• 24/02/2011

    Julgamento do assassinato do cacique Veron continua

    Egon Heck
    Com colaboração da delegação Kaiowá Guarani no julgamento em São Paulo

    No terceiro dia do julgamento dos acusados de assassinar o cacique Marcos Veron Avá Taperendy, foram ouvidas as vítimas e testemunhas de acusação e defesa.  Foram os depoimentos mais aguardados, uma vez que os depoentes eram os mais diretamente afetados pelas violências que resultaram no assassinato no dia 13 de janeiro de 2003.

    Ladio Veron, filho mais velho do cacique assassinado que sofreu espancamentos, tortura e ameaças  de atearem  fogo em seu corpo,  fez o depoimento mais contundente e detalhado da bárbara agressão sofrida, tendo sido amarrado e jogado na carroceria de uma caminhonete, juntamente  com seu pai, que estava agonizando.

     Após o depoimento e reintegrado ao grupo de seus familiares e amigos, Ladio declarou que “espera que a justiça agora seja feita. Que o assassinato de seu pai não fique impune, bem como outros assassinatos de líderes indígenas Kaiowá Guarani.” Bastante sereno e confiante declarou: “só ficarei mais tranqüilo na hora que terminar o julgamento com a punição dos assassinos”.

    Adelcia Martins Veron, a primeira vítima a depor, disse: “a dor que passei é como se tivesse sido ontem. Uma coisa muito triste. Vi com meus próprios olhos, o massacre, a judiação, a lamentação e gritos das crianças e mulheres. Tudo isso fui relembrando enquanto fui falando no depoimento. O tiroteio que a gente sofreu, é um grande sentimento que a gente vai sentindo de novo. A coisa mais triste que aconteceu foi ver o nosso cacique ir morrendo aí sem a gente poder fazer nada. Ele morrendo, sem xingar ninguém. Morrendo como uma abelha. Uma dor do povo índio de Takuara dando a sua vida”.

    Relatou ainda “Eu não agüentava, chorava muito, vendo toda aquela tortura. Meu coração ficou doendo vendo toda aquela judiação. Espero que tenha justiça. Que os jurados sintam no seu coração aquela dor que sofremos com o assassinato do nosso cacique. Esperamos continuar vivendo com nossas crianças do jeito que ele nos ensinou, na reza, no guachiré. E assim continue nossa alegria na aldeia Takuara. Ele deu a vida pela terra e pelo futuro das nossas crianças. Os fazendeiros mataram nosso cacique sem compaixão, mas nós vamos continuar a vida do nosso cacique”.

    Por fim, ressaltou: “Que o governo possa ouvir e sentir onde o sangue foi derramado e demarque a nossa terra, para que a gente possa viver tranquilo em nossa terra, com nossas crianças. Hoje quem lidera o grupo indígena da aldeia Takuara é o filho mais velho do cacique Marcos Veron,  Ladio Veron Avá Taperendy’i “.

    Araldo Veron, primeiro depoente de testemunha de acusação, declarou: “estava com grande sentimento e ansiedade esperando há muito tempo esse julgamento. Creio muito na justiça que vai dar a sentença para os que mataram meu pai. Fiquei muito contente porque o julgamento está acontecendo e, agora, esperamos a punição dos assassinos do nosso pai Marcos Verón. 

    Recordou das pessoas que os tem ajudado nessa luta. “Agradecemos a todos os que nos apoiaram e deram força como a Fiona da Survival, os amigos do Cimi e muitos outros por esse Brasil e mundo afora, que assistiram e apóiam a nossa causa, dando força nessas horas difíceis”. Finalizou dizendo que “a nossa comunidade esteja contente e todos os professores e alunos do Teko Arandu, que deram muita força para nós.”

    Rosalino Ortis, líder aldeia Yvy Katu, município Japorã disse: “queremos que sejam punidos os assassinos do líder indígena guarani Marcos Veron. Agradecemos por ter acontecido o julgamento e esperamos que a justiça venha para julgar o assassinato de outras lideranças indígenas, mortas pelos pistoleiros dos fazendeiro no Mato Grosso do Sul”.

    Ressaltou ainda, “Agradeço as outras lideranças,  Funai, Cimi, Ministério Público Federal e Polícia Federal . Espero que não aconteça mais conflitos por causa de nossas terras”.

    Franscisco Gonçalves, importante liderança guarani declarou estar confiante na justiça, “que esses assassinos sejam punidos pela violência e tortura cometidas contra o cacique Marcos Veron, índio Guarani e dos outros líderes assassinados pelos pistoleiros dos fazendeiros no Mato Grosso do Sul. Agradeço à Justiça Federal e a todas as lideranças indígenas Guarani Kaiowá.”

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  • 24/02/2011

    Informe nº952: Indígenas Pataxó expõem situação caótica na saúde indígena na Bahia

    Segundo eles, terras indígenas na região não têm nenhum posto de saúde ou atendimento médico. O grupo exige atuação urgente da Sesai

     

    Por Maíra Heinen

    Assessoria de Comunicação –  Cimi

     

    Crianças morrendo por verminoses, idosos por hipertensão, grávidas perdendo seus bebês ou morrendo em trabalho de parto. Situações como estas foram relatadas pelos pataxó, ontem (23), durante reunião com o secretário Nacional de Saúde Indígena, Antônio Alves, no Ministério da Saúde, em Brasília. A comissão de lideranças indígenas do sul da Bahia veio exigir que o quadro de atendimento à saúde indígena mude o mais rápido possível na região. As consequências do mau atendimento são arrasadoras.

     

    Antônio Alves iniciou a audiência apresentando o quadro situacional que pegou ao se tornar secretário em outubro do ano passado. Segundo ele, a transição do atendimento à saúde indígena da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) para a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) acontece até abril e até lá, a Fundação ainda tem obrigações a cumprir para com os indígenas, até pela falta de orçamento da Secretaria neste início de ano. Porém, de acordo com Alves, isso não vem acontecendo. 

