• 14/02/2011

    Indígenas organizam-se na comunidade Nossa Senhora do Livramento

    Por J. Rosha

    Assessoria de comunicação Cimi Norte 1

    União. Esta é a palavra de ordem das mais de 140 famílias indígenas que moram na comunidade Nossa Senhora do Livramento, no rio Tarumã – localizada a cerca de dez quilômetros da cidade de Manaus (AM). Eles são Baré, Mura, Tukano, Tariano, Dessano, Deni, Apurinã e Miranha – povos originariamente do Alto Rio Negro, Médio Solimões, rios Purus e Madeira que migraram para Manaus em busca de melhores condições e acabaram se estabelecendo no local.

     

    No último domingo (13) cerca de cem moradores se reuniram no centro comunitário da União dos Povos Indígenas de Livramento, Tarumã Mirim e Tarumã Aço (Upilta), para discutir estratégias de fortalecimento da organização e da comunidade, bem como para planejar a festa comemorativa da Semana dos Povos Indígenas. Na reunião estiveram presentes representantes do Cimi Regional Norte I.

     

    A festa vai será realizada de 21 a 23 de abril e reunirá indígenas de Manaus e de várias comunidades dos rios Negro e Tarumã. A programação inclui apresentação de danças tradicionais, campeonatos esportivos, entre outras atividades. Uma das atrações será a banda Salazar – único grupo musical não indígena convidado para o evento. 

     

    De acordo com o cacique Astélio Martins Thomás, também coordenador da Upilta, os indígenas estão buscando desenvolver projetos de sustentação econômica uma vez que a maioria deles não tem emprego e vem contando, há algum tempo, com auxílio do poder público. O turismo, segundo ele, é uma das atividades que a organização está incentivando na busca por auto-sustentabilidade. 

     

    Histórico – A comunidade Nossa Senhora do Livramento foi fundada em cinco de agosto de 1973, por pessoas ligadas ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais. O primeiro indígena a se fixar na comunidade foi o Baré Silvano Thomás. 

     

    Ele conta que saiu de sua aldeia, no município de Santa Isabel do Rio Negro, e morou em Manaus de 1975 a 1983, quando, então, passou a morar na comunidade Nossa Senhora do Livramento. Durante muitos anos ele foi o professor na escola do local e hoje se dispõe a contribuir com o fortalecimento da identidade étnica ensinando o Nheengatu (língua geral). Essa língua surgiu no século XVII na Amazônia, criada por missionários como forma de facilitar a comunicação entre os povos indígenas e não indígenas, em razão da diversidade de línguas existentes na região. 

     

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  • 14/02/2011

    Cacique do povo Tupinambá em prisão domiciliar

    Desde a noite da última sexta-feira (11), a cacique Tupinambá Maria Valdelice de Jesus (Jamapoty), cumpre prisão domiciliar. Valdelice estava no presídio de Itabuna desde o dia 3 de fevereiro, acusada injustamente de liderar quadrilha e comandar de “invasões” à propriedades rurais na região de Olivença, sul da Bahia. Em sua volta para casa, o procurador Israel Nunes Silva a acompanhou.

     

    Valdelice deve permanecer em casa até que novas medidas sejam tomadas por seus advogados. Os familiares da cacique ficaram bastante satisfeitos com a medida e esperam que os atos de criminalização de lideranças por parte do poder público tenham fim.

    Criminalização

     

    A região é marcada por um longo processo de agressões e criminalização da luta desenvolvida pelos Tupinambá para recuperar a terra que lhes foi usurpada ao longo da história de colonização do Brasil. Em 2008, durante uma tentativa de prender o cacique Babau, da Serra do Padeiro, a Polícia Federal ingressou na aldeia e destruiu a escola da comunidade, além de agredir Babau, seu irmão Jurandir Ferreira e o ancião Marcionilio Guerreiro com tiros de borrachas. Dois dias depois, cerca de 130 agentes voltaram à comunidade, agindo com forte e desproporcional aparato policial. Na ocasião, destruíram móveis, queimaram roças e feriram dezenas de Tupinambá. Em 2009, novas arbitrariedades foram cometidas. Cinco indígenas, entre eles uma mulher, também da Serra do Padeiro, foram constrangidos e torturados, inclusive com aplicação de choques elétricos, por agentes da Polícia Federal, durante ação ilegal realizada na aldeia. Em 2010, Rosivaldo Ferreira da Silva, o cacique Babau, seu irmão Givaldo Jesus da Silva, sua irmã Glicéria Jesus da Silva e o filho desta ficaram aprisionados por cerca de quatro meses em presídios da Bahia e do Rio Grande do Norte. O cacique Babau e seu irmão Givaldo chegaram a ser transferidos e ficaram presos, por cerca de dois meses, no presídio federal de segurança máxima, em Mossoró, RN, algo totalmente inusitado para o caso. Glicéria foi detida, juntamente com seu filho de apenas dois meses na ocasião da prisão, quando desembarcava no aeroporto de Ilhéus, um dia após ter se reunido com o presidente Lula, durante reunião da Comissão Nacional de Política Indigenista, em Brasília.

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  • 12/02/2011

    Sexto aniversário do assassinato de Irmã Dorothy Mae Stang, NDdN

    Irmãs e irmãos em Jesus Cristo,

    querido povo de Deus de Anapu e da Transamazônica,

     

    No dia 12 de fevereiro de 2005 o batismo na água e no Espírito Santo (cfr. At 1,5) de Irmã Dorothy Mae Stang e sua consagração a Deus como religiosa culminaram em seu batismo de fogo e de sangue. As fotos da irmã estendida na estrada nos mostram como o sangue que se esvaiu das perfurações mortíferas impregnou a terra do PDS "Esperança". Irmã Dorothy completou sua vida dedicada aos pobres e à Amazônia numa última e total doação. A vida lhe foi tirada pelos adversários dos Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDS). Completou na sua carne "o que falta às tribulações de Cristo" (Col 1,24). Associou-se ao Sangue do Senhor, símbolo e realidade de seu amor levado até ao extremo.

     

    "Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! Um batismo eu devo receber, e como estou ansioso até que isto se cumpra" (Lc 12,49-50).

