17/04/2026

Intercâmbio de mulheres indígenas fortalece a voz coletiva na luta por dignidade

Encontro reuniu mulheres de diferentes territórios para impulsionar a organização, denunciar violências e afirmar a comunicação como instrumento de luta

Intercâmbio de mulheres indígenas do Mato Grosso, Bahia e Minas Gerais realizado entre os dias 7 e 8 de abril de 2026. Foto: Hellen Loures/Cimi

Por Hellen Loures da Assessoria de Comunicação do Cimi – Matéria publicada originalmente na edição 484 do Jornal Porantim

Foi com o chamado “Vamos, guerreiras: seguir com a nossa luta, em defesa do Território Sagrado!” que mulheres indígenas do Mato Grosso, da Bahia e de Minas Gerais se reuniram, entre os dias 7 e 8 de abril de 2026, no Centro de Formação Vicente Cañas, em Luziânia (GO), em um encontro de intercâmbio e fortalecimento, que reafirmou um espaço de organização, consciência e luta.

Neste território de partilha e construção coletiva, a comunicação foi assumida como instrumento de articulação. “As mulheres se apropriam da comunicação como ferramenta política, denunciando as violências estruturais que atravessam os territórios e evidenciando desigualdades historicamente silenciadas. É a força da voz coletiva que se levanta contra as opressões, fortalecendo resistências e reafirmando a defesa dos territórios, dos direitos, da justiça e da dignidade”, destacou a missionária Irmã Daiane Oliveira, do Cimi Regional Leste.

A programação reuniu momentos de mobilização, análise de conjuntura, formação em comunicação – com destaque para o debate sobre seu papel estratégico como instrumento de luta – e rodas de conversa sobre segurança digital, apontando caminhos de proteção diante das violências enfrentadas nos territórios.

Ao explicar a proposta do encontro, Marta Mamédio, do Cimi Regional Leste, ressaltou o sentido do intercâmbio como prática de fortalecimento coletivo. “Quando a gente troca, a gente também se fortalece”, afirmou. Segundo ela, os debates foram orientados por três eixos: direitos humanos – incluindo o direito ao território e os direitos das mulheres –, justiça climática e comunicação, entendida como “um grande guarda-chuva” que articula a defesa da vida, dos territórios e a segurança dos povos indígenas.

Intercâmbio de mulheres indígenas do Mato Grosso, Bahia e Minas Gerais realizado entre os dias 7 e 8 de abril de 2026. Foto: Hellen Loures/Cimi

A diversidade de realidades também foi apontada como elemento central do encontro. “Cada uma de nós vem de um território diferente, com realidades distintas. O Nordeste enfrenta uma situação, o Norte outra, o Centro-Oeste outra. Por isso, precisamos refletir sobre em que chão estamos pisando e o que tem acontecido em nossos territórios”, destacou Marta, ao enfatizar a importância da escuta e da partilha das experiências de cada mulher dentro de seus territórios.

Vozes que se levantam

Lucini, liderança Guarani e Kaiowá da retomada Laranjeira Nhanderu (MS), destacou o processo de conquistas diante do enfrentamento ao machismo dentro e fora dos territórios. “O lugar das mulheres é onde ela quiser. Antes, a gente não tinha voz. As mulheres ficavam dentro de casa e, quando a gente saiu, a gente conseguiu avançar e conseguiu enfrentar os homens. Passamos a ouvir a nossa resistência. Hoje, temos o direito de opinar. Somos mulheres. A mãe terra somos nós”, afirmou. Para ela, a resistência se constrói também na trajetória pessoal: “Quando meu pai estava vivo, eu dependia dele e não participava. Hoje penso: o que é ser mulher? Me levei à luta. Hoje eu estou resistindo”.

Essa compreensão se amplia na análise de Juvana Xakriabá, pesquisadora indígena, que situou a violência enfrentada pelas mulheres indígenas em uma dimensão histórica, estrutural e territorial. “Estamos pisando em chão ancestral, regado por sangue, dor e resistência. São mais de 526 anos de violência colonial contra os povos indígenas e contra as mulheres indígenas”, afirmou.

