• 26/06/2012

    Polícia pede prisão preventiva de ativistas contra Belo Monte

    A polícia civil do Pará pediu à Justiça a prisão preventiva de 11 pessoas acusadas de participar dos protestos contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte entre os dias 13 e 17 de junho, durante a realização do evento Xingu +23 na Vila de Santo Antônio, a 50km de Altamira, oeste do Pará. A representação pela prisão preventiva aguarda o parecer do Ministério Público Estadual (MPE).

     

    Entre os acusados no inquérito estão integrantes e assessores do Movimento Xingu Vivo para Sempre, um padre que rezou uma missa e abençoou o encontro, uma freira, um pescador que teve sua casa destruída pelo Consórcio poucos dias antes, missionários indigenistas e um documentarista de São Paulo.

     

    A polícia acusa essas pessoas de terem planejado uma ação no escritório do Consórcio Norte Energia, “apesar de não existir nos autos uma única imagem comprovando isso”, diz Marco Apolo Leão, advogado e presidente da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, que atua na defesa dos militantes. Também há acusações de danos, roubo, incêndio, desobediência, esbulho possessório, perturbação da ordem pública e formação de quadrilha.

     

    Diante das ameaças de prisão da polícia divulgadas na imprensa, advogados do movimento entraram com um pedido de habeas corpus preventivo para garantir a liberdade dos perseguidos. Protocolado pela defesa na sexta-feira, 22, o pedido de Hábeas Corpus recebeu parecer favorável do Ministério Público, mas foi negado pela justiça na segunda-feira, 25. “Vamos recorrer dessa decisão e manter a posição de que ninguém falará na polícia, pois não conseguimos ter acesso a todas as peças do inquérito”, afirma o advogado. O depoimento de oito dos 11 acusados está marcado para quarta-feira, 27, em Altamira.

     

    Defesa

     

    Além da dificuldade de acessar todas as peças do processo, a defesa dos integrantes do movimento Xingu Vivo alega que as investigações sobre o caso carecem de legitimidade e imparcialidade, já que as polícias civil e militar, em Altamira, são, em grande parte, “patrocinadas e financiadas pelas próprias empresas que constroem Belo Monte”, por conta de um termo de cooperação assinado com o governo estadual.

     

    A defesa também diz que este é mais um caso de criminalização das lideranças de movimentos sociais e, por isso, uma grande rede de solidariedade e manifestações está sendo construída para apoiar os integrantes do movimento Xingu Vivo e as outras pessoas vítimas das acusações do Consórcio Norte Energia e da polícia. Uma nota de apoio aos militantes já conta com assinatura de 146 instituições da sociedade civil de todo o Brasil, entre eles a Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) e o Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH). Ainda esta semana, a frente jurídica do movimento irá encaminhar um informe denunciando a criminalização dos ativistas para a ONU e a OEA.

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  • 26/06/2012

    Vítimas de Belo Monte não são criminosos!

    Desde que foram pensados no período da ditadura, os projetos de barramento do rio Xingu na região de Altamira, Pará, geram indignação, revolta e ferrenha oposição dos povos da bacia deste que é um dos mais importantes e megadiversos rios do país.

     

    Há mais de 23 anos, os movimentos sociais do Xingu resistem à Belo Monte.No marco da Rio +20,  realizaram em Altamira o encontro Xingu +23 que, de 13 a 16 de junho, reuniu cerca de 300 pessoas, entre atingidos pela usina e apoiadores de sua luta.

     

    Um dia antes do início do evento, o Consórcio Norte Energia tentou anulá-lo com um interdito proibitório, criminalizando antecipadamente quatro membros do Movimento Xingu Vivo para Sempre. A despeito de serem a empresa e o governo os vetores de toda a violência que explodiu na região desde o início das obras da hidrelétrica, o Consórcio e as forças repressivas da polícia reforçaram o processo de criminalização, e agora 11 participantes do Xingu +23 – entre eles um padre que rezou uma missa e abençoou o encontro, um pescador que teve sua casa destruída pelo Consórcio poucos dias antes, e um documentarista que apenas o registrou -, estão sendo investigados e indiciados como criminosos.

     

    Diante das ameaças de prisão preventiva, divulgadas na imprensa, os advogados do Movimento Xingu Vivo entraram com um habeas corpus preventivo para garantir a liberdade dos perseguidos. O pedido foi negado pela Justiça.

    Hoje, Belo Monte é um resumo de tudo de mais nefasto engendrado pelo regime militar, imposto com brutalidade sem precedentes pelo governo federal às populações do Xingu. Divulgando inverdades sobre este projeto sem viabilidade econômica, energética, social e ambiental, o governo, seus ministros, seus burocratas e seus empreiteiros destroem sem pudor a vida da população que depende das matas derrubadas, dos peixes que já quase não existem, da caça que fugiu das detonações das obras ou cujos corpos se amontoam nas margens da Transamazônica. E, quando os expulsos, os ameaçados e os acuados se defendem, o Estado apela à polícia e transforma suas vítimas em criminosos.

     

    Tamanha violação dos direitos humanos dos que são vítimas da violência estatal e do capital é inaceitável num país que preza sua democracia. É inconcebível que a criminalização do protesto seja aplicada ainda hoje.

     

    Exigimos a imediata anulação de todos os processos de criminalização da população do Xingu e seus apoiadores. Exigimos que suas perdas econômicas, morais, culturais e espirituais sejam reparadas. Exigimos que a população brasileira tenha o direito de decidir sobre a construção de projetos de grande porte, que tenha o direito de dizer não, que seja consultada sobre como e onde os recursos públicos são aplicados – e exigimos, acima de tudo, que a democracia e os princípios básicos dos direitos humanos sejam garantidos no Brasil.

     

