• 23/10/2012

    Manifesto: Não à exploração predatória dos territórios e a violação dos direitos indígenas

    APIB se posiciona contra o PL 1610/96, que “dispõe sobre o aproveitamento de recursos minerais em terras indígenas”

     

    A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB, diante da iminência de ser colocado em votação o substitutivo de autoria do Deputado Édio Lopes, do PMDB de Roraima, ao PL 1610/96, que dispõe sobre a mineração em terras indígenas, vem a público manifestar o seu repúdio a mais este ato de grave ameaça e restrição aos direitos dos povos indígenas, assegurados pela Constituição Federal, a Convenção 169 da OIT e a Declaração da ONU sobre os direitos dos Povos Indígenas.

     

    A APIB entende que a tentativa de aprovar o PL 1610 faz parte da seqüência de golpes promovidos e aplicados pelo atual governo e sua base aliada contra os direitos indígenas, por meio de uma série de medidas administrativas, jurídicas e legislativas que tem, em comum, o propósito de inviabilizar a demarcação de terras indígenas, reverter procedimentos em curso e disponibilizar os territórios indígenas e suas riquezas à voracidade do capital nacional e transnacional. É esse o contexto das mudanças patrocinadas pela bancada ruralista no Código Florestal e da série de Decretos e Portarias voltadas a flexibilizar a legislação que ampara os povos indígenas, os quilombolas e as áreas de unidades de conservação. Fazem parte destas medidas as seguintes Portarias:

     

    – Portaria 2498/2011 que objetiva a participação dos entes federados no processo de identificação e delimitação de terras indígenas;

    – Portaria 419/2011, que regulamenta a atuação da FUNAI, em prazo irrisório, nos processos de licenciamento ambiental de empreendimentos do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC (hidrelétricas, mineração, portos, hidrovias, rodovias, linhas de transmissão etc.);

    Portaria 303 / 2012, que se propõe “normatizar” a atuação dos órgãos jurídicos da Administração Pública Federal direta e indireta em relação às salvaguardas institucionais às terras indígenas. Atendendo o anseio dos latifundiários e do agronegócio, a Portaria, na verdade, busca estender para todas as terras indígenas as condicionantes decididas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na Ação Judicial contra a Terra Indígena Raposa Serra do Sol (Petição 3.888-Roraima/STF). O Governo editou a Portaria mesmo sabendo que a decisão do STF ainda não transitou em julgado e estas condicionantes podem sofrer modificações ou até mesmo serem afastadas. A Portaria afirma que as terras indígenas podem ser ocupadas por unidades, postos e demais intervenções militares, malhas viárias, empreendimentos hidrelétricos e minerais de cunho estratégico, sem consulta aos povos e comunidades indígenas; determina a revisão das demarcações em curso ou já demarcadas que não estiverem de acordo com o que o STF decidiu para o caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol; ataca a autonomia dos povos indígenas sobre os seus territórios; limita e relativiza o direito dos povos indígenas sobre o usufruto exclusivo das riquezas naturais existentes nas terras indígenas; transfere para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO) o controle de terras indígenas, sobre as quais indevida e ilegalmente foram sobrepostas Unidades de Conservação; e cria problemas para a revisão de limites de terras indígenas demarcadas, que não observaram integralmente o direito indígena sobre a ocupação tradicional.

     

    O substitutivo ao PL 1.610/96 é consoante com todas estas medidas, reforçadas pelas PEC 038 e 215, em avançado processo de tramitação no Senado Federal e Câmara dos Deputados, respectivamente. Tais medidas são uma série de procedimentos jurídicos e legislativos que compõem um mosaico de leis e feitos governamentais que flexibilizam a exploração predatória do solo e do subsolo nacional, do qual fazem parte os territórios indígenas.

     

    Os defensores do Projeto da mineração em terras indígenas alegam que o Brasil precisa crescer e se desenvolver. O mesmo relator, deputado Édio Lopes, disse que “o objetivo é que o País possa explorar os minérios e enormes jazidas que estão no subsolo das terras indígenas, ao mesmo tempo em que sejam garantidos os direitos dos povos das áreas envolvidas”. O texto do substitutivo, porém, é declaradamente uma peça enganosa e de retaliação dos direitos indígenas garantidos pela Constituição Federal e a Convenção 169. O texto se preocupa apenas, de forma escandalosa, em disponibilizar as terras indígenas e seus potenciais ao capital financeiro-especulativo, principalmente minerador. Daí, a manobra de desburocratizar a autorização da pesquisa e lavra mineral em terras indígenas, com fartas facilidades e condições que permitem o lucro fácil e avolumado das empresas envolvidas.

