• 14/03/2011

    O Guerreiro partiu, mas suas palavras continuam fortificando a luta

    O Regional Rondônia do Conselho Indigenista Missionário (Cimi)  manifesta seu pesar aos familiares e ao Partido dos Trabalhadores (PT) pela tragédia ocorrida na última sexta-feira, 11 de março, em acidente de trânsito, na BR-364, km 355, próximo a Ji-Paraná (RO), que levou a óbito Eduardo Valverde, ex-deputado federal, e Ely Bezerra Sales, radialista e membro do diretório estadual do PT e secretário adjunto da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Sócio-Econômico e Turismo da Prefeitura de Porto Velho. A comitiva da executiva estadual seguia para o município de Costa Marques.

     

    Também foi vítima do acidente o membro da executiva municipal de Costa Marques, Jones Alves de Sousa, que sofreu ferimentos graves, passou por cirurgia e está sob cuidados médicos.

     

    O ex-deputado federal Eduardo Valverde, em seus dois mandatos, foi presidente da Frente Parlamentar Indigenista na Câmara Federal. Valverde marcou sua presença no estado de Rondônia como político guerreiro pela causa dos excluídos. Na sua vida política apoiou com garra e entusiasmo a causa indígena. No momento político da história de Rondônia, exercia a presidência do diretório estadual do Partido dos Trabalhadores.

     

    No velório, os povos indígenas de Rondônia prestaram homenagem e reconheceram a mística guerreira que Eduardo Valverde plantou neste chão rondoniense. Falaram em nome de todos os povos indígenas do Brasil, agradecendo ao deputado sua presença em todos os momentos de suas lutas, como povos. O testemunho da co-responsabilidade a causa e o esforço de cobrar a dívida do Estado brasileiro com os povos indígenas, e seu empenho em garantir os direitos dos povos indígenas no Congresso Nacional.

     

    As lideranças da CUNPIR declararam que a voz do Eduardo Valverde “vai ficar ecoando em nossos ouvidos e em nossas lutas, que os pés marcharão para a paz porque ele na presença e o diálogo era o destaque do político popular”.

     

    Os indígenas deixaram sobre o caixão o grande cocar de honra ao cacique defensor da causa indígena. E a matriarca Karitiana realizou o ritual da paz e envio do espírito.

     

    A fé e a esperança compartilham a vida dos que partem e com os que ficam.

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  • 14/03/2011

    Começa hoje o 2º Simpósio Nacional de Mudanças Climáticas e Justiça Social

    Começa hoje, 14 de março, o 2º Simpósio Nacional de Mudanças Climáticas e Justiça Social. O evento, promovido pelo Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social (FMCJS), organismo ligado a Comissão Episcopal Pastoral para a Caridade, Justiça e Paz, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), será realizado no Centro de Formação Vicente Cañas, em Luziânia (GO) e vai até a próxima-quarta-feira, dia 16.

    O encontro, de acordo com Ivo Poletto, coordenador do Fórum, tem por objetivo disseminar informações, gerar consciência crítica e mobilizar a sociedade civil visando contribuir para o enfrentamento das causas estruturais do aquecimento global que provoca mudanças climáticas em todo o planeta.

    Confira a programação!

    Na pauta do Simpósio, temas como: acesso e utilização dos recursos do planeta; mudanças climáticas no Brasil – política, legislação e papel do Estado; Código Florestal; impactos socioambientais das mudanças climáticas e das soluções propostas; perspectivas da produção de alimentos; integração com o bioma local; adaptação e resiliência; situação do planeta e propostas de ação de governos e povos – Cochabamba a Durban e Rio +20.

    Diversos especialistas participarão das discussões, entre eles, Luiz Zarref, representante do MST/Via Campesina; Lucia Ortiz, da ONG Amigos da Terra; Carlos Nobre, da Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento (Seped/MCT); Maureen Santos, da Fase e FMCJS; Andrea Young, do Núcleo de Estudos de População (Nepo/Unicamp); Maria José Pachecco, do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), Pe. Nelito Dornellas e dom Luiz Demétrio Valentini, da CNBB.

