• 04/07/2013

    Crianças Marubo têm membros amputados por falta de soro antiofídico

    O drama em que se encontra o atendimento à saúde na Terra Indígena do Vale do Javari é público e notório há tempos. Inúmeras denúncias já foram feitas aos órgãos governamentais, mas a situação não muda. Ontem (3), os povos indígenas Marubo, Mayuruna, Matis e Kanamary denunciaram, em carta, que duas crianças foram amputadas por falta de soro antiofídico, medicamento básico na região Amazônia. Eles reivindicam uma urgente reunião com Antônio Alves, responsável pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e a, também urgente, compra de soros antiofídicos para os Polos Base, além de outras reivindicações necessárias para melhorar as condições de atendimento médico na região.

     

    Leia, na íntegra, a carta dos povos indígenas do Vale do Javari:

     

    Atalaia do Norte (AM), 03 de Julho de 2013

     

    Nós, povos indígenas Marubo, Mayuruna, Matis e Kanamary do Vale do Javari, estamos reunidos no auditório da Coordenação Regional da Fundação Nacional do Índio (CRVJ/Funai) de Atalaia do Norte, no Amazonas, preocupados com o que ocorreu com as crianças indígenas Natalino Dorlis Marubo, de 10 anos, e Clebson Dionísio Marubo, de 12 anos,  amputados devido à picadas de cobra. O fato está causando uma profunda insatisfação dos familiares pelo sofrimento dos mesmos, causado pela grave situação de falta de soro antiofídico nos Polos Base, o que levou a agravamentos no quadro médico das crianças.

     

    Vale lembrar que tal medicamento nunca faltou mesmo nos períodos em que a Funai era a responsável pela saúde indígena. Esta é segunda vez que um fato desses acontece na história de vida dos povos indígenas do Vale do Javari. Em 1995 houve um caso desses, e agora, dessa vez, temos um caso de óbito de uma indígena Mayuruna Branca Unan Mayuruna, de 50 anos, da aldeia Fruta-Pão do povo Mayuruna.

     

    Estamos insatisfeitos com a “falta de tudo” nos Polos Base: soro antiofídico, luva, medicamento, insuficiência de gasolina, óleo lubrificante, vela, hélice de motor, etc. Muitas vezes, os remédios são enviados já em fase de vencimento pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) aos Polos Base. Os profissionais sobem os rios com a promessa, muitas vezes, de receber o medicamento depois. Acaba passando 45 dias ou mais sem receberem os medicamentos.

     

    Os indígenas cobram melhores condições no atendimento, mas os profissionais não têm o que fazer. A Casa de Apoio de Tabatinga está quase parando pela falta de pagamento de 16 meses de pendência, e o proprietário está preocupado pela falta de pagamento de aluguel. Falta faxina na referida estrutura por ausência de materiais de limpeza do Dsei, e os profissionais estão desestimulados no serviço de saúde. Não tem mais dieta para os pacientes, por falta de alimentação e o fornecedor diz que não tem condições de fornecer se não houver pagamento dos que já foram fornecidos para Dsei.

     

    Os carros estão parados por falta de peças de reposição, forçando a utilização de veículo da Funai. O barco, que fazia o transporte entre Benjamim Constant e Tabatinga, para apoio aos portadores em tratamento, está parado. Existem apenas dois barcos tipo (deslizador) para atender as remoções no interior da Terra Indígena do Vale do Javari, causando, dessa forma, insatisfação pela gestão de saúde no Vale do Javari.

     

    O Dr.Vorney, médico que acompanha os pacientes portadores de hepatites virais em Tabatinga, tem apresentado a situação da estrutura da Casa de Apoio de Tabatinga ao seu chefe, no sentido de melhorar a atenção na saúde e torná-la mais humanizada. No entanto, não foram tomadas providências. Por sua vez, os indígenas se sentem abandonados e cobram suas aldeias para que tomem providências no sentido de melhorar a atenção no local.

     

    O adolescente Kulína morreu devido à espera do convênio da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) com o estado, e por não haver recursos próprios para o frete de um avião. Vem acontecendo outros casos constrangedores, que levam os indígenas a se negarem a ir para outras cidades, para atenção de média e alta complexidade.

     

    Diante do exposto, vimos exigir a presença do Dr Antonio Alves, secretario da Secretaria Especial de Saúde Indígena, para uma reunião com urgência com as lideranças indígenas do Vale do Javari, para que sejam tomadas providências urgentes em relação aos descasos que acontecem na região.

     

    Exigimos que seja adquirido soro antiofídico para as comunidades indígenas, considerando que está aumentando o número de acidentes ofídicos no interior desta terra indígena.

    Desse modo, precisamos de uma resposta URGENTE.

     

    Caso não sejamos atendidos, iremos levar ao conhecimento do Ministério Público Federal, bem como exigiremos uma audiência pública em Atalaia do Norte, além de outras providencias necessárias que iremos tomar.

     

    Desde já agradecemos sua valiosa atenção e despedimo-nos, com saudações indígenas.

     

     

     

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  • 03/07/2013

    A constante violência contra os povos indígenas do Brasil

    Dom Bruno Pedron, Bispo da Diocese de Ji-Paraná (RO)

    Cimi Regional Rondônia

     

    No ano 2013 queríamos difundir nos meios de comunicação social que os direitos dos povos indígenas são respeitados, suas terras demarcadas e homologadas. Infelizmente não é assim. O Estado brasileiro continua explorando, dizimando e discriminando os povos indígenas. No compromisso assumido, o Cimi e a Igreja denunciam a violência contra os povos indígenas no Brasil. Racismo, genocídio, danos ambientais nas terras indígenas, morosidade na regularização de terras e morte por desassistência na área de saúde e outros são os tipos de violência cometida contra os povos indígenas.

     

    Diariamente os povos indígenas são vítimas de discriminação, preconceito e marginalização por parte da sociedade envolvente. Sofrem todo tipo de violência, não bastasse todo o genocídio ocorrido há séculos. São violentados por quem tem o dever moral de protegê-los, o Estado brasileiro, através das constantes tentativas de mudanças na Constituição Federal, como é o caso das PECs 215, 038, 237, do PL 1610 (mineração) e das portarias 303 e 308, que atentam diretamente contra os direitos já garantidos na Constituição Federal.

