• 11/11/2011

    Governo descumpre acordo com povo Kayabi e, em cima da hora, marca audiência sobre usina hidrelétrica São Manoel

    “Por que o governo brasileiro está agindo assim de forma irresponsável em querer construir hidrelétricas, uma atrás da outra, sem estudo de longo tempo e na beira de uma Terra Indígena não demarcada?”

     

    É o que questiona o povo Kayabi, após ser surpreendido com a notícia de realização de audiência pública sobre a usina hidrelétrica de São Miguel, mesmo havendo um compromisso do governo federal em realizar tal audiência só depois de 90 dias.

     

    A seguir, comunicado da Associação Indígena Kawaip Kayabi.

     

    ASSOCIAÇÃO INDÍGENA

    Endereço: Rua D-5, 538 – Alta Floresta – MT – CEP: 78580-000

    Fone-Fax: (66) 3521-7706

     

    Prezadas autoridades e instituições:

     

    A associação Indígena Kawaip Kayabi (A.I.K.K) vem através deste documento, comunicar a todos que a audiência pública da Usina Hidrelétrica São Manoel que tinha sido adiada, foi novamente marcada para ser realizada no dia 25 de novembro de 2011, na cidade de Alta Floresta, Mato Grosso, conforme divulgado no site do Ibama: http://www.ibama.gov.br/publicadas/marcadas-audiencias-publicas-para-discutir-estudos-ambientais-da-hidreletrica-sao-manoel

     

    Tal deliberação nos pegou de surpresa e causou grande perplexidade. Isto porque, no dia 3/11/2011, às 18 horas, as lideranças Kayabi, Apiaká, Munduruku e Kayapó foram recebidas pelo ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, pelo assessor do ministro de Minas e Energia, pelo presidente da Funai, Márcio Meira, e pelo o Secretário Especial da Presidência da República, Paulo Maldos, dentre outras autoridades, que acordaram com as lideranças indígenas, que as audiências públicas da UHE São Manoel só ocorreriam dentro de um prazo de 90 (noventa) dias. Contudo, não temos como provar este combinado, pois o ministro da Justiça disse que não precisávamos nos preocupar em fazer ata, só em prestar atenção e que eles fariam a ata, que até agora não nos foi enviada.

     

    Outra questão discutida na reunião com as autoridades foi a situação da demarcação ainda não concluída de nossa terra. Já estamos esperando por mais de 20 anos. Por que o governo brasileiro está agindo assim de forma irresponsável em querer construir hidrelétricas, uma atrás da outra, sem estudo de longo tempo e na beira de uma Terra Indígena não demarcada? Fiquem sabendo que nosso direito de demarcação de terra não será objeto de troca por impactos das usinas, pois o governo assumiu um pacto com os povos indígenas na Constituição Federal de 1988, se comprometendo com a demarcação de todas as terras indígenas em cinco anos. Diziam, ainda no governo Lula, que os pactos seriam cumpridos, mas não é o que está acontecendo. O que assistimos é a uma enxurrada de descumprimentos e violações.

     

    Contrariando o acordo firmado em Brasília com os ministros, as audiências foram marcadas para daqui a duas semanas, desrespeitando qualquer acordo firmado com nosso povo. O Povo Kayabi não concorda e não aceita os empreendimentos hidrelétricos previstos para o rio Teles Pires, empreendimentos estes que ameaçam nossa sobrevivência física e cultural e constituem mais um desrespeito e violação de nossos direitos. Já estamos sendo atropelados pelas UHEs Teles Pires e Colíder e como se não bastasse querem agora nos patrolar com a UHE São Manoel.

     

    Os estudos sobre este empreendimento são insuficientes e não trazem nenhuma salvaguarda às nossas terras e direitos. Ainda não compreendemos o que significam estes empreendimentos que já estão sendo construídos e já querem construir outras usinas que só trarão prejuízos a nossa comunidade, de forma atropelada e sem nosso consentimento.

     

    Exigimos que os estudos sejam refeitos, que a comunidade tenha tempo de compreender o que está acontecendo e que o governo nos respeite, assim como eles querem ser respeitados. Exigimos que o governo realize pesquisas sobre outras formas de geração de energia que causem menos impactos e não afetem diretamente a vida dos povos indígenas e não indígenas,como os ribeirinhos, que moram perto dos rios e dependem deles.

     

    A construção trará grande quantidade de pessoas para a região, que não está preparada para isso. Estes impactos não afetam apenas os povos indígenas, mas também os não indígenas. Nossas terras correm o risco de invasão, grilagem, retirada de madeira, sem falar no aumento da violência e exploração sexual.

     

    Convidamos o Ministério Público Federal, Estadual e todas as organizações não governamentais a somarem forças com o povo Kayabi a fim de estruturar estratégias de resistência e luta contra todas as arbitrariedades que estamos passando. Aguardamos contatos para agendamento de uma reunião no município de Alta Floresta com todos aqueles que possam nos apoiar e construir conosco uma parceria.

     

    Contatos com Eleniuldo Kayabi: [email protected]

    Tel: (066) 35217706.

     

    Sara Kaiabi

    Suzana Kayabi

    Presidente da Associação Kawaip Kayabi

    Tesoureira da Associação Kawaip Kayabi

     

     

    Eleniuldo Kayabi

    2º Secretário da Associação Kawaip Kayabi

     

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  • 10/11/2011

    Indígenas ocupam sede da Funai em Atalaia do Norte

    J.Rosha

    De Atalaia do Norte (AM)

     

    Cerca de 150 indígenas ocupam desde às 9 horas desta quinta-feira (10) a sede da Fundação Nacional do Índio (Funai), no município de Atalaia do Norte, extremo oeste do Amazonas.  Eles querem a criação de uma coordenação regional especificamente do Vale do Javari baseada naquela cidade e a troca do atual coordenador, Bruno da Cunha Araújo Pereira, que está no cargo há cerca de dois meses. 

     

    A ocupação é liderada por organizações indígenas da região tendo à frente a União dos Povos Indígenas do vale do Javari (Univaja). Os ocupantes são dos povos Kanamari, Mayoruna, Matis e Marubo. De acordo com Jader Comapa Franco, coordenador da Univaja, nas próximas horas outros indígenas deverão juntar-se aos que já estão ali instalados. 

     

    “Nós queremos com urgência que seja criada a Coordenação Regional do Vale do Javari. Com a reestruturação a Funai criou uma coordenação do Vale do Juruá mas que não nos contempla uma vez que os problemas hoje são muitos e não somos assistidos precisamos”, disse Jader Comapa.

     

    “É fácil olhar pelo mapa, mas é difícil você conhecer. Parece que o governo tem medo de visitar as comunidades”, protesta Kurá Kanamari. 

     

    Com a reestruturação do órgão indigenista, concretizada com a edição do Decreto 7056, de 28 de dezembro de 2009, foram criadas 36 coordenações regionais da Funai das quais seis são localizadas no Amazonas e entre elas a coordenação regional do Vale do Juruá. Na avaliação dos indígenas, essa situação prejudica o atendimento tanto dos indígenas do Vale do Javari quanto do Juruá. 

     

    “Nós já solicitamos por várias vezes que a Funai nos atenda para discutir o assunto mas até agora nada foi feito”, explica Jader Comapa. Sobre a necessidade de substituir o atual coordenador regional, ele explica que sua nomeação aconteceu de forma arbitrária, “de cima para baixo”.

     

    “Nós estamos exigindo a presença do presidente da Funai, Márcio Meira, para discutirmos sobre tudo isso”, diz o coordenador da Univaja. 

     

    Na região do Vale do Javari – distante de Manaus, a capital do Amazonas, cerca de 1.100 quilômetros em linha reta, um dos mais graves problemas enfrentados pelos povos indígenas é a contaminação por doenças como hepatites, malária, tuberculose e outras. Anualmente, muitos indígenas têm morrido devido à precariedade da assistência à saúde.

     

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  • 10/11/2011

    Mais duas pessoas presas na resistência à invasão de construtoras ao Santuário dos Pajés

    Renato Santana

    De Brasília

     

    O conflito que se desenrola há mais de três meses na Terra Indígena Bananal – Santuários dos Pajés, Setor Noroeste, Brasília (DF), tem se tornado um retrato, em cores vibrantes, de como a Capital Federal chegou à situação onde os últimos governos simplesmente administram as vontades das construtoras em detrimento de direitos públicos e, no caso, da comunidade tradicional – respaldada pela Constituição Federal.

