• 06/04/2014

    Mais um ataque de pistoleiros contra a comunidade de Pyelito Kue

    Foi o terceiro nos últimos 30 dias.

    Na madrugada de 06/04/2014 ocorreu um novo ataque de pistoleiros contra a comunidade indígena Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue. De acordo com informações das lideranças da comunidade, "seguranças” (pistoleiros) da fazenda Cachoeira, município de Iguatemi, armados com revolveres e espingardas de grosso calibre dispararam tiros contra os barracos de lona, enquanto as famílias Guarani e Kaiowá dormiam. Assustados, os moradores de barracos situados nas proximidades da rodovia saíram correndo para fugir dos pistoleiros e, na fuga, uma mulher, Sra. Síria Marcos, acabou caindo e machucando gravemente os braços. As lideranças afirmam que estão de posse de cartuchos e de balas encontradas depois do ataque.

    Esta foi a terceira ação violenta de pistoleiros contra a comunidade de Pyelito Kue nos últimos 30 dias. Geralmente estas ações criminosas estão sendo praticadas de madrugada e sempre aos finais de semana. A comunidade tem denunciando as violências à Funai – Fundação Nacional do Índio – e  às Polícias Federal e Civil. No entanto, nenhuma medida protetiva foi adotada no sentido de prevenir e coibir os ataques contra a comunidade indígena. As lideranças afirmaram que estão cansadas de esperar que o governo federal conclua o procedimento de demarcação de sua terra e principalmente cansadas de serem alvejadas por pistoleiros. “Não aguentamos mais, será que nós mesmos vamos ter que tomar a decisão de nos defender com mais força? Será que precisaremos matar ou morrer para que olhem, respeitem e garantam os nossos direitos? Não aguentamos mais tanto sofrimento”.

    A comunidade de Pyelito Kue está residindo na antiga fazenda Cambará, às margens de uma estrada vicinal distante aproximadamente 35 km de Iguatemi/MS. No final de 2012, os indígenas divulgaram uma carta afirmando a decisão de resistir em suas terras até as últimas consequências, o que despertou a atenção da opinião pública nacional e internacional. Na ocasião, eles viviam na beira do rio Hovy.

    O tekoha Pyelito Kue/Mbarakay foi identificado (por ESTUDOS DE IDENTIFICAÇÃO E DELIMITAÇÃO de um Grupo Técnico criado pela Funai) com 41.571 hectares de extensão como sendo de ocupação tradicional dos Guarani e Kaiowá. A terra em demarcação situa-se  na Bacia Iguatemipeguá, próxima a reserva Indígena Sassoró. A fazenda Cambará, que foi retomada em fevereiro pelos indígenas e onde atualmente vivem, é apenas uma das várias propriedades incidentes sobre a área identificada como de ocupação indígena.

    As lideranças indígenas, uma vez mais, pedem às autoridades proteção para ficar no seu tekoha (terra sagrada), solicitam agilidade no procedimento de demarcação, e exigem que se realize urgente investigação e punição dos responsáveis pelos atentados criminosos contra a comunidade de Pyelito kue.

    Campo Grande, 06 de abril de 2014.

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  • 06/04/2014

    Carta de Luziânia, convocação para organização e Luta

    Aos irmãos e irmãs dos Quilombos do Brasil

    Reunidos em Luziânia nestes dias para dar continuidade ao processo de organização e de luta contra a infâmia e racismo e para proclamar não podemos esperar 514 anos para a titulação dos nossos territórios.

    Considerando:

    I. Que o Modelo de Desenvolvimento implementado pelo Estado Brasileiro tem como eixo principal a produção agrícola, pecuária e mineral para a exportação causando graves consequências à mãe-natureza e aos povos e comunidades tradicionais; que o governo tem priorizado as grandes obras e eventos constantes na programação dos acordos de integração regional sul-americana que tem resultado no deslocamento forçado de povos e comunidades tradicionais e populações das periferias das grandes cidades, reciclando o processo de colonização.

    II. Que nesse processo o Estado brasileiro, a serviço dos latifundiários e empresários, tem sido o grande proponente, indutor e financiador do projeto desenvolvimentista; que o estado tem se utilizado de instrumentos legais para criminalizar lideranças e lutas visando a quebra das resistências populares; que há em execução o extermínio dos povos originários, dos negros e negras no campo e nas periferias das cidades, a exemplo da ocupação militar no Complexo da Maré, Rio de Janeiro, bem como a utilização da Força Nacional contra Comunidades Indígenas e Quilombolas.

    III. Que desde sempre nossos povos resistem ao extermínio e constroem suas organizações como instrumentos de lutas políticas, desde Palmares até os nossos dias. Esses espaços têm sido fundamentais para a denúncia e enfretamento à violência institucional e privada e ao racismo.

    IV. Compartilhamos nossas experiências mais recentes vividas no Movimento Quilombola do Maranhão, na Frente Nacional em Defesa dos Territórios Quilombolas e nos Encontros dos de Baixo, no Rio Grande do Sul; ressaltamos os enfrentamentos dos camponeses, povos originários e da classe trabalhadora aos latifundiários, aos patrões e ao capital com o método da democracia direta, a exemplo dos garis do Rio de Janeiro. São marcos históricos na superação do personalismo e do aparelhamento das nossas lutas.

    Assumimos o compromisso político

    V. Com a construção de uma Articulação Nacional de Quilombos que atue na defesa dos Direitos Fundamentais e na construção de um novo projeto político para a nação que reflita a diversidade étnico/racial e de gênero; estabelecendo estrategicamente parcerias e alianças com a classe trabalhadora em luta, organizações do Movimento Social/Negro, das outras comunidades tradicionais, populações de periferias e com os povos originários.

    VI. Entendemos essa Articulação como:

    1. Rede de articulações quilombolas regionais, independentes de qualquer gerência do Estado, dos governos e dos partidos, com estrutura de organização horizontal, fortalecendo-se pelos vínculos de solidariedade e enriquecendo-se com as diferenças entre seus Membros, num ambiente de debate democrático, transparente e público.

    2. Estrutura de organização horizontal, para tanto elege como fóruns de tomada de decisões os seus Encontros e Assembleias, garantindo sempre um ambiente de debate democrático para a construção de consensos; e, para facilitar esses processos, será eleito um Conselho Político, devendo garantir o equilíbrio de gêneros e gerações.

    3. Espaço de articulação das lutas contra o racismo como causa estruturante da divisão desigual do trabalho e do acesso aos bens comuns, das ameaças aos territórios quilombolas e indígenas, dos assassinatos de lideranças, da expulsão das comunidades camponesas e de periferias dos seus territórios e do processo de violência e genocídio dos povos negros e indígenas no campo e na cidade.

    4. Espaço de articulação das lutas por Direitos e por Justiça Social e Ambiental no país, desvendando engodos e hipocrisias, sempre atualizados, dos discursos oficiais da data de 13 de maio; de denúncia do extermínio da Juventude Negra, do Racismo Institucional e Ambiental; de denúncia da criminalização de lideranças e organizações de luta; de denúncia das manobras jurídicas empreendidas pela elite latifundiária e racista de nosso país, a exemplo citamos: PEC 215/2000 e ADI 3239/2004 do DEM contra os Quilombolas no país e a tentativa de desconstituição das Ações Afirmativas;

    5. Por último referendamos o dia 20 de Novembro, Aniversário da Morte de Zumbi, como o principal dia de LUTA E RESISTÊNCIA NEGRA E QUILOMBOLA NO PAÍS.

    VII. Com a realização de um Encontro Nacional, a ser realizado em Brasília – DF, nos dias 25 a 29 do mês de maio de 2014. Para a efetivação desse compromisso teremos que:

    1. Continuar a construção destes princípios políticos e organizativos;

    2. Realizar um mapeamento das comunidades quilombolas em luta para garantir seus direitos;

    3. Continuar o diálogo com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, visando a aliança com os povos originários; e com outras organizações parceiras visando a construção de apoios à luta das comunidades quilombolas.

    4. Constituir uma equipe de Articulação para dar início à operacionalização das propostas acima elencadas.

    Luziânia (GO), 01 de abril de 2014.

     

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  • 04/04/2014

    Justiça Federal determina prazo para que Funai garanta terra do povo Krenyê

    A Fundação Nacional do Índio (Funai) tem até 30 de agosto deste ano para apresentar à Justiça Federal o Relatório Circunstanciado de demarcação de uma reserva indígena para o povo Krenyê, único no estado do Maranhão que não tem seu território demarcado. O Relatório deveria ter sido entregue em setembro de 2013.

     

    O novo prazo é resultado de uma reunião realizada nessa quinta-feira (3) entre o Juiz José Carlos do Vale Madeira (5ª Vara da Justiça Federal) e representantes da Funai, União, Ministério Público Federal (MPF), Comissão de Direitos Humanos da OAB, Conselho Indigenista Missinário (Cimi) e indígenas Krenyê.

     

    Na reunião também ficou decidido que a Chácara São Francisco, na cidade de Barra do Corda, onde vivem hoje cerca de 10 famílias Krenyê, passará a ser reconhecida como área legalmente indígena. A comunidade não tem acesso à água potável, mas a Justiça Federal deu o prazo de 45 dias para que a Funai construa um poço artesiano no local e durante o período o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) deve fornecer água potável aos Krenyê e enviar equipe multidisciplinar para prestar atenção à comunidade.

     

    Rosimeire Diniz, do Cimi Regional Maranhão, disse que apesar dos encaminhamentos positivos ainda há “Um longo caminho de reivindicação de direitos, com decisões judiciais e a necessidade de renegociar prazos para que os Krenyê possam finalmente encontrar um espaço para seguir sua vida, embora não seja na sua terra tradicional. Nós, Cimi Maranhão, que acompanhamos a luta do povo Krenyê desde 2003, reafirmamos o nosso compromisso em seguir lutando com eles para que possam viver com dignidade e em segurança. Lamentamos que a Legislação não seja cumprida quanto a demarcação do território tradicional desse povo, e mesmo sendo contrários à compra de terra, desejamos que o povo tenha condições viver em paz e construir o seu Bem Viver”.

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  • 04/04/2014

    Papa Francisco recebe presidente do Cimi para tratar das violações aos direitos indígenas

    Vaticano, 4 de abril – O presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e Bispo do Xingu, Dom Erwin Kräutler, foi recebido nesta sexta-feira, às 12 horas, horário de Roma, Itália, pelo Santo Padre Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco.

     

    A audiência ocorreu no gabinete papal e tratou das violações aos direitos indígenas no Brasil, promovidas pelo capital privado em aliança com o governo federal. Esteve presente no encontro o assessor teológico do Cimi, Paulo Suess. Nesta quinta, 03, Kräutler e Suess se reuniram também com o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Ludwig Müller.

     

    “Grupos políticos e econômicos relacionados com a agroindústria, a mineração e construtoras, com apoio e participação do governo brasileiro, tratam de revogar os direitos territoriais dos povos indígenas”, diz trecho do documento entregue ao Papa Francisco – leia na íntegra abaixo.

     

    Durante a audiência, os representantes do Cimi levaram a Francisco casos de violências a que estão submetidos os povos indígenas e seus aliados. Destacaram a questão Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul, onde “o confinamento (45 mil indígenas) em área tão pequena traz consigo mortes, suicídios e sofrimento atroz e permanente”.

     

    A truculência do governo brasileiro contra os Tupinambá, no sul da Bahia, que hoje têm em suas terras uma base do Exército, incêndio de casas, como a de um agricultor aliado dos Kaingang, no Rio Grande do Sul, e os ataques do agronegócio contra o Cimi e demais organizações indigenistas foram outros pontos abordados.

     

    Dom Erwin relatou a situação dos povos indígenas do Vale do Javari, que sofrem sem assistência médica a surto de hepatite que já percorre décadas, além da intenção do governo brasileiro de explorar petróleo nestas terras, o que o governo do Peru já vem fazendo do outro lado da fronteira e impactando de forma contumaz populações indígenas com ou sem contato.

     

    Sobre os grandes empreendimentos, o bispo lembrou que 519 empresas hoje, no Brasil, causam impacto em 437 terras pertencentes a 204 povos indígenas, conforme relatório produzido pelo Cimi com base também em outros estudos.

     

    Destaque para o mega-empreendimento da Usina de Belo Monte, no Pará, cuja construção ocorre desrespeitando leis nacionais e convenções internacionais, caso da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

     

    Entre os povos afetados por tais projetos, estão grupos em situação de isolamento voluntário: “Muitos deles se encontram em grande risco de destruição por causa de projetos hidrelétricos, de mineração e desflorestamento causado pela criação de gado e plantação de soja”.

     

    Na Amazônia brasileira vivem cerca de 90 grupos em situação de isolamento, livres, sendo que no mundo esta é a região com a maior quantidade de povos ainda sem contato com a sociedade que os envolve.    

     

    Paralisação das demarcações  

     

    Dom Erwin e Paulo Suess afirmaram ao Papa Francisco que o governo da presidenta Dilma Rousseff, contrariando a Constituição brasileira, paralisou a demarcação das terras indígenas incentivando ainda mais a violência contra os direitos dos povos tradicionais.

     

    “A paralisação da demarcação é uma das principais causas de conflito e violência que sofrem os povos indígenas”, diz outro trecho do documento recebido por Francisco. Os representantes do Cimi entregaram ao Papa publicações e estudos aprofundando as denúncias que levaram ao Vaticano.   

     

    De acordo com Dom Erwin Kräutler, o Papa Francisco demonstrou atenção, preocupação e sensibilidade para com as questões levadas até ele pelo Cimi, organismo vinculado a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). 

     

    Leia na íntegra a versão em espanhol do documento entregue ao Papa Francisco:

     

    Audiencia con Su Santidad el Papa Francisco – 4 de abril de 2014

     

    Santo Padre,

     

    Me siento muy honrado y feliz de compartir con Su Santidad las preocupaciones de todos los pueblos indígenas, de todos los pueblos de la Amazonía y de nosotros, misioneros y misioneras del Cimi, brazo indigenista de la CNBB, y estoy seguro de que las acoge con todo cariño.

     

    Consejo Indigenista Misionero – Cimi

     

    El Consejo Indigenista Misionero – Cimi – es un organismo vinculado a la Conferencia Nacional de los Obispos del Brasil (CNBB), fundado en 1972, durante la dictadura militar. Su misión es fomentar y coordinar la pastoral de la Iglesia Católica referente a los pueblos indígenas de Brasil. Tiene como prioridad la presencia solidaria, fundamentada en el Evangelio, entre estos pueblos en sus aldeas, siendo también su aliado en la defensa de sus derechos constitucionales y de su dignidad. Este organismo cuenta con una Secretaría Nacional en Brasilia, Capital Federal, con 11 regionales y 88 Equipos de Base, donde operan cerca de 240 misioneros (laicos, religiosos/as, sacerdotes, obispos), y 30 empleados (asesores de prensa, abogados, asesores teológicos, antropológicos y de documentación).

     

    El Cimi contribuyó de manera decisiva para que los pueblos indígenas superasen el proyecto integracionista brasileño durante la dictadura militar y conquistasen el reconocimiento de "su organización social, costumbres, lenguas, creencias y tradiciones, y su derecho originario sobre las tierras que tradicionalmente ocupaban“ (Artículo 231 de la Constitución Brasileña) – (1).

