06/11/2006

Segundo julgamento do caso Cañas começa hoje

Está marcado para as 9 horas da manhã desta segunda-feira (10 horas em Brasília), o  julgamento de José Vicente da Silva, acusado de ser um dos executores do assassinato do missionário jesuíta Vicente Cañas Costa, em 1987.

Às 8h30 (em Cuiabá) ocorreu uma celebração na entrada do edifício da Justiça Federal na capital mato-grossense, onde será realizado o julgamento.  

Este é o segundo julgamento relacionado ao caso. O primeiro júri popular ocorreu também em Cuiabá, entre o dia 24 de outubro e a madrugada do dia 29. Os jurados definiram por 5 votos a 2 que houve assassinato, mas inocentaram o réu Ronaldo Antônio Osmar, ex-delegado da cidade de Juína. O procurador Mario Lucio Avelar, do Ministério Público Federal em Cuiabá, responsável pela acusação neste caso, recorreu da sentença ao Tribunal Regional Federal, em Brasília.

Seis acusados
Havia seis acusados pelo assassinato de Cañas. Dois deles faleceram, dois tiveram o crime prescrito por terem chegado aos 70 anos de idade e outros passam por júri popular.

Através de recurso previsto na legislação processual, a defesa fez com que se desmembrasse o julgamento dos dois acusados pelo assassinato que têm menos de 70 anos. Ambos os réus são julgados sob a acusação de homicídio duplamente qualificado, mediante pagamento e em emboscada.

Quem era Canãs?
Vicente Cañas viveu com os Enawenê Nawê por dez anos. Participou dos primeiros contatos do grupo com não-índios, em 1974. Ele os acompanhava em suas atividades tradicionais de pesca, agricultura e na vida cotidiana. Em uma região onde contaminação por verminoses era comum, atuou na prevenção destas doenças. Manteve constantes vacinações para prevenir doenças infecto-contagiosas como sarampo, que dizimaram tantos outros grupos indígenas no Brasil. A população dos Enawenê-Nawê era de 97 pessoas quando foram contatados. Hoje, são 430.



Madeira e terras eram cobiçadas pelos fazendeiros que se instalavam na região. Cañas lutava pela demarcação das terras tradicionais e pelo respeito à cultura tradicional dos Enawenê-Nawê. Ele participava oficialmente de um grupo de trabalho da Funai para identificação do território indígena. Por esta razão, a competência para o julgamento dos acusados foi transferida para a Justiça Federal.


Cañas fez parte do primeiro grupo de missionários que realizou uma forte mudança na linha de ação missionária indigenista, ao optar por uma prática de convivência com um povo distinto com atitudes de escuta, participação nas atividades do dia-a-dia,  solidariedade, respeito e liberdade religiosa, o que é chamado de inculturação.
 
Violência
Ameaçado de morte por seu comprometimento com a sobrevivência do povo Enawenê-Nawê, Vicente Cañas foi vítima da ambição e violência dos fazendeiros, que o mataram a facadas em 1987, quando se preparava para atender a uma aldeia, levando medicamentos. Após ser morto, foi abandonado à porta de seu barraco, pelos assassinos que fugiram pelas picadas abertas na mata, em direção à fazenda de um dos mandantes.


Seu corpo foi encontrado cerca de quarenta dias depois da morte, por dois missionários do Cimi, com o abdômen perfurado. Seu barraco, em desordem, apresentava sinais de luta; seus óculos foram quebrados por uma porretada em seu rosto. Seus instrumentos de trabalho, como o cesto onde levava medicamentos, além de lanterna, espingarda e facão, já estavam na voadeira (barco) com a qual iria até as aldeias, como havia avisado por rádio dias antes do assassinato.



O inquérito policial tramitou durante seis anos. Apesar de ser voz corrente na região o envolvimento dos acusados no crime, a população de Juína e das aldeias indígenas conviveram e ainda convivem com medo de represálias e atentados às suas vidas, calando-se em relação aos mandantes e executores deste crime. A revelação do envolvimento dos acusados só se deu por testemunhos de indígenas da etnia Rikbaktsa (canoeiros), habitantes das terras vizinhas à dos Enawenê-Nawê.

Fonte: Cimi
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