• 20/04/2011

    Informe nº 960:Comunidade Terena de Cachoeirinha continua sob forte ameaça

    Intimidações e ameaças acontecem por parte de fazendeiros da região, que propagandeiam na cidade que expulsarão indígenas da área nem que seja à bala

     

    Por Cleymenne Cerqueira

     

    Continua tensa a situação da comunidade Terena da Terra Indígena Cachoeirinha, em Miranda, Mato Grosso do Sul. Desde que retomaram parte da terra reivindicada como território tradicional, a fazenda Charqueado, no último dia 4 de abril, os indígenas vivem sob constantes ameaças e intimidações realizadas por fazendeiros da região. Desde ontem (19), o grupo está apreensivo com uma possível invasão da área por homens armados a mando desses fazendeiros.

     

    A tensão é explicada porque nos últimos dias, reforçando as ameaças justamente no chamado Dia do Índio, fazendeiros ameaçaram a comunidade dizendo que entre ontem e hoje (20), cerca de 60 homens armados expulsariam o grupo da área, nem que para isso fosse necessário expulsá-los “à bala”. A notícia está sendo alardeada por toda a cidade, o que tem aumentado ainda mais a apreensão entre os indígenas. De acordo com a comunidade, os fazendeiros ainda têm feito ameaças diretas ás principais lideranças do povo, sob a alegação de que estes estariam encabeçando as retomadas.

     

    Desde que retomaram a área, juntamente com a fazenda Petrópolis, em posse do ex-governador do MS, Pedro Pedrossian, de onde foram retirados no último dia 5 de abril, a comunidade está presa e com medo de sair da fazenda por conta das constantes ameaças que veem sofrendo. Os indígenas afirmam que estão realizando uma mobilização pacífica para garantir seus direitos contidos em lei, como o acesso ao território tradicional e o usufruto exclusivo do mesmo.

     

    “Não queremos conflitos. Queremos apenas recuperar nossas terras para plantar e sustentar nossas famílias. Os fazendeiros andam espalhando ameaças por aí, o que também significa que se eles agirem contra nossa comunidade nós não vamos ficar parados vendo, mais uma vez, nosso povo sendo agredido impunemente. Estamos em busca de nossa terra, tudo de acordo com a lei”, afirmou uma das lideranças.

     

    A comunidade está confiante na Justiça, pois está fazendo uma ação de reivindicação legal. No entanto, o grupo afirma que está disposto a resistir, caso ocorra algum ataque por parte dos fazendeiros.

     

    De acordo com lideranças, a comunidade precisa que o Estado garanta sua segurança, e assim a integridade das famílias que realizaram a retomada. “Só queremos segurança e garantia de acesso à terra. No local já preparamos a terra e plantamos cerca de 14 hectares de feijão. Semana que vem pretendemos plantar mandioca também. Tudo isso com o único objetivo de trabalhar para alimentar nossos filhos, nossa família”, disse.

     

    A situação ficou ainda mais tensa quando, na terça-feira pela manhã, cerca de dez caminhonetes trouxeram fazendeiros, seus familiares e seguranças armados à fazenda Petrópolis, instalando-se em frente do acampamento indígena. O que, para a comunidade, demonstra o objetivo de amedrontar o povo para que saísse do local. Nem mesmo com a presença das polícias Militar, Civil e Rodoviária Federal na área cessaram as ofensas e ameaças.

     

     

     

     

    Entenda o caso

     

    A área retomada no dia 4 de abril é uma pequena parte do total de 36.288 hectares da TI Cachoeirinha, já reconhecida como terra tradicionalmente ocupada pelo povo Terena, conforme o Relatório de Identificação publicado no Diário Oficial da União (DOU), em 2003.

     

    Além da identificação, em 2007 foi assinada a Portaria Declaratória dos limites da terra indígena pelo ministro da Justiça. O procedimento administrativo de demarcação foi parcialmente suspenso em 2010, por decisão liminar proferida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, em beneficio do ex-governador do MS.

     

    Desde a assinatura da Portaria Declaratória, pouco se avançou para a conclusão definitiva da demarcação, ainda restando pagamentos de benfeitorias aos ocupantes não índios, a demarcação física da área e a assinatura do Decreto de Homologação pela Presidenta da República.

     

    Após oito anos de espera, desde a publicação do relatório de identificação, a comunidade do povo Terena espera que as ações de hoje sirvam para pressionar o Supremo Tribunal Federal. “O processo ficou parado, ninguém fez mais nada. A Funai ficou negociando as benfeitorias, mas os fazendeiros se recusam a receber o dinheiro”, uma liderança do povo. “Inclusive, já tem fazendeiro fazendo venda ilegal das terras. Na charqueado nem tem mais gado. Essa terra está no nome do fazendeiro, mas está na mão de um comerciante de Miranda que já ameaçou a comunidade”, continua.

     

    Desalojamento ilegal

     

    É a terceira vez que os Terena retomam a área. Em maio de 2010, após permanecer por sete meses na fazenda, a comunidade foi violentamente desalojada com o uso de bombas de gás lacrimogêneo, cães e balas de borracha. Além disso, há ainda o temor de que haja um desalojamento ilegal, como o que aconteceu em 2009, quando sem ordem judicial de reintegração de posse, policiais militares e fazendeiros expulsaram ilegalmente os indígenas Terena da Terra Indígena Buriti, em Sidrolândia, também no MS.

     

    Vale ainda mencionar, que nesse caso, mesmo que houvesse decisão judicial de reintegração de posse contra a comunidade, este tipo de operação envolvendo terras indígenas caberia somente à Polícia Federal e não à Polícia Militar e fazendeiros. O inquérito do caso em Sidrolândia, instaurado pela PF, está em andamento.

     

    O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), confiante na Justiça Brasileira, espera que as autoridades competentes resguardem a integridade da comunidade Terena de Cachoeirinha, bem como deem andamento ao processo de demarcação de seu território tradicional.

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  • 20/04/2011

    MPF/MS publica segunda edição de revista digital em homenagem ao Dia do Índio

    por Nathaly Campos Feitosa

     

    Publicação especial retrata as dificuldades e as conquistas dos índios em MS, estado com a segunda maior população indígena do país

     

    O Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul (MPF/MS) disponibilizou hoje a publicação especial Tekoha, revista digital em homenagem ao Dia do Índio. Em sua segunda edição, a revista apresenta retratos distintos da situação indígena em MS.