     

    Em razão disto, o deputado, entre outros estragos, ignora as salvaguardas ambientais, socioculturais e espirituais estabelecidas pela proposta do Estatuto negociado com o Governo no âmbito da Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI); cria as condições para a corrida descontrolada, da grande mineração, pelo ouro nos territórios indígenas; decreta o ataque aos povos indígenas isolados ou de pouco contato, ao submeter o seu destino aos princípios da segurança nacional; relativiza ou afasta de forma ridícula a participação do Ministério Público Federal do seu papel de proteger os direitos indígenas; enterra a autonomia dos povos indígenas, ao submeter a sua decisão de não querer mineração à deliberação de um comissão governamental deliberativa que deverá dizer qual é a melhor proposta para as comunidades, ressuscitando dessa forma o indigenismo tutelar, paternalista e autoritário. Enfim, minimiza o alcance do direito de consulta estabelecido pela Convenção 169 da OIT;

     

    A propósito da consulta, o parlamentar faz eco à intenção de setores do governo que querem reduzir este direito à simples aprovação da instalação de empreendimentos nos territórios indígenas. A Convenção 169, porém, estabelece o direito de consulta e consentimento livre prévio e informado, mas também o direito dos povos indígenas a escolherem as suas prioridades de desenvolvimento econômico, social e cultural, e a participarem do processo de formulação, aplicação e avaliação dos programas de desenvolvimento regional e nacional, perspectiva esta que está longe de ser contemplada pelo substitutivo em questão e outras iniciativas de autoria do Executivo.

     

    Fica, assim, evidente que para a bancada do minério e de setores do governo afins, os territórios indígenas, as unidades de conservação e as terras dos quilombolas são a última fronteira de expansão do capital e dos propósitos de fazer crescer o país a qualquer custo, na perspectiva da reprimarização da economia, de fazer do Brasil um país exportador de matéria-prima barata, dentre as quais estão os minérios, sem se importar com a pobreza e desgraças que ficam para trás. Mesmo assim, o governo pressupõe que com os recursos que virão da participação nos resultados econômicos gerados pela mineração, através dos royalties, poderá oferecer melhores condições de vida às populações afetadas. Balela!

     

    A APIB considera que se as intenções do governo não fossem direcionadas para esta perspectiva, ele não teria medido esforços para cumprir os acordos negociados com o movimento indígena desde que foi instalada a CNPI em 2007. Primeiro, de que a matéria da mineração seria só tratada como parte do Projeto do Estatuto dos Povos Indígenas, cujo conteúdo foi amplamente discutido em seminários regionais, no plenário da CNPI e no Acampamento Terra Livre de 2009. Em segundo, de que o governo, por meio do Ministério da Justiça, asseguraria um processo de diálogo com a Presidência da Câmara dos Deputados para pautar esta matéria tendo como base o substitutivo do Estatuto (PL 2.057/1991) e as propostas discutidas na CNPI.

     

    Não entanto, causou estranheza o fato de o governo priorizou a reinstalação de uma Comissão Especial para discutir em separado a mineração em terras indígenas, acarretando, no momento, um clima de apreensão e tensionamento que só agrava a insegurança jurídica e social já instalada nos territórios indígenas por conta da Portaria 303.

     

    A APIB denuncia: mais uma vez, os povos indígenas tem que pagar o custo da governança e da troca de favores que o governo faz com sua base de sustentação, que reúne senadores e deputados do PMDB, PR e PDT, entre outras siglas partidárias, envolvidos direta ou indiretamente com empreendimentos minerários. Fazem parte dessa lista, entre outros nomes, o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão e o Senador Romero Jucá, autor da proposta original do PL 1610. Ambas as autoridades tem filho e filha, respectivamente,  em empresas de mineração.

     

    Contudo, aos povos e comunidades indígenas a mineração em seus territórios é apresentada como a solução de todos os seus problemas e precariedades, pois as empresas disponibilizarão, além da inexpressiva participação nos seus lucros – o que não é dito! -, medidas compensatórias como benefícios nas áreas da saúde e educação, que levam a ignorar os impactos de hoje, mas não, com o  passar do tempo, as desgraças que ficarão para as gerações futuras.

     

    É sabido, e nem o governo e a sua base parlamentar provam o contrário, que em lugar nenhum do mundo a mineração deixou de impactar, deixando para trás lastros de degradação ambiental, miséria e problemas sociais. Pois não poderia ser outro o resultado das grandes estruturas essenciais para seu funcionamento: grandes minas, ferrovias, estradas, parques industriais, minerodutos, migração de conglomerados humanos. Grande, média ou pequena, mecanizada ou artesanal, a mineração faz estragos de qualquer jeito, afetando áreas primordiais para os ecossistemas, como topos de morros, margens de rios, lagos, igarapés, lençóis freáticos e nichos de biodiversidade. Sem falar dos locais históricos, religiosos e sagrados (cemitérios, áreas de ritual) que fazem parte da relação espiritual que os povos indígenas mantêm com o seu território; e dos impactos e conflitos sociais decorrentes da presença de população não indígena: desagregação sociocultural, prostituição, alcoolismo, drogas, violências e outros impactos sociais e ambientais, subdesenvolvimento e degradação, direcionados ou  distribuídos diabólica e  desigualmente para atingir as classes menos favorecidas, entre elas os povos indígenas. Já para as empresas de mineração e demais envolvidos sobra a concentração dos lucros exorbitantes.

     

    Que os povos e organizações indígenas não se iludam. As poucas migalhas advindas dos royalties ou de programas sociais e ambientais são na verdade paliativos, mecanismos para minimizar os violentos impactos, no futuro insanáveis, produzidos pelos empreendimentos, que incluem as hidrelétricas, obras fundamentais para os projetos de instalação de indústrias de transformação mineral. Tenham certeza, a mineração pode gerar crescimento econômico para o pais e muito lucro para as empresas nacionais ou transnacionais, mas jamais desenvolvimento condigno, bem-estar social e qualidade de vida para as populações locais.