     

    Ataque a los Derechos Indígenas

     

    Grupos políticos y económicos relacionados con la agroindustria, la minería y empresas de construcción, con el apoyo y la participación del gobierno de Brasil, tratan de revocar los derechos territoriales de los pueblos indígenas. Para lograr este objetivo utilizan sistemáticamente instrumentos político-administrativos, judiciales y legislativos (2).

     

    Paralización de la Demarcación de Tierras Indígenas en Brasil

     

    Contrariamente a lo que determina la Constitución brasileña, el gobierno Dilma sus-pendió la continuación de los procedimientos administrativos para el reconocimiento y la demarcación de las tierras indígenas en el país (3). La paralización de La demarcación es una de las principales causas de conflictos y violencia, que sufren los pueblos indígenas.

     

    Aumento de la violencia contra las personas y sus aliados

     

    Las comunidades indígenas y los misioneros del Cimi son hoy atacados sistemática-mente por los diputados que encarnan los intereses de la agroindustria y de los ganaderos. Veamos solo algunos ejemplos más recientes:

     

    Destrucción de una aldea del Pueblo Tupinambá, en Bahía:

     

    El 7 de marzo de 2014, en el municipio de Itapevi, fue totalmente destruida una aldea de los Tubinambá por hombres armados a pedido de los ganaderos. El Cimi está prestando asistencia jurídica y social.

     

    Incendio de la casa de un agricultor que apoyaba al Pueblo Kaingang:

     

    El 13 de marzo de 2014, el agricultor Alécio Andriolli , de 62 años, vio su casa ser totalmente quemada, en la municipalidad de Seara, al Oeste del estado de Santa Catarina, por ser solidario con los Kaingang. La diócesis de Chapecó ayudó económicamente al agricultor y el Cimi le prestó apoyo legal,

     

    Ataques al Cimi y a la Iglesia Católica:

     

    Debido a la defensa de los pueblos indígenas, el Cimi es también responsabilizado

    criminalmente y sufre frecuentes ataques de los representantes de la agroindustria. Varias diócesis (obispos) y parroquias (sacerdotes) sufren la presión de los ganaderos.

     

    Acorralamiento de los pueblos indígenas en Mato Grosso do Sul

     

    En el estado de Mato Grosso do Sul, el Pueblo Guaraní- Kaiowá, con una población de 45 mil personas, ocupa menos de 30 hectáreas de tierra. El confinamiento en área tan pequeña trae consigo muertes, suicidios y sufrimiento atroz y permanente (4).

     

    Hepatitis Endémica en la Tierra Indígena Valle de Javari – Amazonas

     

    En los últimos diez años, muchos indígenas han muerto a causa de la precaria asistencia sanitaria por parte del Estado brasileño, sobre todo en la Tierra Indígena Valle de Javari, en el estado de Amazonas. Un 85 % de los indios ha tenido contacto, o está contaminado por uno o varios virus de hepatitis, especialmente del tipo "B " – que es mortal y no tiene cura (5).

     

    Compañías de Desarrollo causan violentos impactos en Tierras Indígenas

    en Brasil: Concretamente en Belo Monte

     

    En este momento hay 519 empresas de tamaño medio y grande, que causan impacto en 437 propiedades pertenecientes a 204 Pueblos Indígenas del Brasil. Las inundaciones y la deforestación, el estropicio, la contaminación, la propagación de enfermedades y los conflictos internos son sólo algunas de las graves consecuencias que afectan a los pueblos indígenas.

     

    La construcción de la central hidroeléctrica de Belo Monte, Altamira, Prelatura de Xingu, estado de Pará, es un caso emblemático de esta realidad. Todas las recomendaciones técnicas de expertos en el sector de la energía no han logrado convencer al gobierno brasileño de sus equívocos. La construcción de la hidroeléctrica Belo Monte ya está causando un verdadero caos social y

    ambiental entre los pueblos indígenas, los ribereños y la población urbana. Alrededor de 40 mil personas están directamente afectadas por el proyecto y tendrán que abandonar sus hogares.

     

    El Riesgo de Exterminio de Pueblos Aislados en la Amazonia Brasileña

     

    Existen en la Amazonia brasileña alrededor de 90 grupos de pueblos indígenas en situación de aislamiento, sin contacto con la sociedad nacional. Muchos de ellos se encuentran en gran riesgo de destrucción a causa de proyectos como embalses de empresas hidroeléctricas, proyectos de minería y deforestación a gran escala para la cría de ganado y plantaciones de soja en la región.

     

    Solidaridad con el Cimi y con los pueblos indígenas en Brasil

     

    Nosotros en Brasil nunca olvidaremos la cariñosa presencia de Su Santidad en la Jornada Mundial de la Juventud en julio de 2013 y pienso que Su Santidad tampoco se olvidará del gesto de un indígena que le colocó un atuendo de plumas (cocar) en Su cabeza. En aquella oportunidad un indígena de apenas 14 años del Pueblo Pataxó afirmó: "A mí me parece fantástico que alguien de nuestra comunidad tuviera la oportunidad de conocer al Papa. Nosotros estamos aquí representando a todos los indígenas de Brasil". Varios indígenas de la Amazonia dijeron que esperaban que el Papa los ayudara a proteger sus tierras.

     

    Jamás olvidaremos también su discurso a los obispos cuando pidió el "Respeto y la Protección” de toda la creación que Dios le ha confiado al hombre, no para que sea explotada de manera indiscriminada, sino más bien para ser convertida en un jardín".

     

    Agradezco de todo mi corazón a Su Santidad la oportunidad de haberme recibido en audiencia.

     

    Erwin Kräutler C.PP.S.

     

    Obispo del Xingu y

     

    Presidente del Cimi

     

    Notas de rodapé:

     

     

    1. Según los datos del Instituto Brasileño de Geografía y Estadística (IBGE), catastro de 2010, existen en Brasil 896 mil indígenas, pertenecientes a 305 pueblos, que hablan 274 lenguas.
    2. Poder Ejecutivo: Porterías 419/11 e 303/12 e Decreto 7957/13. Poder Legislativo: Propuestas de Emiendas Constitucionales (PEC) 215/00; 038/99 y los Proyectos de Ley 1610/96 e 227/12. Poder Judiciario: el instrumento de las “Suspensiones y Seguridad”.
    3. En 2013 solo fue demarcada una Tierra Indígena en el país y en 2014 ninguna.
    4. Entre 2000 y 2013, acontecieron 463 suicidios de indígenas en Mato Grosso do Sul. Por otra parte, entre 2003 y 2012, de los 563 indígenas asesinados en Brasil, el 55% ( o sea 317) se dieron en Mato Grosso do Sul. Muchas familias Guaraní y Kaiowá viven ahora en campamentos al margen de las carreteras.
    5. En 2010, en un período de 40 días, murieron 12 menores pertenecientes al Pueblo Kanamari. Otro cuadro que nos causa preocupación es el gran número de huérfanos que perdieron sus progenitores a causa de las enfermedades

     

     

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  • 03/04/2014

    Informe nº 1083: Entidades denunciam violações de direitos do povo Tupinambá de Olivença à ONU

    O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o Serviço Inter-Franciscano de Justiça, Paz e Ecologia (Sinfrajupe) e a Vivat Internacional protocolaram na Organização das Nações Unidas (ONU), no dia 27 de março, uma denúncia sobre diversas violações dos direitos do povo Tupinambá de Olivença, que mora na Serra do Padeiro, localizada no sul da Bahia.  Nos últimos seis meses, cinco Tupinambá e um agricultor foram assassinados no interior da terra indígena.

