• 28/01/2015

    Herói da Pátria Brasileira, Sepé Tiaraju é homenageado em sua Semana

    Sepé Tiraju, líder guarani, deu a vida para defender as terras do povo nativo gaúcho, virou mito, foi canonizado pela vontade popular, é reconhecido oficialmente como "herói guarani missioneiro rio-grandense" pela Lei nº 12.366 do Estado do Rio Grande do Sul e Herói da Pátria Brasileira pela lei Federal 12.032/09, mas é ignorado pelo brasileiro e rio-grandense.

    No sentido de conscientizar a sociedade gaúcha e brasileira sobre a existência de um único herói brasileiro no Rio Grande do Sul, entre 1º e 7 de fevereiro de 2015, em comemoração aos 259 anos da sua morte estarão ocorrendo uma série de eventos no território gaúcho. Entre 1609 e 1768 ocorreu uma das principais histórias do mundo em nosso território latino-americano, reconhecida pela UNESCO, como uma “experiência única na Humanidade”. Visitantes do mundo todo vêm em busca dos fatos que encantaram filósofos dos anos 1600, 1700 e 1800, todavia, a própria sociedade que construiu o processo histórico ainda mantem-se de olhos fechados para os acontecimentos aqui ocorridos.

    No estado há 12 mil anos viviam grupos pré-pampeanos. Há cerca de 2.500 anos ocorre a entrada do Povo Guarani. Em 3 de maio de 1626 os primeiros padres jesuítas entram no território gaúcho e fundam 18 reduções. Estas foram expulsas pelos Bandeirantes que naquele período mataram no todo mais de 600 mil guaranis em busca de escravos para suas lavouras paulistas. Expulsos ficaram as reduções no território entre o rio Uruguai e Paraná, hoje Argentina. Voltaram a partir de 1682 fundando os Sete Povos das Missões que com suas estâncias de gado ocupavam mais de 2/3 do atual Rio Grande do Sul.

    Cresceram imensamente em termos de indústria e exportação remetendo sua produção para diversos locais da América e Europa. A indústria se fez plena, tanto quanto a cultura, Montesquieu chamou de “primeiro estado industrial da América”. Com o desenvolvimento as cortes europeias decidem exterminar o projeto comunitário assinando o Tratado de Madri e com a não aceitação das trocas das terras entre espanhóis e portugueses ocorre a Guerra Guaranítica, momento do aparecimento do nosso herói Sepé Tiaraju.

    José Tiaraju foi criado pelos Padres, pois seus pais foram mortos em um aparecimento de escarlatina. Da doença, restaram em seu corpo, cicatrizes várias, uma delas em sua testa, com formato de meia-lua. Como diz a lenda, esta lhe dava uma aura mística e brilhava nas noites, em cor escarlate. Aos poucos foi adquirindo o conhecimento e a cultura dos Jesuítas que se somaria ao espírito de liberdade guarani, o suficiente para transformá-lo em um dos maiores líderes da brilhante comunidade indígena missioneira.

    Foi Corregedor do Cabildo de São Miguel, o mais tenaz resistente à entrega dos Sete Povos aos Portugueses, em troca da Colônia de Sacramento. Sepé Tiaraju transformou-se num autêntico guerreiro, chamando para si a responsabilidade da defesa do povo guarani, da cobiça e do egoísmo dos Espanhóis e Portugueses, pela posse da terra. Em uma carta, a ele atribuída, dirigida ao governo espanhol ele escreveu: “Nossa riqueza é a nossa liberdade. Esta terra tem dono e não é nem português nem espanhol, mas Guarani”.

    Sepé morreu em 7 de fevereiro de 1756, às margens da sanga da Bica, afluente do rio Vacacaí, no município gaúcho de São Gabriel. Três dias depois ocorre a Batalha de Caiboaté e a morte de 1.500 dos principais guerreiros e Caciques Guaranis. Encerrava-se assim, uma das mais bem sucedidas experiências de vida comunitária cristã de todos os tempos citadas por Voltaire, principal Iluminista Francês, como “Triunfo da Humanidade”.

    Por seu feito, Sepé Tiaraju, é considerado santo popular, virou personagem lendário do Rio Grande do Sul e dos Povos Nativos da América Latina, sua memória ficou registrada na literatura por Basílio da Gama no poema épico O Uruguai (1769) e por Érico Veríssimo no romance ‘O Tempo e o Vento’.

    Programação: De 1º a 7 de fevereiro de 2015.

    Conforme o Irmão Antônio Cechin, coordenador geral dos eventos, “pretende ser essa semana, uma arrancada rumo a uma possível introdução da Causa de Beatificação e Canonização dos heróis riograndenses, guarani, missioneiros e brasileiros Sepé Tiaraju e seus 1500 companheiros Mártires Pela Justiça. São Sepé, além de empoderador dos pobres, pode também tornar-se padroeiro dos prefeitos populares”.

    Cechin pede que deem o máximo de importância, comparecendo todos a fim de prestigiar a semana que nos ajudará na glorificação não só de Sepé e Companheiros, mas também dos 3 santos padres jesuítas missioneiros dos Sete Povos: Roque, Afonso e João. Diz que são tempos de papa jesuíta Francisco, da estirpe missioneira dos Sete Povos das Missões do Rio Grande do Sul.

     

    Domingo – 01-02

    Manhã

    Saída da Bicicletada de Porto Alegre, rumo a São Gabriel – Sede do Caminho das Águas – dormem em Rincão dos Negros.


    Segunda – 02/02

    Início da exposição sobre Sepé Tiaraju no Museu Nossa Senhora do Rosário – Bom Fim- Porto Alegre.

    Bicicletada: Rincão dos Negros – Cachoeira do Sul.

     

    Terça – 03-02

    Bicicletada: Cachoeira do Sul – São Sepé.

     

    Quarta – 04-02

    Bicicletada: São Sepé – Santa Margarida.

     

    Quinta-feira – 05/02

    Manhã

    Chegada dos índios e da equipe da Bicicletada em São Gabriel.

    Recepção: Parque Tradicionalista Rincão das Carretas

    Almoço de confraternização organizado pelo Cimi

    Tarde

    Reunião interna dos índios (a partir das 15h) e apresentação teatral da equipe da Bicicletada em frente ao Museu (a partir das 19h30).

     

    Sexta-feira – 06/02

    Manhã

    Reunião aberta dos índios com a participação da equipe da Bicicletada e de todos os envolvidos.

    Tarde

    16h – Bicicletada nas principais ruas da cidade, fazendo paradas estratégicas na Praça Dr. Fernando Abbott, Praça Camilo Mércio e Praça Tunuca Silveira

    18h30 – Futebol no Estádio Municipal (atividade que agrega Governo, CIMI e equipe da Biciletada)

    21h – Palestra sobre “As Missões e Sepé Tiaraju – a importância de para o Brasil”, no Parque Tradicionalista Rincão das Carretas com o pesquisador José Roberto Oliveira.

     

    Sábado – 07/02

    Manhã

    6h – Deslocamento dos índios e comunidade até a Coxilha de Caiboaté (ritual indígena).