     

    Já se o governo federal acredita e aposta num outro modelo de desenvolvimento e numa outra lógica de exploração dos recursos naturais, hídricos e mineras do país, tem a obrigação, na atual conjuntura, de inviabilizar a aprovação do PL 1.610, somando enquanto dito governo democrático e popular na quebra de velhos paradigmas, em busca de outra sociedade menos materialmente consumista, socialmente excludente, ambientalmente devastadora e, sobretudo, menos anti-indígena, ou seja, tolerante e respeitosa  com a diversidade étnica e cultural do país, que atinge mais de 305 povos indígenas diferentes, conforme último levantamento do IBGE. Deve ainda, se movimentar para tornar realidade os compromissos assumidos com o movimento indígena, priorizando a aprovação do Estatuto dos Povos Indígenas e outras iniciativas legislativas de interesse dos povos indígenas como o PL que cria o Conselho Nacional de Política Indigenista, inviabilizando, ainda, projetos e PECs destinados a restringir ou reverter os direitos indígenas garantidos pela Constituição Federal de 1988. A informação de que o governo prepara um novo marco regulatório para a mineração no país, é um motivo para impedir a aprovação do PL 1.610, que busca não só legalizar esta atividade, mas, sobretudo, programar a desagregação e descaracterização sociocultural dos povos indígenas.

     

    Aos povos e organizações indígenas, APIB alerta para a tentativa de setores do governo de amenizar os impactos de todas as medidas administrativas, jurídicas e legislativas em curso.  Informa, ainda, que a comissão especial que discute a matéria é composta por parlamentares cuja maioria tem apresentado requerimentos e iniciativas legislativas de interesse do governo, contrárias à demarcação das terras indígenas e voltadas a regulamentar a mineração em terras indígenas. O próprio relator, deputado Édio Lopes, entre outras propostas, já apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC-117/2007, apensada à PEC 215/2000) que dá nova redação ao artigo 231, da Constituição Federal. A proposta “estabelece a competência da União para demarcar as terras indígenas através de lei. Altera a Constituição Federal de 1988, dizendo que: “As demarcações, pela sua complexidade, efeitos e três resultados, com reflexos políticos, sociais e econômicos, não podem, na verdade, passar ao largo do Congresso Nacional." Segundo nosso entendimento, o Senado Federal e a Câmara dos Deputados, que compõem o Congresso Nacional, têm competência e legitimidade para examinar, debater e votar matéria de tal relevância, além do que seus membros são, respectivamente, os legítimos representantes dos Estados e da sociedade brasileira, que os elegeu.  É necessário, pois, que seja alterada a redação do caput do artigo 231, de forma que as terras indígenas sejam demarcadas por lei, pois, assim, essas questões passarão pelo crivo do Congresso Nacional, onde serão examinadas."

     

    A APIB chama os povos e organizações indígenas e seus aliados a reforçarem a luta pela garantia dos seus direitos especialmente territoriais reconhecidos pela Constituição Federal e tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, e que vergonhosamente ignora em prol dos interesses do capital e do modelo neodesenvolvimentista que escolheu para se firmar como hegemônico na comunidade internacional.

     

    Brasília – DF, 23 de outubro de 2012.

     

    Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB

     

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  • 23/10/2012

    Kaiowá: fazendeiros bloqueiam e plantam soja sobre estrada que dá acesso à aldeia

    Por Ruy Sposati,
    de Brasília

    Indígenas Kaiowá do tekoha – território sagrado – Laranjeira Nhanderu, no município de Rio Brilhante, sul do Mato Grosso do Sul, tiveram os acessos de entrada e saída da aldeia bloqueados nesta segunda-feira, 22.

    Segundo a comunidade, o dono de uma terra vizinha ao território indígena seria o responsável pelo bloqueio. "Eles cercaram com arame farpado, com cercas e estacas. Não tem como passar. O ônibus escolar não pode buscar as crianças para a escola. Nem bicicleta direito passa", diz o kaiowá Adalto Barbosa."Isso já aconteceu muitas vezes", relata o indígena.

    "Em duas vezes, foi pior. Uma vez, fecharam o portão e a ambulância não conseguiu entrar. Quando pegaram o meu filho para levar no hospital, quando chegou lá, o corpo já chegou morto. Um filhinho de uma mulher [da aldeia] também. Com a estrada fechada, quando chegou na ponte do rio Brilhante, já chegou morto. Também uma vez colocaram fogo em tudo, queimaram as casas. Eles são culpados de tudo", acusa.

    Desta vez, contudo, o bloqueio foi mais longe. Segundo relato dos indígenas e conforme as fotografias enviadas pela equipe do Conselho Indigenista Missionário, Regional MS, tratores estariam plantando soja sobre a estrada que dá acesso à aldeia.



    HISTÓRICO

    A história de espoliações do tekoha passa pela chegada da frente de colonização das plantações de mate, na primeira metade do século XX. Segue com expulsões e assassinatos promovidos pelos latifundiários criadores de gado, perpassa a cana-de-açucar e agora com a soja, além de cultivos paralelos, como o arroz e o milho na entresafra da soja.

    O território, de cerca de 400 hectares, foi retomado em 2009. Em 2010, os indígenas foram expulsos da área, quando se alojaram às margens da estrada, ao lado da entrada de uma das fazendas invasoras. Sofreram com as inundações, o calor, falta de água potável e ao menos três mortes por atropelamento, até que retomaram novamente o território em maio de 2011.

    Já em janeiro deste ano, os fazendeiros tentaram a reintegração de posse da área em ação junto à Justiça Federal. Contudo, por conta da pressão de indígenas e organizações indigenistas, o despejo foi suspenso pelo Tribunal Regional Federal da 3a. Região (TRF-3), em São Paulo, onde ainda tramita o processo dos fazendeiros contra os indígenas.

    TAC

    O tekoha de Laranjeira Nhanderu está contemplado no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) estabelecido em 2007 pelo Ministério Público Federal (MPF) com a Fundação Nacional do Índio (Funai). O acordo exige que sejam constituídos grupos técnicos para identificação e delimitação das terras indígenas, no sentido de agilizar o trabalho de demarcação de terras reivindicadas pelos Kaiowá e Guarani.

    Segundo o indígena, o processo de demarcação de Laranjeira estaria praticamente parado por conta da Fundação Nacional do Índio (Funai) não ter verbas suficientes para realizar os estudos do Grupo de Trabalho: "será que o governo federal nao tem dinheiro para fazer [a demarcação]? Por isso está atrasando o pagamento para o antropólogo, para o perito?", questiona Adalto, de maneira retórica. "Se não der dinheiro para a Funai [de Ponta Porã], não sai demarcação da terra, e aí a gente vai ter esses problemas. E a Dilma não dá. Então, na minha visão, ela não quer mais arrumar a terra para o índio. É a própria Dilma que está fazendo isso com a gente".

    Adalto também se vê preocupado com a aprovação da Portaria 303, da Advocacia Geral da União (AGU). Caso entre em vigor, a polêmica medida permitirá intervenções militares e empreendimentos hidrelétricos, minerais e viários em terras indígenas sem consulta prévia aos povos, além de prever a revisão dos territórios já demarcados e homologados. "Se valer aquilo ali, a gente está tudo na rua. É o governo e todo mundo querendo pegar a terra. Não tem como defender", conclui.

    Fotos: Cimi/MS

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  • 20/10/2012

    Ato contra o genocídio Kaiowá Guarani, em Brasília

    Sol de rachar logo após o meio dia. A Esplanada dos Ministérios amanheceu com cinco mil cruzes plantadas no coração do poder. Cinco mil vidas indígenas ceifadas, simbolizando o genocídio em curso e as décadas e séculos de decretos de extermínio e mortes planejadas. Cenário tétrico, que deveria comover os responsáveis pelos três poderes, em última instância pelo silencioso e continuado genocídio do povo Kaiowá Guarani do Mato Grosso do Sul.

     

    Eliseu e Rose Kaiowá Guarani caminham por entre as cruzes como se estivessem caminhando entre cinco séculos de dominação, perseguições, invasões, expulsões e mortes. Seguram faixas que denunciam o genocídio desse povo e clamam por solidariedade: "Salve kaiowá Guarani"; "Em defesa do povo e das terras dos Kaiowá Guarani". Falam da violência que seu povo sofre nos dias atuais, quando várias lideranças foram assassinadas e outras estão seriamente ameaçadas pelo poder dos fazendeiros e do agronegócio.

     

    Na medida em que o tempo foi passando mais e mais pessoas foram chegando, quase todas vestidas de preto, como gesto de luto e protesto. Nas camisetas o clamor contra o terrorismo dos poderes contra a vida e os direitos dos Kaiowá Guarani e demais povos indígenas do país ameaçados em perder direitos conquistados na Constituição e consagrados na legislação internacional. Existe uma verdadeira guerra contra as terras indígenas e o saque dos recursos naturais.

     

    Imprensa e aliados foram se juntando à manifestação. Entidades de direitos humanos, indigenistas, parlamentares de plantão, em tempo de Congresso vazio. Até a veterana jornalista, que desde a década de setenta vem denunciando as violações dos direitos indígenas, se fez presente. Eliana Lucena foi e continua sendo uma aliada dos povos indígenas em nosso país, há mais de 40 anos.

     

    Dentre os articuladores das ações estão o Conselho Federal de Psicologia, a Justiça Global, a Plataforma de Direitos Humanos, Sociais, Culturais e Ambientais (DHESCA) e o Conselho Indigenista Missionário.

     

    Foi um grito forte da sociedade civil exigindo medidas imediatas e eficazes da parte dos três poderes para estancar o genocídio e garantir os direitos dos povos originários deste país. As falas foram neste sentido. Foram elencadas ações em curso para exigir providências do governo e do Estado brasileiro. Ações e denúncias estão sendo feitas na Organização dos Estados Americanos (OEA) e Organização das Nações Unidas (ONU). Por isso só com uma aliança ampla com a sociedade e a intensa mobilização dos povos indígenas poderá se dar um exitoso enfrentamento com os interessas anti-indígenas.

     

    Dentre os participantes do ato vale destacar a presença solidária de Dom Enemésio Lazzaris, presidente da Comissão Pastoral da Terra, juntamente com outros representantes de órgãos de várias regiões do país.

     

    O genocídio continua, mas também se consolidaram importantes alianças da causa e a esperança também avançou. A luta continua. A luta Kaiowá Guarani ganhou importante visibilidade. Os enfrentamentos se darão em diversos espaços. As cruzes fincadas no coração dos poderes certamente trarão resultados. Os povos resistentes à secular dominação são portadores de futuro e aliados de todos os marginalizados e empobrecidos deste país.

     

    Enquanto isso as comunidades nas retomadas, nos acampamentos, nas aldeias, organizam a esperança, enfrentam os poderosos e lutam com as forças que lhes restam contra as políticas de morte e genocídio.

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  • 19/10/2012

    Expansão da ferrovia Carajás aumentará impactos sobre povo Awá-Guajá

    Cimi Regional Maranhão

     

    Cerca de 500 pessoas participaram nesta terça-feira, 16, da 3ª Reunião Pública organizada pelo IBAMA e mineradora Vale em vista da duplicação da Estrada de Ferro Carajás, no Maranhão.

     

    “O órgão ambiental e a empresa de mineração pretendem negociar os conflitos com mais de 100 comunidades ao longo de 900 quilômetros de trilhos somente em quatro reuniões públicas”, escreveu padre Dario, da organização Justiça nos Trilhos, presente no evento.

     

    Em Alto Alegre do Pindaré (MA) estavam presentes líderes de comunidades e movimentos sociais vindos de cidades e povoados distantes. Traziam vários documentos. Entre eles uma carta aberta do Conselho Indigenista Missionário Regional Maranhão sobre a expansão da Estrada de Ferro Carajás e os impactos sobre o povo Awá-Guajá. Os documentos foram lidos na íntegra ou em versões resumidas.

     

    Nos termos em que o encontro foi organizado, a representatividade dos povos indígenas não foi satisfatória: apenas seis índios Awá-Guajá, diante de uma população de mais de 400 indígenas dos povos Awá e Guajajara que vivem na Terra Indígena Caru, uma das terras atingidas.

     

    A Vale respondeu a carta do Cimi alegando que há um processo paralelo ao licenciamento ambiental, que lida exclusivamente com os povos indígenas, acompanhado pela Funai. Os representantes da mineradora afirmaram também que consulta aos povos indígenas está acontecendo rigorosamente dentro da lei. Com isso, entendemos que a empresa apenas relativiza os direitos indígenas à consulta prévia, conforme a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

     

    A Funai não consegue explicar a razão do atraso nos recursos compensatórios repassados pela Vale – recurso que financia grandes roças em florestas nativas e a criação de gado nas terras indígenas –, práticas antagônicas ao modo caçador e coletor dos Awá-Guajá. Já a Vale, antes de proceder a consulta aos indígenas, bancou, com o aval da Funai, um churrasco na aldeia Awá, em abril de 2012.

     

    Mais uma vez reafirmamos que o Projeto Carajás e sua expansão continuarão a promover o desaparecimento das florestas e da fauna, fonte de vida dos Awá-Guajá e, consequentemente, ameaça a vida do povo com consequências que até o presente momento nenhum recurso de compensação foi possível amenizar.

     

    Permanecerá a ausência de políticas públicas específicas de saúde, de proteção das florestas, morada também dos indígenas em situação de isolamento, de apoio ao modo de vida do povo. As políticas compensatórias não vão melhorar as condições de vulnerabilidade da população contatada frente a toda violência e a ausência do Estado. Idosos já morreram e muitos estão debilitados por doenças causadas por subnutrição, como a tuberculose. Jovens são acometidos por uma doença que se assemelha a epilepsia.

     

    Convênio antigo

     

    Desde 1982, o convênio entre a Vale e a Funai, denominado Projeto Ferro Carajás, de apoio às comunidades indígenas, com o aval do Banco Mundial, definia a demarcação das terras indígenas, situadas na faixa do Corredor Carajás, entre elas a Terra Indígena Awá, como um compromisso firmado pela mineradora. A terra encontra-se devastada e seu processo fundiário não foi ainda concluído, comprovando o engodo do ‘progresso’ e dos programas compensatórios.

     

    A modalidade convite individual (para ‘reunião pública’ desta semana), enviado pela Vale aos caciques das aldeias Awá e Tiracambu, atenta contra a consulta às comunidades impactadas, a fim de averiguar sobre o seu consentimento prévio, livre e informado a respeito das obras, seguindo os parâmetros da Convenção 169. Atenta, sobretudo, contra a organização sócio-cultural dos Awá-Guajá.

     

    Entendemos que toda a violência cometida ao povo Awá-Guajá e seus territórios tem origem no Projeto Carajás, e sua expansão continuará a impactar a população indígena mais ameaçada hoje no Mundo.

     

    Reafirmamos o posicionamento dos indígenas sobre o projeto: “(…) Nós não aceitamos a ampliação. A Vale foi quem cortou nossa terra, bem no meio, acabando com a natureza e nossa floresta. Agora eu penso! Para quê a Vale vai aumentar a ferrovia?”. E as manifestações seguem: “Nós não aceitamos a ampliação do trem passando em frente ao nosso território. É muito ruim! Faz muito barulho! Caçador não caça nada, a caça fica arisca e vai embora pra longe”.

     

    No inicio deste mês, indígenas Awá-Guajá e Guajajara interditaram por três dias a Estrada de Ferro Carajás, no km próximo às suas aldeias. O movimento foi contra a Portaria 303, da AGU. Em documento o Movimento destaca que a Vale, muita embora não seja responsável direta pela resolução desta pauta (revogação da portaria), é beneficiária da exploração das riquezas existentes nos territórios indígenas, a exemplo da duplicação da estrada de ferro Carajás.

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  • 19/10/2012

    Ato Público em defesa dos povos indígenas. Participe!

    Convidamos você a participar de ato público em Brasília, nesta sexta-feira, às 12h30, em frente ao Congresso Nacional, em favor da população indígena do Brasil, que vive sem livre acesso aos seus territórios, e em especial o povo Guarani-Kaiowá.

     

    Diante dessa situação de ameaça à vida e aos direitos humanos dos povos indígenas do Brasil, convidamos a sociedade e os movimentos sociais a se solidarizarem em defesa dos índios que, ao longo da história, repetidas vezes, têm sido vítimas de violência, maus tratos, ausência de políticas públicas e descaso!

     

    Venha participar do ato usando camiseta preta em apoio a esta luta!

     

    Organizam o ato o Conselho Federal de Psicologia (CFP), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a Plataforma Dhesca e a Justiça Global.

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  • 18/10/2012

    Indígenas são atacados por pistoleiros em Potrero Guasu, no MS

    As famílias Guarani que retomaram 2 mil hectares do tekohá – terra sagrada – Potrero Guasu no último sábado, 13, estão, desde o fim da tarde desta quinta-feira, 18, sob novo ataque de pistoleiros. O território fica no município de Paranhos, Mato Grosso do Sul, na divisa com o Paraguai.

    Segundo relato de indígenas que estão no local, a ação dos pistoleiros começou ontem, 17, quando homens armados invadiram o acampamento, atirando para o alto. Enquanto os indígenas corriam do local, os pistoleiros levaram os pertences das famílias e atearam fogo em todos os barracos.

    Hoje, pela manhã, quando as famílias voltaram ao acampamento para reconstruí-lo, um grupo de pistoleiros apareceu.

    "Houve conflito com os pistoleiros", relata o Guarani Ava Quarary. "Eles chegaram cheio de arma. Nós não temos nenhuma. Na correria um [pistoleiro] ficou e nós conseguimos segurar. Chamamos a Força Nacional e entregamos ele".

    Segundo Ava, ninguém ficou ferido. O problema foi quando a Força Nacional deixou o local e os pistoleiros voltaram à área retomada.

    "Agora estamos em frente aos pistoleiros armados. Estamos frente a frente do pistoleiro. Eles estão pocurando as lideranças. Elas estão escondidas porque eles está querendo pegar". Segundo Quarary, cerca de 20 pistoleiros estão no local. Há poucos metros, cerca de 50 adultos com suas crianças permanecem no local.

    "A gente vai ficar acordado em frente aos pistoleiros. Vamos ficar fazendo a segurança. Sabemos que pode acontecer alguma coisa".

    Os indígenas temem um ataque à comunidade durante a noite e demandam o retorno imediato da Força Nacional ao local.

    Leia mais sobre a situação em Potrero Guasu aqui.

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  • 18/10/2012

    Informe nº 1036: STF suspende liminar que impedia retirada dos invasores de Marãiwatsédé

     

    Por Luana Luizy,

    de Brasília

     

    A suspensão da decisão que impedia a retirada dos não-índios da Terra Indígena Marãiwatsédé, no Mato Grosso, foi determinada nesta quinta-feira, 18, pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Carlos Ayres Britto. A ação foi interposta pela Fundação Nacional do Índio (Funai), Ministério Público Federal e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). A batalha judicial para demarcação e devolução da terra já dura 17 anos.

     

    De acordo com nota do MPF, “o pedido de suspensão de liminar apresentado pela Procuradoria Geral da República argumenta que  uma posição firme do Judiciário é essencial para garantia da segurança da região, que foi palco recente de conflitos. Há também a preocupação com o desmatamento ilegal, conversão do solo e grilagem de terras que ocorre na região”.

     

    “Resultado de nossa luta, a decisão foi positiva, queremos agora resgatar tudo que foi perdido, nossas raízes, árvores e animais. Vamos fazer roças para sustentar nossas famílias”, comenta a liderança Tserewamriwe Xavante.

     

    O processo de retirada dos não-índios de Marãiwatsédé deveria ter se iniciado no último dia 1º de outubro. Porém, uma liminar do vice-presidente, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), Daniel Paes Ribeiro impediu que a Funai desse início ao Plano de Ações para Desintrusão.

     

    Marãiwatsédé começou a ser invadida durante a década de 1950, mas apenas na década seguinte foi adquirida irregularmente pela agropecuária Suiá-Missu. Os indígenas acabaram sofrendo uma migração forçada, espécie de diáspora, para a Missão Salesiana de São Marcos, 400 km longe de Marãiwatsédé, onde houve epidemia de sarampo. Cerca de 150 indígenas morreram. No ano de 1980, a terra foi vendida para a empresa petrolífera italiana Agip.

     

    Durante a Conferência de Meio Ambiente realizada no início da década de 1990 no Rio de Janeiro, a Eco 92, a Agip anunciou, sob pressão, que devolveria Marãiwatséde aos Xavante. O cacique Damião Paridzane chegou a visitar a empresa petrolífera na Itália para garantir a devolução da terra.

     

    Apesar disso, até hoje essa devolução não foi completa. A terra foi homologada pelo Executivo em 1998 e mesmo com o reconhecimento, os indígenas sofrem grandes pressões de latifundiários e do poder político local para que Marãiwatsédé permaneça nas mãos dos fazendeiros. Atualmente, quase a totalidade da área ainda está sob o domínio dos invasores, que a utilizam para gado e plantações de soja e arroz. Dos 185 mil hectares homologados e registrados pela União, apenas 20 mil estão ocupados pelos indígenas.

     

    Marãiwatsédé não podia ser vendida, permutada, trocada, cedida, doada ou transferida. Ainda assim, a Assembleia Legislativa do Mato Grosso aprovou, no primeiro semestre deste ano, lei autorizando a permuta da terra indígena com o Parque Estadual do Araguaia – mesmo sem o consentimento e a vontade dos indígenas.

     

    “Nós, Xavante, sempre fomos marginalizados. Para a gente essa decisão é importante, representa uma vitória porque a terra tinha que ser livre. Os Xavante não encontram mais coletas em suas próprias terras”, conta o cacique Damião Padridzane, que era um garoto quando em 1966 partiu num avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para longe de sua terra. O caminho de volta, agora, está mais perto de se completar.

     

     

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  • 17/10/2012

    MPF/MA quer que a União regularize o atendimento médico aos índios do município de Zé Doca

    O Polo Base de Saúde Indígena da região foi interditado por conta da precariedade das instalações

     

    O Ministério Público Federal no Maranhão (MPF/MA) propôs ação civil com pedido de liminar contra a União pelas condições precárias de funcionamento do Polo Base de Saúde Indígena no município de Zé Doca. Os problemas identificados no local levaram a Vigilância Sanitária a recomendar a interdição das unidades do Polo Base, prejudicando o atendimento médico de três etnias indígenas que vivem em aldeias da região.

     

    Em auditorias realizadas pelo Ministério da Saúde e Vigilância Sanitária foram verificados problemas no Polo Base de Saúde Indígena de Zé Doca, tais como: precariedade na estrutura física, medicamentos e fornecimento de refeições insuficientes (os indígenas em atendimento médico recebiam apenas o almoço como refeição diária).

     

    A situação é a mesma nos postos de saúde das aldeias próximas ao município e vem se estendendo desde 2009, quando o Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (Denasus) identificou não haver condições físicas e materiais de atendimento aos indígenas da região.

     

    Os problemas do Polo Base de Zé Doca foram fonte de constantes reclamações dirigidas ao Ministério Público Federal. Diante da situação, o MPF cobrou providências da União e Funasa (antiga responsável pela atenção básica à saúde indígena) e, após levantamento feito pelo Distrito Sanitário Especial Indígena do Maranhão (Dsei), o MPF foi informado de que, em 2011, a Funasa realizou uma “expressiva reforma no Polo base de Zé Doca”.

     

    O MPF solicitou, então, nova vistoria no Polo Base de Zé Doca, que foi feita em julho deste ano, pela Vigilância Sanitária Estadual. Na visita, a Vigilância Sanitária constatou novamente precárias condições de funcionamento do local, recomendado a interdição do Polo Base. Para o MPF, a recente vistoria comprova que a reforma realizada pela Funasa foi insuficiente, ou houve medição inverídica dos serviços realizados.

     

    Na ação, o MPF requer, liminarmente, que a União seja obrigada a adequar a estrutura física do Polo Base de Zé Doca e postos de saúde a ele pertencentes, bem como regularizar o fornecimento de medicamentos e refeições. Ao final da ação, requer que a União seja obrigada a elaborar um plano de reestruturação do Polo Base e executá-lo no prazo de 360 dias, com relatório conclusivo feito pelo Denasus, que deverá destacar as medidas implementadas pela União e o grau de adequação das mesmas.

     

    Assessoria de Comunicação

    Procuradoria da República no Maranhão

    Tel.: (98) 3213-7100

    E-mail: [email protected]

     

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  • 17/10/2012

    Por que Kamña matou Kiña?

    “Não restam dúvidas de que o Governo Militar, utilizando-se de aparatos bélicos e em favor de interesses privados, cometeu o genocídio dos Waimiri-Atroari”. Essa é a conclusão do Comitê Estadual da Verdade sobre a ação do Estado Brasileiro contra esse povo indígena por ocasião da abertura da rodovia BR-174 (Manaus-Boa Vista), iniciada na década de 1960 e que resultou na redução de três mil, em 1972, para pouco mais de 300 indivíduos em 1986.