     

    Ao celebrarmos hoje o aniversário do assassinato, creio que não haja melhor referência bíblica para compreendermos a missão e o martírio de nossa Irmã. Os dois versículos do Evangelho de São Lucas nos remetem à VI Assembléia do Povo de Deus no Xingu realizada em novembro de 2009. Foi o lema daquele grande encontro que reuniu representantes de toda a Prelazia para elaborarmos as linhas e diretrizes que orientam nossa ação evangelizadora e pastoral até 2014. Irmã Dorothy, sempre participou de nossas assembléias. Assim a carta dirigida a todos os irmãos e irmãs que caminham conosco no Xingu não deixa de ser um reflexo de sua convicção: "Queremos ser uma Igreja engajada na construção do Reino de Deus, uma Igreja samaritana que abre seu coração aos que sofrem, mas também uma Igreja profética que denuncia com vigor as agressões e o desrespeito à dignidade e aos direitos humanos e se opõe a projetos e programas que destroem o lar que Deus criou para todos os povos."

     

    A preocupação com a dignidade e os direitos humanos sempre norteou nosso engajamento em nome do Evangelho. Entendemos que a luta em favor da vida dos povos desta região nunca poderá ser separada da defesa da Amazônia como um todo: suas florestas, suas águas, sua maravilhosa biodiversidade, pois essa Amazônia é a garantia da sobrevivência física e cultural dos povos que nela habitam. Temos certeza de que o cuidado, o zelo com a dádiva divina da Criação faz parte do anúncio e do testemunho do Evangelho. Já em 1990 os bispos do Pará e Amapá deploraram "a sangria da Amazônia" que "já chega ao extremo e a criação de Deus geme no estertor da morte“. Alertaram que os males que afligem a região podem redundar em um irremediável desastre ecológico com conseqüências que se tornam "catastróficas para todo o ecossistema e ultrapassam, sem dúvida, as fronteiras do Brasil e do Continente”[1].

     

    Em setembro de 2007 os bispos de toda a Amazônia Brasileira se reuniram em Manaus e mais uma vez vieram a público com um documento que se baseia na primeira leitura desta celebração: "A criação espera ser libertada da escravidão da corrupção, em vista da liberdade que é a glória dos filhos e das filhas de Deus. Com efeito, sabemos que toda a criação geme até o presente" (Ro 8,21-22). Os pastores da Amazônia lamentam que "um suposto ‘desenvolvimento para a Amazônia’ têm gerado devastação das florestas, exploração dos seus recursos naturais, sem avaliar as consequências. É um processo de desenvolvimento que oprime a natureza e os seres humanos, pois está fundado sobre a perspectiva economicista, ligada ao lucro acima de tudo, sem responsabilidade social e ecológica. (…) A salvação da humanidade inclui a salvação do mundo criado. Isso significa pensar e agir por um desenvolvimento adequado e participativo de todos"[2].

     

    Estamos hoje congregados aqui, não apenas para recordar a Irmã que  barbaramente foi tirada de nosso convívio e agradecer-lhe a coragem com que sempre defendeu a Amazônia e seus povos. O principal motivo de estarmos celebrando o Sexto Aniversário de sua morte é pedir as graças de Deus para continuarmos firmes e corajosos na luta por um mundo em que reinam a justiça e a paz e se respeite o meio-ambiente. Queremos também avaliar o presente momento e nos perguntar como ficou o legado que Irmã Dorothy deixou para todos nós. Guardo comigo a última entrevista que ela concedeu a um jornalista em 2 de fevereiro de 2005, exatos 10 dias antes de ser assassinada. Dorothy confessou naquele último colóquio com a mídia: "O nosso povo anda muito angustiado (…). Os fazendeiros e os madeireiros estão com vários pistoleiros espalhados pelo PDS. Eles invadem os lotes, apontam armas e ameaçam matar o nosso povo (…) É um sofrimento muito grande. Eu acredito muito em Deus e sei que ele está comigo. Mas prefiro falar de vida e não de morte. O nosso povo tem um projeto de uma vida melhor com o PDS. Não tenho tempo de pensar em coisa ruim. Mas, se eles me matarem, eu gostaria de ser enterrada em Anapu, junto daquele povo humilde. O Pará é a minha terra".

     

    Seis anos se passaram desde que Irmã Dorothy, através dos meios de comunicação dirigiu estas suas últimas palavras ao mundo. Pergunto-me hoje: O que realmente mudou? Qual é a realidade que as famílias assentadas no PDS estão vivendo? Uma coisa eu sei: elas continuam angustiadas. Mas o pior sofrimento é darmo-nos conta de que muitas pessoas que, quando Dorothy estava viva, apoiaram sua luta em favor dos pequenos, em favor do povo dos PDS, hoje não andam mais conosco. Pelo contrário, encontram-se do lado oposto. Para defender interesses particulares ou de um grupo tentam matar o sonho da Irmã Dorothy e não hesitam em trair os ideais pelos quais ela derramou o seu sangue.

     

    "Sabemos que toda a criação geme"

    "Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!"

     

    Não é o fogo das queimadas!

    É o fogo que faz arder o nosso coração para zelarmos pela dádiva divina da criação e, em nome de Deus, defendermos os direitos e a dignidade dos povos da Amazônia. Amém.

     

    Anapu, PA, 12 de fevereiro de 2011.

     

    Erwin Krautler

    Bispo do Xingu

     



    [1] Encontro dos bispos da Amazônia, Icoaraci 1990, Documento "Em defesa da Vida na Amazônia".

    [2] Manaus 2007, "Discípulos Missionários na Amazônia", 28-29.

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  • 12/02/2011

    Moção de Repúdio e Solidariedade

    Nós, dirigentes dos movimentos sociais e entidades abaixo citadas, participantes da III  Plenária Nacional da Via Campesina Brasil, realizada entre os dias 09 a 12 de fevereiro, na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema, SP.

     

    Repudiamos:

     

    – A prisão arbitrária, em 03 de fevereiro de 2011, da cacique Tupinambá, Maria Valdelice de Jesus (Jamapoty), da Aldeia Itapoã, localizada no município de Ilhéus, no estado da Bahia, acusada, injustamente, de liderar quadrilha e comandar de “invasões” à propriedades rurais da região.