    Acompanhe evento ao vivo a partir das 14 horas

    ATO PÚBLICO

    Na agenda do Simpósio, também está prevista a realização de um ato público, marcado para o dia 16 de março, a partir das 14 horas. Na ocasião, estarão presentes, a ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário Nunes, o ministro da secretaria geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, um representante do Ministério do Meio Ambiente e o presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Caridade, Justiça e Paz, da CNBB, dom Pedro Luiz Stringhini.

    Confira a programação!

    O convite para que representantes do Estado participem do ato tem como objetivo trazê-los para o debate sobre a perspectiva da construção de políticas publicas sobre mudanças climáticas. Além disso, os participantes também aprovarão uma carta-compromisso, em que se estabelecerão metas a serem cumpridas e ações concretas para combater o aquecimento global em território nacional. O ato público acontecerá no Centro Cultural de Brasília (CCB), que fica na 601 Norte, módulo B.

    Acompanhe evento ao vivo a partir das 14 horas

     

    Serviço

    2º Simpósio Nacional de Mudanças Climáticas e Justiça Social

    Quando: 14 a 16 de março

    Onde: Centro de Formação Vicente Cañas, Luziânia (GO)

    Informações:

    Cleymenne Cerqueira – Cimi (61) 2106-1667/9979-7059 – [email protected]

    Ricardo Piantino e Thays Puzzi – Cáritas Brasileira (61) 3214-5422/3214-5415

    Rodrigo Eneas – CNBB (61) 8409-1028[email protected]

     

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  • 12/03/2011

    Nota de Falecimento

    Faleceram na noite desta sexta-feira, 11 de março, Reginaldo Vieira, vice-cacique do Povo Pataxó Hã-Hã-Hãe e o ex-deputado Eduardo Valverde, do PT de Rondônia. Reginaldo, mais conhecido como Goducha, sempre desempenhou um papel determinante na luta de seu povo. Guerreiro aguerrido, prudente e destemido, empenhou-se ao máximo no processo de organização das comunidades Pataxó Hã-Hã-Hãe, localizadas na região Sul do Estado da Bahia. Assim como aconteceu com Galdino e outros, é mais uma liderança que morre sem alcançar a tão sonhada demarcação do seu território tradicional. Segundo informações da comunidade, a causa morte foi pneumonia.

     

    Eduardo Valverde, durante seus dois mandatos na Câmara Federal, se destacou como principal articulador da Frente Parlamentar Indigenista, tornando-se assim um importante canal de comunicação entre o movimento indígena e o Parlamento brasileiro. Foi vítima de um grave acidente automobilístico ocorrido no início da noite de ontem, no município de Ji-Paraná, RO.

     

    As mortes de Reginaldo e Valverde representam uma grande perda para a Causa Indígena.

     

    O Conselho Indigenista Missionário – Cimi vem publicamente manifestar sua solidariedade ao Povo Pataxó Hã hã hãe e aos familiares de Reginaldo e Valverde.

     

    Brasília, 12 de março de 2011.

     

    Cimi – Conselho Indigenista Missionário

     

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  • 11/03/2011

    Three hundred fishermen of the Xingu start fishing campaign against Belo Monte

    Altamira, March 11. Today, over two hundred fishermen of the Xingu river set sail ceremonially for a protest fishing campaign in defence of the Xingu river and in protest against the planned construction of the Belo Monte hydroelectric.

    This morning, the fishermen embarked at the quays of Altamira, in the Amazonian state of Pará, after a religious ceremony and with the blessing of Bishop Erwin Kräutler, bishop of the Xingu prelacy and historic opponent of the hydroelectric plant.

    Symbolic abundance

    About 55 boats will be fishing on various sites of the mighty Xingu river, an important tributary of the Amazon river. Until Monday, March 14, another 25 boats with a hundred fishermen from the towns of Medicilandia, Belo Monte and Brasil Novo (Pará) will join the symbolic protest. Monday morning, the fishermen will return to the quays of Altamira, where the fish caught will be grilled and served for lunch to the population of the city, symbolizing the abundance provided by the river. It is this abundance and diversity that is threatened should the Belo Monte dam be constructed.

    A church sermon, ending with the blessing of the bishop of the Xingu and president of the Indigenous Missionary Council (CIMI), Dom Erwin Kräutler marked the beginning of the "Great Fishing Campaign in Defense of the Xingu and against Belo Monte”.

