• 03/06/2013

    Marcha indígena, quilombola e camponesa tem início no Mato Grosso do Sul

    JORNADAS UNITÁRIAS DE LUTA EM MS: pela demarcação das terras indígenas e quilombolas, reforma agrária, contra o capital e pela soberania popular. Organizada pelos movimentos sociais populares de Mato Grosso do Sul, a marcha desde Anhanduí, 60 km de Campo Grande, se iniciou hoje de manhã, 3 de junho, com aproximadamente 1000 pessoas.

     

    A mesma se realiza num momento histórico e estratégico da luta dos Povos da Terra no MS, em que os indígenas e em especial o Povo Terena decidiram dizer basta às mentiras do Estado e Governo brasileiros, e à violência incentivada com o silencio conivente do Governo do Estado, inimigo declarado dos povos indígenas de Mato Grosso do Sul. E, num momento em que os nativos somam mais um mártir na luta pela terra e território no Estado, com a morte do índio terena Oziel Gabriel, durante uma reintegração de posse na Terra Indígena Buriti, a semana passada.

     

    A marcha dos Povos da Terra, junto com os estudantes, militantes de sindicatos, entidades e organismos de defesa dos direitos humanos, é para reivindicar a demarcação das terras indígenas, titulação e demarcação dos territórios quilombolas e exigir a reforma agrária que esta totalmente parada no Estado.

     

    Além disso, a marcha tem um caráter político de grande importância por conta que os movimentos sociais no Estado têm avançado num processo unitário importante, valorizando a unidade entre indígenas, camponeses e quilombolas, diretamente enfrentados ao agronegócio e latifúndio, à violência e a desterritorialização provocada pelo agro capital, sendo as principais vítimas os legítimos donos das terras nesta parte do país.  

     

    O poder econômico e político, as transnacionais, o Governo Federal e Estadual, segundo os organizadores das Jornadas de Luta, têm usado como o argumento um império ideológico inserido em frases como: “os indígenas têm que se integrarem à economia nacional”, falácias como “o desenvolvimento não pode parar”; “reforma agrária já foi feita, agora precisa melhorar os assentamentos”, etc. Assim esse mesmo império, com os mesmos argumentos, defende o indefensável: uma “economia urbanoide” para esvaziar os campos e as terras e deixá-los nas mãos de investidores e invasores estrangeiros, das transnacionais da monocultura, dos agrotóxicos, e das financeiras agropecuárias. E pior de tudo isso é que esses pacotes devem avançar a qualquer custo, ainda se custar à própria vida, cultura e os modos peculiares de vida dos indígenas, camponeses e quilombolas, fundamentalmente. O Tribunal Popular da Terra, um dos organizadores da marcha tem sido um dos espaços mais importantes nos dois últimos anos desse processo de articulação, diálogo e unidade dos Povos da Terra no Estado.

     

    A marcha que se iniciou hoje vai durar quatro dias, sendo que o objetivo, além de dar visibilidade à problemática fundiária no Estado, dará lugar para momentos de estudos e formação política dos participantes da marcha, que vem pela BR 163. Os movimentos sociais do campo entendem que a construção da unidade não é uma mera retórica de discursos e sim um processo que tem que ser construído e demonstrado sobre tudo na pratica se for verdadeira.

     

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  • 03/06/2013

    ‘Programa de índio’: preconceito, sim senhor!

    Jairo, dos Munduruku do Tapajós, fora incisivo em seu depoimento no simpósio promovido por equipe da Universidade Federal do Pará, no dia 17 de maio, em Altamira: ‘índio não quer ser peça de museu, quer ser um povo vivo!’.

     

    Seu grito soa como uma profecia! Alguém que se move e esperneia frente à ameaça de extinção pela prepotência do Capital, materializado em nomes e endereços reais e concretos. O projeto neocolonial em implantação na Amazônia, com expansão intensiva do capitalismo a qualquer custo, é uma salada mista com vários ingredientes, entre os quais se destacam a força bruta, a pressão psicológica, a cooptação e o preconceito.

     

    A Transamazônica fora aberta pela força bruta, no sentido literal, durante a Ditadura Militar. O slogan era ‘terra sem homem para homem sem terra’. Claro! Os indígenas, habitantes dessas florestas, não eram considerados ‘homens’ nem gente.

     

    Um morador de Altamira, orgulhoso de ter sido caçador à época, levanta a camisa e mostra as marcas da flechada, que lhe perfurara a barriga, deixando aquela horrível cicatriz. Quem eram esses tais caçadores? O que exatamente eles faziam? Eram ‘profissionais’ conhecedores dos segredos da floresta, em geral amigos dos indígenas, contratados pelos militares aparentemente para lhes garantir a ‘mistura’ com carne de caça. Só aparentemente, pois a verdadeira função deles, e aí está a força brutal, era caçar indígenas, tangê-los – como se faz com gado – e matá-los, sem dó nem piedade, ao menor sinal de resistência. Assim, abriam caminho para a estrada em meio à floresta, quebrando a resistência da flecha com o peso da bala.