    9h30 – Missa da Terra Sem Males, na Chácara Juca Tigre.

    11h30 Inauguração da Trilha "Pelos caminhos de Sepé", na Chácara Juca Tigre.

    Almoço no Parque Tradicionalista Rincão das Carretas.

    Tarde

    16h – Retorno à Chácara Juca Tigre, onde terá apresentações de corais indígenas e outras atrações.

    19h – Inauguração da Estátua em concreto armado de Sepé Tiaraju.

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  • 27/01/2015

    “A Funai está sendo desvalorizada e sua autonomia totalmente desconsiderada”, diz ex-presidente

    Maria Augusta Assirati foi presidente interina da Fundação Nacional do Índio (Funai) por um 1 ano e 4 meses, tempo em que ela diz ter vivido com “grande descontentamento e constrangimento”. Na gestão que menos demarcou terras desde José Sarney, ela aponta a interferência política do governo Dilma Rousseff como a maior responsável pela imobilização do trabalho técnico do órgão indigenista. “A orientação é no sentido de que nenhum processo de demarcação em nenhum estágio, delimitação, declaração, ou homologação, tramite sem a avaliação do Ministério da Justiça e da Casa Civil”.

     Na primeira entrevista desde que saiu, em outubro, ela fala sobre o estopim para o seu pedido de exoneração: uma manobra para licenciar a usina de São Luiz do Tapajós, que pode alagar terra Munduruku (leia mais na nossa reportagem). Depois de analisar o caso e se comprometer com os indígenas a publicar o relatório que delimita a terra, Assirati diz que foi obrigada a voltar atrás. “Nós tivemos que descumprir esse compromisso em razão da prioridade que o governo deu ao empreendimento. Isso é grave”.

     A ex-presidente da Funai fala sobre como tentou apresentar uma alternativa, propondo que se selecionasse outro local para a obra. Mas o governo não teria considerado a solução satisfatória, pois o setor elétrico indicava que o leilão precisava ser lançado ainda em 2014.

    De fato, em setembro, o Ministério de Minas e Energia anunciou o leilão da usina de São Luiz do Tapajós. Mas dias depois teve que adiar para uma data não definida, pois o licenciamento da hidrelétrica ainda não estava concluído. A “culpa” do atraso não foi da Funai ou do Ibama. Faltava a conclusão do Estudo de Componente Indígena, avaliação de impactos que é feita pelo grupo de empresas interessadas em construir a hidrelétrica: Eletrobras, Eletronorte, GDF SUEZ, EDF, Neoenergia, Camargo Corrêa, Endesa Brasil, Cemig e Copel.

    Hoje com 38 anos, Assirati é formada em direito e trabalhou em gestões municipais do PT em São Paulo. Foi para Brasília em 2007 para integrar a mesa de negociações com servidores públicos do Ministério do Planejamento. Desde então passou pelo Ministério da Saúde, Justiça e Secretaria-Geral da Presidência, sempre em áreas ligadas à interlocução com movimentos sociais.

    Deixou a Funai em 1º de outubro de 2014, nove dias depois de uma tensa reunião com lideranças Munduruku sobre a terra indígena que pode ser alagada pela usina de São Luiz do Tapajós. Nesse encontro, ela disse aos indígenas que não poderia encaminhar a demarcação porque a hidrelétrica é prioridade de outros setores do governo. Hoje vive em Portugal, onde faz um curso de doutorado em Direito, Justiça e Cidadania no Século XXI.

    Em setembro, o Ministério de Minas e Energia anunciou o leilão de São Luiz do Tapajós antes que a Funai pudesse dar seu parecer sobre a usina. Como interpretou esse ato?

    Como uma completa desconsideração da presença dos indígenas na área de influência do empreendimento e dos seus respectivos direitos, além de uma desconsideração com o trabalho do órgão indigenista.

    A Funai fez um parecer técnico apontando a usina como inconstitucional. Por que esse parecer ainda não entrou como documentação do processo de licenciamento?

    A Funai não chegou a emitir o parecer sobre a licença previa de Tapajós, mas houve esse documento da equipe técnica. Assim que concluído o Estudo de Impacto Ambiental (EIA), expusemos nossa posição institucional, que corrobora esse parecer da equipe técnica. O EIA aponta que um dos impactos é a supressão por alagamento de áreas dentro da terra indígena. Como o alagamento foi identificado, o empreendimento dependeria de remoção da comunidade indígena, o que é proibido pela Constituição Federal. No entanto, o Ministério do Planejamento e o Ministério de Minas e Energia alegam que não há terra indígena ali.

    Por que o relatório de delimitação da Sawré Muybu, a terra que seria alagada pela usina, nunca foi publicado pela Funai?

    O processo foi levado à consideração do Ministério da Justiça e Casa Civil, que, em virtude da usina, acreditam que a demarcação tem que ser discutida mais profundamente e com outros órgãos de governo.

    Em reunião com os munduruku, a senhora revelou que a usina impedia a demarcação e disse que só permanecia no cargo porque acreditava em uma solução para o caso. Mas, nove dias depois, deixou a presidência da Funai. O que esse caso significou para a senhora? Foi o estopim para a sua saída?

    Essa reunião foi um momento muito duro para todos nós: para os indígenas, para nós da Funai, e para mim, pessoalmente. Nós, como Funai, havíamos assumido um compromisso com os Munduruku no sentido da publicação do relatório [de delimitação da Sawré Muybu]. E nós tivemos que descumprir esse compromisso em razão da prioridade que o governo deu ao empreendimento. Isso é grave. Uma situação como essa fragiliza a confiança que deve pautar as relações com os indígenas. Eles já foram muito enganados, por mais de 500 anos. Uma relação de confiança não se constrói só com palavras, exige compromisso e coerência. Por isso procurei explicar a eles o que estava acontecendo, dizer como estávamos buscando solucionar essas questões e quais seriam os próximos passos. Mas a solução que, do ponto de vista da Funai, garante o respeito à legislação brasileira e os direitos indígenas daquele povo foi descartada pelo governo naquele momento. Espero que ela possa ser reconsiderada nesse segundo governo Dilma.

    Qual foi a solução apresentada pela Funai?

    Solicitei que fossem apresentadas alternativas locacionais para a barragem, que o setor elétrico indicasse outros locais possíveis para a construção, onde a comunidade não fosse afetada dessa forma. A aldeia é uma área de habitação permanente daquela comunidade munduruku. Além do grave impacto que isso geraria aos indígenas, há também um entrave jurídico. Adverti sempre que a remoção daquele local é uma situação que o nosso ordenamento jurídico proíbe.

    Como a proposta de mudar o lugar da barragem foi recebida?

    Não foi considerada como uma solução satisfatória tendo em vista que, segundo o setor elétrico, havia necessidade de realizar o leilão em 2014.

    Quem são os representantes do governo federal que defendem o projeto da usina mesmo com o alagamento de uma terra indígena?

    É um projeto prioritário do PAC, essas prioridades são definidas junto ao Palácio. Além do setor elétrico, há uma dedicação especial do Ministério do Planejamento. Como é um projeto caro à própria Presidenta, vira um projeto prioritário para todo o centro de governo.

    Como o governo federal pretende driblar a Constituição?

    Como presidenta da Funai quando no governo e como ex-presidenta e cidadã hoje, eu não acho que a Constituição tem que ser driblada. Acho que tem que ser respeitada e o parágrafo 5º do artigo 231 diz: “É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do País, garantido o retorno imediato logo que cesse o risco”. Essa proibição foi expressamente colocada na Constituição para evitar que qualquer interesse se sobreponha ao direito dos indígenas de viverem em suas terras e impedir que fossem removidos sob quaisquer pretextos, como era permitido antes de 88. Hoje uma remoção forçada é mais difícil, justamente porque há uma proteção normativa.

    Como o governo planeja viabilizar a usina apesar desse impedimento constitucional?

    O parágrafo 3º do artigo 231 diz que o aproveitamento dos recursos hídricos em terras indígenas só pode ser efetivado com “autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados”. Como não há lei regulamentando isso, há quem ache fundamental a proposição de um projeto de lei dizendo como se dará a exploração desses recursos dentro de terra indígena.

    Eu acho que isso vai ser muito prejudicial nesse contexto político em que está em curso a mais grave ofensiva aos povos indígenas pós-democratização. Regulamentar nesse momento é afirmar que os recursos naturais são mais importantes que os próprios indígenas. E pergunto: os povos indígenas serão consultados sobre isso? Terão participação nesse debate? Depois, mesmo que regulamentado esse parágrafo, a vedação do parágrafo 5º continuará existindo e, portanto, proibindo que os Munduruku sejam removidos.

    Essa tentativa de mudança é um caso isolado? Como ela se assemelha ao PLP 227 (projeto que regulamenta situações em que não-índios podem explorar terras indígenas)?

    Tudo isso vem no bojo dessa ofensiva anti-indígena: PEC 215 [pretendia transferir ao Legislativo a decisão final sobre a demarcação], regulamentação de artigos da Constituição, mudanças no procedimento de demarcação. Quando estava na Funai apresentamos uma nota técnica manifestando nossa posição contrária a esse projeto e as razões. Esse PLP cria situações que reduzem as possibilidades de demarcação de terras. Só por isso já é impróprio.

    Há ainda a portaria 303 da Advocacia Geral da União (estende para todas as demarcações as condicionantes criadas em Raposa Serra do Sol, como por exemplo proibir a extensão de terras já demarcadas). Qual o contexto político em que essa norma foi aprovada?

    Um dia cheguei para trabalhar e essa portaria estava publicada no Diário Oficial. Não tive acesso a nenhuma informação prévia à aprovação, pois sequer sabia que a AGU tomaria uma medida como essa. Não sei se foi discutida com alguém ou com algum órgão de governo antes da publicação. Ela afeta muito negativamente os direitos territoriais indígenas. Inclusive diz que haveria revisão de processos de demarcação já concluídos. Isso é um absurdo político e jurídico.

     O governo Dilma foi o que menos demarcou terras desde José Sarney. Como a senhora viveu isso na presidência da Funai?

    Com grande descontentamento e constrangimento. Acho esse número lastimável para um governo que se diz democrático e que teve um importante apoio de setores populares.

    Caiu também o número de delimitações de terras indígenas, processo que depende apenas da Funai. Há orientação para que o órgão segure esses processos?

    A orientação é no sentido de que nenhum processo de demarcação em nenhum estágio, delimitação, declaração, ou homologação, tramite sem a avaliação do Ministério da Justiça e da Casa Civil. Isso é, nada mais, nesse momento, “depende apenas da Funai”.

    O governo Dilma está operando um processo de desconstrução da Funai?

    O que sei é que a Funai está sendo desvalorizada e sua autonomia totalmente desconsiderada. Ela precisa ser fortalecida, e ter o mínimo de condições para sua sobrevivência e bom funcionamento. Não tem recebido a atenção que merece do ponto de vista administrativo e político. Não foi realizado ou sequer aprovado um concurso público, o orçamento é insuficiente. Sob o aspecto político-institucional, esse apoio também não vem. A Fundação segue com um dirigente interino enquanto ruralistas afirmam publicamente que os processos da Funai são fraudulentos, o que é uma grande calúnia, e não há defesa por parte de setores importantes do governo.

    Em 2013, a então ministra-chefe da Casa Civil Gleisi Hoffmann pediu a suspensão de demarcações com base em estudo da Embrapa. Logo depois o governo anunciou que demarcações seriam submetidas a outros órgãos. O que essa mudança significa?

    A Funai já tem a prerrogativa de consultar outros órgãos e já faz isso sempre que necessário. Isso não sou eu que digo, basta olhar os processos: consulta-se o Incra, a Fundação Palmares, o ICMBio, o Ibama, o Iphan. Mas não vejo como a imposição da obrigatoriedade de consultar outros órgãos, como o Ministério da Agricultura, a Embrapa e o Planejamento pode contribuir para concluir um estudo de identificação de terra indígena. Que elementos técnicos imprescindíveis esses órgãos podem produzir acerca da identificação de um território tradicional ou de sua delimitação? Sua participação, em meu entender, seria de ordem política, com vistas à defesa de interesses que estão fora do âmbito dos direitos constitucionalmente garantidos aos povos indígenas.

    Como a Constituição mudou os processos de demarcação?

    Antes das atuais garantias constitucionais, a Funai fazia o estudo de identificação com base em elementos técnicos, apresentava uma delimitação e esse trabalho era submetido a uma apreciação de um colegiado, que ficou conhecido como “grupão”. Em Brasília, o “grupão” definia, segundo critérios políticos, qual seria o limite da terra indígena. Mas, com os parâmetros estabelecidos a partir de 88, isso é impensável.

    Como é hoje?

    A partir da Constituição de 88 e da atual legislação, os processos se aperfeiçoaram e se sofisticaram. As esquipes se especializam continuamente, há profissionais competentes nessa área. Claro que se pode colocar em análise algum aspecto jurídico, para isso há análise pela AGU e Ministério da Justiça. A legislação também prevê um prazo para que qualquer interessado conteste, apresente novos elementos e questione aspectos técnicos e jurídicos. Ao fim, quem decide sobre a declaração da área como terra indígena é o Ministro da Justiça. Caso precise de novos elementos, ele ainda pode solicitar a realização de diligências. E, depois disso tudo, ainda há uma análise da Casa Civil. Portanto, a legislação atual já traz instrumentos suficientes para a efetivação segura de um processo de demarcação.

    Qual será o impacto dessa série de mudanças propostas pelo governo?

    Uma efetiva política indigenista pública precisa de um órgão plenamente capaz de coordená-la e implementá-la. Hoje, a ação indigenista ainda não faz parte da preocupação e atuação de um grande número de órgãos públicos, federais, estaduais e municipais. Isso significa que, em certos casos, se a ação da Funai não chegar aos indígenas, nenhuma outra ação pública vai chegar a eles. Por isso, o desempenho da Funai é fundamental para a sobrevivência de muitos indígenas. Um funcionamento inadequado pode significar perdas irreparáveis. A desconsideração de comunidades indígenas por parte do Estado pode permitir ou acarretar a perda de vidas indígenas, ou até o desaparecimento de todo um povo indígena, o que equivale a um genocídio.

