• 14/06/2013

    Cimi Regional Sul denuncia a participação de órgãos do Poder Público em manifestações de ruralistas

    O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Sul enviou na tarde desta sexta-feira, 14, carta ao governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, com cópia para o Ministério Público Federal (MPF), denunciando a participação de secretarias estaduais em atos de latifundiários e ruralistas contra a demarcação de terras indígenas.

     

    No documento, o Cimi afirma que os atos dos ruralistas pregam o ódio contra os indígenas e a organização teme pela segurança das comunidades.

     

    “Esses atos têm como fundamento o racismo e o preconceito, algo que deve ser combatido pelo Estado e pela sociedade. Não é aceitável que em pleno século XXI manifestações como essas, que apelam ao racismo contrapondo os direitos, como se fossem atos democráticos [basta ver o cartaz do movimento]”, diz trecho da carta do Cimi Regional Sul.

     

    Leia o documento na íntegra:

     

    Chapecó, SC, 13 de junho de 2013

     

    Sr. Governador do Estado de Santa Catarina

    Raimundo Colombo

    C/C: MPF Chapecó, Joinvile, Florianópolis e Caçador.

     

    Estamos acompanhando com extrema preocupação as manifestações de setores da sociedade contrários aos direitos indígenas. Estas entidades pretendem fazer manifestações em todo o Brasil, inclusive em SC, amanhã. Fomos informados que as SDR, nas regiões onde se localizam as comunidades indígenas, estão empenhadas em apoiar as manifestações com recursos humanos, financeiros e de infraestrutura. Não temos como comprovar tal informação. Esperamos que não seja verdadeira. No entanto, se de fato for, constitui-se num verdadeiro desrespeito a Constituição Estadual que reja em seu “Art. 192. Afirmar que o  “ Estado respeitará e fará respeitar, em seu território, os direitos, bens materiais, crenças e tradições e todas as garantias conferidas aos índios na Constituição Federal.

          Parágrafo Único – O Estado assegurará às comunidades indígenas nativas, de seu território, proteção, assistência social, técnica e de saúde, sem interferir em seus hábitos, crenças e costumes.”

    Esses atos têm como fundamento o racismo e o preconceito, algo que deve ser combatido pelo Estado e pela sociedade. Não é aceitável que em pleno século XXI manifestações como essas, que apelam ao racismo contrapondo os direitos, como se fossem atos democráticos [basta ver o cartaz do movimento].

    Tememos pela segurança dos indígenas, uma vez que os atos inflamam setores socais a se posicionarem contra esses povos.

    Considerando que é dever do Estado zelar pela segurança de todo cidadão, queremos afirmar que se qualquer ato de violência física ocorrer contra os indígenas, o Cimi não medirá esforços pra exigir a punição dos responsáveis. Jamais aceitaremos que sejam utilizados recursos públicos para atos de racismo.

    Fazemos questão de deixar informado o MPF no Estado e a 6ª CCR do MPF em Brasília para defender os direitos coletivos das populações tradicionais.

     

     

    Jacson Antonio Lopes Santana

    Coordenador do Cimi Regional Sul

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  • 13/06/2013

    Coletiva de Imprensa: Indígenas retornam ao Pará nesta quinta-feira, 13

    Os 140 indígenas dos rios Xingu, Tapajós e Teles Pires, que há pouco mais de uma semana chegaram a Brasília para dialogar com o governo sobre a construção de usinas em suas áreas, regressam nesta quinta-feira, 13, ao Pará.

     

    Conforme as lideranças indígenas, os aviões da FAB devem partir por volta das 13 horas da Base Aérea de Brasília. Porém, antes, às 11 horas, os indígenas darão entrevista coletiva para a imprensa na própria Base Aérea.

     

    A intenção é traçar um balanço desses nove dias na Capital Federal e apontar os rumos da resistência destes povos aos projetos hidrelétricos que afetam suas vidas, sendo executadas sem qualquer consulta, que garante ou não a possibilidades dessas comunidades dizerem não.

     

    Outras informações:

     

    Renato Santana – 61.8293.9113

     

    Ruy Sposati – 67.9844.8633

     

     

     

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  • 12/06/2013

    Guarani Kaiowá: um é assassinado em Paranhos e cinco são presos em Dourados, entre os detidos uma mulher grávida

    Por Renato Santana,

    de Brasília (DF)

     

    Mais um dia de violência e morte no Mato Grosso do Sul. De acordo com informações do cacique Nicolau Guarani Kaiowá, da aldeia Paraguassú, Terra Indígena Takwarity/Ivykwarusu, município de Paranhos, Celso Rodrigues, 42, indígena da comunidade, foi morto a tiros por pistoleiros enquanto caminhava para o trabalho, na manhã desta quarta-feira, 12.

     

    “Dois pistoleiros o tocaiaram enquanto ele passava perto de um córrego. O pai dele está muito triste e revoltado. Eu também (…) é muito doloroso ver parentes morrer”, explica o cacique. A Polícia Civil esteve no local para perícia, o delegado Rinaldo Gomes Moreira pediu abertura de inquérito e o corpo de Celso foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) de Ponta Porã.

