01/07/2026

Povo Karaxuwanassu denuncia crise sanitária e destruição ambiental em território reivindicado

Aldeia enfrenta há mais de um ano falta de água, luz e alimentos, além de invasões, desmatamento e descarte irregular de resíduos hospitalares

Prefeitura de Igarassu tem usado o território para o descarte de entulhos e os indígenas denunciam também o descarte de lixo hospitalar. Foto: Divulgação/Assicuka

Por Assessoria de Comunicação – Cimi Regional Nordeste

O povo Karaxuwanassu, que ocupa o território Marataro Kaeté, localizado na Estrada do Monjope, em Igarassu, na Região Metropolitana do Recife, questiona a presença de tratores derrubando vegetação em uma área de reflorestamento, localizada atrás de galpões da Prefeitura a poucos metros das habitações, e teme grilagem com a venda de lotes contíguos ao perímetro da terra tradicional, em processo de regularização pelo Estado.

Estas e outras questões, como o descarte de lixo hospitalar e resíduos químicos no local, compõem um relatório-dossiê enviado a órgãos federais, estaduais e municipais, onde a Associação Indígena em Contexto Urbano Karaxuwanassu (Assicuka) denuncia uma série de violações que configuram, segundo as lideranças do povo, uma “crise humanitária, sanitária, territorial, cultural e espiritual”.

O documento, assinado pela cacica Valquíria Kyalonän Karaxuwanassu e datado de 26 de junho de 2026, relata que a comunidade está há mais de um ano sem abastecimento regular de água potável, sem energia elétrica e sem internet, após os fios de comunicação terem sido arrancados. A situação é agravada por queimadas, desmatamento e pela invasão de gado de propriedades vizinhas, que destroem as plantações e comprometem a segurança alimentar das famílias.

O procedimento de regularização fundiária, conduzido pela Funai em parceria com a UFPE, encontra-se atualmente em fase de estudos

“O que está acontecendo no Território Indígena Reserva Indígena Marataro Kaeté não é apenas um conflito fundiário. É uma agressão contra a vida, contra a Mãe Natureza, contra a memória ancestral”, afirma um trecho do relatório. O povo Karaxuwanassu, de origem multiétnica, reivindica a área como um território tradicional, fundamental para sua sobrevivência física e cultural.

O procedimento de regularização fundiária, conduzido pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), encontra-se atualmente em fase de estudos. Há divergência quanto à titularidade da propriedade da área de 120 hectares; se da Prefeitura, que afirma ter a posse, mas não havia apresentado documentação comprobatória, conforme a Funai, ou do governo do estado. Enquanto a regularização do território se arrasta, e novas formas de pressão contra o povo se desdobram, a Coordenadoria Regional da Funai passou por mudanças e, inclusive, proposta de realocação da Marataro Kaeté para outra localidade foi apresentada ao povo, que a rejeitou.

 

Descarte irregular de resíduos hospitalares

Um dos pontos mais graves da denúncia é o descarte irregular de resíduos de serviços de saúde dentro dos limites do território indígena. Segundo o dossiê, há registros de entulhos, sucatas, lixo eletrônico e materiais hospitalares que representam um risco direto à saúde pública, podendo contaminar o solo e a água e expor a comunidade a agentes biológicos e químicos.

O relatório exige uma vistoria urgente da Vigilância Sanitária e dos órgãos ambientais para identificar a origem dos resíduos, realizar a coleta técnica e responsabilizar os envolvidos. “Sujar o chão sagrado com resíduos perigosos é violar a Mãe Natureza, é desrespeitar nossos Encantados, nossas crianças, nossas parteiras, nossas plantas de cura e nossas futuras gerações”, protestam os indígenas.

Sem a conclusão da regularização fundiária, os indígenas receiam ações de grilagem, sobretudo porque já enfrentam problemas recorrentes no entorno da aldeia

Os indígenas têm desenterrado e encontrado no território resíduos hospitalares e químicos descartados de forma irregular. Foto: Divulgação/Assicuka

Os Karaxuwanassu também denunciam a abertura de vias clandestinas e a movimentação de terra com uso de maquinário pesado. Imagens anexadas ao dossiê mostram árvores nativas e frutíferas derrubadas, vegetação suprimida e solo revolvido. A comunidade alerta para a degradação da biodiversidade local, o risco de erosão e o comprometimento do uso tradicional do território para a coleta de plantas medicinais e alimentos. Os danos ambientais, somados à invasão de gado, agravam a insegurança alimentar, uma vez que os roçados e cultivos de subsistência são diretamente afetados.

No documento, os Karaxuwanassu também alertam as autoridades para o início da comercialização de lotes em área adjacente ao território que reivindicam e ocupam. A questão, porém, não se resume a uma eventual irregularidade formal. Sem a conclusão da regularização fundiária, os indígenas receiam ações de grilagem, sobretudo porque já enfrentam problemas recorrentes no entorno, como a entrada de animais de vizinhos que se alimentam das plantações da comunidade.