     

    A recente ‘expedição de estudos’ no Tapajós, por sua vez, é um típico exemplo de pressão psicológica, igualmente brutal. Usa-se o máximo de força para encontrar-se o mínimo de resistência. Ela contara com quase 200 policiais armados com o intento de garantir estudos que ‘tinham que ser feitos’ na cheia do rio para fins de implantação de barragem.

     

    Essa expedição obtivera êxito do ponto de vista do Capital – ‘cumprindo rigorosamente o cronograma’, como afirmara o governo -, mas deixara um rastro de indignação entre os Munduruku, que colocaram, de uma vez por todas, as barbas de molho. E reagiram! Ocuparam o canteiro de obras de Belo Monte, entre os dias 2 a 9 de maio, quando o deixaram, forçados por uma liminar de reintegração de posse. Em vista do completo descaso do governo e Norte Energia em ouvi-los, ocuparam de novo o canteiro da barragem no dia 27 de maio, agora por tempo indeterminado.

     

    A Força Nacional que, em Belo Monte, praticamente mora no canteiro de obras, também é um mau exemplo do uso escancarado da pressão psicológica estatal em prol do privado.

     

    Essa demonstração de força, ainda que como sinal de fraqueza, tem um efeito perverso sobre as pessoas. Um morador próximo à Comunidade São Francisco, no km 27, disse que ‘os policiais passam por ali todos os dias’. É claro que os operários, confinados e revistados em cada entrada e saída, padecem ainda mais.

     

    Um terceiro ingrediente é a tática do espelho, que continua como forma de cooptação, naturalmente agora com propostas e objetos mais sofisticados. Quinhentos milhões servem de entretenimento para políticos dos onze municípios da área de influência de Belo Monte. Como cães caçadores, disputam entre si os pequenos fiapos de carne no terreiro dos palácios. Dão-se por satisfeitos, às vezes, pois, historicamente, não tinham nem os ossos. Porém mesmo as migalhas, como carga transportada em caminhão descoberto, caem pelo caminho, deixando o povo apenas nas promessas. É comum ver-se a placa que garantiu o voto e os papéis da formalidade de Belo Monte, mas não a obra.

     

    Porém, de todos os ingredientes dessa salada promíscua do público-privado, num arranjo bem engendrado, o mais nefasto, no último período, caindo como um golpe mortal sobre os indígenas, tem sido o preconceito. Norte Energia e governo partem do princípio de que eles não têm capacidade organizativa e não conseguem escrever nem uma carta para expor seu ponto de vista.

     

    Esse preconceito recai por tabela sobre os não-índios. O tratamento que deveria ser especial ao indígena, mas que se torna preconceituoso, se revela, na prática, como proibição ao não-índio de manifestar-se. Diante até de boatos, eles sofrem interditos proibitórios e, durante as manifestações indígenas, os não-índios são investigados pela Polícia Federal e Civil, acreditando que, assim, atingem o cérebro da organização.

     

    A pergunta há mais de 500 anos era se o selvagem tinha alma. Essa não é muito diferente dos questionamentos e comentários existentes hoje. De qualquer forma, o objetivo é o mesmo, lá e aqui: criar as condições objetivas para a dominação, o massacre, a completa extinção. O preconceito é o primeiro passo para dizimar-se um povo. É nesse contexto que o grito de Jairo no dia do simpósio se revela como profecia. Por trás da frase ‘índio não quer ser peça de museu’ está o pressentimento dos povos da floresta de que governos e empresas estão dispostos a reduzi-los à figura estereotipada do índio puro, exótico, folclórico, que não obstrui o avanço do Capital. Incorporação sim, obstrução não!

     

    A história é farta desses exemplos. Povos dizimados intencionalmente, como por ironia, ainda são homenageados pelos dominadores, colocando seus nomes em suas mercadorias reais ou mercadorias em potencial. Assim os Aimorés se transformam em marca de biscoito e, os Guarani, em aqüífero.

     

    Nessa disputa ferrenha entre o canhão, alimentado por uma voracidade sem fim, e a flecha, firmada numa cultura mais que milenar – com suas contradições normais, mas com princípios e valores de uma importância inegável -, rompem-se os túmulos da história, e dos sepulcros caiados ressurgem posições carregadas de preconceito. Guerra é guerra, e os inimigos dos povos não mandam flores.

     

    O mito da malvadeza indígena, dos eternos canibais, ganha força entre o povo. Uma bondosa mulher em Minas Gerais, quando soubera de nossa viagem em missão ao Pará, em setembro de 2011, fizera um comentário inocente, mas carregado de preconceito:  

     

    – Você não tem medo dos índios?

    Respondi-lhe, prontamente:

    – Não! Nosso medo é dos inimigos dos índios.

     

    É isso que se planta sobre os indígenas na cabeça do povo brasileiro! E quem tenta contrapor-se a essa ideia, como o faz o CIMI, é colocado de lado, ou é vítima de calúnias para deslegitimar o seu trabalho.