     

    De um lado, as dificuldades encontradas pelos índios de Laranjeira Ñanderu, que vivem às margens de uma das rodovias mais perigosas do estado e enfrentam inúmeros desafios para sobreviver; e os altos índices de suicídio entre os guarani-kaiowá, que coloca Mato Grosso do Sul no topo do ranking dos estados com maior número de jovens que se matam.

     

    A outra face é a arte dos índios kadiwéu que se renova e ganha reconhecimento internacional; e o novo perfil dos indígenas, que agora têm a possibilidade de cursar o Ensino Superior e levar os conhecimentos adquiridos na graduação para melhorar as perspectivas de suas comunidades.

     

    A publicação conta, ainda, com artigo do professor Antônio Brand sobre as consequências do confinamento na economia e na preservação cultural dos índios.

     

    A revista Tekoha, apesar do nome em guarani (que significa terra sagrada), busca homenagear todas as etnias presentes em Mato Grosso do Sul, valorizando, cada qual, suas peculiaridades.

     

    Clique aqui para ler a publicação.

     

    Assessoria de Comunicação Social

    Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul

    (67) 3312-7265 / 9297-1903

    (67) 3312-7283 / 9142-3976

    www.prms.mpf.gov.br

    [email protected]

     

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  • 20/04/2011

    Cinta Larga, o 19 de abril e a luta contra a letargia do governo

    Por Reginaldo Trindade *

     

    O preconceito contra as comunidades indígenas no País – e a ignorância subjacente – só não é maior que o descaso a que estão relegados os povos da floresta pelo Governo Federal, notadamente por seu braço indigenista, a Fundação Nacional do Índio – Funai.

     

    O Povo Cinta Larga, localizado nos Estados de Rondônia e Mato Grosso, não bastasse essa discriminação, ainda sofre com a desmesurada violência decorrente do garimpo de diamantes existente em seu território.

     

    A exploração ostensiva já ultrapassou uma década e não há qualquer horizonte à vista quanto a seu término, muito menos quanto à sua regularização.

     

    Nesse período, a Funai jamais conseguiu se desincumbir, com um mínimo de organização, de suas relevantes responsabilidades.

     

    A descontinuidade administrativa decorrente da constante alteração das pessoas encarregadas de lidar com a questão, a ausência de estratégias adequadas, a escassez de recursos e suporte técnico-administrativo são apenas algumas das mazelas que podem ser citadas.

     

    Impressiona a total falta de condições de trabalho deixada pela direção do órgão indigenista às pessoas que se embrenharam na hercúlea tarefa de conduzir os rumos da política pró-Cinta Larga – não havia o apoio necessário, nem recursos; sobravam desinteresse e promessas vazias. O resultado é de todos conhecido.

     

    Assim, o governo que se encerrou em 2010 (ou se perpetua a partir do corrente) fez muito pouco, quase nada, para dizer o mínimo, pela causa indígena, ou, mais especificamente, pela causa indígena do Povo Cinta Larga.

     

    Infelizmente, o governo anterior igualmente não tem muito o que comemorar também – se é que possui algo. Ou seja, o descaso para com a questão Cinta Larga, para o bem, ou para o mal, não tem escolhido partidos ou cores ideológicas; entra governo, sai governo, os índios continuam num estado absurdo de descaso e penúria.

     

    O Ministério Público Federal – MPF já realçou a imperiosa necessidade de que a questão Cinta Larga seja tratada com prioridade e preferência. Mas a Funai não parece compreender, ou, se compreende, parece não se importar com a dimensão do problema Cinta Larga; haja vista que não tem tratado a questão com a primazia necessária.

     

    Para o órgão indigenista, a questão Cinta Larga é somente mais uma a lhe abarrotar a mesa de trabalho. A problemática, assim, está abandonada na mesma vala comum em que se amontoam os mais variados problemas da Fundação e sem qualquer perspectiva conhecida para emergir.

     

    A nação Cinta Larga é guerreira – na acepção mais tradicional possível do termo. Sua batalha agora, entretanto, não envolve arco e flecha, mas caneta e papel. Cada vez mais ela está convencida da necessidade de dialogar com a sociedade envolvente, na forma imposta por esta (projetos etc.).

     

    Imprescindível que, nesta caminhada, os índios continuem a ter grande coração para não deixar a luta esmorecer. Infelizmente, a espera por dias melhores é muito cruel e angustiante.

     

    Que assim seja, então. Que os índios Cinta Larga, nesta data tão marcante e em todos os dias porvir, sigam firmes no seu destino e inabaláveis em seus princípios e propósitos maiores, sem jamais perderem a fé e esperança. As grandes conquistas pertencem mesmo apenas aos povos maiores.

     

    A Nação Cinta Larga, que já provou seu valor por simplesmente sobreviver ao contato violento e à maldita exploração, certamente não sucumbirá diante do mais novo inimigo: um governo omisso e indiferente.

     

    * Procurador da República. Pós-Graduado em Direito Constitucional. Responsável, no Estado de Rondônia, pela defesa do Povo Indígena Cinta Larga.

     

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  • 20/04/2011

    Dia do Índio: MPF/RO investiga 110 violações de direitos dos índios

    Um terço dos casos envolve problemas de atendimento à saúde dos índios nas aldeias e nas cidades.

     

    O Ministério Público Federal em Rondônia (MPF/RO) está investigando 110 casos de violações aos direitos dos povos indígenas dos municípios de Porto Velho e Guajará-Mirim. Estes 110 inquéritos civis públicos (investigações) tratam de saúde, educação, demarcação de terras, invasão de áreas indígenas, meio ambiente, exploração irregular de madeira, questões previdenciárias, mau atendimento por parte da Fundação Nacional do Índio (Funai), falta de assistência jurídica adequada, questões envolvendo a compensação ambiental das usinas do Rio Madeira, dentre outras situações.

     

    Do total de 110 investigações, 31 relacionam-se à saúde indígena. Para o MPF/RO, o atendimento à saúde é uma das áreas mais problemáticas para os povos indígenas de Porto Velho e Guajará-Mirim, necessitando prioridade nas políticas públicas para a resolução do problema.