     

    Ele ressaltou que o quadro de saúde em áreas indígenas em todo o Brasil é caótico e dramático e que a Funasa, ao invés de ajudar, vem fomentando movimentos contra a nova Secretaria. “Há aldeias que não recebem visitas de equipes de saúde há vários meses, servidores contratados precariamente, sem garantia de continuidade do serviço; faltam médicos, o saneamento está sucateado”. Ele lembrou também as condições dos indígenas Xavante e dos que vivem no Vale do Javari, que estão morrendo por falta de assistência e por precariedade em estruturas de saneamento básico. Para a Bahia, o secretário afirmou que deve construir um plano de intervenção, pois sabe que a falta de ações efetivas e indefinições no governo afetam muito mais os povos indígenas.

     

    Realidades cruéis

     

    Várias lideranças fizeram relatos de suas realidades, citando perdas de parentes por falta de carros e de atendimentos de urgência. Aruã Pataxó lembrou que nenhuma terra indígena no Sul da Bahia tem atendimento médico ou posto de saúde. Também informou que dos 16 carros destinados a atendimento, 14 estavam quebrados e os dois que sobraram são para atender cerca de 15 mil índios. “Queremos que o senhor dê encaminhamento às ações de saúde o mais urgente possível. O senhor explicou o quadro caótico, mas nós na base é que sentimos na pele as consequências. A doença não espera que o medicamento chegue ou que o governo tome decisões”, afirmou o cacique.

     

    Na maioria dos depoimentos indígenas, falou-se na exoneração do responsável pelo Dsei da Bahia, Jorge Araújo. “Isso já foi muito discutido. Nós não queremos esse homem no Dsei, porque ele porque ele não faz uma boa gestão”, disse Aruã. Valmir Pataxó, que é conselheiro local de saúde, também pediu a saída do superintendente. "A Sesai precisa tomar providências urgentes. Até quando vamos esperar?".

     

    Aratikum Pataxó afirmou que o governo só não toma providências porque seus integrantes têm, juntamente com suas famílias, atendimento diferenciado na saúde. “Se algum governante passasse 24 horas numa aldeia ia perceber o que a gente passa. O Brasil está se desenvolvendo apenas para alguns: é avançado para grandes empresários e políticos, mas nós não passamos de pobres, miseráveis!”, ressaltou.

     

    Muitos indígenas lembraram que são 511 anos de história vergonhosa e que a história vem se repetindo em pleno século XXI. “Será que o diretor da Funasa teria coragem de tomar a água contaminada que a gente bebe?” questionou Aratikum. “Nós queremos uma mudança real na saúde, pois o governo não criou a secretaria só para criar cargos, mas para apresentar serviços de qualidade”, finalizou.

     

    Encaminhamentos

     

    Muitas ações que deverão ser tomadas ainda dependem do decreto de orçamento da União, que deve ser publicado até o final da próxima semana, como ressaltou o secretário de saúde. O montante para a saúde indígena deverá ser de 640 milhões. Segundo Alves, a partir desta aprovação orçamentária, poderá ser criado o pólo base de Itamaraju, mas até a sexta-feira (25) será definida uma data para que um representante da secretaria vá à Bahia, veja um imóvel na região que possa ser a sede do pólo. A secretaria também deverá mapear a região e definir, juntamente com os indígenas, o melhor local para se construir uma Casa de Saúde Indígena (Casai).

     

    Sobre a falta de veículos, a Sesai explicou que existem oito veículos parados esperando emplacamento no pátio da Funasa, em Salvador. O secretário se prontificou a ligar para o governador da Bahia para liberar os emplacamentos o mais rápido possível. Além dos oito, ainda há quatro veículos para serem entregues ao Dsei da Bahia e também veículos a serem consertados para voltarem a trabalhar, o que deverá acontecer após a liberação do orçamento.

     

    Na reunião foi solicitado que Luzia Pataxó, indígena técnica de enfermagem que acompanhava a reunião, fosse cedida da prefeitura de Porto Seguro (onde é servidora), para a Sesai, a fim de que ajude no atendimento de seus parentes indígenas. Antônio Alves assegurou que o pedido será feito à prefeitura de Porto Seguro ainda nesta quinta-feira.

     

    Outras orientações foram tomadas, como a realização de um seminário sobre a saúde indígena na Bahia (ainda sem data provável), a atuação do projeto de saúde bucal “Brasil Sorridente” nas aldeias da Bahia, campanhas sobre saúde mental e contra o uso de drogas, entre outras.

     

    Ao final da reunião, Antônio Alves afirmou que possivelmente até segunda-feira terá um nome para ser interventor no Dsei da Bahia e que Jorge Araújo deverá sair, se esta é a vontade dos povos indígenas da região.

     

    Depois de quatro horas de reunião, os indígenas saíram satisfeitos e declararam: “Secretário, estamos dando a você um voto de confiança porque temos esperança que a situação pode mudar!”. E a saúde não pode aguardar muito.

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  • 23/02/2011

    Mantida Portaria Declaratória da Terra Indígena Araça’í

    O desembargador Federal Vilson Darós anulou a suspensão da Portaria Declaratória nº 790/2007, do Ministério da Justiça, que reconheceu como terra indígena uma área de 2.721 hectares, localizada nos municípios de Cunha Porã e Saudades, em Santa Catarina. A área é reivindicada pelos Guarani há mais de 10 anos e a portaria declaratória permite a criação da Reserva Indígena Guarani de Araça’í.

     

    A decisão de Darós anula então, a sentença proferida pelo Juízo Federal da 2ª Vara Federal de Chapecó (SC) que havia declarado a suspensão da portaria, e assegura a continuidade do processo demarcação da terra indígena. A Funai ao impetrar a ação, afirmou que o fez com o objetivo de preservar, essencialmente, a ordem pública e garantir que os indígenas Guarani possam livremente usufruir da área, já reconhecida como de ocupação tradicional indígena pelo Ministério da Justiça.

     

    A área é reivindicada por famílias Guarani que estão vivendo, temporariamente, nas aldeias Passo Feio e M’baracá Mirim – reserva Nonoai, no Rio Grande do Sul, pertencentes ao povo Kaingang. Há ainda outro grupo Guarani vivendo na Terra Indígena Toldo Chimbangue, em Santa Catarina, também território dos Kaingang.

