• 24/03/2015

    Iasi: missionário radical e profeta

    Ao referir-se ao Cimi, Dom Pedro Casaldáliga dizia que essas quatro letrinhas, incomodaram e desafiaram muita gente do poder e da dominação. Plagiando nosso poeta e profeta, diria que as quatro letrinhas de Iasi também enfrentaram muitos poderosos que se opunham à vida e direito dos povos indígenas, especialmente na década de 70. Foi um incansável guerreiro da causa indígena. Sua obsessão pelos desafios maiores lhe causou muitas ameaças e inimigos. Dentre suas maiores batalhas estão as lutas pelas terras/territórios indígenas. Denunciou com veemência os usurpadores e invasores.  Não tinha medo de enfrentar a ditadura militar e seus prepostos. Quando necessário desafiou os militares a o prenderem, mas não abria mão um centímetro quando se tratava do direito de povos indígenas às suas terras.

    Procurando salvar vidas e culturas

    Iasi está na raiz do indigenismo missionário comprometido e respeitoso que se consolidou na criação do Cimi. Enfrentou situações difíceis, como no contato com os Tapayúna (Beiço de Pau), com os quais fez contato para salvar esse povo do extermínio a que foi submetido ao contato indiscriminado com as frentes extrativistas, de expansão agropecuária e colonização. Eram aproximadamente 1.200 índios e destes, “dizimados por envenenamento, armas de fogo, gripe e remoções forçadas, restaram cerca de 40 indivíduos (Relatório Comissão Nacional da Verdade, pg 221). Iasi falava com muita emoção e revolta de suas tentativas de evitar esse genocídio.

    Denunciou energicamente a ditadura militar pela ação perversa do governo em desviar o traçado da BR 364 passando no meio do território Nambikwara, e disponibilizando suas terras aos latifundiários. Aliás, conforme as constatações da época, o estado do Mato Grosso já estava titulando terras até um terceiro andar. E nessas ações vergonhosas estava envolvida a Funai, que concedia certidões negativas às empresas de colonização e agronegócio.

    Iasi foi batalhador incansável das situações mais graves que envolviam a vida, territórios e saque de recursos naturais das terras indígenas.  Marcou presença principalmente na região amazônica, que na década de 70 foi submetida à extrema violência pelos projetos ligados ao Plano de Integração Nacional (PIN). As principais vítimas foram os povos indígenas (vide- Vítimas do Milagre, de Shelton Davis).

    Por ocasião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Índio, em 1977, Iasi percorreu o país para fundamentar seu depoimento, denunciando o genocídio que grassava em quase todas as regiões do Brasil. Segundo avaliações do período, o depoimento de Iasi nesta CPI foi o mais contundente e documentado, com  denúncias concretas de inúmeras situações de violência em função das invasões dos territórios indígenas, saque dos recursos naturais, emissão de certidões negativas e omissão criminosa de demarcação e proteção das terras indígenas por parte do Estado brasileiro.

    Iasi – missionário radical e testemunho de fé

    Em maio de 1987, ao visitar os missionários no Mato Grosso, encontramos o Irmão Vicente Cañas, assassinado há uns 40 dias. Fomos imediatamente comunicar o fato ao Iasi, em sua humilde casinha no Barranco Vermelho, junto aos Rikbatsa. Comunicamos o fato aos jesuítas em Cuiabá e subimos para o barraco do Vicente. Emocionado, Iasi ajudou a envolver os restos mortais em saco plástico, prevendo a necessidade de investigações que esclarecessem o brutal assassinato de seu colega, o martírio de Vicente.

    Iasi esteve, junto com outros colegas jesuítas como Egydio, Tomas, Balduino e Vicente, na origem de profundas mudanças na Missão Anchieta (MIA).  Igualmente foi de fundamental importância a sua contribuição na caminhada do Cimi, do qual foi secretário executivo, escolhido pelo então Conselho da entidade no dia 22 de julho de 1975. Algum tempo depois pediu ao Egydio, que era assessor, que reassumisse o secretariado, pois ele preferia ficar livre para missões mais difíceis, envolvendo principalmente a luta pela terra.

    No dia mundial da água, Iasi sentou sereno em sua canoa e deixou-a seguir para a eternidade. Foram 95 anos intensos de dedicação à causa indígena e à vida. Que seu testemunho e lembrança continuem a alimentar nosso compromisso com a causa dos povos indígenas.


    Secretariado Nacional do Cimi

    Brasília, 22 de março de 2015

    (EH)

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  • 23/03/2015

    Quem financia os deputados contra áreas protegidas no Brasil

    Não surpreende que, dos quase 50 deputados listados na Comissão Especial que analisará a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215/2000, pelo menos 20 tiveram suas campanhas eleitorais financiadas por grandes empresas do agronegócio, mineração, energia, madeireiras e bancos. A PEC transfere do governo federal para o Congresso o poder de demarcar Terras Indígenas, titular áreas quilombolas e criar Unidades de Conservação (UCs). Na prática, se aprovado, o projeto deverá significar a paralisação definitiva da oficialização dessas áreas protegidas.

    Alguns parlamentares, sozinhos, receberam mais de R$ 1 milhão de empresas ligadas a esses segmentos. Somente a JBS financiou sete deputados que estão nesta Comissão Especial, totalizando mais de R$ 2 milhões em doações. Os dados citados são do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), organizados pelo jornal Estado de S. Paulo.

