15/03/2026

A força das mulheres Iny ecoa em São Félix do Araguaia

Saberes, resistência e ancestralidade marcam encontro na região do Mato Grosso

Foto: Ir. Albersia Tapoona, SSpS

Por Ir. Albersia Tapoona, SSpS – Matéria publicada originalmente na edição 483 do Jornal Porantim

Entre cantos, memórias e partilhas de luta, mulheres do povo Iny (Karajá) reuniram-se em São Félix do Araguaia (MT), entre os dias 24 e 27 de fevereiro de 2026, para um encontro marcado pela escuta, pela denúncia e pelo fortalecimento coletivo. Vindas de diferentes comunidades, elas se encontraram para reafirmar seu papel na defesa da vida, do território e dos direitos de seus povos.

O Encontro das Mulheres Iny – Karajá, organizado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), teve como tema “A Força das Mulheres Iny – Saberes, Resistência e Ancestralidade”. Embora as participantes sejam oriundas também da região da Ilha do Bananal (TO), o encontro foi realizado em São Félix do Araguaia (MT), reafirmando o protagonismo das mulheres na defesa da vida, do território e dos direitos indígenas.

“O encontro abriu espaço seguro para que as mulheres compartilhassem experiências de violência física, psicológica, moral, patrimonial e digital”

Foto: Ir. Albersia Tapoona, SSpS

Invisibilidade e violação de direitos

Durante os dias de formação, foi debatida a invisibilidade dos direitos indígenas no Tocantins, especialmente no que se refere ao acesso a políticas públicas básicas, como saúde e transporte. As mulheres relataram dificuldades no atendimento institucional e denunciaram a falta de respostas efetivas diante de situações de violência.

O encontro contou com a presença da Defensoria Pública dos estados de Mato Grosso e Tocantins, representadas pelo Doutor Robson, da Defensoria Pública de Mato Grosso, e pela Doutora Letícia, da Defensoria Pública do Tocantins. Também esteve presente a psicóloga Nilda, da Defensoria Pública do Tocantins, que conduziu a dinâmica do girassol, proporcionando um momento profundo de escuta, partilha e fortalecimento emocional entre as participantes.

A presença da Defensoria Pública possibilitou diálogo sobre mecanismos de acesso à justiça, atendimento às mulheres em situação de violência e mediação de conflitos, reforçando a importância de que as denúncias sejam acolhidas com seriedade e respeito às especificidades culturais dos povos indígenas.

“Elas se encontraram para reafirmar seu papel na defesa da vida, do território e dos direitos de seus povos”

Foto: Ir. Albersia Tapoona, SSpS

Violência contra a mulher indígena

O encontro abriu espaço seguro para que as mulheres compartilhassem experiências de violência física, psicológica, moral, patrimonial e digital. Muitas relataram medo de denunciar, insegurança dentro do próprio território e sofrimento emocional.

Também esteve presente a psicóloga Clara, do DSEI de São Félix do Araguaia (MT), que contribuiu com reflexões sobre saúde mental e o cuidado integral das mulheres indígenas.

A preocupação com o uso da tecnologia nas comunidades também foi tema de reflexão, sobretudo em relação à exposição de adolescentes nas redes sociais e às situações de violência digital.

As participantes reafirmaram a necessidade de fortalecer redes de proteção comunitária e promover ações educativas nas escolas indígenas.

“A luta das mulheres indígenas é também luta pela vida, pelo território e pela dignidade”

Foto: Ir. Albersia Tapoona, SSpS

Cuidado, espiritualidade e fortalecimento coletivo

Além dos debates políticos e jurídicos, o encontro foi marcado por momentos de espiritualidade e cuidado emocional. A partilha de memórias e saberes ancestrais fortaleceu a identidade cultural Iny, reafirmando o papel das mulheres como guardiãs da tradição e da resistência.

Organização e parcerias

O encontro foi realizado pelo Cimi Regional Mato Grosso, com a presença de Ir. Verônica, Ângelo e Ir. Anésia Gonsalves, em parceria com o Cimi GOTO, representado por Jucilene, Ir. Isabel e Ir. Albersia.

Ao final do encontro, foram apontados encaminhamentos importantes, entre eles:

• Realização de novas formações nas aldeias;
• Ampliação do diálogo com órgãos de defesa de direitos;
• Criação de espaços permanentes de apoio às mulheres;
• Continuidade da articulação entre lideranças femininas Iny;
• Criação de um grupo de WhatsApp das mulheres Iny, como ação concreta do encontro, fortalecendo a comunicação, a troca de informações e o apoio mútuo entre elas.

O Encontro das Mulheres Iny – Karajá reafirmou que a luta das mulheres indígenas é também luta pela vida, pelo território e pela dignidade. Em São Félix do Araguaia (MT), a força das mulheres ecoou como sinal de resistência, organização e esperança.

 

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