17/04/2026

54 anos de Cimi e a guerra que nunca terminou

Editorial da edição 484 do Porantim (abril de 2026), que reflete sobre os 54 anos do Cimi, a permanência da luta pelos direitos territoriais indígenas e a continuidade de um projeto colonial que ameaça a vida e a autonomia dos povos originários.

Por Assessoria de Comunicação do Cimi – Matéria publicada originalmente na edição 484 do Jornal Porantim

Foi no auge da Ditadura Militar, em 1972, que o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) nasceu. Naquele Brasil, em que o silêncio era política de Estado e o extermínio dos povos indígenas se dava em nome do desenvolvimento, um grupo de missionárias e missionários decidiu dar um novo sentido ao trabalho da Igreja Católica junto aos povos, rompendo com a estrutura paternalista e a postura assimilacionista e assumindo uma presença baseada na escuta e no compromisso com a autonomia dos povos.

Cinco décadas depois, o Cimi completa 54 anos em meio a uma guerra onde a lógica ainda é de luta pela terra e pela vida, com as demarcações a conta-gotas, a violência crescente nos territórios e com o aparato jurídico e legislativo, que deveria proteger os povos originários, sistematicamente desmontado – não por descuido, mas por projeto.

Dom Erwin Kräutler, que presidiu o organismo por 17 anos, afirma que o Cimi representou um ponto de inflexão na relação tutelar com os povos indígenas – a passagem de uma postura de controle para outra baseada na solidariedade, tendo em vista que o peso histórico da tutela, herdada do Estado brasileiro, recaiu sobre gerações e gerações de povos que tiveram sua autonomia sequestrada em nome da “civilização”.

Essa mudança de postura teve consequências concretas, pontua Dom Erwin: na Assembleia Nacional Constituinte de 1987, o Cimi e os povos indígenas travaram uma batalha decisiva pelos corredores do Congresso. O resultado foi o artigo 231 da Constituição Federal – o reconhecimento, pela primeira vez na história do país, dos direitos originários dos povos sobre suas terras. Uma vitória histórica que, hoje, é um alvo permanente.

O secretário executivo do Cimi, Luis Ventura, nomeia essa caçada aos direitos indígenas com precisão: foi “desidratação” deliberada. A aprovação do PL 490, que se tornou a Lei 14.701, representou um retrocesso concreto – a tese do marco temporal, que condicionava a demarcação à ocupação indígena em 1988, foi declarada inconstitucional pelo STF em dezembro de 2025.

“Essa caçada aos direitos indígenas foi “desidratação” deliberada”

Mas a vitória veio pela metade, aponta Ventura: dispositivos gravosos da mesma lei seguem em vigor, entre eles a exigência de indenização aos invasores por “terra nua” e o direito de retenção desses mesmos invasores sobre territórios que nunca lhes pertenceram.

“Quando um direito é condicionado, ele deixa de ser um direito”, afirma o secretário Executivo do Cimi. E a morosidade histórica do Estado brasileiro nas demarcações – usada cinicamente como argumento para liberar licenças a mineradoras e liberar o caminho para outras formas de violência territorial – segue sendo um instrumento político, pontua Ventura.

Nos últimos anos, esse cenário se agravou: mais violência, mais criminalização das lutas, mais atores envolvidos – e uma participação crescente de forças do próprio Estado, somada a políticas contrárias à proteção dos direitos territoriais, aponta o secretário executivo do Cimi. “É uma luta de insurgência. É a luta que litiga com o capital aquilo que é mais caro ao capital: os territórios”, pontua Ventura. O conflito não é novo. É o mesmo desde 1500, com novas roupagens jurídicas e novos operadores econômicos.

O cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus e presidente do Cimi, lembra que esse pensamento de mercado nos conduz a um colapso ambiental, enquanto a ética dos povos indígenas oferece saídas coletivas que o modelo dominante recusa ver. Não é romantismo. É a constatação de que os povos que resistiram à colonização por séculos guardam formas de relação com o território que são, hoje, a única alternativa real à destruição do planeta. Mas para que essa perspectiva tenha futuro, é preciso primeiro que os povos que a carregam sejam ouvidos – e que existam, aponta Steiner. “É necessário que a justiça esteja ao lado dos primeiros moradores destas terras. Povos que, através dos séculos, foram massacrados e eliminados justamente por reivindicarem seus espaços”, Dom Roque Paloschi, que esteve à frente do Cimi entre 2015 e 2022, recupera a memória de Sepé Tiaraju como grito que permanece vivo: “Esta terra tem dono”. E os primeiros donos, insiste, precisam ser respeitados na sua integralidade – não como concessão, não como política compensatória, mas como obrigação de justiça histórica.

Para o Cimi, são 54 anos de presença ao lado dos povos indígenas em uma luta que nunca foi apenas pastoral, mas profundamente política: a defesa dos territórios, da vida e da autonomia dos povos. Mais de cinco décadas de missionárias e missionários que escolheram estar do lado mais difícil – e que, por isso, enfrentaram e enfrentam acusações, perseguições e injustiças. Pois a trajetória do Cimi é inseparável da trajetória dos povos que acompanhou, e é também, em larga medida, a história dos avanços e retrocessos dos direitos indígenas no Brasil.

O que segue em disputa é a permanência de uma lógica colonial que, ao longo dos séculos, apenas mudou de linguagem. Se antes os povos indígenas precisavam ser “civilizados”, hoje seus territórios precisam ser “integrados”, “desenvolvidos” e explorados em nome do mercado e do progresso. O alvo, porém, continua o mesmo: a autonomia dos povos indígenas sobre suas terras e seus modos de existência. Ignorar essa autonomia não é apenas um erro político: é colonialismo. E é o colonialismo que mantém de pé a guerra que nunca termina. É contra ele que, há 54 anos, o Cimi continua respondendo com presença.

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