior do Mato Grosso do Sul, em 1º de abril deste ano. A juíza da 1ª Vara Criminal de Dourados, Dileta Terezinha Thomaz de Souza, ouviu Ezequiel Valensuela,  Jair Aquino e Lindomar de Oliveira. O cacique Carlito de Oliveira que, segundo o inquérito policial, é acusado de ser o chefe dos assassinatos, preferiu não falar. “Ele preferiu exercer o direito constitucional de permanecer calado”, explicou a juíza a um jornal do Mato Grosso do Sul.


     


    O caso está sob responsabilidade da Justiça Estadual, após a conclusão do inquérito realizado pela Polícia Civil, que levou à denúncia de nove indígenas.


     


    A defesa dos acusados solicitou que o caso fosse transferido para a Justiça Federal, mas o pedido foi negado pela juíza com o argumento de que não há disputa sobre direitos indígenas. Os argumentos a favor da tramitação do caso na Justiça Federal, no entanto, baseiam-se no fato de o caso ter ocorrido devido à entrada da polícia no acampamento onde vivem os indígenas. Ainda cabe recurso à decisão da juíza.


     


    O interrogatório dos outros cinco indígenas foi transferido, a pedido dos advogados de defesa, para o dia 2 de junho.


     


    Violência


     


    Os três interrogados negaram a participação do cacique Carlito na briga que levou às mortes, e apresentaram versões diferentes da divulgada pela polícia sobre o contexto e motivação dos assassinatos. Os indígenas afirmaram que os policiais passaram pelo acampamento atirando e que, até o momento em que abordaram o carro, imaginavam tratar-se de seguranças das fazendas próximas, que costumam andar pela região.


     


    Esta versão faz parte da transcrição do depoimento do indígena Ezequiel Valensuela, à qual a assessoria jurídica do Cimi teve acesso, “no dia e horário dos fatos os policiais passaram no acampamento Passo do Piraju (…), dando tiros e foram até a fazenda do Japonês e quando voltaram os policiais foram abordados para perguntar porque eles haviam efetuado disparos quando passaram; que no momento em que os policiais voltavam foram abordados e um policial efetuou um disparo com uma espingarda calibre doze que atingiu a perna de outro policial; que os índios não sabiam que se tratava de policiais, e acharam que fossem pessoas ligadas aos fazendeiros; que o líder do acampamento Carlito não comandou a ação que culminou com a morte dos policiais mas quando os policiais passaram atirando os indígenas saíram para a estrada para ver o que estava acontecendo e então aguardaram a volta dos policiais para aborda-los, mas tem certeza que Carlito não participou”.


     


    De acordo com a transcrição do interrogatório, o acusado Lindomar Brites de Oliveira afirmou que chegou no local dos fatos tudo já tinha acontecido e negou o conteúdo do interrogatório prestado a Polícia Civil, no dia 02 de abril. Segundo a transcrição: “que o interrogando somente ratificou o interrogatório prestado em 02 de abril de 2006, porque a apesar da presença do procurador federal Otavio Cavalcante a Delegada disse que se o interrogando alterasse uma palavra em seu depoimento ela iria mandar espancar e como o interrogando já tivesse sido espancado na delegacia, ficou com medo e confirmou o seu depoimento; (…) que o interrogando foi espancado quando foi preso mas não sabe se os outros índios presos foram”.


     


    A fala sobre o espancamento esteve presente também no depoimento dos outros acusados. Jair Aquino Fernandes afirmou que “no momento em que foi re-interrogando na presença do procurador federal Dr. Otavio Cavalcante, tentou explicar para este que muitas coisas que constou (sic) no seu interrogatório perante a autoridade policial não eram verdadeiros (sic) mas a delegada que presidia o ato disse que o interrogando precisava confirmar o seu interrogatório e como o interrogando já tivesse apanhado bastante ficou com medo e limitou-se a ratificar o termo de interrogatório”. Consta ainda na transcrição do depoimento que “foram presos juntos o interrogando, Sandra e Valmir, e todos os três foram espancados pela polícia e no dia seguinte foram presos Lindomar Marcio e Paulino, que também apanharam da polícia”.


     


    Despejo


     


    Cerca de 200 indígenas do povo Guarani-Kaiowá voltaram, há três anos, a acampar na região de Porto Cambira, em local chamado por eles de Passo Piraju. Na quarta-feira, 26, a juíza federal Kátia Cilene Balugar Firmino, da 2ª Vara Federal de Dourados, concedeu prazo de cinco dias úteis para que a Funai indique local para levar os indígenas após o despejo, que poderá ocorrer a partir de 11 de maio, segundo determinação da Justiça Federal de 11 de abril. Os indígenas acampados tinham, até esta decisão, um mandado de segurança que autorizava sua permanência na terra até que o estudo antropológico para identificação da terra fosse providenciado pela Funai.


     


    Povo Apinajé detém três funcionários da Funai para exigir segurança em veículos e fiscalização das terras


     


    Para pressionar a Funai pelo atendimento de compromissos já firmados, como a manutenção do caminhão usado para o transporte dos indígenas, a fiscalização das terras para evitar a devastação e a implantação de projetos para a sustentação dos indígenas, os 13 caciques do povo Apinajé detiveram, nesta quarta-feira, 26, o administrador regional da Funai, João Batista dos Santos, o chefe de posto, Raimundo Garcia, e o técnico agrícola Airton, conhecido como Mineirinho.


     


    “Há muito tempo tem reunião na aldeia São José. O administrador veio e prometeu que ia mandar carro para o transporte das pessoas. Temos um caminhão sem freio e dois tratores parados. O administrador disse que tinha verba para arrumar os carros desde 2004, mas nunca arrumaram. Ele passou meses sem vir aqui e agora voltou. Agora, ele tem que negociar essas”, justifica uma das lideranças deste povo que vive no centro-oeste do Brasil, estado do Tocantins. Segundo a liderança, o caminhão é utilizado para transporte dos indígenas – em geral pessoas que vão à cidade para o comércio e aposentados que vão receber suas pensões – até Tocantinópolis, cidade a cerca de 20 km da aldeia. A precariedade nos veículos que transportam os indígenas é realidade em diversos locais e causou a morte de seis pessoas em Rondônia, em janeiro de 2006.


