• 23/06/2013

    Sob pressão, governo suspende estudos de barragens no rio Tapajós

    Ruy Sposati,
    de Brasília (DF)

    Pressionado por dois meses de enfrentamento e resistência dos indígenas Munduruku, o governo federal suspendeu as pesquisas da região do rio Tapajós para a construção de hidrelétricas. O anúncio foi feito durante reunião em praça pública no final da tarde deste domingo, 23, em Jacareacanga, extremo oeste do Pará. Os pesquisadores que estavam em área indígena deixaram a cidade.

    “A Funai e o governo federal como um todo está suspendendo qualquer pesquisa que estiver sendo feita aqui na região de vocês”, afirmou a assessora da presidência da Fundação Nacional do Índio Lucia Alberg, apesar do ministro Gilberto Carvalho ter anunciado publicamente que não suspenderia nem obras, nem estudos.

    “Estamos nos sentindo muito felizes”, aponta o chefe dos guerreiros Paygomuyatpu Munduruku. “Ela ainda não nos deu nenhuma prova disso, estamos esperando uma prova, mas estamos muito satisfeitos com o que ela disse”. Em maio e junho, os indígenas Munduruku realizaram um sem número de ações exigindo a suspensão das obras e estudos de barragens nos rios Tapajós e Teles Pires, onde vivem 13 mil pessoas do povo Munduruku.

    Em maio, depois de uma assembleia que reuniu mais de 200 mulheres, caciques, lideranças e guerreiros, os Munduruku marcharam pelas ruas de Jacareacanga e juntaram-se a outros indígenas da bacia do Tapajós e do médio Xingu. Realizaram duas ocupações que paralisaram as obras da usina hidrelétrica Belo Monte por 17 dias, viajaram à capital federal, onde realizaram uma marcha, ocuparam a sede da Funai e fizeram protestos no Ministério de Minas e Energia e no Palácio do Planalto. Na última sexta-feira, um grupo de 40 guerreiros expulsou cerca de 25 pesquisadores da empresa Concremat, prestadora de serviços do Grupo de Estudos Tapajós, consórcio composto por Camargo Correia, GDF Suez e Eletrobras, entre outros.

    Neste contexto, os Munduruku sofreram um processo de criminalização, difamação e repressão por parte do governo federal. Notas públicas, declarações à imprensa e processos judiciais acusavam os indígenas de criminosos e mentirosos, questionando a legitimidade das lideranças Munduruku, que entraram com interpelação criminal contra declarações do ministro Gilberto Carvalho.

    PESQUISADORES

    “Nós liberamos os pesquisadores. A gente não quer mais vê-los aqui”, explica a liderança Maria Leusa Kabá. “Se eles voltarem, nós vamos tirar a cabeça dos pesquisadores. Nós somos guerreiros. Nossos guerreiros antigos são conhecidos por serem cortadores de cabeças. Nós não esquecemos nosso passado”, remonta Leusa.

    “Vamos continuar na nossa luta. A gente não quer que eles [estudos] sejam suspensos. Nós queremos que os estudos e as obras sejam cancelados. A suspensão é uma vitória parcial”, conclui Paygomuyatpu.

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  • 22/06/2013

    Munduruku expulsam pesquisadores de terra indígena

    Ruy Sposati,
    de Brasília (DF)

    Cerca de 25 pesquisadores foram retirados da terra indígena Munduruku, pelos próprios indígenas, nesta sexta, 22 em Jacareacanga, extremo oeste do Pará. Os técnicos coletavam amostras da fauna e flora da região para os estudos ambientais e de viabilidade das usinas hidrelétricas do rio Tapajós, que afetarão o território Munduruku.
    Segundo os indígenas, os pesquisadores usavam uniformes da empresa Concremat, que presta serviços para o Consórcio Grupo de Estudos Tapajós, liderado pelas empresas Camargo Correia, GDF Suez, Eletrobras e Eletronorte, entre outras.


    "O que nós fizemos foi uma ação política, de resistência. Nós soubemos que tinha pesquisadores na região, há pelo menos dois meses… Fomos atrás deles e trouxemos para a cidade. Foi isso o que aconteceu", explica Valdenir Munduruku, que participou da operação. 
    "Eles estavam divididos em duas equipes, uma de pesca e uma de mata. Nós encontramos a equipe de pesca próximo a aldeia Amanhanã. Trouxemos o chefe das equipes para Jacareacanga, com outros dois, para que eles chamassem todos os pesquisadores pra cidade", relata.

    "Tudo correu bem. Eles [os pesquisadores] não imaginavam… Conversamos com eles, foi tudo tranquilo. Agora estamos esperando todos chegarem, e coordenador que vem de Itaituba. Não vamos deixar continuar esse trabalho", diz Valdenir.
    Segundo pronunciamento do porta-voz do cacique geral do povo Munduruku, Jairo Saw, "os pesquisadores já estão na quarta etapa de estudo, já na fase final e previsto para apresentarem o relatório final do EIA – RIMA no mês de novembro".

