• 23/02/2012

    Informe n° 1003: Jagunços bloqueiam estrada e liderança Pataxó Hã-Hã-Hãe morre sem assistência médica

    Renato Santana

    de Rio Branco (AC)

     

    Morreu na manhã desta quinta-feira (23) a liderança Pataxó Hã-Hã-Hãe José Muniz de Andrade, 40. O indígena estava em área recentemente retomada na região das Alegrias, município de Itajú do Colônia, quando começou a sentir dores no peito e estômago. Um carro foi enviado para prestar socorro, mas impedido de acessar a retomada para prestar socorro a José Muniz.

     

    Representantes da Fundação Nacional do Índio (Funai) e Polícia Federal (PF) se dirigiram ao local para encaminhar o corpo ao Instituto Médico Legal (IML) de Itabuna (BA). Quando chegaram à estrada de acesso ao local da retomada foram surpreendidos por jagunços armados, além de paus e pedras impedindo a passagem dos veículos.

     

    "Tudo indica que tenha sido enfarte a causa da morte. No entanto, está claro que os jagunços impediram a passagem para o atendimento médico", declara o chefe da Coordenação Técnica da Funai local, com sede no município de Pau Brasil, Wilson Jesus. O servidor da Funai ressalta que a tensão está concentrada na região das Alegrias.

     

    A morte causou revolta na comunidade e deixou ainda mais tensa a conturbada relação entre jagunços – contratados para expulsar os indígenas das terras retomadas – e os Pataxó Hã-Hã-Hãe. A PF requisitou reforços e espera autorização do Ministério da Justiça para permanecer nas áreas de conflitos de forma permanente.

     

    "Os fazendeiros são organizados em toda a região e sempre atacam os indígenas quando ocorrem as retomadas de terras de ocupação tradicional, mas os Pataxó Hã-Hã-Hãe resistem", explica o servidor da Funai.

     

    Mais três retomadas

     

    Nesta quinta-feira mais três áreas de ocupação tradicional foram retomadas e totalizam 48 desde o dia 1° de janeiro deste ano, quando os Pataxó Hã-Hã-Hãe iniciaram uma série de retomadas de terras que aguardam decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) há 30 anos. A Ação Cível Originária (ACO) 312 pede que os títulos das propriedades rurais sejam considerados nulos.

     

    Em 2008, Eros Grau, relator do processo, recebeu os indígenas e seu voto foi pela nulidade dos títulos. Hoje está aposentado do STF, mas tanto o voto como a relatoria não perdem a validade. Segue na votação, conforme a pauta, a ministra Carmem Lúcia. Em setembro de 2011, a votação foi adiada por duas vezes.

     

    Conforme relatou o ex-ministro, a perícia antropológica demonstrou a existência permanente de índios na região desde 1651, "o que atesta a identidade do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, bem como a ligação de seus integrantes à terra, que lhes foi usurpada", de acordo com o texto.

     

    O relatório de Eros Grau salienta ainda que o argumento de que não é necessária a prova de que as terras foram de fato transferidas pelo Estado da Bahia à União ou aos índios, "ao fundamento de que disputa por terra indígena entre quem quer que seja e índios consubstancia, no Brasil, algo juridicamente impossível". Considera, assim, que títulos oriundos de aquisição a non domino (aquilo que não é proveniente do dono) são nulos.

     

    Nenhum fazendeiro mais

     

    As três retomadas desta quinta ocorreram na região de Mundo Novo, dentro do município de Pau Brasil. As demais se estendem aos municípios de Itajú do Colônia e região de Jacareci, município de Camacã. Todos os latifundiários foram retirados das terras e mais nenhum permanece nas terras tradicionalmente comprovadas como indígenas, conforme informações da Funai, exceto na área do rio Pardo.

     

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  • 23/02/2012

    CNBB convoca população a refletir sobre a realidade da saúde pública no Brasil

    A partir desta quarta-feira, 22, as mais de dez mil paróquias do Brasil começam a refletir sobre a realidade da saúde no Brasil por meio da Campanha da Fraternidade (CF), cujo tema é “Fraternidade e Saúde Pública” e o lema “Que a saúde se difunda sobre a terra. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) fez a abertura oficial da Campanha, em sua sede, em Brasília, com a presença do ministro da saúde, Alexandre Padilha, convocando toda a sociedade brasileira a debater o tema.

     

    O Texto-Base da CF, principal documento da Campanha, faz uma leitura do “panorama atual da saúde no Brasil” (parágrafos 54 a 64) e aponta a transição demográfica, epidemiológica, tecnológica e nutricional como fatores que interferem na realidade da saúde no país.

     

    O texto aponta, ainda, as grandes preocupações da Igreja com relação à saúde pública (parágrafos 65 a 98), trazendo estatísticas sobre doenças não transmissíveis (doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes câncer, problemas renais), transmissíveis (AIDS, tuberculose, hanseníase, malária, dengue, doença de Chagas), fatores de risco modificáveis (tabagismo, sedentarismo, obesidade), dependência química (cocaína, crack, oxi, álcool), causas externas (homicídios, morte no trânsito), saúde bucal, saúde indígena.

     

    Com dados do Ministério da Saúde, o Texto-Base lembra que as doenças não transmissíveis foram responsáveis, em 2007, por 67,3% de óbitos no Brasil e representaram cerca de 75% de gastos com a saúde.

     

    A Campanha chama atenção também para o financiamento da saúde pública classificado como “problemático” e “insuficiente”. O texto critica tanto a disputa por recursos que o Sistema Único de Saúde (SUS) precisa fazer com “outros ramos da seguridade social” como Assistência Social e Previdência Social quanto a não aplicação de verbas na saúde pelos governantes. “É preocupante o não cumprimento sistemático, por muitos governantes, do mínimo de investimento em saúde pública”, ressalta o texto.

     

    A CF compara os gastos da saúde no Brasil com alguns países em que 70% dos gastos com saúde são cobertos pelo governo e 30% pelas famílias. Já no Brasil, em 2009, o governo foi o responsável por 47% (R$ 127 bi) dos recursos aplicados na saúde, enquanto as famílias gastaram 53% (R$ 143 bi).

     

    O Texto-Base reconhece os avanços do SUS, mas não deixa de indicar seus limites. “Melhorar o atendimento no sistema público de saúde brasileiro e diminuir as reclamações em relação ao desrespeito e à dignidade humana, frente à vulnerabilidade do sofrimento e da doença é um grande desafio a ser enfrentado pelas autoridades sanitárias brasileiras”, diz o texto em seu parágrafo 139. Além disso, é enumerada uma série de outros desafios a serem enfrentados pelo SUS em relação ao acesso, gestão, financiamento e fatores externos.

     

    Outra preocupação da CNBB é com a humanização do atendimento no sistema público de saúde. “O incremento tecnológico não deve substituir a relação humana nem desumanizar o atendimento à saúde”, adverte. “É o momento de um basta à atuação de profissionais ‘mecânicos e insensíveis’. Há clamor, especialmente dos mais pobres, por profissionais ‘mais humanos e sensíveis’. O ser humano é muito mais que materialidade biológica”, sublinha o parágrafo 144 do Texto-Base.

     

    A CNBB não deixa de mencionar também as ações que a própria Igreja tem feito na área da saúde (parágrafos 26 a 53). Recorda, por exemplo, o trabalho da Pastoral da Criança no combate à redução da mortalidade infantil e da Pastoral da Saúde, que tem atuado em parceria com o Ministério da Saúde no diagnóstico precoce do HIV e da Sífilis.

     

    A última parte do texto da Campanha, após passar por uma análise bíblico-teológica do tema, se dedica a indicar ações concretas a serem assumidas pela sociedade e pelas comunidades (parágrafos 229 a 261). Uma das ações propostas é a participação da sociedade no controle das políticas públicas para a saúde. “É necessário fortalecer canais de participação efetiva da sociedade e de suas entidades representativas na formulação, implantação e controle das políticas públicas de saúde”, diz o texto da CF.