    The protest action on the Xingu River is organized by the Movement of Fishermen and fisherwomen of  the Xingu, with the support of the Pastoral Land Commission (CPT), the Indigenist Missionary Council (CIMI), FASE, Prelacy of the Xingu as well as other organizations like the Xingu Vivo para Sempre movement.

    River procession

    According to Fábio Barros, spokesperson of the CPT of Pará, the group of fishermen will return to the city of Altamira on Monday, October 14, at about eight o’clock in the morning. They will join to make a big river procession with their boats, landing at the quays of the town, across the main offices of the Eletronorte company, responsible for the planned construction of Belo Monte.

    Fishermen, fisherwoman, social movements and organizations and city residents will engage in a great political manifestation with the exhibition of films and cultural activities in order to educate the public and draw authorities’ attention to the impacts of the construction of a dam in the middle Xingu.

    After this manifestation the participating fishermen will hold a press conference. The manifestation will end with a great lunch served with the fish brought in by the boats, estimated to reach between 10 and 13 tonnes. Fish not eaten during the lunch will be donated to charities in Altamira.

    Communities weave the union for resistance

    During the organization and coordination of the riverine communities and the fishermen for this manifestation against Belo Monte, each community was presented nylon line and needle tools needed to make a fishing net. Either one of them will weave pieces of a large community fishing net which will measure between 200 and 300 meters, symbolizing the union of all communities in their process of resistance.

    According to Fabio, "the intention is that these actions shape the basis of a more organic movement of fishermen and women. With a more consolidated articulation, we will organize an Assembly of fishermen and fisherwomen of the Xingu river, between 25 and 27 March in the city of Vitória do Xingu (Pará), 45 km from Altamira, bringing together 600 to 700 fishermen and women, to define lines of action and tactics of the movement for the coming months."

     

    More information:

    Fábio Barros (Commissão Pastoral da Terra) – +55/93/91466932

    Luiz Cláudio (Conselho Indigenista Missionário – Cimi) – +55/91/82985716

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  • 11/03/2011

    Pescadores do Xingu iniciaram hoje ações para a grande pescaria contra Belo Monte

    Celebração com Dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu, deu início à saída de cerca de 55 barcos com mais de 200 pescadores que irão participar da grande pescaria em defesa do rio Xingu. Até segunda-feira, 14 de março, mais barcos se somarão ao ato.

     

    Uma mística com a benção do bispo do Xingu e presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Dom Erwin Kräutler, marcou hoje, 11 de março, a saída de 55 barcos com mais de 200 pescadores que irão participar da “Grande Pescaria em Defesa do Xingu e contra Belo Monte”. A ação no rio Xingu, organizada pelo Movimento de Pescadores e Pescadoras do Xingu, com o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT), CIMI, FASE, Prelazia do Xingu e demais organizações, receberá ainda hoje e amanhã o reforço de mais 25 barcos com cerca de 100 pescadores vindos das cidades de Medicilândia, Belo Monte e Brasil Novo, no Pará.

     

    Segundo Fábio Barros, da CPT Pará, o grupo de pescadores chegará em Altamira (PA) na segunda-feira, dia 14, por volta das oito horas da manhã, onde farão uma grande Romaria fluvial. Ao desembarcarem na orla da cidade, em frente à empresa Eletronorte, os pescadores, pescadoras, movimentos e organizações sociais e moradores da cidade farão um grande ato político, com a exibição de filmes e atividades culturais com a finalidade de conscientizar a população e chamar a atenção das autoridades para os impactos da construção de uma hidrelétrica em pleno Xingu. Após o ato, será realizada uma coletiva de imprensa com a presença dos pescadores e pescadoras que participaram da grande pescaria, e, logo em seguida, um grande almoço será servido com os peixes trazidos pelos barcos, que se  estima seja entre 10 e 13 toneladas. Os peixes que não forem consumidos nesse almoço serão doados para instituições de caridade em Altamira.

     

    Comunidades tecem a união para a resistência

     

    Durante a organização e articulação das comunidades ribeirinhas e de pescadores para esse grande ato contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, foi entregue a cada comunidade linha de náilon e agulha, instrumentos necessários para tecer uma rede de pesca, para que sejam tecidos pedaços de uma grande rede de pesca comunitária, que terá entre 200 e 300 metros, simbolizando a união de todas as comunidades em seu processo de resistência.

