23/04/2007

O discurso de Bento XVI em Aparecida

Paulo Suess


 


No dia 13 de maio, na sessão inaugural dos trabalhos da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, em Aparecida, o papa Bento XVI vai pronunciar um discurso programático aos 266 participantes, dos quais 162 são membros e, destes, 92 são delegados escolhidos pelos respectivos episcopados. Às especulações em torno do conteúdo desse pronunciamento, Bento XVI praticamente já respondeu. Em seu discurso aos núncios apostólicos nos países da América Latina, no dia 17 de fevereiro de 2007, em Roma, que certamente ainda vai receber um revestimento teológico, o papa resume em poucas páginas preocupações e recados para as Igrejas latino-americanas e caribenhas (cf. www.vaticano.va [Bento XVI, Discursos, 2007]).


 


O dia 13 de maio é um dia carregado de simbolismos. Primeiro, pela abolição oficial da escravidão no Brasil (Lei Áurea, 1888), segundo, pela aparição de Nossa Senhora de Fátima (1917). Finalmente, o mesmo dia 13 lembra o atentado a João Paulo II, na Praça de São Pedro, de Roma, em 1981. A devoção mariana de Aparecida, o alinhamento com o antecessor, várias vezes citado no discurso aos núncios, e a passagem significativa pela Fazenda da Esperança, uma obra social empenhada na superação da escravidão de droga, álcool e Aids, e inspirada pelo Movimento dos Focolares, assumem esse simbolismo.


  


O que não pode ser dito simbolicamente e nas entrelinhas, o papa vai dizer, em seu estilo afável, através de palavras claras, curtas e explícitas, como mostra o pronunciamento aos núncios aos quais atribui “um ministério de comunhão eclesial e um serviço à paz e à concórdia na Igreja e entre os povos”. Ao enfatizar esse serviço, o papa faz uma velada advertência porque sabe que nem todas as nunciaturas são lugares onde se constrói a comunhão eclesial entre as Igrejas particulares e o Sucessor de Pedro ao qual, segundo as palavras do papa, “é confiada a responsabilidade de promover, juntamente com os pastores e com todo o povo de Deus, o diálogo e a colaboração com a sociedade civil, para realizar o bem comum”.


 


A seguir, procura-se resumir o discurso do papa em torno de cinco eixos (afirmações) e apontar para lacunas e perspectivas (discernimento) que representam um convite para uma contextualização mais profunda.


 


1. Objetivo


Recapitulação, continuidade e definição de prioridades


 


Afirmação: “A assembléia recapitula e dá seqüência às precedentes Conferências Gerais”, que serão enriquecidas com os “dons pós-conciliares” do Magistério Pontifício, disse o papa. Ele menciona particularmente a Exortação Apostólica Pós-Sinodal, de 1999, Ecclesia in América. Por causa da metodologia de trabalho imposta ao próprio Sínodo dos Bispos para a América (16.11. a 12.12.1997), que não permitiu a acolhida dos verdadeiros problemas que os bispos trouxeram de suas dioceses, a recepção da Ecclesia in América foi praticamente nula.


 


Discernimento: Os “dons pós-conciliares” devem ser procurados, sobretudo, na revelação, na fé viva do povo de Deus, nos desafios das sociedades particulares e do mundo globalizado, e no magistério latino-americano e caribenho, que está mais próximo às dores e alegrias do povo [Medellín (libertação), Puebla (participação) e Santo Domingo (inculturação)]. Só a partir dessa proximidade vai ser possível “definir as grandes prioridades e suscitar um renovado impulso à missão da Igreja a serviço dos povos latino-americanos nas circunstâncias concretas do início deste século XXI”, como o papa propõe aos núncios.


 


2. Desafios


Globalização, identidade, paz e desenvolvimento, liberdade religiosa


 


Afirmação: A partir do tema “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida”, o papa destaca alguns desafios da Igreja latino-americana e caribenha “inserida nas dinâmicas mundiais e cada vez mais condicionada pelos efeitos da globalização”. Diante dos desafios que ela apresenta, as nações afirmam com dificuldade a sua identidade e sua importância histórica no mundo de hoje, procurando consolidar a paz interna da própria nação e a paz e o desenvolvimento cultural e econômico na região mais ampla.


Nessa tarefa de uma maior harmonia, a Igreja oferece a contribuição do Evangelho. Para que a Igreja possa desenvolver “todas as suas potencialidades, em vantagem da sociedade e de cada pessoa humana” ela reivindica não somente a concessão da liberdade de credo, como algumas Cartas constitucionais rezam, mas o reconhecimento da liberdade religiosa, alicerçada nos princípios de autonomia e de colaboração. Uma correta formulação jurídica desse relacionamento entre Igreja e Estado deve considerar o papel histórico, espiritual, cultural e social da Igreja Católica na América Latina.