    Assinam:
    4 Cantos do Mundo, Minas Gerais
    AATR – Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia – Salvador – BA
    AFBEPA
    Amazon Watch
    Amigos da Terra Brasil – Porto Alegre – RS
    ANEL
    Associação “Dando as Mão” organização Solidária dos Assentados e Empreendedores em Geral
    Associação Aritaguá
    – Ilhéus – BA
    Associação Brasileira de Homeopatia Popular , ABHP
    Associação de Moradores de Porto das Caixas (vítimas do derramamento de óleo da Ferrovia Centro Atlântica)  – Itaboraí – RJ
    Associação dos Concursados do Pará (ASCONPA)
    Associação dos Empregados do Banco da Amazônia (AEBA)
    Associação Indígena Tembé de Santa Maria do Pará (AITESAMPA)
    Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes (APACC)
    Associação Sindical Unidos Pra Lutar
    Associação Socioambiental Verdemar  – Cachoeira – BA
    Campo Étnico e Popular
    CEDEFES (Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva) – Belo Horizonte – MG
    CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) –  São Paulo
    Central Sindical e Popular CONLUTAS
    Central Única das Favelas (CUFA-CEARÁ) – Fortaleza – CE
    Centro de Cultura Negra do Maranhão – São Luís – MA
    Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará – CEDENPA
    Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará – CEDENPA
    Sodireitos
    Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA) – Belém – PA
    CEPEDES (Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia) – Eunápolis – BA
    COIAB
    COICA
    Coletivo de Mulheres Rosas de Liberdade – Santarém-Pará.
    Comissão Pastora da Terra (CPT/PA)
    Comissão Pastoral da Terra, CPT-MT
    Comitê Dorothy
    Conselho Indigenista Missionário Regional Norte II (CIMI)
    Contraponto
    Coordenação Nacional de Juventude Negra – Recife – PE
    CPP (Conselho Pastoral dos Pescadores) Nacional
    CPP BA – Salvador – BA
    CPP CE – Fortaleza – CE
    CPP Juazeiro – BA
    CPP Nordeste – Recife (PE, AL, SE, PB, RN)
    CPP Norte (Paz e Bem) – Belém – PA
    CPT – Comissão Pastoral da Terra Nacional
    CRIOLA – Rio de Janeiro – RJ
    DCE – UFRA
    Defensoria do Estado de Mato Grosso
    Diretório Central dos Estudantes/UEPA
    Diretório Central dos Estudantes/UFPA
    Diretório Central dos Estudantes/UNAMA
    EKOS – Instituto para a Justiça e a Equidade –  São Luís – MA
    Humanas/Universidade Federal do Pará
    FAOR – Fórum da Amazônia Oriental – Belém – PA
    FASE – Federação de órgãos para Assistência Social e Educacional
    Fase Amazônia – Belém – PA
    FASE Bahia
    Fase Nacional (Núcleo Brasil Sustentável) – Rio de Janeiro – RJ
    FDA (Frente em Defesa da Amazônia)  – Santarém – PA
    Federação de Órgãos para Assistência social e educacional (FASE – Amazônia)
    Fernando Matos Rodrigues, estudante de Arquitetura e Urbanismo – UFSC
    FIOCRUZ – RJ
    Fecacine – Federação Catarinense de Cineclubes
    Fórum Carajás – São Luís – MA
    Fórum da Amazônia Oriental (FAOR)
    Fórum de Defesa da Zona Costeira do Ceará – Fortaleza – CE
    Fórum de Direitos Humanos e da Terra, FDHT
    Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense (FMAP)
    Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad)
    Fórum Social Pan-amazônico (FSPA)
    FUNAGUAS – Terezina – PI
    FONASC CBH – FORUM NACIONAL DA SOCIEDADE CIVIL NOS CBHS
    Fundo Dema/FASE
    GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra  – São Paulo – SP
    GPEA (Grupo Pesquisador em Educação Ambiental da UFMT) – Cuiabá – MT
    Greenpeace Brasil
    Grêmio EE “Ulysses Guimarães”
    Grupo de Mulheres Brasileiras (GMB)
    Grupo de Pesquisa Historicidade do Estado e do Direito: interações sociedade e meio ambiente, da UFBA – Salvador – BA
    Grupo de Trabalho Amazônico – GTA
    Grupo de Trabalho de Mobilização Social, GTMS
    Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte, GPEA-UFMT
    GT Observatório e GT Água e Meio Ambiente do Fórum da Amazônia Oriental (FAOR)  – Belém – PA
    IARA – Rio de Janeiro – RJ
    Ibase – Rio de Janeiro – RJ
    INESC – Brasília – DF
    Instituto Amazônia Solidária e Sustentável (IAMAS)
    Instituto Amazônico de Planejamento, Gestão Urbana e Ambiental (IAGUA)
    Instituto Búzios
    Instituto Búzios – Salvador – BA
    Instituto Caracol, iC
    Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense – IF Fluminense – Macaé – RJ
    Instituto Humanitas
    Instituto Terramar – Fortaleza – CE
    Instituto Universidade Popular (UNIPOP)
    JUNTOS
    Justiça Global  – Rio de Janeiro – RJ
    Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé
    Lutadoras do Campo, Pela Vida
    Mana-Maní Círculo Aberto de Comunicação, Educação e Cultura
    Missionários Combonianos Brasil
    Mocambo Cultural
    Movimento Articulado de Mulheres da Amazônia, MAMA
    Movimento Cultura de Rua (MCR) – Fortaleza – CE
    Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
    Movimento Estudantil Vamos à Luta
    Movimento Inter-Religioso (MIR/Iser) – Rio de Janeiro – RJ
    Movimento Luta de Classes (MLC)
    Movimento Nacional de Direitos Humanos
    Movimento Popular de Saúde de Santo Amaro da Purificação (MOPS) – Santo Amaro da Purificação – BA
    Movimento Wangari Maathai – Salvador – BA
    NINJA – Núcleo de Investigações em Justiça Ambiental (Universidade Federal de São João del-Rei) – São João del-Rei – MG
    Núcleo TRAMAS (Trabalho Meio Ambiente e Saúde para Sustentabilidade/UFC) – Fortaleza – CE
    Observatório Ambiental Alberto Ribeiro Lamego – Macaé – RJ
    Omolaiyè (Sociedade de Estudos Étnicos, Políticos, Sociais e Culturais)  – Aracajú – SE
    ONG Repórter Brasil
    ONG.GDASI – Grupo de Defesa Ambiental e Social de Itacuruçá – Mangaratiba – RJ
    Opção Brasil – São Paulo – SP
    Oriashé Sociedade Brasileira de Cultura e Arte Negra  – São Paulo – SP
    OXISPHERA – Associação de Saúde Ambiental – PR
    PACS – Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul
    Partido Comunista Brasileiro (PCB)
    Partido Comunista Revolucionário (PCR)
    Partido Socialismo e Liberdade (PSOL)
    Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU)
    Projeto Recriar – Ouro Preto – MG
    MOSAL e INMMAR- SC
    Rede Amazônia Negra – RAN
    Rede Axé Dudu  – Cuiabá – MT
    Rede Justiça nos Trilhos
    Rede de Juventude e Meio Ambiente (REJUMA)
    Rede Matogrossense de Educação Ambiental – Cuiabá – MT
    RENAP Ceará – Fortaleza – CE
    Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal do Pará (SINTSEP/PA)
    Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Gestão Ambiental do Estado do Pará (SINDIAMBIENTAL)
    Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil de Belém e Ananindeua
    Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN)
    SINDTIFES
    Sociedade de Melhoramentos do São Manoel – São Manoel – SP
    Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH)
    Terra de Direitos – Paulo Afonso – BA
    Tô Coletivo
    Tribunal Popular
    Vegetarianos em Movimento (VEM)

    Ana Almeida – Salvador – BA
    Ana Daniela Farias Franco, estudante, UFPA.
    Ana Lídia Brizola, Cientista Social, UFSC
    Ana Paula Caldeira Souto Maior, advogada, Roraima
    Ana Paula Cavalcanti – Rio de Janeiro – RJ
    Ana Paula Gomes, geógrafa pela USP – São Paulo-SP
    Olga Fogaça Balboni Cunha Geremias,  –  São Paulo/SP
    Ananda Machado, Universidade Federal de Roraima
    André de Castro Souza, Cineasta, CINEDELIA
    Andre Luis Lopes Neves, antropólogo, USP
    André Vallias, designer gráfico / sócio-diretor, Refazenda Produções
    Andréa Zhouri – Profa. Associada do Depto. Sociologia e Antropologia FAFICH-UFMG. Coordenadora do GESTA-UFMG
    Angélica Cosenza Rodrigues – Juiz de Fora – Minas
    Antonio Carlos Magalhães, antropólogo, Instituto Humanitas
    Ariane Cavalcante de Souza, Educadora Popular, IMV
    Arsenio Oswaldo Sevá Filho, Engenheiro, Professor universitário, Universidade Estadual de Campinas, SP
    Bruno Milanez – Universidade Federal de Juiz de Fora
    Camila Aranha – Estudante – UFPA
    Carmela Morena Zigoni – Brasília – DF
    Cauê Vieira Morgado- Naea/UFPA
    Cecília Campello do A. Mello – Antropóloga – IPPUR/UFRJ
    Celia Aparecida de Azevedo- atriz- Forum Social Panamazonico-PA
    Cíntia Beatriz Müller – Salvador – BA
    Clarice Cohn, antropóloga, professora da UFSCar
    Cláudio Silva – Rio de Janeiro – RJ
    Dandara Nobre De Oliveira Nascimento, Estudante, Ufpa
    Daniel Fonsêca – Fortaleza – CE
    Daniel Silvestre – Brasília – DF
    Danilo D’Addio Chammas, advogado, Justiça nos Trilhos, MA
    Déborah Danowski, Coordenadora da Pós-Graduação em Filosofia PUC-Rio/CNPq
    Diogo Rocha – Rio de Janeiro – RJ
    Edgar Rodrigues Barbosa Neto – Antropólogo – UFMG
    Edilberto Moura Sena, Comissão Diocesana de Justiça e Paz da diocese de Santarém
    Edna Maria Ramos de Castro –  Socióloga, professora da UFPA
    Eduarda Canto – FACI
    Eduarda Gama Canto – FACI
    Eduardo Viveiros de Castro, Antropólogo, Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
    Eduardo Wanghon, UNIPOP e DCE UFOPA
    Eliana Conde Barroso Leite, Engenheira agrônoma, Rio de Janeiro
    Elis Tarcila Souza de Souza, estudante, Ciencias Sociais-UFPA
    Elysângela Sousa Pinheiro – estudante NAEA/UFPA
    Eneida Assis, Antropóloga e Cientista Política. Instituto de Filosofia e Ciências
    Érina Batista Gomes, Advogada, Santarém-Pará
    Fádia Rebouças, geógrafa (UFBA)
    FASE – Federação de órgãos para Assistência Social e Educacional
    Fernanda Aires Bombardi, Mestrado em História Social, USP.
    Florival de José de Souza Filho – Aracajú – SE
    Francisco del Moral Hernández, Engenheiro, Professor Universitário, Universidade Estadual Paulista
    Gabriela Scalambra Ferreira / Jornalismo – Uninove
    Gabriela Scalambra Ferreira / Jornalismo – Uninove
    Géssica da Silva Miranda, Estudante, UFPA
    Gustavo Tosello Pinheiro, Administrador, Brasília, DF
    Iara Pietricovsky, antrpóloga, colegiado de gestão do Inesc – Brasíla
    Igor Vitorino – Vitória – ES
    Inaê de Brito Albuquerque Nascimento – Oceanógrafa – Belém/PA
    Inês Sousa Fernandes, pós-graduação FIBRA, Educação Especial.
    Iraneide Evangelista Rocha, assistente social da UFPA
    Iremar Antonio Ferreira, Educomunicador, Imv
    Ivo Lesbaupin – sociólogo, coordenador do Iser Assessoria – Rio de Janeiro
    Jacqueline Guerreiro – GEEMA ( RJ)
    Janaína Torres Moraes – Estudante – UFPA
    Janaína Tude Sevá – Rio de Janeiro – RJ
    Jean Pierre René Joseph Leroy, Sociólogo, Fase
    Joana Valente Santana, professora, UFPA/Serviço Social
    Jorge Gustavo Neves Ferreira, Educador Popular, Imv
    José Guilherme Carvalho da Silva, Educador, FASE Programa Amazônia.
    Josie Rabelo – Recife – PE
    Juan Dias Barros, UFPA.
    Julia Schadeck Locatelli, estudante de graduação em Ciências Biológicas, UFSC
    Juliana Souza – Rio de Janeiro – RJ
    Julio Fernandes Muller, geógrafo pela USP – São Paulo/SP
    Rafael Soares de Oliveira, psicólogo e antropólogo, diretor executivo de KOINONIA – ACT
    Janice Muriel Cunha, bióloga, UFPA
    Alexandre Cunha, antropólogo, UFPA
    Andréa Mendes – Militante de Movimento Social – Empreendimento Solidário Casa de Criola – Porto Velho – Rondônia
    Laíse Lorena Lobato, Licenciatura em Música, UEPA.
    Lanna Beatriz Lima Peixoto – UFPA
    Leide Marlene Paiva de Oliveira Diaz – Aposentada
    Leila Santana – Juazeiro – BA
    Leonardo Sakamoto, jornalista, cientista político e professor da PUC-SP
    Letícia Tura, socióloga, FASE
    Letícia Tura, socióloga, FASE
    Luah Sampaio Nogueira Estudante UFPA
    Luan Gomes dos Santos de Oliveira – Natal – RN
    Luana Beatriz Lima Peixoto – Estudante – UFPA
    Luana Paiva Diaz Rosas – Arquiteta – UFPA
    Lucas de Mendonça Morais – Jornalista – Belo Horizonte/MG
    Lucia Ortiz, geologa, Coordenadora Amigos da Terra Brasil, RS
    Luís Claúdio Teixeira (FAOR e CIMI) Belém- PA
    Luis Fernando Novoa Garzon, sociólogo, Universidade Federal de Rondônia
    Luiz Arnaldo Campos – cineasta- Forum Social Panamazonico-PA
    Manuelle Lopes de Matos, UNIUBE e membro do FDA
    Marcel Hazeu, mestre em planejamento do desenvolvimento, articulador político da Sodireitos, Belém, Pará
    Marijane Vieira Lisboa, Socióloga, PUC-SP
    Marco Mota, Coordenado do Programa de Formação e Gestão Associação Mundial de Rádios Comunitárias – AMARC – Brasil
    Marcos de Almeida Matos, professor da Universidade Federal do Acre
    Maria Beatriz Ferreira Lima – SEDUC
    Maria do Carmo Barcellos – Cacoal – RO
    Maria Elvira Rocha de Sá- UFPA/Instituto de Ciências Sociais Aplicadas.
    Mariana Ciavatta Pantoja, antropóloga, UFAC
    José Antonio Kelly Luciani, profesor de antropologia, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
    Maria Inês de Almeida, professora, UFMG.
    Amanda Schoenmaker, cientista social, Secretaria de Estado de Políticas para as Mulheres – Acre
    Luana Machado de Almeida, Indigenista Especializada, FUNAI – Rio Branco/AC
    Karine Lopes Narahara, Analista Ambiental, CGPEG/DILIC/IBAMA
    Marina Trindade Cruz, Estudante, UFPA
    Maurício Paixão – São Luís – MA
    Mauricio Sebastian Berger – Córdoba, Argentina
    Mayara Lopes de La-Rocque, graduanda em Letras- Hab. Língua Francesa, UFPA
    Mellaine Mendes dos Santos, estudante da UFOPA, membro da ANEL Santarém
    Milena Andrade, Geóloga, UFPA
    Mirleide Chaar Bahia, Professora, UFPA.
    Moema Miranda, antropóloga, diretora do Ibase
    Nilo d´Avila – coordenado de politicas publicas greenpeace
    Norma Felicidade Lopes da Silva Valencio – São Carlos – SP
    Norma Valencio, Núcleo de Estudos e Pesquisas Sociais em Desastres, UFSCar.
    Norma Valencio, Núcleo de Estudos e Pesquisas Sociais em Desastres, UFSCar.
    Formad – Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento
    Paulo Lemos, Ouvidor-Geral da Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso
    Pedro Ivo Batista, Ambientalista, Rede Brasileira de Ecossocialistas
    Gabriela Barbosa, Gestora Ambiental, Presidente da Associação Alternativa Terrazul
    Pedro Rapozo – Manaus – AM
    Rafael Dias Busquetti, estudante, UFPA.
    Rafael Paiva de Oliveira Diaz – Oceanógrafo – UFPA
    Raquel Giffoni Pinto, Socióloga, UFRJ
    Raquel Macruz- artista visual, MOSAL e INMMAR- SC Raquel Macruz- artista visual,
    Raquel Minervino de Carvalho Bisneta, estudante, Uepa
    Ricardo Stanziola – São Paulo – SP
    Rita de Cássia Barbosa dos Santos – Assistente Social – Mestranda/UFPA
    Rodolfo Araújo de Mendonça dos Santos,Cineasta, Unama
    Ruben Siqueira – Salvador – BA
    Rui Kureda – São Paulo – SP
    Sabrina Mesquita do Nascimento – NAEA/UFPA
    Samuel Marques – Salvador – BA
    Sandoval dos Santos Amparo, Geógrafo – Fundação Nacional do Índio
    Sebastião Fernandes Raulino – Professor da UERJ e Membro da Rede Brasileira de Justiça Ambiental
    Shaji Thomas – Doutorando em Desenvolvimento Sustentável UFPA/NAEA
    Silke Tribukait , ASW, Berlin
    Sol González, Estudante de Doutorado NAEA/UFPA
    Solange Gayoso, Professora, UFPA.
    Sonia Guajajara, Vice Coordenadora – COIAB
    Sonia Magalhães, Antropóloga, professora da UFPA
    Sonia Mariza Martuscelli
    Suely Rodrigues Alves – Estudante UFPA
    Suzana Mesquita do Nascimento – UEPA
    Tania Pacheco – Rio de Janeiro – RJ
    Telma Monteiro – Juquitiba – SP
    Teresa Cristina Vital de Sousa – Recife – PE
    Tereza Ribeiro   – Rio de Janeiro – RJ
    Valquíria de Carvalho Azevedo – Presidente do Instituto Matogrossense de Direito e Educação Ambiental
    Vânia Regina de Carvalho – Belém – PA
    Voyner Ravena Cañete, Antropóloga – UFPA
    Waldinéia Antunes de Alcantara Ferreira/ Pedagoga/UNEMAT
    Wendell Ficher Teixeira Assis, sociólogo – IPPUR/UFRJ
    Yuri Barros Pedreira – Estudante – UFPA
    Oriana Rey Tanaka Santos, advogada com especialização em sustentabilidade– São Paulo –SP
    Fernanda Aguiar Magnani- Atriz- Pós- Graduada em Literatura Brasileira e História Nacional- CEFET- PR
    Alexandre Cunha, Antropólogo, UFPA
    Eleonora Trajano, Bióloga, USP
    Fabio Di Dario, Biólogo, UFRJ
    Flávio César Thadeo de Lima, Biólogo, UNICAMP
    Francisco Langeani Neto, Biólogo, UNESP
    Janice Muriel Cunha, Bióloga, UFPA
    Jansen Alfredo Sampaio Zuanon, Biólogo, INPA
    Lucia Rapp Py-Daniel – Bióloga, INPA
    Marivana Borges Silva, Bióloga, UFPA
    Flávia Cera – Estudante – UFSC
    Aquiles Vasconcelos Simões – Universidade Federal do Pará
    Maria Cristina Alves Maneschy, professora, UFPA
    Helena Palmquist – jornalista
    Idelber Avelar, Professor Universitário, Tulane e Colunista da Revista Fórum

     

     

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  • 22/06/2012

    Xikrin e Juruna ocupam barragem de Belo Monte, no Pará

    de Altamira, Pará

     

    Desde quinta-feira, 21, indígenas dos povos Xikrin e Juruna afetados pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte ocupam um terreno de construção da barragem. Eles decidiram pela ocupação para manifestar insatisfação com o desrespeito de seus direitos e o não cumprimento das condicionantes, em especial relativas aos indígenas.

     

    Com organização própria e contando apenas com seus recursos, eles ocuparam uma ensecadeira que está sendo construída no Sítio Pimental, que visa permitir a construção da obra. A manifestação é pacífica, e eles exigem a presença de representantes do Governo Federal e da Norte Energia, construtora da usina.

     

    Os Xikrin da Terra Indígena Trincheira-Bacajá e os Juruna da Terra Indígena Paquiçamba chegaram à ensecadeira pelo rio, vindos de suas aldeias que ficam à jusante da barragem. A região que sofrerá com a seca em área chamada pela Norte Energia de Vazão Reduzida do Xingu. Embarcações partiram também de Altamira, onde alguns indígenas chegaram por estrada vindos das aldeias mais distantes, e de onde partiram indígenas que permaneciam ou residem na cidade. 

     

    São esperados os Arara da Volta Grande do Xingu e representantes de todas as terras indígenas na região, vindos dos rios Iriri e do Xingu, a montante de Altamira, além dos citadinos. Hoje de manhã lideranças Parakanã partem para se reunir aos que já se encontram acampados na ensecadeira.

     

    Os índios estão insatisfeitos com a situação, já que as condicionantes que deveriam anteceder as obras não estão sendo devidamente cumpridas em suas terras e em Altamira. Além daquelas que afetam a todos – como a demora em investir na infraestrutura da cidade, nos serviços de saúde e educação e no saneamento básico, que estão cada vez mais sobrecarregados com o aumento populacional já sentido pela região –, os povos indígenas preocupam-se com a demora na implantação do Plano Básico Ambiental (PBA).

     

    O PBA, em seu componente indígena, deveria estabelecer e efetivar os programas de compensação e mitigação dos impactos já sentidos na região pelos indígenas. Com a demora na entrega aos Xikrin dos Estudos Complementares do Rio Bacajá, que por ora apenas foram apresentados nas aldeias. Tais estudos permitiriam um melhor dimensionamento dos impactos neste rio e para os Xikrin, além da garantia de programas de compensação e mitigação destes impactos, em especial pela seca que preveem que o rio sofrerá com a construção do empreendimento.

     

    Além do mais, o PBA é desconhecido pelos indígenas, que pedem mais e melhores apresentações. Reclamam também da demora em definir a situação fundiária das terras indígenas Wangã, Paquiçamba e Juruna do Km 17 e de Cachoeira Seca, a fora a indefinição no sistema de transposição da barragem e o temor de que eles fiquem isolados de Altamira, cidade onde estão os principais serviços que lhes atendem – saúde, educação, escritórios da Funai. Ainda afirmam que não foi autorizada a construção de mais estradas como alternativa ao transporte fluvial, atualmente utilizado pelos indígenas e que será dificultado pela transposição da barragem e pela seca (vazão reduzida) do leito do rio.

     

    A ocupação protesta contra a alta do investimento necessário e anterior à obra em infraestrutura nas aldeias impactadas, como, por exemplo, para garantir a captação de água potável nas aldeias da Volta Grande do Xingu, nas quais a água do rio, até então consumida pela população, já se encontra barrenta e insalubre devido à construção. Quem quiser apoiar esta iniciativa ou conhecê-la melhor, pode entrar em contato com Ngrenhdjan Xikrin, pelo e-mail [email protected].

     

    Leia abaixo a íntegra do manifesto escrito pelos indígenas Xikrin:

     

    MANIFESTO DOS XIKRIN DO BACAJÁ

     

    Parem com isso, deixem o rio correr. Deixem que nossos barcos andem pelo rio. Parem com isso, deixem o rio correr para as crianças banharem e beberem de sua água. Se fizerem a barragem o rio vai ficar ruim, a água não vai mais ser boa. O rio vai ficar seco, por onde vamos navegar?

     

    Deixem o rio correr para a gente ir para o mato caçar para nossos filhos e netos comerem, para que no rio que corre bem a gente pesque, saia cedo para pescar para nossas crianças comerem.

     

    Nossos Estudos mal foram completados e vocês estão falando da barragem, não gostamos disso. O PBA nem saiu e vocês já estão começando a fazer a barragem, não gostamos disso.  Nós queremos que a barragem de Belo Monte pare de vez!

     

    Texto produzido pelos homens reunidos na aldeia do Bacajá, Terra Indígena Trincheira-Bacajá, com assessoria na tradução da antropóloga Clarice Cohn.

     

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  • 22/06/2012

    Carta Denúncia dos Povos Indígenas de Mato Grosso do Sul no Acampamento Terra Livre/Cúpula dos Povos/Rio+20

    O Estado brasileiro não mede esforços para mostrar ao mundo um Brasil que não existe. Na defesa do sistema do grande capital, camuflam índices desenvolvimentistas que não revelam as desigualdades internas, os problemas estruturais, muito menos, o estado de genocídio ao qual os povos indígenas estão submetidos.

     

    Juntos somos a segunda maior população indígena do país. Representamos mais de 80% da diversidade étnica e cultural do Estado de Mato Grosso do Sul. Entretanto, nossos povos são excluídos desta sociedade por um racismo histórico e que faz parte do senso comum desta sociedade que nos deve as raízes de sua formação.

     

    Após a guerra do Paraguai fomos sendo confinados em pequenas reservas integracionistas e com isso todo o nosso território foi invadido por não índios e hoje possuímos a menor situação de terras e territórios demarcados do país.

     

    O Estado brasileiro é perverso, pois conhece a nossas necessidades territoriais, sabe que em tudo dependemos destes territórios, que neles encontramos o sentido de nossa existência e o futuro das crianças que nascerão amanhã. No entanto, o Estado que deveria nos proteger e constitucionalmente demarcar nossas terras acabou por entregá-las aos fazendeiros/grileiros que hoje se passam por “bons” proprietários, mas continuam a ameaçar e a assassinar nossas lideranças, nos fazendo de escravos, derrubando as matas, matando os animais e poluindo os rios.

     

    Na sua falta de decisão política de garantir nossos direitos, o Estado brasileiro nos submete à pior realidade de violência contras os povos indígenas da América. Nos últimos anos, 60% dos assassinatos de indígenas no Brasil ocorreram contra nossos povos devido à realidade de confinamento e ao processo de luta pela reconquista de nossas terras. Mato Grosso do Sul amarga o maior índice de lideranças indígenas assassinadas na luta pela terra nos últimos 30 anos. O desespero de nosso povo é tamanho que a cada nove dias um indígena se suicida em Mato Grosso do Sul.

     

    Não aceitaremos mais que a opção desenvolvimentista histórica do Estado brasileiro e de Mato Grosso do Sul com seus governos truculentos e mentirosos continuem a promover a espoliação de nossas terras e o genocídio de nossas famílias.

     

    Estamos em Guerra!

     

    Não por decisão nossa, mas porque os poderosos a impuseram já há muito tempo.

     

    Por isso, nós Povos indígenas Kaiowá, Terena, Guarani, Ofaié, Kadiweu, Kinikinau e Guató, reunidos no Acampamento Terra Livre/Cúpula dos Povos, vimos através deste documento não apenas denunciar aos povos e nações do mundo, organizações e comissões nacionais e internacionais de direitos humanos o genocídio praticado pelo Estado brasileiro contra nossos povos, mas exigir:

     

    Do Poder executivo, na pessoa da Presidente da República, Sra. Dilma Rousseff:

     

    – a imediata publicação, pela Funai, dos Relatórios Circunstanciados de Identificação dos Tekohas (terras tradicionais) Kaiowá e Guarani, produzidos pelos 6 Grupos de Trabalho no Cone Sul;

    – o imediato avanço nos processos administrativos de demarcação das terras indígenas Taunai Ipegue, Lalima, Nioaque, Buriti, Pilad de Rebuá, Potrero Guasu, Sombrerito, Taquara, Água Limpa, Aldeinha, Guyraroka, Jatayvari, Kokuei e Cachoeirinha;

    – que a Polícia Federal prenda os assassinos de nossas lideranças mortas na luta pela terra, principalmente os representantes políticos, policiais e ruralistas envolvidos nos assassinatos;

    – que a Funai e a Sesai deem todo o atendimento necessário aos acampamentos indígenas localizados à beira de estradas, sitiados em fazendas ou refugiados dentro de áreas urbanas ou aldeias e não use argumentos inconstitucionais de que “trata-se de área em litígio”;

    – que, no uso de sua atribuição constitucional realize, com a máxima urgência, através da Força Nacional, a desintrusão dos não índios das nossas terras já declaradas dos povos Terena, Kaiowá e Guarani, Kadiweu e Ofaié. Caso haja processo judicial que nossos povos aguardem a decisão dentro dos territórios, e os não índios fora;

    – que seja constituído o GT para identificar as terras do povo Kinikinau;

    – que nenhuma outra PCH (Pequena Central Hidrelétrica) seja construída na região do Pantanal e/ou Cone Sul do Estado. Nossos rios estão morrendo e não há mais peixes para nossos povos;

    – que se regularize e homologue a Terra Indígena dos Ofaié e promova, através da Força Nacional, a desintrusão dos não índios;

    – que se faça a recuperação ambiental e da fauna dos nossos territórios tradicionais destruídos e envenenados pelo agronegócio;

    – que nossas lideranças e comunidades sejam protegidas pela Força Nacional especializada, uma vez que o Programa de Proteção dos Defensores dos Direitos Humanos (PPDDH) da Secretaria de Direitos Humanos – SDH, não desenvolve nenhuma ação efetiva junto às nossas 3 lideranças e comunidades inclusas mantendo-as em situação de risco;

    – que haja igual atendimento por parte da Funai e da Sesai às comunidades e aldeias localizadas nas cidades;

    – queremos também repudiar a forma como vêm sendo implantados os territórios etnoeducacionais que em nada respeitam a diversidade de nossos sistemas educacionais próprios, e que criminalizam e desrespeitam nossos professores;

    – que a assessoria da Funai no Congresso Nacional seja melhor qualificada no monitoramento ao andamento das casas e nos informes sistemáticos aos nossos povos;

    – a promoção de ações afirmativas para a permanência dos acadêmicos indígenas em Mato Grosso do Sul.

     

    Do Poder Judiciário, na pessoa do Presidente do Supremo Tribunal Federal, Sr. Ayres Britto:

     

    – que os processos envolvendo a posse de nossas terras tradicionais no Mato Grosso do Sul tenham prioridade nos seus julgamentos, pois a morosidade de até 30 anos nestes casos está custando a vida de nossas lideranças, crianças e jovens;

    – que recomende ao CNJ ações de combate à morosidade judiciária em outras instâncias e a violação de nossos direitos por parte de magistrados parciais e que tratam destes como algo secundário.

    – que se julgue, com a máxima urgência, as ações judiciais envolvendo as Terras Indígenas dos Kadiweu, Nhanderu Marangatu, Cachoeirinha e Arroyo Korá.

     

    Do Poder Legislativo, na pessoa dos Presidentes do Senado e Câmara Federal, Sr. José Sarney e Sr. Marco Maia:

     

    – que os Projetos de Lei e PECs que violam nossos direitos constitucionais sejam imediatamente arquivados, como é o caso do PL 1610/96, da PEC 215/00 e PC 38/99;

    – que todos os grandes projetos que incidam sobre nossas terras respeitem a Constituição Federal e sejam executados somente após consulta prévia, livre, informada e com poder de veto, além de aprovação do Congresso Nacional;

    – que a bancada indigenista e a comissão de direitos humanos do Congresso Nacional continuem fazendo diligências em nossas comunidades.

     

    Tudo o que temos hoje conquistamos através do sangue de nossas lideranças e da pressão internacional sobre o Estado brasileiro, por isso queremos conclamar os povos do mundo a promover sanções contra o Brasil para que este, ao menos, cumpra suas obrigações constitucionais em relação aos nossos direitos humanos e territoriais.

     

    Na recente UPR (Revisão Periódica Universal) vários países recomendaram ao Brasil respeito aos Povos indígenas e demarcação de suas terras, por isso, queremos pedir a estes, que todo financiamento, empréstimo ou qualquer tipo de apoio financeiro ao Brasil, que incida sobre nossas terras, seja bloqueado até que o governo as regularize pela força.

     

    Apesar de toda violência e morte a que estão submetidas nossas comunidades, confinadas ou acampadas à beira das estradas, testemunhamos a certeza de que com a força de Ñandejara, partilharemos nossos projetos de Bem Viver, em paz, com dignidade, autonomia e liberdade.

     

    Caciques e lideranças indígenas dos povos

    Kaiowá, Guarani, Terena, Kadiweu, Kinikinau, Ofaié e Guató

     

    Conselho do Aty Guasu

    Conselho de luta pela terra dos povos do Pantanal

     

    21 de junho de 2012

    Rio de Janeiro

     

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  • 22/06/2012

    Equação dramática: Rio+20 – Eco92 = 0

    Para os povos indígenas essa equação é muito real, pois nas últimas décadas o avanço do modelo neoliberal, do agrohidronegócio sobre seus territórios tem deixado um rastro de destruição e morte. E o que é mais grave: tudo sob o olhar complacente, quando não omisso, dos governos. Inúmeras denúncias de graves violações dos direitos dos povos indígenas foram feitas neste espaço da sociedade civil mundial. Talvez o que mais tenha sido denunciado é a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.

     

    A delegação do povo Xavante, da Terra Indígena de Marãiwatsédé, juntamente com aliados, fez uma série de atividades, debates e entregou aos representantes do governo uma carta endereçada à presidente Dilma. No documento pede a urgente retirada dos invasores das terras do povo Xavante.

     

    “Nesses 20 anos que se passaram, Marãiwatsédé se transformou na Terra Indígena mais desmatada da Amazônia brasileira, envergonhando todo o nosso país com a devastação criminosa que produtores de soja e de gado estão ainda fazendo na nossa terra sagrada. Vinte anos também não foram suficientes para que a Justiça brasileira tivesse a força necessária para fazer valer a decisão que respeita a Constituição Federal e os povos indígenas, tomada por unanimidade e determinando a retirada dos invasores, pois todos entraram em nossa terra ilegalmente, de má fé”.

     

    O cacique Damião termina a carta com um apelo: “Estou lutando há 46 anos. Eu era criança quando o governo retirou minha comunidade nos aviões da FAB em 1966. Desde aquela época estamos lutando para voltar e retomar nossa terra. Estou cansado. Mas não vou desistir. Nunca”.

    Yanomami

     

    Davi Yanomami está no Aterro do Flamengo à espera de seus companheiros indígenas para entregar o documento dos Povos Indígenas do mundo, aos chefes de Estado e ao governo brasileiro. Aproveito para perguntar-lhe como avalia a participação dos povos indígenas na Cúpula dos Povos: “É um pingo d’água”, responde. “Um pingo apenas, mas importante”. Não deixou de externar certa decepção, pois não foram ouvidos pelas autoridades. “Na Eco 92 vieram autoridades ouvir nossos problemas, mas aqui nem isso aconteceu”.

     

    Apesar de terem seu território demarcado há 20 anos, a falta de políticas de proteção efetiva permite constantes invasões de garimpeiros ao território Yanomami.

     

    Guarani-Kaiowá e povos indígenas do Mato Grosso do Sul

     

    Outra situação dramática, denunciada em vários espaços e momentos na Cúpula dos Povos, foi a dos Guarani-Kaiowá, em especial, e dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul. “Estamos em guerra, pois os invasores declararam essa guerra há séculos”, afirmam em carta dirigida à presidente Dilma e aos povos e nações do mundo. Nela fazem uma série de exigências aos três poderes do país, como única forma de poderem sobreviver conforme garante a Constituição Federal e acordos e legislações internacionais. A situação de violência é gravíssima em decorrência da não demarcação das terras.

     

    TIPNIS – Bolívia

     

    É uma das situações mais grave hoje enfrentada pelos povos indígenas no continente. A organização dos povos indígenas do oriente boliviano está em marcha para La Paz. Irá cobrar do governo de Evo Morales respeito seus direitos, justiça para os responsáveis pelas violências contra seus povos e a paralisação da estrada que atravessa o parque e terra indígena. Ao exporem a situação, a delegação indígena, representando 36 povos, pediu a solidariedade de todos os povos à sua luta. Acusaram o governo de Evo Morales de estar impondo à região uma política neocolonialista, com sérias violações aos direitos das populações que ali vivem. A estrada vinha sendo construída por uma empreiteira brasileira.

     

    Documento dos Povos Indígenas do mundo aos chefes de Estado

     

    Finalmente a delegação dos povos indígenas do Mundo pôde entregar seu documento ao ministro Gilberto Carvalho, que veio representando a presidente Dilma, que não teve tempo em sua agenda para os povos indígenas.

     

    Vimos em uma só voz expressar perante os governos, corporações e a sociedade como um todo o nosso grito de indignação e repúdio frente às graves crises que se abatem sobre todo o planeta e a humanidade (crises financeira, ambiental, energética, alimentar e social), em decorrência do modelo neodesenvolvimentista e depredador que aprofunda o processo de mercantilização e financeirização da vida e da Mãe Natureza.

     

    Defendemos formas de vidas plurais e autônomas, inspiradas pelo modelo do Bom Viver/Vida Plena, onde a Mãe Terra é respeitada e cuidada, onde os seres humanos representam apenas mais uma espécie entre todas as demais que compõem a pluridiversidade do planeta. Nesse modelo, não há espaço para o chamado capitalismo verde, nem para suas novas formas de apropriação de nossa biodiversidade e de nossos conhecimentos tradicionais associados.

    Finalmente, não são as falsas soluções propostas pelos governos e pela chamada economia verde que irão saldar as dívidas dos Estados para com os nossos povos. Reiteramos nosso compromisso pela unidade dos povos indígenas como demonstrado em nossa aliança desde nossas comunidades, povos, organizações, o conclave indígena e outros.

     

    A SALVAÇÃO DO PLANETA ESTÁ NA SABEDORIA ANCESTRAL DOS POVOS INDÍGENAS.

     

    Egon Heck

    Povo Guarani Grande Poro – Cimi 40 anos

    Cúpula dos Povos, Rio de Janeiro, 22 de junho de 2012

     

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  • 22/06/2012

    Informe nº 1.020: Ministro Gilberto Carvalho admite ausência de consulta, mas que obra da UHE Belo Monte seguirá

    Por Renato Santana,

    do Rio de Janeiro*

                              

    A construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, Pará, seguirá apesar das comunidades tradicionais afetadas pelo empreendimento não terem sido consultadas.

     

    Durante audiência na Rio+20, a comissão de indígenas do Acampamento Terra Livre ouviu do ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, que o governo reconhece a falta de consulta prévia aos afetados pela usina, mas que isso não se repetirá nas próximas obras do setor hidrelétrico.

     

    Conforme lideranças indígenas presentes no encontro, firmado depois do movimento indígena ter tentado entrar durante esta quarta-feira, 20, no Riocentro, zona oeste do Rio de Janeiro e palco da Rio+20, o ministro disse ainda que o Governo Federal trabalhará para o cumprimento da reparação dos impactos gerados por Belo Monte às comunidades.

     

    A paralisação das obras da usina está entre as principais reivindicações levadas pelos indígenas a Carvalho. Demarcação e homologação de terras, melhorias na área da saúde, fim dos grandes empreendimentos nos territórios de ocupação tradicional, violência contra comunidades e contra a mineração em terras indígenas estão entre os principais problemas enfrentados no dia a dia dos povos indígenas.

     

    Porém, a posição do ministro não agradou os indígenas – apesar da sinalização de um encontro com a presidenta Dilma Rousseff para o próximo mês de agosto. Algumas lideranças se retiraram durante a fala de Carvalho sobre Belo Monte. Todavia a afirmação dos indígenas é de que seguirão lutando contra a UHE Belo Monte e qualquer outro grande empreendimento.

     

    “Você tem que me respeitar. Podia ser meu filho. Precisa ouvir mais os índios. Vocês não querem ouvir e por isso temos tantos problemas”, disse cacique Raoni Kayapó ao interromper o ministro durante conversa sobre Belo Monte.   

     

    Estiveram presentes no encontro a presidente da Funai, Marta Azevedo, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, e Paulo Maldos, secretário Nacional de Articulação Social. Todos se comprometeram em entregar aos chefes de Estado o documento final do Acampamento Terra Livre, que aconteceu na Cúpula dos Povos, encerrado nesta quinta-feira, 21.

     

    Marãiwatsédé  

     

    O povo Xavante de Marãiwatsédé, do Mato Grosso, também esteve representado na Rio+20 para pedir a retirada imediata dos invasores da terra indígena. Há 20 anos, na Eco 92, os Xavante conseguiram que a petrolífera italiana Agip devolvesse ao povo o território que dos indígenas foi tomado em 1966 pelo governo militar.

     

    No entanto, ao tomarem contato com a decisão, políticos e grileiros promoveram uma grande invasão ao território e as ocupações, consideradas de má fé, lá estão até os dias de hoje aumentando a maior área de desmatamento e depredação ambiental do país.

     

    O cacique Damião Paradzané levou ao governo federal uma petição para que os invasores sejam retirados de forma imediata. Leia e assine a petição no link: http://www.change.org/petitions/presidente-dilma-garanta-a-devlou%C3%A7%C3%A3o-de-mar%C3%A3iwats%C3%A9d%C3%A9-aos-xavante?utm_source=action_alert&utm_medium=email&utm_campaign=6769&alert_id=WswTInmrNE_FmZDlZFMJb

     

    *Com informações da jornalista Andreia Fanzeres da Operação Amazônia Nativa (Opan)

     

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  • 22/06/2012

    Carta do cacique Damião Xavante

    Exma. Sra. Presidenta Dilma Rousseff

     

    Eu, cacique Damião Paridzané, vim a Rio+20 com representantes do povo Xavante exigir que o governo  brasileiro garanta a implementação imediata do plano de desintrusão da Terra Indígena Marãiwatsédé (MT), permitindo a ocupação integral do nosso território, que foi prometido 20 anos atrás na Eco 92.


    Nesses 20 anos que se passaram, Marãiwatsédé se transformou na Terra Indígena mais desmatada da Amazônia brasileira, envergonhando todo o nosso país com a devastação criminosa que produtores de soja e de gado estão ainda fazendo na nossa terra sagrada. Vinte anos também não foram suficientes para que a Justiça brasileira tivesse a força necessária para fazer valer a decisão que respeita a Constituição Federal e os povos indígenas, tomada por unanimidade e determinando a retirada dos invasores, pois todos entraram em nossa terra ilegalmente, de má fé.

     

    Apesar de termos nosso território reconhecido, demarcado e homologado desde 1998, ocupamos 5% da área que é de nosso direito porque fazendeiros e políticos nos ameaçam, destroem a nossa mata em Marãiwatsédé deixando nossa comunidade sem caça, sem frutos e sem os remédios tradicionais de que precisamos. Eles também despejam agrotóxicos nos rios que abastecem a nossa aldeia, por isso muitas crianças estão doentes, com diarreia, vômito e pneumonia. Enquanto estamos aqui no Rio de Janeiro, recebemos a notícia de que mais uma criança faleceu na aldeia por desnutrição.

     

    Nós lutamos e sofremos muito para estar aqui hoje. Não queremos perder a viagem. Viemos a Rio+20 pedir que o governo federal finalmente cumpra a decisão da Justiça, que no mês passado derrubou a liminar que suspendia a retirada dos fazendeiros. Agora, a desintrusão está novamente autorizada. Queremos que o governo permita uma transição rápida da terra invadida ao povo Xavante, garantindo assistência para a nossa integridade física, cultural e a recuperação das áreas devastadas nesses 20 anos.

     

    Vinte anos de espera é muito tempo.

     

    Eu fui criado em Marãiwatsédé antes do contato com o homem branco. Estou lutando há 46 anos. Eu era criança quando o governo retirou minha comunidade nos aviões da FAB em 1966. Desde aquela época estamos lutando para voltar e retomar nossa terra. Estou cansado. Mas não vou desistir. Nunca.

     

    Cacique Damião Paridzané

     

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  • 21/06/2012

    Depois de protesto, indígenas conseguem entrar na Rio+20 para entregar reivindicações

    Renato Santana,

    do Rio de Janeiro

     

    Apesar de estar ao lado da entrada do Riocentro, local escolhido para sediar a Rio+20, na zona oeste do Rio de Janeiro, a direção da manifestação organizada pela Cúpula dos Povos na Vila Autódromo, com o objetivo de protestar contra a remoção do bairro, decidiu que as cerca de 2 mil pessoas ficariam apenas nela, rodeando quarteirões sob discursos que tomavam vielas, residências e nem de perto chegavam às delegações estrangeiras do encontro de chefes de Estado na Rio+20 – em ônibus e carros de luxo amparados pelos zelosos fuzis do Exército.

     

    O protesto parecia ser simbólico: do sambódromo, onde os grupos e organizações estão alojados, 20 ônibus seguiram escoltados por batedores da Polícia do Exército até a Vila Autódromo. Trajeto e quantidade de pessoas estavam previamente acordados. Ações mais radicais não passavam do abuso de exclamações pontuando os discursos. Os indígenas do Acampamento Terra Livre, porém, decidiram por fim ao falatório e partir para o Riocentro. A partir disso, tudo mudou.

     

    À frente do grupo composto por cerca de 200 indígenas, o povo Kayapó era liderado pelo cacique Raoni. De borduna na mão, bradava contra quem se pusesse no caminho da marcha. Com gritos contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, os indígenas pisaram forte e a correria foi grande: assessores do governo federal, integrantes da direção da manifestação “acordada” e da Cúpula tentavam dissuadir as lideranças indígenas. Em vão.

     

    “Não tem acordo para nosso povo, que está morrendo, tendo as terras invadidas e a natureza destruída. Nós vamos seguir. Se não quiserem ir, que fiquem”, disse uma das lideranças indígenas a dirigente da manifestação que tenta os fazer mudar de opinião.

     

    Enquanto os indígenas marchavam, helicópteros do Exército passaram a dar rasantes e bem ao fundo se via o vulto da grande quantidade de soldados das Forças Armadas, tropa de choque e tanque de guerra. Aos poucos outros grupos passaram a cerrar fileiras com os indígenas: movimentos por moradia, de juventude, trabalhadores e toda uma gama de organizações que representam os mais prejudicados pelas ideias de sustentabilidade dos chefes de Estado da Rio+20.

     

    De todas as formas tentavam barrar os indígenas. Faltando pouco para a manifestação chegar onde o aparato militar estava, bandeirões e faixas tentaram ser postas na frente da marcha. Cacique Raoni, à bordunadas, tirou de seu caminho os materiais e passou a correr, sob os gritos Kayapó e dos demais povos presentes. A tensão tomou conta e o risco iminente de enfrentamento entre manifestantes e Exército cessou com a parada do grupo, às margens do cercado de ferro que separava o protesto da repressão estatal.

     

    O grupo ficou por ali até a chegada do ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Pressionado, o ministro cedeu e garantiu a entrada de uma comissão nesta quinta-feira, 21, à Rio+20 com carta de reivindicações a ser encaminhada aos chefes de Estado. Com a garantia, os indígenas decidiram abortar o enfrentamento e retornaram para a Cúpula.      

     

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  • 21/06/2012

    Sambódromo sem samba

    Os povos indígenas do Brasil e do continente levarão na bagagem da volta uma lembrança um tanto amarga, longe das imagens luxuosas do desfile das escolas de samba, no início do ano. O duro cimento sob o qual se estiraram os cansados corpos que mais de 1.500 guerreiros originários de Abya Yala (Américas), mais do que de samba vão lembrar de uma dura batalha, para fazer avançar seus direitos, contra a ferocidade genocida do capital multinacional e suas grandes obras mortíferas. O sambódromo ficará no seu imaginário não como espaço de samba e alegria, mas de abrigo precário, na dura luta pelos seus direitos.

     

    Um mar sem banho

     

    Apesar de estarem sendo acompanhados pelo olhar atento do mar, e as belas praias do Rio, do vigilante Pão de Açúcar, nada disso vieram desfrutar. Apenas registros da beleza em meio à dureza das denúncias de violação de seus direitos e a construção da união necessária para o enfrentamento dos interesses contrários à sua sobrevivência. Foram à praia diversas vezes, mas para atividades como a da bonita paisagem humana construída ontem à tarde com a participação da maioria dos indígenas e outros participantes da Cúpula dos Povos

     

    Um Flamengo sem jogo

     

    Permaneceram e perambularam durante vários dias no aterro do Flamengo, sede da Cúpula dos Povos. Em meio à multidão chamaram muita atenção. Seus vistosos cocares, colares e a leveza dos corpos pintados, foram por muitos levados como lembrança, não do exótico, mas dos povos indígenas que não apenas estão vivos e entre nós, mas que tem certamente mais futuro do que o sistema capitalista, como esteio da civilização ocidental. Participaram em dezenas de atividades autogestionadas, expressaram sua indignação diante da violência e o desrespeito aos seus direitos mais fundamentais como terra, autonomia e paz.

     

    Queremos levar nosso documento aos chefes

     

    Os povos indígenas vão levar uma profunda decepção por não terem conseguido levar sua realidade e propostas para os chefes e representantes de mais de uma centena de países enclausurados no Riocentro. Através de uma marcha, com os movimentos sociais e a comunidade Vila Autódromo, chegaram até as redondezas do local. Mas foram barrados por uma tropa de choque e tiveram que retroceder. Tiveram a promessa de que Gilberto Carvalho, Secretário-Geral da Presidência da República, receberá uma comissão. Porém, o grupo quer ter um encontro com a presidente Dilma.

     

    A Vila autódromo é reveladora das políticas elitistas que estão sendo colocadas em prática nas grandes cidades que irão sediar jogos da Copa do Mundo e outros grandes eventos como as Olimpíadas. A ‘limpeza’ das cidades significa jogar para debaixo do tapete toda a miséria a que milhões de famílias estão relegadas nas favelas e periferias das cidades. No Rio, mais de 150 mil pessoas estão ameaçadas de remoção forçada nos próximos quatro anos, somente por conta dos projetos relacionados a esses eventos internacionais.

     

    Quando amanhece o dia 21, milhares de comunidades andinas vão receber os primeiros raios do sol celebrando o início do ano novo indígena. Os povos originários do mundo presentes na Cúpula dos Povos também irão dedicar mais um dia de luta pelos seus direitos, em homenagem aos milhões que tombaram para que a Mãe Terra com todas as suas formas de vida e seus povos não fossem destruídos.

     

    Numa das importantes declarações, os povos indígenas do mundo conclamam: “Chamamos o mundo a voltar ao diálogo e harmonia com a Mãe Terra, e adotar um novo paradigma de civilização baseado no Bem Viver-Viver Bem.”

     

    Egon Heck

    Cimi 40 anos, Cúpula dos Povos, Rio de Janeiro, 21 de junho de 2012

     

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  • 21/06/2012

    Carta do Rio de Janeiro – Declaração Final do IX Acampamento Terra Livre – Bom Viver/Vida Plena

    CÚPULA DOS POVOS POR JUSTIÇA SOCIAL E AMBIENTAL

    CONTRA A MERCANTILIZAÇÃO DA VIDA, EM DEFESA DOS BENS COMUNS

     

    CARTA DO RIO DE JANEIRO

    DECLARAÇÃO FINAL DO IX ACAMPAMENTO TERRA LIVRE – BOM VIVER/VIDA PLENA

    Rio de Janeiro, Brasil, 15 a 22 de junho de 2012

     

    Nós, mais de 1.800 lideranças, representantes de povos e organizações indígenas presentes, APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (COIAB, APOINME, ARPINSUL, ARPINSUDESTE, povos indígenas do Mato Grosso do Sul e ATY GUASU), COICA – Coordenadora de Organizações Indígenas da Bacia Amazônica, CAOI – Coordenadora Andina de Organizações Indígenas, CICA – Conselho Indígena da América Central, e CCNAGUA – Conselho Continental da Nação Guarani e representantes de outras partes do mundo, nos reunimos no IX Acampamento Terra Livre, por ocasião da Cúpula dos Povos, encontro paralelo de organizações e movimentos sociais, face à Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20).