     

    De acordo com Fábio, “a intenção é que seja construído, a partir dessas ações, um movimento mais orgânico desses pescadores e pescadoras. Com uma articulação mais consolidada, iremos realizar uma Assembleia dos Pescadores e Pescadoras do Xingu, entre os dias 25 e 27 de março, na cidade de Vitória do Xingu, a 45 km de Altamira, com a presença de 600 a 700 pescadores e pescadoras, para definir linhas de ação e táticas do movimento daqui para frente”.

     

    Mais informações:

     

    Fábio Barros (CPT) – (93) 9146-6932

     

    Luiz Cláudio (CIMI) – (91) 8298-5716

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  • 11/03/2011

    Falha no projeto da Usina de Jirau leva fazendeiros a decidir exterminar onças

    Onças pintadas e vermelhas estão na mira de tiro de fazendeiros e sitiantes das regiões de Jaci e Mutum, respectivamente a 90 e 160 quilômetros de Porto Velho.  Ao fugirem dos desmatamentos provocados pela construção da usina de Jirau, os felinos estão invadindo as propriedades rurais e causando prejuízos consideráveis aos criadores da gado, carneiro e até galinhas, pois esses bichos são alvos potenciais das onças em busca de alimentos.

     

    “De novembro para cá já perdi 10 carneiros”, disse Almino Brasil, funcionário público da prefeitura de Porto Velho que mantém uma pequena propriedade às margens do rio Caracol, em Jaci Paraná.  “Fui informado que poderia requerer indenização, mas não tenho tempo de, a cada vez que acontecer um ataque, largar meus afazeres aqui na cidade para ir ao sítio fotografar o ocorrido e correr atrás dos meus direitos. O jeito é amargar o prejuízo”.

     

    Um fazendeiro que preferiu não se identificar disse que há um movimento entre os proprietários rurais para transformar a caçadora em caça, ou seja, eles pretendem abater os felinos a fim de diminuir seus prejuízos.

     

    “Está claro que há uma tremenda falha no projeto ambiental dessa usina”, opina o mesmo fazendeiro. “Antes de desmatar, eles deveriam remover as onças para alguma reserva ambiental. O que eles fizeram? Simplesmente estão baixando as motosserras no habitat desses bichos e, para eles, não resta outra alternativa, a não ser buscar refúgio e alimentos nas propriedades da região. O fato é que, antes da usina, não tínhamos esse problema por aqui”.

     

    HÁBITOS

     

    Os fazendeiros dos dois distritos de Porto Velho observaram que a onça pintada abate um animal e se alimenta até se fartar. Em seguida enterra o que sobrou e, mais tarde, volta ao local para novo banquete com a mesma presa. A onça vermelha, porém, mata quantas presas cruzarem seu caminho. “Há relatos de onça vermelha que já abateu até dez animais de uma vez numa mesma propriedade. Ela enterra os animas, se alimenta de um e os demais se perdem”, disse Almino Brasil.

     

    Os proprietários rurais temem também por vidas humanas – principalmente no que diz respeito a crianças. Disse outro fazendeiro que não quis se identificar: “a lei não permite que a gente tenha armas na propriedade rural.  Assim, tenho na minha fazenda um caseiro com esposa e quatro filhos.  Essas crianças podem ser alvos da onça ao saírem para brincar no terreiro.  Até hoje, graças a Deus, não há relatos de onças que atacaram humanos, mas será que teremos que ficar esperando isso acontecer para tomarmos alguma providência”, questiona.

     

    ESTRATÉGIA

     

    As onças nas regiões da Jaci e Mutum estão causando prejuízos consideráveis e colocando a economia de pequenos produtores rurais em colapso – principalmente os que têm criações de subsistência.  Tanto que já há planos para abater os felinos.  Como o abate com arma de fogo poderia chamar a atenção das autoridades, uma parcela de fazendeiros pretende experimentar o envenenamento dos animais.

     

    A idéia é simples: ao fazer um abate, a onça come e enterra o que sobrou, voltando posteriormente para concluir o serviço. Nesse meio tempo, os fazendeiros pretendem envenenar a carne com veneno de rato, o popular “chumbinho”.  Assim, ao voltar para degustar o restante da presa, o felino seria envenenado até a morte.