Intercâmbio de mulheres indígenas do Mato Grosso, Bahia e Minas Gerais realizado entre os dias 7 e 8 de abril de 2026. Foto: Hellen Loures/Cimi

Ela destacou que as políticas públicas e legislações existentes não dão conta das especificidades dos territórios indígenas por não considerarem as diferenças e as necessidades de cada povo, nem as questões de gênero dentro das comunidades. “Não respondem às nossas realidades. As políticas são pensadas para fora, não partem do nosso chão”, pontuou.

Nesse contexto, segundo Juvana, a ausência de políticas voltadas às mulheres indígenas aprofunda as violências de gênero, agravadas por estruturas patriarcais que também atravessam os territórios. “Muitas citaram o agronegócio, o avanço do capital, os pistoleiros, a violência também do próprio Estado. É a violência contra os povos indígenas que afeta todo o povo dentro dos nossos territórios, mas há violências que os homens não sofrem, que é a violência de gênero dentro das comunidades, que é a violência contra as mulheres indígenas. E a violência contra mulher não é cultura. Precisamos romper com o patriarcado dentro das nossas comunidades, que é uma herança colonial”.

A invisibilização dessas violências também foi apontada como um problema histórico pela pesquisadora. “As mulheres indígenas são silenciadas até nas pesquisas. Não existem dados reais sobre como sofremos essas violências”, afirmou Juvana, defendendo a produção de conhecimento a partir das próprias mulheres indígenas como estratégia de enfrentamento.

Ao aprofundar essa análise, ela citou estudos sobre a violência contra os povos indígenas durante a ditadura militar: “Quando fui estudar o Relatório Figueiredo, identifiquei que a violência contra os corpos femininos é invisibilizada. Todo esse contexto contra mulheres indígenas é naturalizado no Brasil, como se os povos indígenas, de maneira geral, fossem tratados como um só, sem distinção de gênero”.

Intercâmbio de mulheres indígenas do Mato Grosso, Bahia e Minas Gerais realizado entre os dias 7 e 8 de abril de 2026. Foto: Hellen Loures/Cimi

Autonomia e fortalecimento coletivo

Diante desse cenário de violências múltiplas e estruturais, as falas também apontaram caminhos de resistência baseados na organização coletiva, na autonomia e na construção de redes de apoio.

A cacica Rosivânia Kiriri, da aldeia Barreiras (BA), destacou o fortalecimento das mulheres por meio de iniciativas que promovem autonomia econômica. “A gente aplica oficinas de cerâmica, miçangas e sementes para que as mulheres não fiquem na dependência dos maridos. Já estamos vendo resultados. É uma quebra da relação de poder”, afirmou.

Para ela, esse fortalecimento também passa pela união entre os povos: “Hoje, eu venho trabalhando não só dentro da minha comunidade, como também nas aldeias que a gente consegue alcançar. Cada um de nós é um povo diferente, mas quando damos as mãos, a sua luta é a minha luta”.

Intercâmbio de mulheres indígenas do Mato Grosso, Bahia e Minas Gerais realizado entre os dias 7 e 8 de abril de 2026. Foto: Hellen Loures/Cimi

Essa mesma perspectiva foi reforçada por Luciana Ferreira, do Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoíba). “Não podemos nos acovardar com essas situações que a gente vê. A gente tem que ajudar uma à outra, porque é assim que a gente consegue superar as crises, porque o nosso silêncio é quem mata as nossas parentes. A gente precisa dar as mãos, porque se a gente não segurar a mão uma da outra, a gente não vai conseguir pisar firme nesse chão que a gente caminha todos os dias”, alertou.

Luciana destacou ainda a importância dos intercâmbios como espaços de escuta e troca. “Aqui, todas têm a oportunidade de falar, de compartilhar suas dores. Porque é diferente de falar para quem não vive a realidade do território”, afirmou.

A necessidade de ampliar a articulação também foi ressaltada por Êmilly Sá Teles, que enfatizou a importância de conectar lutas em diferentes escalas. “Que a gente possa olhar para o nosso território, nos articular com as pessoas que estão no nosso território, mas também nos organizar enquanto Estado, enquanto região, enquanto bacia, enquanto bioma, enquanto Brasil, enquanto América Latina e, se possível, em instâncias internacionais. Porque, às vezes, no nosso município, a gente não tem visibilidade, não tem força, mas, externo a isso, a gente consegue”, destacou, reforçando a importância de registrar e sistematizar as experiências como evidência das lutas.