 

Mais de um ano de abandono estrutural

O relatório descreve um cenário de abandono que aprofunda a vulnerabilidade de crianças, adolescentes, mulheres, gestantes, pessoas idosas, pessoas com deficiência e pessoas LGBTQIAPN+ que vivem na comunidade. A falta de água compromete a higiene e a saúde; a ausência de luz aumenta os riscos de acidentes e violência; e a interrupção da internet isola a comunidade e impede o acesso a direitos e a comunicação em casos de emergência.

“Estamos sem abastecimento regular de água potável, sem energia elétrica, sem acesso adequado à internet e com a alimentação comprometida pelas queimadas, pelo desmatamento, pela destruição dos cultivos tradicionais e pela invasão de gado de propriedades vizinhas”, detalha o dossiê.

O desmatamento tem sido feito por maquinários pesados e incêndios de origem suspeita. Foto: Divulgação/Assicuka

Pedidos de providências urgentes

Diante da gravidade da situação, a Assicuka encaminhou o relatório a diversos órgãos, incluindo a Funai, o Ministério Público Federal (MPF), o Ibama, a Polícia Federal, a Prefeitura de Igarassu e a Vigilância Sanitária, entre outros. A associação requer uma vistoria emergencial e interinstitucional no território, a abertura de um inquérito civil para apurar as denúncias e o embargo imediato de qualquer obra ou atividade de desmatamento.

Os indígenas cobram, ainda, a identificação e responsabilização dos autores do descarte de resíduos hospitalares

Entre os pedidos, destacam-se também a garantia imediata de abastecimento de água potável, o restabelecimento da energia elétrica e da internet, e o fornecimento emergencial de alimentos e itens de higiene para as famílias. Os indígenas cobram, ainda, a identificação e responsabilização dos autores do descarte de resíduos hospitalares, dos responsáveis pela venda ilegal de lotes e dos proprietários de gado que invadem o território.

Pajé Juruna Karaxuwanassu no Encontro nacional de lideranças no tekoha Ita’y, na TI Panambi – Lagoa Rica, em março de 2025. Foto: Tiago Miotto/Cimi

Resistência e direito ao território

O povo Karaxuwanassu ocupa a área na Estrada do Monjope desde o início de 2023, em um movimento que chamam de “retomada” de um território historicamente ocupado por seus ancestrais . A área, que pertencia ao Polo Empresarial Ginetta, estava abandonada e foi reivindicada para a criação de uma reserva indígena em contexto urbano, a primeira do Nordeste .

Apesar de uma decisão judicial favorável à Prefeitura de Igarassu, que reivindica o terreno para a construção de uma escola, a comunidade resiste e conta com o apoio de órgãos como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e o Ministério dos Povos Indígenas . O processo tramita no Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), e a Funai já abriu procedimento para a demarcação da terra, reconhecendo a demanda territorial do grupo.

“O território é corpo coletivo. Quando ferem a terra, ferem nosso povo. Quando arrancam a mata, arrancam nossa proteção. Quando retiram a água, a luz e a internet, tentam nos silenciar”, denunciam

Em sua conclusão, o relatório enfatiza que a destruição do território não ameaça apenas o meio ambiente, mas a própria existência do povo Karaxuwanassu. “O território é corpo coletivo. Quando ferem a terra, ferem nosso povo. Quando arrancam a mata, arrancam nossa proteção. Quando retiram a água, a luz e a internet, tentam nos silenciar”, denunciam. “Nosso chão é sagrado. Nossa existência é originária. Nossa memória não será loteada”, conclui.

Retomada do povo Karaxuwanassu em seus primeiros dias, no começo de 2023. Foto: Ângelo Bueno/Cimi Regional Nordeste

Prefeitura contesta e discurso de uso se desfaz

A prefeitura de Igarassu contesta a ocupação indígena da área de 120 hectares e acusa o grupo de ser invasor, ao mesmo tempo em que alega ter projetos sociais para o terreno, como a construção de uma escola – mesmo que agora o território esteja recebendo descarte de lixo hospitalar e químico, por exemplo. A posição da Prefeitura gerou um impasse jurídico e político que se arrasta desde o início de 2023.

Após a ocupação realizada pelos Karaxuwanassu, a gestão municipal registrou boletins de ocorrência por furtos no local e acusou os indígenas de atos de vandalismo, como danos ao contador de energia e arrombamento de portões. Entrou com ação de reintegração de posse e o caso agora tramita no TRF-5. Em suas notas oficiais, a Prefeitura destaca um suposto compromisso com o acolhimento das famílias.

Os Karaxuwanassu contestam a versão da Prefeitura. Eles afirmam que o território reivindicado estava em completo abandono, com cercas rompidas, câmeras quebradas e invasão de terceiros, servindo apenas como depósito de materiais sem serventia. Afirmam ainda que a Prefeitura se nega a dar destino social a uma área hoje ocupada de forma tradicional por indígenas em contexto urbano dispersos nas periferias do Recife e da Região Metropolitana.

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