     

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  • 17/02/2012

    MPF/AC entra na Justiça para garantir atendimento de saúde aos povos indígenas

    Situação dos índios acrianos é de vulnerabilidade frente a doenças e outros agravos

     

    O Ministério Público Federal no Acre (MPF/AC) entrou na Justiça Federal com ação contra a União para garantir a efetivação de uma política de saúde indígena que preveja atendimento nas aldeias, com contratação de profissionais de saúde, obras de saneamento e construção de postos de saúde além de aquisição de produtos alimentícios e de higiene pessoal que possam garantir a integralidade do atendimento dispensado aos quase 16 mil indígenas do Acre.

     

    O procurador da República Anselmo Henrique Cordeiro Lopes, autor da ação civil pública, ressalta que historicamente os índios passaram de donos do território à situação de marginalizados, sofrendo preconceito e sendo ignorados em razão de sua pouca força política, já que hoje representam menos de 2% da população acriana. Tal situação coloca os índios, ainda, em situação mais vulnerável frente a agravos de saúde quando comparados com o restante da população.

     

    A situação de descaso e abandono a que os índios são submetidos é exemplificada na ação com a alta incidência de Hepatites do tipo “B” nas aldeias. Uma doença que tem prevenção por meio de vacina, mas que até hoje não foi alvo de uma campanha de vacinação que garantisse a imunização da totalidade dessas pessoas que residem em áreas de difícil saída e em sua grande maioria não tem como se locomover às cidades nas campanhas regulares de imunização. Recentemente, inclusive, cerca de 15 crianças indígenas morreram em aldeias no interior do Acre vitimadas por doença até agora desconhecida.

     

    Diante de todos os fatos colhidos em inquéritos civis públicos, o MPF pediu à Justiça que determine a organização dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas conforme sua previsão original, com a contratação, no prazo de até  um ano, de profissionais de saúde com salário compatível com os dos outros profissionais de saúde do Governo Federal

     

    Além disso, também foi pedido que seja determinada a construção, no prazo de 12 meses ou outro fixado pela Justiça, de postos de saúde em todas as aldeias definidas nos Planos Distritais de Saúde. Também deverão ser executadas obras de saneamento básico, até o ano de 2014, bem como serem adquiridos alimentos e medicamentos de acordo com as indicações nos Planos Distritais, incluindo nessas aquisições kits de higiene pessoal a serem distribuídos mês a mês.

     

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  • 17/02/2012

    O Estado no banco dos réus: Tribunal Popular da Terra em MS será realizada em Campo Grande

    Entidades, organizações sociais e populares e de direitos humanos, realizarão o Tribunal Popular da Terra em Mato Grosso do Sul, os dias 30 e 31 de março e 1º de abril de 2012, na Universidade Federal (UFMS) de Campo Grande.

     

    Segundo os organizadores da atividade haverá uma programação que vai conjugar mística, música, teatro, filmes, com os momentos próprios da simbolização de um julgamento, que terá denúncias, depoimentos, acusações e defesas. Tudo no marco de uma ambientação que vai ir alem da simulação de um processo judicial, sendo que terá, ao mesmo tempo, um conteúdo político e cultural.

     

    O Tribunal Popular “é um julgamento simbólico que visa inverter radicalmente a lógica unilateral das arbitrariedades jurídicas do Estado Brasileiro e julgar alguns crimes institucionais emblemáticos que acontecem contras as populações mais vulneráveis do Brasil”.

     

    Nesses dias serão recolhidas denúncias de violações de direitos humanos que aconteceram e afetam aos povos indígenas, comunidades quilombolas, e populações camponesas que lutam pela terra e pela permanência na terra. Com o eixo “povos da terra-estrutura fundiária” o Tribunal vai colocar no banco dos réus o Estado Brasileiro, o latifúndio e o agronegócio.

     

    Igualmente se colocará a responsabilidade do Estado de Mato Grosso do Sul perante a violência existente contra os povos indígenas. Isto porque foi evidenciado, segundo os organizadores, que “o estado sul-mato-grossense age contra os indígenas como no caso da demarcação de terra, ao se colocar contra esse processo; ao não combater a violência contra os indígenas; e evidenciada também no sentimento de desconfiança e insegurança que os povos indígenas têm demonstrado perante o Estado local, nos momentos em que esses povos partem para a reivindicação de seus territórios tradicionais”.

     

    A atividade resgata um antecedente importante já acontecido no estado em 25 de julho de 1987; à realização do Tribunal da Terra em MS. Naquela data o Tribunal “trouxe a público os processos de violência contra homens, mulheres e crianças envolvidas nas lutas pela reforma agrária e a demarcação de terras indígenas”.  Vinte e cinco anos depois a situação continua “tragicamente atual”, segundo a Comissão Pró Tribunal Popular da Terra em MS. Novos Tribunais foram construídos no Brasil a partir de maio de 2008, quando grupos de trabalho foram organizados em São Paulo, Rio de Janeiro e na Bahia. Eles surgem na ideia de dar um caráter nacional ao evento e mostrar que “as violações praticadas por agentes do Estado de norte a sul do país ao longo da história do Brasil não são meras falhas do sistema, mas expressam uma concepção de Estado”.

     

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  • 17/02/2012

    “Atender a demanda indígena é contrariar a política federal de incentivo ao agronegócio”. Entrevista especial com Eduardo Carlini ao IHU

    “A morte de caciques e professores, lideranças Guarani-kaiowá, são a máxima expressão dos conflitos fundiários que envolvem a permanente luta por território e por sobrevivência dos indígenas e a ascensão dos latifúndios do agronegócio”, afirma o geógrafo

     

    Confira a entrevista.

     

    “A omissão do Estado em relação à questão agrária e indígena no Brasil é algo que reforça a violência no campo brasileiro enquanto um problema estrutural, ao mesmo tempo em que fortalece a elite agrária e provoca a morte dos povos indígenas”. A afirmação é de Eduardo Luiz Damiani Goyos Carlini, geógrafo, que fez parte da Expedição Marcos Veron, que visitou, até o último dia 25 de janeiro, diversas aldeias do estado de Mato Grosso do Sul para registrar a situação de vida dos Guarani-kaiowá e as ameaças de morte às suas lideranças. O objetivo é elaborar um material que possa compor a luta dos Guarani-kaiowá pela demarcação de seu território e pela cessação imediata da violência a que estão submetidos cotidianamente. Na entrevista que concedeu por e-mail para a IHU On-Line, ele dá detalhes da experiência e é enfático quando questionado sobre as ameaças de morte às lideranças indígenas: “Não são apenas ameaças, mas assassinatos praticados rotineiramente”. E continua: “a ação dos fazendeiros se configura por homicídios bem planejados. Não mandam matar qualquer membro da comunidade, mas sim lideranças – sejam eles caciques ou professores. Tiram de circulação aquelas pessoas escolhidas pela própria comunidade por terem a capacidade de repassar os ensinamentos para o coletivo e inevitavelmente fortalecer a organização do movimento indígena. A perda dessas referências para a comunidade traz, em si, o medo como parte do cotidiano. E essa é uma estratégia utilizada pelo agronegócio para o extermínio desses povos. A população vive em constante incerteza sobre seu próximo amanhecer”. Por fim, conclui Eduardo, “precisamos também destacar que não só os indígenas em todo o Brasil recebem ameaças de morte por parte da elite agrária, mas também os camponeses que lutam pelo direito legítimo de acesso à terra de trabalho nos mais diversos cantos deste país”.

     

    Carlini é membro da Associação dos Geógrafos Brasileiros – AGB-SP.

    Confira a entrevista.

     

    IHU On-Line – Como você avalia a Expedição Marcos Veron? Qual o saldo que fica?

     

    Eduardo Carlini – A Expedição Marcos Veron é resultado de um acúmulo de discussões feitas pelo Tribunal Popular (1)que, nos últimos anos, tem cumprido um papel importante, denunciando crimes cometidos pelo Estado brasileiro ou em sua atuação direta, ou por sua omissão frente as mais diversas questões sociais. É sob esse pano de fundo que a Expedição foi pensada: elaborar um material que possa compor a luta dos Guarani-kaiowá pela demarcação de seu território e pela cessação imediata da violência a que estão submetidos cotidianamente.

    O fato de este material ser resultado de uma experiência vivida por pessoas que atuam politicamente em diferentes áreas do conhecimento acrescenta, à denúncia, uma relevância democrática por estarmos buscando participação direta na transformação da sociedade na qual estamos inseridos. Sabemos que um dos mitos sobre o Estado democrático de direito é a ideia de que a democracia apenas se realiza nos momentos eleitorais, tornando difícil para parte dos brasileiros entenderem que seus cotidianos podem, e devem, ser obra, principalmente, deles mesmos.