     

    De acordo com o coordenador do Regional Cimi Sul, Jacson Santana, essas famílias estão vivendo em pequenas áreas cedidas pelos Kaingang, mas estão com dificuldade para garantir a própria subsistência e para ter acesso a serviços básicos de saúde e educação. “Eles estão passando por necessidade e têm enfrentando muitas dificuldades para se manter. A área cedida é pequena e não possibilita a produção de alimentos ou outros meios de geração de renda”, afirma.

     

    A Funai, ao ajuizar a ação, confirma a informação, declarando que as famílias que vivem nas aldeias Passo Feio e M’baracá Mirim se dedicam a atividades agrícolas de subsistência, mas também trabalham como diaristas, pois a extensão de terras não supre suas necessidades. Já as famílias que estão na terra Toldo Chimbangue dependem de cestas básicas fornecidas pela própria fundação, pois a extensão de terras cedidas pelos Kaingang não permite o desenvolvimento de produção agrícola.

     

    Para João Barbosa, Guarani que vive na comunidade Toldo Chimbangue, a decisão do desembargador é um sinal de esperança. “Estamos muitos felizes. É uma grande vitória para nós. Estávamos todos muito abatidos e preocupados com a anulação da portaria. Agora, esperamos que os trabalhos de demarcação continuem e nossa terra seja reconhecida”, disse.

     

    Agricultores

     

    Em sua decisão, Darón citou ainda as famílias de agricultores que vivem atualmente na área reivindicada pelos Guarani. Ele pede que se dê continuidade ao processo de demarcação da terra, mas ao mesmo tempo garante a presença dos agricultores na área até que a situação seja resolvida de forma definitiva, assegurando aos indígenas a posse de seu território tradicional e aos agricultores assentamento em outro local.

     

    “ (…) não pode ser desprezada a situação das inúmeras famílias de pequenos agricultores que, pelo visto, exercem a posse das terras litigiosas desde longa data, local onde desempenham atividades econômicas e constituíram patrimônio (…). Diante disso, deve prosseguir o procedimento demarcatório, porém a posse atual mantém-se em favor dos proprietários da área litigiosa, como forma de preservar a ordem pública.

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  • 23/02/2011

    Quem matou o cacique Veron?

    No segundo dia de julgamento, seis testemunhas foram ouvidas

     

    Por Egon Heck e Vanessa Ramos

     

    Antes de clarear o dia quase todos os Guarani Kaiowá já estão de pé. Alguns tomando chimarrão e arrumando a mala com os poucos pertences trazidos. Hora de fazer o ritual de despedida na aldeia dos parentes Guarani Mbyá no Pico do Jaraguá. No ônibus é o momento de fazer as pinturas no rosto e encher-se de coragem, força e alegria para mais um duro dia de julgamento.

     

    “Estamos aqui pedindo justiça pelo assassinato do cacique Marcos Veron – Povos Indígenas Guarani Kaiowá” são os dizeres das faixas que vão sendo colocadas e seguradas pelos membros da delegação indígena. Alguns repórteres já estão a postos e vão registrando o início de mais uma jornada.

     

    No decorrer do segundo dia do julgamento os trabalhos fluíram com bastante tranquilidade. Todas as seis vítimas ouvidas testemunharam com muita precisão e detalhes os acontecimentos ocorridos entre os dias 11 e 13 de janeiro de 2003. Impressiona como, depois de nove anos, as testemunhas se referiam aos fatos como se “tivessem ocorrido ontem”, afirma Adelcia Martins Veron, cujo depoimento foi em Guarani com o tradutor Tonico Benites.

     

    Foram mais de três horas em que ela não apenas narrou o que ocorreu naqueles dias como respondeu a todas as indagações: as dos Procuradores da acusação e dos advogados de defesa. O momento de maior emoção se deu quando a depoente chorou ao narrar o ataque dos fazendeiros e seus capatazes, que “fortemente armados”, agrediram brutalmente os Kaiowá acampados.

     

    A platéia ora cheia – ora esvaziada, fez parte do cenário. Do lado esquerdo, os Kaiowá tiveram presença permanente. À direita, os familiares dos réus e dos fazendeiros. Permeados nessa platéia estavam jornalistas e estudantes de direito, os quais se mostraram sensíveis aos parentes e testemunhas Kaiowá.

     

    Atrás dos procuradores de acusação e dos advogados de defesa estão duas grandes fotografias de Marcos Veron, uma com pintura e outra sem, que evidenciam o rosto e o olhar marcantes. As testemunhas depunham de frente ao retrato do cacique. Do lado das testemunhas, sentadas, estavam os três réus Carlos, Jorge e Estevão.

     

    Um momento de tensão para as testemunhas foi quando a juíza Federal Paula Mantovani e os procuradores de acusação pediam que olhassem para o lado esquerdo e reconhecessem os acusados do assassinato. Algumas pessoas, no fundo da platéia, até mesmo se levantavam para acompanhar qual seria a resposta. Outros, comentavam o olhar de penumbra dos advogados de defesa.

     

    No público, destacou-se a presença de Antônio Mendonça, do povo Xucuru de Ororubá que esteve em todos os momentos, desde o primeiro dia de julgamento. Ainda, no segundo dia, um grande grupo do povo Pankararé, acrescido da cacique Alaíde foram prestar solidariedade aos parentes. Alaíde estava comovida com a situação, inclusive por se lembrar de seu pai, Ângelo Pereira Xavier que na década de 1980 também foi violentamente assassinato em sua região, na Bahia.

     

    Outra testemunha foi Geisabel Verón, filha de Marcos Veron, que relatou: “eu estava grávida e eles riam de nós”. Durante sua fala, ela olhou para os réus e apontou Jorge e Estevão como participantes do crime.