     

    Nestes municípios, há indígenas residentes fora de suas aldeias de origem. “Eles vão para as cidades por diversas razões, sendo que maioria vive no meio urbano por falta de alternativa, considerando-se o processo histórico que os retirou das terras que habitavam, deixando-os sem local para moradia”, informa a procuradora da República Lucyana Pepe. Exemplos desta situação são os povos indígenas Puruborá, Migueleno, Cujubim, Wayoró, Canoé, Cassupá, Salamãi, Macurap, Tupari, dentre outros. “Em alguns casos a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) recusa-se ou dificulta o atendimento aos índios residentes fora de áreas demarcadas como terras indígenas”, ressalta.

     

    Para os índios que ficam doentes nas aldeias, faltam remédios e equipamentos de radiocomunicação com as Casas de Saúde Indígena (Casai) para relatar os casos de emergências e nem sempre há veículos para estes atendimentos. Além disto, muitas etnias não dispõem de agentes de saúde ou de saneamento indígenas. As equipes multidisciplinares de saúde indígena são poucas e não conseguem fazer visitas regulares às aldeias.

     

    Mercúrio

     

    Segundo o MPF/RO, na região de Guajará-Mirim há necessidade de acompanhamento sorológico sobre a concentração de mercúrio em indígenas e populações tradicionais que vivem às margens do Rio Madeira e seus afluentes. O levantamento sorológico realizado na década de 90 revelou índices acima dos considerados toleráveis pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

     

    A preocupação do MPF/RO sobre este assunto aumentou com as hidrelétricas do Rio Madeira porque as obras podem potencializar o índice de mercúrio na água, ao transportar para o curso d’ água aquele mercúrio que se encontra depositado nas antigas áreas de exploração de minério, que serão alagadas pelo reservatório das usinas.

     

    Controle das despesas

     

    A prestação de contas do dinheiro público destinado à saúde indígena é outro ponto problemático, segundo o MPF/RO. Nas reuniões de aprovação de contas, os conselheiros indígenas não conseguem avaliar os números apresentados em planilhas, não têm acesso a outras informações e, por vezes, seus questionamentos ficam sem resposta. Há reclamações de que há tomada de medidas sem consulta ao conselho, bem como sem consulta e debate junto às comunidades indígenas.

     

    O MPF/RO tem acompanhado todos estes casos, cobrando providências dos órgãos públicos e soluções sobre a questão da saúde indígena.

     

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  • 20/04/2011

    MP recomenda respeito aos direitos dos agricultores e ribeirinhos na região de Belo Monte

    Recomendação foi enviada ontem à Norte Energia e à E-labore, acusadas de pressionar e coagir as famílias a assinarem documentos permitindo o ingresso de técnicos em suas terras 

     

    O Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado do Pará enviaram recomendação ontem à Norte Energia e à E-labore para que respeitem o direito constitucional à inviolabilidade do domicílio de agricultores e ribeirinhos da região de Belo Monte. As famílias vem denunciando repetidas vezes que sofrem pressão e coação por parte de funcionários dessas empresas para assinar documentos autorizando a entrada de técnicos em suas terras. 

     

    A Norte Energia é o consórcio responsável pelas obras da usina hidrelétrica de Belo Monte e a E-labore é a empresa contratada para fazer relações públicas preparar os levantamentos topográficos e de benfeitorias nas terras que serão alagadas pela obra. As empresas têm dez dias para cumprir a recomendação

     

    O MP pede que seja observado o direito previsto no artigo 5º a Constituição brasileira, que estabelece que “a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial”.

     

    As duas instituições estão atuando conjuntamente para que haja respeito a esse direito. Promotores de Justiça e procuradores da República que atuam em Altamira estão de sobreaviso para receber denúncias das famílias da região.

     

    Leia recomendação na íntegra

     

    Uma recomendação é uma espécie de notificação. Caso descumprida, os signatários do documento – procuradores da República Cláudio Terre do Amaral e Felício Pontes Jr e promotores de Justiça Ely Soraya Silva Cezar e Gerson Daniel Silva da Silveira – podem levar a questão à Justiça para garantir o direito das famílias e para responsabilizar os agentes envolvidos em violações.

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  • 20/04/2011

    No 19 de abril, dia do índio, uma reflexão sobre a realidade Guarani no Rio Grande do Sul: em luta pela defesa da vida e do território!

    Sou filho de um povo milenar. Muito antes dos europeus chegarem nestas terras o meu povo vivia com alegria e esperança dentro de um amplo território. Nele existia a dignidade. Nele se alimentava os sonhos, a relação com Deus nos cultos e ritos de uma religião que o meu povo tinha naturalmente. Nele se plantava e colhia o alimento. A vida era cultivada na harmonia e na reciprocidade. 

    Mas, repentinamente, os nossos antepassados se depararam com o inevitável. A civilização branca invadiu as terras, as vidas, as tradições, a cultura e a religião. Contra nossa gente iniciaram grandes batalhas. A ideologia de outro mundo foi sendo imposta para dominar e destruir o modo de ser, pensar e de se relacionar com a natureza, com a terra e com toda a vida que vigorosamente se fazia presente. Os nossos ancestrais e a natureza eram partes inseparáveis, a natureza cuidava e alimentava a nossa gente e nossos povos a ela protegiam e a tratavam com amor e respeito.

    A partir de então o mundo mudou. Sobre meu povo desceu a ruína. A terra foi tomada, as pessoas eram caçadas e tratadas como animais. Foram escravizados, torturados e o modo de ser e de pensar Guarani foi atacado pela intolerância e imposição de outro modelo de civilização e cultura. Fomos proibidos de falar nossa língua. Tudo aquilo que era vida e reciprocidade se tornou pecado. A fé em Nhanderu foi transformada em feitiçaria. As crenças milenares ensinadas e vivenciadas foram atacadas por uma cruz que não era a cruz de nosso povo. O espírito Guarani, a alma Guarani foi rasgada por esta cruz. E os corpos, a vida física, por sua vez, eram cortados pela espada que acompanhava a cruz.

    E assim, depois de milhares de anos, foi afetada tragicamente uma história que poderia ser um sinal de esperança para uma humanidade que vive uma profunda crise. A civilização branca vem construindo a sua própria destruição, a sua própria ruína. Esse é o saldo para toda a humanidade.