     

    Povos são expulsos dos seus territórios em nome de um desenvolvimento depredador e genocida, que se preocupa mais com uma cabeça de boi, com a expansão da monocultura, do que com a vida humana. Mais vale um pé de soja do que uma floresta, mais vale uma hidrelétrica que beneficia um pequeno grupo econômico, que vida e saúde para os povos.

     

    Os povos indígenas são constantemente agredidos, quando seus territórios são invadidos por madeireiros, fazendeiros e grandes empreendimentos. No estado de Rondônia, as 21 terras indígenas demarcadas e homologadas sofrem algum tipo de invasão, sem contar com os povos que aguardam a décadas, o processo de demarcação de seus territórios.  Os povos Puroborá, Migueleno, Wajoro, Kassupá, Cujubim e outros que há mais de dez anos aguardam a conclusão do processo de identificação, demarcação e homologação dos seus territórios tradicionais, bem como, o povo Guarassugwe sofre a violência de não ter reconhecido a sua identidade indígena. Esta morosidade cria um quadro de insegurança para as comunidades, que se sentem ameaçadas no seu direito de transitar livremente pelas cidades.

     

    Sabemos que os povos que estão em situação de isolamento e risco de extinção são ameaçados e quem sabe exterminados para dar lugar ao capital financeiro. Em Rondônia, mais de 15 grupos estão seriamente ameaçados por empreendimentos econômicos na região. As hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau estão sendo construídas em cima de territórios de povos isolados, contrariando e violando a Constituição Federal e a Convenção 169 que protege o direito destes povos continuarem viver de forma livre e autônoma.

     

    A principal causa de violência contra os povos indígenas continua sendo os seguidos conflitos por terra e a morosidade no processo de demarcação. Em 2012 as demarcações de terra continuaram paralisadas, apesar das constantes reivindicações dos povos indígenas. Infelizmente, o quadro de morosidade continua em 2013. Com relação aos grandes empreendimentos, o governo assume uma postura arbitrária, desrespeitosa e autoritária contra aqueles que se manifestam contrariamente ao projeto econômico ou denuncia sua ilegalidade e defende direitos garantidos na Constituição Federal. 

     

    A questão das hidrelétricas de Tabajara, Ribeirão e tantas outras pequenas hidrelétricas projetadas no Rio Machado, Rio Branco e outros, afetam diretamente os povos indígenas e principalmente os povos que estão em situação de isolamento e risco de extinção, bem como, os ribeirinhos e pequenos agricultores, que vivem às margens do Rio Machado e do Rio Ribeirão. Estes empreendimentos projetados nas terras indígenas contrariam e violam o direito destas populações, como garante a Convenção 169 da OIT.

     

    A Igreja Católica e o Cimi vêm a público denunciar a violência que sofre os povos indígenas do Brasil e esperamos que o Relatório de Violência contra os Povos Indígenas 2012 seja colocado nas mãos da imprensa e do povo brasileiro e que nos unamos para reverter este quadro de violência que sofrem os povos indígenas, que nos solidarizemos na luta e na resistência destes povos. 

     

     

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  • 03/07/2013

    Caminhando para não parar a história: a resistência do povo Mỹky no Mato Grosso

    O Povo Mỹky habita a margem direita do rio Papagaio, a 53 km da cidade de Brasnorte, Mato Grosso. Vivem numa terra demarcada e homologada de 47.094 hectares que abrange áreas de Floresta Amazônica e Cerrado, sendo uma das poucas áreas remanescentes de transição entre os dois biomas.



    São falantes de uma língua isolada, contatados em 1971, quando eram vinte e três pessoas, pela então Missão Anchieta. De lá para cá, mantém um crescimento demográfico em ascensão. Atualmente, 70% da comunidade Mỹky é constituída por jovens e crianças, numa população total em torno de 124 pessoas.



    O povo Mỹky mantêm suas práticas de cultivo tradicionais de grandes roças, comunitárias e familiares, de milho, mandioca, batata, cará branco e roxo, amendoim, algodão, cana e várias espécies de feijão. Também praticam o extrativismo da castanha, caju do mato, tucum, pequi, buriti, e bacaba, entre outras frutas silvestres. Caçam anta, queixada, caititu, primatas, tamanduá, veados, além de pescarem diversas espécies de peixes.



    Mesmo realizando expedições na porção de seu território que ficou fora da atual demarcação – em busca de castanha, tucum e demais pontos de coleta e caça -, não é mais possível para os Mỹky manter a tradição dos acampamentos. Isso acontece porque as áreas necessárias à extração desses recursos são atualmente fazendas (propriedades privadas), dificultando a permanência do costume.



    Na busca por manter suas práticas tradicionais e sua cultura, o povo iniciou a luta para reaver a integralidade de seu território. Após longos anos de reivindicação e de iniciativas em conjunto com o Ministério Público Federal em Mato Grosso, o estudo do território Mỹky foi concluído em 2011. Como em todo processo de demarcação, depois de concluído o estudo, foi publicada a declaração de Terra Indígena e aberto o prazo de 90 dias para as contestações, em cumprimento ao que definiu o inciso 8º do Decreto 1.775/96.



    A partir daí, o processo de demarcação foi judicializado. Entre decisões ora favoráveis aos indígenas e Funai, ora favoráveis aos fazendeiros, a efetivação do direito constitucional à terra é postergada.



    Em maio de 2012 o juiz federal, através de liminar, considerou nulos todos os estudos realizados para a demarcação, atendendo a Associação de Produtores Rurais de Brasnorte (APRUB).  A Fundação Nacional do Índio obteve em Brasília decisão favorável junto ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região para dar continuidade aos estudos de revisão e demarcação da Terra Indígena. Para esta decisão também já se conseguiu outro recurso favorável aos fazendeiros. E assim segue até não haver mais possibilidade de recursos.



