O conto da cabeça que virou a Lua
Notícias sobre os caminhos e descaminhos Madija no Acre e sul do Amazonas – Parte 1

O Cimi Regional Amazônia Ocidental relata ter percebido a mudanças ao longo da realização das assembleias dos Madija: “aumento de interesse, engajamento, vontade de querer fazer diferente, de retomar os costumes e sabedoria tradicional”. Foto: Óscar González/Cimi Regional Amazônia Ocidental
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Maji apanhava as frutas do chão e as atirava contra as nuvens, despertando torrentes incontroláveis. O curimbatá caía do céu tempestivo com os relâmpagos, povoando os lagos. Neste tempo, as onças ainda não semeavam a banana, a macaxeira e o mamão. A Lua não existia. Dois irmãos costumavam contemplar as estrelas, que surgiram antes de tudo. Um dos irmãos as olhava sonhando com a guerra. O outro, rindo, pensava em toda diversão possível debaixo deste manto cravejado. Certa noite, enquanto caminhavam pela mata, encontraram uma maloca e, nela, o insólito. O irmão que ansiava pelo encontro com o inimigo, a guerra mítica, se precipitou maloca adentro e foi surpreendido por um golpe de terçado, que lhe arrancou a cabeça de uma só vez. Do chão, vendo o próprio corpo alvejado por dezenas de flechas, gritou ao outro: corra! Incólume aos ataques, o irmão que desejava diversão, e encontrou a guerra, atendeu à ordem. Correu até chegar a um igarapé, arfando e com a boca seca. Ainda aturdido, levando de forma desesperada água à boca, ouviu algo se arrastar pela mata e, ao virar-se, se deparou com a cabeça do irmão em seu encalço. Por um instante, e com o corpo trêmulo, o irmão achou que fosse um pesadelo; Maji indo visitá-lo com imagens absurdas, assustadoras. Pouco antes, ele pensou que, quando a cabeça o mandou correr, se tratava da própria imaginação sobressaltada. Mas a cabeça estava ali, viva. Nunca antes havia presenciado nada igual[1].
Me dê água, irmão, estou com sede! Me dê água! Se recompondo, o irmão deu de beber à cabeça cujo semblante estava paralisado em uma careta. A água entrava pela boca escorrendo para o chão através da garganta aberta. Em desespero, diante do trabalho amaldiçoado, o irmão fugiu para casa buscando ajuda da mãe. Mãe e filho se fecharam na maloca em pânico com o ocorrido. A cabeça, porém, seguiu para casa e, logo depois, gritava pela mãe e pelo irmão no terreiro em busca de ajuda para solucionar a terrível condição: uma cabeça sem o corpo para guerrear. A mãe sentiu pena do filho e de seu destino insólito de ser uma cabeça neste mundo de corpos em conflito. Preciso me transformar em algo, mãe. Em que posso me transformar? Chegaram à conclusão cósmica: a cabeça deveria virar a Lua, já que ainda não existia uma. Vou subir e, de lá, ficar olhando para você, mãe. Como um dos seres mais fortes existentes, a onça lançou a cabeça ao céu noturno. As estrelas e a lua iluminaram juntas pela primeira vez a noite dos Madija. Não se sabe ao certo quanto tempo se passou depois disso, sendo o tempo algo não criado por Maji. Hoje em dia, os Madija, também chamados de Kulina, vivem fora das ‘odsa beje’, a antiga casa coletiva, enfrentando a noite que há dentro da noite. A guerra passou a ser contra as estruturas burocráticas do Estado e contra aqueles que levam vantagem sobre as dificuldades dos Madija em se adequar à linguagem e modos da sociedade envolvente e repelente; a diversão se tornou perigosa para os Madija, propensa a transformar a desolação e o desassossego existenciais em autodestruição. A existência Madija está visivelmente partida, dissociada e, neste momento, o povo busca alternativa a tal condição disseminada como epidemia entre seus integrantes – como a cabeça do irmão, que precisou criar algo inexistente para transcender à perda do corpo no encontro com o inimigo.