     

    Bombas, metralhadoras, armas de todos os calibres e doenças contagiosas foram usadas pelos agentes do Estado Brasileiro nas incursões para aniquilar os Waimiri-Atroari. “É injustificável a ignorância brutal dos governos militares. Na primeira resistência dos indígenas contra a construção da estrada, eles interpretaram que os índios estavam usando tática de guerrilha”, destacou Gilney Viana. Viana representava a psicanalista e escritora Maria Rita Khel, membro da Comissão Nacional da Verdade, no lançamento do 1º Relatório do Comitê Estadual da Verdade, hoje, 17/10, pela manhã em Manaus no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB, Secção Amazonas.

     

    Ele destacou também que as ações do Estado Brasileiro foram ”sistemáticas e militarizadas” contra os indígenas, não só nos acontecimentos envolvendo os Waimiri-Atroari, mas também contra os Suruí (RO), Kaiowá (MS), Avá Canoeiro (TO), Kaiapó (PA) e outros.

     

    O indigenista Egydio Schwade, membro do Comitê Estadual da Verdade, sustentou que a abertura da rodovia BR-174 não foi iniciativa das populações do Amazonas ou Roraima. “A abertura da estrada era de interesse só dos grupos econômicos interessados na exploração dos recursos naturais existentes na região”, disse. A demarcação e homologação da terra indígena Waimiri-Atroari aconteceu em 1989, deixando de fora uma grande área que interessava à empresa Mineração Taboca, do grupo Paranapanema.

     

    Schwade considera que a divulgação dos fatos relativos ao massacre ao povo Waimiri-Atroari é apenas o começo da busca pela verdade sobre o tratamento dispensado aos povos indígenas do Amazonas. “Eu tenho esperança de que comece uma nova história do Amazonas”, disse. Ele e sua esposa, Doroti Alice Muller Schwade, falecida há cerca de dois anos, integrantes do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e Operação Anchieta (OPAN), conviverem entre os Waimiri-Atroari nos anos 80 e foram expulsos em 1987 por terem denunciado a violência contra os indígenas.

     

    Graças aos depoimentos e relatos por meio de desenhos e pinturas feitos por alguns dos sobreviventes eles contribuíram para esclarecer como os massacres aconteceram. “Foi assim tipo bomba, lá na aldeia. O índio que estava na aldeia não escapou ninguém. Ele veio no avião e de repente esquentou tudinho, aí morreu muita gente. Foi muita maldade na construção da BR-174. Aí veio muita gente e pessoal armado, pessoal do Exército, isso eu vi. Eu sei que me lembro bem, tinha um avião assim um pouco de folha, assim, desenho de folha, um pouco vermelho por baixo, só isso. Passou isso aí, morria rapidinho pessoa”, relatou a um veículo de imprensa Viana Womé Atroari.

     

    Legião de invisíveis – “A ditadura foi além dos casos de pessoas que morreram e tiveram visibilidade. Muitos desapareceram, mas seus nomes não constam nas listas oficiais de vítimas da repressão que estão em poder da Comissão Nacional da Verdade”, disse Gilney Viana. Os indígenas estão entre as vítimas da ditadura que não aparecem. “O Estado Brasileiro tem a obrigação de explicar por que Kamña matou Kiña? Ou seja, Por que os brancos mataram os Waimiri-Atroari”, finalizou Egydio Schwade.

     

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  • 17/10/2012

    Guarani: indígenas retomam mais fazendas em Potrero Guasu e temem ação de pistoleiros

    Por Ruy Sposati,

    de Brasília

     

    Cerca de 160 famílias Guarani retomaram mais 2 mil hectares de terras do tekohá – território sagrado – Potrero Guasu, no município de Paranhos, Mato Grosso do Sul, na divisa com o Paraguai. A retomada ocorreu na manhã do último sábado, 13. Em setembro, os indígenas já haviam retomado cerca de mil hectares de uma das três fazendas da área.

     

    Na terça-feira, as famílias realizaram um mutirão para a construção de barracos de moradia. "Quando nós entramos, ainda não tinha nada. Ontem montamos tudo", conta a liderança indígena guarani Elpídio Pires. "De noite fomos atacados. Foi com tiro. A gente tava no barraco, mas aí voltou para o outro acampamento. Não sabemos se alguma coisa foi destruída", relata. Segundo Elpídio, os pistoleiros não puderam ser identificados. Ninguém ficou ferido.

     

    "Informamos a Funai. Estamos aguardando a chegada da Força Nacional. Cada dia aumenta o número de famílias aqui e temos medo do que pode acontecer. Até o momento não chegou ninguém", conclui.


    No total, os Guarani – ou Nhandeva, como também se autodenominam – reivindicam cerca de 4 mil hectares de terras, invadidas por fazendeiros na década de 1960 – quando foram expulsos e passaram a viver em outra aldeia, em Paranhos – e já declaradas como território indígena desde 2000.  Potrero Guasu tem a demarcação questionada por colonos e fazendeiros na Justiça, mas com decisão favorável à ocupação pela Procuradoria Regional da República da 3ª Região, em São Paulo.

     

     

    Fotos: Lunaé Parracho

     

     

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