     

    O jovem Reginaldo Veron, neto do cacique assassinado, chorou ao depor a cena da violência ocorrida com a comunidade e com o seu avô. Ele, atingido por uma bala relatou “até hoje sinto dor na perna. Eu era um atleta e acabaram com a minha vida. Hoje, mesmo sendo jovem eu não posso sequer praticar esporte porque a bala está alojada dentro do meu corpo”. No momento em que foi solicitado pela juíza para identificar os réus ele disse desconhecer. Depois, ao ser indagado pelo procurador de acusação se sentia medo, por ocasião do reconhecimento dos réus, ele disse: “Sim, estou com medo”.

     

    Hoje, terceiro dia serão ouvidas importantes testemunhas de acusação, iniciando-se a seguir a oitiva das testemunhas de defesa.

     

    A cada depoimento vão ficando mais claras as circunstâncias e os autores da violência praticada naquela madrugada do dia 12 de janeiro de 2003, com vários feridos, espancados e a morte do cacique Veron. Os representantes indígenas Kaiowá Guarani seguem tranquilos e confiantes acompanhando atentamente o transcorrer do julgamento, como afirma Adelcia: “ A terra clama por justiça. A verdade vai prevalecer”!

     

    São Paulo, 23 de fevereiro de 2011

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  • 23/02/2011

    Falta clareza nas licenças ambientais de Belo Monte

    Há dez anos, o Ministério Público Federal questiona as falhas no procedimento de licenciamento de Belo Monte, mas, com o passar do tempo, a falta de clareza nas informações sobre a obra aumentam. “A grande dificuldade nesta atuação decorre da escassa estrutura técnica para análise de todos os aspectos envolvidos em uma obra da complexidade de Belo Monte (questões sociais, ambientais e financeiras, dentre outras) e da pressa com que se pretende tornar irreversível o empreendimento”, assinala o procurador.

     

    Em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail, Cazetta explica que o processo de licenciamento no Brasil envolve três fases: Licença Prévia, Licença de Instalação e a Licença de Operação. Segundo ele, Belo Monte tem Licença Prévia, “cuja validade é objeto de discussão judicial” e, também, uma Licença de Instalação Parcial, que permite obras para a implantação do canteiro da obra. “Esta licença de instalação parcial não é prevista em nenhuma lei, o que, na visão do Ministério Público Federal, torna ilegal que se permita o início das obras, ainda parcialmente, sem que as condicionantes tenham sido cumpridas”, enfatiza.

     

    O procurador do Ministério Público também critica as audiências públicas realizadas para discutir a viabilidade de Belo Monte. “Algumas audiências foram marcadas pela exclusão da população atingida, que, na prática, teria de se deslocar até 200 km para ir a um auditório, onde, no máximo, teriam direito a três minutos de fala”, denuncia. E dispara: “Isto pode ser tudo, menos audiência pública destinada a permitir a participação da população atingida pela obra”.

     

    Ubiratan Cazetta é procurador da República no Estado do Pará e vice-presidente da Associação Nacional

    dos Procuradores da República.

     

    Confira a entrevista:

     

     

    IHU On-Line – Como o Ministério Público Federal no Pará tem atuado diante de Belo Monte e quais as maiores dificuldades?

     

    Ubiratan Cazetta – A atuação do MPF no caso de Belo Monte começou há mais de dez anos, sempre questionando falhas no procedimento de licenciamento e a falta de clareza nas informações sobre a obra. Vários problemas já foram atacados, mas, infelizmente, muitos deles ainda não foram respondidos, o que faz com que o projeto tenha um passivo de questões abertas, mal explicadas ou, simplesmente, desprezadas, especialmente quanto aos impactos socioambientais, atingindo as populações tradicionais (indígenas e ribeirinhos) e o custo efetivo da obra, que coloca em dúvida sua viabilidade econômica e sua adequação.

     

    Hoje, atuamos em várias frentes distintas e concomitantes: de um lado, buscamos resolver este passivo, tentando agilizar o julgamento das várias ações, o que, em tese, pode levar a paralisar o andamento do projeto; em outra frente, mesmo entendendo que o projeto não pode ser instalado, temos acompanhado o cumprimento das obrigações impostas ao consórcio Norte Energia, para garantir que, ao menos, o pouco que se exigiu venha a ser efetivamente implementado. Considerando o alto custo da obra, cujo valor ainda não foi totalmente definido, e o volume de recursos públicos que serão injetados e as dúvidas quanto ao retorno de tal investimento, temos tentado evitar o desperdício de dinheiro público.

     

    A grande dificuldade nesta atuação decorre da escassa estrutura técnica para análise de todos os aspectos envolvidos em uma obra da complexidade de Belo Monte (questões sociais, ambientais e financeiras, dentre outras) e da pressa com que se pretende tornar irreversível o empreendimento. Ao lado disso, discutir estes temas em um processo judicial é algo bastante difícil, porque envolve assuntos complexos e realidades dinâmicas, além da natural pressão exercida pelos diversos grupos de interesse envolvidos.

     

    IHU On-Line – Qual a atual situação legal de Belo Monte? Já foi emitida a licença prévia para o início das obras?

     

    Ubiratan Cazetta – O processo de licenciamento no Brasil envolve três fases. A primeira, na visão do Ibama, já foi cumprida, com a obtenção da Licença Prévia, que, em uma simplificação grosseira, significa dizer que a ideia do empreendimento já foi aprovada, mas sua execução depende do atendimento de uma série de exigências (as chamadas condicionantes). A segunda fase é a da Licença de Instalação, que permite o início das obras de construção e que somente pode ser concedida depois que todas as condicionantes tenham sido cumpridas. A terceira fase é a da chamada Licença de Operação, que envolve o momento em que, terminadas todas as obras, verifica-se se as condicionantes foram cumpridas e permite-se o início do funcionamento da hidrelétrica.

     

    Belo Monte já tem Licença Prévia (cuja validade é objeto de discussão judicial) e, agora, conta com uma Licença de Instalação Parcial, que permite apenas as obras para a implantação do canteiro da obra. Esta licença de instalação parcial não é prevista em nenhuma lei, o que, na visão do MPF, torna ilegal que se permita o início das obras, ainda parcialmente, sem que as condicionantes tenham sido cumpridas.

     

    IHU On-Line – Como as condicionantes de Belo Monte foram elaboradas?