    Parlamentar e agropecuarista, Dilceu Sperafico (PP-PR) embolsou R$ 900 mil da JBS e mais R$ 792 mil da Galvão Engenharia, empreiteira investigada na Lava Jato. Empresas como Odebrech, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão, também investigadas pela Operação Lava Jato, fizeram polpudas doações aos parlamentares que vêm atacando as áreas protegidas brasileiras. Estamos falando de mais de R$ 10 milhões doados oficialmente e declarados ao TSE.

    O presidente da Comissão Especial da PEC 215, deputado Nilson Leitão (PSDB-MT), teve 60% de sua campanha de 2014 paga com recursos da Galvão Engenharia e 30% por empresas da família Maggi. Ele assumiu a liderança da comissão na última terça-feira (17) e destacou que dará um prazo de 2 meses para votação da matéria (leia mais), “em nome da democracia”. Após a reunião, Leitão confessou que “poderia ter acabado com isso (a discussão da PEC) na mesma hora”, colocando para aprovação o relatório que o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) apresentou na legislatura passada.

    Serraglio, financiado também com recursos da JBS, foi reconduzido à relatoria da PEC 215. Na legislatura anterior, a proposta foi arquivada e o relatório não foi votado por pressão do movimento indígena e socioambientalista. O projeto foi desarquivado por solicitação dos ruralistas em fevereiro deste ano.  

    Ruralistas Lava Jato – Os deputados Luis Carlos Heinze (PP/RS), Jerônimo Goergen (PP-RS) e Dilceu Sperafico (PP-PR) foram citados e serão investigados na Operação Lava Jato. Heinze é um dos principais líderes ruralistas no Congresso, já foi presidente Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), que reúne a bancada ruralista no Congresso Nacional. Ano passado, foi alvo de uma queixa-crime apresentada por organizações indígenas no Superior Tribunal Federal (STF) e de representação na Procuradoria Geral da República (PGR), por ele ter estimulado agricultores a usar segurança armada para expulsar indígenas das terras.

    Já o deputado Goergen, atual coordenador da FPA, recebeu cerca de R$ 1,6 milhão de patrocínio de empresas ligadas ao agronegócio. Mais de 50% (R$ 850 mil) veio da JBS e uma pequena parte (R$ 100 mil) da Andrade Gutierrez, uma das empreiteiras citadas na Operação Lava Jato. Goergen destaca-se pelo discurso agressivo contra os direitos indígenas. Em 2013, foi acusado por quatro colegas de partido – inclusive Heinze – de “tráfico de influência” por divulgar como sendo de sua responsabilidade a liberação de recursos do Ministério das Cidades para municípios gaúchos.

    Conforme o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), um congressista pode ser considerado ruralista quando, “mesmo não sendo proprietário rural ou atuando na área de agronegócio, assume sem constrangimento a defesa dos pleitos da bancada, não apenas em plenários e nas comissões, mas em entrevistas à imprensa e em outras manifestações públicas”. De forma geral, tais interesses são a contraposição à reforma agrária, questões ambientais e direitos dos indígenas”.

    Confira quem faz parte da Comissão Especial da PEC 215: http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-temporarias/especiais/54a-legislatura/pec-215-00-demarcacao-de-terras-indigenas/conheca-a-comissao/membros-da-comissao

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  • 23/03/2015

    A Igreja latino-americana contra os abusos na Amazônia

    A Igreja latino-americana chegou nessa quinta-feira (19) pela primeira vez à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). O fez para denunciar a vulnerabilidade dos direitos dos camponeses e dos povos indígenas por parte das empresas extrativistas que exploram os recursos naturais da Amazônia e da Mesoamerica. Três dos bispos que participaram na audiência de Washington – Brasil, Guatemala e Peru – afirmam que compartem o mesmo problema da região.

    O bispo peruano, Pedro Barreto, presidente do Departamento de Justiça e Solidariedade do Conselho Episcopal Latino-americano (Celam), destaca a recente criação da Rede Eclesial Panamazônica (Repam): “É um espaço de diálogo e de apoio mútuo, porque nos seis milhões de quilômetros quadrados da Amazônia os problemas são muito parecidos. As populações indígenas e ribeirinhas [que não são originárias da Amazônia] estão muito atingidas em seus direito fundamentais. São aproximadamente 35 milhões de irmãos e irmãs”.

    “O Papa Francisco tem falado que a terra é um dom de Deus, e que temos que administrar, com responsabilidade”, sinaliza Barreto, fazendo referência à responsabilidade dos Estados. “Desde o assassinato da Irmã Dorothy no Brasil em 2005, não tem havido mais mortes de religiosos nas mãos de garimpeiros (buscadores de pedras preciosas). Não entanto, do total de ambientalistas assassinados no mundo, a maioria aconteceram no Brasil”, sinaliza Dom Roque Paloschi, bispo de Roraima, a região que padece de um dos mais graves conflitos nas terras indígenas desse país, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

    Segundo a ONG Global Witness, de 147 mortes de ambientalistas em 2012, 36 aconteceram no Brasil. Paloschi também faz menção do caso de Erwin Kräutler: “O bispo do Xingu tem proteção policial desde vários anos, devido ao conflito pela hidroelétrica de Belo Monte. Estes projetos estão sendo construídos sem as devidas consultas, que são quase sempre agressivas com a população: a legislação não é respeitada”.

    “Há na Amazônia uma avalanche de projetos orquestrados pelo grande capital, mas também há inúmeros projetos de exploração ilegal: a mineração é muito forte, mas também avança com força o agronegócio e a monocultura de cana-de-açúcar, soja, palma e eucalipto”, acrescenta Dom Roque, membro da Comissão da Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

    Não entanto, Barreto esclarece que não se opõem à atividade extrativista. “A Igreja tem um anúncio muito claro, em algumas regiões esta atividade não pode dar-se, como nas reservas, nem também onde existe vulnerabilidade direta dos direitos humanos”.