     

    A região de Paranhos, sul do estado, é foco de conflitos entre indígenas e fazendeiros que mantêm terras em áreas de ocupação tradicional Guarani. No mês de agosto do ano passado, os Guarani Kaiowá retomaram parte do tekoha – lugar onde se é – Arroio Korá, em Paranhos. Homologada desde 21 de dezembro de 2009, a terra se mantinha nas mãos de fazendeiros. Durante visita de equipe do Ministério Público Federal (MPF), pistoleiros atiraram contra a comunidade.

     

    Um mês depois, em setembro, 500 indígenas Guarani Nhandeva retomaram parte dos 4.025 do tekoha Potrero Guasu, a 10 km de Paranhos, declarado como indígena desde 13 de abril de 2000. Uma criança morreu durante fuga da comunidade em invasão de pistoleiros.

     

    Em outras duas ocasiões, os Guarani Kaiowá da Paraguassú foram ameaçados por pistoleiros. No tekoha vivem 127 famílias num espaço de 2.700 hectares homologados. Os indígenas pediram a revisão da demarcação. Técnicos da Fundação Nacional do Índio (Funai) realizaram os estudos e os resultados devem ser publicados no 2º semestre deste ano. “Três fazendas estão dentro do território que reivindicamos. A principal delas é a Califórnia. Mexem com agropecuária. Agora vamos enterrar o parente e seguir na luta”, declara o cacique.

     

    Para a liderança Otoniel Ricardo Guarani Kaiowá, a situação no Mato Grosso do Sul ultrapassou todos os limites de controle do Estado e dos governos. “Os mecanismos de diálogo da Justiça e do Estado como um todo são ineficientes. Já existe até a vontade dos fazendeiros de sair das áreas, mas mortes ainda ocorrem”, diz.     

     

    Dourados: mulher grávida presa

     

    Se pela manhã Celso Rodrigues foi morto, pela tarde a Polícia Civil de Dourados prendeu cinco indígenas do acampamento Ita’y Ka’agurussu, Terra Indígena Lagoa Rica/Panambi, município de Douradina. Entre os presos está a cacique Isigeninha Hirto, grávida, além dos Guarani Kaiowá Samuel Gonçalves, Sérgio da Silva, Elaine Hilton e João Isnarde.

     

    Ainda não se sabe os detalhes do mandado de prisão expedido no último dia 28 de maio para sete indígenas, mas as prisões têm relação com fato ocorrido no dia 13 de abril, no próprio acampamento. Arnaldo Alves Ferreira, policial militar reformado, invadiu à cavalo a aldeia efetuando seis disparos contra os indígenas, acertando na orelha o Guarani Kaiowá João da Silva.

     

    Durante o ataque, integrantes da comunidade indígena conseguiram desarmar o militar reformado, defendendo-se dos disparos. Arnaldo foi mantido seguro pela comunidade, que informou a ocorrência à polícia local. O PM e o indígena ferido foram encaminhados ao Hospital da Vida, em Dourados. Arnaldo morreu ainda na ambulância; o Kaiowá ferido foi preso pela polícia, acusado de homicídio em flagrante. Ainda segue preso. Leia aqui matéria na íntegra.

     

    O delegado Marcelo Damaceno, que preside o inquérito, notificou a Funai a apresentar os indígenas no último dia 6 de junho. Por conta da Marcha Indígena, Quilombola e Camponesa, que chegou à capital Campo Grande no mesmo dia, a apresentação dos indígenas ficou para esta quarta-feira, 12. Dos sete indígenas nominados no mandado de prisão, apenas cinco compareceram ao distrito policial.

     

    Ao receber voz de prisão, na presença de advogados da Funai e do Cimi, a cacique Isigeninha se desesperou. Com truculência, conforme os observadores, investigadores tentaram contê-la e na sequência registraram boletim de ocorrência contra a indígena por desacato. “Os Guarani Kaiowá chegaram de boa-fé para colaborar”, critica o advogado Natanael Santiago Dave, que defenderá os indígenas.   

     

    O advogado informa que os presos foram recolhidos para a Cadeia Pública de Dourados. “Estamos avaliando qual a medida a ser tomada, precisamos ver o inquérito. Agora eu acompanho o caso desde o início e não há circunstâncias para fundamentar as prisões, conforme diz o artigo 312 (Código Penal). O que está lá juntado não é suficiente para decretar a prisão”, defende.

     

    Otoniel Guarani Kaiowá é enfático e adianta qual será a forma do povo protestar: “Enganaram eles, mentiram. Chamaram para depor e prenderam. Todo mundo está revoltado e vamos fazer retomadas. Não dá mais para aceitar isso. Os Ñanderu (pajé/xamã) decidiram e está decidido. Vamos buscar nossos direitos”.

     

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  • 12/06/2013

    Povo Tupinambá da Serra do Padeiro retoma dez fazendas no sul da Bahia

    Área retomada Tupinambá. Foto: Cimi Regional Leste - Equipe Extremo SulDez fazendas incidentes em área demarcada foram retomadas pelo povo Tupinambá da Serra do Padeiro, município de Buerarema, sul da Bahia, desde o último final de semana. De acordo com as lideranças indígenas, não ocorreram conflitos e nas fazendas estavam apenas famílias de funcionários, que viviam em condições degradantes. Ao lado, foto de área retomada.  

    “Essas terras foram griladas e tínhamos a programação de fazer a retomada delas, mas decidimos antecipar para dar uma resposta ao que estão fazendo com o povo Terena, do Mato Grosso do Sul. A luta dos índios é uma só”, declara cacique Babau Tupinambá. Conforme o cacique são fazendas que totalizam cerca de 500 hectares.  