     

    Nesta quinta-feira (10), durante a tarde, duas pessoas foram detidas e encaminhadas ao 2º Distrito Policial da Asa Norte acusadas de resistência e desacato pela Polícia Militar (PM). Ambas tentavam impedir a entrada de um caminhão em área invadida pela construtora Brasal. As detenções são frutos da decisão de um juiz de plantão da Justiça Federal no mínimo curiosa, mas suspensa na manhã desta quinta pela 2ª Vara da Justiça Federal de Brasília.

     

    O juiz de plantão, no último domingo (6), deu sentença liberando as obras não só da construtora Emplavi, mas também Brasal e João Fortes nos lotes que as empresas dizem terem comprado da Terracap, dentro do Santuário dos Pajés. Não só isso: autorizou a PM a reprimir e prender quem impedisse a operação das construtoras, inclusive os indígenas – indo de encontro a Constituição Federal e ao Estatuto do Índio.   

     

    Com isso, surgiu um impasse: o despacho do juiz passou a conflitar com decisão anterior da desembargadora Selene Maria de Almeida, do Tribunal Regional Federal (TRF-1), que só autorizava a construtora Emplavi a seguir com as obras dentro do Santuário dos Pajés. Na manhã desta quinta o Governo do Distrito Federal (GDF) mandou para o Santuário cerca de 800 policiais para garantir o cumprimento do despacho do juiz.

     

    Audiência pública: Terracap e Funai ausentes   

     

    “É uma completa ilegalidade o que ocorre neste instante lá no Santuário. A decisão da desembargadora não pode ser descaracterizada por uma decisão de 1ª instância”, denunciou Awá-Mirim Tupinambá durante Audiência Pública da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados convocada para tratar do Santuário dos Pajés.

     

    Justamente no dia da audiência as construtoras voltaram a operar dentro da Terra Indígena sob a proteção da PM e com base na decisão controversa do juiz de plantão da Justiça Federal – abarcada pelo GDF. O vice-presidente da comissão, Domingos Dutra (PT/MA), fez duras críticas a ausência de representantes do governo de seu colega de partido, Agnelo Queiroz. O deputado federal disse não aceitar que “um governo petista fuja de um debate tão importante para a sociedade brasileira”.    

     

    Para Dutra, a postura apresentada pelo GDF o coloca como aliado das construtoras e que o envio da PM para cumprir a decisão do juiz de plantão não é mera medida administrativa, mas política e de opinião de governo. “O governador deve rever o que a Terracap fez em gestões anteriores porque se ela vendeu os lotes dentro da Terra Indígena ela fez errado e para atender interesses particulares”, disse o deputado federal.

     

    Representantes das construtoras também foram convocados, mas não compareceram. Dessa forma, a audiência tornou-se um espaço de denúncias e encaminhamentos para a Comissão de Direitos Humanos – que imediatamente se mobilizou para entrar em contato com o governador Agnelo e pedir que a operação desta quinta fosse suspensa no Santuário, pois estava completamente ilegal.

     

    Laudo e manifesto: O Santuário Não Se Move!

     

    Por mais que o GDF não reveja a venda ilegal dos lotes em terras do Santuário pela Terracap, cujo presidente que outrora fez as licitações de vendas hoje é advogado das construtoras, a Fundação Nacional do Índio (Funai) tem todos os argumentos necessários para publicar portaria da presidência do órgão montando Grupo de Trabalho (GT) para identificação e demarcação da Terra Indígena Bananal.

     

    “Toda essa violência estava prevista. Falam em 4 hectares (Funai, construtoras) como o tamanho da Terra Indígena. Qual foi o trabalho de campo que definiu esse tamanho? Como chegaram a esse número não dizem”, atacou Awá-Mirim. O indígena aponta que em 1996 um estudo de delimitação da área apontava para 41,815 hectares; agora, a Funai induziu a Justiça a dizer que o tamanho da terra é 4,1815.

     

    “Temos manipulações evidentes. Jogaram a vírgula mais para um lado. Cadê a Funai para explicar isso? Depois de 1996, temos o estudo de 2003 e agora o de 2011. Todos apontam a terra como de ocupação tradicional e os dois últimos chegam nos 50 hectares que reivindicamos e vão até mais além”, destacou Awá.

     

    No início de setembro, foi apresentado ao órgão indigenista estudo preliminar – encomendado pela própria Funai por determinação judicial – em que fica atestada a ocupação tradicional em 50 hectares. A Funai fez questão de descaracterizar o estudo dizendo-o inconsistente. “A ocupação está atestada com mais de 50 anos, teve o estabelecimento de relações interétnicas, práticas de manejo ambiental. O laudo comprova tudo isso e atesta a tradicionalidade”, disse o antropólogo do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UNB), Cristian Teófilo Silva.

     

    Integrante da direção da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), ele lembrou que a organização emitiu nota desconstruindo o posicionamento da Funai contra o laudo. “Os antropólogos não são do governo, têm experiência e não defendem interesses de particulares. Comprovaram a tradicionalidade com métodos científicos”, finalizou.

     

    Com a ação das construtoras dentro da área, as provas que comprovam a tradicionalidade estão sendo perdidas. Para o pajé Santie Tapuia Fulni-ô, que vive no Santuário desde o final dos anos 1960, o maquinário não destrói apenas o território, mas a Constituição. “Milhares de indígenas morreram sem ver nossos direitos na Constituição e agora passam por cima disso como se fosse nada”, lamentou.

     

    Conforme o secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Cleber Buzatto, o que acontece pode ser verificado em todo país. Por essa razão, na última quarta-feira (9) foi lançado o manifesto Perversidade e Autoritarismo: Governo Dilma edita portarias de restrição e desconstrução de direitos territoriais indígenas e quilombolas.   

     

    “O governo federal toca um projeto de desenvolvimento que passa por cima de tudo: do meio ambiente, das pessoas, dos povos tradicionais. O manifesto tem como base um pacote de medidas e portarias do governo que atentam contra os direitos dos povos indígenas e quilombolas”, frisou Cleber.  

     

    A liderança indígena da região amazônica, Álvaro Tucano, esteve na Audiência Pública. Reiterou seu apoio, já emitido num ritual feito no Santuário, e não poupou críticas ao governo Dilma Rousseff: “Nós nunca fomos tão perseguidos como neste governo. Temos indígenas que estão proibidos de entrar na Funai, eu sou um deles”.

     

     

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  • 10/11/2011

    ”É o bonde da Dilma! É o trator sem freio!”, por Roberto Antonio Liebgott

    Por Roberto Antonio Liebgott

    Cimi – Regional Sul

     

    Até aqui temos 10 meses de governo de Dilma Rousseff. Tempo suficiente para antevermos alguns caminhos pelos quais vai transitar esse bonde governado pela presidente. E ele seguiu, nos primeiros tempos, trilhos paralelos aos do ex-presidente Lula e das políticas que anteriormente balizaram as ações oficiais. Tamanha era a proximidade sugerida durante a campanha eleitoral que muitas vezes a imagem da então candidata se confundiu com a de Lula. E, definidas as eleições, houve quem acreditasse que uma mulher na presidência era prenúncio de uma nova sensibilidade para as causas humanas e sociais.

     

    Depois desses primeiros meses, dos ajustes finos na engrenagem desse bonde, da definição da equipe de apoio”e da concretização de alguns compromissos assumidos na campanha, já é possível verificar a continuidade e o aprofundamento do projeto desenvolvimentista, sustentado especialmente em obras de grande porte e em empreendimentos vultosos.

     

    Pode-se dizer que o projeto desenvolvimentista da presidente avança, inclusive, para além das fronteiras nacionais. Não foi à toa que recentemente o governo Dilma emitiu nota, através do Itamaraty, defendendo a construção de uma estrada na Bolívia. Contrariando interesses dos povos indígenas daquele país, que marcham e lutam contra a obra e não aceitam que esta rasgue as suas terras. Apesar de todos os protestos o governo brasileiro saiu em defesa da estrada a ser construída na Bolívia e que terá origem em Porto Velho – Brasil. Seria uma manifestação de interesse altruísta ao projeto de desenvolvimento de boliviano? Não exatamente! A explicação é bem mais rentável do que parece: a estrada, orçada em US$ 415 milhões, é financiada com recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), e vem sendo construída por uma das maiores empreiteiras privadas com sede no Brasil, a OAS.