     

     – O histórico de agressões e criminalização das lideranças do povo Tupinambá. Sabemos que a prisão da Cacique Valdelice não é a primeira agressão e o primeiro caso de criminalização sofrida pelos Tupinambá. A região é marcada por um longo processo de agressões e criminalização da luta desenvolvida pelos Tupinambá para recuperar a terra que lhes foi usurpada ao longo da história de colonização do Brasil. Em 2008, durante uma tentativa de prender o cacique Babau, da Serra do Padeiro, a Polícia Federal ingressou na aldeia e destruiu a escola da comunidade, além de agredir Babau, seu irmão Jurandir Ferreira e o ancião Marcionilio Guerreiro com tiros de borrachas. Dois dias depois, cerca de 130 agentes voltaram à comunidade, agindo com forte e desproporcional aparato policial. Na ocasião, destruíram móveis, queimaram roças e feriram dezenas de Tupinambá. Em 2009, novas arbitrariedades foram cometidas. Cinco indígenas, entre eles uma mulher, também da Serra do Padeiro, foram constrangidos e torturados, inclusive com aplicação de choques eletrétricos, por agentes da Polícia Federal, durante ação ilegal realizada na aldeia. Em 2010, Rosivaldo Ferreira da Silva, o cacique Babau, seu irmão Givaldo Jesus da Silva, sua irmã Glicéria Jesus da Silva e o filho desta ficaram aprisionados por cerca de quatro meses em presídios da Bahia e do Rio Grande do Norte. O cacique Babau e seu irmão Givaldo chegaram a ser transferidos e ficaram presos, por cerca de dois meses, no presídio federal de segurança máxima, em Mossoró, RN, algo totalmente inusitado para o caso. Glicéria foi detida, juntamente com seu filho de apenas dois meses na ocasião da prisão, quando desembarcava no aeroporto de Ilhéus, um dia após ter se reunido com o presidente Lula, durante reunião da Comissão Nacional de Política Indigenista, em Brasília.

     

    Nos solidarizamos:

     

     – Com a Cacique Valdelice, que enfrenta, nesse momento, com o seu aprisionamento arbitrário, as conseqüências da luta do seu povo.

    – Com a luta do povo Tupinambá pela recuperação de suas terras tradicionais.

     

    E exigimos:

     

    – A libertação imediata da Cacique Valdelice e a interrupção definitiva do processo de agressões e criminalizações ao povo Tupinambá. 

     

    Guararema, SP, 12 de fevereiro de 2011.

     

    Associação Brasileira de Estudantes de Engenharia Florestal – ABEEF

    Conselho Indigenista Missionário – Cimi

    Comissão Pastoral da Terra – CPT

    Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil – FEAB

    Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB

    Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA

    Movimento das Mulheres Camponesas – MMC

    Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST

    Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais – PPA

    Pastoral da Juventude Rural – PJR

     

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  • 11/02/2011

    Nota Pública da CPT

    A CPT – Comissão Pastoral da Terra Xingu – Anapu/Altamira, em conjunto com os movimentos sociais subscritores, por ocasião do 6º aniversário do assassinato de Ir. Dorothy, vem, a público, repor a verdade dos fatos e denunciar a postura totalmente divorciada dos interesses dos trabalhadores excluídos dos assentamentos de Anapu.

     

    O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Anapu com apoio da FETAGRI de Altamira e Prefeito de Anapu tentaram se aproveitar e utilizar para seus interesses, um grupo de trabalhadores rurais que ocupam ilegalmente parte da área de reserva legal do Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança em Anapu-PA.

     

    Lembramos aqui que:

     

    A situação começou quando, no dia 10 de janeiro passado, os trabalhadores, assentados legalmente no PDS, passaram a bloquear o tráfego de caminhões dos madeireiros na principal vicinal de acesso ao referido assentamento, solicitando a presença da Superintendente do INCRA, Sra. Cleide Souza para ouvir suas reivindicações, quais sejam:

     

    – Construção de Guaritas com vigilância nos acessos ao PDS para coibir a extração ilegal de madeiras;

    – Aceleração no processo de vistoria para retomada das áreas ocupadas ilegalmente e retirada dos ocupantes da área de reserva legal com consequente remanejo dos mesmos para locais em que podem ser assentados.

     

    No dia 18 de janeiro a Superintendente reuniu com os trabalhadores, comprometendo-se em atender a pauta reivindicada. Todavia, ao retornar para Anapu, no km 8 da Vicinal do Santana, teve sua passagem bloqueada pelo grupo manobrado pelo sindicato, que não desejava a colocação de guarita, haja visto que não somente ocupam irregularmente a área como extraem madeira ilegalmente do PDS. A Sra. Cleide só pode prosseguir viagem após algumas horas e sob a promessa do grupo ser ouvido pelo Ouvidor Agrário Nacional, não obstante tais pessoas já terem negociado exaustivamente com o INCRA, mas em razão de não terem seu pleito ilegal atendido, teimavam em prosseguir sob o comando espúrio do ex-presidente do STTR e hoje presidente da Câmara de vereadores, Luiz Sena; de Manoel de tal, atual presidente do STTR; da Sra. Jaqueline, secretária da associação dentro do PDS, de Josildo, atual vice-presidente do STTR e de uma associação dentro de um projeto de assentamento, todos com apoio ostensivo do prefeito de Anapu e presidente do Consórcio Belo Monte, Francisco de Assis conhecido como “Chiquinho do PT.”

     

    A audiência pública então solicitada por esse grupo foi realizada no dia 25 de janeiro de 2011 no galpão da Igreja Católica em Anapu denominado Centro Cultural Dorothy Stang, contando com a presença do Ouvidor Agrário Desembargador Gercino – OAN, representante da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, do INCRA, Ministério Público Federal, polícias Federal, Força Nacional dentre outros.

     

    Nessa ocasião, foram ouvidas, por todos os presentes, as incitações feitas pelos senhores Josildo e Luis Sena, que gritavam para o povo responder se queriam a CPT e as irmãs de Notre Dame, o estimulando a responder “Fora”. Lembrando o calvário de Jesus Cristo, quando os romanos perguntavam ao povo quem queriam que fosse solto, se Jesus ou Barrabás.

     

    Ainda nessa audiência pública esse grupo, liderado por Josildo e Luis Sena, que inclusive foi notificado pelo INCRA a deixar as terras por facilitar a retirada de madeira ilegal aos madeireiros, fez acusações gravíssimas aos membros da Comissão Pastoral da Terra, alguns chegando a afirmar que o coordenador da CPT, Padre Amaro não devia se meter e deveria parar de denunciar, junto com trabalhadores, a extração ilegal da madeira ao INCRA e ao Ministério Público Federal, e que devia parar de perseguir pedindo fiscalização por parte do Órgãos nas entradas das vicinais do PDS Esperança.

