11/01/2019

Poroya: o grande marinawa Tüküna

Grande liderança marinawa, curandeiro do povo Tüküna faleceu no domingo, dia 6. De acordo com a memória de seus familiares, Poroya estava com mais de 100 anos de idade.

Poroya foi uma grande liderança marinawa, curandeiro, do Povo Tüküna. Foto: Luís Costa

Poroya foi uma grande liderança marinawa, curandeiro, do Povo Tüküna. Foto: Luís Costa

Por Simonne Pegoraro, da Equipe CIMI Vale do Javari, com colaboração de José Rosha

“É um momento triste para o povo Tüküna”, que é conhecido como Kanamary. “Não só para os Tüküna do rio Itacoai, mas também para os Tüküna dos outros lugares. O mundo está parado pra nós. Hoje não se planta roça, não se vai à escola”, explica o professor Ninha Kanamary, da comunidade indígena Massapê.

Faleceu no domingo, dia 6, o Sr. Joseb Tavares Di Arrô, o Zé Poroya. Pelo documento oficial, tinha 79 anos. Mas de acordo com a memória de seus familiares, Poroya estava com mais de 100 anos de idade. Morava com sua esposa Marammaran, Ana Luzia Tavares Kanamary, na comunidade Massapê, no Rio Itacoai, Terra Indígena Vale do Javari.

Poroya foi uma grande liderança marinawa, curandeiro do povo Tüküna. Cuidou dos corpos e do espírito do povo Tüküna. “Foi uma semente para nosso Povo, dele surgiram mais lideranças para lutar”, diz o professor Ninha Kanamary da comunidade Massapê. “Ajudou muito na demarcação e no movimento indígena do Vale do Javari”, complementa Kora Kanamary, vereador.

“Ele gostava muito de dar nome às crianças. Dava o nome pelo sonho”, conta Ninha Kanamary.

Poroya foi a primeira pessoa que reuniu o povo em uma comunidade grande, porque antigamente era dividido por clãs, a partir do contato com a Funai. Depois foram surgindo as outras comunidades.

O povo Tüküna reconhece a liderança e o pensamento de Poroya e dos outros anciãos e anciãs da geração dele. Preocupa hoje, dizem, porque as lideranças da geração dele estão terminando e as novas lideranças que surgem têm outro pensamento. Um pensamento influenciado pela mudança que os kariwà (não indígenas) trazem pelo dinheiro e pela tecnologia, que deixa de lado as coisas da cultura Tüküna.

“A geração do Poroya era mais da nossa cultura. Poroya amava todo mundo, não só os filhos dele. Ele mandava fazer roça grande para que ele não tivesse fome, para que os netos não tivessem fome, para que a comunidade toda não tivesse fome. O pensamento dessa geração era assim. Agora os novos pensam em ter o dinheiro, o roçado, só para sua família”, salienta Ninha.

Poroya colaborou com a Fundação Nacional do Índio (Funai) para o contato com outros clãs Tüküna e com outros povos do Javari. Era um dos únicos da comunidade que acessava a cidade, beneficiado por esse trabalho com a Funai, o que levava sempre dividia com todos da comunidade.

“Ele era uma pessoa tipo nosso criador, deu a vida pelo povo”, comenta o professor Ninha.

“Agora, Poroya, desde o espaço sagrado dos Tüküna, continua a proteger e ensinar seu povo através de seu espírito, que participará das brincadeiras e que acompanhará caçadores e pescadores para que não falte comida, se comunicando com outros marinawas e inspirando novas lideranças para a luta”, diz Kora.

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