    A Secretaria-Geral da Presidência coordena o processo de consulta aos Munduruku sobre as usinas no rio Tapajós. As demandas dos indígenas estão sendo ouvidas?

    Não dá para fazer consulta como se ela fosse mera etapa burocrática ou obrigação processual apenas. O que está em questão são vidas que serão modificadas para sempre em função dessa intervenção [usinas]. Não dá para encarar como se os indígenas fossem um empecilho ou um fator de atraso no cronograma de um empreendimento. A intervenção é que interrompe, dificulta ou impede as práticas das comunidades indígenas. A demanda dos munduruku é, primeiro, entender o que se passa. Querem um diálogo respeitoso, esclarecedor e num tempo que permita verdadeiramente isso. Os momentos de diálogo que ocorreram durante o período em que eu estive na Funai não foram suficientes para esclarecer as questões que o povo munduruku tem sobre o assunto.

    O governo trata a consulta como “mera etapa burocrática”?

    A meu ver, parte do governo, em especial a parte que considera apenas a importância de empreendimentos de infraestrutura, trata assim. Mas há uma parte que não trata. A Ministra Tereza Campello fez questão que o Ministério de Desenvolvimento Social realizasse uma consulta prévia à realização de uma pesquisa em comunidades indígenas.

    Em entrevista ao El País, a procuradora Thais Santi denunciou o não cumprimento das condicionantes em Belo Monte, o que provocou impactos profundos e irreversíveis entre os indígenas. Por que a Funai não exigiu que a Norte Energia cumprisse o plano?

    A Funai cobrou inúmeras vezes o cumprimento das condicionantes. Eu mesma assinei muitos documentos nesse sentido. Mas exigir é uma medida que está bastante distante das possibilidades da Funai. Lembrando, inclusive, que o órgão licenciador é o Ibama, que também já recebeu muitos ofícios da Funai nesse sentido.

    A procuradora descreve os impactos de Belo Monte como etnocídio e aponta a senhora, quando presidente da Funai, como uma das responsáveis. Como responde a essa acusação?

    Reconheço e respeito a importância do trabalho do Ministério Publico. Mas estar na posição de presidente da Funai é bem diferente, bem mais difícil. Primeiro porque não compete à Funai conceder, negar ou suspender licenças de empreendimentos. Isso é competência do Ibama. Se o Ibama não considera o descumprimento de certas condicionantes apontadas pela Funai (e pelo MPF) como razão para rediscutir a licença de um empreendimento, não é a Funai quem vai reverter administrativamente essa situação. O que compete à Funai é cobrar do empreendedor e do Ibama. E isso nós fizemos sempre, inclusive em Belo Monte. Mas, se nem o próprio judiciário solucionou a questão nos mais de dez processos judiciais a que esse empreendimento foi submetido, parece que nada é tão simples como na compreensão da Dra. Thais. Não se resolve apenas a partir de aspectos administrativos e jurídicos.

    A Funai ainda é capaz de desempenhar seu papel de defesa dos direitos indígenas no Brasil?

    A Funai é, sem dúvida, a instituição pública comprometida com a defesa dos direitos indígenas no Brasil. Essa é a sua missão institucional, mas tem sido cada vez mais difícil desempenhar esse papel com a qualidade e especificidade que os povos indígenas demandam e merecem. A Funai precisa ser fortalecida. O movimento indígena e outros segmentos da sociedade civil têm tido um papel importante, é fundamental que continue a mobilização social em favor dos direitos indígenas. Mas não dá para desconsiderar que garantir a sobrevivência física e cultural dos povos indígenas no Brasil é uma obrigação inequívoca do Estado. Ou o governo olha com respeito para a Funai e para a importância de sua missão, ou deixará claro que não se importa nem se responsabiliza pelo futuro dos povos indígenas no Brasil.

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  • 27/01/2015

    MPF contesta Funai e insiste na demarcação da Terra Indígena Sawré Muybu

    O Ministério Público Federal apresentou contestação ao Tribunal Regional Federal da 1a Região, em Brasília, para que a Fundação Nacional do Índio seja obrigada a dar prosseguimento ao processo de demarcação da Terra Indígena Sawré Muybu, dos índios Munduruku, em Itaituba, oeste do Pará. O território será alagado em caso de construção da usina hidrelétrica São Luiz do Tapajós e o reconhecimento dele é crucial para que os direitos dos índios sejam reconhecidos no licenciamento da barragem.

    O MPF havia obtido, na Justiça Federal de Itaituba, uma liminar obrigando a Funai a dar prosseguimento à demarcação, mas o TRF1 concedeu efeito suspensivo (uma suspensão temporária até o julgamento dos recursos), paralisando novamente o procedimento, que já ultrapassou a fase mais custosa, que é o trabalho de identificação e delimitação. A próxima etapa deveria ser a publicação do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID), um passo procedimental sem custos significativos para o governo.

    Mesmo assim, a Funai alegou, para pedir a suspensão, que não poderia prosseguir a demarcação por questões de planejamento e custos. Para o MPF, o argumento não se sustenta. “Ao contrário, economia maior se realizaria se houvesse a efetiva assinatura e publicação do RCID. Afinal, grandes gastos de recursos públicos já ocorreram na contratação e manutenção dos trabalhos do Grupo Técnico (que fez os levantamentos de campo que resultaram no relatório). Publicar o resultado deste trabalho não implica gasto público. Em outras palavras, não publicar o RCID representa elevados gastos públicos”, diz o recurso assinado pelos procuradores Janaina Souza e Camões Boaventura.

    A paralisação da demarcação agrava os conflitos já existentes na terra indígena, como invasões de madeireiros e garimpeiros. Outra preocupação é que a Sawré Muybu está no caminho dos projetos de aproveitamento hidrelétrico na região. A terra onde vivem os índios será alagada se o governo federal construir a usina de São Luiz do Tapajós. Sem a delimitação do território, os Munduruku podem ter seus direitos ignorados no processo de licenciamento e até serem vítimas de remoção forçada, o que é vedado pela Constituição brasileira.

    O MPF menciona na contestação, que a ex-presidente da Funai, Maria Augusta Assirati, em reunião com os índios Munduruku em Brasília no dia 17 de setembro de 2014, admitiu que a publicação do RCID já deveria ter sido feita mas não o foi por interferência de setores do governo interessados na usina hidrelétrica. A reunião foi gravada e a transcrição, enviada ao Tribunal, registra: “Eu acho que essa terra indígena já deveria estar demarcada, já deveria ter sido o relatório publicado, mas que isso não depende da vontade de uma só pessoa, de um só órgão. Isso é um conjunto de fatores que define essas questões, que não sou só eu que posso ditar quais são os interesses prioritários do governo”. Logo depois, Maria Augusta deixou o cargo.