Intercâmbio de mulheres indígenas do Mato Grosso, Bahia e Minas Gerais realizado entre os dias 7 e 8 de abril de 2026. Foto: Hellen Loures/Cimi

Território em disputa

As falas também evidenciaram a pressão crescente sobre os territórios, especialmente com o avanço do agronegócio e da mineração.

O geógrafo e professor Maciel Viena apontou o conflito entre modelos de desenvolvimento. “O Estado tem agido mais para atender demandas internacionais do que para garantir o bem viver dos povos. O avanço da mineração e do agronegócio tem expulsado comunidades e destruído territórios”, afirmou.

No oeste da Bahia, segundo ele, a expansão da produção de grãos tem transformado uma região estratégica para a recarga do rio São Francisco em um polo de exploração intensiva. “De caixa d’água do São Francisco, viramos celeiro do agronegócio”, destacou.

Intercâmbio de mulheres indígenas do Mato Grosso, Bahia e Minas Gerais realizado entre os dias 7 e 8 de abril de 2026. Foto: Hellen Loures/Cimi

Os impactos recaem de forma ainda mais intensa sobre as mulheres. “São elas que estão nas beiras dos rios, que garantem a sobrevivência das famílias, e são as mais afetadas quando essas águas desaparecem”, afirmou.

Essa realidade também se expressa na fala de Elizete Nunes Lopes, da aldeia Pyelito Kue (MS), que relatou a violência vivida em contexto de retomada. “As mulheres e crianças não podem sair. Já tivemos que nos esconder no mato. Eu mesma quase perdi meu bebê por causa de ataques de pistoleiros. Atiraram em mim, me agrediram, porque o homem de lá agride mesmo as mulheres. Algumas foram estupradas. Essa é a minha dor”, contou.

Entre a violência e a resistência, Elizete reafirma o direito de viver no território: “Nós queremos plantar, fazer artesanato, ter liberdade. Mas viver lá é muito difícil”.

Saúde, território e futuro

A dimensão da violência também aparece na saúde física e mental dos povos, como destacou a missionária Silvia Maria Valentim Pinheiro. “Estamos vivendo 24 horas com diferentes formas de violência: nos territórios, nas famílias, na natureza. Tudo isso impacta diretamente a vida dos povos”, afirmou.

Ela chamou atenção para o aumento de doenças e do suicídio entre jovens. “Muitos não veem perspectivas. É uma preocupação muito grande”, disse. A redução territorial e a contaminação ambiental foram apontadas como fatores agravantes: “O território do povo Boe Bororo foi drasticamente reduzido, e o avanço do agronegócio contamina rios e afeta a saúde das comunidades”.

Intercâmbio de mulheres indígenas do Mato Grosso, Bahia e Minas Gerais realizado entre os dias 7 e 8 de abril de 2026. Foto: Hellen Loures/Cimi

Diante desse cenário, a professora e liderança Guarani-Kaiowá Renata Castelão destacou a importância do cuidado coletivo e do fortalecimento das mulheres. “Nós podemos estar em qualquer espaço. A nossa luta também é trabalhar a autoestima das mulheres, para que saibam que não estão sozinhas. Mesmo sendo mulheres de vários lugares, de várias etnias, com cultura diferente, há um núcleo comum, que é o nosso território, a nossa demarcação de terra, vida e saúde para nós”, afirmou.

Ela compartilhou sua própria trajetória como exemplo de superação. “Eu tive depressão e o artesanato me ajudou a sair disso. Quando você vê algo que produziu, percebe que é capaz. Isso muda a forma de pensar”, disse.

Para Renata, o fortalecimento das mulheres está diretamente ligado ao futuro dos povos. “Precisamos ensinar as novas gerações. A liderança está em nós e depende de cada uma de nós”, afirmou.

Entre denúncias, partilhas e caminhos de resistência, as mulheres indígenas reafirmaram que não estão mais dispostas a silenciar diante das violências que atravessam seus corpos e territórios. Ao contrário, seguem se organizando, ocupando espaços e fortalecendo umas às outras – porque, como ecoou ao longo do encontro, é na força da coletividade que a luta ganha continuidade e sentido.

 

Share this:
Tags: