• 12/04/2011

    Campanha da Avaaz: Dilma, respeite a OEA!

    O movimento Avaaz lançou hoje nova campanha na luta contra Belo Monte. A campanha é uma chamada ao bom-senso de presidente Dilma, para que ela respeite o requerimento da Organização dos Estados Americanos (OEA). Dez dias atrás, a OEA pediu que o governo paralisasse a construção de Belo Monte, até que sejam realizadas as oitivas indígenas, ou seja, a consulta prévia, informada, de boa-fé e culturalmente adequada.

    O governo tem até sexta-feira, dia 15, para responder. Até o momento, a reação do governo, inclusive ministros e vários senadores tem sido negativa, sugerindo que o governo possa negar o pedido da entidade internacional. Avaaz quer sensibilizar o governo, para que respeite a própria Constituição do Brasil e suas obrigações internacionais, como estipuladas pela Convençao 169 da OIT, da qual o Brasil é signatário.

    600.000 assinaturas

    Essa campanha é a continuidade da primeira campanha da Avaaz contra Belo Monte que reuniu mais de 600.000 assinaturas, entregues ao governo no dia 8 de fevereiro, durante uma manifestação em Brasília.

     

    Segue o texto da nova campanha:

    A OEA pediu ao Brasil para interromper a construção de Belo Monte – a hidrelétrica imensa no meio da Amazônia. A Presidente Dilma tem quatro dias para responder. Com essa pressão internacional sem precedentes, nós temos a chance de finalmente parar Belo Monte.

    A nota veio em resposta a um apelo direto das comunidades amazônicas afetadas, em forma de um pedido oficial para o governo brasileiro interromper a construção de Belo Monte, alertando que o Brasil pode estar violando tratados inter-americanos se prosseguir com a construção.

    O prazo final para o Brasil responder a OEA é esta sexta feira. Nós temos apenas alguns dias para dizer à Presidente Dilma, ao Ministério das Relações Exteriores e à Secretaria de Direitos Humanos que nós estamos do lado da OEA e dos povos amazônicos. Envie uma mensagem para eles agora.

     

    Para aderir à campanha clique:

    http://www.avaaz.org/po/belo_monte/?cl=1016152791&v=8847

     

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  • 12/04/2011

    Hidroelétrica de Belo Monte: os “impactos perniciosos” e os discursos de

    Por Iara Tatiana Bonin, Doutora em Educação pela UFRGS

     

    Há quem afirme, sem pestanejar, que o Brasil desponta entre as mais fortes potências e se torna referência para a América Latina. Para estes, os muitos questionamentos e protestos contra iniciativas supostamente vinculadas ao desenvolvimento regional e nacional, não fazem sentido. Assistimos a uma euforia desenvolvimentista nestes tempos, movimentada em especial pelas manifestações de representantes do Governo Federal que buscam dar visibilidade ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), esse amontoado de ações e de obras executadas em grande parte com recursos públicos, mas com finalidades nem sempre efetivamente voltadas ao bem “do povo”. Neste clima de celebração do crescimento a qualquer custo, não parecem aceitáveis as manifestações de descontentamento ou os protestos feitos por alguns segmentos sociais que não vêm razão para comemorar com determinas obras. Exemplo disso é a construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte.

     

    Esgotados todos os recursos para promover um efetivo debate sobre Belo Monte e seus impactos, no âmbito do país, organizações indígenas e de apoio recorreram à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA). As organizações solicitaram que este organismo exigisse do governo brasileiro apenas o cumprimento do que determina a Constituição Federal e a Convenção 169 da OIT: a realização de consulta às comunidades afetadas pelo empreendimento e, em particular, aos indígenas que vivem naquela região. Tais povos estabelecem com o rio uma relação ritual (considerando-o como fonte de vida) e não uma relação meramente utilitária (na qual o rio é visto como um recurso a ser explorado). É preciso ressaltar que, apesar do governo afirmar recorrentemente que houve diálogo e que as comunidades foram devidamente consultadas, as notícias e reportagens que têm circulado sobre o assunto mostram o contrário. Os próprios técnicos da Funai reconheceram, em vídeo divulgado amplamente na internet, que as visitas feitas a algumas comunidades indígenas eram apenas reuniões informativas, de preparação às oitivas.

     

    Em resposta à reivindicação dos povos da Bacia do rio Xingu, a CIDH pediu a imediata suspensão do processo de licenciamento da usina. E o que se escuta, a partir de então, é o burburinho vindo de setores privados e a reação do Itamaraty, afirmando que as solicitações são “precipitadas”, “descabidas”, “injustificáveis”. E não poderiam faltar inflados pronunciamentos, como do senador José Sarney, em defesa da soberania nacional – esse conceito que hoje se torna cada vez mais plástico, contraditório e ambivalente. Ao que tudo indica, abrir a economia para investimentos internacionais de toda ordem e em setores estratégicos não atingiria a nossa soberania; permitir patenteamento, por empresas estrangeiras, de processos e produtos oriundos de saberes  coletivamente constituídos não afetaria os interesses soberanos, mas a iniciativa indígena de recorrer à OEA para a defesa de direitos humanos, sociais e ambientais seria uma afronta à nação.

     

    Assim, o argumento de “atentado à soberania” é mais uma vez utilizado como sinônimo de “discordar de posições e políticas oficiais”, tal como se registra naquelas páginas infelizes de nossa história, escritas com as tintas da ditadura. Aliás, naqueles tempos também se assumia o discurso desenvolvimentista quase como uma lei natural, um destino, a vocação de um país "que vai pra frente”.

     

    Hoje, como ontem, representantes públicos se pronunciam em defesa de obras e ações supostamente “miraculosas”. Exemplo disso foi o discurso proferido pelo ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência da República, declarando que o governo não abre mão da construção da usina de Belo Monte, que não há discussão em relação a isso porque ela será feita de um jeito ou de outro. Para o ministro, a função dos movimentos sociais, populares e indígenas seria, nesse caso, a de cobrar que a obra seja construída de forma mais humana, mais respeitosa. “Essa é a parte do diálogo que dá para a gente fazer”, concluiu. Mas que diálogo é esse no qual são discutidos apenas detalhes periféricos d e algo que é, desde o início, assumido como inevitável? E que tipo de consulta às comunidades pode ter sido feita pelo governo (e pela Funai), quando o ponto de partida é a noção do “fato consumado”?

     

    A Constituição Federal brasileira determina que seja realizada consulta aos afetados por obras deste porte não para simplesmente constar como “peça” na engrenagem da democracia, mas para construir, a partir de diálogos efetivos, a definição de sua viabilidade ou inviabilidade. Do mesmo modo, a Convenção 169 (que a partir do Decreto n. 5.051/2004, assinado pelo Presidente da República, é assumida como norma a ser “executada e cumprida inteiramente”) assegura que o governo deverá “consultar os povos interessados, mediante procedimentos apropriados e, particularmente, através de suas instituições representativas, cada vez que sejam previstas medidas legislativas ou administrativas suscetíveis de afetá-los diretamente” (Artigo 6, alínea 1.a).

     

    Além disso, a mesma Convenção assegura que “os povos interessados deverão ter o direito de escolher suas próprias prioridades no que diz respeito ao processo de desenvolvimento, na medida em que ele afete as suas vidas, crenças, instituições e bem-estar espiritual, bem como as terras que ocupam ou utilizam de alguma forma, e de controlar, na medida do possível, o seu próprio desenvolvimento econômico, social e cultural. Além disso, esses povos deverão participar da formulação, aplicação e avaliação dos planos e programas de desenvolvimento nacional e regional suscetíveis de afetá-los diretamente” (Artigo 7, alínea 1). Se a oitiva às comunidades foi feita, conforme afirma o representante da Funai, quem a realizou não parece ter levado a sério os termos dessa Convenção.

     

    O governo agora assume o compromisso de “estar mais presente nas mesas de negociações entre empresários, trabalhadores e comunidade”, conforme declarou o ministro Gilberto Carvalho. E isso pode ser entendido como um reconhecimento, ainda que indireto, de que algumas importantes definições relativas a obras monstruosas como esta passaram, até aqui, pelas “mãos” e pelos “olhares” de outros, e não os do poder público.

     

    Fazendo alusão aos conflitos ocorridos nas usinas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, o ministro afirma que, em Belo Monte “é preciso antecipar cuidados com a saúde, com a segurança, com saneamento, para que o impacto da obra no local não seja tão pernicioso para as populações". Há que se perguntar, depois desta declaração oficial que teve como porta-voz o ministro, o que há, em Belo Monte, de tão espetacular e prodigioso que justifique os recursos nela empenhados, já que essa obra acarretará tantos “impactos perniciosos” sobre a população? A quem, afinal esse mega-investimento beneficiará?

     

    As declarações injuriadas, ou cheias de rodeios e de salvaguardas feitas por representantes do governo quando os procedimentos relativos à Belo Monte são duramente questionados fazem pensar em quanta “massa cinzenta” é preciso empenhar quando se deseja justificar o injustificável. São meras desculpas para abrandar o fato de que obras como Belo Monte só beneficiarão grandes empreendedores e empreiteiras.

     

    Porto Alegre, RS, 11 de abril de 2011.

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  • 12/04/2011

    Abril – Jornadas de Lutas

    350 sem-terra do MST estão acampados no Trevo do Lagarto

     

    Chegaram ontem a Cuiabá 350 homens e mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) para iniciar as Jornadas de Lutas em mais um abril.

     

    Todo ano, nesse mês, o Movimento, em todo o país, realiza atos e protestos para lembrar o Massacre de Eldorado dos Carajás em que 19 sem-terra foram assassinados por pistoleiros. O Massacre aconteceu no Pará, há 15 anos; os assassinos continuam impunes.

     

    Os militantes que chegaram de várias regiões do Estado – Cláudia, Sinop, União do Sul, Araputanga, Mirassol, Rosário Oeste e Rondonópolis – pretendem colocar a reforma agrária em pauta nas duas cidades, Cuiabá e Várzea Grande.

     

    Mal chegaram e, conforme do MST, os sem-terra já estão sendo ameaçados de expulsão. Mas eles pretendem ficar no Trevo do Lagarto até o dia 17.

     

    No dia 18, seguem em caminhada até Várzea Grande, aonde vão se unir a outros movimentos sociais, para denunciar o estado de abandono daquela cidade.

     

    No dia 19, a caminhada será na capital, encerrando com um ato político, conjuntamente com moradores de Cuiabá, para denunciar o descaso do poder público com a população de Cuiabá. “Depois disso, a caminhada segue até o INCRA(vado)  para fazermos a luta por Reforma Agrária e melhores condições de vida no campo”, explica Antônio Carneiro, da coordenação estadual do MST em Mato Grosso.

     

    “Nesse abril, o MST quer também ressaltar que fatos como os ocorridos no Pará demonstram que os resquícios da escravidão continuam muito presentes no Brasil, já que para os donatários e senhores da terra de épocas remotas, matar negros e pobres não era crime e sim limpeza, por isso ninguém era punido por esses crimes. Infelizmente essa realidade ainda continua muito presente nas ações truculentas da justiça, fazendeiros, políticos e do agronegócio”, lamenta Carneiro.

     

    VEJA A PAUTA DO MOVIMENTO:

     

    – Cumprimento das metas do Plano Nacional de Reforma Agrária de 2005 – Assentar 100 mil famílias ano;

    – Revisão dos índices de produtividade. O Atual índice é de 1975;

    – Reestruturação e fortalecimento do INCRA com valorização dos servidores e concurso público urgente;

    – Mais Qualidade para os Assentamentos – Escolas, saúde, lazer etc..

    – Plano Emergencial para Assentar 90 mil famílias que estão acampadas vivendo em péssimas condições;

    – Aumento de recursos para o PRONERA;

    – Renegociação das dívidas dos assentados e liberação de créditos para as famílias assentadas

    – Construção de Agroindústrias cooperativadas nos assentamentos;

    – Incentivo a Produção agroecológica

    – Universalizar a Assistência Técnica para todas as famílias assentadas.

     

    Principais pontos de pauta em Mato Grosso:

     

    – Assentamento imediato de 2.500 famílias

    – Infraestrutura básica para os assentamentos, como estradas, postos de saúde da família, melhoria as escolas do campo e principalmente água potável.

    – Assistência técnica para todas as famílias assentadas

    – Cursos técnicos e superiores para assentados e seus filhos/as

    – Reorganização do INCRA com pessoas no comando que tenham mais disposição de resolver os problemas dos acampamentos e assentamentos, que tenham mais capacidade técnica e administrativa e vontade política de negociar com os movimentos sociais, governo do estado e prefeitos.

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  • 11/04/2011

    Os Guarani do Rio Grande do Sul e a contínua luta pela demarcação de suas terras

    Reuniram-se, nos dias 07 e 08 de abril, no Tekoá Nhu’u Poty, (aldeia Flor do Campo) os caciques do Povo Guarani e os coordenadores da CAPG – Conselho de Articulação do Povo Guarani do Rio Grande do Sul – para tratar das questões que afetam as comunidades indígenas. Antes deste encontro, os Guarani realizaram, de 04 a 07 de fevereiro, o evento Sepé Tiaraju, em São Gabriel.  Na ocasião elaboraram documentos que foram encaminhados aos órgãos públicos exigindo rapidez no reconhecimento e demarcação das terras e que sejam asseguradas políticas diferenciadas em saúde, educação. Desde então se passaram dois meses e nada foi encaminhado pela Funai, que, além disso, não tem comparecido nas comunidades.

     

    Durante o encontro na comunidade Nhu’u Poty, os Guarani retomaram as principais questões e destacaram com preocupação a não demarcação das terras Estiva, Capivari, Lami, Lomba do Pinheiro, a demora na conclusão do GT de identificação e delimitação do Petim, Passo Grande e Arroio do Conde, bem como a morosidade da Funai em realizar os estudos e análises dos relatórios de identificação das terras de Itapuã, Ponta da Formiga e Morro do Coco e de Estrela Velha. Também, segundo as lideranças, há morosidade nas análises, por parte da Funai, das contestações contra a demarcação da terra Mato Preto. Os Guarani reivindicam agilidade com relação à demarcação da terra de Irapuã, bem como na retirada dos ocupantes brancos da terra do Canta Galo, homologada há mais de quatro anos.

     

    Além das questões relativas à demora nas demarcações de terras, as lideranças manifestaram apreensão acerca dos empreendimentos que afetam as terras Guarani, aquelas em estudo para demarcação, bem como as demarcadas. Em especial fizeram referência aos projetos de duplicação das BRs 116 e 290, que afetarão as comunidades que habitam as margens destas estradas, bem como da BR-101 que foi duplicada, mas não foram cumpridos os acordos e programas relativos às mitigações e compensações dos impactos gerados nas comunidades por este empreendimento do Governo Federal.

     

    No que se refere a terras compradas pelo Estado do Rio Grande do Sul, para o usufruto de comunidades Guarani, as lideranças enfatizaram que existe muita demora na regularização das áreas, em especial destacaram o caso da terra da Coxilha da Cruz, adquirida pelo governo do Estado no ano de 2000, mas que até hoje, passados 11 anos, a situação fundiária não está concluída, comprometendo com isso, o uso da terra pela comunidade Guarani. A área comprada teria, pelo decreto estadual, 201 hectares, no entanto a comunidade está na posse de apenas 100 hectares. O restante da área encontra-se invadida por plantadores de eucalipto, arroz e fumo.

     

    Na avaliação das lideranças o órgão indigenista tem se omitido quanto à busca de solução dos graves problemas que as comunidades enfrentam. De acordo com os relatos das lideranças que vivem em acampamentos de beira de estradas, especialmente de Irapuã, Santa Maria, Capivari, Petim, Passo da Estância e Lami, o dia a dia das famílias é de muito sofrimento, pois faltam as condições mínimas para a sobrevivência. Falta terra e são impedidos de entrar e ocupar até mesmo as áreas que estão sendo demarcadas. Falta alimentação, não há água potável. Os rios e córregos estão contaminados por agrotóxicos das lavouras de arroz, soja e do plantio de fumo. Algumas lideranças, com lágrimas de dor e sofrimento, relataram que vivem a vida toda na beira das estradas (algumas lideranças têm mais de 60 anos de idade) sem direito a um pedaço de terra. Com muita amargura relatam que são expulsos e enxotados das terras que lhes pertencem, porque a Funai não cumpre com seu dever de demarcar as terras e lhes assegurar a posse.

     

    Outro questionamento a reestruturação do órgão indigenista que, segundo as lideranças, serviu para protelar ainda mais os procedimentos de demarcação. A reestruturação tem servido como uma espécie de desculpas pela falta de recursos financeiros e pela pouca prestação de serviços às comunidades. Servidores alegam não poder atender as comunidades por não haver disponibilidade de recursos para pagamento de diárias.

     

    Diante das questões, as lideranças Guarani elaboraram uma carta que foi encaminhada à Presidência da Funai, em Brasília, na qual solicitam uma audiência com o presidente do órgão indigenista e com as coordenações responsáveis pelas demarcações de terras e pela gestão ambiental. Na avaliação das lideranças Guarani é urgente que o governo brasileiro, através dos responsáveis pela condução e execução da política indigenista, assuma efetivamente suas obrigações constitucionais e trabalhe no sentido de resguardar os direitos indígenas em especial aqueles que estão sendo sistematicamente desrespeitados: a demarcação das terras e seu usufruto exclusivo pelas comunidades.  

     

    Porto Alegre, RS, 11 de abril de 2011.

     

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  • 11/04/2011

    Mbarakay – Violência e Dor

    Por Egon Heck 

    “Eu estava trabalhando na fazenda do Rodrigues, quando o grupo Kaiowá Guarani do Mbarakaí, do cacique Alipio Aquino começou a adoecer de sarampo. No começo a gente ia ao velório. Era uma criança enterrada de manhã, depois de tarde já era outra. Depois foram morrendo tanta criança que a gente já não podia mais acompanhar tudo”. (Rosalino – Avá Tupã Xirinó)

    Este fato, narrado por Rosalino, ocorreu em 1974, há uns 16 quilômetros da cidade de Iguatemi, no cone sul do Mato Grosso do Sul, região de fronteira com o Paraguai. Os sobreviventes foram levados por pastores da Igreja Evangélica Presbiteriana para a Reserva Indígena de Sassoró. Ará Verá Bydu estava entre eles.

    Sentado num banquinho, juntamente com sua esposa Loide, Ará Verá inicia sua narrativa de dor, sofrimentos e mortes. O relato é entrecortado por momentos de muita emoção e lágrimas.  Ao lembrar as duas voltas ao tekohá Mbarakaí, a imediata expulsão por grupos de pistoleiros e fazendeiros, ele relata minuciosamente os ataques sofridos e as drásticas conseqüências para o seu grupo, que apenas retornara à sua terra tradicional na esperança de que possa voltar a viver em paz e com tranqüilidade. 

    As retomadas e os despejos

    Às 3h15 de um bonito dia de inverno, 15 de julho de 2003, apareceu, repentinamente, um grande número de pistoleiros que cercaram os barracos e começaram a atirar, quebrar tudo, batendo nas pessoas e depois jogando combustível, queimando todos os barracos. Nós mal tínhamos feitos os barracos, comenta Ará Verá. Como resultado desse cruel despejo ele fala de dois casais de velhos e duas crianças que desapareceram, não tendo notícias deles até hoje. “A gente não pôde mais voltar lá para saber alguma notícia dos desaparecidos”, dentre os quais cita Ramon Fernandes, Elena Borivon, ambos idosos, e Cleide, que há época tinha oito anos. Relata ainda as conseqüências do ataque a vários membros do grupo: Osni Riquelme perdeu a vista por causa das coronhadas na cabeça, Francisco Benites teve dois dedos cortados, Andresa Silva ficou com a mão aleijada em função das pancadas…” Diante de toda a violência não conseguem permanecer em seu tekohá. O grupo ficou disperso em várias áreas na região.

    Em uma nova tentativa de retomar o espaço de vida onde cresceu e viveu com seus parentes, hoje aos 50 anos narra com lágrimas mais uma ação de violência: “As cinco da manhã do dia 9 de dezembro de 2009, novo ataque ao grupo do tekohá Mbaraká’y. Novamente cercados por pistoleiros, foram rapidamente dominados, espancados e despejados do tekohá. Awa Ará Verá conta sua odisséia  que durou quase 24 horas. Para fugir do cerco dos pistoleiros  e poder voltar para uma área indígena da região, atravessou pântanos, rios, mata  e erosões. Só chegou a  uma área onde mora uma irmã, às três horas da manhã, todo machucado e aranhado pelos obstáculos que teve que vencer na fuga. 

    Segundo relatos de Awa Ara Verá as conseqüências de mais esse violento despejo foi o desaparecimento de Arcelino Oliveira Texeira, um rapaz de 18 anos, do qual não se tem notícias até hoje. Marcia Lopes tem uma bala no corpo. Atanar, ancião e liderança religiosa, foi brutalmente espancado. Marcilia Lopes Martins se queixa de dores em conseqüência das agressões sofridas.  Também ficaram feridos à bala Rosalino Lopes e Izael Souza. Awa Ará Verá faz o relato de muita dor com a convicção e a certeza de que tudo isso faz parte de seu trabalho e luta pelo seu povo. Aparenta não guardar ressentimento por tudo que tem sofrido. Porém deixa bem claro que precisa continuar a luta até que tenham o direito à sua terra reconhecido. “Já perdemos vários companheiros, mas vamos continuar fazendo nosso caminho”. Ele termina lembrando que “a Constituição diz que temos direitos, mas a lei não foi respeitada. Nosso problema não foi resolvido”.

    A comunidade enviou mais uma vez documentos à Funai e Ministério Público Federal solicitando maior agilidade na identificação e demarcação das terras Kaiowá Guarani, bem como proteção às comunidades que estão exigindo seus direitos. 

    Em meio a muita dor e esperança a vida continua no acampamento provisório na Terra Indígena Jaguapiré. Que sejam tomadas urgentes providencia. Que os relatórios de identificação sejam publicados, as terras demarcadas e devolvidas ao direito sagrado, originário e constitucional das comunidades Kaiowá Guarani.

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  • 11/04/2011

    APIB repudiates Brazilian Government´s reaction to OAS Precautionary Measures on Belo Monte

    Original Posting:

    https://cimi.org.br/?system=news&action=read&id=5446&eid=259

       The reaction of the Brazilian Government to the precautionary measures of the Inter-American Commission on Human Rights (IACHR) of the Organization of American States (OAS) on the case of Belo Monte and the indigenous peoples, which officially calls for the immediate suspension of the licensing process and of the construction of the Belo Monte Hydroelectric Complex, in Pará, should fill the country’s authorities with shame, who still neither know nor want to hear the outcry  of the indigenous peoples and the traditional communities of the region. These have long warned about the risks of the project, its socio-environmental impacts, and primarily about the lack of respect for the right of the affected populations to "prior, free and informed consultation, in good faith and culturally appropriate" as requested by the OAS, in accordance with Convention 169 of International Labor Organization (ILO), which was incorporated into national legislation by Decree 5051, in 2004.

       To the contrary, the Government through the Ministry of Foreign Relations, politicians and especially the indigenist agency – FUNAI, in a statement released on April 5, adopts a method that´s even worse than the previous one, blatantly lying to the international authorities, national and international public opinion, and to itself; alleging that it has already fulfilled its "institutional role in the process of clarification and consultation with indigenous communities" in all Indigenous territories, having provided information to indigenous people through meetings and public audiences. According to the agency, "the minutes submitted along with the report show that the communities were heard by the Funai during the preliminary consultation phase for the analysis of the indigenous component of the project."

       The alleged "undisputed role of the FUNAI in defense of indigenous peoples" is not sustained by the generalized situation of violation of indigenous rights in distinct areas, such as demarcation and protection of indigenous lands and the criminalization of indigenous leaders, as well as evidenced by the failure to apply the right of consultation, as established by the Federal Constitution and ILO Convention 169, in that the meetings and hearings organized by FUNAI were for informational purposes only in the context of the Environmental Impact Studies, and those participating continue to wait for the consultations announced by government officials.

        In the memorandum the FUNAI further incurs in the crime of discrimination and racism by saying that "the impacted Indigenous Lands are occupied by a group of indigenous peoples differing from each other. In the indigenous Lands Paquiçamba, Arara da Volta Grande do Xingu and Juruna do Km 17 live people who have undergone miscegenation processes, that is to say, have mixed with the non-indigenous population … "

       A malicious statement, which once again is an affront to ILO Convention 169 concerning indigenous identity (Art. 1). Nothing justifies the human rights of local communities, indigenous or otherwise, would be meanly disrespected.

       Instead of being reluctant to admit its errors, the Government should be concerned about changing the authoritarian, dictatorial and racist political culture with which the Brazilian State has always treated the indigenous people and other social groups, who have fought, even risking their lives, for openness and the current democratic regime.

       The APIB reiterates its repudiation of the attempt by the Brazilian Government to "shove down our throats" the Belo Monte Dam and other projects, such as the Transposition of the São Francisco River and the Small Hydroelectrics Plants (PCHs) that are impacting and will impact the Indigenous Lands and Peoples, with irreversible damage to current and future generations.

       The APIB demands, in closing, that no new enterprise be installed in Indigenous Lands until consultations are conducted, as demanded, for years now, by our peoples and organizations. That Eletronorte and FUNAI cease attempting to demobilize and silence the voices of those affected by Belo Monte and other projects with emergency relief policies like the distribution of food baskets. We do not want that the situation of slavery, conflict and social problems occurring at the Jirau and Santo Antonio hydroelectrics be repeated, threatening the physical, mental and cultural safety of indigenous communities.

       And we demand that the Brazilian government, especially the indigenist agency, fulfill, in fact, its constitutional role of advocating the indigenous rights, rather than adopting regressive and authoritarian postures typical of the dictatorial regime.

    Brasilia, April 8, 2011

    ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL – APIB

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  • 11/04/2011

    Agrotóxicos, veneno do agronegócio, contaminam alimentos e meio ambiente

    O casamento do capital financeiro com o latifúndio gerou o que chamam de "moderno" agronegócio. A lógica de exploração da terra – grandes extensões, monocultura, produção basicamente de grãos para exportação, mecanização e pagamento de baixos salários – necessita ainda de um ingrediente venenoso: mais de um bilhão de litros de agrotóxicos despejados na lavoura  no Brasil, só em 2009. Isso significa que cada brasileiro consome cerca de 5,2 litros de venenos por ano, dissolvidos nos alimentos e na água contaminados. O impacto desses produtos sobre a saúde humana, tanto de quem os maneja diretamente (trabalhadores rurais), como das comunidades e dos consumidores, é grande, inclusive com registros de inúmeros casos de problemas neurológicos, má formação fetal, câncer e até mortes.

     

    Em 2009, o Brasil se tornou o maior consumidor do produto no mundo. O uso exagerado de agrotóxicos é o retrato do agronegócio: apesar de todo seu dito "avanço tecnólogico", não conseguiu criar um modelo de produção e técnicas agrícolas que garantam a produção de alimentos saudáveis para a população. Porque esse não é o interesse do agronegócio.

     

    O agronegócio expulsa os camponeses do campo, destrói a terra, enche suas grandes extensões de máquinas e venenos, paga mal seus poucos trabalhadores e para quê? Para vender soja e cana para outros países. Correm para aprovar transgênicos – mesmo que seus potenciais danos à saúde ainda não tenham sido comprovados – querem de qualquer jeito flexibilzar o Código Florestal, para poderem desmatar mais sem ter que prestar contas por isso. Enfim, querem fazer do Brasil uma grande colônia de exploração, um quintal das transnacionais.