     


    Os indígenas têm informação de que havia recursos para consertar o trator da comunidade, mas os reparos nunca foram realizados.


     


    “A Funai prometeu roças, cercas de arame, mas no final sempre dizem que falta verba”, conta uma das lideranças, que relata também que a terra tem sido invadida por caçadores, pescadores e madeireiros, e que a Funai não realiza a fiscalização. “Para parar a extração de madeira tem que ter gente para fiscalização constante e tem que ter um carro”, afirma.


     


    Segundo informações dos Apinajé, a administração regional da Funai em Araguaina entrou em contato com as lideranças através do telefone da aldeia, mas eles solicitam a presença da direção do órgão na terra Apinajé para as negociações.


     


    Brasília, 27 de abril de 2006.


     


    Cimi – Conselho Indigenista Missionário


     

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  • 27/04/2006

    Coiab elege coordenadores durante Assembléia em Raposa Serra do Sol.


     


    Entre 21 e 25 de abril de 2006, a Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) realizou sua 8ª Assembléia Geral, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Estiveram reunidas mais de 300 pessoas, das quais 136 eram delegados eleitos pelas organizações indígenas da Amazônia brasileira que compõem a entidade.


     


    Entre principais debates, esteve a reestruturação política e institucional da Coiab, que abordou temas como estrutura (participação das bases e forma de eleições) e sustentabilidade. Durante o encontro, foram escolhidos os representantes da entidade. Jecinaldo Barbosa Cabral, do povo Sateré Mawé, foi reeleito coordenador da Coiab. A vice-coordenação ficou com Marcos Apurinã e a secretaria geral com Saturnino Xavante.


     


    Enquanto a Assembléia era realizada, cerca de 300 policiais federais estavam em Raposa Serra do Sol para garantir a realização, pelo Incra e pela Funai, do levantamento das benfeitorias nas fazendas, que devem ser desocupadas para que seja garantido o usufruto da terra pelos indígenas, determinado pela homologação de Raposa em abril de 2005. De acordo com informações dos jornais de Roraima, a vistoria na última fazenda foi realizada na manhã de quarta-feira, 26. O fazendeiro e prefeito de Pacaraima, Paulo César Quartieiro, tentou impedir a entrada da equipe de vistoria no local.


     

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  • 26/04/2006

    Me fala de ser missão

    SER MISSIONÁRIA… Um sonho inalcançável? Ou algo que já começo a tocar…


     


    ME FALA DE SER MISSÃO quando me achego a um mundo diferente e na total observação aprendo a acolher o novo, e começo a morrer a minha segurança conhecida.


     


    ME FALA  DE SER MISSÃO quando me sinto incapaz e insignificante dentro de uma cultura com as suas estruturas já estabelecidas.


     


    ME FALA DE SER MISSÃO quando descubro que minha pobreza se enriquece com a sabedoria de aquele que é diferente.


     


    ME FALA DE SER MISSÃO aprender a estar sem pretender entender, só acolhendo a alegria ou a dor; a harmonia ou a angustia de um povo explorado e asfixiado pelo sistema de corrupção.


     


    ME FALA  DE SER MISSÃO escutar teus de dor porque a vida está sendo oprimida pela não valorização da pessoa e da sua humanidade.


     


    ME FALA DE SER MISSÃO quando escuto a tua angustia e me sinto insignificante e impotente ante as forças negativas que alienam ao povo.


     


    ME FALA DE SER MISSÃO aprender  a estar contigo e a postar pela tua autonomia e teus direitos pela pura solidariedade, correndo a mesma sorte as vezes perdida; mais libertadora que continua sonhando na “Terra sem males”.


     


    ME FALA DE SER MISSÃO quando não sou funcionaria pública e estou disponível com coração gratuito para iniciar um caminho de doação e de luta pela tua mesma causa.


     


    ME FALA DE SER MISSÃO quando não me calo ante as injustiças que estão presentes e a minha voz se eleva e denuncia em favor da vida que está sendo agredida.


     


    ME FALA DE SER MISSÃO quando trago presente tua vida e a do teu povo para minha pobre oração e quando posso partilhar e explicar-te  quem é o motor que me mantém nesta luta e como se chama aquele que me enviou.


     


    ME FALA DE SER MISSÃO aprender a ser Evangelho sem palavras, e com todo meu ser, minha presença, meus gestos….Contribuir para fazer acontecer o Reino de Deus que já está presente.


     


    ME FALA DE SER MISSÃO TUDO O QUE SAI DOS MEUS PRÓPRIOS LIMITES E PELA FORÇA DA CARIDADE CONSEGUE ATRAVESSAR A BARREIRA DO OUTRO/A.


     


    Silvia Sanz sm


     


     

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  • 26/04/2006

    Nova seção no sítio: textos sobre a vida missionária


    A VOZ DO SILÊNCIO


    (Mulheres indígenas)


     


     


    SILÊNCIO


    da cultura indígena que contempla no trabalho; que fala só


    aquilo que precisa, porque as palavras demais o vento as leva.


     


    SILÊNCIO


    que fala mais forte da vida gastada e entregada no cotidiano.


     


    SILÊNCIO


    que vem do trabalho sem sossego e da interiorização e cuidado


    dos mínimos detalhes.


     


    SILÊNCIO


    de respeito ante o sagrado que tudo o envolve e invade todos


    momentos do dia a dia.


     


    SILÊNCIO


    que revela a resistência de tantos anos e grita para manter a


    identidade.


     


    SILÊNCIO


    que interioriza a dor dos antepassados mortos e do seu


    presente condenado à morte pelo sistema dominante.


     


    SILÊNCIO


    que sabe ouvir a verdade do outro; a que as palavras não


    revelam e só a presença, olhar, ou qualquer gesto permite as


    duas humanidades se encontrar.


     


    SILÊNCIO


    que revela a dor da exclusão e da não valorização da pessoa


    que fere a todo o povo só por ser diferente.