     

    Com os olhos voltados para a bandeira do desenvolvimentismo, o governo federal canaliza e concentra todos os esforços e recursos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), não permitindo a execução completa dos orçamentos de programas sociais reforma agrária, quilombola, indigenista, segurança alimentar, da criança sendo a maior parte dos recursos contingenciados e utilizados para aumentar o superávit primário. Fartura de recursos para investimentos, para empreendimentos, par a financiamento de grandes projetos, penúria para a maioria da população, para quem se destinam precárias ações de assistência em saúde, educação, segurança e algumas políticas compensatórias destinadas através de bolsas. A última recentemente criada foi a Bolsa Verde”que faz parte do programa Brasil Sem Miséria. Um programa que prevê o pagamento trimestral para famílias que desenvolvam atividades de conservação dos ecossistemas da Amazônia. Aliás, uma nota do próprio governo, divulgando a novidade, declara que no estado do Amazonas 18,6% das famílias vive com menos de R$ 70,00 ao mês. Esse é um dado que demonstra a urgência de se estabelecer não um pacote de medidas assistenciais, mas uma eficaz política de inclusão social.

     

    É o bonde da Dilma em movimento! E a política da presidente se assemelha também a um trator sem freio, que segue em frente, a qualquer custo, revolvendo a terra, removendo empecilhos, aniquilando o meio ambiente. Não por acaso o termo tratorar”se aplica a quem costuma seguir arrastando o que encontra pela frente, sem tempo ou disposição para a escuta, a discussão e o profícuo debate democrático. No campo político, são muitas as investidas contra a legislação ambiental, contra os direitos indígenas e quilombolas, sem nenhum tipo de reação, por parte do governo Dilma, para defender estas minorias.

     

    Ao invés de o governo federal assumir responsabilidades com essas populações e com os seus direitos territoriais, ocorre exatamente o oposto, ou seja, as notícias dão conta de que diversas audiências foram concedidas pelo atual ministro da Justiça a políticos interessados em rever procedimentos demarcatórios de terras indígenas e também de quilombolas. De acordo com o que a imprensa relata, todos saem do gabinete ministerial sorridentes, com a promessa de criação de comissões para estudar demarcações, rever procedimentos, relatórios e laudos elaborados pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e pelo Incra. Nesta direção e selando um compromisso com determinados setores sociais o ministro da Justiça, a Advocacia Geral da União e outras instâncias do governo assinaram portaria para estudar formas de garantir a participação de estados e municípios nos procedimentos demarcatórios.

     

    Para os povos indígenas não restou nem a Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI) esse tão alardeado espaço de diálogo”sobre a política indigenista, criado por Lula. Depois de serem tratorados”tantas vezes, os representantes na CNPI se retiraram da última reunião e informaram que só retomam o diálogo se forem recebidos pela presidente e seus ministros. Até agora a presidente não se deu nem ao trabalho de responder.

     

    O trator da Dilma”também anda sem freio para os lados da Amazônia. A presidente fez uso de Medida Provisória para reduzir limites de parques ambientais, determinou a liberação de licença para desmatamento na região onde pretendem construir os canais da usina de Belo Monte e ao cobiçado complexo hidroelétrico do Rio Tapajós, bem como fez vista grossa à aprovação do novo Código Florestal na Câmara dos Deputados. Um começo e tanto para apenas dez meses de governo! Podemos supor quantas clareiras serão abertas e quantas florestas tombarão para deixar passar o bonde desenvolvimentista.

     

    Enquanto isso, as comunidades indígenas sofrem os impactos da falta de uma política séria e comprometida com a garantia de seus direitos constitucionais:

     

    – No campo da saúde, um verdadeiro caos está instalado. Ao que parece, nem a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e nem a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) funcionam, e os índios desconfiam que a escolha de uma única organização a ser responsável pelo atendimento às comunidades em todo o país, parece ser o prenúncio da tão contestada política de terceirização e dos benefícios a privilegiados dirigentes de organizações (Osips ou ONGs). Os povos do Vale do Javari, no Amazonas, sofrem com a falta de atendimento, de medicamentos, de profissionais em saúde, o que tem comprometido a vida e o futuro de dezenas de povos na região. De acordo com dados oficiais dos órgãos de assistência há no Vale do Javari um decréscimo populacional. Para tentar reverter a situação, os povos iniciaram uma campanha, buscando o apoio da sociedade, numa espécie de pedido de socorro em função da gravidade dos problemas;

     

    – A paralisação dos procedimentos demarcatórios parece ter virado política de governo. Nenhuma homologação de terra indígena foi registrada ao longo deste ano. Em Mato Grosso do Sul, nem a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta fez com que a Funai cumprisse com suas obrigações e apresentasse os resultados dos grupos de trabalho que analisam as terras Guarani-Kaiowá. O povo Xetá, no Paraná (PR), que quase chegou à extinção, também aguarda há anos a publicação do relatório de suas terras. No Rio Grande do Sul (RS), existem acampamentos indígenas instalados na beira de BRs há mais de 30 anos, com crianças indígenas morrendo por desnutrição. Falta-lhes a terra para sua sobrevivência. Ao que parece a política é de não demarcar mais nenhuma terra indígena, por isso a Funai demora tanto para proceder à análise dos relatórios circunstancia dos e quando os analisa busca desqualificar o direito à demarcação de terras como sendo de ocupação tradicional;

     

    – A violência se alastra em várias regiões do país e, em especial, no Mato Grosso do Sul. Conforme dados reunidos pelo Cimi, dos 38 assassinatos de indígenas registrados em 2011 no Brasil, 27 ocorreram naquele Estado (o que corresponde a 71% dos casos). Continuam ocorrendo, de modo sistemático, atentados contra acampamentos dos Guarani-Kaiowá e os agressores fazem uso, inclusive, de munição exclusiva das forças policiais. Os Awá Guajá, povo recentemente contatado no Maranhão, sofrem com ataques de madeireiros ao seu território e a membros de sua comunidade. Quando estes fatos são denunciados e se solicita a intervenção da Funai, esta informa não ter recursos nem para o combustível dos seus veículos; em função disso, sequer vão para estas áreas, averiguar a situação;

     

    – Na região Nordeste, as comunidades indígenas sofrem com os impactos das obras da transposição do rio São Francisco. Mesmo quando se encerraram etapas dessa construção, ficam os problemas sociais e econômicos para aqueles que ali vivem. E a água para todos, como se prenunciava, não chegou;

     

    – No Pará e, mais precisamente, em Altamira, a população local sofre as consequências sociais e econômicas em função da instalação do canteiro de obras da hidroelétrica de Belo Monte. No município os hospitais encontram- se lotados, o trânsito está caótico e há uma grande circulação de pessoas vindas de outras regiões ou que estão sendo removidas de suas habitações. Pequenos produtores protestam por serem praticamente expulsos de suas terras pelo consórcio Norte Energia, sendo que  as compensações pelas desapropriações são irrisórias. Há relatos, inclusive, de um agricultor que teve sua casa incendiada.

     

    Todo este contexto de ataques ao meio ambiente e de desmantelamento dos direitos agrada muito aos invasores de terras indígenas e a setores da política e da economia que pretendem: aprovar o projeto de lei que possibilitaria exploração mineral em terras indígenas; o engessamento”de territórios com propostas, como o sequestro de carbono, a revisão de procedimentos demarcatórios já concluídos como os das terras Marawatsédé e Raposa Serra do Sol.

     

    É o trator sem freio que segue esmagando vidas, destinos, projetos de futuro, territórios sagrados, tudo em nome de um desenvolvimento que não tolera diferenças, que tudo destrói. É o bonde da Dilma que passa acelerado, e nele só têm acento uns poucos privilegiados.

     

    Publicado no Jornal Porantim, setembro de 2011.

     

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  • 10/11/2011

    Nota de Repúdio à Exoneração de Megaron Txucarramãe

    As entidades e pessoas que assinam esta nota vêm a publico repudiar veementemente a exoneração da liderança Megaron Txucarramãe, Coordenador Regional da Fundação Nacional do Índio – Funai de Colider (MT). Tal exoneração, como já manifestado pelos povos indígenas atendidos por esta coordenação, não deixa outra forma de interpretação senão a de perseguição política e retaliação pela coerente posição que, como indígena e servidor público, a liderança vem mantendo.

     

    É sabido por todos que a Funai é o órgão indigenista oficial e, dentre suas atribuições, está a garantia e proteção dos direitos dos povos indígenas. Contudo, mais coerente com as contradições do governo federal que com a missão do órgão, a Fundação vem sistematicamente ferindo os direitos destes povos, seja pela chancela aos projetos governamentais, função que assumiu sua presidência, seja pelo ‘nada obsta’, quando o assunto são projetos que impactam as terras indígenas e seus povos.