    Um dos primeiros povos a ter contato com os portugueses, no início do processo de colonização, os Tupinambá ainda não possuem nenhum território demarcado no Brasil. Com base na Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), na Constituição Brasileira, dentre outras legislações, em documentos da sociedade civil e considerando o histórico da situação dos índios no Brasil, as organizações demandam “urgente atenção e intervenção no sentido de instar o governo brasileiro a cumprir as obrigações internacionais e constitucionais existentes, vis-à-vis à demarcação e ao registro do território indígena Tupinambá de Olivença”.

    Registrando um longo histórico de violações, o povo Tupinambá de Olivença foi recentemente surpreendido com a militarização do território tradicional que ocupa e que é reconhecido pela Fundação Nacional do Índio (Funai) desde 2009. Há aproximadamente dois anos o processo de demarcação está parado em alguma gaveta do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

    Ao invés de finalizar a demarcação, o governo federal, no dia 28 de janeiro deste ano, enviou para a Serra do Padeiro, próxima ao município de Buerarema, a Polícia Federal e a Força Nacional de Segurança, que com o apoio da Polícia Militar da Bahia e o pretexto de realizar uma reintegração de posse, montaram uma base de operações na área. Alem das pressões dos fazendeiros e dos pistoleiros para que abandonem sua terra, os Tupinambá tiveram que enfrentar, de modo mais cotidiano, a força policial também.

    O histórico de violência, muitas vezes estimulada pelo próprio Estado, parece interminável para este povo. “Parecia que iam derrubar as casas de tanto tiro. Foi muito tiro mesmo, e granada também”, afirmou Magnólia Tupinambá, diretora da escola indígena estadual localizada dentro da terra tradicional.

    Depois das denúncias de que as reintegrações eram usadas por fazendeiros e pistoleiros para promover violências contra a comunidade indígena, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, suspendeu, em 24 de fevereiro, os processos de reintegração de posse em sete áreas localizadas nos limites da Terra Indígena Tupinambá de Olivença.

    Ainda assim a Força Nacional de Segurança e a Polícia Federal permaneceram no território até o dia 13 de março, quando venceu o instrumento legal que permitia a presença policial na área indígena. Porém, já no dia seguinte, o governo enviou tropas do Exército Brasileiro para o local, onde estão até hoje. Os indígenas perguntaram por diversas vezes a função e a razão para o patrulhamento, mas nunca obtiveram resposta.

    Adelar Cupsinski, assessor jurídico do Cimi, afirma que a motivação é clara: “É uma ferramenta política para sufocar a resistência dos Tupinambá. Na região da Serra do Padeiro não há conflito e os índios conseguem se manter de forma autônoma. A presença do Exército na área beira à ilegalidade, pois contraria a decisão do Supremo Tribunal Federal e a vontade dos indígenas, que têm sua autonomia ameaçada”.

    O clima de tensão se agravou na região depois da militarização do território. Os policiais promoveram ações de agressão, constrangimento e ameaças constantes a agricultores e indígenas.  “Eles estão sempre forjando situações para nos incriminar, dando tiros de armas pesadas todas as noites. O Exército Brasileiro tem feito isso desde que entrou em nossa aldeia. Destruiu vários pertences de várias famílias indígenas”, relata um documento denúncia escrito pelo Cacique Babau, no dia 24 de março.

    Na carta, ele descreve um episódio em que policiais chegaram a molestar uma jovem de 14 anos com o pretexto de revistá-la. A denúncia também inclui a pressão sofrida por Babau, perseguido e ameaçado de morte pelos policiais. “Os policiais fizeram muitas perguntas [aos moradores da aldeia e pequenos agricultores da região] e com as mesmas ameaças expressando e afirmando que quer fuzilar o cacique e os seus irmãos”.

    Na denúncia encaminhada à ONU, as entidades chamam atenção da organização para a “inversão de prioridade do governo”, que desrespeita a legislação interna e internacional ao não garantir o uso social da terra e o direito dos indígenas, e pede auxílio na apuração dos crimes cometidos contra as comunidades.

    Expressivo apoio nacional e internacional

    Na tarde desta quinta-feira (3) o Cimi protocolou em vários órgãos governamentais, juntamente com a representação feita na ONU, uma carta de apoio ao povo indígena e de indignação diante da militarização da terra Tupinambá de Olivença. Leia o documento aqui.


    Assinada por mais de 200 organizações nacionais, 80 pesquisadores e 87 organizações internacionais, o documento afirma: “a demarcação definitiva trará benefícios tanto aos índios – pelo reconhecimento do seu território tradicional – como aos fazendeiros, que receberão a indenização prevista em lei. Diante disso, EXIGIMOS que sejam retirados do território Tupinambá o Exército e a Força Nacional, bem como seja regularizado o território Tupinambá e indenizados os pequenos agricultores”.

     

    Os documentos foram encaminhados às presidências da República, do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, ao ministério da Justiça, à Secretaria de Direitos Humanos e à Secretaria de Articulação Social, ambas vinculadas à presidência da República e à presidência da Funai, dentre outros órgãos governamentais, além de ter sido enviada para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA).

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  • 03/04/2014

    Morre Hõpryre Ronore Jopikti Payaré, o grande chefe do povo Akrãtikatêjê

    Como definir Hõpryre Ronore Jopikti Payaré, ou Edvaldo Valdenilson através de palavras, além de dizer que este nobre filho da Mãe Terra foi um grande homem, um grande pai, um grande filho, um grande sábio, um grande guerreiro, um grande defensor dos direitos humanos e ambientais, um grande líder político e espiritual que sempre lutou pela vida e os direitos do seu povo, os Akrãtikatêjê da Montanha, e dos demais povos indígenas da Amazônia e do Brasil?

    Como nos reportar a este valoroso homem que, desde cedo, aprendeu o significado do que é resistir, lutar e enfrentar poderosas ameaças e desafios, a não ser lembrando que o Seu Payaré, como era conhecido por muitos aqui nessa região, foi um sobrevivente de um grande povo na Amazônia, praticamente dizimado pelo Estado Brasileiro em um dos momentos mais perversos e genocidas da história desse país para com os povos indígenas do Brasil, a década de 70 e a famigerada e assassina política de integração e desenvolvimento econômica do Governo Militar?

    Foto: Marcos Reis

    De fato não conseguimos encontrar palavras para tentar descrever a tão importante personalidade política, pois tememos que nossas palavras não deem conta de traduzir a grandeza moral, ética e espiritual de alguém tão importante e grandioso para nós. É muito doloroso tentarmos escrever um texto sobre a vida do Seu Payaré, pois isso implica descrevermos uma perversa cadeia de acontecimentos violentos históricos que nunca foram reparados, justiçados ou assegurados os direitos para este líder e todo o seu povo. Contudo a forma como esse homem lutou a vida toda, consolidando-se como uma verdadeira expressão viva de força, resistência e teimosia nas últimas décadas frente às investidas de morte do capitalismo na Amazônia.

     

    DO CONTATO À RESISTÊNCIA E AO ETNOCÍDIO

    O grupo Akrãtikatêjê da Montanha foi contatado e instalado no Posto de Atração da Funai em 1960, com uma população de aproximadamente 75 indivíduos. Com a desastrosa política de contato do Estado e a localização do aldeamento próximo à cidade de Tucuruí, o grupo sofreu um terrível processo de depopulação. De 75 indígenas apenas 10 sobreviveram, tornando-se esses, testemunhos vivos da violenta política de expansão econômica na época. Com o avanço das obras de construção da UHE Tucuruí a Funai “removeu” os 10 membros sobreviventes do grupo para a Terra Indígena Mãe Maria, de domínio dos Parkatêjê.