Ainda há o olhar profundo de um povo que existe para além do tempo contável
Ainda há a Lua sobre os territórios do povo no Acre e no sul do Amazonas – a grande cabeça do irmão envolvido pela guerra e que, ao lado do irmão ansioso pela diversão, encontrou o insólito nas dobras míticas do real. Ainda há o apego entre os integrantes dos 13 clãs do povo – e de cada família nuclear – às suas crianças e aos animais, que os acompanham. Para pequenas ou longas viagens, a aldeia vai junto como o jabuti que leva o casco em sua jornada. Ainda há o desejo pela guerra, que costuma se manifestar em uma torrente violenta, incompreensível para quem não é do povo e tratada com violência similar pela polícia e habitantes de cidades como Manoel Urbano (AC), Feijó (AC), Envira (AM), Eirunepé (AM) e Ipixuna (AM), na calha do rio Juruá e também nas margens dos rios Purus e Jutaí. Há o silêncio, certa timidez altiva, a dignidade em definir a própria morte em junção ao horror que os levam a tal desfecho. Ainda há o olhar profundo de um povo que existe para além do tempo contável, imbuídos por vasta e complexa cultura. Ainda há a língua, sistema mais amplo do que um conjunto de palavras, capaz de alterar o que pensamos sobre linguagem de um modo geral: para os Madija, os números são expressos por verbos (verbos numerais), por exemplo. Ainda há atualmente a opressão linguística: uma fronteira imposta pela ausência do ensino bilíngue da língua portuguesa nas escolas do povo, aumentando ainda mais o deslocamento existencial dos Madija e a dificuldade de entender o sistema linguístico do não indígena. Acabam sofrendo nas mãos de golpistas e comerciantes (chamados pelos Madija de ‘patrões’) que retêm cartões de banco e benefícios, cobrando taxas, inventando dívidas com juros elevados e inflacionando preços de produtos. Nos barrancos dos trechos dos rios que passam pelas cidades, os Madija acabam ficando à espera do próximo mês para saber se sobrará dinheiro para a gasolina e mantimentos da viagem de volta às aldeias. Enquanto esperam, plantam macaxeira, pescam, perambulam pelas cidades e tentam sobreviver como ‘estrangeiros’ indesejados. Ainda há, portanto, um povo e as suas circunstâncias.
Os anciãos contam histórias antigas para quem deseja ouvi-las – as figurações simbólicas da linguagem. Nas letras da adsaba, cantada pelas mulheres, sabe-se que a Lua não fechou os olhos ou as estrelas se apagaram. Porém, nas terras onde do céu os peixes caíam, e Tamaco e Quira, que tinham as onças como avós, criaram o povo Madija, há grandes tristezas e preocupações. Madija pode ser traduzido como “os que são gente”. No entanto, não é assim que os Madija se sentem: costumam ouvir nas cidades que frequentam ofensas de que “nem gente são”. Na prática, é assim que são tratados. São 17 horas na aldeia Cacau, sul do Amazonas, município de Envira (AM), às margens do rio Tarauacá. O mês de maio se encaminha ao fim. A escola está fechada, com sinais de desuso prolongado. De uma ou duas casas Madija chega algum som. A ponta de uma imensa maloca, ao fundo da aldeia, às margens da floresta, desponta o mato alto, que avança sobre os terreiros interligados por caminhos estreitos e quase apagados. “A aldeia Cacau costumava ser bastante habitada, eram dezenas de famílias. O município a usava como atrativo para o turismo. Hoje, são cinco famílias, no máximo. Não há mais turismo ou quaisquer outras atividades que mantenham a aldeia ativa. Muitos cometeram suicídio, outros morreram adoecidos pelo alcoolismo ou assassinados. Uma outra parte se deslocou para outras aldeias na própria Terra Indígena”, explica Zuwra Madija.
Urinam sobre eles, jogam lixo e também os matam como se fosse uma brincadeira
Para chegar à aldeia Cacau, é preciso atravessar um aterro sanitário. Caminho repleto de sinuosidades em meio aos restos descartados pelos mais de 20 mil habitantes do Envira. Depois de passar pelo ‘lixão’, é preciso enfrentar cerca de 3 km até a fronteira da Terra Indígena Cacau, passando por fazendas de gado. Nos meses de chuva, todo este caminho é convertido em um lamaçal misturado ao chorume desprendido das montanhas de lixo. A estrada, por sua vez, fica intrafegável até mesmo para veículos com tração. Durante todo o trajeto é possível cruzar com um Madija aqui e acolá, indo e vindo entre a aldeia Cacau e a cidade. Diante da fragilidade comunitária, invasores passaram a retirar madeira da aldeia. Os relatos de mortes violentas se desdobram em um cenário de redução populacional, tendo como principais vítimas jovens entre 13 e 16 anos. Na cidade, é comum ver muitos deles jogados nas calçadas entregues ao alcoolismo. “Urinam sobre eles, jogam lixo e também os matam como se fosse uma brincadeira. Vira e mexe amanhece um parente morto nessas condições. Isso leva o jovem a não ver perspectiva. Então, ele se mata, sobretudo se enforcando”, lamenta Zuwra.