 


Discernimento: Nesses desafios muito genéricos não se reconhece a realidade latino-americana e caribenha. Assim como são apresentados, podem ser levantados em qualquer continente. Do apelo ao “papel histórico” da Igreja católica, pode-se quase deduzir a reivindicação de um tratamento privilegiado, o que é inadmissível num Estado moderno. Paga-se em todo o discurso o preço pela omissão de uma análise aprofundada da realidade. Aparecida deve recuperar a vista que, nos sinóticos, é o último e um dos mais significativos sinais de Jesus de Nazaré (cf. Mc 10,46; Mt 20,29; Lc 18,35).


 


3. Papel histórico da Igreja


Síntese feliz entre fé e cultura; o reconhecido trabalho assistencial aos pobres que deve continuar como uma prioridade fundamental


 


Afirmação: O papa constata em seu Discurso aos Núncios uma “feliz fusão entre a antiga e rica sensibilidade dos povos indígenas com o cristianismo e com a cultura moderna”. Em conseqüência dessa “feliz fusão” refuta a tese de “determinados ambientes (que) afirmam um contraste entre a riqueza e a profundidade das culturas pré-colombianas e a fé cristã, apresentada como uma imposição exterior ou uma alienação para os povos da América Latina”.


Bento XVI afirma que o encontro entre as culturas indígenas e a fé cristã “foi uma resposta interiormente esperada por tais culturas”. Esse encontro positivo “não deve ser negado, mas antes aprofundado, pois criou a verdadeira identidade dos povos da América Latina”.


Como prova dessa afirmação, o papa aponta para o fato de que “a Igreja Católica é a instituição que goza do maior crédito por parte das populações latino-americanas”. A Igreja é, e as pesquisas de opinião confirmam esse fato mencionado pelo papa, “estimada por causa do trabalho que realiza nos âmbitos da educação, da saúde e da solidariedade para com os mais necessitados. A assistência aos pobres e a luta contra a pobreza são e permanecem uma prioridade fundamental na vida das Igrejas na América Latina”. Nesse contexto, o trabalho assistencial da Igreja é apresentado como uma marca registrada desde os primórdios.


 


Discernimento: Essa parte do discurso é a mais frágil. Não leva em conta o acoplamento da primeira evangelização às estruturas de violência. A afirmação de que as culturas indígenas esperavam a Igreja Católica e sua mensagem da fé é historicamente sem provas documentais, teologicamente se aproxima a um certo providencialismo fundamentalista e, antropologicamente, é inadmissível. A cultura do conquistador e o cristianismo embutido nela destruíram os referenciais de identidade dos povos indígenas e não contribuíram para a construção de uma “verdadeira identidade” sobre uma supostamente “falsa identidade” anterior. O crédito, que a Igreja Católica hoje encontra entre os pobres, deve ser atribuído ao trabalho libertador pós-conciliar da pastoral, que rompeu com a missão colonizadora de muitos séculos.


Ao falar da “assistência aos pobres” e não da “opção pelos pobres”, percebe-se a mudança do enfoque. O leitor/ouvinte está lembrado da Mensagem para a Quaresma, de Bento XVI (2006), citada novamente na Nota Explicativa da Notificação de Jon Sobrino, com uma alusão à madre Teresa de Calcutá: “A primeira pobreza dos pobres é não conhecer Cristo”. Obviamente, confunde-se aqui os níveis (teológico, espiritual, sociológico, econômico) do discurso sobre a pobreza.


 


4. Atenções prioritárias ad intra


Seitas, secularismo, vocações, sacerdotes e religiosos, jovens, família


           


Afirmação: A partir do papel histórico da Igreja e de sua “presença tão consolidada”, deve-se prestar atenção:


– ao proselitismo das seitas; “deve-se refletir seriamente sobre as causas da atração das seitas”;


– à influência crescente do secularismo hedonista pós-moderno.


 “As comunidades são chamadas a consolidar a sua adesão a Cristo, para dar testemunho de uma fé amadurecida e repleta de alegria”; essa tarefa é facilitada pelo aumento das vocações sacerdotais e religiosas.


Deve-se acompanhar os jovens, com sua imensa potencialidade missionária e evangelizadora, e ajudar os sacerdotes, religiosos e religiosas para que perseverem na vocação que lhes é própria.


O matrimônio e a família merecem uma atenção prioritária. Ambos manifestam sinais de desabamento, que é facilitado pela legislação e por mudanças culturais de vários países onde se admite o divórcio, livres uniões e o adultério.