    No entanto uma família, chefiada pelo líder Payaré, inconformada com a notícia de que o antigo e tradicional território iria ser completamente inundado pelo lago do reservatório da UHE Tucuruí, se recusou a acompanhar o restante do grupo. Permaneceram na área indígena até do final de 1983, quando, após muitas ameaças e violências sofridas, um escuso e desrespeitoso acordo financeiro com a Eletronorte obrigou forçadamente o último Akrãtikatêjê a abandonar definitivamente o seu antigo território e a se incorporar aos outros grupos Gavião, na Terra Indígena Mãe Maria, mesmo sabendo que, em um passado não muito distante, o grupo ao qual ele pertencia e o grupo Parkatêjê haviam travado algumas guerras –fato que permaneceu registrado para sempre na memória de D. Rônore , a “Mamãe Grande” do grupo e dos seus filhos.

     

    A LUTA POR UM TERRITÓRIO

    É na Terra Indígena Mãe Maria que o grande líder Payaré, junto com a sua querida mãe, a D. Honore e seus irmãos, mesmo com todas as divergências e dificuldades, iniciam uma nova luta política e jurídica que perdura até hoje. À revisão do direito de um território para o seu grupo, embora a justiça já tenha determinado a devolução de uma área similar àquela que foi destruída pelo Estado, na ocasião da construção da UHE Tucuruí, mas que não foi efetivada até hoje pela empresa Eletronorte.

    De lá pra cá, foram mais de três décadas de luta, de resistência, de enfrentamento de um homem só, com sua mãe, contra todo um sistema opressor para ter o direito de ser ouvido e de denunciar o que todo o seu povo sofreu e perdeu com as políticas governamentais do Estado brasileiro de um tempo escuro, sombrio e sem perspectiva de futuro para os povos indígenas do Brasil.

    Seu Payaré, nesse período histórico de luta, precisou se articular, se organizar e ir em busca de aliados e parceiros para denunciar as violações de direitos humanos sofridas pelo seu povo, exigindo respeito, direitos e justiça. É nessa ocasião que ele também conheceu os indigenistas do ISA, do Cimi, da Comissão Pró Índio de São Paulo, da CPT, educadores populares da região, líderes sindicais, juristas como Frederico Marés e, tantas outras pessoas que puderam ajudá-lo a mover ações judiciais contra a Eletronorte e o Estado brasileiro, que até hoje não resultaram em nada.

    Ao longo dessa batalha ele precisou também deixar sua família e seu povo por algum tempo e em vários momentos, para numa peregrinação sem fim, no Brasil e mundo a fora, denunciar o governo brasileiro sobre essas violações. Nesse percurso chegou a ir até a OEA e ONU com o objetivo de mostrar ao mundo a forma violenta com que o país tratava os povos indígenas. Sempre retornava convicto de que era preciso apoiar e ajudar ainda mais o seu povo Gavião, agora visto como um povo só, a se preparar e se unir ainda mais para enfrentar as ameaças perversas dos grandes projetos que assolavam os territórios indígenas na região.

     

    A LUTA CONTRA OS GRANDES PROJETOS

    Várias iniciativas foram pensadas, organizadas e articuladas por essa liderança indígena para garantir os direitos dos Gavião e de outros povos indígenas frente as obras do Programa Grande Carajás. Seu Payaré, também conhecido como Edvaldo Valdenilson, seu nome de batismo, não foi só um defensor da causa indígena, foi também um grande defensor dos direitos humanos, da natureza, tão violados e violentados pelos interesses nefastos do grande capital na Amazônia ao longo desses anos.

    Junto com a sua família permaneceu na Aldeia Mãe Maria até o ano de 2009, quando resolveu se separar do grupo e construir sua própria aldeia, na região norte da Terra Indígena, visto por ele como um espaço onde finalmente poderia realizar um grande sonho, que era de reorganizar o seu grupo, os Akrãtikatêjê da Montanha, enquanto um povo distinto, falando sua língua materna, observando seus usos e costumes tradicionais próprios. Na nova aldeia pode lutar com mais força, contra a empresa Vale, para terem o direito de serem assistidos pelos programas da empresa, como as etnias Gavião que outrora vivem no mesmo território Mãe Maria. Incansável, o Seu Payaré questionava e denunciava firme e duramente a forma como esta empresa comprometeu a soberania política dos grupos Gavião, através dessa “assistência”, fragilizando as relações sociopolíticas e culturais do grupo, favorecendo uma série de divisões internas que fragmentou a unidade política das comunidades, bem como ocasionou uma série de impactos socioambientais, econômicos e culturais irreversíveis para a vida dos grupos Gavião, que compromete os seus projetos de vida e de futuro.

    Atualmente na luta contra os grandes projetos, ele sempre se posicionou contrário à duplicação da Ferrovia Carajás e a nova ameaça da construção de outra hidrelétrica que atingiria novamente o seu povo, a UHE Marabá, exigindo que cada grupo Gavião pudesse ter o direito de ser consultado de forma livre, prévia e informada, conforme a Convenção 169 da OIT, a Declaração Mundial dos Povos Indígenas da ONU e a própria Constituição Federal do Brasil, que aprendeu desde cedo a estudá-las, observá-las e a defendê-las como instrumentos políticos de garantia de direitos humanos e transformação de estruturas injustas de poder. Sempre manifestou, também, solidariedade e apoio incondicional à luta de outros povos indígenas na Amazônia e no Brasil pela conquista e respeito aos seus direitos.

    Seu Payaré, indiscutivelmente foi um facilitador do Reino de Deus, do Bem Viver, da Terra Sem Males e de um outro mundo, melhor e possível para seu povo e para todos aqueles que conheceram a incomensurável nobreza de um espírito tão nobre e guerreiro. Por isso a perda de uma personalidade tão importante, que nunca chegou a vivenciar e sentir a alegria de ver o sonho se realizar, que era de usufruir o outro território que seu povo sempre teve direito e que até hoje é negado, é algo que incomoda, que revolta e que nos enche de indignação.

    É por isso que no dia 30 de março de 2014, às nove horas da manhã, D. Honore, mergulhada em uma profunda dor que remonta a uma vida inteira de sofrimento, de luta, de perdas, juntamente com seus netos e família, bem como demais parentes Gavião e outros amigos – não apenas sepultou Seu Payaré naquela cova simples, no alto de uma pequena serra próxima à Aldeia Akrãti, onde reside o grupo, mas ela o devolvia para a Mãe Terra um dos seus mais nobres e valentes filhos que até o seu último momento soube viver sua vida com honra, ética e um amor profundo para com o seu povo, a natureza e a pessoa humana.

    Ela sabia que assim o seu querido e primogênito filho voltaria através da terra e da natureza que sempre amou, para os seus antepassados, a fim de que este continue amparando e ajudando o seu povo a continuar forte, firme e unido na luta por justiça contra violências que não podemos esquecer, e que serve de exemplo de resistência e luta para outros povos indígenas que vivem a mesma situação hoje na Amazônia.  Nesses dias, em que o grande líder indígena partiu daqui para outras terras, observamos que não tem parado de chover. Para nós, que acreditamos no Deus da Vida, este é um sinal de que a vida continua, se renova e de que a morte do Seu Payaré não foi e não será em vão.

    Seus legados de justiça, de amor, de resistência, de luta, fé, solidariedade, fraternidade, comunhão pela vida e pelos direitos dos povos originários, tão ameaçados hoje em dia pela ganância do capital devem pulsar dentro de cada um dos seus descendentes e jamais ser esquecido pelos corações daqueles que o conheceram. Seu Payaré vive em todos os nossos sonhos de libertação, de justiça e de amor.

    Marabá, Pará, 31 de março de 2014.

     

    Conselho Indigenista Missionário; Comissão Pastoral da Terra; Diocese de Marabá; Pastorais Sociais Ampliadas; Observatório Socioambiental do Sudeste Paraense; Justiça nos Trilhos; Sociedade Paraense de Direitos Humanos; Movimento dos Atingidos por Barragem; Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra; Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará; Instituto Federal do Pará -Campus Marabá; Universidade do Estado do Pará -Campus Marabá; Nova Cartografia Social da Amazônia; Fórum da Amazônia Oriental; Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular; Movimento Debate e Ação; Fórum Regional de Educação do Campo do Sul e Sudeste do Pará; Faculdade de Educação do Campo – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará.