     


    SILÊNCIO


    que projeta o silêncio das autoridades, a omissão dos


    poderosos e a sigilosa estratégia dos corruptos que tomam


    conta das riquezas desta cultura indígena que não é escutada


    tem seus direitos negados e silenciados.


     


    SILÊNCIO


    que vem a mim como um brisa de respeito; de amor puro que


    não reprova e me concede um espaço para permanecer e


    experimentar o “prazer” da solidariedade e do segredo de


    sentir-se irmãos/as numa mesma terra.


     


    SILÊNCIO


    que me fala de ti; que te fala de mim, e que cria um espaço


    onde as duas humanidades: a tua e a minha se encontram


    para aprender a fazer isso para o que foram criadas:


    PARA AMAR-SE.


     


    Silvia Sanz sm

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  • 26/04/2006

    O outro lado da história

    ‘Meu povo queria apenas a paz,


    um pedaço de chão para sobreviver.


    Hoje estão assustados, humilhados pela sociedade


    por esta não conhecer a verdade”(Antonio J. Rodrigues – Guarani , 18 anos)


     


    A caminho de Dourados iam se projetando, como um reprise permanente, o cenário de violência que envolve os Kaiowá Guarani da região do cone sul do estado  de Mato Grosso do Sul: assassinatos, suicídios, expulsões, homicídios, mortes por fome e desnutrição, alcoolismo, droga, mortes e ferimentos por atropelamento, estupros. No jornal, vemos as notícias do suicídio de um índio de 26 anos e outro da mesma idade estirado no asfalto, morto por atropelamento.  Ao mesmo tempo, podia-se ler uma declaração do governador do Estado qualificando de “ridícula” a ação dos índios de Nhanderu Marangatu, que no Dia do Índio fecharam a estrada BR 384, à beira da qual estão vivendo. Enfim, uma conjuntura de extrema violência conspirando contra a vida dos índios.


     


    Estado de comoção antiindígena


    Uma rápida visita a acampamentos Kaiowá Guarani da região e algumas aldeias, inclusive com uma das irmãs de Carlitos, uma preocupação comum: temor pela vida do cacique Carlitos preso, juntamente com outros oito membros da aldeia Passo Piraju, no presídio de segurança máxima Harry Amorim Costa. A incomunicabilidade em que estão os índios aumenta ainda mais os temores. Uma das lideranças que esteve na comunidade para se inteirar dos fatos, ocasião em que chegou um grupo da polícia civil, tendo seu coordenador afirmado diante dos índios que caso Carlitos passasse por aí ele iria “peneirá-lo”.


    A versão veiculada pelas autoridades policiais e políticas, falando de emboscada e barbarismo dos índios, fez com que as manifestações de repulsa e ódio aos índios aumentassem aceleradamente, transformando-se num estado de comoção antiindígena.


     


    Enquanto isso


    A cidade sedia o 2o. Simpósio Internacional de Religiosidade, Religiões e Cultura. Não dá para refletir sobre o tema – lembrando a importante experiência dos jesuítas junto aos Guarani, no século 18, presentes inclusive na região com as reduções de Itatim –  sem ser envolvido pelo clima de hostilidade , temores  e ameaças que pesam sobre os Guarani presos na cidade (fala-se que existe mais de 50 Guarani presos na região), acampados na beira da estrada, ou confinados em espaços mínimos, como é o caso da Terra Indígena de Dourados, a maior concentração e favelização indígena do país.


     


    Uma chiadeira geral em função de um novo foco de aftosa identificado no município de Japorã ameaça o bom desempenho do boi na economia regional. Não faltam os choramingos em função da quebra da safra da soja agravada com a queda do preço da mesma no mercado internacional. Fala-se em mais de dois milhões de toneladas estocadas aguardando o melhora do preço. Nas andanças pela vastidão da região o que se vê mesmo é o verde do milho, de todos os tamanhos, desde o recém nascido ao que já está pendoando, o já espigado ou já quase no ponto de colheita. O bom preço do milho estimulou o plantio massivo desse alimento indígena hoje sob o controle das multinacionais (sementes) e do agronegócio (produtores).


     


    Passos e compassos da justiça


    Outra questão que chama atenção é a agilidade com tem sido concluído o inquérito e pronunciado a denúncia dos índios, no caso das mortes de policiais no Passo Piraju. Hoje mesmo se realiza a audiência de interrogatório de quatro dos índios presos. Na fase do inquérito, foi negado aos índios o direito de serem ouvidos na sua própria língua, conforme lhes garante a Constituição. Isso será uma vez mais peticionado. Por que no caso do assassinato do indígena Dorvalino e de tantas outras lideranças indígenas assassinadas não se viu a mesma agilidade da justiça? É a pergunta que se fazem as comunidades Guarani. E também não entendem porque todos os matadores de índios estão soltos, enquanto seus parentes estão presos e incomunicáveis.


     


    O outro lado da história


    É importante ressaltar que da parte dos Kaiowá Guarani, entendendo que a versão mais difundida sobre os fatos está marcada por essa história de hostilidade e ódio ao seu povo, foram à comunidade para ouvi-la. Fizeram relatos demonstrando uma realidade dos acontecimentos bem diversos dos veiculados pela imprensa. Mostraram o contexto de medo e ameaças, além de violências que a comunidade já sofreu nesse processo de retorno ao seu tekoha, sua terra tradicional.  E só esse estado de apreensão, medo e ameaças tornam-se compreensíveis a violência e as mortes ocorridas.


    Vejamos alguns dos depoimentos registrados e escritos por estudantes indígenas que estiveram na comunidade de Porto Cambira, dia 13 de abril


     


    “A imprensa mostrou, na última semana, que os acusados se entregaram aos policiais confessando o crime, mas, não contaram e nem refletiram a maneira que os policiais podem ter usado para alcançar esta atitude com os 9 indígenas que ainda estão presos…


    Isso para nós é inaceitável, mostrar apenas uma versão e não ver o outro lado da história, não respeitarem um povo que sofre. Que sofre com o preconceito, com a falta de incentivo, mas que por outro lado luta. Luta pela terra, pelos seus direitos, pela sobrevivência”(Alcir R.)