     

    Íntegra da contestação

    Processo no TRF1 0064080-17.2014.4.01.0000/PA

    Processo na Vara Federal de Itaituba 1258-05.2014.4.01.3908

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  • 26/01/2015

    Indígenas discutem impactos de grandes obras na Amazônia no Fórum Social Mundial da Biodiversidade 2015

    “As ameaças aos direitos dos povos indígenas e os megaempreendimentos econômicos na Amazônia” é o tema do debate que acontecerá nesta quinta-feira (29), no Parque do Mindu, das nove às 12 horas, promovido pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e outras organizações indígenas da Amazônia. O evento faz parte das atividades do Fórum Social Mundial da Biodiversidade 2015, que acontece de 26 a 30 de janeiro em Manaus (AM).

    Os indígenas, juntamente com representantes de entidade de apoio à causa indígena, querem analisar os efeitos da construção de hidrelétricas, rodovias, da exploração mineral e introdução de monoculturas para combater seus impactos sociais e ambientais, bem como as ameaças aos direitos constitucionais já conquistados decorrentes das ações governamentais e de empresas privadas para viabilização desses mega empreendimentos. A partir da reflexão desses impactos e ameaças, as organizações indígenas pretendem fortalecer a luta pela vida na Amazônia.

    O debate sobre a as ameaças aos direitos acontece num momento em que o movimento indígena em todo o Brasil se mobiliza para barrar Projetos de Leis (PLs), Propostas de Emendas à Constituição (PECs) e outras iniciativas em tramitação na Câmara e no Senado que podem derrubar as garantias proporcionadas pelo artigo 231 da Constituição Federal. O movimento indígena, no final de 2014, conseguiu impedir a votação da PEC 215, que transfere do Executivo para o Legislativo a prerrogativa de demarcar terras indígenas.

    Nos últimos anos, as organizações indígenas têm se mobilizado e procurado fortalecer alianças com outros segmentos da sociedade para impedir a construção de grandes obras na Amazônia que o Governo Federal quer executar a qualquer custo, sem consulta às comunidades afetadas e sem respeito aos direitos, como a hidrelétrica de Belo Monte e o Complexo Hidrelétrico do Tapajós.

    No evento desta quinta-feira, no Parque do Mindu, estarão presentes abordando o tema lideranças como: Sonia Guajajara, Coordenadora da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil); Maximiliano Correa Menezes, Coordenador da Coiab; Roseninho Munduruku, da região do Tapajós, onde o Governo Federal pretende construir um complexo hidrelétrico; Icles Nascimento da Costa, Coordenador da Copime (Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno); Francinara Soares Martins, da Coiab e Raquel Macedo, da Umiab (União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira).

     

     

     

     

     

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  • 26/01/2015

    O governo Dilma no cabresto do agronegócio?

    Não é só porque o mapa do agronegócio todo azulou ou tucanou nas últimas eleições, mas, principalmente, porque a saúde da terra e do povo brasileiro está em jogo. Caros companheiros e companheiras, assessores (as) do Governo Dilma, o diálogo com a sociedade brasileira exige que vocês ajudem a Dilma a questionar o apoio que vem sendo dado ao agronegócio.

    O grupo ruralista que tem sido privilegiado em todos os governos anteriores, mas em especial na primeira gestão de Dilma, são os principais poluidores da terra e da nossa comida brasileira. E eles estão aí de volta, no Congresso, querendo de novo comandar e desmandar.

    O grupo está alinhado a um modelo essencialmente desenvolvimentista predador e como alerta a Comissão Pastoral da Terra, é o principal responsável “pela devastação ambiental dos nossos biomas, com o desmatamento e a utilização intensiva de agrotóxicos que suprimem a proteção vegetal e contaminam solos, águas, ar e trabalhadores e trabalhadoras. Provocam ainda o secamento e morte de nascentes e rios e o rebaixamento de lençóis freáticos e aquíferos. A destruição dos cerrados compromete a segurança hídrica atual e futura, o que já se evidencia na crise de abastecimento de várias regiões do país, que não se pode atribuir simplesmente à falta de chuvas. Ao se expandir para a Amazônia, este modelo chega à última fronteira, onde agrava a crise ecológica e nos põe a temer ainda mais pelo futuro…”

    Não pode um governo que pretende ser “popular” se submeter às exigências econômicas e políticas do agronegócio. Nas condições atuais já seria escandaloso o Governo fornecer igual incentivo ao Agronegócio do que à Agricultura Familiar.

    Não tem diálogo possível com quem prejudica o povo brasileiro, colocando em risco a sua saúde e até a sua sobrevivência como alertam à exaustão centenas de cientistas do mundo inteiro.

    Sob o título: “Amazônia perde mais de 2000 árvores por minuto nos últimos 40 anos”, – alertam – “cerca de duzentos dos principais estudos e artigos científicos sobre o papel da floresta amazônica no sistema climático, na regulação das chuvas e na exportação de serviços ambientais para áreas produtivas, vizinhas e distantes da Amazônia. A avaliação conclui que reduzir a zero o desmatamento já não basta para garantir as funções climáticas do bioma.”

    E o cientista do INPE, Antônio Donato Nobre, afirma: “Estamos indo direto para o matadouro. Parar de desmatar é fundamental, mas não resolve mais. Temos que conter os danos ao máximo. Parar de desmatar é para ontem. A única reação adequada neste momento é fazer um esforço de guerra. A evidência científica diz que a única chance de recuperarmos o estrago que fizemos é zerar o desmatamento. Mas isso será insuficiente, temos que replantar florestas, refazer ecossistemas. É a nossa grande oportunidade.”

    Mesmo que o agronegócio contribua com 100 bilhões de reais no PIB, não é razão para que se continue apoiando essa forma de agredir a terra e a saúde do povo brasileiro. É preciso que o Governo amplie o seu diálogo com o movimento popular e com os cientistas do Brasil e do mundo. Nomear Kátia Abreu para Ministra da Agricultura e Aldo Rebelo Ministro de Ciência e Tecnologia, símbolos da depredação da terra e da natureza, é agredir a razão e o bom senso. Não pode, é inaceitável!

     

    Casa da Cultura do Urubuí, Amazonas, 21 de janeiro de 2015,

    Egydio Schwade

     

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  • 26/01/2015

    Após 13 anos, famílias correm risco de despejo do Acampamento Nova Vida, em MG

    As 32 famílias do Acampamento Nova Vida, em Novo Cruzeiro, localizado no Vale do Jequitinhonha (MG), correm o risco de despejo caso o pedido de reintegração de posse, marcado para essa segunda-feira (26), se cumpra.

    A área de 340 hectares, ocupada há 13 anos, abriga 32 famílias (cerca de 110 pessoas) que produzem alimentos orgânicos, como milho e feijão, para Novo Cruzeiro e outros municípios da região.

    Para o coordenador nacional do MST, Enio Bohnenberger, a ordem para de reintegração emitida pelo comando da Polícia Militar de Belo Horizonte, por meio da 3ª Vara Agrícola, é digna de repúdio, uma vez que área já é ocupada há anos e se transformou numa colônia agrícola da região.

    “As famílias não vão sair de suas casas e da terra onde trabalharam duramente por anos. Os Sem Terra transformaram essa área num espaço produtivo, construíram estradas de acesso, mata-burros para possibilitar a transposição de córregos e rios, além de casas, área de lazer, centro de reuniões, uma rádio comunitária; isso sem falar do cultivo de policultura, sustentada a partir de cultivares de base, como milho, feijão, mandioca, abóboras e etc”, disse Enio.