     

    Entre a população de Altamira e arredores, reascendem-se, também, os comentários maldosos: ‘índio não trabalha, ele não precisa de tanta terra!’. E todo mundo tem um caso para contar.

     

    Em Brasil Novo, cidade a 45 km de Altamira, um colono simples disse: ‘onde morava, em Pernambuco, iam índios lá em casa pedir qualquer coisa. De uma feita, chegaram dez e, para testá-los, pedi que buscassem lenha. Cada um trouxe um graveto de nada, como se fosse Guaxo para fazer ninho’. E o colono ria que só!

     

    No Km 18, sentido Altamira/Marabá, bem próximo ao canteiro de obra de Belo Monte, lideranças da comunidade acolheram os Munduruku, que ficaram ali até o dia 26, véspera da segunda ocupação da barragem no mês de maio. O comentário geral na Vila foram os mais absurdos: ‘eles vão expulsar daqui todos os não-índios; o pessoal está aborrecido com as lideranças, que não deviam ter acolhido essa gente; eles estão até ameaçando pessoas na porta’.

     

    Ainda bem que os que participam mesmo da comunidade não deram ouvidos a essas conversas.  E puderam degustar, com seus próprios olhos e ouvidos, de uma sabedoria ímpar. Durante todo o domingo ficaram reunidos, atentos, debatendo os seus problemas, prontos a enfrentar seus desafios. À noite, jovens indígenas tocaram violão e cantaram hinos na comunidade.

     

    Essa ressurreição do preconceito, como uma doença crônica cuja ferida, cicatrizada por cima, na superfície, começa a abrir-se e sangrar, doendo terrivelmente, tem relação com o antigo e bem arquitetado plano de colonização da Amazônia e do Brasil inteiro.

     

    Hoje ninguém afirma que o índio não tem alma. Isso porque hoje, do ponto de vista da exploração, ter ou não ter alma não significa absolutamente nada. Os capitalistas, por exemplo, não têm ‘alma’, e tem-se dado muitíssimo bem nos seus negócios. Ao menos nos seus negócios!

     

    Não se diz, então, que o índio não tem alma. Mas se planta e se reaviva o preconceito contra o indígena, pois esse, sim, faz muita diferença; o preconceito cai na boca do povo, ganha a sociedade, e forma a platéia que irá bater palma, aplaudir, e votar em quem provoca, hoje, o genocídio indígena. O preconceito faz um milagre às avessas, transformando vítimas em bandidos. O preconceito, hoje, quebra as pernas e a resistência dos nativos. Jairo tem razão! Nessa conjuntura – que vai pra muito além do governo, mas que tem a sua participação ativa -, os indígenas estão condenados a virar peça de museu.

     

    Com o início da construção de Belo Monte, muitos indígenas perambulam pelas ruas de Altamira. Alguns em situação de pedinte, ou, lastimavelmente, entregues ao alcoolismo e, mesmo, a outros tipos de droga. Por quê? A qualidade de vida nas aldeias, a despeito dos discursos e das bugigangas, vem piorando. A casa do índio em Altamira, com capacidade para receber 80 pessoas, fica abarrotada, com até 180 pessoas. Se a serpente chega e mexe no ninho do pássaro, atacando-lhe os ovos e os filhotes, é normal que saia voando por aí, perdido, sem rumo. E fique totalmente vulnerável a outros predadores. É isso que está ocorrendo com os indígenas. O próprio abandono faz parte do jogo, pois gera mais preconceito, o que os fragiliza.

     

    A correlação de força, no momento, é desfavorável para qualquer povo em luta. Essa situação piora se empresas e governos, além das armas, têm uma sociedade carregada de preconceito. Um time fraco tem boas chances de vitória com uma boa torcida. Num time já forte, como é o caso de Belo Monte, com um orçamento superior a 30 bilhões de reais, e com uma conjunção de esforços do capital privado e estatal – significando que, no limite, eles têm a seu favor a Justiça e as armas -, suas chances crescem, astronomicamente. É uma situação covarde, de fuzis sofisticados contra arcos e flechas. Mas é a realidade.

     

    Está evidente que a pressão sobre as terras indígenas especialmente na Amazônia vai continuar crescendo. O que está em disputa é muito mais que Belo Monte, no Xingu, e Teles Pires, no Tapajós. O agronegócio, as mineradoras, as empresas da área de energia não vão lhes dar sossego até abocanhar tudo e sugar a última gota de sangue da Amazônia, e dos seus diferentes povos.

     

    Cá na ponta, governos/empresas e indígenas se enfrentam, numa disputa desigual. No Congresso e no Senado, tramitam os Projetos de Emendas à Constituição; direitos incorporados a duras penas, com esforço do CIMI e outras entidades, agora podem cair por terra, pois o Capital, que tem nome e endereço, é insaciavelmente faminto. Dentre os 513 deputados que compõem o Congresso, menos de 5, se muito, teriam coragem de posicionar-se a favor dos indígenas, dar sua cara a tapa, correndo o risco de perder o financiamento de sua campanha e não se reeleger no próximo pleito.

     

    A banda segue tocando, numa criminosa harmonia. Entidades e lutadores históricos  aparelharam-se, contagiados pelo canto da Sereia, repetindo o mesmo refrão de que o sacrifício de alguns seria para o bem de todos. Uma falácia! Muitas associações, sindicatos e outras entidades, as mais diversas, estão ainda calados, ou acuados, vendo a banda passar.

     

    Em cumprimento de reintegração de posse ontem, 30 de maio, na fazenda Buriti, em Campo Grande, a Polícia Federal e Militar mataram um indígena, dos Terena, de 36 anos, e feriram outros quatro. Em Belo Monte, indígenas de diversas etnias, liderados pelos Munduruku do Tapajós, permanecem no canteiro de obras desde o dia 27 de maio apesar de Liminar de reintegração de posse. O risco de conflito é iminente! Um amigo nosso, profundo defensor e conhecedor dos povos indígenas, disse que os ‘caciques’, lideranças políticas, retiraram-se do campo de batalha, e ficaram os guerreiros, sinal evidente de que pretendem resistir. Quantos mais ainda haverão de morrer?

     

    Essa banda doida tem maestros loucos – ou melhor, segue no ritmo capitalista -, que apostam tudo nos cifrões e num projeto de poder sem projeto de nação duradouro.  Há que se tocarem notas destoantes – muitas, e com muito mais força! – na flauta do indígena, na linha do pescador, na mente do operário, no coração do povo, nas trincheiras da história, até jogar por terra o ‘senhor preconceito’. Os diferentes povos têm direito à sua autodeterminação, decidindo o que é melhor para os territórios onde moram e para suas vidas, e para o país; e o povo não pode sobreviver do farelo do pão já que é ele que planta o trigo, amassa e assa o pão inteiro.

     

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  • 03/06/2013

    Povo Apolima-Arara retoma área de terra indígena demarcada em 2011

    Por Renato Santana,

    de Brasília (DF)

     

    O povo Apolima-Arara retomou na noite deste domingo, 2, área da Terra Indígena Arara do Alto Rio Juruá, Acre, demarcada em 2011 com pouco mais de 21 mil hectares. Desde então, o governo federal não apresentou sequer um plano para iniciar a retirada dos invasores. As informações são da liderança Chiquinho Arara.   

     

    A área retomada é reconhecida pelos Apolima-Arara como aldeia Quieto, parte da terra indígena localizada no pequeno município de General Taumaturgo. Os indígenas estão acampados na escola e iniciaram a construção de moradias. Por enquanto, nenhum incidente de conflito com os ocupantes não indígenas foram registrados.

     

    Conforme Chiquinho Arara, os Apolima-Arara cansaram de esperar e decidiram eles mesmos fazerem a retomada. Durante este ano e o ano passado, a liderança esteve ao menos duas vezes em Brasília para tratar da situação do povo. Durante a Cúpula dos Povos, em junho de 2012, no Rio de Janeiro, denunciou a morosidade do governo em devolver as terras a seu povo.

     

    O grupo é composto por 475 indígenas que até esta retomada viviam em menos de 10 mil hectares do total de 21 declarados como de ocupação tradicional. Os Apolima-Arara ocupavam apenas terras em uma das margens do rio Amônia, afluente do rio Juruá, e com a retomada passaram para o outro lado do rio.  

     

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  • 03/06/2013

    Terena relatam terrorismo a que estão submetidos no conflito da Terra Indígena Buriti (MS)

    Por Karina Vilas Bôas,

    de Sidrolândia

     

    Oziel Gabriel, assassinado pela PF na Terra Indígena BuritiNos últimos dias o Brasil parou e voltou os seus olhos para Mato Grosso do Sul, por causa do conflito entre indígenas e forças policiais na fazenda Buriti, no município de Sidrolândia, muito se noticiou a respeito, mas poucos veículos de imprensa realmente retrataram a dor e o terrorismo que os Terena estão vivenciando neste conflito, por isso os movimentos sociais se uniram, tiveram a ideia de lançar a “outra face da história” e após conseguirmos colher vários materiais, estamos retratando um pouco dessa grande história de luta pela terra em um Estado latifundiário, onde a concentração de riqueza nas mãos de poucos, faz com que a desigualdade seja cada vez maior.

     

    A fazenda Buriti está em área reivindicada pelos índios em um processo que se arrasta há 13 anos. A Terra Indígena Buriti foi reconhecida em 2010 pelo Ministério da Justiça como de posse permanente dos índios da etnia Terena. A área de 17,2 mil hectares foi delimitada, e a portaria foi publicada no Diário Oficial da União. Mas até hoje a Presidência da República não fez a homologação. O relatório de identificação da área foi aprovado em 2001 pela presidência da Funai (Fundação Nacional do Índio), mas decisões judiciais suspendem o curso do procedimento demarcatório.

     

    Nesta sexta-feira (31), um dia após o confronto com a Polícia Federal e Militar, o clima na área das 9 aldeias em Sidrolândia era de muita tenção, aviões sobrevoando a área o tempo todo, avisos de que as forças policiais podem retornar. Essa é a realidade que cerca de 3.800 indígenas terenas estão vivendo. Um dia após o conflito os indígenas resolveram voltar para as terras da fazenda Buriti e continuar a luta pelos seus direitos, principalmente por causa do assassinato brutal do jovem, Oziel Gabriel, de 35 anos, que levou um tiro no estômago e das 28 pessoas que ficaram feridas. Detalhe importante o indígena guerreiro, como é chamado pela comunidade, Gabriel, foi morto fora da terra invadida, onde estava acontecendo o confronto propriamente dito, foi assassinado em terra homologada, o que mostra claramente que a tentativa de reintegração foi desastrosa.

     

    As entrevistas dessa reportagem foram concedidas na aldeia 10 de maio, que fica ao lado da fazenda Buriti, onde se encontra as mulheres e crianças dos guerreiros que permanecem na área de conflito e também é o local das reuniões das lideranças indígenas com a comunidade.

     

    Os relatos deixam claro que a “tentativa” de retomada de posse da fazenda Buriti foi um desastre, todos os indígenas contam a mesma história, sem mudar uma vírgula. “A policia chegou e foi uma verdadeira guerra. Eles chegaram atirando, descendo bala, com muito gás lacrimogêneo e violência. Não teve diálogo, eles nem conversaram”, afirma um dos caciques que está com medo de se identificar, pois foi uma das lideranças presas no dia do confronto.

     

    Segundo o cacique, Genilson Samuel, a luta continua, pois após 13 anos eles não tinham outra saída. “Essa luta nós decidimos que não vai parar, o sangue que correu aqui nessas terras, a vida que eles levaram do nosso irmão está doendo, não vai sarar, ficou para sempre no nosso coração, não há justiça que tire essa dor, tá sangrando por dentro. A justiça não vê o nosso lado, pensa que somos animais, nós temos direito a terra, tá comprovada que é nossa e vamos continuar lutando por ela”, afirma.

    Para o indígena, Alberto Terena, a situação é de muita revolta. “Nós estamos em busca do direito do povo, eu luto e dou minha vida por este direito, nós estamos sendo massacrados, temos a carta declaratória que comprova que a terra é realmente nossa, nessa questão parece que o estado brasileiro não que nos enxergar. Nós estamos pedindo um pedacinho da grandeza desse nosso país, tem espaço para todos neste Brasil, inclusive para o agronegócio, o que nós queremos é nosso por direito e vamos continuar lutando, resistindo, é o nosso povo que precisa continuar a sua história pelas novas gerações, nós queremos o nosso território demarcado”, disse.

     

    O cacique Basílio Jorge, que foi machucado no confronto, denuncia que o poder público os trata como animais, bichos e que não têm respeito. O indígena assassinado, Oziel Gabriel, era sobrinho de Basílio. "Eu cheguei à área da retomada no momento da guerra, já estava pipocando a coisa. Nossos parentes disseram que o delegado desceu do carro e já foi metendo bala. Não teve diálogo, não teve conversa. Não procuraram saber se íamos sair ou não. Quando foi uma hora e pouco de tensão recebemos a notícia do outro grupo que meu sobrinho tinha recebido um tiro no estômago e isso é muito triste", declara.

     

    Já a professora terena, Amélia Firmino, relatou o seu sentimento como mulher e mãe, que está fazendo de tudo para proteger as crianças e os anciões dos conflitos. “Nós estamos sofrendo muito, tem muita dor, é uma ferida que se abriu e não vai cicatrizar. A perda desse irmão não é uma derrota, ele não foi morto em vão, nós vamos, em sua memória continuar a nossa luta pelos nossos direitos e estamos aqui, na aldeia 10 de maio, ao lado da fazenda Buriti, protegendo as nossas crianças e os nossos anciões, para que eles não sofram tanto com este conflito ”, ressalta.

    Assista entrevista com o cacique Basílio Jorge sobre o terrorismo de Estado contra os Terena da Terra Indígena Buriti 

     

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  • 03/06/2013

    Indígenas ocupam sede do PT e bloqueiam rodovias no Sul

    Aproximadamente 30 indígenas da etnia Kaingang ocuparam o escritório sede do Partido dos Trabalhadores (PT), na manhã desta segunda-feira (03), em Curitiba. A mobilização teve início às 7h30.

    O motivo da ação diz respeito às últimas declarações realizadas pelo PT através da ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) ao pedir para o Ministério da Justiça a suspensão de estudos da Fundação Nacional do Índio(Funai) para a demarcação de terras indígenas no Paraná. A decisão foi tomada depois que a presidente Dilma Rousseff determinou à Casa Civil que analisasse a situação das demarcações de terras indígenas no país, que está criando tensões entre ruralistas e índios em vários estados.

    Além desta ação no Paraná, os estados de Santa Catarina (SC) e Rio Grande do Sul (RS) aderiram ao movimento. Na RS-480, aproximadamente 600 indígenas das etnias Kaingang e Guarani bloquearam a passagem de veículos, e na RS-343, cerca de 300 indígenas ocupam neste momento o local.