    O bispo de Hueheutenango (Guatemala), monsenhor Álvaro Ramazzini, espera que depois da audiência na Comissão Interamericana “esta problemática seja mais bem visibilizada: que se escutem as vozes das populações indígenas, empobrecidas com as consequências da atividade de exploração que vai contra o meio ambiente. Queremos fazer visível uma problemática que não é bem conhecida e menos ainda compreendida”.

    Ramazzini acrescentou que em seu país a operação das mineradoras canadenses pese a que devem respeitar os Standards do Banco Mundial, não são fiscalizadas, e pior ainda, não tem acontecido a consulta prévia aos povos indígenas de acordo com a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. “A violência se percebe ainda mais na exploração de ouro e prata, não obstante, também na exploração de minério não metálico – seixo, brita e areia – está provocando danos nas beiras e cursos dos rios, e por isto temos que enfrentar alagamentos”, enfatizou Ramazzini, presidente da Comissão Justiça e Solidariedade da Conferência Episcopal da Guatemala.

    Jacqueline Fowks, Lima, 19 de março de 2015

    Foto: A selva amazônica no Peru / WWF LAC

     

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  • 23/03/2015

    Conflitos à vista: a pior decisão é não decidir

    “O litoral da invasão é um barril de pólvora. Não temos mais tempo. Não dá para esperar. Se o governo não demarcar nossas terras, nós mesmos vamos demarcar. O governo diz que quer evitar o conflito, quando na verdade só o faz aumentar! E se não resolver vai correr muito sangue. Só do povo Tupinambá foram 21 parentes assassinados nos últimos anos. Não vamos ter medo. O governo pisa nos povos indígenas. O governo está levando as coisas na brincadeira”.

    Esses desabafos indignados refletem o clima em que se deu o debate das 80 lideranças indígenas de quatro povos do sul, extremo sul e nordeste da Bahia. Nessa sexta-feira (21), no 11º andar, num confortável auditório, na sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Brasília, o clima esquentou. As lideranças cobraram duramente respostas efetivas dos representantes do Ministério da Justiça, da Secretariada Geral da Presidência da República, da Fundação Nacional do Índio (Funai), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Incra.

    As lideranças manifestaram uma profunda desconfiança e descrença nas atitudes, omissões e ações ineficazes do governo com relação à gravíssima situação de conflito e tensões que se espalham na maioria das Terras Indígenas na Bahia.

    “Nos sentimos traídos.  Já são 12 anos de governo do PT, que se diz o partido dos trabalhadores, mas tem compromisso com os ruralistas, o agronegócio. Não cumpriu suas promessas com relação aos nossos direitos. Votamos no Lula que prometeu demarcar todas as terras indígenas e quase nada fez. Apoiamos Dilma, essa nem sequer mencionou em seu projeto de governo a questão indígena. Quero deixar claro que isso muito nos entristece, mas não nos desanima, porque já resistimos 514 anos e vamos continuar fortalecidos por  Nhamisu, Siratã, Tupã”.

    As respostas dadas pelos representantes dos órgãos do governo foram questionadas por serem evasivas e sem concretude, numa atitude velada de quem não quer resolver os problemas.  “Mais 30 dias, nos pedem cada vez mais prazos. A cada vinda a Brasília, e já foram inúmeras, obtemos a mesma resposta. Nos deem mais tempo. Tempo já não temos mais”, afirmou energicamente Aruã Pataxó.  

    A questão vital e crucial é a total paralisação da regularização das terras indígenas e as consequentes violências que decorrem desse fato. O representante Tupinambá questionou energicamente o ministro da Justiça por estar se negando a assinar a Portaria Declaratória da Terra Indígena Tupinambá de Olivença. Informou aos embasbacados representantes de órgãos do governo que eles estão fazendo a sua parte, tendo constituído um fórum de diálogo do qual os caciques estão participando, juntamente com os produtores rurais. Todos pedem e esperam desesperadamente uma decisão e um posicionamento do ministro da Justiça. Ou seja, questionam duramente a postura de omissão do governo federal.       

    O representante do Ministério da Justiça se estribou na solução que é – hilária e ironicamente – apresentada como a tábua de salvação, que são as “mesas de negociação”. E por ironia do destino, o exemplo exaltado é o que estão fazendo no Mato Grosso do Sul.

    A pior decisão é não decidir

    Diante da insistência de que o ministro está cauteloso em assinar Portarias Declaratórias, pois estas poderiam logo ser judicializadas e que isso geraria ainda mais violência, o secretário do Cimi questionou essa atitude política do ministro: “Divergimos dessa leitura do ministro, pois todas as informações que temos, junto com as comunidades indígenas, sustentam exatamente o contrário: a não demarcação é que gera e agrava sempre mais os conflitos. E diante da judicialização estas acontecerão em qualquer hipótese”.

    “O governo pisa nos povos indígenas. Não fala a verdade… Quando esperávamos que a cobra iria desenrolar, ela enrolou mais ainda”, exclamou uma das lideranças. Diante da “agenda” evasiva e insatisfatória proposta pelos representantes do governo, decidiram exigir um compromisso por escrito e assinado por todos, para que tivessem algo em mãos para cobrar na próxima vinda a Brasília.

    Desfecho melancólico para mais um momento de diálogo, com todas as características de ineficácia, pois só uma decisão política clara em favor dos direitos dos povos indígenas poderia garantir resultados positivos, definitivos e duradouros.