     

    O prefeito de Anapu Francisco de Assis, conhecido por “Chiquinho do PT” tem adotado postura contrária ao desenvolvimento sustentável da região, fazendo coro com os madeireiros, tendo inclusive como vice prefeito o madeireiro e sudanzeiro Délio Fernandes, mencionado no inquérito que apurou a morte da Irmã Dorothy, como aquele que tentou ajudar na fuga de dois dos envolvidos, Tato e Bida.

     

    Chiquinho do PT, além de prefeito, é o presidente do Consorcio Belo Monte, e sua postura é tão favorável aos madeireiros que em 2009 pressionou a então governadora do Pará, Ana Julia Carepa, também do PT, a pedir a saída do gerente do escritório do IBAMA, tudo porque esse gerente trabalhava intensamente na fiscalização, atuando fortemente contra tudo e todos que agiam ilegalmente. Em uma dessas, 7 caminhões transportando madeiras ilegais foram apreendidos. O dono? O vice prefeito de Anapu que recebeu uma multa de mais de 1 milhão de reais. Absurdamente não somente o pedido da governadora fora aceito, como a jurisdição do IBAMA em Anapu que antes pertencia a Altamira, passou a Belém.

     

    Felizmente, nessa audiência pública do último dia 25 de janeiro, a verdade veio a tona, e esse grupo, liderado pelos Josildo, Luis Sena, Manoel e Chiquinho do PT, foi desmascarado e os pleitos da CPT foram atendidos porque pautados pela legalidade.

     

    A Comissão Pastoral da Terra externa sua preocupação com a falta de escrúpulos de pessoas que não hesitam em usar, como massa de manobra, pessoas pobres e ingênuas, para objetivos nada nobres, como é o caso da construção da Hidrelétrica de Belo Monte, onde grupos fazem pressão orquestrados por ambições desmedidas de quem não ouve os apelos do povo pobre da região, os argumentos dos cientistas e juristas, que apontam para consequências nefastas sobre o povo excluído da divisão das riquezas e que será expulso de suas terras.

     

    Registramos que a CPT não tem qualquer vinculação político/partidária e seu trabalho se pauta exclusivamente em apoiar e reivindicar os direitos dos trabalhadores da terra por fidelidade a Deus e aos pobres da terra.

     

    Repudiamos essa tentativa espúria de criminalizar o trabalho do Pe. Amaro, coordenador da Comissão Pastoral da Terra, da Irmã Jane e Irmã Kátia, religiosas da mesma congregação de Dorothy.

     

    Infelizmente assistimos a reedição do que aconteceu com Irmã Dorothy em 2004. Esta ação de Josildo, Luis Sena e Chiquinho do PT nos faz lembrar as ações daqueles que pregavam abertamente contra a Irmã, chegando a ser considerada como persona non grata no município de Anapu só porque, como agente da CPT, denunciava as violações dos direitos dos trabalhadores rurais, os crimes de grilagem de terras públicas e ambientais, especialmente a extração ilegal de madeiras e cobrava que fosse feita a reforma agrária naquelas terras.

     

    Por contrariar os interesses dos chamados sudanzeiros, madeireiros, grileiros e seus asseclas, foi assassinada, cruel e covardemente, em 12/02/2005.

     

    Hoje é  Pe. Amaro, Irmã Jane e Irmã Kátia, que ouvem as incitações semelhantes às que faziam contra irmã Dorothy.

     

    Quem mudou?

     

    Precisamos olhar a história, os fatos são recentes e precisamos voltar nossos olhos para o que aconteceu em Anapu.

     

    Lembramos aqui o dia 28/10/2008 quando ocorreu mais uma tentativa de grilagem das terras do lote 55, quando um dos acusados do assassinato de Ir. Dorothy, que respondia em liberdade, voltou à cadeia no final do mesmo ano por ter tentado mais uma vez se apossar das terras. Esta última tentativa  aconteceu em uma reunião no INCRA quando ele convocou os trabalhadores rurais que moravam no lote, pagou suas passagens e a estadia na cidade, tudo com intuito de convencê-los de que era proprietário das terras. A reunião foi registrada em ata. No documento, fica claro que “Taradão” declarou ser proprietário da área e propôs aos trabalhadores a divisão da mesma, para que cada família ficasse com uma pequena parte e os dois terços restantes fossem liberados para exploração econômica pelo fazendeiro. Sobre este episódio, Taradão responde ao processo de número 2009.39.03.000016-4 tramita na Justiça Federal em Altamira/PA.

     

    Esperamos que desta vez o Governo Federal não chegue tarde demais e que atue no sentido de conferir segurança não somente aos agentes da Comissão Pastoral da Terra, mas principalmente dos trabalhadores que querem a garantia de seus direitos e que não se vendem por trinta moedas de prata.

     

    Os trabalhadores do PDS são os verdadeiros defensores da floresta, do Projeto de Desenvolvimento Sustentável criado pelo Governo Federal. O INCRA tem trabalhado, mas ainda falta muito.

     

    As terras públicas precisam ser destinadas para a reforma agrária. Os grileiros, criminosos que comercializam e se apropriam ilegalmente das terras da União precisam ser punidos. O desmatamento ilegal precisa ser, efetivamente, coibido.

     

    Ressaltamos o esforço e o trabalho do INCRA em destinar áreas que estavam nas mãos dos grileiros para a reforma agrária, em colocar procuradores para trabalharem na região, mas ressalvamos que precisa avançar mais e de forma mais rápida para que tragédias, como a ocorrida no dia 12 de fevereiro de 2005 não se repitam e para que o povo tenha fé e confiança que a verdade sempre triunfará.

     

    “Deus ouve o clamor do seu povo e está presente na luta dos trabalhadores”

    (Êxodo 3, 7-10)

     

    Comissão Pastoral da Terra Xingu – Anapu/Altamira

     

    Em apoio assinam:

    Movimento Xingu Vivo para Sempre, Comissão de Justiça e Paz da CNBB Regional Norte II, Prelazia do Xingu, Movimento Mulher, MAB, Via Campesina, MPA, Conlutas

     

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  • 11/02/2011

    Report No. 950: Guarani movement in South Brazil growing stronger

    (original portuguese text)

    About 300 people participated, from 4 to 7 February, in the Guarani Leadership Meeting and in the meeting of the Council of the Organisation of Guarani People in the state of Rio Grande do Sul. There were 200 indigenous and more than 100 other participants like supporters of the cause, social movements and supportgroups.