    Em nota pública lançada hoje, os Munduruku afirmaram que o governo já sabia que os indígenas não permitiram a entrada de pesquisadores no território. "Nós vamos liberar pacificamente este grupo, mas alertamos que não toleraremos mais essa postura por parte do governo federal e dos empreendedores que querem construir barragens", pontua o documento, que também exige a suspensão "de todos os estudos e pesquisas relacionados às barragens nos rios Tapajós e Teles Pires" por parte do governo federal.
    Os indígenas temem uma ação violenta da Força Nacional, que chegou hoje em Jacareacanga, em um avião da Força Aérea Brasileira. "Esperamos que esses militares não tenham vindo para nos atacar, mas sim para defender o nosso direito pela nossa terra, a lei e a Constituição", argumenta a carta.
    Leia a declaração dos Munduruku na íntegra:


    Declaração Munduruku: pesquisadores, não entrem nas nossas terras

    Nós, Munduruku do rio Tapajós, apreendemos um grupo de pesquisadores que estava ilegalmente em nossa terra. Eles estavam coletando animais, plantas e amostras para a construção de barragens nas nossas aldeias. Nós apreenderemos tudo o que foi coletado por eles, todos os materiais, tudo o que foi retirado e anotado das terras indígenas.

    Nós deixamos claro para o governo federal que não iríamos deixar entrar nenhum pesquisador nos nossos territórios.

    Nós vamos liberar pacificamente este grupo, mas alertamos que não toleraremos mais essa postura por parte do governo federal e dos empreendedores que querem construir barragens.

    Um avião búfalo do Exército/FAB pousou hoje em Jacareacanga. Esperamos que esses militares não tenham vindo para nos atacar, mas sim para defender o nosso direito pela nossa terra, a lei e a Constituição. Porque quem está errado é o governo. Nós estamos certos.

    Exigimos que o governo suspenda todos os estudos e pesquisas relacionados às barragens nos rios Tapajós e Teles Pires. Nós sabemos que as pesquisas são o primeiro passo para viabilizar a construção das hidrelétricas. Nós não vamos deixar as pesquisas e estudos acontecerem. Se o governo não suspender, nós daremos um jeito. Sugerimos aos pesquisadores que não entrem nas nossas terras.

    Estão todos avisados.

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  • 21/06/2013

    Nota da CNBB: “Ouvir o clamor que vem das ruas”

    Os bispos manifestam "solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades, sobretudo os jovens". A presidência da CNBB apresentou a Nota em entrevista coletiva e o documento foi aprovado na reunião do Conselho Permanente concluída na manhã desta sexta-feira, 21 de junho.

     

    Leia a Nota:

     

    Ouvir o clamor que vem das ruas

     

    Nós, bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunidos em Brasília de 19 a 21 de junho, declaramos nossa solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades, sobretudo os jovens. Trata-se de um fenômeno que envolve o povo brasileiro e o desperta para uma nova consciência. Requerem atenção e discernimento a fim de que se identifiquem seus valores e limites, sempre em vista à construção da sociedade justa e fraterna que almejamos.

     

    Nascidas de maneira livre e espontânea a partir das redes sociais, as mobilizações questionam a todos nós e atestam que não é possível mais viver num país com tanta desigualdade. Sustentam-se na justa e necessária reivindicação de políticas públicas para todos. Gritam contra a corrupção, a impunidade e a falta de transparência na gestão pública. Denunciam a violência contra a juventude. São, ao mesmo tempo, testemunho de que a solução dos problemas por que passa o povo brasileiro só será possível com participação de todos. Fazem, assim, renascer a esperança quando gritam: “O Gigante acordou!”

     

    Numa sociedade em que as pessoas têm o seu direito negado sobre a condução da própria vida, a presença do povo nas ruas testemunha que é na prática de valores como a solidariedade e o serviço gratuito ao outro que encontramos o sentido do existir. A indiferença e o conformismo levam as pessoas, especialmente os jovens, a desistirem da vida e se constituem em obstáculo à transformação das estruturas que ferem de morte a dignidade humana. As manifestações destes dias mostram que os brasileiros não estão dormindo em “berço esplêndido”.

     

    O direito democrático a manifestações como estas deve ser sempre garantido pelo Estado. De todos espera-se o respeito à paz e à ordem. Nada justifica a violência, a destruição do patrimônio público e privado, o desrespeito e a agressão a pessoas e instituições, o cerceamento à liberdade de ir e vir, de pensar e agir diferente, que devem ser repudiados com veemência. Quando isso ocorre, negam-se os valores inerentes às manifestações, instalando-se uma incoerência corrosiva que leva ao descrédito.

     

    Sejam estas manifestações fortalecimento da participação popular nos destinos de nosso país e prenúncio de novos tempos para todos. Que o clamor do povo seja ouvido!