     

    Por isso estamos nos somando a mais de 20 de entidades da sociedade civil brasileira, movimentos sociais, entidades ambientalistas e grupos de pesquisadores na "Campanha Permanente contra o Uso dos Agrotóxicos e pela Vida".

     

    A campanha pretende abrir um debate com a população sobre os impactos dos venenos na saúde dos trabalhadores, das comunidades rurais e dos consumidores nas cidades, a contaminação dos solos e das águas e denunciar a falta de fiscalização do uso, consumo e venda de agrotóxicos,

     

    A campanha prevê a realização de atividades em todo o país. Em Brasília, mais de 3 mil pessoas fizeram um ato no dia 7 para denunciar a responsabilidade do agronegócio pelo uso abusivo de agrotóxicos no país.

     

    Participe dessa campanha para acabar com os agrotóxicos!

     

    Saiba mais sobre a campanha em: http://www.mst.org.br/Campanha-contra-o-uso-de-agrotoxicos

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  • 11/04/2011

    Assembléia do Povo Terena de Taunay-Ipegue

    ALDEIA ÁGUA BRANCA.

     

    Abril indígena: Organização e Resistência!

     

    Nós do povo Terena, da T.I. Taunay-Ipegue, Aldeia Água Branca, município de Aquidauana, Mato Grosso do Sul, reunidos em Assembléia para discutirmos e deliberarmos sobre as questões que envolvem a demarcação de nossa terra tradicional, encerradas as discussões, vimos pelo presente documento nos manifestar sobre a nossa realidade atual e, ao final, fazermos as nossas reivindicações.

     

    Nossa Terra Indígena já foi identificada por meio de Relatório publicado no Diário Oficial da União em 13/08/2004 com superfície de 33.900 ha. Porém, até hoje, ocupamos apenas 6,4 mil hectares para uma população de 7 mil Terenas. Após a identificação de nossa terra, fazendeiros incidentes moveram uma Ação Judicial na Justiça Federal de Campo Grande (Proc. n° 3009-41.2010.403.6000 – Autor: Nilton Lippi e outros) sendo determinado pela Juíza responsável pelo caso a paralisação total do processo de demarcação.

     

    Depois disso, nada avançou e o tempo vem passando sem nenhum posicionamento da Justiça e até a Portaria Declaratória dos limites de nossa terra não foi assinada pelo Ministro da Justiça, o que vem gerando para nosso povo grandes angústias, indignação e muitos problemas internos por toda essa demora.

     

    Há muito tempo estamos aguardando e o povo Terena se cansou de esperar a boa vontade de nossos governantes que, há décadas, nos prometem uma solução para concluir a demarcação de nossa terra e até agora nada!

     

    Diante disso, o único caminho que nos restou para que possamos melhorar as nossas condições de vida e garantir um futuro melhor para nossas crianças foi nos organizarmos e irmos para a luta, pela demarcação de todas as nossas terras tradicionais.

     

    Deste modo, considerando a atual situação do estado de Mato Grosso do Sul que possui a segunda maior população indígena do país com os maiores índices de violações de direitos humanos pelo descumprimento histórico do artigo 231 da constituição de 1988, sendo que as terras tradicionalmente ocupadas pelo povo Terena vêm sendo ocupadas pelo agronegócio, comprometendo, na ausência da demarcação, os nossos recursos naturais dos biomas da região.

     

    O Estado brasileiro vem demonstrando, ao longo da história, total inoperância política em solucionar os problemas que atingem as comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul.

     

     As situações de racismo e discriminação tem sido recorrentes. Muitas campanhas de desinformação e de intimidação têm sido largamente realizadas pelos setores que se opõe às demarcações.

     

    Aproximadamente 10 mil indígenas trabalham no corte da cana de açúcar nas lavouras de Mato Grosso do Sul por não poderem trabalhar em nossas terras. Se não bastasse isso, são muitas as afirmações racistas de que “índio não trabalha”.

     

    Muitos dos casos de violência nas aldeias têm sido registrados e ocorrem, principalmente, entre os jovens.

     

    Com as dificuldades nas aldeias superlotadas, muitas famílias indígenas decidem retornar para suas terras tradicionais por conta própria, na tentativa de melhorarem suas condições de vida e cobrar que o governo federal faça as demarcações e que o Poder Judiciário julgue definitivamente os processos. Porém, nosso povo acaba sendo despejado por decisões do Poder Judiciário em beneficio de ‘meia dúzia’ de ricos fazendeiros, com a utilização de força policial do governo do estado de MS.

     

    O registro dos casos de expulsão do povo Terena da terra indígena Buriti, de área ocupada de cerca de 300 hectares, que faz parte da totalidade dos 17 mil hectares já identificados pela FUNAI, da terra tradicional de nosso povo é considerado abusivo e ilegal. A expulsão do povo Terena foi feita pela Polícia Militar do estado de Mato Grosso do Sul, sem nenhuma decisão judicial autorizando.

     

    A expulsão, também do povo Terena, ocorrida na Terra Indígena “Cachoeirinha” em Miranda/MS trata-se de outro caso grave de violações de direitos. Depois da decisão do Ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal, o povo Terena foi expulso de sua terra retomada pela polícia militar de MS, numa operação com aparato de bombas de gás, balas de borracha e cães, despejando 140 famílias que estavam em sua terra já declarada pelo governo federal. No local, o povo Terena havia plantado 5 hectares de alimentos que depois foram destruídos.