A desregulação social da aldeia Cacau teve como marco um crime cometido pelo ‘Kariu‘, o não indígena, como conta Zuwra: “mataram na cidade o cacique da aldeia. Os parentes nunca esqueceram isso. Sem o cacique, todo mundo ficou sem saber o que fazer. Ficaram perdidos. Lembram dessa perda com muita dor, sentem muita saudade. Acho que sentem saudade também de como era a aldeia. É como um trauma não sarado”. A aldeia hoje não tem sequer água potável. Quanto ao lixão, a Prefeitura de Envira afirma que já há um projeto de retirada dele do local em que se encontra. Por aquelas semanas, duas mortes foram registradas entre as seis aldeias da TI Cacau: uma mulher, vítima de alcoolismo, na aldeia Terra Firme, e uma criança de 10 anos, na aldeia Hamahã, vítima de febre, desidratação e diarreia. A convivência com mortes violentas, suicídios ou ocasionadas por doenças curáveis é como uma sombra envolvendo os Madija a partir das cidades que estão próximas às terras indígenas. Lideranças do povo discutem como proteger os territórios da bebida alcoólica Kariu e como fazer para que os Madija não fiquem tão vulneráveis nas cidades, a partir da reivindicação da educação bilíngue, e do acesso a espaços de assistência específicos e diferenciados.

“As assembleias estão sendo o caminho de reencontro trilhado pelo povo Madija do Amazonas e Acre”, diz o Cimi Regional Amazônia Ocidental, em julho de 2023. Foto: Óscar González
Projetos comunitários: uma saída encontrada
Na própria TI Cacau há um exemplo de projeto em curso com resultados satisfatórios quanto a medidas de proteção do povo. Tanto que Tunumã Madija, filho da cacique da aldeia Aruanã, foi designado pelas lideranças da TI a se mudar para a aldeia Cacau com a missão de se tornar cacique e não deixá-la fenecer de maneira definitiva. Diferente da aldeia Cacau, a Aruanã é limpa, organizada, a escola funciona, há pesca, caça, agricultura, a retirada do açaí, o vasto terreiro é movimentado e a partilha dos alimentos demonstra uma das marcas da vivência comunitária Madija.
“Aqui (aldeia Aruanã) era assim também como a Cacau. Muito difícil de lidar com isso. Minha mãe bebia, meu irmão bebia. Eles pararam, mas uma outra parte (da aldeia) ainda bebe. Seguimos lutando para que parem. Quando ficam sem bebida, é muito bom. Mas aqui melhorou muito. Fazendo reuniões, documentos para as autoridades públicas, sensibilizando a polícia. Temos um problema com os benefícios. Quando a comunidade vai buscar, compra bebida, os comerciantes oferecem. Tivemos de pensar num jeito de lidar com isso”, diz Tunumã. Na aldeia Aruanã, o Madija conta que os projetos comunitários têm sido a estratégia para evitar o uso do benefício para a compra de álcool ou a retenção dele pelo ‘patrão’ (comerciante que sequestra os cartões dos Madija). Cada integrante da aldeia precisa depositar uma porcentagem do benefício em uma ‘vaquinha’ comunitária para a realização de melhorias coletivas de infraestrutura: perfuração de poço artesiano, instalações elétricas, estruturação da escola, reformas de espaços coletivos, escoamento de produtos da pesca, agricultura e coleta, como o açaí.
Com a aldeia organizada, ajuda a cabeça ficar melhor. Deixa mais calmo, menos triste, perdido.