     

    Sobre todos invocamos a proteção de Nossa Senhora Aparecida e a bênção de Deus, que é justo e santo.

     

    Brasília, 21 de junho de 2013.

     

    Cardeal Raymundo Damasceno Assis

    Arcebispo de Aparecida

    Presidente da CNBB

     

    Dom José Belisário da Silva

    Arcebispo de São Luís

    Vice-presidente da CNBB

     

    Dom Leonardo Ulrich Steiner

    Bispo Auxiliar de Brasília

    Secretário Geral da CNBB

     

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  • 21/06/2013

    Relatório Figueiredo explicita que o passado de massacre aos indígenas se repete hoje

    Patrícia Bonilha,

    Brasília

    Muitas referências estão sendo feitas entre atos ocorridos na época da ditadura e os dias de hoje, principalmente em relação aos povos indígenas e outras comunidades tradicionais. Considerados – ontem e hoje – obstáculos para o desenvolvimento, eles são desrespeitados e têm seus modos de vida severamente impactados para que mega projetos, principalmente de infraestrutura, sejam implementados. Em Audiência Pública realizada na Câmara dos Deputados ontem (20), Cleber Buzatto, Secretário Executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), afirmou que a mesma ânsia desenvolvimentista da época da ditadura que cometeu verdadeiros massacres contra os indígenas repete-se agora, manifestados tanto em atos de ataques e violência física como em violações e retrocesso nos direitos conquistados na Constituição de 1988.

    O objetivo da audiência foi discutir as impactantes informações do recém encontrado Relatório Figueiredo que, em mais de 7 mil páginas, investigou massacres e torturas de povos indígenas no interior do Brasil que tiveram participação direta do extinto Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Concluído em 1967, em plena ditadura militar, o Relatório já é considerado um dos documentos mais importantes produzidos pelo Estado brasileiro no último século.

    “Há um sentimento análogo. O pano de fundo é o mesmo entendimento de que é preciso fazer o que for necessário porque o país precisa se desenvolver. E este conceito de desenvolvimento justifica todos os massacres registrados no Relatório Figueiredo, assim como todos os severos impactos das mais de 150 hidrelétricas previstas para serem construídas na Amazônia nos próximos 20 anos, por exemplo. Apesar da forte oposição dos povos indígenas, o governo afirma que construirá os projetos de qualquer jeito”, compara Buzatto.

    Nesse sentido, ele focou sua fala em um evento histórico. Em 1960, o Massacre do Paralelo 11, incluído no Relatório Figueiredo, teve como autores os setores privados e públicos – os mesmos que atuam hoje. Segundo o relato de um dos pistoleiros, Atayde Pereira dos Santos, os cerca de 3.500 Cinta Larga morreram vítimas de envenenamento por arsênico e ataques em que os pistoleiros, a mando de empresários e fazendeiros e com a cobertura de funcionários da SPI, entravam nas aldeias metralhando os indígenas. Este Massacre, realizado no Mato Grosso, incluiu seguidos episódios de assalto, além de estupro, grilagem, suborno e tortura, dentre outras crueldades.

    Trazendo para o contexto atual, o outro episódio lembrado foi o ocorrido em novembro do ano passado, quando a Força Nacional e a Polícia Federal deixaram um rastro de destruição na aldeia Teles Pires, no sul do Pará. Houve ataque aéreo com bombas, ampla utilização de metralhadoras em um tiroteio que durou cerca de 30 minutos, destruição das casas, dos barcos de pesca, de dragas, balsas, computadores, celulares e câmaras fotográficas, roubo de dinheiro e ouro, várias pessoas baleadas, machucadas, queimadas e, mais grave, o assassinato de Adenilson Munduruku. A morte de Oziel Gabriel Terena, no dia 30 de maio, pela polícia em processo de retomada de terra tradicional, também foi relatada por Buzatto como exemplo das atrocidades cometidas recentemente, tanto pelo Estado como pelos fazendeiros na região de Sidrolândia, no Mato Grosso do Sul.

    O Relatório de Violências Contra os Povos Indígenas, com os dados de 2012, traz fatos e informações que explicitam que povos indígenas hoje, no Brasil, vivem situações totalmente inaceitáveis, alguns em extrema miséria. O relatório, publicado pelo Cimi, será lançado no dia 27 deste mês.

    CPI dos crimes contra os indígenas

    “É preciso expor para a sociedade as violências e os massacres sofridos pelos indígenas. Eles são uma constância na história deste país. E o Relatório Figueiredo registra todos os conflitos que há décadas arrasam estes povos. Inclui, por exemplo, a lista de nomes dos políticos, parentes de políticos, juízes, militares e servidores do Serviço de Proteção ao Índio que tomaram terras de vários povos no Mato Grosso do Sul”, afirmou Marcelo Zelic, coordenador do Projeto Armazém Memória e vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-SP.

    Segundo Zelic, é justamente deste período em que as terras indígenas foram roubadas que são os títulos de posse de terra no Mato Grosso do Sul. “Fala-se muito de esbulho. Esbulho quer dizer roubo. O roubo das terras indígenas no Mato Grosso do Sul se deu neste período”, declara ele.