    Enquanto o direito à terra integral não se efetiva, os Mỹky sofrem diversas pressões dos ruralistas de Brasnorte, unidos aos ruralistas de toda a região – Juína, Tangará da Serra, Campo Novo dos Parecis e Sapezal. Essas pressões se expressam por manifestações na cidade de Brasnorte, reuniões de fazendeiros e deputados ruralistas travestidas de audiências públicas em Juína, por campanhas feita no comércio e em outros espaços com panfletos – além de campanhas discriminatórias e criminosas em rádio, jornal impresso local e pela internet.



    Ao passo que isso acontece fora da terra, na terra reivindicada vai-se, progressivamente, ocorrendo desmatamentos por supostos “planos de manejo”, destruindo o que se pode, enquanto o processo não chega ao fim previsível que reconhecerá aos indígenas seu direito ao bem roubado.



    Para evitar as distorções, ou a visão tendenciosa de alguns interessados, de que a luta deste povo é de agora, recorremos ao histórico descrito por Andrea Jakubasko (2011). Os destaques são nossos:



    “No século XIX, em meio ao crescente processo de ocupação do Centro-Oeste, motivado pela extração comercial de poaia e seringa, passando pelas linhas telegráficas e pela Marcha para o Oeste, os povos indígenas sofreram os impactos diretos gerados pelas frentes pioneiras de expansão e, num efeito dominó, a disputa por espaços, terras e recursos naturais deflagrou a intensificação dos conflitos interétnicos. Durante a primeira metade do século XX, os Mỹky procederam a diversos deslocamentos no interior desse território histórico, em função de massacres por seringueiros, ataques de inimigos […] e da proximidade dos não-índios engajados na abertura de estradas e extração da seringa. Em fins da década de 1950, o povo sofreu agudo processo de depopulação ocasionado pela contração de doenças, chegando à beira da extinção, sobrevivendo apenas nove (9) pessoas. Os Mỹky sempre resistiram ao contato, e após inúmeras tentativas de aproximação da Missão Anchieta (MIA) durante a década de 60, o encontro com 23 indígenas ocorreu apenas em 1971. Todas as áreas visitadas, filmadas, fotografadas e descritas pelas sucessivas expedições de contato, como aldeias e áreas ocupadas pelos Mỹky, ficaram fora do traçado da demarcação, inclusive a aldeia onde ocorreu o primeiro contato. Os Mỹky foram empurrados na direção oposta a seu território histórico, arrancados do ambiente que lhes dá sustentação física, histórica e cultural, localizado em regiões de floresta, em meio a um contexto de aliciamento, repressão e ameaças, no litígio com o Sr. Mauro Tenuta – fazendeiro que avançou sobre as terras indígenas com seus tratores, expulsando os Mỹky da aldeia que ele destruiu em 1974, em troca de arroz, açúcar, farinha, feijão, foices, machados, facões e roupas. Dada a interdição das áreas de litígio, após um lento processo jurídico-burocrático, o acordo para demarcação ocorreu em 1978, como medida que atendia aos interesses dos não-índios. Cabe enfatizar que os trabalhos de demarcação da terra indígena foram custeados pelo Sr. Mauro Tenuta, e que a atuação dos missionários da MIA e da FUNAI pautou-se pela intenção de garantir, em caráter emergencial, as condições mínimas de sobrevivência do grupo, completamente fragilizado, frente ao avanço desenfreado das frentes de expansão no Mato Grosso. Desse modo, a definição dos atuais limites da T.I.Menkü aconteceu ao arrepio da legislação vigente à época, (Decreto 76.999/76 e a Lei nº 6.001/73), em um processo pautado pelo vício, dolo e esbulho renitente desconsiderando a totalidade das áreas tradicionalmente ocupadas pelos Mỹky, uma vez que a demarcação física baseou-se na área definida pelo Auto de Reintegração de Posse (1974), excluindo-se até mesmo as aldeias avistadas pelas expedições de contato, bem como as regiões do Jenipapo, do Castanhal, Tucunzal e nascentes do Rico e Águas Claras, utilizadas intensamente pelos Mỹky.”


    Sem a necessidade de recorrer ao histórico matogrossense de distribuição de terras pelos antigos governadores a parentes e amigos, estes elementos provam por si só os vícios no primeiro processo demarcatório – e a necessidade de corrigir este crime para com esta comunidade já tão violentada.

     

    Mais recentemente, fatos mais que absurdos somaram-se às diversas formas de pressão e esbulho efetivado por quem, por um lado, se nega a reconhecer o direito dos Mỹky – e por outro busca extinguir o mais rápido possível os bens naturais ainda presentes nesta porção rara da biodiversidade brasileira.


    No dia 12 de maio de 2013 um indígena Mỹky que estava na sede do município de Brasnorte foi abordado e preso por três policiais. Ao questionar o motivo de sua prisão, recebeu a resposta de que estava sendo preso “porque era índio e tava mexendo com terra”. O indígena não foi levado para a delegacia, mas para as proximidades do rio do Sangue (a cerca de 30km de Brasnorte), onde foi ameaçado e agredido fisicamente.


    Segundo o indígena, os policiais perguntaram: "Para que os índios que não trabalham querem terra?". Disseram ainda que ele, o indígena, não tinha visto nada, mas se a terra sair ele iria ver o que iria acontecer com ele. Posteriormente, os policiais foram embora, o indígena esperou na referida casa abandonada, saiu andando pela estrada, rumo à cidade de Brasnorte, onde chegou ao amanhecer.


    Um mês após este estes fatos, Marcelo Pietsch, presidente da Associação dos Comerciantes de Brasnorte, dono de uma olaria e que tem terras na área reivindicada pelo povo Mỹky, foi à rádio local fazer uma "denúncia" – que, na prática, se mostrou um incentivo explicito para que a população local reaja contra os indígenas, aderindo à campanha contra esses povos.