    Na contabilização dos indígenas, restam apenas cinco fazendas, também incidentes na terra demarcada, para chegar a outras duas áreas retomadas: Santa Rosa e Unacau. Para as lideranças, uma coisa é certa: a área recuperada pelos Tupinambá estava loteada entre latifundiários de vulto na região.  

    Entre as dez fazendas estavam espólio, caso da São Marcos 2, de 48 hectares, cujo proprietário era José Ferreira (Zé Ferreira), o Conjunto Trindade, de 390 hectares, de Pedro Marques de Sá, além das fazendas Santa Rosa, 198 hecatres, de Pedro Oliveira (Pepeu), Bela Vista, de 61 hecatres, de Jorge Ribeiro (Dr.Carrilho).

    As lideranças informam ainda que o proprietário da fazenda retomada chamada Boa Vista, de 38 hectares, não foi identificado. Cacique Babau aponta que nas áreas retomadas o clima é de tranquilidade, ao contrário do informado pela imprensa local. “Eu li e vi notícias de tiroteio, gente ferida e morta. Não tem nada disso, tanto do lado deles (fazendeiros) quanto do nosso. Sempre tentam nos criminalizar, mas nunca comprovam nada”, frisa o cacique.   

    Babau enfoca que é vergonhoso, mas real o desmatamento nas matas ciliares das fazendas, e que é imprescindível a preservação da fauna e flora: “Preservar para ter e poder comer sem devastar mantendo o equilíbrio. A área, entrecortada por serras, é vital para o envolvimento social e cultural dos Tupinambá: “Conhecemos cada pedaço dela, onde cada serra vai dar”, conta Babau.

    Formado, sobretudo, por jovens, o grupo que realizou as retomadas encontrou um casal de idosos vivendo em oito hectares de terras. Encaminhados para a cidade, os indígenas afirmam que os idosos retornarão ao lar assim que a situação nas áreas for de segurança plena.

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  • 12/06/2013

    Manifesto do povo Kayapó: “Não aceitamos arrendamento de nossas terras para o branco encher de gado e de soja”

    Quatrocentos caciques, guerreiros e lideranças do povo Mebengôkre (Kayapó) reuniram-se entre os dias 03 e 05 de junho de 2013 na aldeia Kokraimoro, localizada na margem direita do Rio Xingu na Terra Indígena Kayapó-PA, para discutir sobre o grave momento político de retrocessos nos direitos indígenas.

     

    A reunião, conduzida integralmente pelos indígenas, foi organizada pelas três principais organizações que representam o povo Kayapó – a Associação Floresta Protegida, o Instituto Kabu e o Instituto Raoni – e estiveram presentes caciques e outros representantes de todas as 45 aldeias Kayapó, além de caciques convidados dos povos Tapayuna e Juruna.

     

    O principal objetivo da reunião foi o fortalecimento do Povo Kayapó através da união de seus distintos sub-grupos que vivem em aldeias espalhadas em em territórios nos estados do Pará e Mato Grosso e que, portanto, raramente tem a oportunidade de se encontrarem para discutir desafios comuns. Diante dos enormes retrocessos quanto aos direitos dos povos indígenas em curso, tal reunião se tornou uma prioridade para todos os Kayapó.

     

    O primeiro dia foi dedicado à história de luta do Povo Kayapó para a demarcação de suas terras e para a inclusão de importantes direitos indígenas na Constituição. Neste dia importantes lideranças que participaram ativamente desta luta, como Raoni Metyktire, Megaron Txucarramãe, Paulinho Payakan e Tuire Kayapó, falaram aos parentes sobre a importância das conquistas. Contaram aos jovens, que nasceram com suas terras já demarcadas e muitos de seus direitos já garantidos na constituição, que estas conquistas foram resultado de muita luta.

     

    Entretanto, tais conquistas estão sendo seriamente ameaçadas. Depois de 1988 nenhum momento foi tão desfavorável aos indígenas como hoje; e amanhã promete ser pior. As Terras e os direitos indígenas viraram alvo de grandes empresas e ruralistas que hoje dominam o Governo, o Congresso e a grande mídia.

     

    No segundo dia de reunião, portanto, os Kayapó se preocuparam em balizar a compreensão geral sobre as principais ameaças às suas Terras e seus direitos. Os representantes Kayapó com melhor domínio do português e entendimento sobre o funcionamento da sociedade nacional explicaram aos parentes sobre as principais propostas de alteração na legislação que estão tramitando no congresso nacional e que terão impactos na vida das populações indígenas, incluindo a PEC 215, a Portaria 303 da AGU, o PL 1610, a PEC 237 e o Decreto nº 7.957. Também discutiram sobre os grandes projetos de infra-estrutura, como a hidrelétrica de Belo Monte e os demais barramentos previstos para o rio Xingu, assim como sobre os impactos que estes empreendimentos causarão nas florestas que suas comunidades tem manejado de forma sustentável e protegido contra o desmatamento. Assim, puderam aprofundar a compreensão sobre estas ameaças e discutir como enfrentá-las.