    Na sua avaliação, é preciso que o Estado brasileiro mude de conduta para com os povos indígenas, que passe a respeitá-los. Em uma fala emocionada, Zelic criticou o fato do Ministério da Justiça não estar se opondo ao desmonte da Fundação Nacional do Índio (Funai) e mostrou indignação com a intenção do governo de incluir órgãos como o Ministério da Agricultura para resolver uma questão constitucional, que é a demarcação de terras indígenas.

    “Não é possível que o governo venha colocar, de novo, setores contraditórios para resolver uma questão constitucional. O Ministério da Agricultura era o órgão responsável pelo SPI. Ele foi, portanto, o responsável pelo massacre dos povos indígenas deste país e não pode vir agora opinar sobre a demarcação de terras indígenas. É uma vergonha nosso governo jogar e rifar os direitos humanos e constitucionais desse modo”, afirmou Zelic.

    A deputada Janete Capiberibe (PSB-AM) sugeriu a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar os crimes descritos no Relatório Figueiredo. “Trata-se do extermínio de milhares de índios – crianças, mulheres, jovens, velhos, homens – para que seus assassinos se apropriassem dos seus bens para si ou para terceiros”, afirmou ela. Nessa direção, Zelic sugeriu que seja criado um fundo de reparação para os povos indígenas para indenizar o roubo da renda indígena, que o Relatório seja disponibilizado na internet e que os povos indígenas constituam Comissões da Verdade em suas aldeias.

    Preconceito histórico e institucionalizado

    Cerca de trinta Kayapó tentaram participar da Audiência Pública. No entanto, a segurança da Câmara, justificando medo de manifestações mais radicais, autorizou um rodízio em que apenas 10 indígenas poderiam entrar e que, portanto, eles teriam que se revezar para participar da Audiência.  Indígenas de outras etnias e deputados presentes, os participantes da mesa e os que assistiam as falas chegaram a pedir a suspensão do evento, alegando que a necessidade de mudar esta postura preconceituosa em relação aos povos indígenas era justamente um dos temas em debate. Por fim, os deputados Sarney Filho (PV-AM), Chico Alencar (PSOL-RJ) e Domingos Dutra (PT-MA), em negociação com a presidência da Casa, conseguiram autorização para que o grupo todo participasse do debate.

    Esta audiência foi proposta pelo Grupo de Trabalho Questão Terras Indígenas, formado após a ocupação do plenário da Câmara por 700 indígenas, no dia de16 abril, em uma manifestação contra o retrocesso de direitos indígenas, principalmente a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215.

     

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  • 21/06/2013

    I Encontro dos Povos Indígenas na Fronteira vai debater a Convenção 169 da OIT

    O Conselho Indígena de Roraima (CIR) promove nos próximos dias 25 a 27 de junho o I Encontro dos Povos Indígenas na Fronteira com o tema “Um olhar sobre a Convenção 169 da OIT”. O evento será realizado em um dos locais históricos dos povos indígenas de Roraima, no Lago Caracaranã, atualmente Centro Regional localizado na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, município de Normandia.

     

    O objetivo do evento é discutir, identificar e mapear os problemas das comunidades indígenas localizadas na fronteira de Roraima, Guiana e Venezuela, abordando os aspectos sociais, econômicos, culturais e ambientais dos povos indígenas. As lideranças buscam soluções para as suas preocupações de acordo com o tema central do evento.

     

    O Coordenador do CIR, Mário Nicácio reforça a idéia de que povos indígenas não têm fronteiras, pois vivem em tríplice fronteira, Brasil, Guiana e Venezuela, e com a realização do evento a organização só fortalece a atribuição de defender os direitos dos povos indígenas, tanto no âmbito nacional quanto internacional, buscando sempre respeitar e valorizar a diversidade cultural dos povos.    

     

    Joenia Wapichana, coordenadora do Departamento Jurídico do CIR que organiza o evento, destaca que o I Encontro dos Povos Indígenas na Fronteira é por considerar uma série de recomendações das comunidades e suas lideranças indígenas para debater acerca de problemas que envolvem Brasil-Guiana-Venezuela, e conhecer os mecanismos internacionais de direitos, tal como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT. 

     

    Para o evento foi mobilizada a participação de lideranças indígenas das regiões fronteiriças de Roraima, da Guiana e Venezuela, organizações indígenas e autoridades dos consulados dos países vizinhos. Haverá também a presença de representantes da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

     

    Foram convidadas as instituições locais como o Ministério Público Federal (MPF), Ministério Púbico Estadual (MPE), Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Universidade Federal de Roraima (UFRR), Prefeituras dos Municípios de Bonfim, Pacaraima, Uiramutã e Normandia e demais entidades. A expectativa é reunir mais de 100 participantes.