     


    “O meu povo estava vivendo em paz, plantando o seu alimento, e agora depois do acontecido precisam buscar ajuda para esclarecer toda situação, pois certas pessoas que tem o poder nas mãos, pessoas que na verdade teriam que defender os índios, estão do lado do poder  e não fazem o que teria que ser feito”(Antonio João Rodrigues – Guarani, 18 anos)


     


    “Agora como fica essa situação? Vai ficar como se os índios fossem os únicos culpados? Tudo bem que eles erraram, mas e os policiais que chegaram atirando, ofendendo os índios, vão sair como heróis?”(Micheli Alves Machado)


     


    No dia 1 de abril, logo após o conflito que lamentavelmente resultou na morte de dois policiais o cacique Leonardo deu um depoimento no qual diz “Esses 3 policiais vieram sem viatura, vindo sem uniforme, com short, quando entrou aqui já xingou a nós, atacou em armas aquele homem, policiais atiraram próprio seu companheiro, fui atingi na perna, falaram que foram os índios, não é não….E também nós índios não vamos sair daqui, nós vamos morre aqui nessa terra, se nós morre, tem nossa geração como filho para luta de novo essa terra”(Leonardo , 1/04/06)


     


    Egon Heck – Cimi MS


    Dourados, 26 de abril de 2006


     

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  • 26/04/2006

    NOTA À IMPRENSA SOBRE A DENÚNCIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO RIO GRANDE DO SUL

    A respeito da denúncia apresentada pelo Ministério Público nesta segunda-feira, em razão da ação das mulheres da Via Campesina no dia 8 de março, contra a empresa Aracruz, a Via Campesina do Rio Grande do Sul tem a dizer o seguinte:

    1. A denúncia apresentada pelo Ministério Público é baseada em suposições do promotor e não tem base jurídica. São denúncias infundadas que visam a responder à pressão dos meios de comunicação, patrocinados pela Aracruz, em especial o Grupo RBS, que têm agido sistematicamente de modo a criminalizar e a perseguir os movimentos sociais do Rio Grande do Sul. Em juízo, com tranqüilidade, a Via Campesina irá provar o descabimento das denúncias e espera que o Poder Judiciário se paute mais pelo interesse público do que pela pressão das grandes empresas e da grande imprensa.


    2. A Via Campesina do Rio Grande do Sul reafirma sua disposição em lutar contra as monoculturas de eucalipto, da mesma forma que sempre lutou contra outras monoculturas predatórias ao meio-ambiente, à vida dos trabalhadores do campo e à saúde da população. Não somos contra a ciência, mas temos clareza que toda ciência tem por trás um projeto político. Por isso, somos contra os desertos verdes, as enormes plantações de eucalipto, acácia e pinus para celulose, que cobrem milhares de hectares no Brasil e na América Latina. Onde o deserto verde avança a biodiversidade é destruída, os solos deterioram, os rios secam, sem contar a enorme poluição gerada pelas fábricas de celulose que contaminam o ar, as águas e ameaçam a saúde humana. A ação das mulheres da Via Campesina, realizada no Dia Internacional da Mulher, será um marco para as futuras gerações na defesa da vida na Terra.


    3. Esperamos que o Ministério Público do Rio Grande do Sul, assim como nos Estados de Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia, demonstrem a mesma agilidade em apurar os verdadeiros crimes cometidos pela empresa Aracruz, por agressão aos povos indígenas, quilombolas e camponeses, por desrespeito à legislação ambiental e pelos efeitos nocivos sobre a biodiversidade e os recursos hídricos das regiões onde se instala. Esta mesma empresa será julgada no Tribunal Internacional dos Povos às Transnacionais Européias e ao Sistema de Poder das Corporações na América Latina e Caribe, evento da sociedade civil que será realizado em Viena (Áustria), de 10 a 13 de maio. Lembramos que o Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul acaba de pedir à Justiça que impeça o plantio de eucalipto no Parque Nacional da Lagoa do Peixe, por conta dos comprovados efeitos nocivos provocados por esta monocultura.


    Aproveitamos para divulgar o manifesto em apoio às mulheres da Via Campesina que está rodando o mundo inteiro e vem recebendo diversas assinaturas de personalidades, intelectuais, artistas e representantes de movimentos sociais.


    VIA CAMPESINA DO RIO GRANDE DO SUL
    Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
    Movimento dos Pequenos Agricultores
    Movimento dos Atingidos por Barragens
    Movimento de Mulheres Camponesas
    Comissão Pastoral da Terra
    Pastoral da Juventude Rural
    Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil
    GLOBALIZEMOS A LUTA! GLOBALIZEMOS A ESPERANÇA!


    Manifesto de Homens e Mulheres em Solidariedade às Mulheres da Via Campesina
    AS  MUDAS ROMPERAM O SILÊNCIO


    I
    Havia um silêncio sepulcral


    sobre dezoito mil hectares roubados
    dos povos tupi-guarani


    sobre dez mil famílias quilombolas
    expulsas de seus territórios


    sobre milhões de litros de herbicidas
    derramados nas plantações


    Havia um silêncio promíscuo


    sobre o cloro utilizado
    no branqueamento do papel
    a produzir toxinas cancerígenas
    que agridem plantas, bichos e gentes


    sobre o desaparecimento
    de mais de quatrocentas espécies de aves
    e quarenta de mamíferos
    do norte do Espírito Santo


    Havia um silêncio intransponível


    sobre a natureza de uma planta
    que consome trinta litros de água-dia
    e não dá flores nem sementes


    sobre uma plantação que produzia bilhões
    e mais bilhões de dólares
    para apenas meia dúzia de senhores


    Havia um silêncio espesso


    sobre milhares de hectares acumulados
    no Espírito Santo, Minas, Bahia
    e no Rio Grande do Sul


    Havia um silêncio cúmplice


    sobre a destruição da Mata Atlântica e dos pampas
    pelo cultivo homogêneo de uma só árvore:
    o eucalipto.


    Havia um silêncio comprado


    sobre a volúpia do lucro


    Sim, havia um silêncio global


    sobre os capitais suecos
    sobre as empresas norueguesas
    sobre a grande banca nacional


    Por fim
    havia um imenso deserto verde
    em concerto com o silêncio.