     

    No último dia começaram a traçar a estratégia de luta, tendo a união do povo Kayapó como seu primeiro passo. Produziram um manifesto, em anexo, que expressa a posição dos Kayapó frente às principais ameaças aos seus direitos tradicionais e direitos sobre suas terras e recursos naturais. Assim, contam com o apoio de todos para a divulgação deste manifesto e para o fortalecimento da luta dos povos indígenas pela garantia de seus direitos e de uma relação digna com a sociedade nacional brasileira.

     

    Se o Governo não quer conversar com os indígenas, muito menos ouvi-los e respeitar suas opiniões; se no Congresso não há quem os represente; se a mídia só se ocupa em desqualificá-los; de alguma forma é preciso que se façam ouvir. Resolveram que, unidos, vão buscar a articulação com o movimento indígena e a sociedade civil, que vão parar estradas e ocupar canteiros de obras. Eles querem ser ouvidos.

    Leia o manifesto na íntegra:

     

    Nós, 400 caciques e lideranças Mebengôkre/Kayapó, de todas as aldeias das Terras Indígenas Kayapó, Menkragnoti, Badjonkôre, Baú, Capoto/Jarinã, Xicrin do Catete, Panará e Las Casas, localizadas nos estados do Pará e Mato Grosso, com apoio dos caciques do povo Tapayuna e Juruna, também do estado Mato Grosso, juntos estivemos reunidos na Aldeia Kokraimoro-PA, margem direita do rio Xingu, entre os dias 03 a 05 de junho de 2013.

    Comunicamos ao governo brasileiro e a sociedade que repudiamos os planos do Governo Federal e do Congresso para diminuir os nossos direitos tradicionais e direitos sobre nossas terras e seus recursos naturais.

    A PEC 215 que transfere do poder executivo ao Congresso Nacional a aprovação de demarcação e ratificação das Terras Indígenas já homologadas é uma afronta aos nossos direitos. Dizem que as referidas demarcações seriam participativas e democráticas, mas sabemos que esta proposta é uma estratégia clara da bancada ruralista para não demarcar as Terras Indígenas e diminuir os tamanhos das nossas terras já demarcadas e homologadas.

    A PORTARIA 303 expedida pela Advocacia Geral da União viola os nossos direitos sobre os territórios tradicionais que ocupamos e seus recursos naturais. Também infringe os nossos direitos de consulta livre, prévia, informada e participativa, quando o governo quer implantar empreendimentos que impactam direta e indiretamente nosso povo, nossa cultura e nosso território. Lembramos que este direito é garantido também pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, ratificada pelo governo brasileiro.

    O Projeto de Lei 1610/96 que está em tramitação no Congresso Nacional tem como proposta a autorização para entrada de empresas mineradoras em nossas terras sem respeitar nossas opiniões e decisões. Não vamos aceitar mineração em nossas Terras.

    O Governo e o Congresso precisam respeitar os artigos 231 e 232 da Constituição, que garantem nossos direitos. Exigimos a anulação de todas as portarias, decretos, PL’s e PEC’s que ameaçam e prejudicam os povos indígenas. Nós queremos que a Constituição Federal, que ajudamos a construir, permaneça como está escrita desde 1988. Está escrito que o usufruto exclusivo das riquezas naturais do solo, do rio, da floresta dentro das Terras Indígenas é dos indígenas e não dos brancos.

    Não aceitamos arrendamento de nossas terras pro branco encher de gado e de soja, como quer a PEC 237/13 que autoriza arrendamento de pasto em Terra Indígena para fazendeiro e empresas de agronegócio.

    Não aceitamos que as forças armadas invadam nosso território sem a nossa autorização, como prevê o Decreto nº 7.957/2013. O que aconteceu com nosso parente Munduruku, assassinado pelo Estado brasileiro, é uma vergonha inaceitável que não pode se repetir nunca mais.

    Nós queremos uma FUNAI fortalecida, que trabalhe do lado dos Povos Indígenas e não para os interesses do Governo, grupos políticos, das grandes empresas e dos ruralistas.

    Nós Mebengôkre, caciques, lideranças, guerreiros e todas as nossas comunidades, desde o início, não aceitamos a construção de Belo Monte, nem de nenhum outro barramento no Xingu, pois enfraquece nosso povo. Podem ter certeza que não vamos parar de lutar. O Brasil tem uma dívida histórica conosco, povos indígenas, que nunca será paga. Não estamos cobrando isso, apenas queremos que nossos direitos escritos Constituição Federal de 1988 sejam respeitados. Nós somos os primeiros donos dessa terra que se chama Brasil, portanto continuaremos defendendo nossa terra, nossos povos e nossos direitos.

    O Governo precisa se preocupar com a pobreza no Brasil, fazer leis para melhorar a saúde, acabar com a violência, a corrupção, com o trafico de drogas e tudo de ruim que esta prejudicando a sociedade brasileira, e deixem os indígenas viverem em paz em suas terras!

    Não reconhecemos como nossos representantes a Presidenta da República Dilma Rouseff e os deputados e senadores que estão no congresso, e nem os que ocupam as comissões e subcomissões estratégicas, decidindo sobre os nossos direitos, como a subcomissão de demarcações de Terras Indígenas. A demarcação de Terras Indígenas tem de continuar como atribuição do poder Executivo.