     

    “Acho legal a gente fazer essa reportagem e colocar esse problema a público, levando ao conhecimento principalmente das autoridades ambientais”, disse outro fazendeiro de Mutum Paraná que quis manter o nome em sigilo.  “A questão está colocada. Agora é ver o que as autoridades vão fazer e, principalmente, o que o consórcio de Jirau vai fazer para solucionar o problema.  Do contrário, vai ser muito difícil conter os ânimos desse pessoal que está tendo prejuízo por conta da onça. Vai acabar sobrando para os felinos”, concluiu.

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  • 11/03/2011

    Virá que eu vi: Contornos de um projeto em construção

    Paulo Suess

    São Paulo, Brasil

     

    “E aquilo

    que nesse momento se revelará aos povos

    surpreenderá a todos não por ser exótico,

    mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto

    quando terá sido o óbvio”.

    (Caetano Veloso)

     

    Sumak kawsay como projeto

     

    No imaginário da humanidade, nos rostos sofridos dos pobres e nos muros dos sistemas existem fendas, às vezes até rupturas, pelas quais passam raios de luz e instantes de felicidade. São espaços em que se articulam utopias com esperanças de um mundo com vida plena, sem fome e desprezo. De algumas dessas rachaduras sistêmicas irromperam as discussões constitucionais na Bolívia e no Equador em torno do paradigma planetário de origem quéchua: o sumak kawsay, que significa “bem viver”. Neste momento histórico, em que assistimos o esgotamento de um ciclo civilizatório, as discussões sobre a real possibilidade do bem viver prosseguem também em outros países.

     

    O sumak kawsay, como horizonte utópico, é um paradigma crítico e autocrítico em construção que visa a uma plataforma pluricultural e multisetorial. Ele aponta para o êxodo de uma situação escravizante e propõe um caminho transformador. Nem todos querem um novo caminho que será árduo. Uns privilegiam a situação escravizante e outros se acomodam à escravidão sendo reconciliados com a precarização da vida por medidas de mitigação. Enquanto os programas de erradicação da pobreza de governos progressistas são financiados pela mais valia da exploração do trabalho e pela exportação de recursos naturais não renováveis, estes programas perpetuam a miséria que pretendem eliminar.

     

    O paradigma do bem viver com seu horizonte utópico não é um receituário nem pode ser a descrição de um programa de governo em seus detalhes. Sumak kawsay é a visão de outro mundo possível. Nesse mundo, a humanidade faz parte da natureza, mas não se dilui nela. Pelas conquistas culturais, a humanidade não se emancipou da natureza, mas acrescentou elementos essenciais a essa natureza, como liberdade e igualdade, dignidade e autonomia, solidariedade e esperança, valores e sentido.            Acrescentou, porém, na história de sua evolução cultural também uma pulsão destrutiva face à natureza e à própria espécie humana. Essa pulsão ultrapassa a mera destrutividade natural, porque, ainda como barbárie, é cultural. Portanto, os acréscimos culturais da humanidade podem ser utilizados para progresso e dominação, para civilização e barbárie. Com esse saber crucial, o paradigma planetário do sumak kawsay procura traçar pistas de um novo equilíbrio, que poderíamos chamar de reconciliação entre humanidade e natureza, ou aliança das vítimas da barbárie humana.

     

    Por sua natureza reparadora e seu horizonte utópico, a proposta do sumak kawsay não foi impulsionado por superpotências do mundo globalizado. Irrompeu da memória histórica e cultural de países pequenos e setores explorados, da Bolívia e do Equador, países e setores marcadamente indígenas, considerados periféricos no que se refere à economia e ao prestígio internacionais. Na história humana, o radicalmente novo, revolucionário e messiânico é sempre gestado na periferia e nas fronteiras dos impérios.

     

    Discernimento, transformação, limite

     

    Quais são os eixos do horizonte utópico incorporados ao paradigma constitutivo e fundacional do sumak kawsay que procura não simplesmente reproduzir uma tradição quéchua milenar, mas expor essa tradição às potencialidades do mundo moderno?