 


Discernimento: As “atenções prioritárias” mostram uma Igreja com preocupações da I Conferência Geral, do Rio de Janeiro (1955), muito voltada para si mesma. É a Igreja preocupada com territórios e números, não com sua essência missionária e com o diálogo com o mundo, como o Vaticano II delineou. Ao falar do “testemunho de uma fé amadurecida”, caberia ao menos uma menção honrosa aos mártires deste continente, desde o Vaticano II.


 


5. Outras temáticas ad extra


Migração, educação, formação, informação, leigos, movimentos


 


Afirmação: No item “outras temáticas” o papa menciona


– a migração ligada ao desabamento da família;


– a educação (escola);


– planos vocacionais para os seminaristas;


– a atenção aos valores e à formação da consciência;


– a formação de leigos maduros;


– a informação adequada da opinião pública sobre as principais questões éticas, em conformidade com os princípios do magistério da Igreja;


– presença eficaz no campo da comunicação, inclusive para enfrentar as seitas.


Os eclesiásticos, diz o papa, devem restringir-se ao seu papel estritamente pastoral e não gerir “agregações sociais ou políticas”, papel reservado aos leigos.


Em todas essas tarefas constituem “os movimentos eclesiais um válido recurso para o apostolado, mas devem ser ajudados a manter-se sempre fiéis ao Evangelho e ao ensinamento da Igreja, mesmo quando trabalham no campo social ou político”.


 


Discernimento: Falta no discurso uma teologia do laicato que poderá permitir repensar a estrutura ministerial da Igreja. Deixar as Comunidades Eclesiais de Base de lado e terceirizar as tarefas do laicato e da renovação espiritual para os movimentos, uns voltados mais para o poder, outros mais para o campo espiritual, com pouca afinidade com a caminhada e os contextos latino-americanos, parece arriscado para o futuro da Igreja. Sob o manto de uma ortodoxia rígida, de um elementarismo fundamentalista e saudosista, incapaz de ler os sinais do tempo, poderão nascer novos grupos cismáticos.


 


Assumir para redimir



 


A falta de uma análise pertinente da realidade induz ao casuísmo e a avaliações incorretas do passado, esquecimentos significativos no presente e esperanças providencialistas para o futuro. À categoria de “esquecimentos significativos” pertencem (além das questões já mencionadas do laicato, da mulher na Igreja, dos ministérios e das CEBs) as questões do desemprego e da ecologia, do diálogo inter-religioso, do ecumenismo, do diálogo com o mundo, a causa dos povos indígenas e a questão específica da fé vivida na grande cidade (urbanização). Nas suas origens, a Igreja era a religião da grande cidade. Como viver a fé nesse mundo urbano, onde os shopping centers têm entradas como catedrais e os edifícios altos dos bancos arranham o céu? Nesse mundo onde vivem milhares de pessoas na sombra dos palácios de vidro e das casas bancárias, nas favelas, nos cortiços e nas ruas? O lugar da Igreja, de sua diaconia intercultural e de sua presença gratuita está reservado ao lado daqueles que vivem à sombra e à margem, dos que não têm voz, mas que têm muito a contar.


 


Os delegados de Aparecida devem-se lembrar da metodologia de Santo Irineu, tantas vezes citada, sobretudo em Puebla (n. 400, 457, 469), que a redenção da realidade e das culturas pressupõe a sua assunção, uma assunção evangélica (cf. os discursos de Jesus na sinagoga de Nazaré, sobre as bem-aventuranças e o juízo final), sem casuísmos. Assunção, porém, não significa identificação, mas vinculação. Essa vinculação está expressa na “opção pelos pobres”, na assunção das lutas pela redistribuição dos bens da terra, na inculturação nos contextos socioculturais diferentes, e no reconhecimento do diferente sem indiferença. A missão exige o reconhecimento dos carismas da Igreja local.


 


Somos discípulos-missionários para testemunhar, no meio dos crucificados, um Deus crucificado e ressuscitado, que fez o ser humano à sua imagem e semelhança, e que se deu “para nós” e “para todos”. Como sublinhar esse aspecto de doação, de existência para os outros? O Evangelho nos responde: pelo reconhecimento do outro, pela gratuidade da presença, pela diaconia eucarística, através da opção pelos pobres, na luta e na contemplação, transfigurando em gratuidade a obsessão pela utilidade, visibilidade representativa e necessidade. Essa Igreja discípula-missionária se tornará uma instituição mais vulnerável, mas também uma instância de apelação, de contestação, de reconciliação e de graça, próxima ao carpinteiro de Nazaré e filho de Deus. Mas, se não queremos confundir o fundamento da fé com seu revestimento cultural, a filiação divina deve ser expressa não somente através de conceitos da ontologia grega, mas em muitas línguas e linguagens, inclusive através de metáforas latino-americanas. Para isso: “Sua benção Santo Padre”!


 

Fonte: Paulo Suess (Assessor Teológico do Cimi)
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