     

    Megaron vem sendo um dos expoentes na luta contra Belo Monte, complexo hidrelétrico megalomaníaco do governo Dilma, que afetará não somente o povo Kayapó, mas outros povos indígenas, outras populações da região e, certamente, todos os brasileiros e todas as brasileiras. Manter esta posição contrária, mesmo quando o presidente do órgão cede ao projeto desenvolvimentista é o ato mínimo que se espera, mas se torna raro dentre os que preferem manter seus cargos à coerência.

     

    Juntando nosso manifesto ao dos povos indígenas de Mato Grosso e de outras regiões, repudiamos esta atitude covarde e truculenta que desconsidera a longa dedicação de Megaron, sequer ouvindo-o ou dando-lhe chances de reação. Esta atitude indica discriminação e relação de tutela para com os indígenas.

     

    Na oportunidade nos solidarizamos aos povos indígenas atendidos pela Coordenação Regional de Colider pelos transtornos que esta atitude causará. 

     

    Esperamos que a presidência da Funai, o Ministério da Justiça e o governo federal, retomando o senso de justiça e coerência, suspendam a portaria de exoneração e enviem retratações à Megaron.

     

    Cuiabá, MT, 07 de novembro de 2.011.

     

    Assinam esta nota:

     

    Associação Brasileira de Homeopatia Popular (ABHP)

    Centro Burnier Fé e Justiça (CBFJ)

    Centro de Direitos Humanos João Bosco Burnier/ Várzea Grande

    Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos Mato Grosso (CEBI-MT)

    Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos /Setor Cuiabá (CEBI)

    Círculo da Paz

    Comissão Pastoral da Terra Mato Grosso (CPT-MT)

    Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)

    Conselho Indigenista Missionário – Regional Mato Grosso (CIMI-MT)

    Conselho Nacional do Laicato do Brasil/MT (CNLB)

    Fórum de Direitos Humanos e da Terra de Mato Grosso

    Fórum de Luta das Entidades de Cáceres (FLEC)

    Fórum Matogrossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (FORMAD)

    Fórum Permanente pela Paz

    Grupo Cultural e Ambiental Raízes

    Grupo de Trabalho e Mobilização Social (GT-MS)

    Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte (GPEA-UFMT)

    Instituto Caracol

    Instituto de Ecologia e Populações Tradicionais do Pantanal (Ecopantanal)

    Instituto Indígena Maiwu de Estudos e Pesquisa de Mato Grosso (MAIWU)

    Organização das Mulheres Indígenas de Mato Grosso (TAKINA)

    Organização dos Professores Indígenas de Mato Grosso (OPRIMT)

    Rede Mato-Grossense de Educação Ambiental (REMTEA)

    Sociedade Fé e Vida

    Augusta Eulália Ferreira

    Edina Franco de Moraes

    Eric Shinji Kawahahara

    Ericnilson da Costa Lana

    Eunice Dias de Paula

    Gilberto Vieira dos Santos

    Lucia Shiguemi Izawa Kawahara

    Luckas Hiroki Kawahara

    Luis Gouvêa de Paula

    Maria Ivonete de Souza

    Osmar Resende

    Ruth Albernaz Silveira

    Silvia Maria Valentim Pinheiro

    Victor Ikky Kawahara

     

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  • 10/11/2011

    Moção de Solidariedade a Megaron Txucarramae

    O Comitê Xingu Vivo, fórum que congrega mais de 40 entidades, entre ONG´s, Movimentos sociais, Centrais sindicais, Sindicatos, Partidos políticos, Movimento estudantil, entre outras organizações, tomou conhecimento da exoneração do servidor MEGARON TXUCARRAMAE, da função de Coordenador Regional da FUNAI de Colider – MT, sem nenhum motivo de relevância que não a retaliação política por causa da correta posição de Megaron, contrário à construção de Hidrelétricas nos rios que cortam terras indígenas. Segundo os indígenas Kaiapós, a exoneração foi, no mínimo, “arbitrária”, um ato truculento e preconceituoso contra um servidor indígena que sempre lutou “para a defesa da sobrevivência de todas as populações indígenas do Brasil”. Para uma das lideranças indígenas do Movimento Xingu Vivo para Sempre, a exoneração de Megaron, pelo governo Dilma, mais parece um ato de retaliação, pois acontece um dia após a ocupação por grupos indígenas, inclusive kaiapós, do canteiro de obras de Belo Monte em Altamira, no dia 27.10. “Parece vingança mesquinha…Esta é a única resposta que ele tem a nos dar quando exigimos nossos direitos constitucionais, jogados no lixo com o Projeto de Belo Monte? Acha que com isso desistiremos de lutar? É uma injustiça que me revolta, mas isso só aumenta nossa força de resistência contra Belo Monte e todas as outras hidrelétricas planejadas na nossa Amazônia”.

    O Comitê Xingu Vivo solidariza-se com o cacique MEGARON TXUCARRAMAE e toda a nação KAIAPÓ, por sua luta contra a destruição da Amazônia e seus rios, contra a posição da FUNAI de autorizar, em nome dos indígenas do Xingu, a construção de Belo Monte e por sua luta em defesa dos nossos irmãos indígenas de todas as etnias que têm sua sobrevivência ameaçada pelas grandes obras, planejadas apenas para repassar dinheiro público às empreiteiras que financiam, entre outros, as campanhas eleitorais das candidaturas dos partidos da base de apoio do governo federal.

    Belém, 09 de novembro de 2011

    ASSINAM ESTA NOTA:

    – Assembleia Nacional de Estudantes – Livre!
    – Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG)
    – Associação Indígena Tembé de Santa Maria do Pará (AITESAMPA)
    – Associação dos Empregados do Banco da Amazônia (AEBA)
    – Associação dos Concursados do Pará (ASCONPA)
    – Associação Sindical Unidos Pra Lutar
    – Comissão Pastora da Terra (CPT/PA)
    – Conselho Indigenista Missionário Regional Norte II (CIMI)
    – Comitê Dorothy
    – Companhia Papo Show
    – Coletivo de Juventude Romper o Dia
    – Central Sindical e Popular CONLUTAS
    – Diretório Central dos Estudantes/UFPA
    – Diretório Central dos Estudantes/UNAMA
    – Diretório Central dos Estudantes/UEPA
    – Federação de Órgãos para Assistência social e educacional (FASE – Amazônia)
    – Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense (FMAP)
    – Fundação Tocaia (FunTocaia)
    – Fórum da Amazônia Oriental (FAOR)
    – Fórum Social Pan-amazônico (FSPA)
    – Fundo Dema/FASE
    – Grupo de Mulheres Brasileiras (GMB)
    – Instituto Amazônia Solidária e Sustentável (IAMAS)
    – Instituto de Educação Popular de Rondônia – IEPRO
    – Instituto Humanitas, Belém, Pará
    – Instituto Madeira Vivo – IMV
    – Instituto Universidade Popular (UNIPOP)
    – Instituto Amazônico de Planejamento, Gestão Urbana e Ambiental (IAGUA)
    – Movimento Articulado de Mulheres da Amazônia – MAMA
    – Movimento de Mulheres do Campo e da Cidade do Estado do Pará (MMCC-PA)
    – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
    – Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
    – Movimento Luta de Classes (MLC)
    – Movimento Estudantil Vamos à Luta
    – Mana-Maní Círculo Aberto de Comunicação, Educação e Cultura
    – Movimento Hip-Hop da Floresta (MHF/NRP)
    – Organização Coletiva dos Pescadores Tradicionais de Jaci-Paraná – PIRÁ
    – Partido Socialismo e Liberdade (PSOL)
    – Partido Comunista Brasileiro (PCB)
    – Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU)
    – Partido Comunista Revolucionário (PCR)
    – Rede de Educação Cidadã (RECID)
    – Rede de Entidades em Defesa da Vida – Porto Velho/RO
    – Rede de Juventude e Meio Ambiente (REJUMA)
    – Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH)
    – Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal do Pará (SINTSEP/PA)
    – Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN)
    – Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Gestão Ambiental do Estado do Pará (SINDIAMBIENTAL)
    – Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil de Belém e Ananindeua
    – Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários de Ananindeua e Marituba (SINTRAM)
    – Sindicato dos Trabalhadores das Instituições Federais de Ensino Superior no Estado do Pará (SINDTIFES-PA)

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  • 09/11/2011

    Informe nº 989: Povos indígenas lançam manifesto em audiência da Comissão de Direitos Humanos do Senado

    Renato Santana

    De Brasília

     

    Audiência Pública da Comissão de Direitos Humanos do Senado, ocorrida na manhã desta quarta-feira (9) para tratar da Terra Indígena Maró (PA), foi o espaço escolhido por 75 organizações indígenas e indigenistas para o lançamento do manifesto contra as últimas medidas administrativas e políticas do governo Dilma Rousseff. As críticas são duras e a chamada do documento é: Perversidade e Autoritarismo: Governo Dilma edita portarias de restrição e desconstrução de direitos territoriais indígenas e quilombolas.