    A suposta denúncia está na página do Facebook de Willian Braz Oliveira, sendo compartilhada por várias pessoas. Entre os comentários, há apelos a violência, discriminação e desrespeito aos direitos humanos. Este ataque aconteceu às vésperas da manifestação organizada pela FAMATO, quando os fazendeiros de Brasnorte e de outras regiões de Mato Grosso buscavam angariar adeptos para pressionar contra as demarcações dos territórios indígenas e em favor da aprovação da Proposta de Emenda Constitucional 215, que tramita na Câmara dos Deputados.


    Utilizando-se de outras campanhas também de cunho racista e discriminatório – uma delas teve por base falsas acusações de infanticídio contra indígenas e uma vídeo montagem, já desmentida, em que se visualizaria o suposto enterro de uma criança indígena -, Pietsch inflama a população contra os indígenas dizendo que durante festa na cidade um indígena teria agredido uma criança cadeirante, vinculando a suposta agressão ao que chamou de "tradição cultural" de infanticídio.



    Entre seus argumentos, o presidente da Associação afirmou coisas como: “em algumas comunidades, a mãe pode matar um recém-nascido, caso o mesmo possua deficiências físicas, ou ainda esteja amamentando outro, ou se o sexo do bebê não for o esperado. Para a maioria dos índios, o nascimento de gêmeos ou crianças anômalas indica promiscuidade da mulher durante a gestação. Ela é punida, e os filhos, enterrados vivos. É importante ressaltar que não são apenas recém-nascidas as vítimas de infanticídio. Há registros de crianças de 3, 4, 11 e até 15 anos mortos pelas mais diversas causas".



    Pietsch continua: "e já que falamos em ‘Tradição Cultural’, podemos fazer uma comparação dessa tradição com o que é vivido por esses supostos nativos. Os mesmos nativos que matam crianças por acreditarem nas tradições, usam celulares, tem barco a motor, motocicletas, caminhões e caminhonetes. Os mesmos nativos que cometem a atrocidade chamada infanticídio participam de manifestações clamando por mais terras. Esses nativos dos quais me refiro, são os mesmos, que você e eu encontramos comprando e na maioria das vezes roubando em lojas e supermercados, são os mesmos que dirigem nas vias públicas sem o mínimo de noção de trânsito, são os mesmos que bebem em festas de tradições do homem branco, com a total certeza de impunidade!”



    Na página de Oliveira ainda, o comentário de chamada é: "nossos índios matam crianças portadoras de necessidades especiais?", ao que seguem inúmeros comentários de seguidores, que reverberam palavras de discriminação e declarações de que os indígenas “são maus”, “parasitas” e “selvagens”.



    Alem da veiculação de entrevista no dia 11 de junho, a rádio Transamérica local repercutiu comentários em outros dias.



    Em documento encaminhado ao Ministério Público Federal, a organizações de Direitos Humanos, ao Ministério das Comunicações, Funai e outros órgãos, a comunidade Mỹky desmentiu a suposta agressão “denunciada” por rádio e internet. Indígenas de outros povos conversaram com a família da criança cadeirante, que afirmou não concordar com as declarações vinculadas por Marcelo Pietsch.



    O incentivo à violência contra os Mỹky segue, enquanto não agem os órgãos responsáveis pela fiscalização e garantia de que, visto que está sob litígio, não se efetivem supostos planos de manejo ou novos desmatamentos para soja e eucalipto, como os que estão em curso.



    Os Mỹky, resistentes, mas preocupados com os fatos absurdos que lhes atinge diretamente, seguem questionando:



    “Quando a nossa terra vai ser demarcada, homologada e devolvida para o nosso povo? Nós queremos a nossa terra de volta, pois ela é nossa e os fazendeiros a tomaram. Nós precisamos da terra para viver, pois nascemos lá.

    Nós estamos preocupados com as árvores que eles estão tirando e também com os moradores das árvores, os espíritos que estão morrendo ou fugindo para outro local. Estas árvores são a Casa dos Espíritos que controlam a chuva, o tempo, o vento, o raio. Eles ficam dentro dos troncos das árvores grandes, aí eles choram ao amanhecer, porque as árvores estão morrendo. Então a gente fica preocupado em não derrubar mais, porque as árvores controlam.

    Os espíritos da mata ficam bravos porque a casa deles vai ser destruída e cai. Eles (espíritos) ficam bravos, pegam o espírito da gente e matam ou machucam a gente com os galhos que caem em cima.  

    O Mumju’u (Mãe de Chuva) é igual o tamanduá (na aparência): quando destrói a árvore, ele morre ou vai embora, ai não chove mais e fica seco, por isso está mudando a chuva. Se morrer tudo, vai secar a água e aí vem o sol muito quente, porque eles gostam de viver assim na mata fechada. Assim o tempo fica seco e não pode por fogo, porque queima tudo, por isso que tem que fazer aceiro. A árvore grande faz sombra e umidade, quando a gente anda, segura o sol muito quente.

    Os pássaros e os animais, assim como o ser humano, dependem também da água e da fruta da mata, por isso não pode fazer pulverização de veneno com secante na nossa terra. Está matando as árvores e contaminando a água das nascentes que correm para o rio.

    Os animais que nós caçamos, porco, anta, cateto, paca e cutia, estão comendo na lavoura de soja e se contaminando com o veneno, que depois vai envenenar a gente, que come a carne da caça. Alguns animais estão em extinção por causa do desmatamento e queimada que os brancos fazem na nossa terra.”



    Em seu mito de origem, os Mỹky saíram de dentro da pedra, e caminham nesta vida rumo à ‘Grande Casa’. Vencendo a “dureza” já em sua gênese, os mais velhos afirmam que não se pode parar de caminhar – como reforçam em seus rituais -, pois senão a história pára.



    É assim, caminhando, que os Mỹky fazem e refazem sua história, resistindo às ameaças, às efetivas violências e ensinando que RESISTÊNCIA e RESILIÊNCIA, além de gente, também é sinônimo de Mỹky.

     

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  • 03/07/2013

    Em decisão inédita, polícia é acionada contra fazendeiro que descumpriu ordem judicial e impediu acesso a comunidade indígena

    Desobediência judicial já dura 8 meses. Uso de força policial é “medida de rigor, que ora se impõe”. Multa diária para novo descumprimento é de R$ 10 mil. Comunidade de Pyelito Kue ficou conhecida quando os índios divulgaram carta em que se declaravam dispostos a morrer em vez de deixar as terras.