     

    O Poder Executivo Federal vem cedendo às pressões do agronegócio e do Governo do estado de MS não solucionando as demandas por demarcação. Os representantes ruralistas no poder legislativo federal tentam, de todas as formas, criar barreiras às reivindicações dos povos indígenas com proposições legislativas que visam retirar nossos direitos constitucionais.

     

    O crescente desmatamento de muitas áreas reivindicadas pelo nosso povo para demarcação compromete todo o patrimônio ambiental imprescindível para a reprodução cultural e física do povo Terena.

     

    Feitas as considerações, reivindicamos às autoridades o seguinte:

     

    1 – Que o Juiz da Vara Federal de Campo Grande julgue, em caráter de urgência, o processo movido contra nosso povo, reconhecendo nossos direitos territoriais conforme manda a Constituição, permitindo o seguimento do procedimento de demarcação de nossa terra.

     

    2 – Que o Estado brasileiro tome medidas eficazes, em curto prazo, especialmente os poderes Executivo Federal e Judiciário Federal (TRF3 Região), dando prioridade absoluta para a conclusão dos processos referentes às demarcações das terras tradicionais dos povos indígenas de Mato Grosso do Sul.

     

    3 – Que o Estado brasileiro promova uma revisão das políticas públicas que privilegiam os interesses econômicos da região e que não possibilitam a justiça social para com a população indígena, definindo prioridades sobre investimentos e decisões, políticas e jurídicas, que não afetem negativamente os direitos constitucionais dos povos indígenas de MS, visando uma definição rápida e definitiva sobre as medidas que se encontram paralisadas.

     

    4 – Que a Polícia Federal conclua todos os inquéritos que investigam abusos de autoridade e de violências e ameaças praticadas contra os povos indígenas de MS.

     

    5 – Por fim, perguntamos: diante disso tudo, o que nos resta senão lutar? Nosso povo Terena não vai esperar outras décadas para vermos nossa terra demarcada. Não iremos admitir mais demora! Uma demora que a cada dia que passa vem ferindo nossos direitos fundamentais.

     

    6 – Queremos manifestar que este ano de 2011 o povo Terena não irá admitir mais mentiras e falsas promessas. Queremos imediatamente uma solução definitiva para nossos processos judiciais e administrativos de demarcação de nossas terras, pois do contrário não existe outra forma de encaminharmos esta situação senão irmos para a luta juntamente com nossos guerreiros!

     

    Chega de mentiras e promessas não cumpridas!

     

    Viva o povo Terena de Mato Grosso do Sul, viva nossa unidade e organização!

     

    Queremos nossa terra Declarada e Homologada já!

     

    Terra Indígena Taunay-Ipegue, Aldeia Água Branca, Aquidauana/MS, 09 de abril de 2011.

     

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  • 08/04/2011

    APIB repudia reação do Governo Brasileiro às Medidas Cautelares da OEA sobre Belo Monte

    A reação do Governo Brasileiro às medidas cautelares da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da OEA sobre o caso Belo Monte e os povos indígenas, que solicita oficialmente a suspensão imediata do processo de licenciamento e a construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte, no Pará, deveria encher de vergonha as autoridades do país, que não souberam e não quiseram até o momento ouvir o clamor dos povos indígenas e das comunidades tradicionais da região. Estes há muito tempo alertam sobre os riscos do empreendimento, os seus impactos socioambientais, e principalmente sobre a falta de respeito ao direito das populações atingidas à “consulta prévia, livre e informada, de boa fé, e cultualmente adequada” conforme solicita a OEA, de acordo com a Convenção 169 de Organização Internacional do Trabalho (0IT), que em 2004 foi incorporada à legislação nacional através do Decreto 5051.

     

    Ao contrário, o Governo por meio do Itamaraty, de políticos e principalmente do órgão indigenista – a FUNAI- em nota divulgada em 5 de abril, adota uma medida pior que a anterior, mentindo de forma deslavada para as instancias internacionais, a opinião pública nacional e internacional, e para si mesmo; alegando que já cumpriu em todas as terras indígenas o “seu papel institucional no processo de esclarecimento e consulta junto às comunidades indígenas”, havendo prestado informações aos povos indígenas por meio de reuniões e audiências públicas. Segundo o órgão, “nas atas apresentadas juntamente com o parecer constata-se que as comunidades foram ouvidas pela Funai durante a fase de consultas prévias para análise do componente indígena do projeto”.

     

    O alegado “incontestável papel da FUNAI na defesa dos povos indígenas” não se sustenta, tanto pelo quadro generalizado de violação aos direitos indígenas em distintas áreas, como a demarcação e proteção das terras indígenas e a criminalização de lideranças indígenas, quanto pela evidente falta de aplicabilidade do direito de consulta, conforme estabelece a Constituição Federal e a Convenção 169 da OIT, uma vez que as reuniões e audiências promovidas pela FUNAI foram meramente informativas no âmbito dos Estudos de Impacto Ambiental, ficando os participantes à espera das consultas anunciadas pelos técnicos do governo.

     

    Na nota, a FUNAI ainda incorre em crime de discriminação e racismo ao  dizer que “as TIs impactadas são ocupadas por um conjunto de povos indígenas diferentes uns dos outros. Nas TIs Paquiçamba, Arara da Volta Grande do Xingu e Juruna do Km 17, vivem populações que passaram por processos de miscigenação, isto é, que se misturaram com população não indígena…”

     

    Uma afirmação maldosa, que mais uma vez afronta a Convenção 169 da OIT no concernente à identidade indígena (Art. 1). Nada justifica que os direitos humanos de populações locais, indígenas ou não, sejam torpemente desrespeitados.