     

    O momento, entretanto, é histórico: somadas, as organizações indígenas representam mais de 200 povos originários de todas as regiões do país que protestam contra as restrições “ao alcance dos direitos constitucionais dos povos indígenas e das comunidades quilombolas”, conforme texto do manifesto, motivadas pelas ações governamentais.

     

    Depois que a bancada indígena esvaziou a Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI) e rompeu diálogo com o governo federal, até que a presidenta receba os indígenas – atitude que Dilma se nega a tomar, o manifesto cela a indignação e revolta dos povos que tomaram corpo em mobilizações por todo o país.

     

    A sede da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Imperatriz, município do Maranhão, está ocupada há mais de uma semana. Ocupações semelhantes ocorreram em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Nos últimos meses, mobilizações de protesto ocorreram em São Paulo, Paraná, Bahia e Pará.

     

    Nas pautas, o não cumprimento dos direitos constitucionais indígenas. Caso mais recente foi a ocupação do canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, na região de Altamira (PA), por cerca de 600 integrantes de comunidades tradicionais. As comunidades indígenas, ribeirinhas e de pescadores não foram consultadas sobre o empreendimento, conforme exige a Constituição, entre outras violações.

     

    Para o manifesto, a gota d água foi a publicação, no último dia 28, da Portaria Interministerial 419. Com ela, o governo federal busca regulamentar, ao arrepio da Constituição e respondendo aos interesses políticos de aliados, a atuação da Funai, da Fundação Cultural Palmares (FCP), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e do Ministério da Saúde em pareceres aos processos de licenciamentos ambientais – tais como o de empreendimentos como o de Belo Monte.

     

    Na Portaria Interministerial, no artigo 2º, fica estabelecido que o governo só irá considerar Terra Indígena aquela que tem seus limites estabelecidos pela Funai. Contraria assim o artigo 231 da Constituição ao restringir o conceito de Terra Indígena, mais amplo. Com apenas uma canetada, conforme o manifesto, ignora cerca de 346 terras indígenas reivindicadas pelos povos, mas que não tiveram procedimentos administrativos iniciados pela Funai.

     

    Situação triste e calamitosa

     

    “No assunto dessa audiência soma-se o desespero de todos os outros povos indígenas do país, tanto os que estão com suas terras demarcadas quanto os que não estão, por todo o fato que está presente na carta”, frisou Kleber Karipuna, representante da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), que fez a leitura do manifesto.

     

    O indígena acrescentou que os povos vivem uma situação “triste e calamitosa” na área da saúde. A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) não atende as políticas de atenção aos indígenas. “As portarias do governo federal aprofundam a situação de abandono e vão de encontro aos nossos direitos, garantidos na Constituição, na Convenção 169”, disse Kleber.  

     

    Exigiu a revogação imediata da Portaria 419 e das demais que atentam contra as comunidades tradicionais – indígena e quilombola. “Não estamos sendo ouvidos e sequer considerados”,

     

    A encenação democrática do governo, de acordo com o manifesto, “impõem limites à participação das comunidades nas discussões, debates e decisões a serem tomadas sobre os programas e empreendimentos econômicos que afetam direta ou indiretamente suas comunidades, terras, culturas, história e as suas perspectivas de futuro”.

     

    Para Rosane Kaingang, da Articulação dos Povos Indígenas Brasileiros (Apib), as portarias e posturas da presidenta Dilma apenas asseguram a lucratividade aos empreendimentos das grandes corporações econômicas – com destaque para as empreiteiras.

     

    “Quando o Estado brasileiro viola uma legislação e os nossos direitos, seja dos indígenas, quilombolas e as ditas ‘minorias’, vamos recorrer a quem? Porque essas portarias representam violências físicas, culturais, sociais e de direitos”, atacou Rosane. Entre lágrimas, ressaltou que até o momento a presidenta Dilma sequer sinalizou em receber o movimento indígena. “É doloroso porque o Estado está silencioso conosco. Como mulher indígena, digo à presidenta que repense o que está fazendo conosco e venha para o diálogo. Aliás, em 500 anos é isso que estamos fazendo. Estamos cansando de fazer documentos”, disse.   

     

    Vale do Javari e outras tragédias

      

    “Alguém aqui pode dizer que se vive numa situação de dignidade humana quando tem que se humilhar para conseguir uma bolsa escola, uma bolsa família, uma cesta básica? É possível dizer que se tem dignidade para os indígenas quando eles não têm acesso à saúde? É uma realidade brasileira, amazônica, senador Paulo Paim (PT/RS e presidente da Comissão de Direitos Humanos)”, disse a senadora Marinor Brito (PSOL/PA).

     

    A fala da senadora repercutiu entre os povos indígenas presentes – Apinajé, Tupinambá, Pataxó Hã-Hã-Hãe, Krahô, Tapuia, Karipuna, entre outros. No entanto, uma situação se destaca no cenário. No Vale do Javari, Amazônia, a morte espreita diariamente os povos indígenas que lá vivem: 85% dos índios estão infectados pelos vários tipos de hepatite e há denuncias de que quando os medicamentos chegam vencidos nas aldeias. As mortes são semanais, inclusive de crianças e adolescentes. Para enfrentar a situação, posto que o Estado não se faz presente, uma campanha nacional contra o extermínio dos povos do Vale do Javari está em curso.

     

    “Queremos demonstrar para essa comissão a nossa preocupação e tornar pública a situação dos povos indígenas brasileiros. No nosso entendimento, a implementação do projeto de desenvolvimento na forma que está sendo implementado, mais do que colocar em risco as populações originárias está atingindo a democracia, enfraquecendo-a”, disse o secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Cleber Buzato.

     

    Para o missionário, trata-se de um Estado absolutista sob os marcos de uma ditadura do capital, onde as piores barbaridades são cometidas contra as populações originárias e o meio ambiente. “São atacados de forma cruel, perversa”, denunciou Cleber.

     

    Ele destacou em sua fala três situações: a calamidade na área da saúde (com ênfase sobre a situação do Vale do Javari); situação dos indígenas que vivem em acampamentos no Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul (ação de milícias contra os acampados) e a invasão de madeireiros e todo tipo de invasores – os povos indígenas do Maranhão, sobretudo os Awá-Guajá caçados por invasores dentro do Território Indígenas, e no Mato Grosso na Terra Indígena Marãiwatsédé do povo Xavante.  

     

    “São situações que o Estado não pode tolerar. Estamos falando, presidente, de indígenas sendo caçados em seus próprios espaços. A Comissão poderia fazer diligências, ir ver de perto. Nossos relatórios, baseados em idas a campo, apontam que até os povos isolados estão sendo atacados, conforme vestígios. Esses povos necessitam da ajuda desta Comissão”, pediu o secretário-executivo do Cimi.

     

    A Comissão de Direitos Humanos dará destaque para os três pontos levantados e reuniões de trabalho serão agendadas. “Não podemos deixar nada disso cair no esquecimento”, encerrou o senador Paulo Paim.

     

      

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  • 09/11/2011

    MPF vai recorrer ao Supremo pelo direito dos índios serem consultados em Belo Monte

    Julgamento terminou hoje com voto de desempate da desembargadora Maria do Carmo Cardoso, que negou o direito dos indígenas à Consulta Prévia

     

    O Ministério Público Federal vai recorrer ao Supremo Tribunal Federal pelo direito dos povos indígenas de serem consultados em empreendimentos que afetem diretamente sua sobrevivência, como é o caso da usina de Belo Monte, autorizada pelo Congresso Nacional sem ouvir os índios. Em julgamento hoje no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília, a desembargadora Maria do Carmo Cardoso desempatou a questão a favor do governo: “pouco importa se a consulta é feita antes ou após a autorização”, disse.