     

    A Justiça atendeu o pedido do Ministério Público Federal e determinou o uso de força policial (PF e PM) para fazer cumprir decisão de acesso dos órgãos de assistência ao indígena (Funai e Sesai) à comunidade Pyelito Kue, em Iguatemi, Mato Grosso do Sul. Também foi estipulada multa de R$ 10 mil por dia de novo descumprimento da decisão.

     

     

    Acesso à comunidade Pyelito Kue é precário

     

    Os indígenas, da etnia guarani-kaiowá, ocupam área de 1 hectare da Fazenda Cambará, desde novembro de 2011. A primeira ordem judicial determinando livre acesso à comunidade através da fazenda é de 30/10/12. Uma segunda ordem foi dada em 15/03/13. Ambas foram descumpridas. Eles permanecem na área até o fim do processo de demarcação de suas terras tradicionais. 

     

    A Polícia Federal e a Polícia Militar serão comunicadas oficialmente para que, num trabalho conjunto com a Funai e outros órgãos governamentais envolvidos, criem um plano de acesso à comunidade e “façam cumprir o que foi determinado pela Justiça”.

     

    Segundo laudo pericial elaborado pelo Ministério Público Federal em maio, o acesso para assistência aos indígenas é através do rio, quando as condições permitem, com o uso de barcos. Quando o rio está cheio, o atendimento médico e a distribuição de alimentos são realizados à beira da estrada. O acesso à comunidade é impedido, já que as porteiras estão trancadas com cadeado. 

     

     

    Indígenas ocuparão 1 ha de fazenda até o fim da demarcação

     

    A desembargadora federal Cecília Mello, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), afirmou que “a utilização de força policial é medida de rigor, que ora se impõe”, já que “os fazendeiros não cumprem, no mínimo regularmente, a determinação desta Egrégia Corte Regional há pelo menos 7 meses, o que, além de caracterizar desrespeito a uma decisão emanada pelo Poder Judiciário, coloca em risco todo um trabalho de harmonização das relações entre proprietários de terras e silvícolas no Estado do Mato Grosso do Sul”.

     

    Os indígenas, da etnia guarani-kaiowá, ocupam área de 1 hectare da Fazenda Cambará, desde novembro de 2011. Os índios se refugiaram no local – situado do outro lado do Rio Hovy – depois de ataque de pistoleiros ao acampamento montado por eles em estrada vicinal da região, em agosto do mesmo ano. A situação dos guarani em Pyelito Kue tornou-se assunto em todo o país quando os índios divulgaram uma carta em que se declaravam dispostos a morrer em vez de deixar as terras, assim que foram notificados do despejo pela Justiça Federal do Mato Grosso do Sul.

     

    Clique aqui para ler a decisão judicial.

     

    Referência processual no TRF-3: 0029586-43.2012.4.03.0000

     

    Assessoria de Comunicação Social

    Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul

    (67) 3312-7265 / 9297-1903

    (67) 3312-7283 / 9142-3976

    www.prms.mpf.gov.br  

    [email protected]  

    www.twitter.com/mpf_ms

     

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  • 03/07/2013

    População de Bonitos de Minas e Cocos protestam contra construção de barragens no Rio Carinhanha

    Audiência em Bonito de Minas(MG)

    População de Bonito de Minas, no norte de Minas Gerais, manifestou a insatisfação com o projeto das construções das Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) do Caiçara e Gavião no Rio Carinhanha, em audiência pública realizada em 18 de junho. A população alega que o projeto apresentado pelo Ibama mudaria todo o modo de vida tradicional da região.

    O tema principal da discussão foi o impacto ambiental que seria causado com a destruição da mata conservada, afetando a rica biodiversidade. Durante a apresentação do técnico do Ibama, ficou clara a fragilidade dos resultados do Relatório de Impactos Ambientais (Rima), que certamente não consta todos os impactos causados pela construção das PCHs.

    Em protesto, o povo defende a proteção do rio Cariranhas, que está relacionado aos seus costumes, cultura e histórias. Além disso, as ricas fauna e flora do cerrado da região ficarão submersas pelas barragens.

    Entre as entidades e pastorais que apoiaram o movimento, estava a Comissão Pastoral da Terra(CPT) de Minas e da Bahia, a Articulação Popular da Bacia do São Francisco(BA), o Instituto Rosa Sertão, o Instituto Biotrópicos, o Movimento de Atingidos por Barragens(MAB), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Sindicato dos trabalhadores de Cocos (BA), comunidades rurais de Cocos (BA), e Paróquia São Sebastião de Cocos (BA).  

      

    Audiência em Cocos (BA)

    Em Cocos, Bahia, também houve manifestação da população contra as PCHs do Gavião e Caiçara, na audiência pública em 20 de junho. Os moradores impediram a realização da audiência.

    Segundo as entidades e pastorais que apoiavam a manifestação, as famílias sem energia elétrica não seriam beneficiadas pela construção da barragem, gerando conflitos e violando direitos humanos. Conforme o relatório apresentado pelo Ibama, a energia produzida será enviada diretamente a uma rede de alta tensão e distribuída no sistema nacional administrado pela Cemig, a companhia energética de Minas Gerais.

    Os técnicos do IBAMA “preferiram” não comparecer ao local da realização da audiência, em que a população protestava com vais e palavras de ordem contra o projeto das PCHs. Contestando o fato de o projeto ter chegado à fase de licenciamento ambiental sem haver consultado ou esclarecido a população sobre o projeto, a manifestação impediu que se realizasse a audiência. Dentre outras questões, os povos de Cocos queriam saber sobre a realocação das pessoas para a alagação de suas terras.

    O IBAMA informou que irá avaliar a decisão de validar a audiência para decidir se será realizada ou não uma nova reunião em Cocos.