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  • 02/04/2014

    Cheias no Norte do país desabrigam 250 famílias indígenas

    O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Rondônia vem ao público demonstrar preocupação e ao mesmo tempo indignação neste momento difícil em que se encontram aproximadamente as 250 famílias indígenas, que hoje se somam a tantas outras mil pessoas desabrigadas pela enchente histórica do rio Madeira que se prolonga a quase dois meses, inundando e expulsando comunidades ribeirinhas e urbanas, submergindo inúmeras plantações à beira dos rios Madeira, Mamoré, Guaporé, e Pacaas Novos.

     

    Sabemos que na região Norte o período de chuvas sempre foi um fator de preocupação para as populações que vivem às margens desses rios, porém, este ano assumiu proporções muito maiores, que colocam em risco a integridade física das famílias. Reconhecemos que existem catástrofes naturais que ameaçam a vida do planeta desde o princípio. Porém, na atualidade há novos fatores que aceleram este processo, como o aquecimento global, desmatamentos, processos erosivos no solo e a construção de hidrelétricas, como é o caso das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, que segundo especialistas, apresentam erros no estudo de impacto ambiental. 

     

    É urgente que o Governo Brasileiro e autoridades competentes façam uma nova e criteriosa investigação técnica das construções e dos impactos ambientais e sociais. Que ela seja feita por profissionais especialistas e independentes, segundo indicativo do Ministério Publico Federal, à exigência e à insistência da sociedade civil organizada.

     

    O município de Guajará-Mirim está em estado de emergência desde o dia 12 de fevereiro, quando a única rodovia de acesso foi alagada pela cheia do Rio Madeira e seus afluentes. O Rio Mamoré, que separa o município da Bolívia, também alcança níveis históricos, chegando a quase 15 metros. Igualmente grave é a situação nos outros rios, provocando muito sofrimento a todas as famílias que vivem nestes locais. No município de Humaitá (AM) as famílias indígenas, ribeirinhas e urbanas enfrentam as mesmas dificuldades.

     

    Os povos indígenas Oro Wari, Makurap, Tupari, Djoromitxi, Canoé, Wayoro, Aruá, Cassupá, Cujubim, Cabixi, Sakirabiar, Oro Wim, da Região de Guajará Mirim, e os povos Parintintim e Tenharim, em Humaitá, que também vivem às margens dos rios Mamoré, Guaporé, Pacaas Novos e Madeira, estão sendo desabrigados e em algumas aldeias as roças estão completamente inundadas.

     

    Os povos indígenas e as populações tradicionais estão vivendo um momento de caos, perdendo todos os seus bens e as fontes de sustento. Exigimos que o Governo adote medidas que facilitem o acesso aos direitos de serem assistidos, garantindo assim a integridade física e cultural aos indígenas, ribeirinhos e famílias que vivem nas áreas urbanas de Guajará Mirim, Porto Velho e Humaitá, dando a devida assistência à todas as famílias flageladas, para que possam recuperar suas terras, suas casas e seus bens,  considerando que a moradia tradicional é um bem sagrado e um direito constitucional.

                                                                                                                         Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Rondônia

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  • 01/04/2014

    No 50º aniversário do Golpe, ação pede condenação da Abin e de Belo Monte por espionagem

    Neste dia 31 de março, data em que o país relembrou os 50 anos do golpe militar – e em especial os violentos crimes contra os direitos humanos perpetrados pelo Estado no mais sombrio período da nossa história recente -, a coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre, Antonia Melo, representada pelos advogados da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), entrou com uma ação contra a União e o Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM) em função da espionagem que vitimou o Movimento Xingu Vivo para Sempre (MXVPS) durante o seu planejamento anual em fevereiro de 2013. A ação cobra indenização por danos morais e exige que a União, representada pela Agencia Brasileira de Inteligência (ABIN, citada como co-mandante da espionagem pelo perpetrante do ato), apresente nos autos do processo todo material colhido sobre o movimento.

    No dia 24 de fevereiro de 2013, último dia do planejamento do MXVS – principal organização de resistência contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte em Altamira –, foi descoberto que um dos voluntários do movimento, morador local e que tinha ligações antigas e familiares com a coordenadora Antonia Melo, estava gravando os debates com uma caneta espiã. Desmascarado, o rapaz afirmou, em depoimento gravado em vídeo, que recebia R$ 5 mil do CCBM para espionar o Xingu Vivo, e que este material seria apresentado para análise da Abin naquela mesma semana (veja matéria e vídeo em http://www.xinguvivo.org.br/2013/02/25/funcionario-de-belo-monte-e-flagrado-espionando-reuniao-do-xingu-vivo-para-informar-bin/). Neste depoimento, o espião afirmou também que o principal alvo de seu trabalho era Antonia Melo, cuja neutralização ou prisão dissolveria o movimento e a resistência contra a usina.

    De acordo com os advogados Sergio Martins e Marco Apolo Santana Leão, a decisão de entrar com uma ação por danos morais contra o CCBM e a União se deve ao fato de que, passado mais de um ano do ocorrido, o Inquérito Civil ainda não foi concluído e os réus não foram punidos. “Em plena democracia, é inadmissível que integrantes de uma organização da sociedade civil vivam com medo de estarem sendo espionados ilegalmente por um empreendimento privado, que conta com apoio de um órgão do Estado. Passaram-se 50 anos do golpe militar, mas as táticas repressivas contra a militância por direitos humanos segue inalterada? Que democracia é essa? Quando, como no caso de Belo Monte, leis são brutalmente violadas, comunidades destruídas, pequenos agricultores são despejados sem indenização justa, a resposta do empreendedor e do governo é simplesmente aniquilar quem denuncia?”, questiona Martins. “Esperamos agora que o Judiciário cumpra seu papel e proteja e compense quem sofre tais abusos”, conclui Leão.

    A ação requer as seguintes medidas:

    – Pagar a autora indenização por danos morais em valor a ser arbitrado por Vossa Excelência, com juros e correção monetária na forma da lei.

    – Requer seja determinada que a ABIN e CCBM juntem aos autos todas as informações, fotos, gravações, arquivos que coletaram ilegalmente da Autora, do Movimento Xingu Vivo Para Sempre, das entidades e pessoas que o compõem.   Em caso de recusa da requeridas, requer então a busca e apreensão destas informações nas sedes da ABIN em Altamira, Belém e Brasília, na sede da CCBM e na casa do Governo Federal situada em Altamira. 

    – Requer a condenação das requeridas para proibir expressamente que a ABIN e a CCBM pratiquem novos atos de espionagem contra a requerida ou o movimento Xingu Vivo para Sempre, ou ainda às entidades e militantes que dele fazem parte.                                          

    Clique aqui para ler a íntegra da ação

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  • 01/04/2014

    A ditadura que não diz seu nome

    Por Eliane Brum

     “Quando se quer fazer alguma coisa na Amazônia, não se deve pedir licença: faz-se.”

    A declaração é do gaúcho Carlos Aloysio Weber, ex-comandante do 5o Batalhão de Engenharia e Construção, um dos primeiros a instalar-se na Amazônia na ditadura civil-militar. Em 1971, ele foi entrevistado para um projeto especial da revista Realidade sobre a Amazônia. O repórter fez ao coronel, apresentado como “lendário” em Rondônia, a seguinte pergunta: “Como é possível fazer as coisas na Amazônia e transformar a região?”. O coronel respondeu:

    – Como você pensa que nós fizemos 800 quilômetros de estrada? Pedindo licença, chê? Usamos a mesma tática dos portugueses, que não pediam licença aos espanhóis para cruzar a linha de Tordesilhas. Se tudo o que fizemos não tivesse dado certo, eu estaria na cadeia, velho.