     

    A desembargadora foi a última de três juízes a se manifestarem sobre o processo que defende consulta prévia para aprovação de Belo Monte, iniciado em 2006 pelo MPF no Pará. Em seu voto, afirmou que as consultas são um “privilégio” dos povos indígenas, porque em outras obras do mesmo tipo as comunidades afetadas “não seriam ouvidas”. A interpretação de Cardoso tomou 15 minutos da sessão de hoje (09/11) da 5ª Turma do TRF1 e acompanha o voto do desembargador Fagundes de Deus, que também havia votado a favor do governo federal na sessão da semana passada.

     

    Ambos têm entendimento oposto ao da relatora Selene Almeida, que na primeira sessão do julgamento, ainda em outubro, num voto de mais de 2 horas, sustentou que a Constituição brasileira e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho prevêem como direito  fundamental dos povos indígenas as consultas prévias, livres e informadas em projetos e obras que lhes afetem diretamente.

     

    “Apenas quando a consulta prévia concede as comunidades interessadas a real oportunidade de manifestar sua vontade e influir na tomada de decisão, é válida. O diálogo deve servir para que as populações tradicionais participem das decisões que de fato tenham a ver com o seu desenvolvimento”, disse Selene Almeida.

     

    “Sugerir que a consulta pode ser feita após a autorização é tão desrespeitoso que chega a ser absurdo. Temos convicção de que esse não é o sentido do artigo 231 e da Convenção 169. A consulta não tem nada de privilégio, é uma questão de sobrevivência dos povos indígenas assegurada pela Constituição Federal, da qual não pode se afastar o Judiciário”, diz o procurador-chefe do MPF no Pará, Ubiratan Cazetta.

     

    “Nos causou surpresa porque o resultado desse julgamento é contrário ao que o próprio TRF1 tinha decidido, no mesmo processo (em exame liminar) no ano de 2006. Agora só resta o Supremo Tribunal Federal para nos dizer se a Constituição é válida ou não no Brasil”, acrescentou o procurador da República Felício Pontes Jr, um dos autores da ação que pedia a observância do direito de consulta.

     

    Todos os estudos sobre Belo Monte, inclusive os oficiais, apontam para a mesma conclusão: haverá mudança drástica na cadeia alimentar e econômica das populações indígenas afetadas pela usina. A mudança de vida vai ser provocada por vários fatores, como aumento da pressão fundiária e desmatamento no entorno, meios de navegação e recursos hídricos comprometidos ou suprimidos, atividades econômicas – pesca, caça e coleta afetadas, estímulo à migração indígena (da terra indígena para núcleos urbanos), aumento da vulnerabilidade da organização social, aumento das doenças infectocontagiosas e zoonoses.

     

    Depois que o acórdão for publicado pelo TRF1, o MPF tem 15 dias para recorrer ao Supremo por meio de um Recurso Extraordinário. O processo tramita no TRF1 com o número 2006.39.00.000711-8

     

    Ministério Público Federal no Pará

    Assessoria de Comunicação

    Fones: (91) 3299 0148 / 3299 0177

    E mail: [email protected]

    Site: www.prpa.mpf.gov.br

    Twitter: http://twitter.com/MPF_PA

     

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  • 09/11/2011

    MPF quer celeridade na revisão dos limites da terra dos índios Myky

    O desmatamento que vem acontecendo gradativamente na região tem ocasionado diminuição da caça, assoreamento de córregos e rios, destruição das nascentes

     

    O Ministério Público Federal requisitou informações da Funai sobre o procedimento de revisão dos limites da terra indígena Menkü, em Mato Grosso, iniciado há quatro anos e que ainda não foi concluído.

     

    O pleito de rever os limites da  terra indígena é antigo e leva em consideração uma área onde existem espécies de taquara, tucum, castanha e jenipapo que não se encontram presentes na área atualmente demarcada, e possuem importância singular no modo de viver dos Myky.

     

    O estudo do território para a redefinição dos limites da terra indígena foi iniciado em 2007 com a constituição de um Grupo de Trabalho da Funai. Enquanto não se define esta demarcação, áreas importantes para a cultura e para a vida dos Myky estão sendo degradadas. No documento entregue pelos indígenas ao Ministério Público Federal, constam informações sobre a retirada indiscriminada de madeira dentro da área reivindicada, com a aprovação de planos de manejo florestal pela Sema, bem como a exploração agrícola de soja e eucalipto, afetando o ecossistemas vitais para os costumes, crenças e tradições do povo Myky.

     

    No final de outubro a procuradora da República Marcia Brandão Zollinger, juntamente com a perita em antropologia do MPF, Jacira Bulhões, esteve na aldeia por dois dias e reuniu-se com a lideranças indígenas para tratar do assunto. Às representantes do MPF, os índigenas falaram da importância da taquara como matéria-prima imprescindível para o desenvolvimento dos rituais da comunidade como, por exemplo, seu uso como instrumento de corte do umbigo dos recém nascidos, além do uso na confecção de cocar, narigueira masculina, hastes de flecha, instrumentos de sopro usados em rituais, dentre outros.

     

    Outra preocupação dos indígenas é com o desmatamento que vem acontecendo gradativamente na região e o avanço da área de lavoura e pasto. Segundo a procuradora, além da degradação das espécies nativas de uso e coleta do povo Myky, também foi relatado com preocupação o desmatamento da área pleiteada em decorrência da incidência de Planos de Manejo Florestais Sustentáveis aprovados pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema). O desmatamento tem ocasionado diminuição da caça, assoreamento de córregos e rios, destruição das nascentes.

     

    Prazo – O pedido de informações enviado pelo MPF à Funai estabeleceu o prazo de 10 dias úteis para a resposta.

     

    Assessoria de Comunicação

    Procuradoria da República em Mato Grosso

    Contato com a imprensa: Lenita Violato Ferri e Marymila Mendes

    Tel: (65) 3612-5083

    [email protected]

     

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  • 09/11/2011

    Perversidade e Autoritarismo: Governo Dilma edita portarias de restrição e desconstrução de direitos territoriais indígenas e quilombolas

    O presente manifesto foi lançado nesta manhã, durante audiência pública ocorrida na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal. Ainda está aberto à inclusão de organizações.


     

    Perversidade e Autoritarismo: Governo Dilma edita portarias de restrição e desconstrução de direitos territoriais indígenas e quilombolas

     

    Nós, organizações indígenas e indigenistas abaixo listadas, vimos a público manifestar nossa perplexidade e indignação diante das medidas administrativas e políticas do governo da presidente Dilma Rousseff relativas aos povos indígenas, aos quilombolas e ao meio ambiente. Tais medidas restringem o alcance dos direitos constitucionais dos povos indígenas e das comunidades quilombolas; impõem limites à participação destas nas discussões, debates e decisões a serem tomadas sobre os programas e empreendimentos econômicos que afetam direta ou indiretamente suas comunidades, terras, culturas, história e as suas perspectivas de futuro; bem como, asseguram celeridade e lucratividade exorbitantes aos empreendimentos das grandes corporações econômicas, especialmente as empreiteiras.

     

    Nesta perspectiva, o governo editou, no dia 28 de outubro de 2011, a Portaria Interministerial de número 419, assinada pelos ministros da Justiça, Meio Ambiente, Saúde e Cultura. A portaria visa regulamentar, de acordo com os interesses do governo, a atuação da Fundação Nacional do Índio (Funai), da Fundação Cultural Palmares (FCP), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e do Ministério da Saúde quanto à elaboração de pareceres em processos de licenciamento ambiental de competência federal, a cargo do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

     

    A Portaria 419/2011 foi criada, portanto, para facilitar a outorga (concessão) das licenças ambientais aos grandes projetos econômicos, especialmente de hidroelétricas, mineração, portos, hidrovias, rodovias e de expansão da agricultura, dos monocultivos e da pecuária na Amazônia e no Centro-Oeste do país.

     

    Em diversas ocasiões, representantes do governo externaram publicamente contrariedade com a legislação ambiental vigente, alegando que ela dificulta a implementação de certos projetos e que paralisa os empreendimentos econômicos. No entender de quem governa o país, o respeito aos prazos estipulados pela legislação para a realização de estudos e análises dos EIA-Rima, bem como os procedimentos previstos para resguardar direitos de comunidades e povos indígenas e quilombolas torna demasiado lenta a concessão das anuências ou licenças que permitam a implementação dos projetos econômicos.