    Os povos indígenas da Bahia cumpriram sua missão de mobilização e exigência de seus direitos, de não à PEC 215 e a todas as investidas anti-indígenas em curso hoje no Estado brasileiro. Exigem urgência, eficácia e coerência com relação aos povos originários desta terra.

     

    Egon Heck

    Cimi – Secretariado Nacional

    Brasília, 21 de março de 2015

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  • 23/03/2015

    TRF-3 suspende reintegração de posse da comunidade Guarani de Pacurity, em Dourados, MS

    Uma boa notícia, para variar, e que além de tudo nos reconcilia um pouco com o sistema de Justiça: o Tribunal Regional Federal da 3ª Região suspendeu o cumprimento do mandado de reintegração de posse do acampamento de Pacurity, na região de Dourados, Mato Grosso do Sul. A comunidade indígena vive em parte da área ocupada pela fazenda São José, que a Funai já reconheceu pertencer a território sob posse imemorial dos Guarani Kaiowá.

    No processo, após comentar as exigências da Constituição, o relator-desembargador federal Antonio Cedenho, considera que, embora a identificação e a delimitação da Tekoha Pacurity ainda estejam em andamento, “a relação da comunidade indígena de Pacurity com o espaço litigioso da Fazenda São José justifica solução diversa”. E concorda com o Juiz responsável pela decisão em primeira instância, que foi favorável ao grupo indígena.

    Em sua Decisão, o desembargador Antônio Cedenho busca dados do processo, citando informações no sentido de os “membros da tribo” [sic] ocuparem o local há mais de oito anos, provavelmente buscando água na única fonte existente “nas áreas de preservação permanente e de reserva legal da Fazenda São José”. Menciona, entre outros, o fato de relatório da Funai de agosto de 2013 indicar a “existência de uma estrutura significativa nos trechos ocupados, o que revela uma fixação relativamente distante”, e conclui:

    “O perigo de lesão irreparável ou de difícil reparação decorre do acirramento do conflito fundiário na região e da precariedade das condições dos índios Guarani Kaiowá, que ficarão sem acesso a recursos hídricos. (…) Ante o exposto, nos termos do artigo 527, III, do CPC, defiro o pedido de antecipação da tutela recursal, para suspender o cumprimento do mandado de reintegração de posse”.

    O texto da Decisão, datado de 13 de março de 2015, pode ser visto abaixo:

    Foto – Pacurity. Vazio no meio da monocultura de milho: cemitério indígena foi destruído cinco dias após diligência do MPF. Foto: MPF MS

    00050 AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 0000086-24.2015.4.03.0000/MS 2015.03.00.000086-4/MS RELATOR : Desembargador Federal ANTONIO CEDENHO AGRAVANTE : COMUNIDADE INDIGENA DE PACURITY ADVOGADO : MS017315 ANDERSON DE SOUZA SANTOS e outro AGRAVADO(A) : ATILIO TORRACA FILHO espolio ADVOGADO : MS003616 AHAMED ARFUX e outro REPRESENTANTE : JORGE HAMILTON MARQUES TORRACA PARTE RÉ : Uniao Federal ADVOGADO : SP000019 TÉRCIO ISSAMI TOKANO PARTE RÉ : Fundacao Nacional do Indio FUNAI : BONIFACIO REGINALDO MARTINS ORIGEM : JUIZO FEDERAL DA 2 VARA DE DOURADOS > 2ªSSJ > MS No. ORIG. : 00000029320144036002 2 Vr DOURADOS/MS

    DECISÃO

    Trata-se de agravo de instrumento interposto pela Comunidade Indígena de Pacurity em face de decisão que deferiu pedido de liminar, para reintegrar o espólio de Atílio Torraca Filho na posse da Fazenda São José, situada no Município de Dourados/MS e matriculada sob o n° 67.108 no CRI local.

    Sustenta que o imóvel rural integra os limites da terra indígena “Tekoha Pacurity”, já identificada por Portaria do Ministério da Justiça. Argumenta que a conclusão do procedimento demarcatório não é necessária, pois existem indícios de ocupação tradicional. Afirma que a reprodução física e cultural dos povos indígenas demanda um espaço geográfico e a FUNAI já reconheceu que a fazenda pertence a uma área sob posse imemorial do grupo Guarani Kaiowá. Requer a concessão de efeito suspensivo.

    Decido.

    A Constituição Federal prevê que a demarcação de territórios indígenas será realizada mediante procedimento administrativo, sob a condução do Poder Executivo Federal (artigo 231). Enquanto não houver a publicação de decreto homologatório (artigo 5° do Decreto n° 1.775/1996), toda e qualquer tentativa de apropriação da gleba por grupo indígena caracteriza turbação, esbulho, aos quais o ocupante atual poderá reagir através dos interditos possessórios.

    A identificação e a delimitação da terra “Tekoha Pacurity” estão ainda em andamento; sequer existe portaria do Ministério da Justiça que declare a ocupação tradicional e autorize a atividade demarcatória (artigo 2°, §10°, do Decreto n° 1.775/1996).

    As circunstâncias apontam para o cabimento do mandado liminar de reintegração de posse. Entretanto, como o próprio Juiz de Origem havia ponderado na primeira decisão, a relação da comunidade indígena de Pacurity com o espaço litigioso da Fazenda São José justifica solução diversa.

    Os autos trazem a informação de que uma parte dos membros da tribo ocupava as proximidades do prédio rural há mais de oito anos. Devido às condições precárias do acampamento, em especial a ausência de acesso a recursos hídricos, é grande a possibilidade de que os índios já se abasteciam junto à fonte de água existente nas áreas de preservação permanente e de reserva legal da Fazenda São José.