    Hoje, três semanas após o período em que estivemos em campo, nos encontramos ainda no início de um longo trabalho. Coletamos muito material, entre depoimentos e informações das mais diversas que estão em formato de fotos, filmagens, gravações de áudio e anotações. Isso tudo está em processo de sistematização. Importante frisar que nosso trabalho não termina apenas na publicação do material, mas também, e principalmente, no fortalecimento do debate com a sociedade.

     

    IHU On-Line – O que caracteriza as ameaças de morte às lideranças Guarani-kaiowá? Elas partem de quem?

     

    Eduardo Carlini – Não são apenas ameaças, mas assassinatos praticados rotineiramente. A morte de caciques e professores, lideranças Guarani-kaiowá, documentadas inclusive nos trabalhos do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, são a máxima expressão dos conflitos fundiários que envolvem a permanente luta por território e por sobrevivência dos indígenas e a ascensão dos latifúndios do agronegócio.

    A ação dos fazendeiros se configura por homicídios bem planejados. Não mandam matar qualquer membro da comunidade, mas sim lideranças – sejam eles caciques ou professores. Tiram de circulação aquelas pessoas escolhidas pela própria comunidade por terem a capacidade de repassar os ensinamentos para o coletivo e inevitavelmente fortalecer a organização do movimento indígena. A perda dessas referências para a comunidade traz, em si, o medo como parte do cotidiano. E essa é uma estratégia utilizada pelo agronegócio para o extermínio desses povos. A população vive em constante incerteza sobre seu próximo amanhecer.

    Por fim, precisamos também destacar que não só os indígenas em todo o Brasil recebem ameaças de morte por parte da elite agrária, mas também os camponeses que lutam pelo direito legítimo de acesso à terra de trabalho nos mais diversos cantos deste país.

     

    IHU On-Line – Quais são os principais entraves jurídicos e políticos envolvendo os Guarani-kaiowá?

     

    Eduardo Carlini – Tomei a liberdade de convidar a advogada Irene Guimarães, que compõe a Expedição Marcos Veron, para me auxiliar nessa questão. De acordo com ela, a Constituição Federal de 1988 assegura aos indígenas de terem reconhecido o direito às terras originárias que tradicionalmente ocupam. Trata-se de um direito anterior e oponível a qualquer ocupação e reconhecimento, independentemente da época de concessão do título de propriedade. Assim, a demarcação não é um ato administrativo que constitui a terra indígena, mas é mero ato de reconhecimento, tendo natureza declaratória. E quando ocorre a demarcação paga-se apenas o valor das benfeitorias de boa-fé, porque o título de propriedade é considerado inexistente e nulo.

    Contudo, os interesses econômicos em torno da terra no Mato Grosso do Sul e a ausência de uma atuação do Estado na efetiva demarcação das terras indígenas (cujo prazo estipulado pela Constituição de 1988 era de cinco anos), que se encontram dentro dessas áreas, geram diversos conflitos.

    Além disso, com a Constituição de 1988, o processo demarcatório abre a possibilidade de contraditório, ou seja, de questionamento perante o Poder Judiciário (inciso XXXV art. 5º). Esta introdução gera diversos questionamentos por parte de alguns juristas que alegam que para poder recorrer é necessário que tenha ocorrido primeiro a conclusão da homologação. Não há como recorrer a qualquer dos momentos anteriores a ela devido à circunstância jurídica de a demarcação administrativa não ter sido aperfeiçoada completamente. O que ocorre é que isso é usado frequentemente como forma de impedir a finalização do processo de demarcação da terra indígena. Dessa forma, os conflitos tendem a se reproduzir por meio dos processos judiciais que se prolongam indefinidamente. E quem “paga” por isso são as comunidades indígenas, na medida em que se acentua o clima de insegurança jurídica e fática que os afeta.

    Por exemplo, a Federação de Agricultura e Pecuária do Mato Grosso do Sul – Famasul interpôs agravo regimental que sustentava a incompetência do Supremo Tribunal Federal – STF para tratar da questão das demarcações dos Guarani-kaiowá no Estado, ainda que o STF já tivesse se manifestado pela continuidade do processo de demarcação, e solicitou que a Fundação nacional do Índio – Funai notificasse todos os ocupantes de imóveis rurais de 26 municípios do Mato Grosso do Sul, e o Tribunal Regional Federal da 3ª Região suspendeu as demarcações. Ainda, a Famasul defende que os conflitos seriam resolvidos por meio das terras pelo governo, a preço de mercado, terra nua e benfeitorias, ainda que a Constituição Federal diga o contrário.

    Existe uma clara inoperância da Funai em dar andamento aos procedimentos necessários à demarcação, que leva ao aumento de conflitos entre os fazendeiros e os índios do Mato Grosso do Sul como um todo (tanto é que, segundo dados do relatório do CIMI, essa é a região onde os indígenas mais sofrem violência, assassinatos, etc., de todo o país).

    Quando as ocupações são objeto de ação judicial de reintegração de posse, o Judiciário alega, muitas vezes, que a ausência de estudos e providências por parte da Funai para caracterizar a área como “terra tradicionalmente ocupada por índios”, faz com que prevaleça o direito de propriedade dos donos das terras ocupadas ou retomadas.

     

    IHU On-Line – Que tipo de violência os Guarani sofrem da parte do agronegócio do Mato Grosso do Sul?

     

    Eduardo Carlini – Há alguns anos o CIMI publica o Relatório de Violência contra os Povos Indígenas no Brasil. Trata-se de um instrumento de denúncia que revela esta gravíssima problemática que envolve a população indígena no Brasil e mais: nos dá a clareza do quão chocante é esta realidade em Mato Grosso do Sul.

    A omissão do Estado em relação à questão agrária e indígena no Brasil é algo que reforça a violência no campo brasileiro enquanto um problema estrutural, ao mesmo tempo em que fortalece a elite agrária e provoca a morte dos povos indígenas.

    Só para se ter uma ideia, sem aprofundarmo-nos muito na análise dos dados, na última publicação do CIMI, em 2011, podemos identificar que no ano de 2010 mais de 152 ameaças de morte foram registradas no país, sendo que 150 ocorreram em Mato Grosso do Sul. Do mesmo modo, dos 398 outros tipos de ameaças sofridas pelos indígenas no Brasil, 390 foram em Mato Grosso do Sul. Entre as tentativas de assassinato, das 22 registradas no país, 17 ocorreram nesse estado. Podemos também lembrar dos dados que dizem respeito aos assassinatos que ocorreram no referido ano: dos 60 que aconteceram em todo país, 34 foram confirmados em Mato Grosso do Sul. E assim poderia seguir com uma lista enorme que diz respeito à violência que os Guarani-kaiowá sofrem por parte do agronegócio, ressaltando, inclusive, os casos de intoxicação e morte pelo uso abusivo de agrotóxicos nos latifúndios de soja que cercam as aldeias e os acampamentos; ou mesmo as mortes provocadas por atropelamento dos indígenas que se encontram acampados nas beiras das estradas à espera da regularização de seu território; conjuntamente repetidos casos de violência e abuso sexual são registrados; e ainda casos de racismo e discriminação étnico-cultural.

     

    IHU On-Line – O que significa a terra para um povo indígena e como entender como se sentem ao serem despejados de seu território?

     

    Eduardo Carlini – Sobre essa questão, não podemos cometer um equívoco bastante comum: confundir terra com território. A terra é um bem que não é produto da força de trabalho do homem, ela é um bem natural. Já o território é uma construção social – produto concreto da luta de classes – independentemente de como é organizado, pensado e vivido.

    O território Guarani-kaiowá, assim como o das populações indígenas de um modo geral, é um lugar livre e desprovido das relações capitalistas. Construído e reproduzido por outros diversos fins que não a obediência ao relógio e ao lucro. Os poucos dias em que convivemos com os Guarani-kaiowá durante a expedição são insuficientes para que tenhamos dimensão, com nossos olhos civilizados, do que significa estar e ser Guarani-kaiowá.