     

    O bem viver deve ser visto como aprendizado histórico, como alternativa para o desenvolvimento humano e econômico de hoje e como nova síntese consensual entre o saber tradicional, a história republicana, a sociedade democrática e o sonho de uma vida que permita amalgamar finitude e dignidade, materialidade e espiritualidade. O horizonte utópico do sumak kawsay cumpre duas tarefas, uma tarefa crítica – o discernimento voltado ao passado e esclarecido pelas potencialidades patológicas e destrutivas que bloqueiam o futuro da humanidade; e uma tarefa transformadora, que se inspira nas potencialidades produtivas e humanizadoras de hoje. A primeira, a crítica, é de advertência; a segunda, a transformadora, vai descrever a beleza de um novo amanhecer e a moldura de um quadro do qual consegue mostrar apenas as primeiras pinceladas. Onde o sumak kawsay do ano 2012 ultrapassa esse limite das “primeiras pinceladas”, onde começa a fornecer um quadro do futuro já desenhado em muitos detalhes além de princípios e valores, aí vai decepcionar, não somente filhos e netos, mas também os contemporâneos, porque terá incorporado criatividade e esperança num quadro previsível, mensurável e pragmático. A construção do bem viver para todos não é um processo linear planejado em escritórios. Ele “surpreenderá a todos não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio”.

     

    Crítica sucinta do modelo em curso

     

    O sumak kawsay faz uma crítica radical ao modelo de desenvolvimento baseado no crescimento, na aceleração da produção, na acumulação dos lucros e na exportação de recursos naturais. Comunidades indígenas, cujos territórios são atravessados pelas novas fronteiras demarcadas por empresas mineradoras e pelo agronegócio (soja, cana de açúcar), sofrem, hoje, o impacto mortal do extrativismo.

     

    O “bem viver” não deve ser confundido com bem-estar na expectativa de crescimento e consumo ilimitados, mas antes como freio de emergência e busca de um novo modelo pós-extrativista. Por criar dependência no setor de energia, de minérios, de pesca e agropecuária, o extrativismo impede a autonomia dos Estados e a liberdade das nações. O extrativismo em qualquer de suas expressões é incompatível com o paradigma do bem viver. No campo energético, quem pensa o futuro da humanidade precisa substituir o gasto de fontes não renováveis, estigmatizar a deterioração ambiental e pensar na construção de uma economia pós-petroleira.

     

    A destruição ambiental está baseada na luta dos humanos contra a natureza. Os povos indígenas, que desde a colonização têm sido considerados “los naturales”, foram incorporados nessa destruição da natureza.

     

    O “bem viver” é um conceito de vida não só contrário aos parâmetros do crescimento econômico, mas também ao individualismo, à relação calculista de custo-benefício, à relação utilitarista entre os seres humanos e natureza, contrário à mercantilização de todas as esferas da vida e à violência culturalmente não mais controlada.

     

    Virá que eu vi

     

    A natureza não é adversária, mas irmã e aliada. O Direito Natural visa não só à dignidade humana, mas também à dignidade da natureza como aliada do “bem viver” da humanidade. O sumak kawsay reconhece a natureza como sujeito de direitos.

     

    Os seres humanos fazem parte da natureza. Portanto, o “bem viver” supera as dicotomias cartesianas entre res cogitans e res extensa, entre natureza e humanidade, e entrelaça o tempo linear com o tempo circular, o mito com a história e a objetividade da produção com a subjetividade da “mãe terra”, que é matriz, matrix e mater. Sumak kawsay ou “bem viver” é possível quando as pessoas vivem em comunidade entre si e com a natureza.

     

    Ao considerar a natureza como sujeito e não como objeto, ao tratá-la como aliada e não como serva, o sumak kawsay propõe a incorporação da natureza à história, não como força produtiva, mas como relação recíproca entre aliados que são seres sociais e naturais ao mesmo tempo.

     

    No “bem viver”, o valor de uso da mercadoria está acima do valor de troca, fraudado pela mais-valia, expropriada pelo capital. A revalorização da pessoa humana e da natureza faz parte daquela sabedoria divina que a humanidade recebeu por muitos caminhos.

     

    Reino, resistência, rebeldia

     

    A construção do sumak kawsay se faz por meio da prática de uma cidadania radical, que zela pelas condições materiais e espirituais dos cidadãos. A pluriculturalidade desse projeto vai além da cultura quéchua e aponta para as múltiplas contribuições de uma aliança ampla pela vida.

