CMPC: as artérias da exploração que ligam a oligarquia chilena ao sul do Brasil
Herdeira de uma histórica concentração fundiária no Chile, a companhia de celulose avança sobre novos territórios no Rio Grande do Sul.

Ação realizada em frente à Assembleia Legislativa durante audiência pública que questionou o “Projeto Natureza”, da CMPC Celulose. Foto: Maí Yandara/Amigas da Terra Brasil.
Por Roberto Liebgott e Ivan Cesar Cima, do Cimi Regional Sul
A Companhia Manufatureira de Papéis e Cartões (CMPC), apresentada como símbolo de progresso e desenvolvimento, é, na realidade, parte de uma longa engrenagem histórica de exploração, concentração fundiária e devastação ambiental na América Latina. Controlada pela oligarquia chilena da família Matte, a empresa carrega consigo uma herança construída ao longo dos séculos XIX, XX e XXI sobre a apropriação violenta da terra, a expropriação de povos indígenas e a destruição sistemática da natureza.
Seus tentáculos atravessam fronteiras e suas artérias de dominação avançam sem limites e sem escrúpulos.
No Chile, a família Matte consolidou um vasto império territorial de milhões de hectares, muitos deles sobre territórios historicamente pertencentes ao povo Mapuche. A expansão das empresas florestais chilenas intensificou-se especialmente durante a ditadura de Augusto Pinochet, quando políticas públicas, incentivos fiscais e subsídios estatais favoreceram a concentração fundiária e fortaleceram grandes conglomerados privados ligados ao setor de celulose e papel.
Foi nesse período que monoculturas extensivas de pinus e eucalipto avançaram sobre territórios ancestrais, reduzindo florestas nativas, comprometendo cursos d’água e aprofundando os conflitos territoriais. O povo Mapuche passou a denunciar, cada vez mais intensamente, a violência estrutural promovida pelas corporações florestais e pelo Estado chileno.
No Paraguai e no Brasil, os grupos ligados à exploração da erva-mate instalaram-se ainda no início do século passado, submetendo povos indígenas Guarani – Avá e Kaiowá – a condições brutais de exploração, expulsão territorial e escravização. A história econômica da região sul da América Latina está profundamente marcada pela apropriação das terras indígenas e pela transformação dos povos originários em mão de obra precarizada a serviço dos grandes empreendimentos privados.
Para ampliar seus lucros e alimentar uma ambição sem freios, esses grupos econômicos associaram-se a outros setores igualmente comprometidos com a degradação da terra, da água e da vida. O itinerário é conhecido: mineração predatória, monoculturas extensivas, concentração de riquezas e destruição ambiental.
Hoje, constituem conglomerados poderosos, articulados às grandes cadeias globais de produção de celulose, papel e exportação de commodities, controlando extensos territórios em diferentes países da América Latina.

Fábrica de celulose da CMPC em Guaíba no Rio Grande do Sul. Foto: Fabiano Panizzi/Divulgação/CMPC
No Rio Grande do Sul, a multinacional chilena CMPC já atua há décadas e controla centenas de milhares de hectares de terras ocupadas por monoculturas de eucalipto. Agora, pretende ampliar ainda mais sua capacidade produtiva, instalando uma nova fábrica de papel em Barra do Ribeiro, próximo à Região Metropolitana de Porto Alegre. Segundo reportagem publicada pela Agência Pública, o chamado “Projeto Natureza”, é o maior investimento privado da história do Rio Grande do Sul, e deve custar R$ 25 bilhões à empresa.
O potencial econômico do empreendimento é gigantesco. Gigantescos também serão os impactos.
A expansão das monoculturas ameaça a biodiversidade, compromete as águas do Guaíba, afeta nascentes, empobrece o solo, destrói campos nativos do Pampa e sufoca comunidades inteiras. Pescadores artesanais, agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais convivem diretamente com os efeitos sociais e ambientais desse modelo econômico concentrador.
As monoculturas de árvores, chamadas por movimentos populares e pesquisadores de “desertos verdes”, não podem ser confundidas com florestas. São plantações industriais voltadas exclusivamente ao abastecimento das cadeias globais de produção. Produzem riqueza concentrada e deixam pobreza social e degradação ambiental nos territórios atingidos.
Com desfaçatez, as corporações apresentam-se como defensoras da natureza. Apropriam-se do discurso ambiental enquanto expandem monoculturas homogêneas sobre extensas áreas de terra. Vendem-se como benfeitoras do Estado, amigas das florestas, promotoras da sustentabilidade e portadoras da esperança para regiões empobrecidas do Rio Grande do Sul.
Nas propagandas e redes sociais, surgem como pacificadoras, criadoras de empregos, distribuidoras de renda e representantes do progresso econômico. São projetadas como novos messias do desenvolvimento, mas basta que sejam contrariadas para revelar sua verdadeira face.
Atacam críticos, perseguem opositores, desqualificam movimentos sociais e tentam silenciar aqueles que ousam questionar seus empreendimentos e suas práticas predatórias. Depois recorrem à chantagem econômica: ameaçam partir, retirar investimentos e abandonar o Estado como se fossem proprietárias do destino coletivo.

Audiência Pública sobre instalação de nova fábrica da CMPC realizada no dia 20 de maio de 2026 na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Foto: Roberto Liebgott/Cimi.
Que partam em definitivo e parem de vender ilusões embaladas em marketing verde. Porque as riquezas produzidas não permanecem nos territórios. O que fica são os passivos ambientais, os conflitos sociais, a concentração da terra, a contaminação das águas e as cicatrizes abertas nas comunidades atingidas.
Nenhum projeto baseado na devastação pode ser chamado de desenvolvimento. Nenhuma monocultura pode substituir os modos de ser e viver dos povos. Nenhuma propaganda sustentável apagará os rastros históricos de destruição deixados pelas artérias do capital sobre os territórios originários da América Latina.
O que se apresenta como modernização é, muitas vezes, apenas a continuidade sofisticada das velhas estruturas coloniais de exploração. Mudam-se os discursos, refinam-se as propagandas, multiplicam-se os selos verdes e os relatórios de sustentabilidade, mas permanece intacta a lógica da expropriação: retirar da terra o máximo possível, concentrar riqueza e socializar destruição.
A América Latina conhece profundamente essas artérias de exploração. Elas atravessam séculos. E continuam abertas.