    É preciso refletir e agir sobre essas questões para que não continuemos com este processo histórico de genocídios dos povos indígenas no Brasil.

    E vejo que não há como fazer as pessoas que não estão em situação semelhante entender tamanha violência. Pensando sobre isso, vou recorrer às minhas aulas de geografia, onde procuro instigar a possibilidade dos educandos de imaginar como pode parecer ao serem despejados. Pergunto aos alunos se gostam quando suas mães, ao arrumarem seus quartos, retiram algo do lugar. Imediatamente as respostas identificadas já com a situação criada, são de repúdio à mãe, pois não encontram ou demoram para encontrar tal objeto. Na sequência, peço, então, para tentarem imaginar como se sentiriam se tirassem toda sua vida do lugar e a colocassem onde não a encontrariam. Muitas vezes, respondem com um silêncio que sufoca as palavras; dizem tudo sem falarem nada.

     

    IHU On-Line – Qual é a ideia predominante na opinião pública em torno dos debates sobre as demarcações das terras indígenas?

     

    Eduardo Carlini – Entendo que, antes de procurar saber a opinião pública sobre a questão indígena no Brasil, devemos refletir sobre os meios e a qualidade da formação da população brasileira sobre esse assunto. Um primeiro ponto passa por uma análise crítica de como a mídia tem trabalhado essa questão. E um segundo ponto é como esse debate vem sendo tratado nas escolas, ou se minimamente este assunto faz parte do cotidiano escolar. Sabemos que este trabalho está muito além de desenhar cocares e comemorar o dia do Índio.

    Cabe destacar o desserviço deliberado feito pela grande mídia de massas sobre a questão indígena de uma maneira geral. Pouco ou quase nada se sabe sobre a luta indígena no Brasil. Muitas vezes, os meios de comunicação acabam por desinformar, distorcendo e omitindo as situações que ganham destaque. E é claro, a situação dos Guarani-kaiowá não se faz diferente. São raros os momentos em que não são divulgadas matérias criminalizando situações dos indígenas ou que façam uma real problematização da complexidade que envolve essa questão no Brasil.

    Sobre a questão da formação escolar trago uma experiência vivida durante a Expedição. Trata-se de um relato de uma jovem Guarani-kaiowá (2) que estudou em uma escola não indígena. Em uma conversa informal perguntei sobre as aulas de geografia, se gostava da disciplina e de seu professor. De maneira muito tranquila, a jovem respondeu que sim, gostava de estudar geografia e que seu professor “era legal”. Por conta de sua resposta, associei o professor como um parceiro que, até então, me pareceu ter feito algum trabalho que ocasionou a identificação da jovem com o próprio, e perguntei: “Então, ele trabalha a questão indígena em sala de aula?”. E veio o susto: “Não, isso não é tratado na escola!” Mesmo reformulando a pergunta as respostas eram sempre no mesmo tom. É claro que essa pode ser a condição de má formação de um grupo de professores, mas também, por outro lado, nos revela a fragilidade desse assunto na região. A jovem, de maneira pontual, denunciou, talvez sem mesmo perceber, a gravidade que atinge, inclusive, os jovens não índios, também pela deliberada falta de informação.

     

    IHU On-Line – Como você avalia a atuação da Funai e do governo federal em relação às populações indígenas e à questão agrária no Brasil?

     

    Eduardo Carlini – Não é possível entender de forma isolada a atuação da Funai em relação ao governo federal. Não podemos esquecer que a Funai “é o órgão federal responsável pelo estabelecimento e execução da política indigenista brasileira em cumprimento ao que determina a Constituição Federal Brasileira de 1988” (3). Dessa forma, mesmo que a constituição de 1988 garanta aos índios o direito a suas terras, a realização desse processo será sempre refém ao entendimento de política indigenista que cada governo terá e, consequentemente, determinando a ordem de prioridade de cada caso.

    Para que fique claro do que falamos aqui, vou relembrar um momento da Expedição. Nos primeiros dias, estivemos em uma situação bastante problemática. Visitamos a Aldeia Laranjeiras Nhanderú, cujo acesso passa pela lavoura de soja da fazenda de José Raul das Neves, pai do presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) do município de Rio Brilhante (4). Durante nossa estada na aldeia, fomos alertados de que estávamos presos ali. O acesso à estrada tinha sido bloqueado pelo proprietário. Fizemos alguns contatos. A Polícia Federal, junto a Funai, interveio na situação, garantindo nossa saída. Durante nossa conversa com a encarregada da Funai, quando questionada sobre qual o papel do órgão, afirmou que “o papel da Funai é mediar conflito entre os fazendeiros e os indígenas” (5).

    A Funai cumpre hoje o mesmo papel desempenhado pelo Serviço de Proteção ao Índio – SPI (6) na primeira metade do século passado. O SPI contribuiu fundamentalmente para o acirramento do conflito na região, com a criação das reservas indígenas. O papel dessas reservas foi o de confinamento das aldeias em áreas (7) de no máximo 3.500 ha, antes espalhadas sob uma vasta área que configurava o território Kaiowá. Dessa forma, abriu-se espaço para o projeto de colonização de Getúlio Vargas, “a marcha para o oeste”, com a criação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados – CAND.

    É interessante notar que aquilo que, num primeiro momento, pode nos parecer algo coerente, como no caso a criação das reservas, era na verdade a liberação da área, garantindo assim o loteamento da região, beneficiando as elites agrárias em detrimento da manutenção do modo de vida Guarani-kaiowá.

    Hoje não é diferente; precisamos ter clareza. Ao se pronunciar, a encarregada da Funai não fez nada mais do que nos mostrar qual o interesse do governo sobre essa questão. Afinal, atender à demanda indígena é contrariar a política federal de incentivo ao agronegócio. Por isso que essa situação está sendo “mediada”, em vez de ser resolvida.

     

    IHU On-Line – Deseja acrescentar mais algum comentário sobre o tema?

     

    Eduardo Carlini – Sabemos, por experiência, que mesmo após a demarcação de suas terras, o problema para os indígenas está longe de ser resolvido. A violência ocorrida após a demarcação das terras da Raposa Serra do Sol deixou claro que a luta pela terra transforma-se na luta pela permanência na terra. Outra questão sobre a qual não podemos deixar de refletir é o momento em que a justiça se faz cega. Os crimes, quando julgados, são entendidos como crimes comuns. A real situação do conflito agrário no Brasil é abrandada com a ideia de justiça no momento da condenação dos pistoleiros e raramente de seus mandantes, os fazendeiros. Pontualmente retiram-se de cena alguns atores, ao tempo em que permanece no cotidiano do campo brasileiro o agrobanditismo, violentando os mais variados territórios não capitalistas.

     

    NOTAS DO ENTREVISTADO

     

    (1) O Tribunal Popular constitui um espaço aglutinador de diversos movimentos sociais e organizações populares que, a partir das lutas empreendidas em torno das mais diversas pautas (campo, cidade, agronegócio, megaeventos, grandes projetos, etc.), procuram denunciar os crimes cometidos pelo atual Estado de direito brasileiro.

    (2) Nomes não serão aqui divulgados para preservação da integridade física dessas pessoas.

    (3) Cf. em: http://www.funai.gov.br/.

    (4) Cf. em: http://www.douradosnews.com.br/dourados/fazendeiro-nao-concorda-com-tratamento-recebido-da-comissao-de-direitos-humanos.

    (5) Cf. em: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19386. O jornalista, autor do artigo, faz parte do grupo que compôs a Expedição Marcos Veron.

    (6) O SPI foi extinto com a criação da Funai em 1967.

    (7) Existem reservas onde vivem mais de 5 mil Kaiowá confinados nessas áreas de 3500 ha.

     

     

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  • 17/02/2012

    Em audiência, MONADES apresenta documento e exige providências

    O Movimento Nacional de Afetados por Desastres Socioambientais – MONADES – foi recebido em audiência por membros da Secretaria Geral da Presidência da República, do Ministério da Saúde e da Defesa Civil, no dia 15 de fevereiro de 2012.