“Benefício aqui é para ajudar a comunidade. Claro que cada um pode comprar suas coisinhas, mas tem que ter a parte da comunidade. Compramos placa solar, bomba, caixa d’água, encanamento. Cada um ajuda para comprar esses materiais. Tenho dúvida se isso evita de ir para cidade, porque a comunidade gosta de caminhar, viajar, ir para cidade, ver coisas fora da aldeia. Também é um direito da gente. Mas com a aldeia organizada, ajuda a cabeça ficar melhor. Deixa mais calmo, menos triste, perdido. Se na aldeia Cacau não for assim, vai acabar. Pra começar, tem que botar portão. Kariu entra na aldeia sem autorização, leva cachaça e embebeda todo mundo para tirar madeira, levar gado”, conta Tunumã. Para ele, a bebida, hoje, está acabando com o povo no Amazonas e no Acre. “Morrem afogados no rio, embebedam os parentes e depois matam. Isso tem afetado nossas práticas tradicionais. Aqui na (aldeia) Aruanã, depois que a bebida diminuiu, voltamos a fazer caiçuma doce, cantar o mariri, fazer nossas próprias comidas. Os jovens estão agora aprendendo tudo isso. Com a bebida do Kariu, a festa aqui era com essas músicas de fora, dava muita briga, todo mundo bêbado”, destaca.

“Os Madijá, acolhidos, acolhem os rios e a partir deles seguem escrevendo e vivendo suas histórias”, diz o Cimi Regional Amazônia Ocidental, em maio de 2023. Foto: Cimi Regional Amazônia Ocidental
A espera nos barrancos
Manoel Urbano (AC), que ao lado de Santa Rosa do Purus (AC), um município predominantemente indígena, habitado, sobretudo, por indígenas Huni Kui, recebe grande fluxo de Madija da TI Alto Rio Purus. É difícil estabelecer em qual cidade a situação dos Madija fica mais deteriorada, mas Manoel Urbano, durante toda a reportagem, foi a cidade com o maior número de acampamentos às margens de um rio, no caso o rio Purus. Ao menos 20 acampamentos foram contados num trecho curto de rio, à vista de bairros de Manoel Urbano. O tempo de permanência das famílias também surpreendeu. “O Madija está triste porque aqui na cidade os parentes bebem muito, o pessoal do Polo de Saúde não dá assistência. Sou agente de saúde e trago muitos pacientes para Manoel Urbano. Quando precisam voltar, não tem gasolina. O Polo não oferece. Esse é outro motivo do nosso povo ir ficando nos barrancos”, diz Berna Madija. Ele explica que há muita doença nas aldeias Madija. “Tem criança morrendo, e não devia. Essa coisa do álcool também traz muito conflito. Então tem doença de pajé nisso, por conta de conflito interno gerado pela bebida. Outra coisa é que quando morre um nosso, querem fazer aquilo de abrir, tirar tudo (autópsia). Não concordamos com isso, gera muita tristeza na família. Mandamos paciente para Rio Branco e eles voltam assim, com o corpo todo costurado. Não somos animais. Então uma parte do povo prefere ficar na aldeia, morrer sem kariu ver”, lamenta.
Berna denuncia que nas cidades os Madija precisam mendigar por explicações ou para que sejam entendidos. “Não explicam nada para a gente. Desde essa coisa que eu não sei pronunciar o nome (autópsia), como funcionam os cartões dos benefícios, a contagem do dinheiro, como usar essas máquinas que cospem dinheiro. No hospital, médico nunca explica a doença, como vai tratar. Só dá alta ou diz que morreu. Tem vezes que é doença de pajé. Médico não escuta. Manda pra Rio Branco. Aí lá o parente morreu porque era doença de pajé, entende. Eu já pedi para a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) contratar alguém para nos ajudar nisso, ajudar os parentes a entender, ter explicações, mas ainda não teve nada”, conta. Cada acampamento na beira do rio é de uma aldeia diferente; Apoí, Ipiranga Velha, Marunaua, Nazaré, Kanamari. Em um deles, que reúne os indígenas da aldeia Apoí, os Madija estavam há dois meses. Uma vasta plantação de macaxeira chegou a ser semeada, e estava prestes a ser colhida.
Os Madija não são vistos como gente nas cidades e os jovens ficam sem interação social, com dificuldades de achar o próprio espaço
O cacique Nonato Madija, que lidera este acampamento, acredita que “as escolas indígenas do nosso povo precisam aprender português junto com a nossa língua. Aprender a escrever, ler, entender mais como pensa kariu para não sofrer tanto na mão dele. Enganam os parentes aí na rua (cidade), sabe”. O cacique aponta a falta de professores para ensinar a língua portuguesa na TI Alto Purus e a formação de professores e professoras indígenas. Atualmente está em curso no Acre um projeto do governo estadual de capacitação dos professores indígenas. Em muitos casos, esses profissionais não possuem o ensino fundamental completo, o que cria dificuldade para o ingresso em licenciaturas interculturais, oferecidas por universidades e institutos federais, voltadas aos professores indígenas. Entretanto, lembra o cacique Nonato, no barranco, tampouco existe escola. “Não queremos ficar aqui. Não gostamos, Preferimos a aldeia, lá é o nosso lugar. Ficamos esperando bolsa família, auxílios. Juntamos esse dinheiro para comprar mantimento, gasolina. Tem coisas para as crianças, comprar celular, sapatos. É difícil de juntar porque temos de viver aqui”, explica.