    Não estamos somente preocupamos com nós e nossas terras, mas também com os nossos parentes que ainda estão isolados. Não aceitaremos que estes sejam contatados. Se não temos representantes no Congresso, vamos mobilizar nossos parentes Kayapó e outros parentes de luta para mostrar para a sociedade nossa mensagem: não vamos aceitar a diminuição dos nossos direitos e nossas terras e vamos lutar da nossa maneira, parando estradas, ocupando canteiros de obras, acionado o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal, articulando com o movimento indígena e a sociedade civil.

     

    Aldeia Kokraimoro, 05 de junho de 2013

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  • 12/06/2013

    Cacique Raoni Kayapó se reúne com indígenas Munduruku

    O cacique Raoni Metyktire, do povo Mebengôkre (Kayapó) do Mato Grosso, chega nesta quarta-feira, 12, a Brasília para somar-se à luta dos 150 indígenas Munduruku e Xipaya, há oito dias protestando na capital federal contra a construção de hidrelétricas em seus territórios. O encontro ocorrerá na sede da Funai no final da tarde desta quarta.


    Munduruku e Kayapó tiveram conflitos no passado, desse modo trata-se de um momento histórico. No entanto, o espírito agora é de união dos povos na luta contra a construção de hidrelétricas em seus territórios e contra a perda de direitos já garantidos pelas populações tradicionais, consolidados nas tentativas do governo e parlamento em aprovar leis e decretos como a PEC 215, Portaria 303 e o PL 1610, entre outros.


    No manifesto escrito durante assembleia com 400 caciques, guerreiros e lideranças do povo Mebengôkre, realizada no início de junho, os indígenas afirmaram: “não reconhecemos como nossos representantes a Presidenta da Republica Dilma Rouseff e os deputados e senadores que estão no congresso”.


    Sobre a questão Munduruku, os Kayapó registraram que não aceitam “que as forças armadas invadam nosso território sem a nossa autorização, como prevê o Decreto nº 7.957/2013. O que aconteceu com nosso parente Munduruku, assassinado pelo Estado brasileiro, é uma vergonha inaceitável que não pode se repetir nunca mais”


    Raoni virá acompanhado de mais três Kayapó: Patxon Metyktire, Puiu Txucarramãe e Yabuti Metyktire. A delegação chega ao aeroporto de Brasília por volta das 17h, e segue direto para a sede da Funai, onde será realizado um ato público na frente do órgão indigenista, previsto para às 18h.

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  • 12/06/2013

    Senador Roberto Requião: Discurso sobre a omissão do governo e o conflito com os índios

    O Brasil está em guerra. Uma longa, cinco vezes centenária guerra: a nunca sobrestada guerra contra os índios. O assassinato do terena Oziel Gabriel, no dia 30 de maio, em Sidrolândia, Mato Grosso do Sul, estado que concentra mais de 50 por cento dos assassinatos de índios no país, nada mais é que um trivial, corriqueiro episódio desse conflito. Afinal, matar índio faz parte dos usos e costumes nacionais desde que Cabral aqui aportou.

     

    Era de se esperar que, com o passar dos tempos, com a civilização e refinamento de nossas elites fazendeiras, nesse processo contínuo de aquisição de valores humanitários, culturais e sociais, era se esperar que o velho costume de matar índios fosse superado.

     

    Como um dia superamos a antiga usança de escravizar negros que, ressalve-se, só foram caçados e sequestrados na África porque os nossos índios se revelaram “mão-de-obra antieconômica”, pois morriam incontrolavelmente no cativeiro.

     

    Aprendemos nos livros escolares que o ponto alto da chegada da família real portuguesa à colônia brasileira, em 1808, foi a decretação da abertura dos portos pelo príncipe regente D. João. No entanto, dois meses depois de instalado no Rio de Janeiro, D. João toma outra decisão que os nossos livros e a nossa memória seletiva dos fatos históricos omitem.

     

    No dia 13 de maio de 1808, por Carta Régia, o príncipe declara guerra aos índios botocudos, por resistirem à expansão das fazendas e áreas de exploração de minas, na Capitania de Minas Gerais. No entanto, proprietários de terras, minas e tropeiros de toda a Colônia, expandiram o alcance da Carta Régia e consideraram-se licenciados a empreender guerra contra todos os índios que habitavam o território brasileiro.

     

    Em meu estado, o Paraná, a Carta Régia chancelou um antigo costume que subsistiu até o final do século 19, o costume dos fazendeiros das regiões dos Campos Gerais e dos Campos de Guarapuava e Palmas organizarem, anualmente, uma expedição guerreira contra os índios.

     

    A cada sortida, eles eram mais e mais empurrando-os em direção às fronteiras com o Paraguai e a Argentina, e tinham suas terras apossadas para a expansão agricultura, da pecuária, da apanha da erva mate e exploração da madeira.

     

    A Carta Régia declarando guerra aos botocudos contem as mesmas justificativas hoje usadas para usurpar as terras dos índios. Estão lá os argumentos em defesa da produção, estão lá os apelos para que os índios submetam-se aos brancos para “gozarem os bens permanentes de uma sociedade pacífica e doce, debaixo de justas e humanas leis (….)”.

     

    Como estão lá as acusações aos índios de violência, crueldade e perturbação da ordem, como se fossem eles, ontem e hoje, os causadores dos conflitos. E a Carta Régia chega ao mais alto grau de mistificação ao acusar os botocudos de antropofagia e vampirismo. Segundo o príncipe, além de esquartejar e devorar os “tristes restos” de suas vítimas, os índios abriam feridas nelas “para depois sorver o sangue”.