     

    Ubiratan Cazetta – As condicionantes foram estabelecidas pelo Ibama no momento da concessão da Licença Prévia e, em tese, seriam capazes de dar resposta aos diversos questionamentos que eram feitos quanto à viabilidade socioambiental da obra. No momento em que divulgadas, o Ibama e o Ministério do Meio Ambiente garantiram à sociedade brasileira que a obra seria precedida de medidas fortes, capazes de evitar os danos que, espera-se, venham a ocorrer com a construção de Belo Monte. Infelizmente, esta promessa inicial vem se mostrando muito mais teórica do que eficaz.

     

    IHU On-Line – O senhor declarou recentemente que não houve nenhuma preparação estrutural para receber operários, máquinas e para a população que será atraída pelo empreendimento. O que deveria ter sido feito e qual o impacto da falta de infraestrutura?

     

    Ubiratan Cazetta – Os estudos de impacto ambiental apontam que Belo Monte atrairá uma migração de, pelo menos, 100 mil pessoas para a região de Altamira e municípios vizinhos, dobrando, em pouco tempo, a população que hoje habita esta região.

     

    De outro lado, no momento de maior criação de empregos diretos (no terceiro ou quarto ano da obra), serão oferecidos 19 mil empregos. Esta migração vai se destinar a municípios que hoje já enfrentam sérios problemas com educação, saúde, segurança pública e qualificação de mão de obra. Assim, o próprio Ibama reconhece que uma série de medidas precisa ser tomada: criar estruturas de saúde, educação e segurança pública para atender a população das cidades atingidas; capacitar mão de obra regional a fim de garantir emprego para as pessoas da região, diminuindo a pressão pela migração de trabalhadores de outras regiões; preparar a estrutura de saneamento das cidades e planejar o crescimento diante do inchaço populacional que ocorrerá em pouco tempo.

     

    Todas estas medidas demandam investimentos altos, de que os municípios não dispõem e que a Norte Energia (dona da obra de Belo Monte) não diz como serão feitos, quem irá pagar, qual o cronograma.

    Na falta destas medidas, as cidades incharão, os problemas que já existem irão piorar e o impacto social será cada dia mais difícil de ser resolvido.

     

    IHU On-Line – O que mudou física e socialmente em Altamira a partir do anúncio da instalação do canteiro de obras de Belo Monte? Que diagnóstico o senhor faz da cidade hoje em relação ao passado?

     

    Ubiratan Cazetta – O canteiro ainda não foi implantado, embora se anuncie o início das obras em pouco tempo. Entretanto, o simples anúncio da autorização da obra já fez com que aumentasse significativamente o fluxo de migrantes, o que teria provocado, segundo levantamentos iniciais, a chegada de oito a dez mil pessoas desde abril de 2010. Este fluxo migratório tem impacto imediato na segurança pública, na saúde, na educação, na falta de estrutura do município, criando áreas de periferia cada vez mais carentes de infraestrutura.

     

    IHU On-Line – Há casos de prostituição em Altamira? Com as obras e o número de operários instalados na região, a prostituição se torna preocupação relevante?

     

    Ubiratan Cazetta – O fluxo migratório que Belo Monte irá provocar terá, sim, um impacto importante (e preocupante) no aumento de diversos problemas sociais. O aumento da prostituição e das doenças sexualmente transmissíveis é um dos componentes importantes deste quadro.

     

    IHU On-Line – Considerando que não há entendimento interno entre órgãos como Ibama, Conama, por exemplo, que órgão é o responsável legal pelo licenciamento de Belo Monte?

     

    Ubiratan Cazetta – O licenciamento de Belo Monte é atribuição do Ibama, que deve ouvir outros órgãos em temas específicos, tais como a Funai, na questão indígena, e o Iphan na questão cultural e de patrimônio histórico.

     

    IHU On-Line – Quando, de fato, Belo Monte poderia sair do papel?

     

    Ubiratan Cazetta – Esta é uma das perguntas mais difíceis de serem respondidas, já que envolve diversos juízos de valor, alguns dos quais de natureza política, de políticas públicas que merecem ser decididas democraticamente, com a participação da sociedade brasileira.

     

    Podemos, entretanto, fazer uma escala de perguntas a serem respondidas, antes de se chegar a uma conclusão.

     

    A primeira coisa a saber é se, diante dos impactos socioambientais de Belo Monte, a obra é, de fato, a melhor opção para responder à necessidade de energia do Brasil para os próximos anos. E, para dar esta resposta, é necessário saber o que é mais eficiente: construir Belo Monte ou diminuir as perdas na transmissão de energia? Alguns estudos apontam que a redução das perdas daria um ganho equivalente a 1,5 vezes o máximo de energia que Belo Monte será capaz de produzir nos seus melhores dias, com um custo menor e sem criar novos danos. Outras opções não estudadas seriam fontes alternativas (energia eólica, por exemplo) ou a chamada repotenciação, que seria melhorar a capacidade de produzir energia das usinas já em funcionamento. A questão, então, é saber se, efetivamente, Belo Monte é a melhor opção.

    Se concluirmos que Belo Monte é a melhor opção, é necessário identificar todos os impactos da obra (ambientais, sociais etc.) e definir as medidas para que estes danos não ocorram ou, se forem inevitáveis, como diminuir sua dimensão e compensar os prejuízos.

     

    É necessário, também, fixar o custo da obra (que iniciou cotada em 9 bilhões de reais, passou para 19 bilhões, já está em mais de 25 bilhões e que, segundo alguns cálculos, pode chegar a 44 bilhões. Toda esta indefinição impede que seja feita uma decisão racional, que considere a relação custo/benefício e impeça o desperdício de dinheiro.

     

    A própria viabilidade da obra precisa ser avaliada, pois, apesar da propaganda oficial, Belo Monte não irá produzir 11mil Mw, como se costuma anunciar. Esta capacidade máxima somente será atingida em três ou quatro meses de alguns anos, quando a vazão do rio Xingu atingir seu ponto máximo. Na média, Belo Monte deve gerar quatro mil Mw, o que é bem menos do que o discurso oficial anuncia. Este cálculo de produção efetiva ainda pode ser atingido pelas projeções de mudança climática, que apontam uma diminuição na vazão do rio Xingu.