     

    Depois de intensos debates e discussões realizados no período de 15 a 22 de Junho sobre os distintos problemas que nos afetam, como expressão da violação dos direitos fundamentais e coletivos de nossos povos, vimos em uma só voz expressar perante os governos, corporações e a sociedade como um todo o nosso grito de indignação e repúdio frente às graves crises que se abatem sobre todo o planeta e a humanidade (crises financeira, ambiental, energética, alimentar e social), em decorrência do modelo neo-desenvolvimentista e depredador que aprofunda o processo de mercantilização e financeirização da vida e da Mãe Natureza.

     

    É graças à nossa capacidade de resistência que mantemos vivos os nossos povos e o nosso rico, milenar e complexo sistema de conhecimento e experiência de vida que garante a existência, na atualidade, da tão propagada biodiversidade brasileira, o que justifica ser o Brasil o anfitrião de duas grandes conferências mundiais sobre meio ambiente. Portanto, o Acampamento Terra Livre é de fundamental importância na Cúpula dos Povos, o espaço que nos possibilita refletir, partilhar e construir alianças com outros povos, organizações e movimentos sociais do Brasil e do mundo, que assim como nós, acreditam em outras formas de viver que não a imposta pelo modelo desenvolvimentista capitalista e neoliberal.

     

    Defendemos formas de vidas plurais e autônomas, inspiradas pelo modelo do Bom Viver/Vida Plena, onde a Mãe Terra é respeitada e cuidada, onde os seres humanos representam apenas mais uma espécie entre todas as demais que compõem a pluridiversidade do planeta. Nesse modelo, não há espaço para o chamado capitalismo verde, nem para suas novas formas de apropriação de nossa biodiversidade e de nossos conhecimentos tradicionais associados.

               

    Considerando a relevante importância da Cúpula dos Povos, elaboramos esta declaração, fazendo constar nela os principais problemas que hoje nos afetam, mas principalmente indicando formas de superação que apontam para o estabelecimento de novas relações entre os Estados e os povos indígenas, tendo em vista a construção de um novo projeto de sociedade.

     

    Repúdios

     

    Em acordo com as discussões na Cúpula dos Povos, repudiamos as causas estruturais e as falsas soluções para as crises que se abatem sobre nosso planeta, inclusive:

     

    – Repudiamos a impunidade e a violência, a prisão e o assassinato de lideranças indígenas (no Brasil, caso Kaiowá-Guarani, Argentina, Bolívia, Guatemala e Paraguai, entre outros).

    – Repudiamos os grandes empreendimentos em territórios indígenas, como as barragens – Belo Monte, Jirau e outras; transposição do Rio S. Francisco; usinas nucleares; Canal do Sertão; portos; ferrovias nacionais e transnacionais, produtoras de biocombustíveis, a estrada no território TIPNIS na Bolívia, e empreendimentos mineradores por toda a América Latina.

    – Repudiamos a ação de instituições financeiras como o BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, que financia grandes empreendimentos com dinheiro público, mas não respeita o direito à consulta as populações afetadas, incluindo 400 regiões no Brasil, e em todos os países em que atuam, inclusive na América Latina e África.

    – Repudiamos os contratos de REDD e créditos de carbono, falsas soluções que não resolvem os problemas ambientais e procuram mercantilizar a natureza e ignoram os conhecimentos tradicionais e a sabedoria milenar de nossos povos.

    – Repudiamos a diminuição dos territórios indígenas.

    – Repudiamos todas as iniciativas legislativas que visem submeter os direitos indígenas ao grande capital, através da flexibilização ou descaracterização da legislação indigenista e ambiental em vários países, como a PEC 215 e o Código Florestal no congresso brasileiro e as alterações propostas no Equador.

    – Repudiamos a repressão sofrida pelos parentes bolivianos da IX Marcha pela “Defesa da Vida e Dignidade, Territórios Indígenas, Recursos Naturais, Biodiversidade, Meio Ambiente, e Áreas Protegidas, pelo Cumprimento da CPE (Constituição Política do Estado) e o respeito a Democracia”. Manifestamos nossa solidariedade aos parentes assassinados e presos nesta ação repressiva do estado boliviano.

    – Repudiamos a atuação de Marco Terena que se apresenta como líder indígena do Brasil e representante dos nossos povos em espaços internacionais, visto que ele não é reconhecido como legítimo representante do povo Terena, como clamado pelas lideranças deste povo presentes no IX Acampamento Terra Livre.

     

    Propostas

     

    – Clamamos pela proteção dos direitos territoriais indígenas. No Brasil, mais de 60% das terras indígenas não foram demarcadas e homologadas. Reivindicamos o reconhecimento e demarcação imediatos das terras indígenas, inclusive com políticas de fortalecimento das áreas demarcadas, incluindo desintrusão dos fazendeiros e outros invasores dos territórios.

    – Reivindicamos o fim da impunidade dos assassinos e perseguidores das lideranças indígenas. Lideranças indígenas, mulheres e homens, são assassinados, e os criminosos estão soltos e não são tomadas providências. Reivindicamos que sejam julgados e punidos os mandantes e executores de crimes (assassinatos, esbulho, estupros, torturas) cometidos contra os nossos povos e comunidades.

    – Reivindicamos o fim da repressão e criminalização das lideranças indígenas, como dos parentes que se manifestam contra a construção de Belo Monte. Que as lutas dos nossos povos pelos seus direitos territoriais não sejam criminalizadas por agentes do poder público que deveriam exercer a função de proteger e zelar pelos direitos indígenas.

    – Exigimos a garantia do direito à consulta e consentimento livre, prévio e informado, de cada povo indígena, em respeito à Convenção 169 da OIT – Organização Internacional do Trabalho, de acordo com a especificidade de cada povo, seguindo rigorosamente os princípios da boa-fé e do caráter vinculante desta convenção. Precisamos que seja respeitado e fortalecido o tecido institucional de cada um de nossos povos, para dispor de mecanismos próprios de deliberação e representação capazes de participar do processo de consultas com a frente estatal.

    – Clamamos pela ampliação dos territórios indígenas.

    – Clamamos pelo monitoramento transparente e independente das bacias hidrográficas.

    – Clamamos pelo reconhecimento e fortalecimento do papel dos indígenas na proteção dos biomas.

    – Pedimos prioridade para demarcação das terras dos povos sem assistência e acampados em situações precárias, como margens de rio, beira de estradas e áreas sem infraestrutura sanitária. Apenas no Brasil, existem centenas de acampamentos indígenas nesta situação. 40% da população destes acampamentos são crianças.

    – Clamamos pela melhora das condições de saúde aos povos indígenas, como por exemplo, no Brasil, pelo aumento do orçamento da SESAI – Secretaria Especial de Saúde Indígena, a implementação da autonomia financeira, administrativa e política dos DSEIs – Distritos Sanitários Especiais Indígenas, e a garantia dos direitos dos indígenas com deficiência.

    – Queremos uma Educação Escolar Indígena que respeite a diversidade de cada povo e cultura, com tratamento específico e diferenciado a cada língua, costumes e tradições.

    – Exigimos que se tornem efetivas as políticas dos estados para garantia da educação escolar indígena, tal como os territórios etnoeducacionais no Brasil.

    – Queremos uma educação escolar indígena com componentes de educação ambiental, que promova a proteção do meio ambiente e a sustentabilidade de nossos territórios.

    – Exigimos condições para o desenvolvimento a partir das tradições e formas milenares de produção dos nossos povos.

     

    Finalmente, não são as falsas soluções propostas pelos governos e pela chamada economia verde que irão saldar as dívidas dos Estados para com os nossos povos.

     

    Reiteramos nosso compromisso pela unidade dos povos indígenas como demonstrado em nossa aliança desde nossas comunidades, povos, organizações, o conclave indígena e outros.

     

    A SALVAÇÃO DO PLANETA ESTÁ NA SABEDORIA ANCESTRAL DOS POVOS INDÍGENAS

     

    RIO DE JANEIRO, 20 DE JUNHO DE 2012

     

    APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, COICA – Coordenadora de Organizações Indígenas da Bacia Amazônica, CAOI – Coordenadora Andina de Organizações Indígenas, CICA – Conselho Indígena da América Central, e CCNAGUA – Conselho Continental da Nação Guarani

     

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