     

    Quanto à antropofagia, grande parte de nossos autores negam-na; foi pretexto para reforçar a declaração de guerra; já o “vampirismo” dos botocudos fica à conta da ignorância, superstição e fantasia européias de nossos colonizadores.

     

    A oficialização da matança desenfreou tal violência e crueldade que, citam historiadores, obrigou o próprio governador da Capitania de Minas Gerais, beneficiária imediata da decretação de guerra, a intervir e adotar outros métodos para submeter os rebeldes. Mesmo porque a “solução final” do genocídio não surtira os resultados esperados.

     

    A Carta Régia de 1808 faz uma declaração de guerra permanente contra os índios.

     

    Diz o futuro D. João VI:

     

    – Que desde o momento em que receberdes esta minha Carta Régia, deveis considerar como principiada contra estes Indios antropophagos uma guerra offensiva que continuareis sempre em todos os annos nas estações seccas e que não terá fim, senão quando tiverdes a felicidade de vos senhorear de suas habitações (quer dizer, terras) e de os capacitar da superioridade das minhas reaes armas de maneira tal que movidos do justo terror das mesmas, peçam a paz e sujeitando-se ao doce jugo das Leis e promettendo viver em sociedade, possam vir a ser vassallos uteis, como já o são as immensas variedades de Indios que nestes meus vastos Estados do Brazil se acham aldeados e gozam da felicidade que é consequencia necessaria do estado social”.

     

    Enfim, a velha máxima de que índio bom é índio morto. Ou, quando muito, por generosidade das autoridades e dos fazendeiros, índios submissos aos seus interesses; índios aldeados, vivendo longe de suas terras, sem terras.

     

    Foram-se os tempos da Colônia, foi-se o Império, veio a República, a velha e depois a dita nova, e a Carta Régia de 1808 continua vigendo, impávida, soberana, imutável. Ouço aqui, neste plenário, leio nos jornais, vejo nas televisões e ouço dos rádios a mesma defesa do aldeamento ou urbanização dos índios, “civilizando-os”, privando-os de suas terras, exterminando sua cultura, sua língua, sua crença, sua identidade.

     

    Os gregos Heródoto e Tucídides, e o romano Cícero talvez tenham sido os primeiros a divulgarem o conceito de historia magistra vitae, a história como mestra da vida, expondo pragmaticamente os fatos para que o homem aprendesse com os erros do passado.

     

    Não é o caso das relações do governo e da sociedade brasileira com os índios. O assassinato do Terena Oziel mostra que pouco aprendemos com o passado, com os erros acumulados por tantos séculos. A antropofagia e o vampirismo de ontem são atualizados por toda a sorte de pretexto, hoje, para a invasão das terras não apenas dos índios e sim também das populações tradicionais dos quilombolas.

     

    O príncipe justificava a declaração da “guerra permanente” contra os índios por causa dos graves prejuízos por eles causados aos fazendeiros e “à minha Real Coroa”, isto é governo colonial. As rationes lupi de ontem são as razões do lobo de hoje, porque a guerra continua permanente, sem trégua, impiedosa. Uma guerra de extermínio.

     

    E como se comporta o nosso governo, hoje?

     

    Este governo retrocedeu em relação aos governos de Sarney, Fernando Henrique e Lula no tratamento da questão indígena.

     

    De todos os governos desde a redemocratização, este governo foi o único que não recebeu os índios. Recebe todo mundo, até o Carlinhos Brown e sua ridícula caxirola, mas não recebe índios. Os representantes do agronegócio tornaram-se, como se diz , “figurinhas carimbadas” dos eventos palacianos, e tem na ministra-chefe da Casa Civil um interlocutor privilegiado. Já os índios mendigam ouvidos e corações abertos pelos corredores legislativos, pelos jardins da Esplanada dos Ministérios, expondo-se à indiferença, ao escárnio e ao preconceito.

     

    O antropólogo Gilberto Azanha, um de nossos melhores especialistas, deplora: “(…) o governo Dilma retrocedeu neste debate e interpreta as questões indígenas com o olhar do agronegócio”.

     

    Na mesma linha, o coordenador da Comissão de Assuntos Indígenas da prestigiosa Associação Brasileira de Antropologia, João Pacheco de Oliveira, diz que nos últimos anos foi paralisado o processo de reconhecimento dos direitos dos índios; e, segundo ele, a investida do agronegócio afeta também as populações tradicionais e as terras dos negros descendentes de escravos africanos.

     

    Pelo que se vê, não é apenas a economia do Brasil que se vê refém das commodities, o governo federal também foi sequestrado pelos produtores de carnes e grãos.

     

    De 2003 a 2011, informam estatísticas medianamente confiáveis, foram assassinados no país mais de 500 índios; nesse último ano da macabra medição, 62 por cento dos assassinatos aconteceram no Mato Grosso do Sul:

     

    — Com uma taxa de homicídios de 100 por 100 mil pessoas, maior que a do Iraque e quatro vezes maior que a taxa nacional, o povo Guarani e Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, enfrenta uma verdadeira guerra contra o agronegócio”, diz relatório do Conselho Missionário Indigenista.