     

    Os membros do MONADES manifestaram, inicialmente, seu desencanto com a falta da presença de outras áreas de governo, especialmente as responsáveis pela política de moradia, tendo presente que a audiência foi solicitada com o objetivo de apresentar a realidade e debater encaminhamentos sobre o problema do não atendimento ao direito de moradia dos afetados que perderam tudo em diferentes desastres socioambientais. Em seguida, apresentaram um Documento – publicado na íntegra, logo abaixo – contendo dados da dura realidade enfrentada pelos afetados em todo o país, questionamentos de práticas de corrupção e desvios de recursos públicos e reivindicações e propostas para as políticas públicas em relação aos direitos das famílias afetadas.

     

    Como resultado do diálogo provocado pelo MONADES, vale destacar o compromisso da Secretaria Geral de Governo de promover debates sobre o documento apresentado, considerado excelente por todos os presentes, com as áreas de governo que devem dar resposta ao exigido e proposto pelo Movimento. Por parte do MONADES, junto com argumentações sobre a urgência necessária, os membros da comissão articuladora colocaram-se à disposição para futuros diálogos, sempre que forem necessários para que sejam efetivadas iniciativas que garantam os direitos dos afetados, especialmente o da reconstrução gratuita das moradias.

     

    Segue a íntegra do Documento apresentado:

     

    AUDIÊNCIA COM MINISTÉRIOS DO GOVERNO FEDERAL

    MONADES EXIGE MORADIA E CONDIÇÕES DIGNAS DE VIDA PARA AFETADOS POR DESASTRES SOCIOAMBIENTAIS

     

    1. A REALIDADE

     

    Conhecemos diretamente a situação de vida dos afetados por desastres socioambientais. A grande maioria das famílias que perderam tudo ainda não recuperou suas moradias. E as poucas que o conseguiram, não encontram nelas condições dignas de vida humana. Não oferecem espaço suficiente e adequado para as famílias, tanto nos apartamentos dos conjuntos habitacionais como nas casas. Raramente dispõem de infraestrutura de saneamento e mesmo o serviço de água é precário.

     

    Uma característica inaceitável é a criação de vilas isoladas da população das cidades e da zona rural, distantes de suas comunidades de origem, criando espaços marcados muitas vezes por mais uma discriminação, sendo conhecidos como “vila ou agrovila dos alagados”, “conjunto habitacional dos desabrigados”, “vila dos sem teto”, “conjunto dos sem casa”. Além da separação dos parentes e amigos, as crianças encontram dificuldades de adaptar-se com colegas estranhos, quando há escolas.

     

    Deslocados de seus locais de trabalho, enfrentam dificuldades de transporte, diminuindo o tempo para conviver com a família e a comunidade, para o lazer e a cultura e para exercer verdadeiramente a cidadania. A diminuição ou inexistência da renda do trabalho entra em contradição direta com a política de cobrança de mensalidades por essas moradias.

     

    Isso se agrava ainda mais quando não há acompanhamento psicológico direto às vítimas dos desastres socioambientais, que fragilizam as pessoas, levam à perda de autoestima e induzem a problemas de saúde física e mental de forma permanente. Além disso, praticamente não existem serviços de atendimento à saúde, exigindo deslocamentos penosos e para centros de saúde sobrecarregados e com precárias condições de funcionamento.

     

    Para as famílias que ainda não tiveram seu direito à moradia recuperado, são insuficientes e inaceitáveis os diversos tipos de “bolsas”, pois o denominado Aluguel Social não garante o acesso à casa, e os apoios para alimentação igualmente não garantem o suprimento da nutrição a que todas as pessoas têm direito.

     

    2. PRÁTICAS QUE REVOLTAM

     

    Nessa dura realidade da vida dos afetados, provocam desilusão e indignação as práticas de corrupção e os desvios de verbas e doações destinadas ao enfrentamento dos dramas vividos pelos afetados por desastres socioambientais. Mais ainda quando há devolução de parte importante destes recursos por causa do mau procedimento das autoridades.

     

    Quando se diz que as verbas são aplicadas, não chegam aos verdadeiros necessitados, e todos ficam sem resposta quando procuram saber o que foi feito com eles. A quem cabe a responsabilidade de acompanhar o destino dos recursos públicos?

     

    Há situações, como em Santa Catarina, em que os recursos foram liberados há três anos para que uma empresa construísse casas, e nada foi feito até hoje. Qual a explicação para isso?

     

    Tendo presente tanto descuido por parte do poder público e tanta necessidade da população, é absolutamente inaceitável a prática de repressão e violência contra as famílias que tomam a decisão de ocupar terrenos ou prédios abandonados para garantir moradia e condições dignas de vida.

     

    3. PROPOSTAS

     

    O MONADES é um movimento dos próprios afetados e, por isso, apresenta as seguintes propostas aos responsáveis pelas políticas públicas de prevenção em áreas de risco e de atendimento às vítimas dos desastres socioambientais:

     

    1) Que o setor público reconheça a vontade e a capacidade da sociedade civil organizada de participar ativamente na definição, implementação e acompanhamento das políticas públicas e da destinação de recursos públicos e provindos da solidariedade nacional e internacional destinados ao enfrentamento das situações de desastres socioambientais.

     

    2) Que os afetados participem como sujeitos principais na definição das iniciativas que reconstruirão as condições de vida destruídas pelos diferentes tipos de desastres socioambientais. O MONADES tem como um de seus objetivos animar a organização dos afetados para que sejam protagonistas na luta por seus direitos em todas as instâncias públicas, inclusive o Ministério Público e o Judiciário, e o setor público deve favorecer essa atividade em favor da cidadania dos afetados.

     

    3) Que as moradias sejam construídas fora das áreas de risco, mas que sejam inseridas em comunidades próximas ao lugar de origem, valorizando relações sociais e de parentesco, mantendo os trabalhadores próximos ao local de trabalho e mantendo as crianças nas comunidades escolares anteriores.

     

    4) Em relação às famílias afetadas em áreas rurais, se forem construídas agrovilas, que contem com atendimento à saúde, educação, transporte, segurança, áreas de lazer e cultura e infraestrutura de saneamento, abastecimento de água e transporte. Seja quando estão em agrovilas, ou quando as famílias retomam sua vida e trabalho em propriedades familiares, que tenham garantia de terra adequada para gerar renda suficiente para suas famílias através da produção de alimentos.

     

    5) Que seja garantido apoio e tratamento psicológico e assistência médica às pessoas fragilizadas pelos dramas vividos nos desastres socioambientais.

     

    6) Na situação de perda total vivida pelos afetados por desastres socioambientais, defendemos o direito de casa por casa sem nenhum custo e com prioridade absoluta.

     

    7) Para a construção de moradias, priorizar a organização de cooperativas de afetados, possibilitando sua capacitação profissional, garantido, assim, a qualidade da construção e evitando, sobretudo, os desvios dos recursos públicos.

     

    8) Em vista da prevenção de desastres, que sejam identificadas as áreas de risco e sejam realizadas obras de contenção, manutenção, gestão responsável ou desativação de barragens com risco eminente, desassoreamento de córregos e rios, recuperação e manutenção de manguezais e matas ciliares, ou, quando necessário, que sejam organizadas remoções, sempre com participação dos afetados e sem violência, para áreas próximas e com garantia de moradia e condições de vida digna e de cidadania.

     

    9) Para uma verdadeira política de prevenção e de previsão, são importantes e indispensáveis campanhas educativas, nas escolas e em toda a sociedade; para isso, junto com a atuação das três esferas de governo e a participação da sociedade civil nos conselhos, o MONADES se propõe contribuir nesse processo como uma de suas prioridades.

     

    Brasília, 15 de fevereiro de 2012.

     

     

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  • 16/02/2012

    Professores Fulni-ô lutam por educação escolar indígena no sertão de Pernambuco

    Estado interfere e professores indígenas resistem na defesa da prática escolar diferenciada

     

    Renato Santana

    de Águas Belas (PE)

     

    Mal o dia começa a abrir seus olhos de luz sobre o mundo, os anciãos Fulni-ô reúnem um grupo com 20, 30 crianças. Entre bocejos e remelas, todos seguem do Ouricuri – ritual e território sagrado do povo – rumo à mata. As vozes ecoam na língua materna, o iatê.

     

    Na terra úmida de orvalho e no frescor do verde, as crianças ouvem os ensinamentos e aprendem a observar a natureza. Conforme mito Fulni-ô, os homens eram animais em tempos imemoriais; entendê-los, portanto, é elemento fundamental da cosmologia Fulni-ô.