     

    Em resumo, é necessário ter alguma certeza sobre a viabilidade da obra, seu custos e seus impactos, antes de se iniciar a construção.

     

    IHU On-Line – Quais os motivos que favorecem a flexibilização na legislação, nos estudos e nos relatórios de impacto ambiental no Brasil?

     

    Ubiratan Cazetta – Há uma constante discussão entre a demora no licenciamento e a qualidade das licenças concedidas. A pressão para que as regras ambientais sejam diminuídas estão normalmente ligadas a uma falsa concepção de que o licenciamento ambiental é uma mera burocracia, que atrasa o desenvolvimento econômico do país.

     

    O fato é que os órgãos ambientais não são fortalecidos, não tem capacidade de interferir nas políticas públicas e acabam sofrendo pressões, lícitas ou não, para liberar licenças mesmo que os estudos sejam incompletos ou as condicionantes não tenham sido cumpridas.

     

    IHU On-Line – Qual sua avaliação das audiências públicas realizadas no Brasil, em especial as que dizem respeito a obras do porte de Belo Monte?

     

    Ubiratan Cazetta – As audiências públicas deveriam se destinar a fornecer informações sobre a obra a todos aqueles que serão atingidos positiva ou negativamente pela obra.

     

    Deveriam ser, em resumo, um momento democrático em que a população deveria ter direito de conhecer de que forma uma determinada obra vai atingir sua vida.

     

    No caso de Belo Monte, entretanto, ao invés de um momento de debate público, as audiências foram vistas como mera formalidade, como um ato que deveria ser realizado apenas para dizer que ocorreram. Algumas audiências foram marcadas pela exclusão da população atingida, que, na prática, teria que se deslocar até 200 km para ir a um auditório, onde, no máximo, teriam direito a três minutos de fala. Isto pode ser tudo, menos audiência pública destinada a permitir a participação da população atingida pela obra.

     

    IHU On-Line – Qual o espaço de reivindicação dos indígenas que vivem na região? Como eles são tratados?

     

    Ubiratan Cazetta – A questão indígena, infelizmente, vem sendo tratada como um problema e não como uma obrigação do Estado brasileiro de respeitar a cultura e a dignidade das comunidades indígenas. Tem-se desde o desprezo à necessidade de ouvir as comunidades até o risco de cooptação de lideranças. Em resumo, as comunidades não foram ouvidas e, embora afetadas diretamente, há um discurso oficial que nega que Belo Monte seja um caso concreto de aproveitamento de recursos hídricos de áreas indígenas e, com isto, retira das comunidades boa parte do seu protagonismo. 

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  • 23/02/2011

    Em reunião, indígenas cobram seriedade no trabalho da Funai

     

    Os pataxó reclamam da remarcação de prazos para a solução de impasses no sul da Bahia

     

    Por Maíra Heinen

    Assessoria de Comunicação – Cimi

     

    Lideranças indígenas do povo Pataxó e entidades do Governo Federal se reuniram nesta terça-feira (22) em Brasília, para tratar das demarcações das Terras Indígenas Barra Velha e Cahy, no sul da Bahia.  Mais de 40 pataxó estiveram na audiência, apresentando suas reivindicações e exigindo as soluções para os impasses que ainda existem. Representando o governo, participaram o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Meira; do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio), Rômulo Melo; o diretor de obtenção de terras do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Celso Lisboa; o secretário nacional de articulação social da Presidência da República, Paulo Maldos; a antropóloga da Coordenação Geral de Identificação e delimitação (Funai), Leila Sotto-Maior, entre outros. A assessoria jurídica e de comuinicação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) também estiveram presentes.

     

    Aruã Pataxó iniciou as falas reafirmando a expectativa dos indígenas de voltarem para suas aldeias com respostas positivas. “Vocês nos pediram 90 dias para nos apresentar uma resposta e aqui nós estamos. Queremos demarcação o mais urgente possível, pois somos ameaçados de despejo por liminares, somos ameaçados de morte na região. São mais de 11 anos lutando por nossas terras”, afirmou a liderança. Segundo ele, muitas políticas públicas estão paralisadas devido a falta de demarcação das terras onde vivem, como por exemplo a paralisação do programa Luz Para Todos, nas aldeias. “Queremos a garantia de direitos para o nosso povo!”, ressaltou.

     

    O impasse que marca a demora na regularização destas terras é devido à sobreposição entre as áreas indígenas e unidades de conservação (Parques Nacionais Monte Pascoal e do Descobrimento). Na última reunião realizada em novembro de 2010, também em Brasília, o mesmo grupo definiu que a solução para o território Barra Velha seria a demarcação na forma de mosaico. Ainda em novembro passado, ficou acordado que seria elaborada uma Nota Técnica visando a manifestação formal do ICMBio e do Incra para que a procuradoria da Funai elaborasse um documento a ser assinado pelos presidentes dos órgãos envolvidos e encaminhado para a Advocacia Geral da União (AGU), para que a situação fosse destravada. O caso estava parado na AGU pelo fato de, anteriormente às reuniões realizadas com os indígenas, não haver acordo entre Funai e ICMBIo quanto à regularização das áreas. Até ontem, o documento não havia sido enviado para a AGU.

     

    Alongando os prazos

     

    O prazo de 90 dias, contados a partir de novembro, não foi suficiente, de acordo com Márcio Meira, devido às datas de fim de ano (Natal e Ano Novo), férias de funcionários, eleições e troca de governo. Mas afirmou também que a situação avançou, apesar das várias ações judiciais em curso, que atrapalham a atuação da Funai.

     

    Novas datas foram colocadas para que o processo caminhe. Até o dia 4 de março, um GT de complementação de estudos para a área Cahy, com um membro do ICMBio, será criado, mas não existe um prazo para que os trabalhos sejam concluídos. Segundo Leila, é necessário ter a liberação orçamentária para que o órgão possa agir neste caso e dar encaminhamento aos estudos. Também definiu-se que, dentro de 15 dias, será criada uma força tarefa de órgãos federais no sul da Bahia para garantir a segurança das famílias indígenas que são ameaçadas.