    Apesar de vivermos num vasto continente, só nos sobrou pequenas parcelas de terras na Argentina, Bolívia, Paraguai e Brasil. Somos quase três centenas de milhares de pessoas do Povo Guarani Mbya, Nhendewa, Kaiowá. Cultivamos com sabedoria e paciência a nossa cultura. Não negamos o modo de ser e de pensar de nossos antepassados. Os seus ensinamentos nos acompanham no nosso constante caminhar. Mantemos viva a nossa língua Guarani, cultuamos nossa crença em Nhanderu. Acreditamos nas palavras das pessoas e confiamos nelas, porque é assim que se deve ser na vida.

    Nós acreditamos que Nhanderu entregou a terra para ser cuidada e partilhada. Ela é nossa e dos demais seres viventes. Por isso, procuramos, ao longo dos anos, zelar por ela. O homem dito civilizado jamais poderá atribuir aos Guarani a devastação e o desrespeito que a terra enfrenta. Valorizamos a terra como parte de nosso corpo. Se cortarmos uma mão, arrancamos um membro importante do corpo. E assim é com a terra para os Guarani, não admitimos que ela venha a ser maltratada, rasgada, destruída.

    Mas ao olharmos para o nosso planeta, em especial para o Brasil, a gente vê a terra sofrendo. Suas matas foram cortadas e no seu lugar construíram cidades, indústrias, grandes plantações. Os rios foram transformados em depósitos de dejetos de fábricas, de lavouras. Os rios estão morrendo porque as suas águas correm poluídas, contaminadas. Do pouco que ainda restou querem represar através de grandes e pequenas barragens. Querem, com isso, gerar mais energia para novas indústrias. E com as novas indústrias teremos ainda mais dejetos, mais poluição e a vida do planeta, a vida no Brasil, vai se acabando.

    Durante as nossas reuniões, de lideranças das comunidades Guarani, os nossos Karaí sempre perguntam: “Até onde os Juruá (homem branco) pensam que podem ir? Será que eles não sabem que estão acabando com a terra, com a vida? Será que eles não percebem que a natureza precisa ser bem cuidada?” Eles não entendem como podem desprezar a vida só pela ambição de ter mais dinheiro e mais poder. Para os nossos líderes religiosos a vida é simples. Eles, na sua humildade e sabedoria, têm a certeza de que não é do muito que se tem, não são as riquezas materiais que darão alegria e esperança para os homens e mulheres. Eles afirmam com convicção de que se a terra estiver viva, protegida e valorizada, todos terão exatamente aquilo que necessitam para viver.

    E nesta concepção, no modo de pensar a terra e os seus bens, é que habita a grande diferença entre os povos indígenas e a civilização branca. Para os Juruá somente tem sentido viver com dinheiro, muitas posses, muitas riquezas. No entanto, para eles, o custo da riqueza acumulada não entra na conta, ou como muito se fala entre os brancos, não é contabilizada. De tudo o que se extrai da terra há custos e muitos deles são impagáveis com dinheiro e poder. A devastação alucinada da terra compromete o restante da vida dos demais filhos da terra. Estão matando a própria mãe em função da ganância.

    Apesar de uma história de sofrimentos somos um povo de resistência. Resistimos à colonização opressora. Resistimos e enfrentamos esta civilização que domina o nosso Brasil. Tornaram-nos minorias onde éramos a maioria. Queriam, naquela época, mudar nossa alma, porque acreditavam, os ditos civilizados, que a nossa alma era pagã, impura, pecadora. Não nos aceitavam como gente. E a isso resistimos. Muitos dos líderes assumiram a defesa do povo, da terra e das nossas tradições. Enfrentaram as espadas, os canhões dos civilizados.

    Nós resistimos ao modelo de dominação dos brancos e nos colocamos contra as suas estruturas de poder e de fazer política. Acreditamos na nossa força e na nossa cultura, por isso resistimos aos massacres, à catequização forçada, à escravização de nossos antepassados, às guerras contra nosso povo, que foram impostas porque queríamos viver em paz nas nossas terras. Resistimos e vivemos construindo história, embora esta seja negada por aqueles que fazem livros.

    A cultura dos brancos, dos chamamos Juruá, de fato não serve como modelo para o mundo de ninguém. A mãe terra está sendo consumida pela fumaça das usinas, dos carros. Está sendo contaminada com os venenos de fábricas e plantações. Está sendo tratada como mercadoria para ser consumida e depois não restará nada dela. Por tudo isso os Guarani lutam por uma terra sem mal, onde não existirão nem maiores e nem menores, onde todos seremos filhos da mesma terra mãe. 

    Hoje em dia, para as nossas famílias viverem, o governo vem destinando alguns metros de terra, que na maioria das vezes são devolutas, nas margens de estradas, sobre barrancos, na beira de sangas poluídas e/ou em pequenas capoeiras próximas de grandes fazendas. Por nos tratarem como restos nos destinam as pequenas sobras de terras que pelos brancos são desprezadas. E não raras vezes dizem que somos preguiçosos, que não queremos trabalhar e que vivemos como bichos. Mas quando decidimos retomar terras que são nossas, se reivindicamos direitos, se exigimos do poder público que nos respeite e demarque nossas terras então somos tratados com arrogância e dizem que somos manipulados por terceiros.

    Mas é neste contexto, onde as visões de mundo são diferentes, que nós os Guarani e os demais povos indígenas lutamos por direito e dignidade. Lutamos por respeito à cultura, à terra e ao futuro. Nós ainda acreditamos que é possível reverter esta realidade. E os nossos líderes religiosos sempre dizem que, embora os Juruá insistam em destruir a terra, ela existirá enquanto os Guarani existirem. Destruindo os Guarani, destruirão a última esperança de vida no planeta. Faço essa referência sobre os líderes do meu povo, mas já ouvi outros líderes indígenas, como o Davi Yanomami, falar a mesma coisa, ou seja, se destruírem os filhos da terra, destruirão em definitivo a terra inteira.      

    Nosso povo luta e continuará a lutar pela terra. De nosso modo, com paciência, mas com a força sagrada de nossos velhos, nossos Karaí, as Kunhã Karaí, que nos ensinam a viver, nos aconselham a sermos bons com todas as pessoas, a tratar todos com igualdade. E seguiremos, andando, procurando por nossa terra, construindo nosso bem viver e exigindo das autoridades que cumpram com seu dever de demarcar as terras que as leis dos brancos, escritas pelos brancos, determinam que esse nosso direito deve ser assegurado.