     

     

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  • 03/07/2013

    Documento Final da Assembleia Avá-Guarani do Paraná

    Nós, caciques e lideranças Ava-Guarani do Oeste do Paraná reunidos no Tekoha Itamarã, no município de Diamante d’Oeste, entre os dias 26 e 28 de junho de 2013, com apoio da Comissão Guarani Yvyrupa e da Comissão da Terra Guarani do Paraná, exigimos a continuidade dos Estudos de Identificação e Delimitação de nossas terras de ocupação tradicional.

     

    Nossos antepassados e nossas famílias viveram e vivem nessas terras há várias gerações e o Estado brasileiro nunca reconheceu nossos direitos territoriais nessa região do país. Ao longo da colonização sofremos diversas violências, fomos expulsos de parte de nossas terras, levados a força para outros lugares, escravizados, e com o fruto de nosso trabalho se construiu o Estado brasileiro e principalmente o estado do Paraná. E agora setores do próprio Governo e a mídia querem dizer que não somos brasileiros? Nós somos brasileiros e somos indígenas Ava-Guarani, e por isso exigimos a garantia de nossos direitos assegurados constitucionalmente.

     

    Hoje somos mais de 3 mil índios Ava-Guarani no Oeste do Paraná, vivendo a maioria em áreas não regularizadas e sofrendo violências semelhantes ou até piores do que as ocorridas no período colonial e na ditadura militar, como o alagamento de nossas terras com a construção da Usina Itaipu.

     

    Atualmente, pela falta de regularização das terras, não temos acesso a nosso direito à educação, nossas crianças são discriminadas nas escolas, chegando a ser trancadas nas salas de aula para não comerem a merenda. Além do que um número cada vez maior de nossos jovens tem se suicidado devido ao preconceito gerado pela sociedade não-indígena. A mesma coisa acontece com a saúde, porque não existe Pólo Base para o nosso atendimento. Sem médicos, carros e estrutura suficiente para nos atender somos muitas vezes obrigados a nos consultar na cidade, onde somos discriminados nos Postos de Saúde, somos sempre os últimos a ser atendidos e não respeitam nosso direito ao atendimento diferenciado de saúde. Nem mesmo a estrutura de saneamento básico e abastecimento de água potável é garantida na maioria de nossas comunidades.

     

    Como vivemos em áreas pequenas e não recebemos apoio para nossas atividades produtivas, muitas vezes somos obrigados a trabalhar fora de nossas comunidades. Nos últimos meses, fomos demitidos das empresas que nos ofereciam trabalho e devido à falta de reconhecimento de nossas terras não estamos conseguindo sobreviver com dignidade.

     

    Por estes motivos, repudiamos a maneira como o estado brasileiro tem tratado o nosso povo, negando o reconhecimento de nossos direitos humanos fundamentais e incentivando o preconceito contra nossos parentes e nossas famílias, principalmente nos municípios de Guairá, Terra Roxa e Santa Helena. Por isso nós, Povo Ava-Guarani, crianças, idosos e lideranças, exigimos respeito do governo para a garantia de nossos direitos, principalmente o reconhecimento de nossas terras, pois o Povo Avá-Guarani faz parte desta terra e a nossas terras são a base de nossa sobrevivência e da manutenção da nossa cultura.

     

    Diamante d’Oeste, 28 de junho de 2013.

     

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  • 02/07/2013

    Indígenas guarani-kaiowá de Ypo’i permanecem em fazenda até o fim de demarcação

    Decisão afirma que seria "altamente imprudente" determinar a retirada dos indígenas antes que a demarcação do território em disputa venha a ser concluída

     

     

    Crianças indígenas da comunidade Ypo’i

     

    O órgão especial do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), por unanimidade e seguindo parecer do Ministério Público Federal (PRR-3), negou recurso dos proprietários da Fazenda São Luís (Paranhos/ MS) e confirmou uma decisão anterior que determinava a permanência de índios da etnia guarani-kaiowá em parte da área, até o fim dos estudos de identificação e delimitação da terra, reivindicada como sendo de ocupação tradicional da comunidade indígena Ypo’i.

     

    A decisão que os proprietários queriam anular, publicada em fevereiro deste ano e também do órgão especial do TRF-3, afirma que “seria altamente imprudente determinar a retirada dos indígenas no presente momento, antes que a demarcação do território em disputa venha a ser concluída. A suspensão da decisão (de reintegração) atende ao interesse público, tendo em vista que a causa indígena constitui um sério e relevante problema social atual. Como amplamente noticiado, as aldeias indígenas do Mato Grosso do Sul estão superlotadas, condição que cria para os indígenas um estado de confinamento, impedindo o desenvolvimento de sua forma de vida tradicional, expondo-os a graves problemas, como o alcoolismo, a violência e o suicídio”.

     

     

    Habitação indígena na comunidade Ypo’i

     

    A Funai elaborou mapa da região em conflito, indicando que a área da fazenda “muito provavelmente se situa sobre o território indígena denominado Tekohá Ypoi e Triunfo”. O Ministério Público Federal (PRR-3) manifestou-se contra o recurso dos proprietários da fazenda, afirmando que “os direitos indígenas não decorrem somente da demarcação, mas sim da Constituição Federal, sendo dever da União proteger e assegurar seus direitos e interesses. Em razão da clara impossibilidade de retorno à sua área de origem, deduz-se claramente que terão problemas para alimentação, saúde e serão mesmo forçados a morar à beira das estradas, em condições totalmente degradantes”.

     

    Donos da fazenda respondem por homicídio de indígenas 

     

    A área onde estão os indígenas de Ypo’i foi palco, em outubro de 2009, da morte de dois professores indígenas, Jenivaldo e Rolindo Vera, ocorrida durante expulsão do grupo de 50 pessoas do local. Os réus são Fermino Aurélio Escolbar Filho, Rui Evaldo Nunes Escobar e Evaldo Luís Nunes Escobar – filhos do proprietário da Fazenda São Luís -, Moacir João Macedo – vereador e presidente do Sindicato Rural de Paranhos-, Antônio Pereira – comerciante da região -, e Joanelse Tavares Pinheiro – ex-candidato a prefeito de Paranhos. Eles respondem processo penal por homicídio qualificado – sem possibilidade de defesa da vítima -, ocultação dos cadáveres, disparo de arma de fogo e lesão corporal contra idoso.