     

    De acordo com o presidente da Funai, até o final desta semana, a carta declaratória de Barra Velha será enviada para a AGU e assim que sair a apreciação do advogado geral, o processo será encaminhado para o Ministério da Justiça para a demarcação.

     

    Os indígenas, porém, reclamaram das remarcações de prazos. “A gente quer uma decisão urgente, porque vocês sempre ficam protelando e lá na terra a gente está ameaçado. Não queremos conversa bonita, queremos preservar o meio ambiente, mas também precisamos nos sustentar! Queremos que a Funai tome decisões sérias”, ressaltou Aruã. Com as datas definidas ao final da reunião, os indígenas solicitaram a ata da audiência por escrito, afim de assegurar que as promessas e datas sejam cumpridas.

     

    Nesta semana, os indígenas ainda terão encontros com representantes do Ministério do Trabalho e Emprego, com o Secretário da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), Antônio Alves, e ainda com o vice-presidente Michel Temer. Eles ficam em Brasília até sexta-feira (25).

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  • 22/02/2011

    Caso Marcos Veron: em busca da verdade e da justiça

    Acontece em São Paulo, o julgamento dos acusados pelo assassinato do cacique Guarani Kaiowá

    Egon Heck

    A cidade de São Paulo, esse grande formigueiro humano, de mais de 12 milhões de pessoas agitadas, será, nesta semana, um espaço de muita atenção e confiança dos Guarani Kaiowá. O início do julgamento dos acusados pelo assassino do cacique Marcos Veron, neste dia 21 de fevereiro, teve grande repercussão na mídia local e nacional.  Trata-se de um acontecimento raro, pois poucos matadores de índios e, em especial dos Guarani, foram até hoje julgados. Outro fato que chama atenção é o fato do julgamento ter sido deslocado de Dourados, no Mato Grosso do Sul, para São Paulo. Os Procuradores da República entenderam que naquela cidade poderia não haver a isenção necessária para o julgamento deste crime.

    Cerca de 40 indígenas Guarani Kaiowá vieram a São Paulo para acompanhar de perto e participar do julgamento. Alguns serão testemunhas de acusação, enquanto os outros vieram somar forças e dar visibilidade à luta do povo pelo julgamento dos acusados. Filhos, parentes e amigos de Marcos Veron estarão nesse pequeno espaço próximo ao centro nervoso e econômico de São Paulo, a Avenida Paulista, nos próximos dias, clamando por justiça, fim da impunidade e reconhecimento das terras  Guarani Kaiowá.

    Eles vêm de uma história marcada por massacres, violência, usurpação de suas terras, destruição das florestas e da natureza. Eles vêm da terra em que se exalta um tipo de progresso e desenvolvimento através do agronegócio, concentrador e excludente, da monocultura e dos transgênicos, do agrotóxico, de profundo impacto na natureza e poluição das águas e da terra. Eles vêm do território Guarani, dos índios sem terra, dos acampamentos e confinamentos à beira de estradas. Eles vêm do sofrimento, da fome, da injustiça e da impunidade. Vêm apenas pedir justiça e, do alto de sua heróica resistência e dignidade, pedir punição.

    No primeiro dia do julgamento, o tempo foi ocupado com a escolha dos sete jurados. Dentre os candidatos, a defesa dos réus vetou três mulheres, o que, para um dos antropólogos presentes, sinaliza o afastamento da sensibilidade maior das mulheres e os possíveis impactos de semelhante crime. Depois foram lidas as peças dos autos solicitadas pela acusação e a defesa, onde se explicitam os argumentos das partes.

    Dentre os  Guarani Kaiowá presentes, estavam três filhas e sete netos de Veron. Ao ouvirem a leitura de depoimentos colhidos pela polícia do MS, permaneceram num indignado silêncio.  Desabafaram depois de encerrada a sessão, antes das cinco horas da tarde, pela ausência dos testemunhas de acusação, que foram impedidos de embarcar no aeroporto de Dourados,  sob a alegação de que, pintados e de cocares, não poderiam embarcar. Posteriormente se deslocaram até Campo Grande e daí a São Paulo.  “Incrível como se montam mentiras e distorcem totalmente os acontecimentos para tentar encobrir um crime tão bárbaro como o assassinato do meu pai”, desabafou Valdelice Veron.

    Depois do encerramento dos trabalhos do primeiro dia, os  Guarani Kaiowá fizeram um rápido ritual de agradecimento e também pedido aos espíritos de seus antepassados para que os protejam, e iluminem os que vão julgar o assassinato,  para que a paz e a justiça volte a reinar e suas terras sejam reconhecidas, devolvidas e respeitadas conforme as leis nacionais e internacionais.

    Após o encerramento dos trabalhos, vieram para a aldeia Guarani Mbyá, no morro do Jaraguá, na periferia de São Paulo.  Ali foram acolhidos com muito carinho pelos seus parentes, num gesto de solidariedade e apoio Guarani. Ali lhes ofereceram o jantar e espaço para descansar depois da longa viagem até a Grande São Paulo.

    É um julgamento histórico para os Guarani Kaiowá e os povos indígenas do país. Este povo não aguenta mais tanta violência e impunidade.

    Aldeia do Jaraguá, São Paulo, 21 de fevereiro de 2011.

     

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  • 22/02/2011

    Começou ontem julgamento dos acusados pelo assassinato de Marcos Veron

    Começou ontem (21), o julgamento dos acusados pelo assassinato de Marcos Verón, cacique do povo Guarani Kaiowá, de Mato Grosso do Sul, morto por pistoleiros em janeiro de 2003. O júri, desaforado do MS a pedido do Ministério Público Federal, está acontecendo no Fórum Jarbas Nobre, em São Paulo.

     

    Verón foi assassinado na Fazenda Brasília do Sul, município de Juti (MS), no dia 13 de janeiro quando retomava junto com sua comunidade a área reivindicada como Tekoha Takwara. Por dois dias, eles foram atacados e agredidos por homens armados. Na ocasião, sete indígenas foram seqüestrados e torturados. Dois filhos de Verón, juntamente com o cacique que à época tinha 73 anos e morreu vítima de traumatismo craniano, também foram agredidos.