    The land tenure situation, the restructuring of FUNAI (National Foundation for Indigenous Affairs) and indigenous health care were the main points of concern and received most emphasis in the meeting. On land tenure, the most worrisome aspect is the lack of demarcation as the majority of the Guarani lands in Rio Grande do Sul is not demarcated. But demarcated areas face problems as well: they are limited to very small areas. The third issue is that many fazendeiros (large scale farm interests) remain on indigenous lands.

    Regarding the restructuring of FUNAI, the indigenous people feel the lack of dialogue from the official indigenist agency in relation to measures being taken as well as to the restructuring process of the agency. There has also been a total lack of information on the restructuring of the health care system. This complaint addresses the lack of explanation about what will change, with the transfer of health care from the National Health Foundation (FUNASA) to the Special Secretariat for Indigenous Health (SESA).

    Major infrastructure projects

    The Federal Program for Acceleration of Growth (PAC) also has a powerful impact on the indigenous peoples in the south. The main projects are duplications of roads, which impact about ten indigenous areas, and the construction of small hydroelectric plants (PCHs), which affect the Estrela Velha and Salto do Jacuí lands.

    In the opinion of the vice president of CIMI, Roberto Liebgott, who participated in the meetings, he perceived greater participation in the debates. "I noticed a great interest of the Indigenous in the discussions, and in the referral actions. I believe there is a growing empowerment of the indigenous Guarani movement in the south, primarily around the Council of Association of the Guarani people, "he said.

    Below is the final document:

    Final Document: Meeting of the Guarani Leadership and the Council of Association of the Guarani People in Rio Grande do Sul

    The leaders of 23 villages Guarani villages in Rio Grande do Sul met with the Council of Association of the Guarani People – CAPG / RS, (Conselho de Articulação do Povo Guarani) on days 4 to 7 of February, 2011, in the municipality of São Gabriel. On this date we remember the massacre of thousands of our relatives and the death Sepé Tiaraju committed by Spanish and Portuguese soldiers in the year 1756. There our Karai and Kunhã Karaí (religious leaders) prayed to Ñhanderu for relatives who died fighting for our land.

    In the meeting we discussed various issues of concern to our communities, as the demarcation of our lands, the changes in the management of indigenous health care, the restructuring of FUNAI, the impacts of large projects on our lands and communities, such as the duplication of federal highways BR-116 and 290, a differentiated education system in our villages, and policies to support our agriculture and the sustainability of our families.

    On all these issues, after evaluating the situation in our villages, we feel that there is still much lacking to ensure our rights as defined by the Federal Constitution, by international treaties and laws directed at indigenous peoples. The main delay is still the demarcation of our lands. Our experience has been of processes already completed on paper, but the villages continue to experience trouble because Funai does not remove the occupiers from our lands. There are even situations that families are in very precarious situations, forced to live in shacks of tarpaulins, camped on the edge of roads. In addition to this, we are always threatened with eviction by non-indigenous economic development enterprises. This is all because the government does not demarcate our lands.

    And all this happens to our people who previously had a large territory, but which was transformed into cities and states of southern, southeastern and central west of Brazil, and countries of Argentina, Paraguay, Bolivia and Uruguay. They divided the territory and drove us out. Today we are tightly encircled by towns and farms in all of the places. This situation causes us much sadness.

    We are tired of living on the roadside. We are tired of seeing our children, our wives, our elders risking their lives to fetch water for washing, to sell handicrafts on the roadside of the highways. We are tired of living without our land. We demand respect. We told this to the representatives of the FUNAI, the FUNASA and of the Secretariat of Special Attention to Health.

    In short, we need and require greater speed in the recognition and demarcation of our lands and in the execution of differentiated policies on health and education. We also demand that policy proposals referring to our people, are, first of all, discussed with our communities and leaders. No longer will we accept and wait in silence, because it is our right to participate in decisions that concern us.

    In spite of all this, we hope that non-indigenous people recognize the gravity of our problems and that the public powers fulfill their responsibilities. Our Karai and our Kunhã Karaí alert us and guide us so that we are increasingly articulate and demand of the authorities that the law, that the whites have created, be respected and enforced.

    São Gabriel, 7 February of  2011

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  • 11/02/2011

    Indígenas Xakriabá interrompem obras de rodovia em Minas Gerais

    Ordem de paralisação da rodovia que liga Cônego Marinho a Miravânia, no Norte de Minas Gerais, dada pela Funai de Brasília ao DER-MG é descumprida e indígenas Xakriabá interrompem obras.

    Nesta quinta feira (10), lideranças Xakriabá definiram pela paralisação das obras de pavimentação da rodovia que liga Cônego Marinho a Miravânia, no Norte de Minas Gerais. Os indígenas suspenderam o trafego de máquinas e caminhões e também a utilização das águas do rio Peruaçu, que fica próximo ao território Xakriabá. Esta decisão foi tomada após insistentes pedidos de providências encaminhados aos órgãos competentes. Na segunda-feira (7), a FUNAI Brasília-DF enviou ofício ao Departamento de Estradas e Rodagem (DER-MG) solicitando a suspensão das obras na anuência do território Xakriabá, contudo, não houve por parte do DER-MG e EMPA engenharia o cumprimento da determinação.

    A situação se agravou com o aumento do fluxo de máquinas pesadas dentro do território Xakriabá, danificando uma ponte que liga a comunidade Peruaçu/Dizimeiro ao município de Januária MG, ponte esta que fica sobre o Rio Peruaçu.

    Ainda nesta quinta feira, representantes do DER-MG, Polícia Ambiental e representante da Fundação Nacional do Índio (Funai) estiveram no local para fazer um levantamento da situação. No tocante ao DER-MG, uma equipe foi designada para fazer a análise da água do Rio Peruaçu, visivelmente contaminada pelo combustível utilizado pelo motor de sucção de água.  

    É grande a apreensão vivenciada pelo povo Xakriabá neste momento, tanto pela degradação do Rio Peruaçu, quanto pela falta de medidas concretas por parte dos órgãos competentes.

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  • 10/02/2011

    Dilma e a realidade indígena de Mato Grosso do sul: Direitos Humanos não são negociáveis, mas e as concessões?

    Rogério Batalha Rocha, Advogado, assessor jurídico do Conselho Indigenista Missionário (Cimi)

     

    Tenho acompanhado algumas declarações da Presidente Dilma Roussef à imprensa sobre como será a postura política de seu governo em relação às questões que envolvem direitos humanos[1]. Posturas louváveis, sob o ponto de vista de suas afirmações de que os direitos humanos “não são negociáveis” e de que “não haverão concessões” neste tema.

     

    O que transparece é uma situação de vontade política deste novo governo, acenando numa perspectiva de “priorização” das ações de Estado em prol dos direitos humanos. Quais serão as divergências ou eventuais críticas a esta atual postura vão depender, a meu ver, justamente sobre quais questões serão definidas em caráter “prioritário”. Além disso, definir o que se entende por “não conceder” e “não negociar”, num governo de multilaterais interesses políticos, é de extrema relevância para também entendermos o amplo alcance da temática de direitos humanos.

     

    Dentre as muitas questões prioritárias, o que quero destacar neste aspecto, restringindo-se a temática, é a notória negação de direitos (humanos) aos povos indígenas do estado de Mato Grosso do Sul.

     

    Sobre este caso, acredito que Dilma já deve ter conhecimento dessa realidade, com dados do governo do ex-presidente Lula, por meio das ações administrativas da Fundação Nacional do Índio (Funai), bem como das reivindicações de lideranças indígenas durante as reuniões da Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI), sendo que algumas contaram com a participação de Lula, bem como das inúmeras visitas de lideranças indígenas com assessores e ministros de Estado. Além disso, a Secretaria Especial de Direitos Humanos possui uma infinidade de dados e constatações, in loco, sobre violações de direitos humanos dos povos indígenas de MS.

     

    Além disso, não é de hoje que organizações de defesa dos direitos humanos do Brasil e de outros países, como a Anistia Internacional e a Survival Internacional, estão focando esforços em denunciar a realidade que afeta os povos indígenas de MS e clamando ao Estado brasileiro medidas eficazes para a demarcação definitiva de suas terras tradicionais.

     

    Enquanto isso, a situação de violência generalizada nas aldeias continua e tem números alarmantes. Conforme os dados apresentados pelos vários relatórios de violência publicados pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o estado de Mato Grosso do Sul vem sendo, sucessivamente, o recordista de violências contra os povos indígenas do Brasil. A situação mais grave são os assassinatos de indígenas dentro das próprias aldeias decorrentes de problemas sociais ocasionados pelo confinamento (pequeníssimas terras indígenas para a segunda maior população indígena do país).

     

    Segundo dados fornecidos pelo Ministério Público Federal, o índice de homicídios nas aldeias de Dourados/MS (Jaguapirú e Bororó com 3.600 hectares e 14 mil pessoas!) é de 145 assassinatos para cada 100 mil habitantes, enquanto, por exemplo, no Iraque, o número é de 93 assassinatos para cada 100 mil habitantes. O índice de homicídios nas aldeias de Dourados é 495% maior que a média nacional, que é de 24,5 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes[2].

     

    Sob estas circunstâncias atuais, gravíssimas, o mandato da Presidente Dilma poderá se revestir de importante diferencial quanto às políticas de direitos humanos na exata medida em que conseguir regularizar a situação fundiária do estado de MS, demarcando, de uma vez por todas, as terras indígenas dos povos Kaiowá-Guarani e Terena, pelo fim da violência e da miséria.

    Essas medidas se traduziriam na real expressão política da Presidente Dilma de que não haverão concessões em matéria de direitos humanos.

     

    Permito-me fazer uma digressão sobre as possibilidades e amplitudes de sentido da palavra “concessão”. Os registros históricos dão conta sobre as diversas “concessões” feitas pelo próprio Estado brasileiro retirando os indígenas de suas terras e os confinando dentro de reservas minúsculas em pleno século XX, e distribuindo essas terras para colonizadores, que avançaram, e continuam avançando, suas fronteiras agrícolas para dentro de muitas terras indígenas, reivindicadas atualmente para fins de demarcação administrativa pela União (Brand, 2001).

     

    Hoje, discute-se no âmbito do próprio governo federal a responsabilidade civil do Estado pelos atos ilícitos do passado, visando indenizações de proprietários incidentes nas terras indígenas demarcadas. Mas, sob este pretexto, o que tentam muitos setores contrários aos direitos dos povos indígenas é suprimir os seus direitos constitucionais por meio de projetos de emendas à Constituição da República. Mudanças propostas em face de direitos consagrados ao custo de muita luta e sangue, e que sequer foram cumpridos na sua previsão atualmente em vigor.

     

    O movimento indígena já se posicionou afirmando que jamais irá admitir tais mudanças. Mudanças, estas, que visam, concretamente, outros interesses (vide as concessões à exploração mineral e recursos energéticos), como “retroceder” nas conquistas de direitos (humanos) ao longo da história dos povos indígenas. Portanto, neste aspecto, é crível que não haverão “concessões”.

     

    Porém, se questiona quais serão as posturas do governo para a solução da controvérsia. Se novamente, serão os indígenas os mais afetados (com as já insustentáveis condições sociais e materiais a que estão submetidos na atualidade), os que terão “que aceitar concessões e negociar seus direitos”, ou se serão tomadas medidas administrativas eficientes que solucionem a questão sem a supressão de direitos constitucionais? 

     

    Diante das muitas concessões do passado, sucessivas outras vem surgindo, sob novas formas. Interesses contrários às demarcações das terras indígenas de MS já receberam muitas concessões políticas ao longo de sucessivos governos, incluindo-se oito anos de governo de Lula.

     

    E Dilma? Com a continuidade de um governo de “alianças”, numa coalizão complexa de interesses políticos e econômicos, questiono até que ponto, de fato, não serão feitas “concessões” sobre matérias de direitos humanos?

     

    Concessões ao agronegócio, por exemplo, utilizando-se da “capa de invisibilidade” dos direitos humanos, chamando-a de desenvolvimento, também são muito verificáveis nos Projetos de Aceleração do Crescimento que poderão afetar, negativamente, direitos humanos fundamentais dos povos Guarani e Terena de MS na falta de uma definição dos limites de suas terras tradicionais.