    A perícia policial elaborada logo após o esbulho sugerido (13/07/2013) e o relatório da FUNAI datado de agosto de 2013 indicam a existência de uma estrutura significativa nos trechos ocupados, o que revela uma fixação relativamente distante. Se a incursão na propriedade para suprimento fosse efetivamente recente, o autor não teria aguardado mais de quatro meses para buscar a proteção da posse.

    Esses detalhes obscurecem, de certa forma, a data efetiva da invasão, impossibilitando o convencimento de que a ação de reintegração foi ajuizada no prazo de ano e dia. A incerteza do dado cronológico torna incabível o procedimento dos interditos possessórios (artigo 924 do Código de Processo Civil), notadamente a concessão de liminar após a audiência de justificação prévia. A princípio, deve ter sido seguido o rito ordinário, no qual as tutelas de urgência demandam um suporte probatório mais rigoroso (artigo 273).

    O Superior Tribunal de Justiça se posiciona nesse sentido: PROCESSUAL CIVIL E CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. DECISÃO. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. CABIMENTO. AÇÃO POSSESSÓRIA. POSSE VELHA. REQUISITOS. ART 273, CPC. POSSIBILIDADE.

    O art. 527 do CPC permite a negativa de seguimento do agravo sem a audiência da parte contrária (inciso I), porque tal decisão não altera a situação jurídica do agravado. O provimento do recurso, todavia, seja ele por decisão singular ou colegiada, não prescinde da prévia intimação da parte adversária (inciso V). Precedente da Corte Especial – RESP 1.148.296/SP, submetido ao rito dos recursos repetitivos.

    Esta Corte, em sintonia com o disposto na Súmula 735 do STF (Não cabe recurso extraordinário contra acórdão que defere medida liminar), entende que, via de regra, não é cabível recurso especial para reexaminar decisão que defere ou indefere liminar ou antecipação de tutela, em razão da natureza precária da decisão, sujeita à modificação a qualquer tempo, devendo ser confirmada ou revogada pela sentença de mérito.

    Hipótese em que se trata de violação direta ao dispositivo legal que disciplina o deferimento da medida (CPC, art. 273), razão pela qual é cabível o recurso especial.

    É possível a antecipação de tutela em ação de reintegração de posse em que o esbulho data de mais de ano e dia (posse velha), submetida ao rito comum, desde que presentes os requisitos requisitos que autorizam a sua concessão, previstos no art. 273 do CPC, a serem aferidos pelas instâncias de origem.

    Agravo regimental a que se nega provimento. (STJ, AgRg no Resp 1139629, Relatora Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, DJ 06/09/2012).

    A fundamentação do agravo, portanto, é relevante. O perigo de lesão irreparável ou de difícil reparação decorre do acirramento do conflito fundiário na região e da precariedade das condições dos índios Guarani Kaiowá, que ficarão sem acesso a recursos hídricos.

    Ante o exposto, nos termos do artigo 527, III, do CPC, defiro o pedido de antecipação da tutela recursal, para suspender o cumprimento do mandado de reintegração de posse.

    Comunique-se com urgência. Dê-se ciência da decisão à agravante. Intime-se o espólio de Atílio Torraca Filho para responder ao agravo. Posteriormente, remetam-se os autos ao Ministério Público Federal.

    São Paulo, 13 de março de 2015.

    Antonio Cedenho – Desembargador Federal.

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  • 23/03/2015

    Padre Iasi agora descansa no Tekoha celeste

    Nesse domingo, 22 de março de 2015, por volta das 19h, nosso amigo, Padre Antônio Iasi Jr., cofundador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), concluiu, aos 95 anos, seu caminhar entre nós. Despediu-se serenamente da vida e adentrou na Aldeia Definitiva, ao encontro dAquele que tanto anunciou e testemunhou nos sertões e cidades por onde andou.

    Será o caso de convocar as mulheres Bororo para prepararem seus escarificadores e marcarem seus corpos em sinal de pesar e luto? Será o caso de pedir aos anciãos Rikbaktsa que narrem a sua vida para que Numutsa julgue se é ou não digno de entrar no ‘lugar dos bons’? Será o caso de celebrar a ressurreição daquele que deu testemunho de Jesus Cristo diante dos poderosos e em perigosas circunstâncias? De tudo isso um pouco, por certo! Sentiremos saudades, temos a certeza de que passaria pelo crivo de qualquer Justiça e nossa fé o acredita na comunhão definitiva com todos os mártires e santos da caminhada.

    Como o trigo moído e a uva pisada parecem desaparecer, mas subsistem nas novas formas, ainda melhores, de pão e vinho, assim ocorra também com o Iasi: que seja uma ausência presente a animar, revigorar e alegrar aos que ficamos!

    Lá, no grande Tekoha celeste, se unirá a Tomás, Brand, Canãs, Burnier, Rodolfo, Cleusa, Franco, Balduíno, Veva, Las Casas, Montesinos e todos os santos e santas da causa indígena.

    Nestes tempos, em que os povos indígenas seguem no duro calvário da luta por seus direitos, esperamos a Páscoa aqui na realização plena da vida para estes povos, que passa pela efetivação das demarcações de suas terras.

    Com os povos indígenas agradecemos ao Pai a presença de Padre Iasi entre nós, contribuindo na abertura das picadas que possibilitaram a estrada que percorremos para a construção da Terra Sem Males, espaço pleno do Bem Viver para os povos indígenas, para tod@s e para sempre.

    O velório será realizado nesta segunda feira (23) a partir das 8h, a missa de corpo presente às 14h, e o sepultamento às 16h, no Cemitério Bosque da Esperança, em Belo Horizonte – MG.