     

    Os três seguranças que respondem pelo crime, Estevão Romero, Carlos Roberto dos Santos e Jorge Cristaldo Insabralde, são acusados de homicídio duplamente qualificado por motivo torpe e meio cruel, tortura seis tentativas qualificadas de homicídio, seis crimes de sequestro, fraude processual e formação de quadrilha. 

     

    O júrio deve durar cinco dias. Ocasião em que serão ouvidas, por ordem, sete vítimas da comunidade de Veron, duas testemunhas de defesa e uma testemunha do juízo. Em seguida ocorrerá o interrogatório dos três acusados, o debate entre defesa e acusação e, em sala secreta, o julgamento dos réus, quando será decidida a sentença.

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  • 22/02/2011

    Indígenas têm audiência conjunta com Incra, Funai, ICMBio e presidência da república nesta terça-feira (22)

    Cerca de 40 lideranças do povo Pataxó, do sul da Bahia, se reúnem hoje com os presidentes da Funai, do Incra, ICMBio e com o secretário nacional de articulação social da Presidência da República, Paulo Maldos, para tratar da demarcação dos Territórios de Barra Velha e Kay. A reunião terá início às 17h, no Palácio do Planalto.

     

    De acordo com os indígenas, o objetivo da vinda a Brasília é encontrar soluções definitivas para os descasos sociais através da regularização fundiária no Extremo Sul da Bahia. “Entendemos que com este direito garantido, poderemos acessar as políticas de governo e uma melhor qualidade de vida para todos”, ressaltam em documento enviado à presidência.

     

    Os indígenas já tiveram outros encontros com estes órgãos no ano passado. Em novembro de 2010, também houve uma audiência conjunta para a apresentação de proposta por parte do governo na regularização desses territórios, que se encontram sobrepostos ao Parque Nacional Monte Pascoal e ao Parque do Descobrimento. A sugestão foi a demarcação em forma de mosaico, respeitando as especificidades da área.

     

    Os pataxó terão ainda outras audiências durante a semana com o vice-presidente, Michel Temer, com o secretário especial de saúde indígena, Antônio Alves, além de reuniões no Ministério Público Federal e no Ministério do Trabalho e Emprego. Eles ficam em Brasília até sexta-feira (25).

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  • 22/02/2011

    Belo Monte – Missão internacional faz denúncias contra barragens na Amazônia

    Lideranças indígenas da Amazônia percorrem quatro países para denunciar os impactos das hidrelétricas na região

     

    De 20 de fevereiro a 2 de março, uma missão composta por lideranças de comunidades indígenas ameaçadas pelos projetos hidrelétricos de Belo Monte, no Xingu, Complexo Madeira, em Rondônia, e Pakitzapango, no Rio Ene (Peru), percorrerá quatro cidades européias – Oslo, Genebra, Paris e Londres  – para reuniões e atividades com membros de governos, membros das Nações Unidas, empresas, ONGs e imprensa, para denunciar os impactos dos projetos e buscar apoio e/ou compromissos contra a violação de Direitos Humanos das populações ameaçadas.

     

    As lideranças indígenas Sheyla Juruna, de Altamira (PA), Almir Suruí, de Rondônia, e Ruth Mestoquiari, indígena Ashaninka do Peru, estão acompanhadas pelos representantes das ONGs International Rivers e Amazon Watch, colaboradores do movimentos no Brasil e no Peru.

     

    Nesta segunda, 21, a missão participou em Oslo de um seminário sobre os impactos das hidrelétricas sobre as populações indígenas na Amazônia, que tem como objetivo alertar investidores noruegueses sobre os riscos de operações nesta região. No dia 22, haverá reuniões com representantes das empresas SN Power, Norfund e Statkraft e com ministros do governo, que receberão um relato sobre o papel do BNDES como principal financiador dos projetos hidrelétricos e as violações dos Direitos Humanos das populações ameaçadas e atingidas. O governo norueguês é um dos maiores investidores no Fundo Amazônia, gerido pelo Banco.

     

    No dia 23, as lideranças indígenas se reunirão com o Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU em Genebra, e com o Relator Especial para Assuntos Indígenas das Nações Unidas. No dia 24, participarão de uma sessão do Comitê para Eliminação da Discriminação Racial, e se reunirão posteriormente com seus membros.

     

    Em Paris, no dia 24 ocorrerão reuniões com a diretoria de empresas européias que participam de consórcios de hidrelétricas no Brasil e no Peru. No dia 25, haverá uma manifestação contra as hidrelétricas e contra a atuação da empresa Suez, uma das maiores investidoras nos setor na América Latina, na Praça dos Direitos Humanos.

     

    Em Londres, o foco principal da missão será o BNDES, que recentemente abriu um escritório na cidade como base para a sua expansão na Europa. O escritório é a matriz de um subsidiário formado este ano para captar investimento na Inglaterra e em outros países europeus, mas até agora o governo do Reino Unido não prometeu nenhum financiamento para o Fundo Amazônia.

     

    No dia 28, haverá um encontro com membros do Parlamento, em especial das Comissões pelos Povos Tribais, pelo Brasil e pelo Peru. Também está agendada uma reunião com as embaixadas brasileira e peruana.

     

    Nos dias 01 e 02, ocorrerão uma série de eventos públicos para a imprensa e atividades relacionadas ao BNDES. 

     

     

    Serviço:

     

    Missão internacional de denuncias contra barragens na Amazônia

     

    Organização: Movimento Xingu Vivo para Sempre, International Rivers, Amazon Watch e Rainforest Foundation

    Data: de 21.02 a 2.03

    Destinos: Oslo, Genebra, Paris e Londres

    Mais informações: Christian Poirier, Amazon Watch, [email protected], 0044-7960616545

    Erika Bjureby 0044-7889092913

    Brent Millikan, International Rivers, [email protected]

    Clare Morgan, Rainforest Foundation, +44.77.8868.5667, [email protected]

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