    Os Sem Terra entraram com uma petição na Vara de Conflitos Agrários da Região para impedir a reintegração. Segundo o coordenador, a prefeitura municipal apóia as famílias acampadas, e entrou com uma segunda petição com o intuito de impedir a reintegração. “Vamos fazer o que for preciso para garantir a permanência de todas as famílias na área”, afirma.

    Em nota de repúdio enviada à imprensa, o professor doutor Rogério Fernandes Macedo, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e do Instituto Brasileiro de Estudos Contemporâneos (IBEC), lembra que governador Fernando Pimentel (PT) pode colocar fim ao drama das famílias.

    Para tanto, bastaria que o governo do Estado fizesse valer a ordem da prefeitura de Novo Cruzeiro, que no final de 2014 decretou o Acampamento Nova Vida como sendo área de interesse público, convertida em Colônia Agrícola.

    Ele lembra que a prefeitura já dispôs em sua previsão orçamentária os recursos necessários à remuneração do proprietário, bem como a posição do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que já declarou reiteradas vezes interesse em comprar a área e destiná-la à Reforma Agrária.

    Até o momento, policiais e helicópteros rondam o local para fazer um mapeamento da área. Não houve conflito direto. O prazo de reintegração se estendeu até quarta-feira (28).

     

    Leia a nota na íntegra

     

    Nota de repúdio à ordem de reintegração de posse, contra o Acampamento Nova Vida, em Novo Cruzeiro, Minas Gerais, Brasil

     

    Há de se repudiar aqui a ordem de reintegração de posse, a ser executada no dia 26 de janeiro de 2014, segunda-feira, contra 32 famílias do MST, que vivem há 13 anos no Acampamento Nova Vida. Esta área está localizada na porção nordeste do Estado de Minas Gerais, na parcela média da Mesorregião do Vale do Jequitinhonha, mais precisamente na cidade de Novo Cruzeiro. Ao longo desses 13 anos, tais famílias lavraram a terra com muito esforço, solidariedade e organização: retirando dela alimentos variados, orgânicos, promotores da saúde e da vida, não só para a cidade de Novo Cruzeiro, mas para dezenas de outros municípios. Ali, pode-se ver exemplo pujante de policultura, sustentada a partir de cultivares de base, tais como milho, feijão, mandioca, abóboras, somados às múltiplas culturas que a imaginação pode sugerir. Além dos alimentos, desde 2001, os trabalhadores estruturaram toda a área, construindo estradas de acesso, mata-burros para possibilitar a transposição de córregos e rios; construíram casas; área de lazer, como campo de futebol; centro de reuniões, onde são decididos coletivamente os destinos de todos; construíram uma rádio comunitária; elaboraram plano de preservação da mata de tipo atlântica, tanto nos topos das chapadas, quanto à 60 metros das margens do Rio Gravatá, embora a legislação exija apenas 30 metros; estabeleceram próximas às residências áreas de cultivo coletivo, que complementa o produto das lavouras principais. A tudo isso, soma-se a profícua atividade apicultora, que rende aproximadamente 70 quilos de mel silvestre, a cada retirada.

    É digno de repúdio ignorar que a alta produtividade do Acampamento Nova Vida dá provas definitivas de que a miséria e a fome no Vale do Jequitinhonha e Mucuri são pré-requisitos da riqueza incalculável, acumulada pelos oligopólios dos ramos madeireiros, carvoeiros, químicos, da indústria papeleira, da construção civil, da siderurgia, da mineração, entre outros. Esses promovem com suas atividades destrutivas a destruição da vida, ampliando a miséria e a fome. São proprietários insensíveis à tragédia alheia: não plantam e não deixam plantar, como costumava dizer Darcy Ribeiro.

    Como é possível permitir que esses trabalhadores sejam despejados? Se isso ocorrer, todos testemunharão no dia 26 de janeiro de 2015 a tragédia revelar as suas várias faces: 1) a conversão das 32 famílias produtivas (aproximadamente 107 pessoas ao total) em sem tetos, desprovidos de renda, desabrigados; 2) a destruição da vida de aproximadamente 30 crianças e jovens; 3) a possibilidade real de derramamento de sangue, em face da atuação da polícia no cumprimento da ordem de reintegração de posse e da resistência dos trabalhadores, que criaram vínculos fortíssimos ao longo desses 13 anos; consequentemente, 4) a transformação da cidade de Novo Cruzeiro em palco de um conflito social, que pode atingir proporções inéditas; 5) a destruição da lavoura, tão produtiva, que ampliará 6) a crise alimentar que se abate sobre o Vale do Jequitinhonha a séculos; 7) a degradação dos recursos naturais – notadamente florestais e hídricos –, tão bem preservados e geridos pelos trabalhadores rurais; enfim, a lista é infinita, proporcional à dimensão da tragédia que se avista no horizonte.

    Esta nota de repúdio registra uma possível rota de saída: basta imediatamente o Governador do Fernando Pimentel, do Partido dos Trabalhadores, colocar fim nesse drama, dando ciência ao Poder Judiciário do Estado de Minas Gerais que a Prefeitura de Novo Cruzeiro decretou, no final de 2014, o Acampamento Nova Vida área de interesse público, convertida em Colônia Agrícola; que a Prefeitura já dispôs em sua previsão orçamentária os recursos necessários à remuneração do proprietário. Que o Incra já declarou reiteradas vezes interesse em comprar a área e destiná-la à Reforma Agrária. Que pare imediatamente o processo de reintegração de posse.

     

    Ass: Prof. Doutor Rogério Fernandes Macedo.

    Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri – UFVJM.

    Instituto Brasileiro de Estudos Contemporâneos – IBEC.

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  • 26/01/2015

    No Acre, possível epidemia de coqueluche matou 11 crianças indígenas em 2014

    De junho a setembro de 2014 11 crianças da Terra Indígena (TI) Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu, no Acre, morreram com suspeita de coqueluche. Foram nove crianças do povo Kaxinawá, autodenominado Huni Kui, e duas do povo Ashaninka. Uma das vítimas tinha sete anos de idade, mas a maioria entre um e três meses. Sintomas como cansaço, tosse forte e seca, face arroxeada e olhos vermelhos foram relatados à equipe do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Cruzeiro do Sul, que visitou as 10 aldeias da TI em dezembro do ano passado.

    Localizadas ao longo do rio Breu, as comunidades precisam viajar de canoa a motor até o município de Marechal Thaumaturgo para receberem atendimento médico. Da aldeia mais próxima, São José, à cidade, o percurso dura de oito a 12 horas quando o rio está cheio. Jacobina, a mais distante, na fronteira com o Peru, fica a dois dias de viagem. “No verão, quando o rio seca bastante, podem levar até quatro dias para chegar a Thaumaturgo, percorrendo trechos a pé e tendo que carregar a canoa”, explica a missionária Ivanilda Torres.