    Aproveito a oportunidade para apresentar as reivindicações dos Guarani, na expectativa de que elas sejam devidamente atendidas, uma vez que aqui nesta audiência se encontram representantes dos governos estadual e federal:

    Que o governo federal, em articulação com o governo do estado do Rio Grande do Sul, busque resolver um dos graves problemas que impede a ocupação e o usufruto de nossas terras, aquelas já demarcadas, que são os pagamentos das indenizações aos ocupantes não indígenas de nossas terras. Esta é uma obrigação da Funai, pois cabe a ela buscar soluções para as questões relativas aos problemas fundiários. Pedimos, mais uma vez, entendimentos entre os governos federal e estadual no que se refere ao pagamento dos não-indígenas pelas terras que no passado foram loteadas e tituladas pelo governo do Estado e que estão sendo demarcadas como terras indígenas. Com isso, se pode acelerar os processos e diminuir os conflitos. Segue relação das terras prioritárias:

    Cantagalo

    O Cantagalo é uma das aldeias mais antigas no estado. Os estudos já foram concluídos, tudo já foi feito, mas os colonos ainda estão lá. Não aceitamos mais a demora na retirada dos ocupantes brancos. Já se passam anos da decisão da homologação da terra, mas até agora a Funai não pagou as indenizações e nem procedeu a retirada dos brancos da terra indígena. Além da demora na demarcação, as cercas estão abertas, e os animais dos vizinhos entram na terra e comem as plantações da comunidade indígena. A comunidade está muito desanimada com a demora.

    Todas as nossas comunidades têm muita preocupação por causa das incertezas quanto ao futuro, principalmente porque não temos terra para plantar e dela extrair o sustento. No nosso modo de pensar e viver é bem diferente dos Juruá. Nós sempre procuramos o bem viver, viver tranqüilo, plantar para o consumo das famílias. Os juruá querem plantar para vender, usam a terra como mercadoria e não pra vida.

    Mato Preto

    Solicitamos à FUNAI que assegure o direito a terra tradicional, garantindo a continuidade do procedimento demarcatório uma vez que o relatório de identificação da área foi publicado. É necessário agilidade na análise das contestações apresentadas como resultado do direito ao contraditório das partes interessadas. A comunidade aguarda com expectativa a publicação da portaria declaratória da área.

    Irapuã

    Agora que finalmente saiu a publicação de identificação e delimitação da área, solicitamos rapidez nos demais passos do procedimento demarcatório, principalmente para que se possa estruturar comunidade e construir as casas longe da beira da estrada.

    Estrela Velha

    O GT é do início de 2008 e ainda não foi concluído. A TI Kaguy Poty é uma das áreas mais tranqüilas para os estudos e conclusão do procedimento de demarcação no estado, pois os não-indígenas têm vontade de sair. Por causa da demora do GT, estão começando a mudar de idéia, e conflitos podem ocorrer. Exigimos que os responsáveis pelos estudos de identificação e delimitação sejam cobrados pela FUNAI para apresentar imediatamente o relatório dos estudos de forma definitiva. 

    Capivari, Lomba do Pinheiro, Estiva e Lami

    Para estas antigas terras guarani houve o compromisso da Funai de que o Gt seria constituído ainda no governo passado. A Funai não cumpriu com seu compromisso. São situações difíceis, em função de nas áreas viverem muitas famílias, que aguardam com ansiedade pelos encaminhamentos da Funai. Exigimos que o prometido seja cumprido, e essas terras sejam contempladas  e demarcadas com a criação de GT`s. ESSA É A PRIORIDADE PARA 2011.

    Itapuã, Ponta da Formiga, Morro do Coco, Arroio do Conde, Petim e Passo Grande

    Estas terras estão tiveram os estudos de identificação e delimitação realizados nos anos 2008 e 2009. O relatório foi concluído e entregue para a Funai. Exigimos que o órgão indigenista proceda a análise e publique o referido estudo. Vale ressaltar que as comunidades vivem em pequenas áreas e aguardam pelo efetivo reconhecimento de suas terras.

    Coxilha da Cruz

    Aguardamos a solução para a completa regularização do Tekoá Porã, desapropriada pelo governo estadual em 2000, mas até hoje aguardando a finalização das indenizações. O governo estadual não cumpriu com o protocolo de intenções para terminar o pagamento. Atualmente a comunidade ocupa apenas a metade da área desapropriada.

    Mata São Lourenço e Esquina Ezequiel

    A Mata São Lourenço é uma das poucas áreas com matas boas na região das Missões. A FUNAI deve encaminhar um GT, antes que essa mata seja devastada para dar lugar a monocultura da soja. A Esquina Ezequiel, nas margens do Arroio Piratini, deve estar junto com o GT da Mata São Lourenço, pois também é uma área importante para a formação de aldeia na região das Missões.

    Acampamento de Santa Maria 

    A situação das famílias acampadas no município de Santa Maria necessita de atenção da FUNAI. Estão numa pequena faixa de terra na beira da estrada, e correm riscos quando vão buscar água e comercializar seus produtos. Aguardam por uma solução para melhorar as condições de vida da comunidade. A comunidade reivindica que a Funai proceda aos estudos de uma área para o assentamento das famílias. 

    Águas Brancas

    Exige-se que a Funai conclua o procedimento de demarcação da TI Águas Brancas, pois a portaria declaratória desta área foi publicada há mais de uma década. 

    Diante de nossas reivindicações, que são legítimas, cabe ao governo respeitar a Constituição Federal demarcando as nossas terras tradicionais. Exigimos também que cumpra com as normas e convenções internacionais, especialmente a Convenção 169 da OIT, sobre questões que nos afetam, como tem sido os empreendimentos de duplicações de estradas e barragens que cortam e inundam as nossas terras.

    Reivindicamos também que as políticas de assistência sejam efetivamente executadas, tendo em conta as nossas necessidades, direitos e as diferenças.

    Quero, por fim agradecer a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, que ao longo dos últimos anos, vem prestando importante contribuição no debate e na divulgação sobre a questão indígena e em especial agradeço pela postura que assumem em defesa dos direitos humanos, em defesa de nossos direitos.