     

    As recentes medidas anunciadas transformam a Funai, o Ibama e a FCP em meros “carimbadores” de atividades e projetos exploratórios. Apesar de apresentar um vasto conteúdo (32 páginas), acerca de princípios ambientais e preservacionistas, em sua essência a Portaria 419/2011 pretende limitar os prazos para a manifestação dos órgãos responsáveis pelos estudos, análises, avaliação e posicionamento quanto à viabilidade ou não dos empreendimentos que afetam os povos indígenas, os quilombolas e as áreas de preservação ambiental.

     

    No Capítulo II, Art. 5º da Portaria 419/2011, por exemplo, se estabelece que a participação dos órgãos e entidades envolvidos no licenciamento ambiental para a definição do conteúdo do TR (Termo de Referência), seguirá as seguintes normas: “I – O Ibama encaminhará, em até 10 (dez) dias consecutivos, a partir do requerimento de licenciamento ambiental, a solicitação de manifestação dos órgãos e entidades envolvidos, disponibilizando a Ficha de Caracterização Ambiental em seu sítio eletrônico oficial; II – Os órgãos e entidades envolvidos deverão manifestar-se ao Ibama no prazo de 15 (quinze) dias consecutivos, contados do recebimento da solicitação de manifestação”.

     

    Nos parágrafos 1º e 2º deste artigo estabelece que: Em casos excepcionais, a pedido do órgão ou entidade envolvida, de forma devidamente justificada, o Ibama poderá prorrogar em até 10 (dez) dias o prazo para a entrega da manifestação; expirado o prazo estabelecido neste artigo, o Termo de Referência será considerado consolidado, dando-se prosseguimento ao procedimento de licenciamento ambiental.

     

    Já o Art. 6º (incisos I, II, III, IV e V) deste mesmo Capítulo evidencia o que o governo espera da Funai, do Ibama e da FCP: “Os órgãos e entidades envolvidos no licenciamento ambiental deverão apresentar ao Ibama manifestação conclusiva sobre o Estudo Ambiental exigido para o licenciamento, nos prazos de até 90 (noventa) dias no caso de EIA/Rima e de até 30 (trinta dias) nos demais casos, a contar da data do recebimento da solicitação, considerando:  I – Fundação Nacional do Índio – Funai – Avaliação dos impactos provocados pela atividade ou empreendimento em terras indígenas, bem como apreciação da adequação das propostas de medidas de controle e de mitigação decorrentes desses impactos. II – Fundação Cultural Palmares – Avaliação dos impactos provocados pela atividade ou empreendimento em terra quilombola, bem como apreciação da adequação das propostas de medidas de controle e de mitigação decorrentes desses impactos. III – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN – Avaliação acerca da existência de bens acautelados identificados na área de influência direta da atividade ou empreendimento, bem como apreciação da adequação das propostas apresentadas para o resgate. IV – Ministério da Saúde – Avaliação e recomendação acerca dos impactos sobre os fatores de risco para a ocorrência de casos de malária, no caso de atividade ou empreendimento localizado em áreas endêmicas de malária”.

     

    No parágrafo 3º deste artigo, o governo abre uma possibilidade de ampliação do prazo por mais 15 dias para que os órgãos ou entidades entreguem sua manifestação ao Ibama: “Em casos excepcionais, devidamente justificados, o órgão ou entidade envolvido poderá requerer a prorrogação do prazo em até 15(quinze) dias para a entrega da manifestação ao Ibama”. Já o parágrafo 4º é categórico ao afirmar que: “a ausência de manifestação dos órgãos e entidades envolvidos, no prazo estabelecido, não implicará prejuízo ao andamento do processo de licenciamento ambiental, nem para a expedição da respectiva licença”.

     

    Observa-se, assim, que o governo almeja ver autorizados “a toque de caixa”, de maneira imediata e sem estudos mais aprofundados todos os empreendimentos econômicos planejados. Como se pode concluir, a Portaria limita o tempo de intervenção dos órgãos e lhes obriga a avalizar qualquer atividade ou empreendimento num prazo de 90 dias. Caso não consigam apresentar um parecer no tempo estabelecido, o empreendimento terá continuidade.

     

    Além disso, o esclarecimento de dúvidas relativas aos impactos das atividades em terras indígenas e sobre o meio ambiente somente poderá ser solicitado uma única vez aos empreendedores. Textualmente, o § 6º do Artigo supracitado, determina que os órgãos e entidades envolvidos poderão exigir uma única vez, mediante decisão motivada, esclarecimentos, detalhamento ou complementação de informações, com base no termo de referência específico, a serem entregues pelo empreendedor no prazo de até 60 (sessenta) dias no caso de EIA/Rima e 20 (vinte) dias nos demais casos.

     

    E, na mesma direção, o § 7º engessa os pareceres dos órgãos competentes, impondo que os eventuais óbices sejam apontados a fim de que medidas possam ser adotadas para a sua superação, mas nunca a paralisação definitiva da obra ou empreendimento, como se verifica no texto a seguir: A manifestação dos órgãos e entidades envolvidos deverá ser conclusiva, apontando a existência de eventuais óbices ao prosseguimento do processo de licenciamento e indicando as medidas ou condicionantes consideradas necessárias para superá-los.

     

    Como se isso não fosse suficiente, no inciso 10, do art. 2º., é estabelecido que “para efeitos desta Portaria”, o governo considera terra indígena somente aquelas que tiveram seus limites estabelecidos por Portaria do Presidente da Funai. Ao fazer isso, a Portaria atenta contra o direito originário, violando o art. 231 da Constituição Brasileira, restringindo o conceito de terra indígena àquelas previamente identificadas pela Funai. Com isso, de uma canetada, são ignoradas pelo menos 346 Terras Indígenas que são reivindicadas pelos povos indígenas, mas que ainda não tiveram iniciados, por parte do Estado brasileiro, os procedimentos administrativos necessários para o seu reconhecimento. A Portaria significa, então, na prática, uma prévia autorização para que essas terras sejam invadidas por qualquer tipo de empreendimento, mesmo nos casos em que sobre elas vivam populações indígenas.

     

    O Ministério Público Federal certamente fará uma análise jurídica da Portaria 419/2011 e não se omitirá em acionar o Poder Judiciário pedindo a sua imediata revogação, uma vez que os exíguos prazos estabelecidos para a realização dos estudos e elaboração dos pareceres acerca dos empreendimentos tornam humana e tecnicamente impossível opinar sobre os impactos que barragens, rodovias e/ou qualquer outra grande obra trarão para as populações e ao meio ambiente.

     

    Somando-se a estas medidas, no dia 31 de outubro de 2011, o ministro da Justiça editou a Portaria nº. 2.498/2011 estabelecendo que a Funai convoque os entes federados (nos quais se localizem as terras indígenas ainda não demarcadas) a indicar técnicos para acompanhar os procedimentos demarcatórios.

     

    Esta é outra determinação do Poder Executivo que fundamentalmente pretende frear as demarcações de terras em curso e as demandas por áreas que os povos indígenas exigem do Governo Federal. Ao avalizar que outros entes não legalmente constituídos para o trabalho de identificação e delimitação de terras participem dos procedimentos, o governo estabelece ingerências políticas e administrativas que servem para retardar ainda mais ou inviabilizar as demarcações.

     

    Além disso, ao possibilitar a participação de estados e municípios em um procedimento de competência exclusiva da União, destinado a resguardar um direito originário dos povos indígenas (e, portanto, anterior à constituição do Estado nacional), o governo estabelece um perigoso precedente: o da negociação de interesses sobre terras que, desde um princípio constitucional, não são negociáveis mesmo que se situem nos limites de um município e de um estado específico.

     

    É importante ressaltar também que no dia 25 de outubro último, o Senado Federal aprovou o PLC 01/2010, que regulamenta o Art. 23, incisos VI e VII, da Constituição Federal, no qual se estabelece a competência comum dos entes federativos na proteção do meio ambiente. O projeto deixa dúvidas acerca de quem deverá agir quando os empreendimentos causarem impactos às terras indígenas, e a proposta aprovada dá a entender que ficará a cargo de estados ou municípios a incumbência dessa fiscalização. Isso poderá acarretar sérios problemas nas regiões onde as autoridades estaduais e/ou municipais têm algum tipo de prevenção ou são contrárias aos direitos e interesses das comunidades indígenas ou quilombolas.