    Não há sistema de comunicação ou água potável nas aldeias (com exceção de Jacobina) e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) não oferece transporte e combustível para as emergências. Além disso, as visitas de equipes de saúde às aldeias são esporádicas: em 2014, foram apenas duas. “A doença começou a manifestar-se em abril, mas só em julho, depois da morte de seis crianças é que a Sesai foi até a área. Ainda assim, das dez aldeias visitou apenas três e mandou os pais levarem as crianças de barco para o hospital. Infelizmente duas não suportaram a longa viagem”, conta Ivanilda.

    O Pólo Base da Sesai em Marechal Thaumaturgo funciona de forma precária. Cristiane de Souza, coordenadora da unidade, explica que são apenas duas equipes para cobrir toda a região, que abrange cinco Terras Indígenas e 1,7 mil pessoas.  Cada equipe é formada por um médico, uma enfermeira e dois técnicos de enfermagem. Um dentista e um auxiliar acompanham cada viagem. “É muito difícil alcançarmos todas as regiões. O cartão que temos para comprar combustível muitas vezes não dá nem para enviar a equipe e fazer resgates… as aldeias ficam prejudicadas porque não conseguimos distribuir, e precisam muito, porque, por falta de condições básicas como água potável, as crianças têm diarréia e morrem sem atendimento ou transporte para a cidade”.

    Rosildo Jaminawa-Arara, Agente Indígena de Saúde, diz que na prática a política de atenção à saúde indígena não existe, mesmo depois de 15 anos de criação do sistema. “Nós somos esquecidos, durante este tempo não houve melhoria nenhuma para nossa região; a Sesai assumiu com a promessa de que o atendimento ia melhorar, mas nunca esteve tão ruim. Se o Agente de Saúde ou a família não tirarem dinheiro do seu bolso para socorrer uma emergência, o paciente morre. Cadê a assistência diferenciada?”.

    Em Marechal Thaumaturgo não há Casa de Saúde Indígena (Casai) para oferecer apoio aos pacientes. “Os indígenas, ao chegarem à cidade, ou pagam por hospedagem ou mendigam um cantinho nos barcos ancorados na beira do rio, sendo muitas vezes expulsos e humilhados pelos proprietários dos barcos”, diz Ivanilda.

    Na época do surto da doença alguns indígenas não conseguiram nem mesmo atendimento no hospital. Assis Huni Kui, da aldeia São José, de 63 habitantes, desceu o rio no mês de julho em busca de tratamento junto com 12 crianças, entre filhos e sobrinhos, algumas passando muito mal. Em Marechal Thaumaturgo, “A triagem do hospital não deixou passar no médico, disseram que era uma tosse comum. Voltei para a comunidade e dias depois meu sobrinho de dois meses morreu. Ele tossia muito, o rosto estava roxo e os olhos vermelhos. As outras crianças que tinham a tosse também ficavam assim. Para nós essa doença é a tosse braba”, diz Assis.

    O diagnóstico da coqueluche ainda não foi confirmado, mas os sintomas se assemelham muito aos da doença.  Siã Huni Kui, professor e liderança, disse que na aldeia Jacobina, composta por 78 pessoas, todas as crianças e também alguns adultos ficaram doentes. “Nas crianças de mais idade e nos adultos não foi tão forte, mas os bebês sofreram muito”. Sua comunidade também procurou tratamento na cidade. “Enfermeiros da Sesai disseram que não era tosse braba, alguns médicos do hospital também, mas uma médica que internou nossas crianças disse que embora os exames não tenham confirmado a coqueluche, era o único tratamento que estava dando resultado”.

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  • 23/01/2015

    Acusado por morte de cacique, foragido se entrega ao MPF após 12 anos

    Túmulo do cacique Marco Veron: Morto na luta pela terra tradicional. Foto: Ascom MPF/MS.

    Homicídio de Marco Veron foi o único caso envolvendo morte de indígenas a ser levado a julgamento em MS.

    Nivaldo Alves de Oliveira, denunciado pelo Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul pela participação no homicídio do indígena guarani-kaiowá Marco Veron, em 2003, apresentou-se hoje pela manhã na Procuradoria da República em Dourados, acompanhado de advogado. Ele estava foragido há 12 anos, desde que teve prisão preventiva decretada. Nivaldo prestou depoimento no MPF e, como a ordem de prisão estava em aberto, ele foi encaminhado à carceragem da Polícia Federal em Dourados, onde ficará à disposição da Justiça Federal.

    Nivaldo foi denunciado pelo MPF mas, foragido, teve o processo em relação a ele desmembrado e suspenso. Agora, o processo judicial poderá voltar a tramitar.

    Caso Veron

    Acampados na Fazenda Brasília do Sul, em Juti, região sul do estado, na área reivindicada por eles como Tekohá Takuara, os kaiowá sofreram ataques nos dias 12 e 13 de janeiro de 2003, de um grupo de trinta a quarenta homens armados que foram contratados para agredí-los e expulsá-los daquelas terras.

    No dia 12, um veículo dos indígenas com 2 mulheres, um rapaz de 14 anos e 3 crianças de 6, 7 e 11 anos foi perseguido por 8 km, sob tiros.

    Na madrugada do dia 13, os agressores atacaram o acampamento a tiros. Sete índios foram sequestrados, amarrados na carroceria de uma camionete e levados para local distante da fazenda, onde passaram por sessão de tortura. Um dos filhos de Veron, Ládio, quase foi queimado vivo. A filha dele, Geisabel, grávida de sete meses, foi arrastada pelos cabelos e espancada. Marcos Veron, à época com 73 anos, foi agredido com socos, pontapés e coronhadas de espingarda na cabeça. Ele morreu por traumatismo craniano.

    O julgamento dos réus Estevão Romero, Carlos Roberto dos Santos, Jorge Cristaldo Insabralde e Nivaldo Alves de Oliveira foi considerado histórico, por ser o primeiro envolvendo acusados pela morte de indígenas em MS. Os três réus foram condenados a 12 anos e 3 meses de prisão em regime fechado por sequestro, tortura e lesão corporal a seis indígenas, além de formação de quadrilha armada e fraude processual. Em outubro de 2008, o MPF ofereceu denúncia contra outras 24 pessoas por envolvimento no crime.

    Outro ineditismo do caso foi o desaforamento, que é quando um julgamento é realizado fora do estado em que ocorreu o crime. O júri foi transferido de Dourados (MS) para São Paulo (SP) a pedido do MPF, por causa do preconceito contra os indígenas em MS, o que poderia influenciar no resultado do julgamento.

    Assessoria de Comunicação Social

    Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul

    (67) 3312-7265 / 9297-1903

    (67) 3312-7283 / 9142-3976

    www.prms.mpf.mp.br

    [email protected]

    www.twitter.com/mpf_ms

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  • 21/01/2015

    Na Venezuela, povos pedem para Maduro acabar com “neo-escravidão” indígena no rio Caura

    A Organização Indígena da Bacia Caura Kuyujani denunciou que o aumento da mineração ilegal no rio Caura, estado de Bolívar, mantém os indígenas Yek’wana e Sanema da região em condições de maus-tratos e escravidão por parte dos garimpeiros e das forças armadas do exército que atuam na área.