    II


    De repente
    milhares de mulheres se juntaram
    e destruíram mudas
    a opressão e a mentira


    As mudas gritaram
    de repente


    e não mais que de repente


    o riso da burguesia fez-se espanto
    tornou-se esgar, desconcerto.



    III


    A ordem levantou-se incrédula
    clamando progresso e ciência
    imprecando em termos chulos
    obscenidades e calão


    Jornais, rádios, revistas,
    a internet e a TV,
    as empresas anunciantes
    executivos bem-falantes
    assessores rastejantes
    técnicos bem-pensantes
    os governos vacilantes
    a direita vociferante
    e todos os extremistas de centro
    fizeram coro, eco,
    comício e declarações
    defendendo o capital:


    “Elas não podem romper o silêncio!”


    E clamaram por degola.


    IV


    De repente
    não mais que de repente
    milhares de mulheres
    destruíram o silêncio.


    V


    Naquele dia
    nas terras ditas da Aracruz
    as mulheres da Via Campesina
    foram o nosso gesto
    foram a nossa fala.

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  • 25/04/2006

    Trabalhadores rurais e indígenas interditam a BR 101

    Trabalhadores rurais e indígenas interditam a BR 101


     


    Cerca de 700 trabalhadores rurais sem terra ligados a Rede de Assentados e Acampados do Sul da Bahia – CETA – Sul e ao Movimento dos Pequenos Agricultores  (MPA), além de lideranças dos povos indígenas Pataxó Hã-Hã-Hãe e Tupinambá interditaram a BR 101 por volta das 10 horas da  manhã de hoje, 24. Eles estão acampados na margem da estrada desde ontem, quando realizaram a primeira interdição da estrada. O bloqueio ocorre no entroncamento para a entrada do município de Arataca. 


     


    A manifestação faz parte de uma serie de mobilizações que ocorrem  simultaneamente em todo o estado da Bahia. Também foram interditadas ontem, dia 24, a BR 410, que liga Paulo Afonso a Tucano; a BR 242, na ponte que corta o Rio São Francisco e que liga Ibotirama a Barreira; a BR 242, perto de Itaberaba; BR 407, entre Bomfim e Capim Grosso; e a BR 116 em Vitória da Conquista, além da ocupação do CONDER, em Salavador.


     


    Estas manifestações visam chamar a atenção dos governos Federal e Estadual para alguns pontos de reivindicações dos trabalhadores e dos indígenas. Ente eles pode-se destacar:


     


    A não transposição do Rio São Francisco;


    – Não aos Transgênicos;


    – Reforma Agrária de verdade;


    – Regularização das terras indígenas


    – Não ao avanço da monocultura em especial ao do eucalipto e da soja;


    – Não a criminalização da luta e das lideranças por parte dos governos e da imprensa.


     


    Na região sul da Bahia, as pautas mais urgentes são


    – A imediata vistoria, desapropriação de áreas para fins de reforma agrária;


    – Desburocratização da polícia de assistência técnica;


    – A imediata paralização de plantio de eucaliptos na região sul da Bahia


    – A imediata regularização do território Pataxó Hã-Hã-Hãe, com a anulação dos Títulos     concedidos ilegalmente aos fazendeiros pelo governo do Estado da Bahia, agilizando o julgamento da Ação Ordinária de Títulos Imobiliários que se encontra no Supremo Tribunal Federal a mais de 23 anos, e a urgente retirada dos invasores do território;


    – A imediata publicação do relatório de identificação do território Tupinambá bem como o processo de demarcação do referido território;


    – Soluções urgente por parte da Funasa, quanto a saúde indígena, que se encontra num verdadeiro caos. Atendimento a pauta de reivindicação já apresentada pelo Conselho de saúde indígena Local;


     Providencias urgentes que venham a coibir o processo de criminalização da luta dos povos indígenas do sul da Bahia na conquista e garantia de seus territórios bem como a criminalização de suas lideranças;


     


    A pauta de reividicão apresentada aqui na região, se soma a pauta que está sendo negociada em Salvador pelos representanres dos Movimentos que ocuparam o Conder.


     


     


    Comissão Pastoral da Terra


     


    Itabuna Bahia


     


     


     


    Segue abaixo release do movimento com contatos


     


     


     


     


    De: Articulação de Movimentos Sociais Rurais e Urbanos da Bahia


     


     


     


    ATT: Redação


     


     


    Assunto: ONZE MOVIMENTOS SOCIAIS OCUPAM A CONDER E APRESENTAM PAUTA


     


    Onze movimentos sociais de todo o estado da Bahia, reunidos na Articulação de Movimentos Sociais Rurais e Urbanos da Bahia, participaram hoje cedo (24 de abril) da ocupação da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia – CONDER para cobrar reivindicações já apresentadas aos governos federal e estadual em manifestação semelhante ocorrida em abril do ano passado e apresentar nova pauta aos órgãos competentes. A ocupação da CONDER se dá em conjunto com atos em outros seis municípios – Ibotirama, Vitória da Conquista, Capim Grosso, Itaberaba, Camacã e Ribeira do Pombal – promovidas também pela Articulação Rurais e Urbanos.


     


    Em mobilização no ano passado, em abril, a Articulação de Movimentos Sociais Rurais e Urbanos da Bahia apresentou extensa pauta de reivindicações que vão desde questões gerais como o combate à política econômica do governo federal, à ALCA e à transposição do rio São Francisco até questões mais locais, como regularização fundiária e desapropriação de mais de setenta áreas para reforma agrária e três grandes terrenos em Salvador para a construção emergencial de mais de mil casas; criação de mais de 500 frentes emergenciais de trabalho para os trabalhadores desempregados; construção de casas pelo PSH; desburocratização do acesso ao PRONAF; realização de 141 vistorias pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA; desenvolver melhorias nas vias de acesso às comunidades pesqueiras para melhor escoamento dos pescados; dentre outras várias, já recebidas e protocoladas pelos mais de vinte e um órgãos do Estado e da União contatados. Destas quase 350 reivindicações, que atingem todas as áreas da Bahia, menos de trinta foram atendidas.