     

    Todos os pequenos tinham recolhem lenha, e sabem a razão do trabalho: alimentar a fogueira do Ouricuri durante a noite, quando ao redor dela as crianças sentarão para ouvir as histórias do povo contadas pelos mais velhos e com eles aprender sobre astronomia, valores, filosofia, língua.  

     

    O jovem professor Idiarrury Severo de Araújo passou por este processo de aprendizado e hoje, na Escola Bilingue Antônio José Moreira, entende essa prática como fundamental e parte do currículo da escola indígena de seu povo.

     

    “Lembro de pensar quando eu era pequeno: foi imitando o gavião amarelo e a jibóia que surgiram os guerreiros e caçadores de meu povo. Isso é parte da educação diferenciada, do currículo e da escola”, explica Idiarrury. Para Secretaria Estadual de Educação de Pernambuco, porém, não é bem assim.

     

    O sentido da escola 

     

    A escola Fulni-ô foi fundada em 1988 por iniciativa da própria comunidade, tendo à frente Marilene Araújo de Sá: “Temos que entender que é assim: nós dizemos ao estado como tem que ser a nossa escola. É preciso bater o pé e fazer o que tem que ser feito”, diz a indígena.

     

    Quando a ideia da escola surgiu ela veio acompanhada da necessidade de preservação da língua, da cultura, além de resignificar tudo o que veio de fora da aldeia no eclipse com as tradições do povo Fulni-ô. 

     

    Há oito anos, o estado começou a criar vínculos empregatícios com os professores. Dessa forma, passou a contestar e querer interferir na metodologia e currículo da escola.

     

    “Tínhamos que mudar o nome da escola para homenagear políticos e personalidades do Estado de Pernambuco. Esse não é o perfil da escola”, destaca Idiarrury.

     

    O nome da escola é Antônio José Moreira. Homenagem ao professor de iate e liderança dos Fulni-ô. Não sabia ler e escrever, mas foi um grande professor, conforme seus alunos atestam. Era também poeta e profeta do povo.

     

    Discordâncias e resistências

     

    As polêmicas com o estado se avolumam, de acordo com os professores. Entre setembro e novembro, os Fulni-ô entram na principal prática ritualística do povo: o Ouricuri. Tudo para na aldeia, inclusive as aulas. Por conta disso, o estado alega que a escola não cumpre as 200 horas-aula.

     

    “O Ouricuri faz parte da escola, da educação. O estado não quer entender isso. Com o Ouricuri, passamos muito de 200 horas, porque é nele que nos fazemos Fulni-ô”, protesta Idiarrury.

     

    Os Fulni-ô é o único povo que manteve a língua materna entre os povos indígenas de Pernambuco. No nordeste, só no Maranhão há outros povos com línguas preservadas. Dessa forma, as relações com o estado ganham em complexidade.

     

    Os professores explicam que o estado também exige que todos descrevam o ensinado nas aulas. Surge aí uma profunda dificuldade: o ensino do iatê é intrinsecamente ligado ao Ouricuri, ritual sagrado e secreto, então como descrever o ensinado se isso interfere numa tradição do povo.

     

    “Tivemos inúmeras reuniões, mas eles não dão ouvidos, porque querem nos assimilar. A língua do nosso povo se proliferando é prova de que nossa pedagogia é correta. Infelizmente a política de assimilação dos diretórios pombalinos continua só que os diretores são outros”, ataca Idiarrury.

     

    Escola, território e currículo 

     

    A escola é um território dos indígenas, defende Idiarrury. “Territorialidade é um eixo e nele está ligado o território. A escola e a educação são territórios. Dentro do território nós temos o físico, que são as terras, nós temos o mental, o filosófico, nossa cultura material e imaterial, a cosmologia, os costumes. Nossa mente é um território, que ainda querem colonizar. Querem tirar o nosso modo de ver o mundo e querem impor o deles”, entende o professor.

     

    Para Idiarrury, uma das condições estruturantes da colonização é a tomada de território – e perversão da territorialidade. A escola, portanto, quando sofre interferência do estado tenta ser dominada e colonizada.

     

    “Então se o estado vem e diz que não podemos contestar suas regras e diz que as regras do estado é que devem ser estabelecidas, então ele está tomando o que é nosso e colonizando. Não vamos deixar essa invasão acontecer”, destacou Paulo Pontes Luz Fulni-ô.

     

    Nessa estratégia de resistência, uma das principais lutas dos professores Fulni-ô é pelo currículo. O estado, dizem os educadores, defende que os indígenas é que tem que definir o currículo da escola. Na prática, contudo, isso não acontece.

     

    “Quando nossas propostas são feitas para os regionais, no nosso caso Garanhuns (PE), o estado começa a dizer não para tudo. Por quê? Educação diferenciada se dá pesquisando os valores do povo, entrevistando os mais velhos, aprofundando na história, trazendo as crenças”, defende Idiarrury.

     

    Os professores não perderam tempo e já definiram outro local de aprendizado extraclasse: o conhecimento adquirido no campo de batalha do Brasil branco, que não permite a pluralidade.

     

    Leia reportagem completa na edição de março do jornal Porantim. Foto: Renato Santana – Da esquerda para a direita: Almir, Paulo e Idiarrury, lideranças Fulni-ô

     

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  • 16/02/2012

    Informe nº1002: Perto da fronteira, o crepúsculo

    Segunda e última parte da matéria que retrata a visita do Secretário Geral da CNBB Dom Leonardo Ulrich Steiner ao Mato Grosso do Sul indígena. No relato, o visto nos tekoha de Kurusu Ambá e Guaiviry numa região dominada pela violência do latifúndio

     

    Renato Santana

    de Campo Grande (MS)

     

    Amambai é a cidade do crepúsculo – momento do dia em que não está claro nem escuro; não é dia e nem é noite. Ao cruzar sua fronteira, o viajante passa sob um grande arco, com as bases fincadas às margens da rodovia – ladeada por plantações de soja a se perder de vista num horizonte verde sem fim. Pedro Juan Cabalero, Paraguai, fica a alguns quilômetros do município.

     

    No crepúsculo de uma região onde mais de 30 lideranças Guarani-Kaiowá foram assassinadas dos anos 1980 para cá, os pavios estão sempre acessos e prestes a explodir a violência. Na memória dos indígenas, o nome dos mortos: Marçal Tupã, Rolindo e Genivaldo Vera, Marcos Veron, Nísio Gomes e muitos outros.

     

    Entre os sete municípios que compõem a região – Amambai, Coronel Sapucaia, Paranhos, Juti, Antônio João, Aral Moreira e Ponta Porã – latifundiários, traficantes de armas e drogas, além das milícias armadas fazem valer um código não escrito, mas quem desrespeita acaba morto, desaparecido. Os Kaiowá sabem bem disso.

     

    Inocêncio vive na retomada de Kurusu Ambá, área da fazenda Madama, entre Amambai e Coronel Sapucaia. “O assassino de minha mãe não foi preso. Até agora não tem justiça. Anda por aí tudo bem. Até agora nem a terra que minha mãe lutou foi demarcada (sic)”, conta. Inocêncio é filho de Xuretê Lopes Guarani-Kaiowá, liderança religiosa assassinada com um tiro no peito, em 2007.

     

    Xuretê tinha 70 anos e foi morta depois que os Guarani-Kaiowá retomaram a atual área onde se encontra uma das aldeias de Kurusu Ambá. Os pistoleiros chegaram em 12 caminhonetes, conforme a Polícia Rodoviária Federal, e realizaram centenas de disparos contra os indígenas. Xuretê era a vítima da primeira tentativa de retomada do território tradicional das mãos do latifúndio.

     

    Mortes e envenenamento   

     

    Smart Kunumi Guarani-Kaiowá, liderança de Kurusu Ambá, lembra que na segunda tentativa de retomada o indígena assassinado foi Ortiz Lopes; na terceira, Oswaldo Lopes. Essa é a quarta vez em os Kaiowá retomam a área. A liderança Eliseu Lopes, também integrante da Articulação dos Povos Indígenas Brasileiros (APIB), é a bola da vez: está ameaçado de morte.