     

    De acordo com a programação, no primeiro dia (25) será exposto o tema sobre “Direitos Indígenas Contemporâneos”, diretos no âmbito internacional, brasileiro, guianense e venezuelano. Após a exposição haverá debate, análise de conjuntura da situação dos povos indígenas em suas respectivas localidades, resultados dos grupos de trabalho (GTs) que serão formados para discutir a temática. No segundo dia (26), haverá mesa redonda com o tema “O Sistema Internacional de Defesa dos Direitos Humanos”.

     

    No mesmo dia (26), a plenária vai conhecer e discutir o tema central do evento “Um olhar segundo a Convenção 169 da OIT”, com a participação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), do convidado da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Assessoria Internacional da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), além de outros convidados. À tarde, haverá discussão do tema “Questões problemáticas em fronteiras e os povos indígenas”.

     

    Para o último dia do evento (27) está programada a análise de conjuntura das demandas apresentadas e discutidas durante os dias anteriores, subsídios que serão necessários para apontar os desafios e as perspectivas, além de firmar acordos entre os participantes. O mapeamento e acordos serão focos principais do evento.

     

    O I Encontro dos Povos Indígenas na Fronteira tem o apoio da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Organização Internacional do Trabalho (OIT), Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (PNCSA/PNUD), e da Universidade Estadual do Amazonas (UEA).

     

    Essa será a primeira vez que povos indígenas de áreas fronteiriças vão dialogar e analisar questões na visão da Convenção 169 da OIT, povos que vivem e convivem com realidades diferentes, culturas e valores tradicionais.

     

    O momento não marca somente o encontro dos povos, o diálogo diferenciado entre o Estado e os indígenas, que buscam em comum acordo ações e propostas para a solução das problemáticas, mas também o fortalecimento, a união e luta, em defesa de direitos, garantias de vida sem ameaças ou riscos sociais, culturais, ambientais e econômicos as comunidades indígenas localizadas nas áreas de fronteira entre Brasil, Guiana e Venezuela.

     

    Em Roraima as terras indígenas localizadas nas áreas de fronteira são: Terra Indígena Jacamim, Terra Indígena Manoá-Pium, Terra Indígena Raposa Serra do Sol, Terra Indígena São Marcos, Terra Indígena Wai-Wai e Terra Indígena Yanomami. 

     

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  • 20/06/2013

    Por que Dilma não recebe os índios?

    Marco Paulo F. Schettino

    Mestre em Antropologia UnB

    Analista em antropologia

    do Ministério Público Federal

     

    A presidenta Dilma se recusa sistematicamente a receber os índios. Nem mesmo a trágica morte do índio terena Oziel Gabriel, durante uma desastrada reintegração de posse em Mato Grosso do Sul, demoveu a presidenta de sua intransigente recusa.

     

    Essa trágica morte é o indicador mais cristalino – pois não se trata de caso isolado – da ausência de uma política de governo para solucionar os conflitos que envolvem índios e fazendeiros. A frustração da expectativa indígena, diante do terceiro governo consecutivo do PT, sinaliza para dois cenários: o retrocesso em direitos fundamentais dos povos indígenas e o agravamento das violações dos seus direitos humanos.

     

    A resposta a tais conflitos, no atual governo, tem tido duas vertentes. Uma é atender ao clamor pela suspensão e flexibilização dos direitos constitucionais dos povos indígenas, concretizado em moratórias como as recém anunciadas para o Paraná e o Rio Grande do Sul. Tal proposta é acolhida com uma naturalidade assustadora, como se estivéssemos vivendo a “normalidade” de um Estado de exceção. A outra é reativa: a cada tragédia com repercussão midiática, espasmos de proatividade são ensaiados, comissões constituídas e promessas anunciadas, para durarem o tempo da repercussão e se diluírem no mesmo descaso e omissão anterior, geradores do fato repercutido.

     

    A recusa da presidenta, para além de expressar o pragmatismo que tudo reduz à governabilidade, e aos “fins”, que pretensamente justificam os meios, demonstra que seu governo não reconhece os índios como portadores de direitos e sujeitos qualificados para uma interlocução com a autoridade máxima da República. O mesmo não se observa com os setores que se opõem aos seus direitos.

     

    O direito à consulta, previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, ratificada pelo Brasil, não tem sido respeitado. Aos índios cabe, silenciados, aceitarem os desígnios do planejamento estatal ancorado nas matrizes colonial, integracionista e autoritária. A primeira pretende moldar a nação a uma grande feitoria exportadora de produtos primários, eliminando todos os “obstáculos” à exploração dos recursos naturais; a segunda não reconhece a diversidade sociocultural que os índios representam, busca integrá-los ao padrão do cidadão  urbano; a última não consulta as minorias socioculturais, lhes impõe o planejamento como fato consumado e faz da consulta prévia mero protocolo oitivo.