     


    A CONDER foi escolhida como alvo pela Articulação de Movimentos Sociais Rurais e Urbanos como forma de denunciar o autoritarismo com que esta empresa pública e o resto do governo do Estado criminalizam os movimentos sociais, agem com truculência contra a população a que deveriam servir e fazem promessas que não cumprem de propósito, para ganhar sua luta contra o povo pelo cansaço e depois fazer propaganda. Os movimentos participantes da Articulação de Movimentos Sociais Rurais e Urbanos são: Movimento Estadual de Trabalhadores Acampados e Assentados – CETA, Fundo de Pasto, Movimento de Pequenos Agricultores – MPA, Movimento de Sem Teto de Salvador – MSTS, Pastoral Rural de Paulo Afonso/Central de Articulação dos Acampados e Assentados do Semi-Árido – CARAS, Pastoral Rural de Alagoinhas, Movimento de Trabalhadores Desempregados – MTD, Movimento de Pescadores e Pescadoras – MPP, Quilombolas-Lapa, Pastoral da Juventude Rural – PJR.


     


    Até o presente momento, informes do local indicam que a quantidade de policiais postados em frente à sede da CONDER aumenta, e teme-se que a polícia tente avançar sobre os movimentos e desocupar a CONDER sem mandado de reintegração de posse.


     


     


    CONTATOS NO LOCAL:


     


    Alessandra – (71) 9967-3101


     


    André – (75) 9136-2797


     


    Iuri – (71) 8804-2921


     


     


     


    ASSESSORIA DE IMPRENSA:


     


    3329-7393


     


     

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  • 25/04/2006

    O COPIMG denuncia a situação crítica das comunidades indígenas de Minas Gerais

    O Conselho dos Povos Indígenas de Minas Gerais – COPIMG denuncia a situação crítica das comunidades indígenas de Minas Gerais e exige uma ação dos órgãos responsáveis


     


    20 de abril de 2006


     


    Ao Ministério Público Federal


    À Frente Parlamentar Mineira de Apoio aos Povos Indígenas


    À FUNAI e Ministério da Justiça


    Aos Deputados da Assembléia Legislativa de Minas Gerais


     


    Prezados Senhores,


     


    Nós os Povos Indígenas no Estado de Minas Gerais, Krenak, Pataxó, Xakriabá, Aranã, Caxixó, Pankararu, Xukuru-Kariri, Maxakali e Mucurim, que compõem o Conselho dos Povos Indígenas no Estado de Minas Gerais, reunidos em encontro no auditório da livraria Paulinas, no dia 18 de abril do corrente ano, vimos denunciar a real situação a que as nossas comunidades estão vivendo neste momento, num clima de incertezas sobre a política indigenista do Governo Federal e as diversas mudanças na assistência às nossas aldeias.


     


    A nossa realidade é diversa. São muitos povos que necessitam urgentemente que sua terra seja demarcada, pois alguns destes povos já teve os seus estudos antropológicos concluídos, mas que a FUNAI não tomou a devida providência de identificar e publicar os territórios tradicionais.


     


    No caso do atendimento à saúde indígena, até o momento a FUNASA não tem atuado conforme as demandas das comunidades indígenas, apesar do órgão ter realizado a Conferência de Saúde Indígena, o quadro nada mudou e ao contrário, a ameaça de municipalização do atendimento às comunidades deixa a situação ainda mais complicada, uma vez que, na maioria das prefeituras estão prefeitos que declaradamente são inimigos dos povos indígenas e estão a serviço do latifúndio.


     


    Neste sentido, solicitamos das autoridades responsáveis, que adote as providências, estudando caso a caso, se comprometendo em nos ajudar na busca de solução das demandas, para que as nossas comunidades tenham segurança e uma vida digna. Para o bem e o futuro dos nossos povos.


     


    Belo Horizonte, 19 de abril de 2006.


     


    Conselho dos Povos Indígenas de Minas Gerais


     

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  • 24/04/2006

    Manifesto das Américas em Defesa da Natureza e da Diversidade Biológica e Cultural

    Vivemos num sistema econômico dominante que há séculos se propôs explorar de forma ilimitada todos os ecossistemas e seus recursos naturais. Esta estratégia trouxe crescimento econômico. O que se chamou de “desenvolvimento” para algumas nações, privilegiou o consumo e o bem estar social de uma parcela muito pequena da humanidade, e excluiu, infelizmente, das condições mínimas de sobrevivência, a grande maioria da humanidade.

    O custo desse sistema de exploração da natureza e das pessoas, junto ao consumismo desenfreado, foi pago pelo sacrifício de milhões de trabalhadores pobres, camponeses, indígenas, pastores, pescadores, e outras pessoas pobres da sociedade, que entregam suas vidas a cada dia. Também foi pago pela agressão permanente da natureza que continua sendo sistematicamente devastada. A integridade e a diversidade de formas de vida, que são o sustento da biodiversidade estão ameaçadas.


    Se a natureza de nosso planeta está ameaçada, com ela está ameaçada a própria vida humana. Até a ‘Avaliação Ecosistêmica do Milênio’ feita pela ONU e divulgada em 2005, reconhece que “as atividades humanas estão mudando fundamentalmente e, em muitos casos, de forma irreversível, a diversidade da vida no planeta Terra. Estas taxas vão continuar ou se acelerar no futuro”. Nesse importante reconhecimento da crise planetária, é também fundamental reconhecer, que nem todas as atividades humanas são prejudiciais, mas, sobretudo, aquelas guiadas pela volúpia de lucro das corporações transnacionais.


    Por causa da dramaticidade desta situação, sentimos a necessidade de afirmar alternativas que assegurem um futuro de esperança para a vida, para a humanidade e para a Terra. Precisamos passar de uma Sociedade de Produção Industrial, consumista e individualista, que sacrifica os ecossistemas e penaliza as pessoas, destruindo a sócio-biodiversidade, para uma Sociedade de Sustentação de Toda a Vida, que se oriente por um modo socialmente justo e ecológicamente sustentável de viver, que cuide da comunidade de vida e proteja as bases físico-químicas e ecológicas que sustentam todos os processos vitais, incluídos os humanos.