     

    O cristianismo como projeto de vida tem uma contribuição importante, mas não hegemônica, a dar para o bem viver. Interpreta a sabedoria presente nos diferentes caminhos de resistência e rebeldia do Reino nas rachaduras do sistema opressor e da sociedade alienada. Essa sabedoria atravessa a história e faz, sempre de novo, nascer a vida e conviver a humanidade. A sabedoria do Reino, como sabedoria do bem conviver de todos, exige o despojamento que desestabiliza o sistema pelo desapego consentido de privilégios da sociedade de classe. O desapego, como exercício de se livrar do desnecessário para que todos possam usufruir o necessário, ultrapassa a esfera do privado e do individual. O desprendimento, em sua forma individual, pode ser compreendido como conversão e ascese, em sua forma comunitária ou sociopolítica, como ruptura e solidariedade.

     

    Os horizontes utópicos do Reino e do sumak kawsay podem somar as suas energias críticas e criativas diante daquilo que ainda não é. Os novos espaços de bem viver e de conviver não serão estruturados pela prosperidade do mais e do melhor, mas por um horizonte de felicidade e dignidade, de sentido e esperança.

     

    http://paulosuess.blogspot.com

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  • 11/03/2011

    2º Simpósio Nacional de Mudanças Climáticas e Justiça Social

    O Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social (FMCJS), organismo ligado a Comissão Episcopal Pastoral para a Caridade, Justiça e Paz, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), está promovendo o 2º Simpósio Nacional de Mudanças Climáticas e Justiça Social, que acontecerá no Centro de Formação Vicente Cañas, no Jardim Ingá (GO), de 14 a 16 de março.

    Segundo o sociólogo e coordenador do Fórum, Ivo Poletto, o objetivo do Simpósio é que os setores sociais (movimentos, organizações, sociedade em geral) e as Igrejas, mobilizados para influir nas políticas públicas, alcancem encaminhamentos concretos sobre a questão ambiental, fazendo frente às mudanças climáticas.

    Confira a programação!

    “É o nosso objetivo também disseminar informações, gerar consciência crítica e mobilizar a sociedade civil visando contribuir para o enfrentamento das causas estruturais do aquecimento global que provoca mudanças climáticas em todo o planeta”, destacou o sociólogo.

    Está marcado para o último dia do Simpósio, um ato público, para o qual o FMCJS está convidando ministros de Estado e autoridades religiosas, para que, juntos, possam debater sobre perspectivas das políticas públicas sobre mudanças climáticas. Além disso, os participantes aprovarão uma carta-compromisso, em que se estabelecerão metas a serem cumpridas e ações concretas para combater o aquecimento global em território nacional. O local escolhido para o ato público foi o Centro Cultural de Brasília (CCB), que fica na 601 Norte, módulo B.

    Confira a programação!

    O Simpósio tem o apoio do Fundo Nacional de Solidariedade, da Campanha da Fraternidade, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); do Conselho Indigenista Missionário (Cimi); da Misereor (instituição ligada à Igreja Católica da Alemanha); a Agência Católica para o Desenvolvimento Exterior (CAFOD); da DKA; da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE).

    Serviço

    2º Simpósio Nacional de Mudanças Climáticas e Justiça Social

    Quando: 14 a 16 de março

    Onde: Centro de Formação Vicente Cañas, Luziânia (GO)

    Informações:

    Cleymenne Cerqueira – Cimi (61) 2106-1667/9979-7059 – [email protected]

    Ricardo Piantino e Thays Puzzi – Cáritas Brasileira (61) 3214-5422/3214-5415

    Rodrigo Eneas – CNBB (61) 8409-1028 – [email protected]

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  • 11/03/2011

    Comissão Interamericana de Direitos Humanos intima Brasil a se manifestar sobre Belo Monte

    O Secretário Executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA), Santiago Canton, remeteu nesta quinta, 10, uma solicitação de informações ao Brasil sobre o licenciamento e a falta de oitivas indígenas da hidrelétrica de Belo Monte.

    O questionamento ao governo brasileiro é uma resposta a um pedido de medida cautelar encaminhada à CIDH em novembro de 2010 pelo Movimento Xingu Vivo para Sempre e outras 40 entidades de defesa das comunidades indígenas e tradicionais da Bacia do Xingu. Antevendo a emissão de uma licença de instalação parcial ilegal para as obras da usina, o pedido de medida cautelar solicitou que a União seja obrigada a suspender o processo de licenciamento ambiental referente à UHE de Belo Monte; a interromper qualquer intervenção, atividade ou procedimento por parte do Estado brasileiro ou terceiros para a construção da UHE de Belo Monte; e a respeitar os direitos humanos das pessoas e comunidades afetadas em tudo que seja relacionado com o projeto.