    Num comunicado, a referida organização, que reúne 53 povos indígenas da bacia, afirmou que mais de três mil garimpeiros trabalham com máquinas de terra e água no rio Yuruaní e sua foz, no Caura, o terceiro rio mais importante da Venezuela. O aumento desta atividade extrativa tem trazido à região bordéis e bares onde menores de idade são explorados, num ambiente onde circulam livremente as drogas sem que haja nenhum tipo de intervenção por parte das forças armadas, que estão nas cinco bases ao longo do rio.

    Kuyujani acusou os militares de criar um “clima de terror, medo, hostilidade” através de “provocações e humilhações” aos indígenas quando estes andam pelos rios e quando chegam aos povoados. “Na maioria dos casos, os militares em sua maneira de proceder mostram tratos e condutas discriminatórias e humilhantes para com os indígenas”, afirmou Magdaleno Cortés, diretor de Kuyujani. Cortés fez um chamado ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, a se manifestar sobre a questão e a formar uma comissão para combater o “ecocídio” na bacia e proteger as comunidades indígenas. Também pediu às organizações defensoras dos direitos humanos e às instituições públicas, como a Defensoria do Povo, que instem os militares para que parem com as hostilidades contra os povos nativos.

    Responsabilizam o governo

    A situação de “descontrole” na bacia é o resultado da ineficácia do governo, denunciou Alejandro Lanz, diretor do Centro de Investigações Ecológicas da Venezuela (CIEV). Lanz disse que o governo nacional “sabe do acontecido e que não tem feito nada”. As consequências desta falta de intervenção são a prostituição infantil e a exploração laboral dos indígenas.

    “Há uma escravidão com os menores de idade, que são obrigados a carregar nos ombros 70, 80 litros de combustível, de cerveja e de rum por 20 quilômetros, recebendo apenas algumas moedas (…), os maltratam e batem neles” indicou. Considerou também que estas condições laborais configuram uma “neo-escravidão em pleno desenvolvimento”, pois “fala-se de amor, de paz e de direitos humanos, mas não se cumprem”.

     

    Tradução ao português: Pe. Henry Dunn

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  • 21/01/2015

    MPF busca anulação de licenças irregulares para desmatamento no entorno da TI Apinajé

    A Associação União das Aldeias Apinajé (PEMPXÀ) divulgou carta nessa terça-feira (20) sobre as medidas adotadas pelo Ministério Público Federal (MPF) no Tocantins para providenciar o embargo do empreendimento que promoveu o desmatamento de extensa área no entorno da Terra Indígena Apinajé.

    Uma audiência para que o Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins) esclareça a emissão das licenças foi programada para o início de fevereiro, com participação da Fundação Nacional do Índio (Funai), do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e de indígenas do povo Apinajé e Krahô.

    Leia o documento da Associação PEMPXÀ na íntegra:

     

    Às 8h14min da manhã do dia 15/01/15, quinta-feira, ocupamos e impedimos o tráfego na Rodovia TO 210, no município de Tocantinópolis, no Norte do Tocantins. O objetivo do bloqueio desta rodovia foi chamar atenção da Fundação Nacional do Índio (Funai), e do Ministério Público Federal (MPF) para os vícios e o não cumprimento dos Termos do Certificado do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e da Autorização De Exploração Florestal (AEF), emitidas pelo Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), em favor de Eloísio Flávio Andrade, proprietário de dois imóveis, ambos conhecidos como fazenda Góes I, localizadas nas proximidades da aldeia São José.

    Nas citadas licenças emitidas pelo Naturatins constam, como atividade principal a pecuária, entretanto verificamos grandes áreas de cerrado sendo totalmente desmatadas e nascentes de águas ameaçadas. Para aumentar nosso receio, insegurança e preocupação, pessoas que trabalhavam no local afirmaram que essa área desmatada seria mesmo destinada ao plantio de eucaliptos.

    Ressaltamos que essa área desmatada é parte de nosso território tradicional que ficou de fora da área demarcada por Decreto Presidencial em 14 de fevereiro de 1985. Diante da gravidade da situação, desde inicio das atividades em setembro de 2014, tentamos articular Funai, o Naturatins, o Ibama e o MPF-AGA para o dialogo, e não obtivemos êxito. De nossa parte também procuramos resolver a questão pela via do documento e da denuncia, o que não foi possível.

    No dia 15/01/15, logo após o bloqueio da rodovia TO 126 divulgamos a Carta Aberta Do Povo Apinajé à Sociedade http://uniaodasaldeiasapinaje.blogspot.com.br/2015/01/mobilizacao.html. Ainda na manhã do dia 15/01/15 Dra. Ludmila Vieira de Souza Mota, procuradora do MPF-AGA, nos informou por telefone que estava saindo de Araguaína -TO, rumo a área Apinajé para uma reunião com as lideranças, e também fazer uma visita ao local do desmatamento.

    Às 13h20min, na aldeia Prata, a Dra. Ludmila teve uma rápida conversa com a comissão de lideranças Apinajé, e logo em seguida acompanhada por servidores da Funai e por membros desta associação dirigiu se ao local do desmatamento. A procuradora também visitou a aldeia São José, uma das aldeias mais próximas do desmatamento. Nesta tarde ocorreu também uma rápida conversa entre o MPF-AGA, os Fiscais do Naturatins, servidores da Funai e membros da Associação PEMPXÀ.

    Na ocasião a Dra. Ludmila questionou a atitude do Naturatins ao emitir licenças para desmatar sem fazer vistorias desses locais. Em razão da irregularidade verificada a procuradora do MPF-AGA recomendou a imediata autuação e embargo do empreendimento, e indagou da representante do Órgão Ambiental do Tocantins, o que fazer agora com essa grande extensão de terra desmatada? E quem vai reflorestar? A procuradora afirmou que o MPF-AGA vai realizar uma Audiência Pública para que o Naturatins explique como são emitidas essas Licenças Ambientais no entorno das Terras Indígenas.

    De volta ao local do bloqueio da TO 210, a procuradora relatou para os Apinajé o que viu, e as providencias adotadas pelo MPF-AGA e o Naturatins para embargar o desmatamento. A procuradora também pediu aos manifestantes que desbloqueassem a rodovia. Afirmamos que ficaríamos aguardando o documento oficializando o embargo do empreendimento, e que ao recebermos a confirmação, desocuparíamos a rodovia.

    Na sexta-feira, dia 16/01, às 14h20min, recebemos o documento do Naturatins, oficializando o embargo do desmatamento, nesta mesma tarde a rodovia foi desbloqueada. A partir de agora estaremos cobrando também da Funai/BSB, urgência na regularização fundiária desta parte da área em questão.

    O Ministério Público Federal/MPF-AGA, marcou para o dia 5/02/15, uma Audiência Pública com participação de lideranças Apinajé e Krahô, Funai e Naturatins, para que este órgão possa explicar como funciona de fato o Processo de Licenciamento Ambiental. A mencionada Audiência Pública será realizada no auditório do Ministério Público do Estado do Tocantins (MPE-TO) em Tocantinópolis-TO.

     

    Aldeia São José, 20 de janeiro de 2015

    Associação União das Aldeias Apinajé-PEMPXÀ

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