    Contatos para entrevista: Rio Grande do Sul – Deoclides de Paula: 54 9658-9902

    Curitiba -Cretã Kaingang: 41 9699-0521

     

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  • 01/06/2013

    Os povos indígenas e as terras que tradicionalmente habitam

    Os processos de demarcação das terras indígenas têm reacendido a polêmica sobre o que sejam “terras tradicionalmente ocupadas” pelos mais diversos povos indígenas brasileiros. No Rio Grande do Sul essa polêmica vem sendo mobilizada, de um lado, a partir de uma interpretação do Artigo 231 da Constituição Federal, qual seja, a de que as terras resguardadas pela Constituição seriam aquelas que os indígenas estariam ocupando na data de promulgação da Lei. Tal entendimento se vale da conjugação do verbo “ocupar” no tempo presente (terras que tradicionalmente ocupam) e, assim sendo, a data de 1988 seria o marco que separa o que pode ou não ser demarcado como terra indígena.

     

    No outro lado da polêmica situam-se aqueles que interpretam o Artigo 231 da Constituição valendo-se do qualificativo “tradicional”, ligado ao verbo ocupar. Aliás, o termo “ocupação tradicional” refere-se a formas não ocidentais de entendimento do que seja estar lá, habitar, compartilhar, marcar a presença e o pertencimento a um território e, mais ainda, refere-se ao significado (sempre distinto) da territorialidade indígena.

     

    Observe-se que, na primeira intepretação, vale a presença física dos índios sobre a terra (sua posse, sua ocupação concreta) e, na segunda, vale o sentido atribuído a esta ocupação da terra, bem como as relações com ela estabelecidas, o fato de se pertencer a ela, o sentimento de ser “um fio” na complexa trama de relações que ocorrem numa terra e não o sentimento de possuí-la. É por isso que, para os indígenas, não é qualquer terra que pode e deve ser demarcada, mas aquelas em que existe “tradicionalidade” na ocupação.

     

    Neste sentido, em qualquer procedimento de identificação e delimitação das terras indígenas é imperiosa a presença de antropólogos (aqueles que dominam um campo de saber acadêmico/ científico específico e que estão respaldados por ferramentas teórico-metodológicas capazes de proceder uma leitura não simplista das formas de pensar indígenas). Não se trata, portanto, de mero procedimento burocrático, nem de um espaço de  “divagações  vazias” e de expressão de interesses de “ongueiros” e sim de um procedimento referendado no saber científico. Assim como em um diagnóstico médico é imprescindível a participação de um especialista (médico), na realização de um diagnóstico étnico requer a participação de um especialista (antropólogo).

     

    A polêmica sobre o conceito de ocupação (e de pertencimento) dos indígenas a um território, e a ideia de que o direito se refere apenas a efetiva presença naquele local no ato da promulgação da Constituição Federal, faz pensar na condição dos exilados políticos de outros tempos. Quando, nos terríveis “anos de ferro” da ditadura militar brasileira, dezenas de pessoas foram condenadas ao exílio (incluindo-se aí ilustres políticos), a expulsão de sua terra (o Brasil) não significou interrupção da noção de a ela pertencer.  De tal sorte que, quando as condições se tornaram oportunas e a presença na terra não mais representava um “decreto de morte”, estes exilados regressaram e foram recebidos como verdadeiros brasileiros, como sobreviventes de um modelo cruel, irracional, autoritário e vergonhoso.

     

    Não é intrigante que a condição de exílio dos indígenas (forçados a deixar suas terras, que foram usurpadas, loteadas, vendidas a agricultores) seja hoje questionada? Não é espantoso que se pense que a expulsão dos povos indígenas (com a força das armas e de um modelo unilateral de desenvolvimento) seja utilizada como argumento para defender a “perda”  do direito tradicional sobre suas terras? Mais paradoxal ainda é a polêmica protagonizada hoje, por exemplo, por parlamentares e membros do poder Executivo que, mesmo não estando “aqui” durante um período autoritário e ditatorial,  reconquistaram o direito de retomar a tradicional vinculação com sua terra natal e são brasileiros o bastante para ocupar altos postos d o governo, para representar os cidadãos e suas demandas.

     

    Assim, aos índios, nos cabe também o reconhecimento de que sua expulsão (ou exílio) das terras que ocupavam não inviabiliza o reconhecimento da tradicionalidade desta ocupação.  A demarcação de todas as terras indígenas, além de resguardar um preceito constitucional, será a prova cabal de que nossa noção de democracia inclui o reconhecimento de equívocos de passado e, mais do que isso, que estamos dispostos  a repará-los e promover a justiça.

