09/06/2026

Kaingang protestam contra restrição à comercialização de artesanato indígena em rua turística de Porto Alegre

A restrição se deu após a inauguração de uma faixa exclusiva para veículos de emergência no calçadão da rua dos Andradas, onde os indígenas costumavam montar suas bancas

Manifestação Kaingang na rua dos Andradas na última segunda-feira (08). Foto: Roberto Liebgott/Cimi.

Manifestação Kaingang na rua dos Andradas na última segunda-feira (08). Foto: Roberto Liebgott/Cimi.

Por Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Sul

Pelo segundo dia consecutivo, indígenas do Povo Kaingang se reuniram na rua dos Andradas, na manhã desta terça-feira (09), para protestar contra a restrição imposta à comercialização de artesanato no calçadão do Centro Histórico de Porto Alegre. Até a última segunda-feira (08), os indígenas costumavam montar suas bancas para a venda de artesanato no local, mas foram proibidos após a implementação de uma faixa exclusiva para veículos de emergência pela prefeitura municipal.

As comunidades denunciam que as operações de fiscalização vêm impedindo o exercício de uma atividade que, há décadas, constitui a principal fonte de sustento de famílias indígenas e uma expressão concreta de sua identidade cultural. Diante desse cenário, o Conselho Indigenista Missionário Regional Sul (Cimi Sul), por meio de sua Equipe de Porto Alegre, lançou uma nota na qual repudia as ações promovidas pelo poder público municipal que criminalizam a presença e o trabalho das famílias Kaingang na cidade.

A nota ressalta que há décadas, mulheres, homens, idosos e jovens Kaingang encontram na produção e na venda de seu artesanato uma forma legítima de subsistência e de afirmação cultural. O artesanato indígena não é mera mercadoria: é a materialização de um modo de vida, de conhecimentos ancestrais e da continuidade de um povo que resiste a sucessivos processos de expulsão, invisibilização e negação de direitos.

Atualmente, tramita na Justiça Federal uma Ação Civil Pública que busca a construção de uma solução mediada para a questão da comercialização do artesanato indígena na cidade, por meio do diálogo entre as comunidades indígenas e o poder público. Em nota, o Cimi sul considera que “ao agir de forma unilateral e coercitiva, a administração municipal desconsidera esse processo judicial e enfraquece a busca por uma saída construída coletivamente, em conformidade com os direitos assegurados aos povos indígenas”.

Diante desse cenário, o Cimi Sul demanda ao poder público municipal a retomada de um processo  efetivo de diálogo, capaz de construir soluções justas, democráticas e compatíveis com a legislação nacional e os compromissos internacionais assumidos pelo Estado brasileiro.

 

Nota de repúdio do Cimi Regional Sul

Em virtude da repressão e das medidas restritivas impostas pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Lojistas (SMIC) à comercialização de artesanato indígena, comunidades Kaingang que vivem em contexto urbano realizam, nesta segunda-feira, uma manifestação no centro de Porto Alegre (RS) em defesa de seu direito ao trabalho, à cultura e à dignidade.

Diante desse cenário, o Conselho Indigenista Missionário – Regional Sul (Cimi Sul), por meio de sua Equipe de Porto Alegre, manifesta seu mais profundo repúdio às ações promovidas pelo poder público municipal, que vêm criminalizando a presença e o trabalho das famílias Kaingang na cidade.

As comunidades denunciam que as operações de fiscalização vêm impedindo o exercício de uma atividade que, há décadas, constitui a principal fonte de sustento de famílias indígenas e uma expressão concreta de sua identidade cultural. A truculência dessas abordagens e a tentativa de expulsão dos indígenas de seus espaços tradicionais de comercialização representam práticas incompatíveis com os direitos assegurados pela Constituição Federal e pelos tratados internacionais de proteção aos povos originários.

Há décadas, mulheres, homens, idosos e jovens Kaingang encontram na produção e na venda de seu artesanato uma forma legítima de subsistência e de afirmação cultural. O artesanato indígena não é mera mercadoria: é a materialização de um modo de vida, de conhecimentos ancestrais e da continuidade de um povo que resiste a sucessivos processos de expulsão, invisibilização e negação de direitos.

As ações da fiscalização municipal — marcadas pela apreensão de produtos e pela intimidação de famílias — revelam uma postura que viola os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana, da igualdade e do reconhecimento da diversidade étnica e cultural que caracteriza a sociedade brasileira.

É inadmissível que, em pleno século XXI, políticas públicas de inclusão sejam substituídas por atos repressivos que aprofundam a exclusão social e reproduzem o racismo institucional contra os povos originários.

A gravidade dos fatos é ainda maior porque tramita na Justiça Federal uma Ação Civil Pública que busca a construção de uma solução mediada para a questão, por meio do diálogo entre as comunidades indígenas e o poder público. Ao agir de forma unilateral e coercitiva, a administração municipal desconsidera esse processo judicial e enfraquece a busca por uma saída construída coletivamente, em conformidade com os direitos assegurados aos povos indígenas.

A Constituição Federal de 1988 reconhece o direito dos povos indígenas às suas organizações sociais, costumes, línguas, crenças e tradições. No plano internacional, a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) garante o respeito às identidades culturais e aos modos próprios de vida desses povos, enquanto a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas reafirma o direito de manter e fortalecer seus meios tradicionais de subsistência e desenvolvimento.

Diante desse cenário, o Cimi Sul exige a imediata suspensão das ações repressivas contra as comunidades Kaingang, o respeito aos seus espaços tradicionais de comercialização e a retomada de um processo efetivo de diálogo, capaz de construir soluções justas, democráticas e compatíveis com a legislação nacional e os compromissos internacionais assumidos pelo Estado brasileiro.

A defesa dos direitos dos povos indígenas é inseparável da defesa da democracia, da diversidade cultural e da justiça social.

Porto Alegre, 08 de junho de 2026.

Cimi Sul – Equipe de Porto Alegre

 

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