     

    A atualização da ideologia colonial, que reduzia a diversidade cultural a selvagens e civilizados, hoje se traduz em pobres e ricos. Os índios são, aos olhos do governo, pobres. Precisam ser emancipados da pobreza pelas políticas de “inclusão social” e “integrados” ao mercado. Não podem, desde sua “ignorância inculta”, se oporem ao benefícios do desenvolvimento ou dialogar com o paradigma de desenvolvimento vigente, no que lhes diz respeito, propondo-lhe alternativas ou ajustes.

     

    Certamente os índios não irão propor à presidenta que os congelem no século XVI, como pretendem aqueles que desqualificam seus direitos como mera tentativa de volta a um passado idealizado e indesejável, mas que lhes garanta seus direitos e a liberdade de escolha, onde aderir ao mundo “branco” não é uma imposição, mas uma opção tanto quanto participar da vida nacional sem terem que, necessariamente, abrir mão de seus direitos e identidades culturais.

     

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  • 19/06/2013

    Nossa floresta é nossa vida. O Povo Ka’apor não aceita mais mentira do governo e invasão do território por madeireiros

    Nós, povo Ka’apor da Terra Indígena Alto Turiaçu, reunimos nos dias 01 a 04/06/2013 na aldeia Xiépihurenda e 09 a 12/06/2013 na Aldeia Turizinho para discutir os problemas que afetam nosso povo, desde a educação até a gestão de nosso território. Demos uma atenção maior para a invasão de nosso território e pensar no futuro de nossa floresta e de nossos filhos. Aproveitamos para olhar os anos que o Estado, através da FUNAI e outros órgãos não deram a devida atenção para nosso povo e território, deixando que permitissem que fosse invadido.

     

    Assim como nós, outros povos no Maranhão e no Brasil estão sofrendo ataques, invasão e até assassinatos. Isso prova o descaso do governo do Maranhão e do governo federal com a defesa de nossos direitos, de nossa vida. Nossos parentes Gavião, da Terra Indígena Governador, estão sofrendo como a gente. Não vamos ficar parados e nem aceitamos que esses fazendeiros e madeireiros queiram governar para seus parentes e grupos políticos. Estamos unidos com os parentes Gavião, por isso somos solidários. A luta deles é nossa luta.

     

    Não vamos aceitar mais ataques e ameaças. Por isso, decidimos cuidar e proteger nosso território e não esperar mais pela Funai, pelo governo. Eles sempre pedem para esperar. Enquanto isso os invasores destroem nossos bens naturais, enganam nosso povo, dão bebidas para nossos parentes, levam nossas caças, tiram alimento de nossos filhos. Só nós sabemos de nossos problemas porque sentimos e sofremos. Só nós sabemos os caminhos que temos que seguir. Não aceitamos mais que o governo decida e faça por nós. Nós mesmos vamos vigiar, proteger e trabalhar a gestão de nosso território.

     

    Também reunidos no Instituto La Salle (dos Irmãos Lassalistas) nos dias 17 a 19/09/2013 para conversar sobre nossa educação, avaliar a falta de respeito da SEDUC com nossa escolarização. Nesse momento, continuamos discutindo a elaboração de nosso Projeto Pedagógico e Curricular e organização de nossa educação nas aldeias. Não queremos mais vestir “roupa velha, dos brancos”. Queremos vestir a nossa própria roupa, uma educação com o nosso rosto, com a cultura e identidade Ka’apor e não Kamará (brancos).

     

    Vamos continuar lutando por nossos direitos juntamente com milhões de parentes pelo Brasil afora. Não aceitamos que nossos bens naturais sejam roubados, nossa floresta destruída, nossa cultura ameaçada, nossa dignidade seja ferida.

     

    Todo apoio e solidariedade aos parentes Gavião, do Maranhão e todos os parentes que estão sofrendo ameaças e assassinatos no Brasil.

     

    Presidente Médici, MA, 19 de junho de 2013.

     

    Lideranças, caciques, mulheres, crianças, professores Ka’apor, Comissão de Educação Ka’apor.

     

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  • 17/06/2013

    Paraná: MPF/Guaíra verifica as péssimas condições de vida de indígenas na região de Guaíra e Terra Roxa

     

    Depois de visita técnica, procuradores instauraram 45 procedimentos administrativos e um procedimento investigatório criminal, além de requisitar a instauração de dez inquéritos policiais

     

    Prestes a completar um ano de atuação na cidade de Guaíra-PR, o Ministério Público Federal tem atuado de forma incisiva na defesa da população indígena da região noroeste do Estado do Paraná. Com este enfoque, os procuradores da República Lucas Bertinato Maron e Henrique Gentil Oliveira realizaram visitas técnicas aos quase 1.800 indígenas que residem em 13 aldeias nos municípios de Guaíra e Terra Roxa, entre os dias 4 e 7 de junho.

     

    Como resultado dos elementos coletados nestas visitas técnicas, o MPF instaurou 45 procedimentos administrativos, promoveu a instauração de um procedimento investigatório criminal e requisitou a instauração de dez inquéritos policiais a fim de garantir à minoria indígena a possibilidade de respeito ao princípio da Dignidade da Pessoa Humana.