    Para quem quiser enviar mensagem ou telefonar ou fazer-se presente pessoalmente, o endereço é: Residência Irmão Luciano Brandão – Rua Adelina de Sales Pereira, 217 – Bairro Planalto, Belo Horizonte – MG.

    Telefone: (031) 3494-3244 – Para mensagens: [email protected]

     

    Secretariado Nacional do Cimi e Waldemar Bettio

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  • 20/03/2015

    Manifesto denuncia lobby de empresas sobre PL de recursos genéticos

    As organizações de agricultores familiares, povos indígenas e tradicionais divulgaram um manifesto em que denunciam o lobby das empresas dos setores de cosméticos, fármacos, limpeza, química e agronegócio na tramitação do Projeto de Lei da Câmara (PLC) nº 2 (antigo PL 7735/2014). O projeto pretende facilitar o acesso e a exploração econômica dos recursos genéticos e conhecimentos tradicionais da biodiversidade e da agrobiodiversidade (saiba mais).

    O manifesto afirma que a exclusão dessas populações do debate sobre o projeto foi uma “decisão consciente e deliberada” do governo federal e dos representantes das empresas e classifica-a como um “rompimento na relação de confiança” entre essas mesmas populações e empresas (leia o manifesto).

    O documento critica duramente a atuação da chamada “Coalizão Empresarial pela Biodiversidade”, articulação de associações de indústrias usuárias de recursos genéticos e conhecimentos tradicionais que lidera o lobby em favor do PLC. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a bancada ruralista no Congresso não integram o grupo, mas estão atuando junto com ele.

    O manifesto foi divulgado na manhã desta quarta (18), numa audiência pública conjunta realizada no Senado, onde o projeto tramita em regime de urgência. No encontro, os senadores resolveram não realizar novas audiências que estavam marcadas para discutir a proposta, atendendo às pressões do governo e da indústria para aprovar o projeto o mais rápido possível, sem alterações.

    Assim, a perspectiva é que o PLC seja votado, nas cinco comissões em que tramita simultaneamente, entre esta e a próxima semana. Depois, ele segue para o plenário da casa. Se for alterado no Senado, o projeto retorna à Câmara. Se for aprovado sem alterações, segue à sanção presidencial.

    Diante dos pedidos de representantes de povos indígenas e tradicionais para que o regime de urgência seja retirado do PL, os senadores lavaram as mãos, repetindo que só o governo pode fazer isso. A informação é correta, mas os parlamentares poderiam tentar negociar a medida com o Planalto.


    “Há um acordo entre Legislativo e Executivo para aprovar o texto como está. Infelizmente, esse acordo se deu com pressão do setor empresarial”, criticou Sônia Guajajara, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), durante a audiência.

    Representantes da indústria tentaram convencer os senadores de que o projeto é resultado de um “consenso possível” e de que é um avanço para a pesquisa no País.

    “É claro que há consenso sobre o PL entre o governo e o setor empresarial. O projeto foi debatido e elaborado por eles, com a exclusão de povos e comunidades tradicionais”, analisou Maurício Guetta, advogado do ISA. Ele classificou de “excrescências jurídicas” a série de anistias para empresas que cometeram irregularidades e as isenções à repartição de benefícios pelo uso desses recursos e de conhecimentos tradicionais, previstas no projeto. Guetta antecipou que, se aprovado como está, o projeto será alvo de ações judiciais (veja vídeo acima).

    Correlação de forças desfavorável

    O relator do projeto na Comissão de Meio Ambiente, Jorge Viana (PT-AC), admitiu que a correlação de forças no Senado é muito desfavorável aos direitos de povos indígenas e tradicionais e de pequenos agricultores. Ele informou, no entanto, que pode acatar algumas das propostas de modificação no texto do projeto. “Há divergências dentro do governo. Não vou partir do princípio de que não é possível fazer mudanças, de que temos de aprovar como está”, garantiu.

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  • 19/03/2015

    Frente Parlamentar de Apoio aos Povos Indígenas é reinstalada na Câmara

    Com a assinatura de 211 deputados foi reinstalada nessa terça-feira (17) a Frente Parlamentar de Apoio aos Povos Indígenas, com a coordenação de Ságuas Moraes (PT-MT), que destacou a luta contra a PEC 215 como principal objetivo do grupo. A Comissão Especial que analisará essa Proposta de Emenda à Constituição foi instalada no mesmo dia, sob protesto de indígenas (leia aqui).

    Cerca de 100 lideranças indígenas de diversos povos estaviveram presentes na cerimônia que, marcada inicialmente para o Hall da Taquigrafia do Congresso, espaço onde teria maior visibilidade, foi transferida por ordem do presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), para o auditório Freitas Nobre, com espaço insuficiente até para os convidados.

    Chico Alencar (PSOL-RJ) ressaltou que a situação é mais um indicativo de como esse segmento de deputados pretende tratar os direitos indígenas. “Isso é uma pequena questão, mas que já indica o que eles, que hoje são maioria a favor dessa PEC (que é inconstitucional) pretendem fazer: Nos confinar. Assim como os povos indígenas do Brasil ficam cada vez mais confinados nos territórios cada vez mais estreitos, também aqui, no Parlamento Nacional (onde quem tem gravata e capital em geral nunca se dá mal), querem confinar essas expressões do povo”, disse.

    O cacique Aruã Pataxó disse que a bancada ruralista promove um “assalto aos direitos indígenas” e observou a necessidade do envolvimento de mais parlamentares nos encontros da Frente. “Dos 211 deputados que compõe a Frente de Apoio aos Povos Indígenas só vemos uma minoria nessa discussão. A gente precisa que esses parlamentares assumam de fato a defesa dos nossos direitos”.