    Como habitantes do continente americano temos a consciência de nossa responsabilidade universal. O futuro da Terra passa também por nós. Os países amazônicos e andinos, por exemplo, como Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Venezuela e Brasil são territórios megadiversos. Não apenas pela presença de riquíssimos ecossistemas, mas também pela presença de muitos povos indígenas, camponeses, quilombolas e outras comunidades locais, que desde séculos e milênios souberam viver em co-habitação entre a biodiversidade e a sócio-diversidade.


    A floresta amazônica presente em nossos paises representa um terço das florestas tropicais do mundo e abriga mais de 50% da biodiversidade. Nela existem pelo menos 45.000 espécies de plantas, 1.800 espécies de borboletas, 150 espécies de morcegos, 1.300 espécies de peixes de água doce, 163 espécies de anfíbios, 305 espécies de serpentes, 311 espécies de mamíferos e 1.000 espécies de aves.
    Por causa desta riqueza, a América Latina está sendo objeto da cobiça dos “neoliberais-globalcolonizadores” através da ação insana de dezenas de empresas transnacionais, principalmente dos países do norte global. Elas praticam vastamente a biopirataria. Outrora era a corrida ao ouro e à prata, hoje é a corrida aos recursos genéticos, farmacológicos e aos saberes tradicionais e locais, todos estratégicos para o futuro dos negócios do mercado mundial. E ainda querem nos impor leis de patentes e de proteção a seus lucros fantásticos.


    Queremos fazer frente, de forma decisiva, a este processo de espoliação. Propomos políticas consistentes que visem:


    1.- Conservar a diversidade biológica e cultural de nossos ecossistemas;
    Trata-se aqui de cuidar do conjunto dos organismos vivos em seus habitats e também da interdependência entre eles dentro do equilíbrio dinâmico, próprio de cada região ecológica e das características singulares das espécies, assim como da interação social e ecologicamente sustentável dos povos que vivem na região.


    2.- Propomos políticas articuladas que visem garantir a integridade e a beleza dos ecossistemas e dos povos que cuidam e dependem dela;
    Isso implica na manutenção das características que asseguram seu funcionamento e mantém a identidade do ser vivo e do conjunto vivo, seja em seu aspecto territorial, biológico, social, cultural, paisagístico, histórico e monumental. A preservação da diversidade biológica e cultural, da integridade e da beleza dos sistemas ecológicos oferece sustentabilidade às múltiplas funções ambientais e aos benefícios que o ser humano obtém para si e para as futuras gerações. Entre outros: água potável, alimentos, medicinas, madeiras, fibras, regulação do clima, prevenção de inundações e doenças. Ao mesmo tempo em que constituem as bases do sustento da recreação, da estética e da espiritualidade, assim como o suporte da conformação do solo, a fotossíntese e o ciclo de nutrientes, entre outras funções vitais para o sustento de toda a humanidade.


    3.- Nos opomos resolutamente à introdução de espécies exóticas, inadequadas aos nossos ecossistemas;
    Como acontece em muitos biomas com a introdução de plantações homogêneas, industriais, do eucalipto, pinus, etc, que destroem os ecossistemas naturais e provocam fortes impactos sociais aos povos que moram nessas áreas, levam o lucro, os dólares, a celulose, o carvão, água sugada, e deixam a degradação e a pobreza.


    4.- Nos opomos resolutamente a introdução de organismos transgênicos no ambiente;
    Não é aceitável a introdução de OGMs seja na agricultura, nas plantações, na pecuária ou qualquer outro cultivo no meio ambiente, pois além de não serem necessários, não servem para nada, a não ser para o lucro de umas poucas empresas transnacionais. Trazem riscos potenciais à saúde das pessoas e geram modificações permanentes e irreversíveis para a natureza e aos ecossistemas. Opomos-nos enfaticamente a introdução de árvores transgênicas, que significam um perigo ainda maior devido, entre outras coisas, ao fato de que o pólen tem a possibilidade de disseminação ao longo de milhares de quilômetros, contaminando inevitavelmente outras florestas, incluindo as florestas nativas, com multiplicação de impactos sobre a flora, os insetos e outros componentes da fauna, afetando também o sustento dos povos indígenas, pescadores, camponeses, quilombolas e outras comunidades locais.


    5.- Combatemos decididamente as sementes Terminator porque elas atentam contra o sentido da vida;
    Somos contra a reprodução desse tipo de semente estéril, pois se trata de uma semente suicida que visa beneficiar apenas as grandes empresas transnacionais controladoras das sementes e manter os agricultores sob sua dependência.


    6.- Nos opomos a tentativa do governo imperial dos Estados Unidos e de suas empresas transnacionais;
    Ambos desejam impor o tratado da ALCA (Acordo de Livre comércio das Américas); tratados bilaterais, chamados de TLC (tratados de livres comércio); tratados de garantia de investimentos estrangeiros, ou através de acordos de cúpulas costurados sem nenhuma participação popular na Organização Mundial do Comércio (OMC). Esses acordos colocam ainda em maior risco a nossa natureza, a nossa agricultura, os nossos serviços e as condições de vida de nossa população, pois priorizam apenas os interesses e a garantia do lucro.


    7.- Manifestamos nosso apoio e a necessidade de reconhecer os povos e comunidades que durante séculos e milênios têm desenvolvido a biodiversidade agrícola;
    Reconhecemos as comunidades que através da adaptação e criação de sementes constituem as bases de toda a agricultura e alimentação da humanidade. Para manter essas bases de sustentação e essa enorme riqueza de biodiversidade agrícola e alimentar, é preciso reconhecer e afirmar os direitos dos camponeses, indígenas, pastores, pescadores, quilombolas, à terra, ao território e aos recursos naturais, para que possam prosseguir essa tarefa crucial de conservação das sementes crioulas e nativas, que só podem ser multiplicadas a nível local e diverso.


    Combatemos àquelas empresas que buscam o controle sobre as sementes, contra toda a tradição dos povos que cuidaram e cuidam zelosamente das sementes e sempre as compreenderam como fonte de vida que jamais deve se transformar em mercadoria.