Edith Madija defende que o povo, há cerca de duas décadas, tem sofrido mudanças drásticas, sem a devida atenção da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e das demais autoridades públicas que lidam com as demandas dos povos indígenas. “Os benefícios mudaram o modo como os Madija são vistos nas cidades. Primeiro porque os parentes começaram a ficar mais nas cidades. Segundo porque passaram a ficar mais nas cidades e com dinheiro. Com a pouca familiaridade com a língua portuguesa, passaram a ser enganados. Não acho que a bebida chegou por conta disso. Ela já existia e os Madija sempre tiveram suas bebidas alcoólicas tradicionais. A bebida do Kariu vicia muito rápido, e o Kariu percebeu que poderia tirar vantagens disso”, analisa Edith. Para ela, “os Madija não são vistos como gente” nas cidades e os jovens “ficam sem interação social, com dificuldades de achar o próprio espaço no mundo que os rodeia. Não aprendem o português na escola indígena e na escola das cidades não são aceitos, sofrem espancamentos, agressões, racismo. Se sentem muito mal com isso e se fecham”. Uma tristeza profunda se acumula até transbordar em alcoolismo, suicídio, violência interna – e a violência interna é um outro fator de deslocamentos forçados em um ciclo de reciprocidade deturpado, sendo a reciprocidade uma característica tradicional da cultura Madija.

Em 2023, os Madija realizaram várias assembleias nas aldeias: Piau, no rio Juruá, município de Eurinepé (AM), Jaminawa, no rio Envira, no município de Feijó (AC), Maronawa, no rio Purus, no município de Santa Rosa (AC), Macapá no Rio Tarauacá, no município de Envira (AM). Foto: Cemi Kulina
Reciprocidade deturpada
“Nosso povo, como todo povo indígena, tem os seus segredos e tradições a partir de seus modos e costumes. A reciprocidade (chamada de manacô) é um deles. É mais ou menos assim: se você faz o bem para alguém, tem que haver reciprocidade. Essa pessoa vai fazer algo bom para você. Se você faz mal, também. Com a bebida alcoólica e os problemas enfrentados nas cidades, fazer o mal pro outro se tornou como uma epidemia de violência, e de um jeito que não acontecia antes ou não era nada comum. Então passamos a conviver com uma violência interna por conta disso. Famílias precisam mudar de aldeia. Nossa reciprocidade foi totalmente transfigurada”, explica a cacica Sula Madija, da Terra Indígena do Médio Juruá, localizada em Ipixuna (AM). Ela explica que na TI existem 12 aldeias, com problemas similares às demais terras indígenas dos Madija no restante do Amazonas e Acre. “Precisamos de um olhar mais aprofundado, abordagens diferentes. O alcoolismo é devastador porque acaba afetando a vida de jovens e crianças, gerando mortes indiretas. Os não indígenas se aproveitam disso”, conta. Sula explica que os ‘patrões’ acabam ficando com todo o dinheiro ou grande parte do pagamento dos benefícios, fato testemunhado pela reportagem em Manoel Urbano, Feijó, Envira, Eirunepé e com relatos em Ipixuna. Cobrando preços inflacionados e juros por dívidas, os comerciantes acabam encontrando formas de nunca liberar o cartão. Sem ter como voltar para a aldeia, as famílias Madija acabam na beira do barranco dos rios esperando por alguma ajuda ou na esperança do ‘patrão’, no mês seguinte, não tomar todo o dinheiro para garantir os recursos da volta.