    No questionamento, a CIDH exige que o governo envie à Secretaria, no prazo de 10 dias improrrogáveis, contados a partir do recebimento desta comunicação, informações sobre:

    a) O estado atual da ação civil pública interposta pelo Ministério Publico Federal mediante a qual se solicita a suspensão imediata da licença parcial à empresa Norte Energia.

    b) A alegação dos solicitantes de que a licença parcial outorgada à empresa Norte Energia não teria base legal e que esta teria sido outorgada sem cumprir com os requisitos estabelecidos pelo IBAMA. Tenha por bem apresentar as normas nas quais se fundamenta o outorgamento da licença.

    c) Os procedimentos de consulta prévia, livre e informada realizados com os povos indígenas que seriam afetados pelo projeto Belo Monte”.

    O questionamento da OEA é mais uma demonstração dos atropelos legais do governo brasileiro no processo de construção de Belo Monte. De acordo com a advogada da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, Roberta Amanajás, o pedido de informações ao Brasil servirá como base para que a CIDH avalie o deferimento do pedido de medida cautelar. Se este ocorrer, o país em tese será obrigado a acatar as recomendações da OEA, explica Amanajás. “O Brasil, quando assina um tratado, se obriga a cumprir as determinações do mesmo. Ele assinou a Convenção Interamericana de Direitos Humanos, que reconhece a Comissão Interamericana como legitimada para analisar estes casos”, afirma a advogada.

     

    Serviço:

    Mais informações:  Roberta Amanajás, +559181621232

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  • 10/03/2011

    Belo Monte Builders Accused of Deterring Indians from Planting Own Crops

    2011 – March 2011 

    Written by Pedro Peduzzi / Agência Brasil

    (translation – original article published by the Estadão)

    Thursday, 10 March 2011

    One of the first things Norte Energia – the Brazilian consortium that made the winning tender offer for the construction of the Belo Monte hydroelectric dam and power plant in the state of Pará, on the Xingu River – did was distribute free food baskets to members of the indigenous community in the area around the dam site.

    Work has started on the constructions site and the food distribution was seen by Norte Energia as part of contractual obligations to protect the environment and ensure that the local Indians do not go hungry.

    Immediately, an official from the Indigenous Missionary Council (Cimi), which is linked to the Catholic Church, expressed indignation and warned that as a result of the free food baskets some of the Indians have stopped planting their own crops.

    "There is nothing positive in Belo Monte. The so-called environmental protection clauses in the construction contract, which are supposed to mitigate any negative impact on the local population and environment, are just making things worse," declared Cléber Buzatto, a deputy secretary at Cimi.

    "The case of the food baskets is a good example. Because of the free food some of the locals are not planting crops anymore. An external dependence is being created and these people are going to suffer the consequences."

    The news that earthmoving equipment has begun operations on the construction site at Belo Monte caused consternation among Cimi personnel.

    "The news had a tremendous impact on us. The work began with a lot of legal questions still unresolved and there has been no dialogue with the local population," says Buzatto, adding that instead of building new dams the country could just as well improve what already exists.

    "Belo Monte is not necessary for Brazil and the environmental protection clauses are not sufficient to justify it," declared Buzatto. "The country could expand its energy generation by investing in existing infrastructure. But that does not happen because it is not profitable for the big construction companies."

    The Cimi official went on to say that recent blackouts prove his point. "These blackouts are the result of a lack of investment in the existing grid. We have to upgrade turbines. We can increase energy generation by 20% just by modernizing what we have."

    Buzatto explained that Cimi intends to continue its fight against the construction of Belo Monte. "We will hold a protest soon, a symbolic act to emphasize the importance of the Xingu River and the local population’s way of life that will be negatively impacted by the Belo Monte dam."

    According to Buzatto, the local Indians just do not see the dam as a development model for them or for their future generations.

    "From the Indian point of view, this hegemonic model is not sustainable. It causes climatic disasters. The Indians are also aware that the hydroelectric power plant will transform the region, bringing more violence, more prostitution, more exploitation of workers, not to mention the invasion of their lands where they have lived for thousands of years," said Buzatto.

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