     

    Ao invés de relutar em admitir os seus erros, o Governo deveria se preocupar em mudar a cultura política autoritária, ditatorial e racista com que o Estado brasileiro sempre tratou os povos indígenas e a outros segmentos sociais que lutaram, arriscando inclusive as suas vidas, pela abertura e o regime democrático atual.

     

    A APIB reitera o seu repúdio à tentativa do Governo brasileiro de “enfiar goela abaixo” a Hidrelétrica de Belo Monte e outros empreendimentos, como a transposição do Rio São Francisco e as Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), que impactam e impactarão as terras e os povos indígenas, com danos irreversíveis para as atuais e futuras gerações.

     

    A APIB reivindica, por fim, que nenhum empreendimento seja instalado em Terras Indígenas até serem realizadas as consultas conforme exigem, há anos, os nossos povos e organizações. Que a Eletronorte e a FUNAI parem de tentar desmobilizar e calar a boca dos atingidos por Belo Monte e outros empreendimentos com políticas assistencialistas como a distribuição de cestas básicas. Não queremos que o quadro de escravidão, de conflito e problemas sociais, ocorridos nas Hidrelétricas do Jirau e Santo Antonio, se repita e ameaçe a segurança física, psíquica e cultural das comunidades indígenas.

     

     E que o Governo Brasileiro, principalmente o órgão indigenista, cumpra de fato o seu papel constitucional de zelar pelos direitos indígenas, ao invés de adotar posturas retrógradas e autoritárias típicas do regime ditatorial.

     

    Brasília, 08 de abril de 2011.

     

    ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL – APIB

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  • 08/04/2011

    Audiência com Dilma encerra Encontro Nacional das Mulheres Atingidas por Barragens

    Encontro foi histórico e demarcou uma vitória da organização das mulheres no MAB

     

    O Encontro Nacional das Mulheres Atingidas por Barragens encerrou nesta tarde, em Brasília, após uma audiência com a presidenta Dilma, no Palácio do Planalto. Mas as atividades desse dia começaram bem mais cedo. Pela manhã, o Movimento integrou uma marcha, da qual participaram 1.500 pessoas de diversos movimentos sociais e organizações ambientais, em defesa do meio-ambiente e de um outro projeto de sociedade.

     

    Audiência com a presidenta

     

    À tarde, as 450 militantes do MAB foram recebidas pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, no Palácio do Planalto. Soniamara Maranho, da coordenação nacional do Movimento, leu uma carta para a presidenta com as reivindicações das mulheres atingidas.

     

    Entre as reivindicações, estava a regulamentação do decreto assinado no ano passado pelo então presidente Lula, que instituiu o cadastro dos atingidos por barragens, a suspensão das obras da usina de Belo Monte e a elaboração de uma nova política nacional de tratamento das questões sociais e ambientais.

     

    A carta declarava o apoio do Movimento às lutas dos operários das obras de barragens por melhores condições de trabalho e a solidariedade à resistência dos Povos Latinos, em especial os Mapuches no norte da Patagônia Argentina, atingidos pelas refinarias da Petrobrás.

     

    A carta também destacou a importância da luta contra as mudanças propostas no Código Florestal brasileiro e anunciou a campanha contra os agrotóxicos, lançada neste dia 7 de abril, Dia Mundial da Saúde.

     

    A presidenta reconheceu o MAB como interlocutor entre os atingidos por barragens e o governo e buscou reforçar em sua fala a intenção de manter as portas abertas para o diálogo permanente com o movimento. Essa intenção havia sido manifestada no começo da audiência pelo ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência da República. Carvalho afirmou que, a cada dois meses, representantes dos ministérios envolvidos com as pautas dos atingidos vão receber o MAB para buscar avançar nas tratativas.

     

    Dilma declarou que a pauta do MAB é muito importante porque “faz parte de uma questão muito cara ao governo, que é esse permanente diálogo com os movimentos sociais.” Em outro momento, afirmou ser contra “aqueles que dizem que o governo deve ficar surdo às reivindicações”.

     

    A presidenta, no entanto, não se comprometeu a atender todas as demandas especificadas na carta elaborada pelas mulheres, afirmando que não ia fazer promessas “demagógicas”.

     

    Dilma também destacou a importância da organização das mulheres na luta por seus direitos, reconhecendo que elas são as mais afetadas pela pobreza.

     

    Essa é a terceira vez, em 20 anos de existência, que o MAB é recebido pela Presidência da República. As outras duas aconteceram em 2010, quando o Movimento foi recebido por Lula.

     

    Marcha na Esplanada

     

    Na marcha com as integrantes do MAB e de outros movimentos sociais, entre eles o Movimento Sem Terra (MST), Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Instituto Socioambiental (ISA) e Greenpeace, foi lançada a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida. Os manifestantes também protestaram contra o projeto do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) de alteração do Código Florestal, apoiado pelos ruralistas, defenderam a Reforma Agrária e reivindicaram um projeto energético popular.

     

    Os atos de protesto aconteceram em frente ao Ministério da Agricultura, do Congresso e do Ministério de Minas e Energia. Ali, o MAB denunciou o atual modelo energético, que explora os trabalhadores com os altos preços da energia elétrica. As mulheres do Movimento também cobraram o imediato cancelamento da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, prevista para ser construída no Rio Xingu, no Pará.

     

    “O Ministério de Minas e Energia é o coordenador de todo setor elétrico que, em sua grande maioria, está nas mãos das empresas privadas. Essas empresas, historicamente, têm violado os direitos humanos, negado o direito dos atingidos e precarizado as condições de trabalho, como tem ocorrido com os trabalhadores das usinas de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia”, afirmou Liciane Andrioli, coordenadora nacional do MAB.

     

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