    Por fim, externamos nosso desejo de que estes propósitos redundem em benefício para nossos povos, garantam a soberania alimentar, ou seja, o direito que todos e cada povo têm de produzir seu próprio alimento, em condições saudáveis e socialmente justas e em equilíbrio com a natureza. Defendemos aqueles que trabalham no campo, nossos agricultores e camponeses. Defendemos seu direito de viver no modo camponês e assim garantir o sustento de nossas populações. Esse modo de produção contribui decisivamente para dar sustentabilidade ao nosso Planeta, com desenvolvimento integral, imprescindível para garantir o futuro da humanidade.


    De Curitiba, Capital do Estado do Paraná, Construindo uma América Livre de Transgênicos e de Agressões ao Meio Ambiente


    1. Hugo Chavez, Presidente da República Bolivariana da Venezuela
    2. Roberto Requião, Governador do Estado do Paraná – Brasil
    3. Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz – Argentina
    4. Eduardo Galeano, escritor – Uruguai
    5. Peter Rosset, Phd em soberania alimentar – Estados Unidos
    6. Pat Mooney, Grupo ETC, especialista no estudo das conseqüências dos OGMs e novas tecnologias – Canadá
    7. Silvia Ribeiro, pesquisadora do grupo ETC – México
    8. Noam Chomsky, lingüista, MIT – Estados Unidos
    9. Atílio Boron, cientista social, Clacso – Argentina
    10. Violeta Menjivar, prefeita de San salvador – El Salvador
    11. Chamille Chalmers, Campanha Jubileu Sur – Haiti
    12. Ramon Grosfoguel – Porto Rico
    13. Doris Gutierrez, deputada no Congresso Nacional – Honduras.
    14. Mônica Baltodano, ex-comandante Sandinista – Nicarágua
    15. Ernesto Cardenal, poeta, sacerdote e ex-ministro da educação – Nicarágua
    16. Gioconda Belli, poetisa – Nicarágua
    17. Raul Suarez, pastor Batista, e deputado na Assembléia do Poder Popular – Cuba
    18. Miguel Altieri, PDH em agroecologia, Univ. Califórnia – Chile
    19. Fernando Lugo, bispo católico – Paraguai
    20. Blanca Chancoso, Confederacion de Naciones Indígenas-CONAIE – Equador
    21. Hebe de Bonafini, Madres de Plaza de Mayo – Argentina
    22. Aníbal Quijano, cientista social – Peru
    23. Leonardo Boff, escritor e teólogo – Brasil
    24. Beth Carvalho – compositora e cantora – Brasil
    25. Dom Pedro Casaldaliga, bispo e poeta – Brasil
    26. Dom Ladislau Biernaski, bispo – Brasil
    27. Monja Coen, Monja primaz da comunidade Zen Budista no Brasil
    28. João Pedro Stedile, MST e da Via Campesina – Brasil
    29. Temístocles Marcelos Netto, Secret. Nac. Meio Ambiente da CUT – Brasil
    30. Letícia Sabatela, atriz, Movimento Direitos Humanos de artistas brasileiros – Brasil
    31. Nalu Farias – Marcha Mundial das Mulheres – Brasil
    32. Pedro Ivo Batista – Rede Brasileira de Eco-Socialismo – Brasil


    Para assinar também, entre em http://www.petitiononline.com/campes50/petition.html e siga as instruções

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  • 24/04/2006

    V Encontro Continental de Teologia Índia – As flores e os espinhos no jardim dos pequenos

    Al carajo el sistema


    Dominante y opresor


    Veceremos los pequeños


    Y habrá um mundo mejor


     


    (…)


     


    Habrá vida para el mundo


    Con la fuerza del pequeño


    Con la fuerza del pequeño


    Habrá vida para el mundo


     


    (El Pequeño Himno Zapatista)


     


    Para compreender melhor a vida dos pequenos, os participantes do V Encontro Continental de Teologia Índia utilizam a figura de um jardim, onde a vida que se reproduz, e não é só feita de beleza e perfume, mas também de riscos e dificuldades.


     


    Por muitas vezes em conflito com a cultura capitalista, os povos indígenas encontram constantemente no caminho da realidade: flores e espinhos. “Bolívia, México e Equador, por todo o continente, os povos indígenas apresentam projetos alternativos ao capitalismo, por isso entram em choque com o modelo neoliberal. O que fazer para criar condições de enfrentamento? Como defender a vida diante dos desafios colocados pelo neoliberalismo?” São algumas das questões levantadas por José Tomas Gonzales, representante da Comissión Nacional de Pastoral Indígena do Panamá.


     


    Em busca de respostas, os participantes do Encontro se reuniram em grupos para trabalhar, durante dois dias, os  sete temas que dizem respeito ao cotidiano dos povos indígenas: identidade cultural dos povos indígenas; Amazônia e o futuro da humanidade; narcotráfico e seus impactos nos povos indígenas; terra, território e recursos naturais; migração, expulsão forçada e mobilidade humana; organização indígena e participação política; legislação dos estados e seu impacto nos povos indígenas.


     


    Depois dos trabalhos, a avaliação dos participantes identificou os aspectos positivos, ou seja, as pétalas, e aspectos negativos, ou seja, os espinhos.


     


    Para a liderança do povo indígena Maia, vindo de Chiapas, encontrar os irmãos de outras partes e saber de suas lutas é muito importante, pois “é só assim que sabemos que não estamos sós, que outros irmãos enfrentam os mesmos gigantes”.


     


    Em sua primeira etapa os diagnósticos regionais mostraram que, mais do que espinhos, as pragas do capitalismo afetam os povos do continente. “Em geral as flores são ações nascidas de mesma origem e que se manifestam com força, e de forma plural e diversa. Tudo isso nos leva a conclusão que, se queremos colher flores, não podemos buscá-las no jardim liberal, no jardim da morte, onde nasce a injustiça e a desigualdade, mas temos que cultivar as raízes das flores em nosso jardim secreto da utopia, dos pequenos, cuidando para que elas cresçam com adubo, acreditando que a força dos pequenos é o futuro”, sintetiza Saulo Feitosa, vice-presidente do Cimi.


     


    Manaus (AM), 24 de abril de 2006.


     


    Cristiano Navarro (Cimi)


     

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