     

    Água contaminada

     

    Em 14 de novembro de 2012 uma grande crosta de espuma branca formou-se sobre toda a superfície da água do córrego da aldeia, única fonte de água potável para a comunidade. Um vídeo registrado pelos indígenas e amostras do material foram entregues ao MPF, que solicitou à Polícia Federal a instauração de inquérito para investigar possível contaminação no córrego Ypo’i. (Clique aqui para ver o vídeo)

     

     

    Imagem divulgada na internet pelos indígenas mostra córrego tomado pela espuma branca

     

    O MPF ajuizou ação para conseguir o abastecimento de água, conseguindo uma decisão liminar neste sentido.

     

    100 dias isolados

     

    Os indígenas ficaram 100 dias totalmente isolados, pois o dono da fazenda não permitia o acesso dos órgãos estatais de amparo aos indígenas. O MPF ajuizou ação para que eles tivessem acesso a alimentos e assistência à saúde. Uma liminar favorável só foi concedida em dezembro de 2010.

     

    Clique aqui para saber mais sobre a comunidade indígena Ypo’i.

     

    Referência processual no TRF-3: 0035201-82.2010.4.03.0000

     

    Assessoria de Comunicação Social

    Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul

    (67) 3312-7265 / 9297-1903

    (67) 3312-7283 / 9142-3976

    www.prms.mpf.gov.br

    [email protected]

    www.twitter.com/mpf_ms

     

    Com informações da

    Assessoria de Comunicação Social

    Procuradoria Regional da República da 3ª Região

     

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  • 30/06/2013

    Carta do I Encontro dos Povos Indígenas na Fronteira

    Um olhar segundo a Convenção 169 da OIT

     

    Exma. Sra. DILMA ROUSSEFF

    Presidente da República Federativa do Brasil

    Exmo. Sr. DONALD RAMOTAR

    Presidente da República Cooperativa da Guiana

    Exmo. Sr. NICOLÁS MADURO

    Presidente da República Bolivariana da Venezuela

     

    Nós Povos Indígenas Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Patamona e Taurepang, habitantes dos países Brasil, Guiana e Venezuela, presentes no I Encontro dos Povos Indígenas na Fronteira realizado nos dias 25 a 27 de junho de 2013, no Centro Regional Lago do Caracaranã, Terra Indígena Raposa Serra do Sol, Roraima, Brasil, após discutir, identificar e mapear os problemas das comunidades indígenas localizadas nas fronteiras de Roraima, Guiana e Venezuela, relacionados às atividades sociais, econômicas e culturais, considerando analisar as disposições da Convenção 169 da OIT, assim nos manifestamos:

     

    Somos os guardiões das fronteiras. É fundamental considerar um ordenamento jurídico específico aos povos indígenas, em especial aos que estão localizados nas fronteiras. Queremos que os problemas identificados nesse Encontro sejam analisados em conformidades com os instrumentos internacionais como a Declaração da ONU sobre os Povos Indígenas e a Convenção 169 da OIT.

     

    Com tristeza vimos uma série de violações de direitos humanos contra os povos indígenas, como reversões de valores e de direitos. Um exemplo disso são os homicídios recentes dos parentes Oziel Terena no Mato Grosso do Sul e Adenilson Munduruku no Pará. É necessário adotar medidas urgentes para mudar esse quadro de violência e punir os responsáveis. 

     

    Solicitamos a ratificação da Convenção 169 da OIT pelo Estado da Guiana, assim como a sua regulamentação pelo Brasil e Venezuela que ratificaram esse convênio em seus estados.

     

    Manifestamos contra as ameaças e retrocessos aos direitos indígenas, em especial contra a PEC 215 que está em trâmite no Congresso Nacional Brasileiro, contra a lei da Mineração em Terras Indígenas, contra a Portaria 303 da AGU e as 19 Condicionantes que são analisadas pelo Supremo Tribunal Federal no caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

     

    Esperamos que nossas autoridades públicas venham dar atenção aos resultados desse Primeiro Encontro dos Povos Indígenas na Fronteira com ações concretas e efetivas, inclusive com a participação decisiva dos povos indígenas.

     

    Centro Indígena Lago do Caracaranã, 27 de Junho de 2013.

     

    Abaixo Assinamos.

     

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  • 28/06/2013

    Rondônia: em audiência pública, indígenas chamam a atenção para a precária situação da educação no estado

    “Só com segurança de nossos territórios demarcados viveremos uma vida de liberdade e dignidade” (Antonio Poruborá).

     

    Audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Porto Velho, estado de Rondônia, tratou de diversos problemas enfrentados pelos diferentes povos indígenas do estado, com maior ênfase para a educação escolar indígena. Realizada no dia 26, a audiência foi solicitada pelas comunidades indígenas e requerida pelo deputado Cláudio Carvalho (PT/RO).

     

    Os integrantes da mesa, formada por representantes indígenas, Ministério Público Federal, Conselho de Missão entre Índios (COMIN), Conselho Indigenista Missionário e parlamentares, foram unânimes em afirmar que para que tenham educação específica, diferenciada e de qualidade, as comunidades indígenas precisam ter seus territórios demarcados e sem a presença de invasores e desmatadores.

     

    Dentre as reivindicações apresentadas pelas lideranças indígenas presentes à audiência, está a solicitação de mudanças na coordenação da Secretaria de Educação de Rondônia, devido ao total descaso com a educação indígena. Segundo os indígenas, mais de mil jovens não têm acesso à escola em suas terras, o que os obriga a se deslocar para as cidades, ficando sujeitos a todo o tipo de vício e violência presentes na sociedade envolvente.

     

    Nos povos onde se tentou iniciar o ensino médio contava-se com um ou dois professores, não indígenas, para atender a todas as disciplinas, o mesmo ocorrendo com o segundo seguimento do ensino fundamental (6º ao 9º ano). A única escola de ensino médio em funcionamento no Estado é a do povo Karitiana, localizada em Porto Velho.