     

    Ao mesmo tempo, são graves as denúncias de que representantes da própria Funai têm pressionado membros de Grupos de Trabalho a modificar Relatórios Circunstanciados de Identificação e Delimitação de Terras Indígenas no sentido de reduzir as áreas delimitadas como tradicionais de povos indígenas e vêm atuando para tentar convencer lideranças indígenas a aceitar essa redução, condicionando a publicação dos referidos relatórios à redução da área de acordo com a proposta feita pelos membros da Funai. Além disso, há situações, inclusive, em que o órgão indigenista tem defendido, em público e até mesmo em juízo, que uma determinada área reivindicada por povo indígena não seria tradicional, não reconhecendo pareceres antropológicos que afirmam o contrário e se negando a constituir Grupo de Trabalho nos termos do que estabelece o Decreto 1775/96, único instrumento legal vigente com legitimidade para afirmar se uma terra é ou não tradicional indígena. Com isso estamos diante de mais uma grande manobra revoltante, antidemocrática, autoritária e tutelar que atenta contra o Estado de Direito uma vez que o reconhecimento do direito dos povos indígenas sobre suas terras tradicionais passa a depender do que pensa, defende e decide politicamente esse ou aquele dirigente do órgão indigenista.

     

    Não podemos deixar de mencionar o fato de que o Governo Federal, apesar de todas as denúncias feitas nestes últimos anos, tem feito “vista grossa” à invasão e devastação protagonizada por garimpeiros, madeireiros e latifundiários. Essa situação se repete em várias terras indígenas, especialmente na região norte, e coloca em risco a sobrevivência de muitos povos, especialmente aqueles que vivem em situação de isolamento, a exemplo do caso dos Awá Guajá, no estado do Maranhão, que estão sendo literalmente caçados no interior das terras indígenas Araribóia e Carú.

     

    Entendemos que esse conjunto de decisões desencadeadas em âmbito federal não ocorre ao acaso. Está perfeitamente conectada aos interesses das grandes corporações econômicas e aos políticos que estão visceralmente ligados entre si e com o próprio Governo Federal.

     

    O Estado brasileiro já vinha atuando como financiador dos grandes empreendimentos, com vultosos recursos financeiros subsidiados e com a concessão de estratos do patrimônio territorial, ambiental, hídrico e mineral. Com as recentes medidas, a presidente da República afrouxa a legislação de proteção ao meio ambiente, aos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Assim, ela vem desempenhando, com sucesso, a função de gerente de negócios, beneficiando especuladores e predadores dos bens e riquezas públicas de nosso país.

     

    Tudo isso explica o fato da presidente Dilma ter se recusado veementemente a estabelecer diálogo com o movimento indígena brasileiro. Reiterados pedidos de audiência foram protocolados desde o início de seu governo, mas todos foram negados. Até mesmo a Comissão Nacional de Política Indigenista, única instância governamental onde os povos indígenas podem se manifestar sobre os rumos da política indigenista, encontra-se com as atividades paralisadas desde junho deste ano, porque a presidente se recusa a participar de uma reunião com os indígenas.

     

    Por fim, exigimos do Governo Federal a manutenção dos acordos firmados no que se refere ao apoio à tramitação do Projeto de Lei que trata de um novo Estatuto dos Povos Indígenas e do Projeto de Lei do Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI), bem como a não aprovação do PL 1610/96 sobre mineração em terras indígenas, por entender que este tema já está incorporado ao Estatuto. Exigimos ainda a imediata revogação das medidas recentes e a retomada dos procedimentos demarcatórios, tanto das terras reivindicadas pelos povos indígenas, quanto pelos quilombolas. Que a defesa dos direitos humanos, da justiça social e ambiental, apregoada pela própria presidente Dilma, se tornem realidade, em favor dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, e não apenas discurso para melhorar a imagem do Brasil junto à opinião pública nacional e internacional.

     

    Brasília, DF, 09 de novembro de 2011.

     

    Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme)

    Articulação dos Povos Indígenas do Pantanal (ArpinPan)

    Articulação dos Povos Indígenas do Sudeste (ArpinSudeste)

    Articulação dos Povos Indígenas do Sul (ArpinSul)

    Articulação dos Povos Indígenas no Brasil (APIB)

    Associação das Mulheres Indígena em Movimento – AMIM

    Associação do Povo Indígena Aikewara da Aldeia Itahy – Hemusso`ogn

    Associação do Povo Indígena Atikum da Aldeia Ororubá

    Associação do Povo Indígena Krahô-Kanela – APINKK

    Associação do Povo Myky – Waypjatápa Manãnukje´y

    Associação dos Índios Tupinambá da Serra do Padeiro – AITSP

    Associação dos Marubo da Comunidade São Sebastião – AMAS

    Associação dos Povos Indígenas do Tumucumaque – APITU

    Associação dos Povos Indígenas Tiriyós, Kaxuyana e Txikuyana – APITIKATXI

    Associação dos Povos Indígenas Waiana e Apalia – APIWA

    Associação dos Povos Indígenas Waijãpi do Triângulo do Amapará – APIWATA.

    Associação Grupo de Trabalho Tupari – AGRUPA

    Associação Indígena do Povo Aikewara da Aldeia Sororó

    Associação Indígena do Povo Amanayé do Sarawa

    Associação Indígena do Povo Asurini do Trocará

    Associação Indígena do Povo Palikur – AIPA

    Associação Indígena Jaepya Arãdu Kariwassu Guarany – Nova Jacundá – Pará

    Associação Indígena Karipuna – AIKA

    Associação Indígena Tapuio do Carretão – AITCA

    Associação Indígena Te Mempapytarkate Akrãtikatêjê da Montanha

    Associação Indígena Tembé de Santa Maria do Pará – AITESAMPA

    Associação Iny Mahadu – Povo Karajá

    Associação União das Aldeias Apinajé – PEMPXÃ

    Associação Waijãpi Terra, Ambiente e Cultura – AWATAC

    Aty Guassu – Mato Grosso do Sul

    Comissão de Professores Indígenas de Pernambuco – COPIPE

    Comissão Guarani Nhemongueta

    Comunidade Guajajara da Aldeia Guajanaíra – Itupiranga – Pará

    Conselho das Aldeias Wajãpi – APINA

    Conselho de Articulação do Povo Guarani do Rio Grande do Sul – CAPG

    Conselho de Articulação Indígena Kaingang – CAIK

    Conselho de Lideranças e Instituições Pataxó de Coroa Vermelha – CONLIN

    Conselho de Lideranças Indígenas do Oeste de Santa Catarina

    Conselho dos Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque – CCPIO

    Conselho Indígena de Roraima – CIR

    Conselho Indígena Mura – CIM

    Conselho Indigenista Missionário – Cimi

    Coordenação das Associações Indígenas Baniwa e Curipaco – CABC

    Coordenação das Associações Indígenas do Baixo Rio Negro – CAIBRN

    Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão – COAPIMA

    Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB)

    Coordenação das Organizações Indígenas do Alto Rio Negro e Rio Xié – CAIARNX

    Coordenação das Organizações Indígenas do Distrito do Iauarete – COIDI

    Coordenação das Organizações Indígenas rio Tiquié, Uaupés e Afluentes – COITUA

    Estudantes Indígenas do Curso Técnico em Agroecologia dos Povos Indígenas da região Sudeste Paraense – Campus Rural de Marabá;

    Federação as Organizações Indígenas do Rio Negro – FOIRN

    Federação das organizações e comunidades Indígenas do Rio Purus – FORCIMP

    Federação Indígena das  Nações Pataxó e Tupinambá do Extremo Sul da Bahia – FINPAT

    Grupo de Apoio aos Povos Indígenas – GAPIN

    Instituto Indígena Maiwu de Estudos e Pesquisas de Mato Grosso – MAIWU

    Instituto Raoni

    Instituto Teribre – Povo Karajá

    Organização da aldeia Paygap Povo Arara – KAROPAYGAP

    Organização das Mulheres Indígenas de Rondônia, Amazônas e Mato Grosso – OMIRAM

    Organização das Mulheres Indígenas do Médio Purus – AMIMP

    Organização dos Povos Indígenas Apurinã e Jamamadi de Paiuni – OPIAJ

    Organização dos Povos Indígenas Casupá e Salamãi – OPICS

    Organização dos Povos Indígenas de Guajará Mirim – Organização Oro Wari

    Organização dos Professores Indígenas de Mato Grosso – OPRIMT

    Organização Indígena da Aldeia Kumarumã – OINAK

    Organização Pandereéhj – Entidade que representa os povos indígenas da terra Indígena Igarapé Lourdes e Terra Indígena Rio Branco

    União das Organizações Indígenas do Vale do Javari – UNIVAJA

     

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