     

    Os custos sociais dos investimentos altíssimos (vide BNDES) na monocultura da cana sem que, ao menos, exista a identificação de todas as terras indígenas de MS, representam a amplitude e importância de uma postura de “não concessão” e “não negociação” em matéria de direitos humanos.

     

    Segundo informações da imprensa regional “o Estado (MS) já possui 21 usinas em operação e mais três que devem entrar em operação ainda neste ano. Um levantamento feito pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostra que Mato Grosso do Sul é o terceiro estado no país que mais aumentou a produção nessa safra. Foram 47,4% a mais. Passou de 23,3 milhões de toneladas para 34,3 milhões de toneladas. (…) a área de cana de açúcar plantado no estado chega a 400 mil hectares e mais 6 milhões de hectares podem ser destinadas para essa cultura. A alta no preço da cana-de-açúcar estimulou a expansão da cultura em Mato Grosso do Sul e com isso, algumas usinas já se programam para dobrar a produção em 2011.[3]

     

    Neste caso, o que seria dizer “não haverão concessões” em face dos projetos de desenvolvimento que já estão sendo “priorizados” em detrimento da demarcação das terras indígenas e a proteção de seus recursos naturais?

     

    Nos mais de 20 acampamentos nas rodovias do estado, os povos nativos de MS sobrevivem de cestas básicas esperando a demarcação de suas terras. Problemas elementares ainda não foram saneados e que envolvem, sem qualquer dúvida, a temática de direitos humanos, cuja responsabilidade administrativa é do Poder Executivo Federal conforme a expressão do Artigo 231 da Constituição Federal brasileira.

     

    Deste modo, a importância das declarações da Presidente Dilma tem significação direta com mudanças nas relações de poder e de interesses administrativos/econômicos dentro do próprio governo e as reais compreensões da Presidente Dilma sobre direitos humanos em relação à sua amplitude de significado, de modo que muitas questões, como os impactos da Usina de Belo Monte, uma situação gravíssima para muitas comunidades indígenas e ribeirinhas, não fiquem alijadas desta perspectiva (de direitos humanos).

     

    Acenar para políticas eficazes de direitos humanos, como apropriadamente a Presidente afirmou, não pode significar “negociar direitos humanos”, Direitos, por óbvio, indisponíveis e imprescritíveis (Art. 231, CR). Assim, é importante avaliarmos se as “não concessões” nessa matéria são analisadas de “dentro para fora” ou de “dentro para dentro”? Ou seja, de que políticas estamos falando? É possível falar de direitos humanos “não negociáveis” dos povos indígenas de dentro do próprio governo com sua atual composição de alianças e seus múltiplos interesses políticos e econômicos?

     

    Feitas essas considerações, ficam os muitos questionamentos para o futuro, porém vale reafirmar que Dilma possui uma imensa responsabilidade em definir políticas coerentes e objetivas de seu governo em matéria de direitos humanos.

     

    Nesta perspectiva, ter o compromisso político de respeitar e fazer cumprir os direitos fundamentais dos povos indígenas de Mato Grosso do Sul, protegidos pela Constituição Federal (em que pese seu flagrante descumprimento), efetivando prioridades quanto à demarcação das terras indígenas, é medida fundamental, a base para quaisquer outras políticas, visando o início de uma transformação da realidade atual.

     

    Concluo esta breve reflexão apontando trechos da “Carta do Povo Kaiwá e Guarani para a Presidenta Dilma[4] recentemente publicada, onde afirma: “Que bom que a senhora assumiu a presidência do Brasil. É a primeira mãe que assume essa responsabilidade e poder. Mas nós Guarani Kaiowá queremos lembrar que para nós a primeira mãe é a mãe terra, da qual fazemos parte e que nos sustentou há milhares de anos. (…) Por isso estamos fazendo esse apelo no começo de seu governo. Devolvam  nossas condições de vida que são nossos tekohá, nossos terras tradicionais. Não estamos pedindo nada demais, apenas os nossos direitos que estão nas leis do Brasil e internacionais”.

     



    [1] Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/poder/868086-para-dilma-brasil-tem-dividas-com-direitos-humanos.shtml, Acesso em 30/01/2011.

    [2] RMT ONLINE. Disponível na internet no endereço: http://rmtonline.globo.com/noticias.asp?em=3&p=2&n=468909

    [3] Disponível em http://www.mercosulnews.com/leitura.php?id=87589. Acesso em 29/01/2011.

    [4] Disponível em www.campanhaguarani.org.br/index.php?system=news&news_id=355&action=read. Acesso em 02/02/2011.

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  • 10/02/2011

    Informe nº 950: Movimento guarani no sul do país se fortalece e discute demandas em Encontro

    Cerca de 300 pessoas participaram, entre 4 e 7 de fevereiro, do Encontro de Lideranças Guarani e do Conselho de Articulação do Povo Guarani no Rio Grande do Sul. Foram 200 indígenas e mais 100 outros participantes entre simpatizantes da causa, movimentos sociais e grupos de apoio.

    A situação fundiária, a reestruturação da Funai e o atendimento à saúde indígena foram os pontos mais preocupantes e que receberam maior destaque na reunião. Sobre a situação fundiária, o que mais preocupa é a falta de demarcação – a maioria das terras Guarani no Rio Grande do Sul não é demarcada –, a demarcação em áreas muito pequenas e a permanência de fazendeiros nas áreas indígenas.

    Em relação à reestruturação da Funai, os indígenas sentem a falta de diálogo por parte do órgão indigenista oficial, em relação às medidas que vêm sendo tomadas, mudanças. Na saúde, também não há repasse de informações. Os indígenas reclamam da falta de explicações sobre o que muda com a troca da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) no atendimento.

    Grandes obras

    O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) também atinge fortemente os indígenas no sul. Os principais empreendimentos são as duplicações de rodovias, que atingem cerca de dez áreas indígenas, e a construção das pequenas centrais hidrelétricas (PCH’s), que afetam as terras Estrela Velha e Salto do Jacuí.

    Na opinião do vice-presidente do Cimi, Roberto Liebgott, dos encontros que participou, este foi o que percebeu maior participação nos debates. “Percebi grande interesse dos indígenas das discussões, e nos encaminhamentos das ações. Acredito que existe um fortalecimento cada vez maior do movimento indígena guarani no sul, principalmente em torno do Conselho de Articulação do Povo Guarani”, afirmou.