     

     

    Desrespeito – Durante as visitas foi possível averiguar diversas situações de desrespeito às mínimas condições de vida dos integrantes da comunidade indígena (etnia guarani). Em muitas aldeias, a única fonte de água disponível para beber vem de mananciais impróprios para o consumo humano, muitas vezes contaminados por agrotóxicos e fertilizantes. Foi possível verificar que, dentre as 13 aldeias visitadas, apenas em três há fornecimento de água potável aos moradores.

     

     

    Além disso, a falta de acesso à educação na língua materna foi apontada como outro grande desafio a ser superado. Apenas em uma das aldeias foi construída uma escola modular, com condições mínimas de aprendizagem em sua língua materna. Fora isso, a educação regular junto à rede pública permite o convívio entre índios e não-índios, o que poderia possibilitar interações interculturais harmônicas. No entanto, em razão do clima hostil instalado na região, a convivência tem ocasionado episódios de racismo e intolerância, com relatos de agressões psicológicas por parte de alguns colegas de turma não-indígenas, que os acusam de querer “tomar” a cidade. De resto, há relatos de que alguns professores impediram o acesso de índios à merenda como forma de castigo.

     

    Ainda neste sentido, atitudes racistas têm sido praticadas por alguns dos munícipes. Nas redes sociais, sites e jornais é possível verificar que há bolsões de repúdio à presença dos índios na cidade. Nas visitas técnicas foi relatado ao MPF que empresas de médio porte teriam demitido todos os empregados de etnia guarani de uma só vez, como forma de represália aos indígenas por estarem postulando a demarcação de terras.

     

     

    A falta de emprego e de alimento das comunidades indígenas, bem como as péssimas condições de moradia e vida, tem provocado, inclusive, a adoção de atitudes extremas por alguns dos índios. Nos últimos seis meses, dois indígenas cometeram suicídio, o que mostra que todo o clima de animosidade existente na região tem trazido resultados desastrosos para o povo guarani, que, por sua condição de hipossuficiência, é a mais vulnerável vítima do contexto conflituoso.

     

    Veja aqui os relatórios das visitas técnicas:

    Aldeia Indígena Tekohá Araguaju

    Aldeia Indígena Tekohá Guarani

    Aldeia Indígena Tekohá Jevy

    Aldeia Indígena Tekohá Karumbey

    Aldeia Indígena Tekohá Marangatu

    Aldeia Indígena Tekohá Mirim

    Aldeia Indígena Tekohá Nhemboete

    Aldeia Indígena Tekohá Pohã Renda

    Aldeia Indígena Tekohá Porã

    Aldeia Indígena Tekohá Porú

    Aldeia Indígena Tekohá Tajy Poty

    Aldeia Indígena Tekohá Taturi

    Aldeia Indígena Tekohá Yhvy

     

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  • 17/06/2013

    Moção de repúdio à violência contra os povos indígenas do Fórum Nacional de Educação do Campo

    O Fórum Nacional de Educação do Campo – FONEC, reunido em Brasília nos dias 13 e 14 de junho de 2013 vem manifestar solidariedade as lutas indígenas que acontecem em todo o país como na aldeia Buriti em Sidrolândia/MS, em Altamira no estado do Pará, dentre tantas outras que ocorrem em todo o território nacional como forma de resistência à concentração de terras, à destruição do meio ambiente, à violência e morte no campo.

    Repudiamos a aliança poderosa que tem se constituído entre o Governo Federal, Estaduais e Municipais, o Poder Judiciário, a mídia, as empresas transnacionais, fazendeiros e grandes produtores rurais fortalecendo os interesses do agronegócio na produção de commodities para a exportação, desrespeitando a Constituição Federal e ameaçando a vida, expulsando e expropriando de suas terras indígenas, camponeses, quilombolas, ribeirinhos e povos da floresta.

    Perplexos e indignados com essa situação afirmamos o nosso compromisso de apoiar a luta de todos os povos indígenas e seus movimentos sociais, pela vida e pela terra como direito sagrado e universal de todos os seres humanos.

    Brasília, 14 de junho de 2013

    AECOFABA -AEFACOT – AEFAPI – ASSESSOAR – Comitês Estaduais de Educação do Campo – CONTAG – CPT – FEIPA – FETRAF – FRENTE PARLAMENTAR DE EDUCAÇÃO DO CAMPO- Fóruns Estaduais e Regionais de Educação do Campo – IFC – IFMA – IFMT – IFPA – IFRN – MAB – MLT – MMTRP – MOC – MST – RESAB – SINTEP – UEFS -UESPI- UFERSA – UFPA – UFPB – UFPE – UFPEL – UFPI – UFRB-UFRN – UFRRJ – UFSC – UFT – UNB – UNEB – UNEFAB – UNICENTRO – URRB

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  • 16/06/2013

    Mato Grosso do Sul: assassinatos, prisões e impunidade

    "Isso já passou de todos os limites", exclama Otoniel Kaiowá Guarani, ao ser informado do assassinato de mais um parente.