     

    O hoje tão vilipendiado e odiado CIMI, alvo de todas as maldições de parte do agronegócio.

     

    Mas bendito seja o CIMI. Benditos sejam D. Tomás Balduíno e D. Pedro Casaldáglia. Benditos sejam todos aqueles que, ao longo de nossa história, confrontaram os ditames da Carta Régia de 1808, que oficializou uma prática que, na verdade, desembarcou nas terras de Santa Cruz com os europeus.

     

    Prática essa que alçou a heróis da Pátria genocidas como Raposo Tavares, Borba Gato e outros aventureiros que se distinguiram pela preação de índios, para fazê-los escravos.

     

    Além de destruírem as reduções jesuíticas, que abrigavam milhares de índios, duma só feita, bandeirantes como Raposo Tavares capturaram no Paraná e levaram para São Paulo mais de 200 mil índios, contam historiadores de minha terra.

     

    Se glorificamos os genocidas do passado, como punir os torturadores do presente?

     

    Quem serão os heróis do genocídio de hoje

     

    Senhoras e senhores, uma vida, toda vida não vale um pedaço a mais de terra, uma saca a mais de soja, uma arroba a mais de carne, quer essa vida seja a de um índio, quer seja de um produtor rural.

     

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  • 11/06/2013

    Indígenas em defesa de direitos buscam diálogo com governo: encontram silêncio e fome

     Por Renato Santana e Ruy Sposati,

    de Brasília (DF)

     

     

     

    Uma semana depois de chegarem a Brasília, vindos da ocupação ao canteiro de obras da UHE Belo Monte, no Pará, indígenas Munduruku, Xipaya, Kayapó e Arara caminharam nesta terça-feira, 11, da sede da Fundação Nacional do Índio (Funai), onde mantêm ocupação, até a  Esplanada dos Ministérios em busca de interlocutores para suas angústias e reivindicações. Encontraram silêncio e fome.

     

    À imprensa, o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República, informou que o retorno dos indígenas ao Pará está programado para esta quarta-feira, 12, mas afirmou que se o grupo não desocupar a Funai o governo entrará com pedido de reintegração de posse. Porém, não garantiu hospedagem para os indígenas até o desembarque das aeronaves.  

     

    “O que o governo faz é uma irresponsabilidade. Estamos vendo o que eles querem e vamos comunicar nas aldeias. Se a gente não receber o governo lá na comunidade, eles vão botar a Força Nacional em cima”, aponta Valdenir Munduruku. Durante o mês de maio, os mesmos indígenas ocuparam por duas vezes o principal canteiro de obras da usina de Belo Monte contra os empreendimentos hidrelétricos na Amazônia. A última ocupação terminou com a vinda deles para Brasília, há uma semana, buscando diálogo.

     

    Em busca da alteridade neste diálogo, os indígenas entendem que o Palácio do Planalto se mostra insensível às suas questões. Os governistas insistem nos empreendimentos e pretendem organizar uma consulta, sem direito ao veto das comunidades e paralisação dos estudos e canteiros de obras, que garanta o projeto. Nesta segunda-feira, 10, o ministro Carvalho se negou a receber os indígenas; encaminhados para a Funai, esperaram da manhã até o final da tarde de ontem para terem a notícia de que a presidente interina não poderia recebê-los.

     

    Tal situação de marginalização da pauta indígena seguiu nesta terça. Em frente ao Ministério de Minas e Energia (MME), seguranças impediram a entrada dos indígenas no prédio e assessores tentavam suavizar os efeitos de assassinatos como o de Adenilson Kirixi Munduruku, presente em foto quando seu corpo foi retirado das águas do Teles Pires em novembro do ano passado.

     

    Simbolizando a morte dos povos dos rios Xingu, Tapajós e Teles Pires, os indígenas deitaram em frente ao MME e com spray branco o contorno de seus corpos foi desenhado no asfalto. Cena de crime. Já se passava do meio dia e o almoço não veio. Com fome, o grupo seguiu para o Supremo Tribunal Federal (STF) em busca de uma audiência com o presidente Joaquim Barbosa. Mais seguranças e assessores.   

     

    “O que é aqui?”, perguntou Vicente Munduruku apontando para o imponente prédio. Segundo mais velho de seu povo, cacique da aldeia Sai Cinza, Vicente obteve a resposta: “É onde ficam os maiores juízes do país, os que definem tudo”. O olhar do cacique repousou sobre o imponente prédio e num murmúrio pode-se ouvir: “Por que não fazem nada?”. Sem almoço e transporte de volta para a Funai, sob os efeitos do calor e do sol, os indígenas foram ao Ministério da Justiça em busca de alimentação e o mínimo de logística. Sem respostas, seguiram de volta a pé até o órgão indigenista, cerca de dois quilômetros de distância.

     

    “A Funai deveria proteger e ajudar os índios, mas não faz isso. Ficamos em Brasília até agora, mas não percebemos vontade do governo de fazer as coisas direito. Mentem e manipulam. Dizem que somos bandidos e não comparecemos em reuniões. O que queremos é a nossa aldeia, nossa casa, nossa paz. Não queremos ficar aqui, não queremos essa forma que o branco trata as coisas”, desabafou Valdenir Munduruku.   