     

    “Aqui no Cone Sul do estado, as lideranças estão sendo ameaçados dessa maneira. Corremos riscos nas estradas, nas cidades. Usam os próprios indígenas, dando dinheiro e bebida, para saber como as lideranças se movimentam”, afirma Smart. Para ele, a impunidade acostumou os poderosos a assassinar os indígenas.

     

    A pistolagem, porém, está longe de ser a única forma de atacar os Kaiowá. O tekoha Kurusu Ambá parece uma miragem no meio do deserto verde de soja. Para chegar até ele, é preciso sair da rodovia estadual e pegar uma antiga rodovia federal, não asfaltada. Por ela se trafega durante 20 minutos tendo como paisagem campos intermináveis de soja.

     

    Kurusu, portanto, é rodeado por plantações de soja. “Os aviões passam jogando veneno e o vento traz para a aldeia. Temos uma fonte que passa aqui na área da retomada e duas crianças acabaram morrendo depois de terem bebido a água. Tiveram vômitos, diarreia”, conta Smart. Ninguém mais usou a fonte e o pequeno rio que ela forma.

     

    Dessa forma, o acesso da comunidade a água é restrito. O espaço em que ocupam é muito pequeno, por isso não plantam. A caça ainda existe na área, mas é insuficiente. A Funai fornece cestas básicas, mas de forma irregular. A desnutrição é perceptível no olhar opaco e amarelado das crianças.

     

    O território tradicional reivindicado pelos indígenas de Kurusu Ambá é de 18 mil hectares. Sobrevivem em apenas 10 hectares desse total. “Faltam alimentos, água, as ameaças são constantes, os venenos lançados também. Passamos fome, muitas vezes”, declara Smart.

     

    Guaiviry: o legado de Nísio Gomes

     

    Perto de completar três meses do ataque e desaparecimento do cacique Nísio Gomes, a comunidade do tekoha Guaiviry, município de Aral Moreira, está dividida: de um lado as crianças, esmagadora maioria no total de indígenas que vivem na retomada, sorridentes e vivas enchem de esperança um povo tão massacrado; de outro os mais velhos, ainda em luto e sem paz por não conseguirem enterrar Nísio no tekoha – ritual sagrado para a cosmologia Kaiowá.

     

    “Queremos o corpo de Nísio. Pedimos a vocês (religiosos e leigos que visitavam a comunidade) que nos ajudem nisso. Precisamos de nossa terra, do corpo de Nísio”, disse em Guarani uma anciã. Otoniel Ricardo, liderança Guarani e vereador no município de Caarapó (MS), se encarregou da tradução. Um dos filhos de Nísio pouco falava e quando pronunciava alguma palavra era quase como um murmúrio. Os pêlos do corpo raspados. Sinal de luto. As crianças corriam, se penduravam em cipós, pulavam no rio, abraçavam quem quer que fosse. O legado de Nísio Gomes se manifestava, naquele instante.

     

    Como a violência e tamanha crueldade pode se propagar frente à beleza daquelas crianças? Deus e o diabo dividem aquelas terras. Apesar de tudo, quem manda é o capital. No Guaiviry, a realidade não difere quase em nada das áreas retomadas pelos indígenas no restante do Mato Grosso do Sul. A aldeia começa onde termina a plantação de soja; a vida termina onde começa os interesses do agronegócio.

     

    Os indígenas esperam a publicação dos relatórios antropológicos de identificação e delimitação da terra indígena. Esperam também pelo relatório da Polícia Federal (PF) sobre o ataque ao Guaiviry – seis pessoas devem ser indiciadas pelo Ministério Público Federal (MPF); Valmir, filho de Nísio, é acusado pelos federais de passar falsas informações: a vítima vira réu. No Mato Grosso do Sul nada é muito surpreendente quando é contra os indígenas. 

     

    Dom Leonardo: “Os índios estão sendo tratados como segunda categoria de pessoa”

     

    “Não há vivacidade nos olhos delas (crianças Guarani-Kaiowá), comum a qualquer criança. As privações desse povo são inúmeras e o motivo principal é a falta de demarcação das terras indígenas. (…) Encontrei um povo de pé, que sabe o que quer”, ressaltou Dom Leonardo Ulrich Steiner, Secretário Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), durante visitas às retomadas Laranjeira Nhanderu, Kurusu Ambá e Guaiviry.

     

    O bispo destacou que no tekoha de Nísio Gomes, o Guaiviry, a insegurança é ainda grande e que os indígenas não possuem confiança na polícia do Mato Grosso do Sul. Disse ter sentido uma comunidade amedrontada, mas disposta a lutar; se organizando e buscando justiça, sem confronto e de forma digna.

     

    Sobre os Guarani-Kaiowá, Dom Leonardo acredita ser “um povo desenraizado não porque querem, mas porque não se sentem em casa. Casa não é um edifício; casa é onde se dá a vida, onde se criam as relações, onde se criam os filhos, onde se sonha, onde se enterra os antepassados. É um povo sem casa”.

     

    O religioso entende que existem dificuldades dos Kaiowá de expressarem a cultura, porque estão sem terra. Dom Leonardo observou que o que chamamos de céu e terra, para eles é a terra. “Essa discriminação que existe contra o índio não é só aqui, mas em todo Brasil”, pontua. Dom Leonardo atuou junto aos povos indígenas do Mato Grosso, pois é bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia.

     

    “Quanto Igreja procuramos apoiar esses povos através do Cimi e com outras atividades desenvolvidas”, declara Dom Leonardo. De acordo com o bispo, a CNBB sempre buscou um diálogo intenso com o governo para que realmente aja uma demarcação das terras. Durante a visita, Dom Leonardo se reuniu com o Ministério Público Federal (MPF) de Ponta Porã (MS) e com a Justiça Federal de Dourados (MS).  

     

    Para ele, existe também a preocupação com os pequenos agricultores, que estão em terras indígenas por culpa do Estado e não podem sofrer com o abandono no processo de saída do território.

     

    Questionado por um jornalista sobre o que deve ser feito, Dom Leonardo disse apenas uma palavra: justiça. “Os índios estão sendo tratados como segunda categoria de pessoa”.

     

    Foto: Renato Santana – Tekoha Guaiviry, lideranças religiosas.

     

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  • 15/02/2012

    6º Encontro Sepé Tiarajú: fazendo memória pelos caminhos da luta e da resistência

    Nos dias 05, 06 e 07 de fevereiro lideranças do povo Guarani realizaram o 6º Encontro Sepé Tiarajú no município de São Gabriel, Rio Grande do Sul. Mais de 200 pessoas das comunidades de Porãi Capivari, Nhundy Estiva, Jataity Cantagalo, Anheteguá Lomba do Pinheiro, Lami, Itapuã, Varzinha, Arroio Divisa, Arasaty Petim, Nhu Poty Passo Grande, Tekoá Porã Coxilha da Cruz, Irapuã, Arenal, Salto do Jacuí, Kaaguy Poty Estrela Velha, Koeju Inhacapetum, Arroio do Conde, Mato Preto, Guabiroba juntamente com as Kuña Karaí, os Karaí, caciques e o Conselho de Articulação do Povo Guarani (CAPG), fizeram memória das lutas passadas e do presente. Durante o encontro os caciques, as Kuña Karaí, os Karaí, e lideranças Guarani do CAPG debateram sobre os problemas que as comunidades enfrentam, dentre eles a falta de terra, o abandono em que as famílias se encontram em função da falta de uma política de saúde e da desestruturação do órgão indigenista, a Funai.

     

    Também participaram do encontro, dez lideranças Kaingang e representantes da Pastoral Ecológica e Comissão Pastoral da Terra (CPT) que organizaram uma bicicletada lembrando os caminhos de São Sepé, desde Rio Pardo até São Gabriel.

     

    No ano de 2006, por ocasião dos 250 anos da morte de Sepé Tiarajú, mais de dois mil Guarani do Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia realizaram uma Aty Guasu em São Gabriel. Lá, nas terras de Ciaboaté, se reuniram de forma articulada num evento continental do povo Guarani para fazer memória das lutas e da resistência de um povo, mas também para homenagear o líder indígena, símbolo de uma história do grande povo Guarani que pretende viver em paz e harmonia numa Terra Sem Males.

