27/07/2026

Povo Kalankó: 28 anos de afirmação étnica construindo o Bem Viver no semiárido de AL

Da retomada do território ao fortalecimento da organização coletiva, o povo Kalankó reafirma que o Bem Viver nasce da resistência

A organização social e política do povo possibilitou aos Kalankó conquistas importantes. Foto: Povo Kalankó

Por Cimi Regional Nordeste – Equipe Alagoas

No semiárido de Alagoas, o povo Kalankó celebra 28 anos de reafirmação étnica, marco que simboliza a continuidade de uma luta secular pela preservação da memória, da cultura e do modo de ser indígena. Durante séculos, essa resistência foi vivida de forma silenciosa, em meio à violência, à negação de direitos e às tentativas de apagamento promovidas pelo processo de colonização. A partir da década de 1970, contudo, essa caminhada ganhou novos contornos, impulsionada pela reorganização comunitária, pelo fortalecimento da identidade coletiva e pela defesa do território tradicional.

Os Kalankó são um povo indígena do sertão de Alagoas, tradicionalmente ocupante da região próxima ao município de Pariconha, na fronteira com a Bahia e Pernambuco. Como outros povos do Nordeste, sua história é marcada pela luta contra a invisibilidade em emergência étnica: durante muito tempo, os Kalankó foram classificados como “caboclos” ou “camponeses” pelos censos oficiais, apagando sua identidade indígena.

O processo colonizador no Nordeste, que se valeu da catequese, da escravidão e do confinamento em aldeamentos, deixou marcas profundas na memória Kalankó. Mesmo assim, a comunidade preservou práticas culturais, conhecimentos sobre a Caatinga e uma relação específica com o território que, para além da subsistência, carrega dimensões de um modo ser e ocupar as terras reivindicadas.

A partir da década de 1970, impulsionados pelo movimento indígena nacional e pelo processo de redemocratização do país, os Kalankó iniciaram um movimento organizado de retomada. Esse processo culminou em 28 anos atrás, com a reafirmação étnica que marca o início do calendário político da comunidade.

Os avanços do povo Kalankó chegaram à educação escolar indígena diferenciada e à saúde. Foto: Povo Kalankó

A retomada do território e a caminhada pelo Bem Viver

Mesmo diante das adversidades impostas pela histórica exclusão dos povos indígenas, os Kalankó vêm construindo, de forma concreta, caminhos para o Bem Viver. Esse processo se expressa na valorização dos saberes ancestrais, no fortalecimento da cultura, na participação de jovens, mulheres, crianças e anciãos na transmissão dos conhecimentos tradicionais e na relação de cuidado e convivência com a Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro que ocupa cerca de 11% do território nacional e sustenta a existência material, espiritual e cultural do povo Kalankó.

A trajetória do povo Kalankó evidencia que o projeto colonizador europeu não conseguiu cumprir seu propósito de eliminar os povos originários. Ao contrário, sua presença viva demonstra que os pilares desse modelo de dominação estão em ruínas, pois, apesar das inúmeras formas de exploração, violência e invisibilização, não foi possível destruir a essência, a memória e a capacidade de resistência dos povos indígenas, que seguem reafirmando sua condição de povo sem estado e construindo o futuro a partir de seus próprios valores e modos de vida.

A luta pela terra tornou-se o eixo central desse processo. Mais do que garantir um espaço físico, a defesa do território representa a possibilidade de preservar a memória, a espiritualidade, os modos próprios de organização e as práticas tradicionais que sustentam a vida do povo Kalankó.

A participação ativa em conselhos, conferências, assembleias e demais espaços de controle social tem permitido ao povo Kalankó contribuir diretamente para a construção de políticas públicas voltadas aos povos indígenas de Alagoas

Um dos marcos dessa caminhada foi a retomada de parte do território tradicional, realizada em 2010. A ação representou um passo decisivo na reorganização comunitária e impulsionou importantes conquistas, entre elas a criação do Grupo Técnico (GT) para os estudos de identificação e delimitação do território tradicional pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

A retomada também fortaleceu a reivindicação por políticas públicas específicas, assegurando avanços na saúde indígena diferenciada, na educação escolar indígena e na valorização dos rituais sagrados, elementos fundamentais para a continuidade da identidade e da cultura Kalankó.

Ao longo dessas quase três décadas, o povo Kalankó tem investido no fortalecimento da identidade étnica e cultural, envolvendo crianças, jovens, mulheres, anciãos e lideranças na transmissão dos conhecimentos tradicionais. A convivência respeitosa com a Caatinga, o cuidado com a natureza, os rituais, a medicina tradicional e a memória coletiva são pilares da construção do Bem Viver em seu território.

Outro aspecto fundamental dessa trajetória é a organização comunitária. A participação ativa em conselhos, conferências, assembleias e demais espaços de controle social tem permitido ao povo Kalankó contribuir diretamente para a construção de políticas públicas voltadas aos povos indígenas de Alagoas, fortalecendo não apenas sua comunidade, mas o conjunto do movimento indígena no estado.

A juventude Kalankó se mostra engajada nos rituais e mobilizações do povo, garantindo o futuro no território. Foto: Povo Kalankó

Ameaças atuais e a luta permanente

Mesmo diante das constantes ameaças provocadas pelo avanço do modelo do agro-hidronegócio sobre o semiárido, que intensifica a concentração de terras, a degradação ambiental e os conflitos territoriais, o povo Kalankó mantém firme sua luta pela defesa da vida e do território.

Essa resistência também se expressa na articulação com outros povos indígenas do sertão alagoano, fortalecendo alianças regionais, como a construção do Território Kampiô, e ampliando a participação no movimento indígena de Alagoas e do Nordeste.

Ao mesmo tempo, os Kalankó seguem enfrentando os retrocessos promovidos no cenário nacional, especialmente pelas iniciativas do Congresso Nacional e do Senado que buscam restringir os direitos originários dos povos indígenas, como a Lei nº 14.701/2023, que representa graves ameaças ao processo de demarcação das terras indígenas, aos direitos assegurados pela Constituição Federal de 1988 e organismos internacionais, como as Nações Unidas.

Ao fortalecer sua identidade, defender seu território tradicional, preservar a Caatinga e manter vivos seus conhecimentos e práticas ancestrais, o povo Kalankó reafirma que o Bem Viver é construído no chão da realidade

O Bem Viver como horizonte

A história dos 28 anos de reafirmação étnica do povo Kalankó demonstra que a conquista de direitos não acontece de forma espontânea. Ela é resultado da organização coletiva, da participação comunitária, da mobilização permanente e da resistência cotidiana.

Ao fortalecer sua identidade, defender seu território tradicional, preservar a Caatinga e manter vivos seus conhecimentos e práticas ancestrais, o povo Kalankó reafirma que o Bem Viver é construído no chão da realidade, na união do povo e na defesa incondicional da vida, da cultura e dos direitos dos povos indígenas.

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