    Fotografia: Ruy Sposati

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  • 11/06/2013

    Moção de apoio aos Terena de Buriti e a todos os povos indígenas que lutam por seus direitos territoriais no Brasil

    O colegiado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas, reunido no dia 7 de maio de 2012, considerando:

     

    – Que o Estado Brasileiro não cumpriu com o que determina o Art. 67 da Constituição Federal de 1988: "A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição". Esta situação é conhecida para todo o território nacional e também explica o prolongamento e o acirramento de muitos conflitos pela posse da terra envolvendo comunidades indígenas e setores contrários a seus interesses.

     

    – Que a política indigenista oficial tem sistematicamente violado os direitos dos povos indígenas, inclusive por meio do descumprimento de leis internacionais das quais o país é signatário. Este é o caso da Convenção nº 169 da OIT, de 1989, sobre os direitos fundamentais dos povos indígenas e tribais, aprovada pelo Congresso Nacional em 2002 e promulgada pela Presidência da República em 2004. Exemplo disso é o que ocorreu durante o licenciamento ambiental da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, quando os povos indígenas afetados pelo empreendimento não foram prévia e devidamente consultados sobre o projeto.

     

    – Que o Governo Federal, por meio da Casa Civil, tem sistematicamente promovido a desqualificação da FUNAI e dos estudos antropológicos feitos para a identificação e delimitação de terras indígenas. Esta postura é típica de regimes de exceção, gera insegurança jurídica aos povos indígenas e denota uma postura colonialista norteada pelos paradigmas da assimilação e do desenvolvimento econômico a qualquer custo, subordinando poderes constituídos na República a interesses do movimento ruralista e seus aliados.

     

    – Que os estudos para a ampliação dos limites da Terra Indígena Buriti, localizada nos municípios de Sidrolândia e Dois Irmãos do Buriti, em Mato Grosso do Sul, foram devidamente concluídos e publicados em 2001, constituindo-se em um ato administrativo perfeito. Além disso, respeitando o direito ao contraditório, a área foi objeto de perícia judicial que concluiu se tratar de terra de ocupação tradicional indígena, conforme estabelece o Art. 231 da Carta Constitucional.

     

    – Que no dia 30 de maio de 2013 o indígena Oziel Gabriel, 35 anos, foi morto por policiais enviados para a área de conflito para fazer cumprir um mandado de reintegração de posse dentro da própria Terra Indígena Buriti. Naquele mesmo dia outros indígenas também foram feridos por policiais a servido do Estado Brasileiro. Posteriormente, no dia 04 de junho de 2013, o indígena Josiel Gabriel Alves, 34 anos, primo de Oziel Gabriel, foi baleado nas costas por pessoas identificadas pelos Terena como "pistoleiros" a serviço de fazendeiros da região, correndo o risco de ficar com sequelas neurológicas.

     

    Vem a público manifestar seu apoio e solidariedade aos Terena da Terra Indígena Buriti e a todos os povos indígenas que lutam por seus direitos territoriais no Brasil.

     

    Nosso posicionamento se dá em defesa da vida humana, pela regularização das terras indígenas existentes no território nacional e em repúdio a qualquer tipo de violência cometida contra os povos e comunidades tradicionais no Brasil. Por este motivo, esperamos que a justiça haja com rigor na apuração dos crimes cometidos contra os Terena e defendemos o cumprimento dos Art. 231 e 232 da Constituição Federal de 1988, bem como da Convenção 169 da OIT, sem os quais não é possível existir no país o Estado Democrático de Direito.

     

    Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, 7 de junho de 2013.

     

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  • 11/06/2013

    Indígenas protestam às portas do Ministério de Minas e Energia

    Chegamos em Brasília na terça-feira passada (04), e estamos aguentando a violência toda de vocês desde então.

     

    Reunimos com o ministro Gilberto Carvalho no dia em que chegamos. Ele nos chamou de mentirosos (em outras palavras), se recusou a assinar o recebimento dos nossos documentos, disse que não somos nós que escrevemos nossas cartas.

     

    Quando a reunião acabou, Gilberto Carvalho disse no Jornal Nacional: “ouvimos longamente a fala [de nós indígenas], as críticas, mas fomos absolutamente claros com eles, dizendo que o governo não vai abrir mão de seus projetos”. Então, entendemos o recado do governo.

     

    Dois dias depois, Paulo Maldos deu entrevista à Rádio Nacional da Amazônia: “consulta não é sim ou não”. Também entendemos esse recado.

     

    Entendemos que o governo está dizendo: ”nós vamos construir as hidrelétricas nas terras de vocês, não importa o que vocês digam. E mesmo que vocês sejam consultados, nós não vamos considerar a opinião de vocês”.

     

    Então, nós ocupamos a Funai ontem, segunda-feira, porque o governo não nos recebeu, pela segunda vez. E mesmo quando nos recebeu, nos chamou de mentirosos e tentou mentir para nós, nos dividir. E ainda disse que construiria todas as hidrelétricas nas nossas terras de qualquer jeito. Estamos aqui na Funai agora, mas nossa luta não pára aqui.

     

    Nossa reunião no dia 03 de junho terminou sem acordo. Depois dela, vocês nunca mais quiseram nos receber, então, parece que infelizmente vamos voltar para nossas casas sem resposta nenhuma. Porque nós viemos exigir paz, e o governo tem declarado guerra. Mesmo sorrindo. Nós não gostamos disso.

     

    Brasília, 11 de junho de 2013

     

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