    Ivan Valente (PSOL-SP) ressaltou a importância da articulação com a sociedade para combater as estratégias do agronegócio. “Só as terras indígenas na Amazônia são responsáveis pela produção de 20% do oxigênio do planeta e eles [ruralistas] ainda querem invadir os territórios. Por isso entendemos que essa não é uma luta apenas dos povos indígenas. É uma luta de todo o povo brasileiro e das gerações futuras. Não podemos deixar passar essa violência contra os povos indígenas e contra os futuros interesses do povo brasileiro”.

    O deputado lembrou ainda a aprovação do Código Florestal “Na época houve uma pesquisa onde 80% da população era contra as mudanças do Código Florestal, e aqui dentro 80% dos deputados era a favor. Ou seja, eles estão na contramão do povo, e no entanto eles continuam na sua ofensiva, porque estamos falando de poder econômico, de motosserra, de agroexportação, de gente que prefere que os pastos tomem conta”.

    “Quando falamos de terra pras comunidades indígenas falamos da existência plena enquanto seres humanos”, lembrou a deputada Erika Kokay (PT-DF). “É um etnocídio que está em curso nesse país e estamos aqui pra dizer que os latifundiários não são donos das comunidades indígenas e nem são donos das terras desse país. E que eles não vão nos calar, como se gado fôssemos”.  

    Ainda participaram da cerimônia os deputados Edmilson Rodrigues (PSOL-PA), Nilto Tatto (PT-RS), Zeca do PT (PT-MS), e Paulo Pimenta (PT-RS), novo presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Também estiveram presentes membros da sociedade civil, organizações não governamentais e representantes da Fundação Nacional do Índio (Funai), Ministério da Justiça e Ministério do Esporte.

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  • 19/03/2015

    Ruralistas investigados por invasão de territórios indígenas farão relatório da PEC 215

    Nessa terça-feira (17), no Congresso Nacional, foi reinstalada a Comissão Especial que analisará a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215/2000, que, entre outros pontos, pretende transferir do Executivo para o Congresso Nacional a prerrogativa sobre demarcações de Terras Indígenas (leia abaixo).

    Sob protesto de sete indígenas – outros 80 foram impedidos de entrar no plenário – que seguraram faixa com os dizeres “Ruralista Lava Jato”, foi definida a presidência e relatoria da Comissão, designadas para Nilson Leitão (PSDB-MT) e Osmar Serraglio (PMDB-PR), respectivamente. Os deputados são acusados pelo Ministério Público Federal em Mato Grosso de invadir terras indígenas e direcionar o parecer da Comissão no mandato anterior. Saiba mais: Processo contra relator e vice de comissão sobre terras indígenas chega ao STF.

    O deputado Sarney Filho (PV-MA) conseguiu negociar um acordo e a votação do relatório foi adiada para daqui a dois meses. No entanto, os ruralistas reapresentarão o último parecer, que, sob a relatoria de Serraglio, foi elaborado por advogado ligado à Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária (CNA), que teria recebido R$ 30 mil para construção do documento (Lembre aqui: MPF E PF investigam interferência indevida de ruralistas na tramitação da PEC 215). No fim de 2014, povos indígenas mobilizados em Brasília e parlamentares aliados conseguiram impedir sua votação.

    “Se for aprovada pode dar uma repercussão internacional, Ações Diretas de Inconstitucionalidade e nós estamos dispostos a usar de todos os meios democráticos possíveis para que essa PEC não seja votada e ser for votada aqui na Câmara que não seja votada no Senado e que o governo entre e que a Justiça a declare inconstitucional”, disse Sarney Filho (PV-MA).

    Novo parecer da PEC 215

    Transfere do Executivo para o Congresso a prerrogativa de aprovar a oficialização de Terras Indígenas, Unidades de Conservação e Territórios Quilombolas e adota a data de promulgação da Constituição (5/10/1988) como “marco temporal” para comprovar a posse indígena, ou seja, a comunidade teria direito à terra apenas se puder demonstrar que ocupava o território nessa data (saiba mais). Apresenta ainda ampla gama de exceções ao direito de posse e usufruto das terras por parte dos povos indígenas, inviabiliza novas demarcações e legaliza a invasão, a posse e a exploração das terras indígenas já demarcadas.

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  • 19/03/2015

    Contra marco temporal e tutela, lideranças Terena pedem ao STF revalidação de Portaria Declaratória

    Lideranças do povo Terena peticionaram no Supremo Tribunal Federal (STF) pedido de nulidade de decisão da 2ª Turma da própria Corte que inutiliza a Portaria Declaratória da Terra Indígena Limão Verde, localizada no município de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Os Terena alegam que não foram chamados para discutir, no processo judiciário, a legitimidade do título de propriedade “em terras que, imemorial e atualmente, são suas e por isso a comunidade é imediatamente afetada pela decisão”, conforme os argumentos da petição. Na decisão da Corte, tutela e marco temporal aparecem como justificativas para a desclassificação da portaria. Na prática, o Judiciário corrobora para a inexistência da comunidade Terena.  

    A petição chega ao STF num momento de grande turbulência política no país, com 16 políticos ruralistas indiciados pela Suprema Corte com indícios de envolvimento em esquema de corrupção na Petrobras. A própria bancada parlamentar a qual estes deputados e senadores investigados fazem parte tenta, mais uma vez, aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215, cuja Comissão Especial, arquivada em dezembro do ano passado, foi reaberta na última terça-feira, 17. Por conta disso, a semana tem sido de intensa mobilização indígena em Brasília. Na foto, indígenas Guarani e Kaiowá comem terra, na frente do STF, em ritual pela demarcação dos território tradicionais no Mato Grosso do Sul.   