     

    Liderando o povo Guarani, Sepé enfrentou, no seu tempo, os dois grandes impérios da época, Espanha e Portugal, os quais tinham interesses econômicos, políticos e religiosos sobre o território indígena. Os Guarani e indígenas de outros povos não aceitaram o exílio, por isso lutaram e morreram defendendo suas terras e territórios. Sepé foi morto no dia 07 de fevereiro de 1756 e no dia 10 do mesmo ano, em Caiboaté, foram massacrados mais de 1.500 Guarani.

     

    Os Guarani retomam hoje não só a memória das lutas de seus antepassados mas também projetam o futuro. Mobilizados e realizando encontros nas aldeias, acampamentos às margens das estradas e promovendo reuniões e debates com entes públicos – Funai, Sesai e MPF – as comunidades exigem que seus direitos sejam efetivamente assegurados. As lideranças expõem os problemas que os afetam cotidianamente. Infelizmente a maioria destes permanece inerte e insensível à realidade indígena.

     

    No Rio Grande do Sul a situação fundiária das terras indígenas está inalterada, ou seja, não há avanços nas demarcações que estão em curso. A Funai é um órgão da administração pública inoperante e subserviente. Dentre os sete grupos de trabalho reivindicados pelos caciques Guarani e pelo CAPG, apenas dois estão em curso há mais de três anos: sendo um nas terras indígenas de Itapuã, Ponta da Formiga e Morro do Coco e outro em Passo Grande, Petim e Arroio do Conde. As informações que os servidores da Funai repassam para as comunidades Guarani é de que os estudos estão incompletos, que necessitam de ajustes. Quanto às demarcações de outras terras, a única manifestação que os administradores do órgão indigenista fazem é de que estes sairão no próximo semestre, mas esse discurso vem sendo feito há três anos, ou seja, dizem sempre que será no próximo semestre.

     

    Graças à sua mística religiosa, à mobilização e articulação das comunidades Guarani este povo consegue construir sua própria história. Os escritos da época das missões jesuíticas relatam como era a vida dos Guarani nas chamadas Reduções Missioneiras, o modo de ser, de trabalhar, de se adaptar a cultura que vinha sendo imposta, as batalhas contra os exércitos. Hoje os escritos autênticos apontam para a grandiosa resistência deste povo frente ao modelo desenvolvimentista, que os submete a uma dramática realidade em que a maioria das comunidades e famílias são obrigadas a habitar a beira de estradas ou em espaços reduzidos vivendo em extremas dificuldades, sendo a principal delas a falta da terra.

     

    Sem terra, dizem as lideranças indígenas, não há como se auto-sustentar, não há saúde para as crianças, não há como plantar, não há mato para tirar os remédios para as curas de enfermidades, não há espaço para o Sagrado. Em cada encontro em homenagem a Sepé Tiarajú, em São Gabriel, os Guarani fazem seus rituais a Nhanderu pedindo força, luz, caminho, rumo para seguir na luta do dia a dia. Sempre em cada encontro documentos são elaborados aos órgãos federais responsáveis, especialmente à Funai e Sesai. Tais órgãos não podem alegar o desconhecimento da realidade Guarani no sul do país, visto que muitas das vezes se fazem presentes nos encontros através de seus representantes na região. Apesar disso, não apresentam respostas concretas aos problemas e iludem os Guarani com falsas promessas.

     

    Os encaminhamentos e reivindicações feitos pelos Guarani são ignorados como ocorreu no ano de 2011. As comunidades reclamam a demarcação de suas terras, querem viver em paz com a sua cultura, plantando a sua roça com as suas sementes tradicionais, querem sossego e saúde para as crianças e para os mais velhos. Saúde para os Guarani, além de sua terra demarcada, é vida digna sem mentiras, sem promessas e outros meios usados com a finalidade de escamotear o não cumprimento das garantias constitucionais das comunidades indígenas.

     

    Cabe ao Governo Federal e seus órgãos responsáveis, ao menos respeitar os preceitos constitucionais e executar uma política indigenista condizente com a realidade vivenciada pelas comunidades indígenas.

     

    Durante o encontro Sepé Tiarajú, os Xeramõi e Jariy (lideranças mais velhas) alertaram com preocupação que a situação está cada vez mais difícil, porque os Juruá (brancos) não os ouvem, não os vêem, não os reconhecem, não demarcam as suas terras, não atendem as suas reivindicações, não respeitam os seus direitos originários, não têm interesse, através de suas leis e estruturas da administração pública, em resolver os problemas de todas as comunidades Guarani.

     

    Inspirados pelas palavras dos mais velhos, as lideranças da CAPG e caciques dos acampamentos alertaram que não podem mais acreditar nas palavras dos brancos: “Os Juruá, as autoridades governamentais, parlamentares e os representantes da Funai insistem em elaborar projetos de lei contra as demarcações de terra, com falsas palavras, por isso não se pode mais acreditar neles. Todos defendem interesses que são contrários aos direitos dos povos indígenas”.

     

    Na Sanga da Bica, lugar onde foi morto Sepé Tiarajú, os Guarani entoaram cantos a Nhanderu agradecendo ao Deus verdadeiro por caminhar sempre com eles. As Kuña Karai e os Karai transmitiram aos Guarani a força de Nhanderu para as lutas do cotidiano, ressaltando a importância de estarem unidos, fortalecidos e articulados para enfrentarem os Juruá e suas falsas promessas. Seu Turíbio, um ancião de mais de 80 anos bradou alta voz: “Viva Sepé. Essa terra tem dono, essa terra tem dono, viva Sepé”, e todos os presentes acompanharam essa aclamação com esperança de que a história de resistência, a luta pela terra e a memória dos seus guerreiros e guerreiras, que tombaram em defesa da vida e do território Guarani, não serão em vão, jamais.

    Rabeca Peres da Silva

    Cimi Regional Sul – Equipe Porto Alegre

     

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  • 14/02/2012

    MPF pede que polícia e Funai apurem explosão de caminhão próximo a aldeia indígena

    Nesta terça-feira (14/02), o Ministério Público Federal cobrou uma atuação imediata da Funai para que coordene e articule o comparecimento de uma equipe, juntamente com o grupo tático da Polícia Federal, para apurar a situação de conflito na aldeia Kapotnhinore, em Mato Grosso, e intermediar uma solução pacífica.

     

    Há sete dias, após a explosão de uma camionete da Funai que havia sido usada pelos índios, cerca de 160 kayapós da Terra Indígena Capoto/Jarina deslocaram-se para a aldeia Kapotnhinore e o clima ficou tenso. De acordo com informações apuradas até o momento, os índios mantém desde ontem (13/02) um funcionário da Funai retido na aldeia.

     

    Vale destacar que os índios reivindicam a presença da Polícia Federal para denunciar a prática de crimes ambientais, dentro eles desmatamento ilegal e pesca predatória, na área tradicional de ocupação e uso do povo kayapó. Além disso, os índios querem apuração da explosão da camionete, que eles denunciam ter sido um ato criminoso.

     

    Desde sábado (11/03), ao serem informadas da situação na aldeia, as procuradoras da República Marcia Brandão Zollinger e Vanessa Ribeiro Scarmagnani articulam a presença da Funai e da PF no local. O MPF já solicitou informações ao coordenador regional substituto da Funai em Colíder, Sebastião Martins. E, nesta terça-feira (14/02), por meio de ofícios e contatos por telefone, as procuradoras solicitaram ao presidente da Funai, Márcio Meira, e ao diretor de promoção ao desenvolvimento sustentável da Funai, Aloysio Guapindaia, que atuem imediatamente no caso.

     

    Demarcação de terra indígena – A aldeia Kapotnhinore, onde aconteceu o incidente, está localizada em uma área reivindicada pelos kayapós como terra indígena. Em 2011, o Ministério Público Federal instaurou um inquérito civil para fiscalizar o processo de demarcação e a regularização fundiária da terra indígena Kapotnhinore.

     

    A aldeia onde os índios estão mobilizados fica localizada em uma região de difícil acesso, nas proximidades dos municípios de Santa Cruz do Xingu e Vila Rica, extremo norte de Mato Grosso, divisa com o Pará.

     

    Assessoria de Comunicação

    Procuradoria da República em Mato Grosso

    Contato com a imprensa: Lenita Violato Ferri e Marymila Mendes

    Tel: (65) 3612-5083 / 9286-2891

    [email protected]

     

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