    Veja abaixo o documento final do encontro.

    Documento Final: Encontro de Lideranças Guarani e do Conselho de Articulação do Povo Guarani no Rio Grande do Sul

    As lideranças de 23 aldeias Guarani do Rio Grande do Sul se reuniram juntamente com o Conselho de Articulação do Povo Guarani – CAPG/RS, nos dias 4 a 7 de fevereiro de 2011, no município de São Gabriel. Nesta data nós lembramos o massacre de milhares de nossos parentes e da morte Sepé Tiaraju praticados por soldados espanhóis e portugueses, no ano de 1756. Lá nossos Karaí e Kunhã karaí (líderes religiosos) rezaram a Ñhanderu pelos parentes que morreram lutando por nossa terra.

    No encontro discutimos várias questões que preocupam nossas comunidades, como a demarcação de nossas terras, as mudanças na gestão do atendimento à saúde indígena, a reestruturação da FUNAI, os impactos de grandes empreendimentos sobre nossas terras e comunidades a exemplo das duplicações das BRs 116 e 290, a educação diferenciada em nossas aldeias, e as políticas de apoio à agricultura e sustentabilidade às nossas famílias.

    Em todas estas questões, após avaliarmos a situação de nossas aldeias, sentimos que ainda falta muito para garantir nossos direitos definidos pela Constituição Federal, pelos tratados internacionais e leis direcionadas aos povos indígenas. O principal atraso continua sendo a demarcação de nossas terras. Vivenciamos desde processos já concluídos no papel, mas que as aldeias continuam com problemas porque a Funai não retira os ocupantes das nossas terras, até realidades em que as famílias estão em situações muito precárias, obrigadas a morar em barracos de lonas, acampadas em beira de estradas. E, além disso, sempre somos ameaçados de despejo por empreendimentos de desenvolvimento da economia não indígena. Isso tudo porque o governo não demarca as nossas terras.

    E isso tudo acontece para nosso povo que antes tinha um grande território, mas que foi transformado em cidades e nos estados das regiões sul, sudeste e centro oeste do Brasil, e nos países da Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai. Dividiram o território e dele nos expulsaram. Hoje estamos apertados pelas cidades e fazendas em todos os lugares. Essa situação nos causa muita tristeza.

    Estamos cansados de viver na beira das estradas. Estamos cansados de ver nossas crianças, nossas mulheres, nossos velhos arriscarem a vida para buscar água, para lavar roupa, para vender o artesanato nos acostamentos das rodovias. Estamos cansados de viver sem a nossa terra. Exigimos respeito. Dissemos isso aos representantes da Funai, da Funasa e da Secretaria da Atenção Especial à Saúde.

    Em resumo, necessitamos e exigimos rapidez no reconhecimento e demarcação de nossas terras e no atendimento de políticas diferenciadas em saúde, educação. Exigimos também que as propostas que pretendem elaborar, sobre as políticas para o nosso povo, sejam, antes de tudo, discutidas com nossas comunidades e lideranças. Não vamos mais aceitar e esperar calados, porque é nosso direito participar das decisões que nos dizem respeito.

    Apesar de tudo isso, temos esperanças que os não indígenas reconheçam a gravidade de nossos problemas e os poderes públicos cumpram com suas responsabilidades. Nossos Karaí e as nossas Kunhã Karaí nos alertam e nos orientam para que a gente se articule cada vez mais e cobre das autoridades que as leis, que os brancos criaram, sejam respeitadas e cumpridas.

    São Gabriel, 7 de fevereiro de 2011. 

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  • 10/02/2011

    O Planalto, seus caciques e a hidrelétrica

    Representantes do Palácio do Planalto receberam, nesta terça (8), manifestantes contrários à construção da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, Estado do Pará. Trago um breve relato de como foi a audiência feito por pessoas que dela participaram. Vale pela curiosidade.

     

    O secretário executivo da Secretaria Geral da Presidência, Rogério Sotilli, representou o governo em nome do titular da pasta, Gilberto Carvalho, que está no Fórum Social Mundial no Senegal. Ao todo, oito caciques e lideranças ribeirinhas da Bacia do Xingu levaram as 604.317 mil adesões de um abaixo-assinado contra Belo Monte, além de um documento com oito páginas de denúncia sobre os impactos sociais e ambientais trazidos pela obra e demandas por participação nas decisões da política energética nacional.

     

    Raoni Metuktire fez um longo discurso em kayapó sobre o fato do governo mexer com o que não conhece e derrubar matas para depois ficar refém de ventos e chuvas que tudo inundam e com tudo acabam. O dedo de Raoni esteve por longos minutos no nariz de Sotilli.

     

    “Fico triste em ouvir críticas aos governos Lula e Dilma”, disse Sottili. “Lula prometeu que não enfiaria Belo Monte goela abaixo das populações do Xingu. Sempre ouvi dizer que houve muito diálogo. Talvez, com o que vocês dizem agora, não foi tanto assim…” – ponderou. Prometeu que, a partir de agora, estarão garantidos os diálogos.

     

    Mas depois adiantou o que esperar das conversas: “Dilma fará o que tem que ser feito” E: “Dilma tem que pensar o Brasil como um todo, atender todos os interesses, incluir toda a nação…” E mais ainda: “Garanto que vamos dialogar, mas claro, podemos não chegar a um consenso”.

     

    Enquanto Sotilli prometia às populações do Xingu que o governo dialogaria, e que um relato fidedigno da audiência, mais documentos e assinaturas contra Belo Monte, seriam levados à presidenta pessoalmente, nos calabouços governamentais o ministro Edson Lobão (Minas e Energia) e o presidente da Empresa de Pesquisa Energética Maurício Tolmasquim afirmavam que, já na semana que vem, as máquinas estariam no Xingu para derrubar floresta e construir o canteiro de obra – cuja licença, expedida pelo Ibama, é contestada pelo Ministério Público Federal na Justiça. Apesar das promessas dos tão famosos diálogos.

     

    Pouco depois, lá fora, no concreto da praça dos Três Poderes, debaixo de um sol de rachar, caciques e lideranças ribeirinhas prestaram contas aos manifestantes reunidos com faixas e cartazes. Algo do tipo: o povo do governo explicou que dialogar significa que a gente tem o direito de falar, eles vão ouvir mas, no final, a gente vai ter que sair das nossas terras de qualquer jeito.

     

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