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  • 31/05/2013

    Povo Terena realiza nova retomada no Mato Grosso do Sul

    Por Renato Santana,

    de Brasília (DF)

     

    Depois da morte de Oziel Gabriel durante reintegração de posse de fazenda na Terra Indígena Buriti na manhã desta quinta-feira, 30, as retomadas Terena continuam no Mato Grosso do Sul. Na madrugada desta sexta-feira, 31, indígenas ocuparam três mil hectares de um total de 12 da Fazenda Esperança, município de Aquidauana, a 140 quilômetros da capital Campo Grande.

     

    A área faz parte da Terra Indígena Taunay/Ypeg, vizinha a Terra Indígena Buriti, reivindicada pelos Terena e já identificada com 33 mil hectares de terra de ocupação tradicional. A fazenda estava vazia e até o momento não há notícias de conflitos.

     

    “Essas ações das comunidades (Terena) se devem ao fato de que o governo brasileiro não tem interesse de resolver a questão indígena. As retomadas são nosso último recurso para que as leis e nossos direitos sejam garantidos”, afirma Lindomar Terena.

     

    Quase sete mil indígenas da Taunay/Ypeg vivem atualmente nos seis mil hectares de uma reserva demarcada pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), na primeira metade do século XX, depois de serem retirados de território em que os 12 mil hectares da Fazenda Esperança incidem.  

     

    “A fazenda possui quatro partes: Esperança um, dois, três e quatro. Cada um possui três mil hectares. O proprietário faleceu e as terras ficaram para a filha, uma empresária. Fomos retirados desse território numa época em que isso era tudo Mato Grosso e o Estado distribuía títulos de propriedade para os colonos que por aqui decidissem ficar”, explica o Terena.  

     

    No Brasil, das 1043 terras indígenas, 40 delas – 3,83% – são reservadas, ou seja, demarcadas como reservas indígenas, caso da Taunay/Ypeg, ou dominiais, em situações onde os próprios indígenas compraram suas terras tradicionais. Depois da Constituição de 1988, os indígenas passaram a ter o direito de questionar juridicamente a demarcação de tais reservas.  

     

    Conforme a liderança indígena, existem cemitérios e áreas sagradas dos Terena dentro das terras da Fazenda Esperança. No Museu do Índio, no Rio de Janeiro, há um documento, usado nos estudos antropológicos, que atesta a existência de uma aldeia no lugar do que é hoje a Fazenda Esperança.

     

    Sem monocultivos ou criação de gado na fazenda, os Terena preparam a terra para plantações. Lindomar aponta que até o momento a dificuldade de alimentos era grande, na medida em que sete mil indígenas vivem em seis mil hectares.  

     

    “Queremos mostrar que o povo indígena está com um pensamento só. Estamos tristes e revoltados com a morte de Oziel. A Justiça passa a ser injustiça, na prática. Os povos indígenas estão sendo massacrados sem que o Estado assuma o compromisso assumido em leis, como a Constituição e a Convenção 169 da OIT”, finaliza.  

     

     

      

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  • 31/05/2013

    Conselho Distrital de Saúde Indígena de Mato Grosso do Sul – Nota de Repúdio

    O Conselho Distrital de Saúde Indígena do estado de Mato Grosso do Sul/CONDISI-MS, instância de Controle Social da Saúde Indígena, legalmente constituído de acordo com as Leis Orgânicas da Saúde, colegiado permanente e deliberativo, vem por meio desta Nota de Repúdio manifestar-se publicamente a sua indignação e tristeza por mais um guerreiro e líder indígena que foi covardemente assassinado nesta manhã (30/05/2013) no município de Sidrolândia/MS.

     

    Dentre os diversos problemas vividos pelos povos indígenas em Mato Grosso do Sul, a questão territorial tem sido tema de debate pelo CONDISI por entender que é impossível ter saúde e qualidade de vida sem ter assegurado de forma legal e em quantidade satisfatória os territórios tradicionais que foram subtraídos dos povos indígenas em algum momento da história do nosso país. Povos esses que foram confinados em minúsculas áreas pelo Estado Brasileiro em nome do povoamento e do processo da região sul do antigo estado de Mato Grosso. Povos que são partes vivas história e da origem do nosso país não merecem ser tratados como “coisas ou objetos” sem valor e sem respeito pelo Estado Brasileiro, o grande responsável por todos os massacres e violências pelais quais passam os povos indígenas.

     

    Repudiamos a inércia do governo brasileiro que nos últimos anos não tem recebido e nem dialogado com o movimento indígena, e vem provocando por meio dos projetos mirabolantes e truculentos, além de acordos políticos com o agronegócio o genocídio e etnocídio indígena, além de promover através de suas instituições a DITADURA e o desrespeito aos direitos humanos dos povos indígenas.

     

    Campo Grande/MS, 30 de maio de 2013.

     

    Conselho Distrital de Saúde Indígena do Estado de Mato Grosso do Sul

    CONDISI/MS

     

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  • 30/05/2013

    Belo Monte: Indígenas rechaçam proposta do governo e reafirmam: “queremos que ministro venha pessoalmente”

    Por Ruy Sposati,
    de Altamira (PA)

    Após reunião de meia hora com um representante da Secretaria Geral da Presidência da República na tarde desta quinta, indígenas que ocupam Belo Monte reafirmaram a exigência de que o ministro Gilberto Carvalho compareça ao canteiro de obras ocupado desde segunda-feira por cerca de 170 pessoas. Na foto, trabalhador é preso por agentes da Força Nacional ao tentar falar com indígenas.