    É uma declaração de sentidos explícitos – pelo tom em que foi dita, pela certeza da impunidade, pelo orgulho da falta de limites. Pela forma como o coronel vê a Amazônia como território a ser invadido e dominado pela força. O que a ditadura fez na Amazônia, tão longe dos centros de poder e das vozes de resistência, e o que fez com os povos indígenas, ainda precisa ser investigado com muito mais profundidade. Os horrores que já foram descobertos podem ser só a superfície. Mas, se o passado pede luz, o presente precisa ser iluminado com urgência.

    Há vários entulhos autoritários corroendo nossos dias, como a Polícia Militar (que, se tem uma história anterior ao golpe de 1964, ganhou mais poderes na ditadura e os mantêm na democracia) e o “auto de resistência” (que serve para a polícia justificar a execução de suspeitos ou desafetos). Mas é no olhar tanto sobre a Amazônia quanto sobre os povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas que o Estado autoritário persiste com mais força e menos resistência na mente da maioria dos brasileiros. Persiste da forma mais perigosa, porque traveste como verdade aquilo que é apenas uma imagem a serviço de interesses políticos e econômicos específicos. Talvez em nenhum outro campo o regime de exceção tenha conquistado tanto êxito ao impor seu ideário. E o mantê-lo na democracia.

    A ditadura civil-militar enraizou no imaginário dos brasileiros a visão de que a floresta amazônica é um território-corpo para exploração. Se a lógica do explorador/colonizador norteou historicamente a “interiorização” do país, é na ditadura que ela ganha um pacote ideológico mais ambicioso. As peças de propaganda que o regime produziu continuam vivas, mesmo para aqueles que nasceram depois dela, como os slogans “Integrar para não entregar” e “Terra sem homens para homens sem terra”. É na ditadura que é cimentada a ideia da Amazônia como “deserto verde”, ignorando toda a riqueza humana, a diversidade cultural e biológica que lá existia, ignorando a vida. A disseminação dessa fantasia é tão bem sucedida que se torna verdade. E se torna uma verdade que continua verdade após a redemocratização. Tão verdade que cria uma realidade paradoxal: uma ex-guerrilheira, presa e torturada pelo regime, é quem, na democracia, leva adiante o modelo de desenvolvimento da ditadura para a Amazônia.

    É primeiro no governo Lula, e com mais força e empenho a partir da posse de Dilma Rousseff, que grandes obras previstas pelos militares, como a hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu – a mais polêmica, mas não a única – são impostas aos povos da floresta. O conturbado processo que forçou a construção de Belo Monte, entre outras arbitrariedades violou tanto a Constituição quanto tratados internacionais. A Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), assegura aos indígenas o direito de serem ouvidos em empreendimentos que vão afetar seu modo tradicional de vida – e não foram. Outras hidrelétricas estão em curso, com grande resistência de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, como as usinas previstas para o rio Tapajós, no Pará.

    É nesse governo eleito que a Força Nacional baixa sobre as comunidades tradicionais que vivem há séculos na área dos megaprojetos com a justificativa, entre outras, de garantir a segurança dos pesquisadores que farão o inventário socioambiental. Na prática, é usada para reprimir a resistência legítima desses povos, cujos direitos são amparados pela Constituição. É na democracia que grandes empresas financiadas pelo dinheiro público do BNDES executam obras que alteram o ecossistema regional sem cumprir suas obrigações, na forma de condicionantes, causando estragos irreversíveis e aniquilando vidas, como se viu agora na enchente histórica do rio Madeira.

    É também nesse período democrático que um instrumento criado na ditadura, a “Suspensão de Segurança”, tem sido usado para garantir a continuidade dos megaempreendimentos, como foi denunciado no último 28 de março na Organização dos Estados Americanos (OEA). O instrumento permite a tribunais superiores anular decisões judiciais de instâncias inferiores, independentemente do mérito, se as cortes entenderem que as sentenças representam risco de “ocorrência de grave lesão à ordem, à saúde, à segurança ou à economia públicas”. O mecanismo controverso tem sido usado para derrubar decisões favoráveis a comunidades afetadas por grandes obras, como Belo Monte e a estrada de ferro de Carajás.

    E a maioria dos brasileiros não estranha – ou estranha muito pouco – essa versão do “Brasil Grande” da ditadura que se consolida com outros nomes na democracia. Não decodifica essa violência como violência, não decodifica o autoritarismo como autoritarismo. O mais perigoso é sempre aquilo que não detectamos como perigoso, aquilo que se naturaliza como inevitável – e na Amazônia a violência de Estado tornou-se natureza.

    Poderia ser uma surpresa o fato de o mito amazônico forjado na ditadura persistir na democracia. Mas não chega a ser, porque é esse mito, convertido em verdade única, que permite que a Amazônia siga sendo tratada como objeto de espoliação, seja pelo Estado, seja pela iniciativa privada. Um corpo a ser violado, à disposição de exploradores de passagem, sejam eles técnicos do governo, políticos de amplo espectro partidário, grileiros, madeireiros, mineradores e empreiteiros. Quem nesse território permanece, nele nasce, tem raízes e constrói memória torna-se um obstáculo, como os povos indígenas. Um não-ser, como os ribeirinhos e quilombolas, os invisíveis entre os invisíveis. Um obstáculo não ao desenvolvimento, como se repete à exaustão, mas à manutenção desse mito – à continuidade do ideário que legitima, há décadas, a destruição da floresta e dos povos da floresta para acomodar os interesses dos centros de poder.

    Esta é uma entre várias razões para que a afirmação de pertencimento dessas populações seja vista como ilegítima, já que a floresta não seria terra para a vida, mas para a exploração e o uso. Como reivindicar a construção de sentidos naquela que é objeto de passagem e de dilapidação? A Amazônia serve ao centro, numa lógica que ainda obedece, na segunda década do século 21, aos preceitos do sistema colonial, na qual a periferia serve à matriz.

    Para muitos, incluindo burocratas do governo instalados em ministérios como o de Minas e Energia, a Amazônia é apenas uma fonte de matérias-primas e de energia para as grandes indústrias que produzem para exportação. Tem sido, também, uma fonte de pagamento de compromissos não pronunciados de campanha, na forma de grandes obras financiadas pelo BNDES. A floresta é também aquela que pode ser derrubada para expandir a fronteira agropecuária, num momento em que os ruralistas constituem a maior bancada suprapartidária, em um Congresso que se pauta pela chantagem, e alcançam níveis inéditos de influência em um governo que assegura apoio pela barganha. É ainda uma reserva simbólica para unir o Brasil que a desconhece num ufanismo tortuoso contra “os gringos que querem tomar a Amazônia”. Nada parece mais eficaz do que criar uma ameaça externa para engordar nacionalismos de ocasião, que só favorecem aos mesmos de sempre. Se é disso que se trata, convém perceber que há um tipo de “gringo” que há muito está lá, em megaprojetos de multinacionais que expulsaram as populações locais com o apoio de sucessivos governos. Na ditadura, mas também na democracia.

    A Amazônia é devastada em nome de várias manipulações, concretas e simbólicas. Para que continue a servir aos interesses dos centros de poder, é preciso que o modelo de exploração persista. E, para que persista, quando o aquecimento global e a destruição do meio ambiente se tornam temas vitais no mundo, quando a questão da água ascende ao topo da pauta, é preciso forjar novos inimigos. É nesse contexto que os povos indígenas passam a ser vendidos à população, predominantemente urbana do país, como “entraves ao desenvolvimento”. Isso no discurso tanto de setores conservadores da sociedade quanto em falas oficiais de setores do atual governo.