    Desejamos contar com os movimentos sociais, populares, entidades e outros tantos segmentos que se interessam pela questão indígena, não para que tenham um olhar de caridade ou piedade, em apoio à nossa luta, mas que estejam conosco pela causa indígena, que hoje é também uma causa da humanidade. Uma humanidade em crise e que precisa urgentemente de todos aqueles que desejam construir outro mundo, diferente deste que está em decadência. Um mundo do Bem Viver.

     

    Porto Alegre, RS, 19 de abril de 2011.

    Maurício da Silva Gonçalves Guarani

    Coordenador do CAPG – Conselho de Articulação do Povo Guarani no RS

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  • 19/04/2011

    Cresce número de conflitos pela posse da terra

    Constatação faz parte da publicação Conflitos no Campo Brasil 2010, produzida pela Comissão Pastoral da Terra e lançada hoje pela manhã, na sede da CNBB

     

    Por Cleymenne Cerqueira

     

    Publicação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) constata que número de conflitos pela posse da terra tem crescido no país. O dado faz parte do livro Conflitos no Campo Brasil 2010, lançado hoje (19) pela manhã, na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília. Embora os dados registrados não apontem um elevado crescimento se compararmos as ocorrências de 2009 (854 registros) e 2010 (853 registros), os dados são alarmantes se compararmos esse crescimento nos últimos dez anos. Em 2001, 366 conflitos no campo relativos à posse da terra foram registrados, já em 2010, os dados apontam 853 ocorrências.

     

    Dessas ocorrências ainda vale destacar, que ao contrário dos outros anos, houve uma diminuição desses conflitos protagonizados pelos movimentos do campo. Em 2009, foram 290, já em 2010, 180, uma redução de 38%. Então como explicar números tão altos? O fato é que os conflitos pela terra que envolvem expulsões, ameaças de expulsão, pistolagem, despejos e ameaças de despejo, tiveram um incremento de 21% este ano. Passaram de 528 em 2009, para 638 em 2010. Por isso, não é correto afirmar que o número de conflitos no campo tenha diminuído. Os números oscilam em decorrência de conflitos pela posse da terra, trabalho escravo e pela água, entre outros.

     

    O Nordeste deteve o maior número de conflitos em 2010, com 43,7% (279 ocorrências), seguido da região Norte com 36,7% (234). As demais regiões concentraram 9,6% (61) no Sudeste, 5,8% (37) no Centro-Oeste e 4,2% (27) no Sul. Se os critérios adotados forem de regiões geoeconômicas, a Amazônia Legal concentra 65% dos conflitos pela posse da terra, sendo que três estados – Maranhão, Pará e Tocantins – concentram 46,2% do total.

     

    Ainda de acordo com a publicação, as populações mais afetadas por esses conflitos no campo são as que podemos chamar de tradicionais – quilombolas, indígenas, ribeirinhos, camponeses, entre outros. Populações essas que atingem cerca de um quarto do território nacional e somam 4,5 milhões de pessoas. Cerca de 57% do total de conflitos pela posse da terra, 347 ocorrências, envolvem essas comunidades. Os outros 47% está divido entre setores considerados protagonistas da luta pela reforma agrária, como os sem-terra (182 conflitos), os assentados (61 conflitos), pequenos proprietários (9 conflitos) e outros.

     

    Para a CPT, tais dados deixam evidente que não por causa da ação dos sem-terra que a violência no campo persiste, como muitos querem fazer crer, taxando de violentas as ações dos trabalhadores, negando-se a ver a violência sobre a qual se alicerçou todo o processo de ocupação territorial brasileiro desde o tempo da colônia até os dias atuais.

     

    Assassinatos

     

    Outro dado alarmante é o crescimento do número de assassinatos em conflitos no campo. Em 2010 foram 34 assassinatos contra 26 registrados em 2009, um aumento de 30%. Destes casos, 30 mortes ocorreram em decorrência de conflitos pela posse da terra, dois em conflitos pela água e dois em conflitos trabalhistas. A região Norte concentrou 21 destes assassinatos; o Nordeste 12 e o Sudeste 1. O Pará detém a liderança nesse triste ranking, com 18 assassinatos, número 100% maior que em 2009, quando foram registrados 9. No entanto, o Maranhão apresentou porcentagem ainda maior no crescimento, com 4 assassinatos em 2010, contra um em 2009, crescimento de 300%.

     

    Cabe ainda destacar que 13 ocorrências do total de assassinatos foram de lideranças, bem como enfatizar que além dos assassinatos registrados em 2010, aconteceram 55 tentativas de assassinatos, 125 pessoas receberam ameaças de morte, 4 foram torturadas, 88 criminalizadas na luta pela posse da terra e presas e 90 agredidas. Entre esses registros, podem-se destacar as diversas lideranças indígenas agredidas, torturadas, presas e mortas, entre elas o cacique Babau, Tupinambá do Sul da Bahia, criminalizado e preso ano passado por sua luta pela garantia de acesso ao território tradicional de seu povo.

     

    Conflitos pela água

     

    Em 2010, os conflitos pela água cresceram 93,3% em relação ao ano de 2009. Esses conflitos, que chegaram a 87 em 2010, afetando 197.210 famílias, contra 45 em 2009, estão diretamente relacionados ao uso da água e sua preservação, à construção de barragens e à apropriação particular. Esses conflitos acontecem nas situações de destruição e/ou poluição, pesca predatória, divergências na comunidade, impedimento de acesso à água, expropriação ou ameaça de expropriação, não reassentamento ou falta de projeto de assentamento ou reassentamento inadequado, e não cumprimento de procedimentos legais. Exemplos claros dessas violações foram constatadas por 14 ameaças de morte, 4 tentativas de assassinato, duas prisões e dois assassinatos.

     

    Os conflitos pela água em 2010, que estiveram acompanhados de violência física e psicológica, registraram 25,5% das ocorrências, relacionadas à construção de barragens e açudes. Ano passado, foram registradas duas greves de trabalhadores em construção de barragens. Situação semelhante aos conflitos ocorridos este ano nos canteiros de obra das usinas de Jirau e São Domingos, no rio Madeira, em Rondônia, e no Mato Grosso do Sul, respectivamente.