    Se o país aparentemente está parado, a luta por suas terras não. A ação judicial dos interessados em inutilizar a portaria da Terra Indígena Limão Verde percorre as instâncias do Judiciário há alguns meses. Antes de chegar ao STF, passou pela Justiça Federal do Mato Grosso do Sul, onde foi indeferida pela falta de provas e argumentos jurídicos. Os autores apelaram ao Tribunal Regional Federal (TRF) da 3ª Região, e também perderam, inclusive no Recurso Extraordinário. Depois de três reveses, os autores seguiram ao STF, com êxito.    

    O relator do processo é o ministro Teori Zavaski, para quem os Terena e os advogados do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) argumentam que a votação das condicionantes da Terra Indígena Raposa Serra do Sol foi um divisor de águas na análise das demandas de demarcação dos territórios tradicionais. Seja pela tese do marco temporal, ou até mesmo a compreensão de que os indígenas ainda são tutelados. Entendimentos oscilantes, ultrapassados. No artigo 232 da Constituição Federal está escrito: “Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em todos os atos do processo”.   

    Na petição, os Terena afirmam que, por outro lado, são excluídas das análises da Corte, em demandas similares, “a existência de um período ditatorial (1946-1988) que impediu, como se percebe do Relatório Figueiredo e do Relatório da Comissão Nacional da Verdade sobre Violações de Direitos Humanos dos Povos Indígenas (em anexo) e dos demais relatos de lideranças indígenas, a supressão das vozes nesse período, a supressão do desejo e dos direitos indígenas, ainda tutelados e impossibilitados de acessar o judiciário e de reclamar direitos e de disputar faticamente a terra”.

    Nesse período de quase 40 anos, expulsões forçadas e a criação de reservas indígenas desterritorializaram dezenas de aldeias no Mato Grosso do Sul. Com o passar dos anos, e sobretudo depois da Constituição de 1988, que conferiu aos indígenas direitos indiscutíveis para a demarcação de suas terras tradicionais, a memória dos mais velhos levou os povos a tomar o caminho de volta e retomar as áreas de onde foram retirados. Encontraram nas terras invasores que sempre se mostraram dispostos a enfrentar o litígio posto com violência e manobras jurídicas, apoiados por grupos de latifundiários que hoje se entrincheiram no Executivo, Legislativo e Judiciário.

    “Então é claro que em 1988 muitos patrícios não estavam na terra, mas nunca que se esqueceram dela. Tanto é que hoje está aí a luta, os indígenas assassinados, ameaçados de morte, sofrendo atentados. Não passamos por isso para querer o que não é da gente, mesmo que um dia tudo tenha sido”, diz Lindomar Terena.

    Efeitos da tutela

    Um dos argumentos da decisão do STF que inutiliza a Portaria Declaratória da Terra Indígena Limão Verde, afirma que o “esbulho não pode ser confundido com ocupação passada ou com desocupação forçada, ocorrida no passado. Há de haver, para configuração de esbulho, situação de efetivo conflito possessório que, mesmo iniciado no passado, ainda persista até o marco demarcatório temporal atual (vale dizer, a data da promulgação da Constituição de 1988), conflito que se materializa por circunstâncias de fato ou, pelo menos, por uma controvérsia possessória judicializada”.  

    Os advogados do Cimi, todavia, questionam: “Como ingressariam os índios com ação judicial se eram tutelados? Quem ingressaria, na ausência de capacidade postulatória dos índios, a FUNAI, que entre seus quadros tinham os mesmos militares que mantinham campos de concentração de indígenas e que calaram os índios por mais de 40 anos ou a União, que era a própria ditadura?”. Justamente pelo fato de os indígenas não serem mais tutelados, as lideranças Terena pedem que a decisão da inutilização da portaria seja revogada e eles ouvidos judicialmente. O secretário Executivo do Cimi, Cleber Buzatto, entende que as “recentes decisões da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) restringem, de forma violenta e radical, o alcance do conceito de terra tradicionalmente ocupada pelos povos indígenas consignado no Artigo 231 da Constituição brasileira” – leia na íntegra aqui.

    Em linhas gerais, as últimas decisões colocam em prática a redução do direito dos povos indígenas à terra, intenção trabalhada com afinco pelos ruralistas no Congresso Nacional e atendidos pelo executivo, no caso da Portaria 303 da Advocacia-Geral da União (AGU), que segue em vigor, mas que o Palácio do Planalto nega embasar a paralisação das demarcações de terras indígenas no país. Mesmo que os três poderes da República apresentem nítidas divergências no plano político nacional, na questão indígena agentes poderosos de teses anti-indígenas articulam consensos. Nesse sentido, a decisão pela inutilização da Portaria Declaratória da Limão Verde está embasada em argumentos alheios às atualizações constitucionais e legais dos últimos 27 anos.   

    “Desalinhada da realidade, seja pela falta da presença dos índios no polo passivo para poderem fazer provas e responder às questões processuais, é que a processualidade se encontra defasada”, dizem os advogados do Cimi, que afirmam ser necessária a atualização da prática processual neste caso da Limão Verde e em similares, envolvendo outras terras indígenas. Na petição, os Terena pedem ao ministro Teori Zavascki que caso o pedido de nulidade da decisão não seja acatado, que o processo retorne para as instâncias inferiores, para que os indígenas sejam ouvidos, e que a tese do marco temporal não seja aplicada.      

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