    Aqueles que pertencem à terra são convertidos em despertencidos, o sentido mais profundo de “entrave”, para que a Amazônia se mantenha no mesmo lugar de corpo para violação. Em nome de “interesses nacionais”, quando, de fato, o que se mascara como nacional são, historicamente, projetos de poder de grupos políticos específicos e projetos de lucro de grupos econômicos privados. Estes, fazem alianças circunstanciais ou permanentes para manter a lógica de espoliação intacta. Fizeram na ditadura, fazem na democracia. Sem que se estranhe o suficiente, porque a distância da Amazônia não é apenas geográfica. Para compreendê-la é preciso se arriscar à alteridade – e nada mais perigoso para quem quer manter seus privilégios do que experimentar outras possibilidades de estar no mundo.

    Os povos indígenas resistem desde 1500, mas nesse século ampliaram sua voz, pelas possibilidades abertas pela internet, e passaram a divulgar suas narrativas múltiplas. Em comum, a resistência ao genocídio que segue em curso e ganhou roupagens mais sofisticadas. É também por isso que os ataques contra esses povos se acirraram, não apenas na forma de agressões físicas e destruição de aldeias, mas nos vários projetos que tramitam no Congresso e que significam, na prática, sua aniquilação física e cultural. Como não é mais possível silenciar a sua voz, é preciso transformá-los em inimigos. O inimigo não se escuta, diga o que disser, porque não lhe é reconhecida a legitimidade para dizer. Esse é o objetivo da bem sucedida propaganda em curso, que coloca os mais de 200 povos indígenas, habitantes também de outros ecossistemas além da Amazônia, como “entraves ao desenvolvimento” do Brasil. Por estarem no caminho das grandes obras, por estarem coletivamente sobre as terras cobiçadas para lucros privados.

    Nada é mais autoritário do que dizer ao outro que ele não é o que é. Essa também é parte da ofensiva de aniquilação, ao invocar a falaciosa questão do “índio verdadeiro” e do “índio falso”, como se existisse uma espécie de “certificado de autenticidade”. Essa estratégia é ainda mais vil porque pretende convencer o país de que os povos indígenas nem mesmo teriam o direito de reivindicar pertencer à terra que reivindicam, porque sequer pertenceriam a si mesmos. Na lógica do explorador, o ideal seria transformar todos em pobres, moradores das periferias das cidades, dependentes de programas de governo. Nesse lugar, geográfico e simbólico, nenhum privilégio seria colocado em risco. E não haveria nada entre os grandes interesses sem nenhuma grandeza e o território de cobiça.

    Quando alguém, mesmo em círculos letrados, afirma que “sem Belo Monte não vai dar para assistir à novela das oito ou entrar no Facebook”, ou brada que “índio tem terra demais”, está cometendo muitas impropriedades. Mas está também mantendo vivo o ideário da ditadura sobre a Amazônia e os povos da floresta. No momento em que o Brasil disseca o golpe que completou 50 anos, tão importante quanto jogar luz sobre o passado é compreender o que dele permanece entre nós – com a nossa estreita colaboração.

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  • 01/04/2014

    Autoritarismo Nunca Mais: o golpe militar 50 anos depois

    No dia 31 de março de 2014, completam-se 50 anos do golpe que implantou a ditadura militar brasileira, que atingiu violentamente nosso povo por longos 21 anos.

    Segundo levantamento realizado por familiares de vítimas, mais de 70 mil pessoas foram presas e perseguidas e 437 foram mortas e desaparecidas. Porém a política de extermínio de indígenas, quilombolas e camponeses a mando dos governos militares, foi responsável pela morte de muito mais gente. Foram mortas mais de 2 mil pessoas da etnia Waimiri-Atroari, no período de construção da BR 174 (Manaus/Boa Vista) nos Estados do Amazonas e Roraima, entre os anos de 1969 e 1979, e um número ainda indeterminado de indígenas de outros povos como os Parintintin, Tenharim, Jiahui, Arara, Parakana e Krenakarore.

    Os assassinatos de militantes da resistência à ditadura eram acobertados por versões falsas de suicídios, atropelamentos ou mortes em tiroteios. Outros são dados como desaparecidos, pois seus restos mortais até hoje não foram localizados.

    A prática de tortura e de outros crimes contra a humanidade foi generalizada e sistemática. O terrorismo de Estado, executado pela ditadura, teve o comando do alto escalão das Forças Armadas e foi financiado diretamente por muitos empresários e suas entidades, que se beneficiaram com a ditadura militar e ainda hoje estão na elite econômica do país e na estrutura do Estado, como no exemplo da grilagem de terras que deixou suas marcas destrutivas na Amazônia e no Cerrado brasileiro.

    Para combater o esquecimento e desmontar a estrutura autoritária que o país herdou da ditadura, é preciso que sejam identificados e punidos exemplarmente todos os torturadores, seus mandantes e financiadores. Assim romperemos a dura herança deixada pela ditadura e que ainda acoberta os violadores de Direitos Humanos dos dias atuais. A banalização da violência por parte da PM é a pior herança da ditadura militar.

    Além disso, há as propostas de reformas legislativas conservadoras como a Lei Antiterror e a Portaria denominada “Garantia da Lei e da Ordem” que ressuscitam a legislação ditatorial e restauram a figura do “inimigo interno” contida na Lei de Segurança Nacional. Não podemos aceitar a criminalização dos movimentos sociais e populares, ou de suas manifestações.

    Por tudo isso, nós, representantes de organizações da sociedade civil, de entidades sindicais, de partidos políticos, de movimentos sociais, estamos aqui para reafirmar que o dia 31 de março envergonha o nosso país. Por isso, exigimos:

    – A responsabilização dos mandantes e executores dos crimes cometidos pelos militares e agentes públicos do Estado brasileiro contra os indígenas;

    – Imediato cumprimento da decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos no Caso Araguaia e reinterpretação da Lei da Anistia;

    – Localização e identificação dos corpos dos desaparecidos políticos e esclarecimento das circunstâncias e dos responsáveis por suas mortes;

    – Identificação e punição dos torturadores, estupradores, assassinos, mandantes, financiadores e ocultadores de cadáveres;

    – Desmilitarização das Polícias e rompimento do ciclo de violência perpetuado pelas corporações;

    Neste dia 28 de março, no Instituto de Ciências Humanas e Letras – ICHL, da Universidade Federal do Amazonas – UFAM, vamos lembrar, de forma coletiva, os trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, em especial, os indígenas assassinados pela Ditadura Militar, em memória e homenagem às suas vidas e lutas. Desse modo, reverenciamos e homenageamos suas histórias e papéis de resistentes, a quem tanto deve o Brasil.

    Que 2014 seja o ano da Verdade e também o da Justiça.

    Ditadura Nunca Mais!

    Punição aos Torturadores de Ontem e de Hoje!

    Assinam este Manifesto:

    1. Comitê pela Verdade, Memória e Justiça do Amazonas;
    2. Procurador da República Julio José Araujo Junior (MPF/AM);
    3. Procurador do Trabalho Renan Bernardi Kalil (MPT/AM);
    4. Concelho Indigenista Missionário (CIMI/Norte 1);
    5. Comissão Pastoral da Terra (CPT/Amazonas);
    6. Casa da Cultura do Urubuí (CACUÍ);
    7. Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas (SJP/AM);
    8. Grupo de Pesquisa Planejamento e Gestão do Território na Amazônia (Dabukuri);
    9. Associação dos Docentes da UFAM (ADUA);
    10. Movimento Luta Popular (MLP);
    11. Central Sindical e Popular – CSP (CONLUTAS);
    12. Movimento Nacional de Luta por Moradia (MNLM).

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