     

    Aqui não se pode deixar de mencionar ainda os diversos conflitos, ameaças e intimidações sofridas pelos povos e comunidades tradicionais do Xingu (PA), em decorrência da construção da hidrelétrica Belo Monte, que mesmo diante da negativa dessas populações o governo brasileiro insiste em construir. Para José Éden Magalhães, secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), hoje existe a mesma lógica da época da ditadura, quando o governo negava a presença de povos tradicionais, como os indígenas, inclusive os isolados, nessas áreas de construção de barragens. “O governo e seus representantes já estiveram na região e constataram as violações que lá estão acontecendo, mas mesmo assim insiste em manter uma postura autoritária, reagindo inclusive de forma muito negativa ao pedido da OEA de suspender Belo Monte.

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  • 19/04/2011

    Lançada Frente Parlamentar de Apoio aos Povos Indígenas

    Para movimento indígena, principal atribuição da Frente será acelerar a tramitação do Estatuto dos Povos Indígenas no Congresso, bem como barrar os projetos que atentem contra os direitos destes povos

     

    Por Cleymenne Cerqueira

     

    A Frente Parlamentar de Apoio aos Povos Indígenas foi lançada hoje (19), na Câmara dos Deputados. Na data conhecida mundialmente como Dia do Índio, o deputado federal Ságuas Moraes (PT/MT), que preside a Frente, afirmou que o Congresso Nacional contará com mais uma ferramenta na defesa de políticas públicas e garantias dos povos indígenas.

     

    De acordo com Ságuas, a Frente é fruto de uma militância de muitos anos junto aos povos indígenas e às questões sociais já em seu estado de origem, Mato Grosso. Por isso, como parlamentar, encabeçou a criação da Frente, que vem ganhando adesão de outros parlamentares, como forma da Câmara somar junto aos povos indígenas do país, discutindo questões importantes e relevantes relacionadas à saúde, educação, sustentabilidade socioeconômica e cultural, bem como a garantia do direito à terra.

     

    De natureza política, a Frente nasce com o propósito de fomentar as ações em prol da defesa dos direitos dos povos indígenas. O objetivo é aperfeiçoar a legislação referente aos povos indígenas, promover políticas públicas nas áreas de educação, saúde, defesa e manutenção do território, respeitar e preservar a cultura indígena – em especial a sustentabilidade econômica -, apoiar as instituições que atuam nas questões indígenas, propor debates, simpósios, seminários e demais eventos que tratem de assuntos relacionados aos povos indígenas.

     

    Para Saulo Feitosa, secretário adjunto do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a Frente é uma importante ferramenta na luta pela garantia dos direitos indígenas.       “É importante e foi criada em um momento chave para o movimento indígena, pois esse ano pretende-se acelerar a tramitação do Estatuto dos Povos Indígenas no Congresso. Então, nesse sentido, a Frente será mais um apoio, fazendo avançar as questões elencadas pelos povos indígenas e ao mesmo tempo, agindo para barrar aqueles projetos que vão contra os direitos destes povos”, afirmou o secretário.

     

    Nesse sentido, as falas de Saulo corroboram com a afirmação dos representantes do Estado, Susana Martelleti Grillo, coordenadora-geral da Educação Escolar Indígena da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Inclusão do MEC, e André Lazaro, secretário executivo da Secretaria de Direitos Humanos. Ambos afirmam que o principal desafio que se vive hoje é a efetivação dos direitos conquistados pelos povos indígenas depois da Constituição Federal de 1988, que pela primeira vez reconheceu legalmente os direitos dessa população, como o acesso à terra e suas formas de expressão.

     

    Diversos representantes de movimentos sociais, indigenistas e lideranças de diversas comunidades indígenas, estiveram presentes ao lançamento. Entre os participantes também estavam vários parlamentares, entre eles, Erika Kokay (PT/DF) e Pe. Ton (PT/RO), este último um dos coordenadores da Frente, e representantes de órgãos do governo federal.

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  • 19/04/2011

    Mais uma vez, população do Pará diz não a Belo Monte

    Na última terça-feira, 12 de abril, a (UEPA) recebeu especialistas, pesquisadores, estudantes, indígenas e representantes de movimentos sociais para o Seminário “Energia e desenvolvimento: a luta contra as hidrelétricas na Amazônia”. O evento, promovido pelo Comitê Metropolitano Xingu Vivo para Sempre em conjunto com o mandato da senadora Marinor Brito (PSol), contou com a participação de mais de 300 pessoas, que ao final do encontro divulgaram um documento repudiando a construção da hidrelétrica de Belo Monte.

     

    Veja trecho do Seminário

     

    O empreendimento, projeto integrante do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, trará diversos impactos para diversas comunidades tradicionais do Alto Xingu (PA), como já afirmado por diversos especialistas e, também, por agentes do Estado, como os membros do Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), órgão consultivo do governo, que em visita à região da Terra do Meio, constatou que no local há uma total ausência do Estado.

     

    Veja trecho do Seminário

     

    No documento, os participantes do seminário denunciam os impactos que a obra gerará, a exemplo do que aconteceu com a construção da hidrelétrica de Tucuruí, e se comprometem em fortalecer uma grande frente contra o barramento dos rios da Amazônia, bem como fortalecer o movimento contra Belo Monte e cobrar um grande debate no Senado Federal, com a presença dos senadores e dos povos do Xingu.

     

    Segue documento na íntegra: 

     

     

    CARTA DE BELÉM

     

    EM DEFESA DOS RIOS, DA VIDA E DOS POVOS DA AMAZÔNIA 

     

    Os participantes do seminário “Energia e desenvolvimento: a luta contra as hidrelétricas na Amazônia”, após ouvirem professores e pesquisadores de importantes universidades afirmarem que Belo Monte não tem viabilidade econômica, pois vai produzir somente 39% de energia firme, 4,5 mil MW dos 11 mil prometidos. Afirmarem ainda que a repotenciação de máquinas e equipamentos e a recuperação do sistema de transmissão existente poderiam acrescentar quase duas vezes o que esta usina produziria de energia média, investindo um terço do que se gastaria na construção de Belo Monte.

     

    Após ouvirem o procurador do Ministério Público Federal (MPF) falar sobre a arquitetura de uma farsa jurídica: falta de documentação, oitivas indígenas que nunca existiram, licenças inventadas e ilegais, estudos de impacto incompletos e que não atendem as exigências sociais, ambientais e da própria legislação.