     

    Os indígenas denunciam que tudo na educação escolar indígena é difícil, precário e sem perspectiva de melhorias, apenas 10% das escolas indígenas tem espaço físico para funcionar adequadamente, 90% se encontram em condições precárias, e algumas chegam a colocar em risco a vida de alunos e professores. 

     

    O representante do Ministério Público Federal de Rondônia, Dr. Rafael Luiz Pereira, chamou a atenção para o Projeto Açaí – Magistério Indígena, que se encontra a quase um ano paralisado. Os recursos do projeto, oriundos de convênio firmado com o Governo Federal, correm o risco de retornarem aos cofres da União, devido à falta de execução das ações previstas. O procurador lembrou que “os povos indígenas não precisam de porta voz, necessitam de voz”, e finalizou sua participação denunciando que pelo mais de 20 escolas indígenas estão com seus projetos de construção paralisados.

     

    Único deputado a manifestar-se contrariamente aos direitos indígenas, o deputado Ribamar Araujo alegou ser amigo e companheiro dos povos indígenas, entretanto se posicionou contra a demarcação das terras indígenas, quando defendeu que essas sejam submetidas ao Congresso Nacional. Sua manifestação foi rebatida por todos os presentes à audiência.

     

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  • 28/06/2013

    Nota da XXXIV Assembléia do Cimi Maranhão

    Causa Indígena: “Quanto mais difícil o tempo, mas forte deve ser a esperança”

    Dom Pedro Casaldáliga

     

    O Conselho Indigenista Missionário, Regional Maranhão, reunido em sua XXXIV Assembléia, durante os dias 24 a 28 de junho, na cidade de São Luis, refletiu, entre outros temas, sobre os direitos da Mãe Terra, a partir da experiência da Constituição da Bolívia, bem como analisou a conjuntura política e indigenista nacional e regional. Nessa análise, constatou-se a apropriação do Estado pelo agronegócio com o objetivo de ampliar a concentração fundiária, promovendo o sacrifício dos povos da terra e dos direitos por estes conquistados.

     

    A ofensiva do agronegócio pode ser percebida no âmbito dos três poderes da República, mas é no Legislativo onde aparece de forma mais ostensiva e agressiva: 214 deputados e 14 senadores da bancada ruralista, equivalente a 41,7% da Câmara e 17,3% do Senado, desconstroem direitos já consolidados como no caso do desmonte do Código Florestal. Agora pretendem aprovar um Código Rural que justifique o trabalho escravo; criar sistema de indenização para produtores rurais que sofrerem desapropriação; aprovar a PEC 215/2000, que impede a demarcação de terras indígenas e quilombolas; impedir a aprovação do Projeto de Lei 3571/2008 que cria o Conselho Nacional de Política Indigenista, entre outros.

     

    Para tanto, estabelecem suas parcerias, como revela reunião de trabalho da Frente Parlamentar do Agronegócio (FPA/bancada ruralista), realizada no dia 21/02/2013, da qual participaram representantes da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Confederação Nacional da Indústria (CNI), União Brasileira de Avicultura (Ubabef), Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (Abraf), Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja) e Embrapa, entre outros segmentos. É nesse contexto que o governo federal pretende conceder à Embrapa atribuição para emitir parecer sobre demarcações de terras indígenas.

     

    No estado do Maranhão, representantes do agronegócio promoveram recentemente manifestações de rua e audiências públicas na Assembleia Legislativa contra a demarcação das terras indígenas Porquinhos, do povo Canela Apaniekrá, Governador, do povo Gavião e Awá, do povo Awá-Guajá. A prática e o discurso nesses eventos têm um único objetivo: acirrar os conflitos entre os pequenos, povos indígenas e trabalhadores rurais, que são vítimas da opressão exercida pelos promotores dessas ações. É nessa perspectiva que os indígenas passam a ser tratados como réus enquanto o latifúndio, impunemente, avança sobre os territórios dos povos originários e populações tradicionais.

     

    Reafirmamos que não são os indígenas e os demais povos da terra que são réus ou latifundiários deste país. De má fé, os representantes do agronegócio tentam convencer a sociedade brasileira de que “um filho de indígena quando nasce já tem grande extensão de terra para viver”. Seria bom se questionar, com quantos hectares já nasce um filho de latifundiário?

     

    Entendemos que as pessoas que se encontram nos territórios indígenas em processo de demarcação, muitas delas foram assentadas ali de propósito, justamente para favorecer o latifúndio, o que pode ser constatado através do comportamento de dois funcionários do INCRA/MA, quando se posicionaram publicamente contra a demarcação de terras indígenas.

     

    Lamentavelmente, os governos que se sucedem na Presidência da República reproduzem o modelo de desenvolvimento que promove a concentração e a exploração da Mãe Terra, atentando contra a vida dos povos e comunidades do campo. Defendemos o direito dos pequenos ocupantes de terras indígenas de serem reassentados em outras terras. Terras que estão em mãos do latifúndio, devendo, portanto, sofrerem desapropriação.

     

    Rechaçamos todas as manobras perversas que cotidianamente tramam contra a vida dos empobrecidos do país e usurpam seus direitos já conquistados.

     

    Reafirmamos nosso apoio irrestrito às demarcações dos territórios indígenas Porquinhos, Governador e Awá; à luta dos povos indígenas no Maranhão que, desde o dia 24/06, estão acampados no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI/MA), lutando pelo direito a uma saúde de qualidade.

     

    Conclamamos a sociedade brasileira a incluir em seus manifestos os direitos da Mãe Terra e dos povos tradicionais, que sempre estiveram lutando e denunciando toda essa opressão, e a combater e a rechaçar o domínio do agronegócio sobre o Estado brasileiro. Queremos um novo Estado para todos e não um Estado exclusivo e absoluto para empresários rurais e os demais poderosos grupos econômicos do país.

     

    “Felizes os pobres, porque deles é o Reino do Céu;

    Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados;

    Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (MT. 5, 3. 6. 9)

     

    São Luis, 28 de junho de 2013.

     

    Conselho Indigenista Missionário – Regional Maranhão

     

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