A Madija cita alguns fatos para retratar as consequências deste quadro na cosmologia do povo, mais especificamente quanto ao manacô. Em um deles, o ‘patrão’ reteve o cartão de uma Madija. “Reteve tudo, pegou todo o dinheiro dela”, diz. O marido, alcoolizado, a agrediu. Os parentes da mulher a defenderam e devolveram a agressão. Em outros casos, há mortes desencadeando um ciclo de vinganças deslocado da prática do manacô, como se fosse uma doença autoimune: o sistema que mantém a organização do povo, também uma percepção de justiça, se volta contra o próprio povo como um código não escrito amaldiçoado. “É muito triste falar sobre isso, mas é o que acontece. Por isso aldeias acabam entrando numa espécie de colapso. Os parentes se matando. Essa tristeza, a saudade de quem morre, a falta de perspectivas. Quem sofre com uma morte violenta nunca esquece. Pode passar o tempo o que for”, relata Sula.
kariu mata a gente aqui na cidade e depois dizem que foi corda no pescoço
Em Eirunepé (AM), nos barracos do rio Juruá, a situação dos Madija acampados costuma ser dramática. Conforme Azai Madija, um ancião que vive na aldeia Mucuripe, já no município de Ipixuna, na TI do Médio Juruá, “kariu mata a gente aqui na cidade e depois dizem que foi corda no pescoço (suicídio) ou que foi briga entre a gente”. Seu Azai estava com a esposa doente, além de um neto. Sem forças para sair das redes, e com sintomas de malária, estavam sem alimentação há pelo menos dois dias. Localizado numa área que costuma ficar embaixo d’água quando o rio sobe, o acampamento com cerca de dez barracos estava tomado pelo lixo e pelos animais que acompanham as famílias – é praticamente impossível ver uma família Madija desacompanhada de macacos, araras, cachorros ou jabutis; mesmo maltrapilhos, os animais são enfeitados por seus companheiros indígenas de jornada e fazem parte da partilha do alimento que os grupos conseguem. Em Eirunepé ou Ipixuna não há um Distrito Especial de saúde Indígena (DSEI), reivindicação que os indígenas fizeram durante a 5ª Conferência Nacional de Saúde Indígena com o nome de DSEI Médio Juruá. Todavia, em Eirunepé, existe uma casa de Apoio à Saúde Indígena (Casai). Avisada pela antropóloga Rosilene Padilha, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), uma equipe da Casai se dirigiu ao acampamento e encaminhou os doentes ao hospital da cidade, além de entregar cestas básicas para o grupo. De fato, o diagnóstico de malária foi confirmado na idosa e na criança e o tratamento teve início.
Kiamã Madija explica que o grupo do acampamento havia chegado há uma semana em Eirunepé, vindo de bubuia pelo rio, que é quando os indígenas deixam a canoa ser levada pela correnteza, sem precisar acionar o motor de popa para economizar ou porque estão sem gasolina. “Viemos para pegar os benefícios. Kariu (o ‘patrão’) disse que perdeu o cartão. Procuramos Funai, mas lá está difícil de achar ajuda. Entender português é difícil”, explica Kiamã. Enquanto esperam por uma solução que não parece a caminho, esperam enfrentando a falta de alimentos, as doenças, a sujeira, as hostilidades da cidade e permanecem no barranco como se fossem imigrantes estrangeiros: sem entender de forma suficiente o idioma local, desprovidos de direitos, impossibilitados de voltar para os territórios tradicionais. A Casai, localizada em Eirunepé, atende por volta de seis mil Madija da Calha do Juruá, abrangendo os municípios de Itamarati, Ipixuna, Envira e Eirunepé. O DSEI responsável pela Casai é o do Médio Rio Solimões e afluentes, com sede em Tefé. Os Madija do Acre são atendidos pelos DSEI’s do Alto Rio Juruá e Alto Rio Purus.
O quadro se torna uma emergência de saúde pública subestimada pelas autoridades
Esta vacância de assistência à Saúde Indígena preocupa, entre outros fatores, porque no Brasil o suicídio é maior entre os povos indígenas. A população lidera os índices de suicídio e autolesões, mesmos em levar em conta as subnotificações, mas tem menos hospitalizações. Ou seja, com menos hospitalizações fica evidente a falta de assistência no socorro e no suporte específico e diferenciado à saúde mental dos indígenas. Em realidades de drástica vulnerabilidade social e dissociações ligadas a aspectos culturais, o quadro se torna uma emergência de saúde pública subestimada pelas autoridades.
Procure ajuda
Caso você tenha pensamentos suicidas, procure ajuda especializada como o CVV (www.cvv.org.br) e os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) da sua cidade. O CVV funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, e também atende por e-mail, chat e pessoalmente. São mais de 120 postos de atendimento em todo o Brasil.
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