     

    Após ouvirem o povo akrãtikatêjê (Gavião da montanha), relatando a luta que até hoje travam contra a Eletronorte, que os expulsou de suas terras quando a hidrelétrica de Tucuruí começou a ser construída, tendo sua cultura seriamente ameaçada, enfrentando doenças e problemas sociais que antes não conheciam. Mostrando que sua luta já dura mais de 30 anos, e que até hoje não conseguiram sequer direito a uma nova terra.

     

    Após ouvirem os movimentos e organizações sociais denunciarem que os povos do Xingu, agricultores, ribeirinhos, pescadores, indígenas, extrativistas, entre outros grupos, estão sendo criminalizados e simplesmente ignorados. Situação reconhecida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, que solicitou ao governo brasileiro que pare a construção de Belo Monte enquanto os povos indígenas não forem ouvidos.

     

    Após verem os exemplos históricos dos grandes projetos na Amazônia, inclusive exemplos mais recentes como o das hidrelétricas no rio Madeira, onde foi verificado desde o não cumprimento dos direitos trabalhistas, até mesmo trabalho escravo, levando os trabalhadores a se rebelarem contra a opressão que vinham há muito tempo sofrendo.

     

    Afirmam que a UHE Belo Monte não tem nenhuma sustentabilidade social, econômica, ambiental, cultural e/ou política, por isso representa uma insanidade.

    Afirmam que o governo brasileiro trata hoje Belo Monte de forma obsessiva, irracional, movido unicamente pela necessidade de atender a interesses políticos e econômicos, em especial os das grandes empreiteiras.

     

    Afirmam que é possível impedir a construção da UHE Belo Monte, defendendo os rios, a floresta, as populações rurais e urbanas, a vida na Amazônia, no Brasil e no mundo.

     

    Diante disso, os participantes deste seminário assumem os seguintes compromissos:

     

    – Fortalecer uma grande frente contra o barramento dos rios da Amazônia;

    – Fortalecer o movimento contra Belo Monte, inclusive criando novos comitês;

    – Cobrar um grande debate no senado federal, com a presença dos senadores e povos do Xingu.

     

    BELO MONTE NÃO!

    TERRA SIM!

    VIVA O RIO XINGU, VIVO PARA SEMPRE!

    VIVA OS RIOS DA AMAZÔNIA, VIVOS PARA SEMPRE!

     

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  • 19/04/2011

    Belo Monte e o último ritual indígena

    O momento é crítico para os povos indígenas do Xingu. Se a obra acontecer, este dia do índio marcará o último ritual para os povos da Volta Grande. Eles celebram hoje, em São Félix do Xingu, com seus parentes de outras etnias, a festa da vida

     

    Por Xingu Vivo

     

    O Brasil corre o sério risco de se tornar réu na Corte Interamericana de Direitos Humanos, da qual foi um dos mentores. Tudo por causa do desrespeito aos direitos dos povos indígenas do Xingu que serão impactados de forma drástica se a Usina de Belo Monte for construída (Felício Pontes Junior*).

     

    Nos últimos anos o governo tem tido um comportamento dúbio. Em um momento alega que os povos indígenas foram ouvidos. Em outro, alega que a usina não afetará povos indígenas. Ambos os argumentos são falsos. Explico.

     

    A Funai, ao se defender da medida cautelar que Comissão Interamericana de Diretos Humanos impôs aos Brasil no mês passado, disse que nas audiências públicas do licenciamento ambiental encontravam-se mais de 200 indígenas.

     

    A Funai tenta confundir os brancos. As audiências de licenciamento ambiental nada têm a ver com o instituto da oitiva das comunidades indígenas afetadas. Aquelas decorrem de qualquer processo de licenciamento ambiental de obras potencialmente poluidoras. Esta decorre do aproveitamento de recursos hídricos em terras indígenas. Aquelas são realizadas pelo órgão ambiental nos municípios afetados por uma obra. Esta, a oitiva, somente pelo Congresso Nacional (art. 231, §3º, da Constituição).

     

    Até hoje o Congresso Nacional Jamais promoveu a oitiva das comunidades indígenas do Xingu. O processo legislativo para esse fim tramitou em 2005. Sua duração foi de menos de 15 dias na Câmara e no Senado. Um dos projetos mais rápidos de nossa recente história republicana. No dia de sua aprovação final, uns senadores, em sessão, o qualificaram de “projeto-bala” e “the flash”. E nenhum indígena foi sequer ouvido.

     

    Ou seja, o Congresso simplesmente ignorou a legislação nacional e internacional e inventou um processo sem ouvir os indígenas. Daí a devida preocupação da Organização dos Estados Americanos com o caso Belo Monte.

     

    Se no século XVI a comunidade internacional via como “façanha” o extermínio de etnias por um governante, cinco séculos depois a opinião internacional é diametralmente oposta. A evolução da humanidade não mais aceita o desrespeito aos direitos indígenas.

     

    Tão grave quanto a falta da oitiva dos indígenas pelo Congresso é o argumento do governo exposto ao contestar uma das ações promovidas pelo Ministério Público Federal. Diz que não é necessária a oitiva porque nenhuma terra indígena será inundada. É verdade. Na Volta Grande do Xingu não haverá inundação. Haverá quase seca, já que a maior parte do rio vai ser desviado, levando ao desaparecimento de 273 espécies de peixes nos 100 quilômetros que passam em frente às Terras Indígenas Paquiçamba e Arara do Maia.

     

    Adoum Arara, em carta enviada à Eletronorte, pelo conhecimento da ciência do concreto, como dizia Lévi-Strauss, declarou: “Vai desaparecer o peixe, morrer muita caça, e a gente vai passar fome, não vamos ter todas as coisas que tem no rio e na mata”. E Mobu-Odo Arara arremata: “[V]ocês pensam que índio não é gente e que não tem valor? Mas nós somos gente e iguais a vocês brancos, temos o mesmo valor que vocês. Vocês podem governar na cidade de vocês, mas no rio, na nossa aldeia, não é vocês que governam. Tente respeitar o nosso direito e o que é nosso. Não queremos barragem. Não queremos Belo Monte.”

     

    O momento é crítico para os povos indígenas do Xingu. Se a obra acontecer, este dia do índio marcará o último ritual para os povos da Volta Grande. Eles celebram hoje, em São Félix do Xingu, com seus parentes de outras etnias, a festa da vida.

     

    Felicio Pontes Junior é procurador da República no Pará e mestre em Teoria do Estado e Direto Constitucional pela PUC-Rio.

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