     

    A polícia se apressa em ir ao local para esclarecer (ou não) mais essa morte de indígena no Mato Grosso do Sul. E para evitar animosidade, já vai adiantando que provavelmente a morte não tenha nada a ver com o conflito de terras indígenas na região. Enquanto Celso Figueiredo vai sendo velado, com prantos indignados, em Dourados cinco Kaiowá Guarani são presos, inclusive a professora Efigenia, grávida. As lideranças são da terra indígena Panambi – Lagoa Rica, aldeia Ytaí, município de Douradina.

     

    Nada disso é novidade no Estado mais anti-indígena do país. Enquanto, o Guarani Celso, assassinado por pistoleiros, está sendo velado, na terra indígena Paraguasu, no município de Paranhos, fronteira com o Paraguai, uma delegação Kaiowá Guarani e Terena, se encontram com vários ministros e parlamentares, para repetir mais uma vez o que foi denunciado milhares de vezes nas últimas décadas: demarquem nossas terras, parem de nos matar, punam os assassinos confessos e reconhecidos.

     

    Porém, os Estado brasileiro e do Mato Grosso do Sul, fazem a leitura ao avesso: matam e prendem os índios. Isso tem seu preço. O Brasil e o mundo não aguentam mais esse genocídio. Os povos indígenas não podem continuar sendo sacrificados no altar do progresso.

     

    Enquanto isso, roncam os tratores e as vozes estridentes de Katia Abreu e outros lideres do agronegócio em todo o país. Talvez estejam temerosos de que o Relatório Figueiredo e as CPIs de 1953 e 1963 façam vir à luz as maracutaias que se faziam, apossando-se as elites do então estado do Mato Grosso, das terras indígenas. Não é por nada que não se realiza um levantamento sério e aprofundado das cadeias dominiais e da estrutura fundiária.

     

    Rodas de diálogo

     

    Enquanto nos gabinetes e corredores vai sendo costurado um novo modelo de identificação e regularização das terras indígenas, com mais interlocutores na mesa, vão sendo constituídos rodadas de negociação e esclarecimentos entre vários ministérios e lideranças indígenas Kaiowá Guarani e Terena. Também a Comissão Especial formada pelo Conselho Nacional de Justiça – CNJ, voltou a se reunir, para ajudar a encontrar saídas para a grave situação das terras indígenas no MS, que tem ocasionado um gravíssimo cenário de assassinatos, feridos, prisões e ameaças.

     

    Conforme Lindomar Terena, apesar de não ter nenhuma ilusão de que seja fácil ou rápida a solução do reconhecimento e demarcação das terras indígenas no Mato Grosso do Sul, acredita que é importante manter os espaços de diálogo e a visita das autoridades à região para ver e sentir no local as dramáticas realidades das comunidades e povos indígenas desta região. Para o mês que vem várias visitas de comissões e ministérios estão previstas. Quem sabe em alguma coisa se avance.

     

    Conforme relato dos membros da Aty Guasu, de 1988 a 2012 mais de mil suicídios aconteceram entre os Kaiowá e Guarani, o que evidencia o grau de desespero e descrença na solução dos problemas, principalmente da terra. “Nos últimos dez anos, mais de 300 indígenas do nosso povo foram assassinados. Relatamos que no Mato Grosso do Sul, existem propagação permanente de racismo, discriminação e ódio contra os indígenas tanto pela mídia local quanto pela manifestação pública dos fazendeiros anti-indígenas e autoridades locais. O genocídio dos povos indígenas do MS em curso foi e é alimentado pelos fazendeiros anti-indígenas. Centenas de lideranças foram assassinadas por pistoleiros das fazendas. Os assassinos das lideranças indígenas não são punidos no MS, a impunidade alimenta as violências contras os indígenas do MS. Destacamos na reunião que nós indígenas do Mato Grosso do Sul sofremos violências tanto pelos pistoleiros dos fazendeiros quanto pela decisão da Justiça Federal, que nenhuma decisão da justiça não considera os nossos direitos, todas as decisões foram favoráveis aos fazendeiros, ignorando os nossos direitos" (Comissão das lideranças da assembleia geral Aty Guasu Guarani-Kaiowá e Terena. Brasília-DF, 12 de junho de 2013).

     

    Mais uma semana de muita conversa, reuniões e manifestações dos povos indígenas em Brasília. Foram acionadas as válvulas de escape da panela de pressão. Os povos indígenas do Xingu, Tapajós e Teles Pires retornaram a suas aldeias, depois de mais de uma semana aguentando o frio do planalto central. Deram o recado. Voltaram de cabeça erguida, certos de que a luta apenas começou.

     

    Os Kaiowá Guarani e Terena tiveram mais uma rodada das eternas conversações, nesse jogo de faz de conta.

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