    Segundo relato de Valdenir Munduruku, o coordenador de movimentos do campo e território da Secretaria Geral, Nilton Tubino, que chegou ao local por volta das 17 h de hoje, apresentou a proposta de que uma pequena comissão de indígenas da ocupação fosse á Brasília reunir-se com o ministro, no dia 4 de junho.

    A proposta não foi aceita, e os ocupantes reforçaram o convite para que Carvalho fosse ao canteiro. “Nós dissemos ao funcionário do governo: nós vamos permanecer acampados, firmes, e pedimos que o ministro venha pessoalmente. Nossa conversa será com todos, e aqui”.

    Tubino disse aos indígenas que por telefone levaria a demanda ao ministro, e que até o final da noite daria uma resposta aos manifestantes.

    Leia também: Trabalhadores acusam policiais de incitarem operários à violência contra indígenas

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  • 30/05/2013

    “Meu irmão levou o tiro do lado em que grupo da PF estava”, denuncia Otoniel Terena; indígenas são presos para dar explicações

    Por Renato Santana,
    de Brasília (DF) 

    Otoniel Terena, irmão de Oziel Gabriel, indígena morto na manhã desta quinta-feira, 30, durante reintegração de posse em área da Terra Indígena Buriti (MS), tem uma certeza: o tiro que matou Oziel partiu de um grupo de policiais federais que tentava retirar os Terena
    da fazenda de Ricardo Bacha incidente no território tradicional. O indígena afirma que o atirador estava entre 10 e 20 metros de Oziel.

    “Meu irmão levou o tiro do lado em que a PF estava. Os policiais se dividiram em três grupos. Eu estava com outros indígenas no lado dos policiais militares; meu irmão do lado da PF. Ouvimos tiros vindos de lá, do lado da PF. Depois vieram carregando o Oziel, para levá-lo ao hospital”, conta com voz embargada Otoniel. A Polícia Federal assumiu ter usado arma letal.

    Além da Polícia Federal, a Companhia de Gerenciamento de Crises e Operações Especiais (Cigcoe), batalhão da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, também atuou na tentativa de reintegração de posse. Outro indígena, Cleiton França, conforme repetidos relatos dos indígenas por telefone, foi atropelado por uma caminhonete da PF. Ele quebrou a clavícula e está internado num hospital de Aquidauana (MS).

    Os 3.500 Terena seguem na área retomada, alvo da reintegração de posse. Foram levados para a sede da Polícia Federal 15 indígenas presos durante a ação. A informação é baseada no levantamento dos próprios indígenas. Conforme o coordenador regional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Flávio Vicente Machado a polícia iria liberar os presos depois de colher depoimentos.

    Otoniel não quer consolo. “Deram um tiro no meu irmão que a bala varou o corpo. Destruiu tudo por dentro. Ele não teve chances de sobreviver”. O indígena afirma que a polícia não negociou: “Chegaram atirando. Pensamos que era arma com bala de borracha. A terra é algo comprovada como nossa. São bandidos. Tudo culpa desse fazendeiro Ricardo Bacha. Ele disse que ia morrer gente e a palavra foi cumprida. Quero Justiça. Polícia matou meu irmão que deixou dois filhos e uma esposa”, diz.

    Conforme relato de indígena que preferiu não se identificar, Ricardo Bacha estava presente entre os policiais militares da Cigcoe, enquanto avançavam sobre os indígenas. “Nossas armas eram pedras e paus. Acontece que a polícia não permitiu a entrada de jornalistas e observadores. Ontem o delegado disse que ia nos notificar, mas não fez isso. Entraram matando; mataram meu irmão e eu quero justiça. Para começar, ficaremos na terra”, frisa Otoniel. 

    O corpo de Oziel está sendo velado pelo povo Terena na aldeia Córrego do Meio, Terra Indígena Buriti. Será enterrado no território em que morreu, declarado indígena e ainda com áreas nas mãos de fazendeiros como Ricardo Bacha, ex-deputado estadual (PSDB) e ex-candidato a governador no estado do Mato Grosso do Sul.  

    Oziel: luta pela terra

    Oziel Gabriel tinha 35 anos e morava na aldeia Córrego do Meio. Deixa uma esposa e dois filhos. Desde cedo lutava pela ocupação da terra tradicional do povo Terena, ao lado do avô. Há dois meses participou da retomada da Fazenda Santa Helena (Córrego do Meio), uma das áreas da Terra Indígena Buriti, declarada com 17.200 hectares, dos quais os Terena ocupam pouco mais de 1 mil. 

    “A esposa está muito chocada, à base de medicamentos. O filho está em desespero. Como faremos justiça? Quando vão punir quem mata índio? A terra é nossa e sempre foi”, encerra Otoniel.

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