• 07/04/2015

    Por um Brasil sem ditadura e sem colonialismo

    “Num encontro com a presidente Dilma, eu falei pra ela que era preciso descolonizar o país. Ela me respondeu que já está descolonizado. Pensei comigo: essa é uma prova de que ela não conhece e não quer conhecer o país a partir de sua raiz, os habitantes primeiros, os povos originários desse país” (Anastácio Peralta).

    Era primeiro de abril em Porto Alegre. Coincidência. Em debate os 51 anos do golpe militar civil.

    Em torno de uma centena de pessoas preocupadas em debater o passado para entender o presente e traçar estratégias de um futuro melhor para a população brasileira, particularmente os empobrecidos, as populações tradicionais, os trabalhadores do campo e da cidade, os sem terra, e os povos indígenas, estavam reunidas no seminário nacional promovido pelo Andes (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior). Nos debates, os diversos aspectos dos 21 anos de ditadura militar, civil/empresarial de 1964 a 1985 foram debatidos e aprofundados. A intenção foi também ter uma visão latino-americana dos processos de ditadura, anistia e formas de punição dos responsáveis pelas graves violações dos direitos humanos.

    A ditadura militar e os povos indígenas

    Os povos indígenas estão trazendo à tona as violações de seus direitos fundamentais à vida, a seus territórios, recursos naturais e formas diferenciadas de organização. As graves violações dos direitos humanos dos povos indígenas estão sendo debatidos, desde as aldeias, até as universidades e diversas instâncias do Estado brasileiro. E não é apenas memória historiográfica. Antes de tudo, é a busca da verdade para fazer justiça e garantir a não repetição das crueldades contra os povos originários.

    Trazer à consciência nacional “os assassinatos, chacinas, massacres, envenenamentos, prisões ilegais, torturas, violência psicológica, intimidações e ameaças, despejos violentos, atentados contra aldeias, remoções forçadas, integração e escravização, estupros, campanhas difamatórias, preconceitos, crimes que geraram (e por continuarem acontecer em escala ainda geram) traumas individuais e coletivos” (Zelic, Marcelo). Essa foi a tarefa da Comissão Nacional da Verdade, cujo relatório foi entregue à presidente Dilma, no dia 10 de dezembro passado. A rigor, foi um início de processo que deverá continuar. Pois só assim se poderá iniciar um processo de reparação e justiça para os 8.350 indígenas mortos, no período de investigação da CNV – Comissão Nacional da Verdade (pg. 159).

    Apesar do pouco espaço destinado à questão indígena (58 páginas de um total de 4.400), da falta de uma estrutura e tempo que permitissem um trabalho mais abrangente, fundamentado e que se propusesse não apenas fazer emergir a verdade, mas que avançasse na perspectiva da punição dos crimes e reparação coletiva e individual, foi um ponto de partida promissor, a ser levado avante pelos povos indígenas e seus aliados. Para isso será fundamental que a Comissão Indígena da Verdade e Justiça, criada em agosto do ano passado, passe a funcionar e cobre do Estado e da sociedade total apoio para seu efetivo funcionamento.

    Os crimes da ditadura e a impunidade

    Um dos aspectos que chama atenção no caso da ditadura no Brasil é a forma de anistia que foi negociada e sua interpretação que resultou na total impunidade daqueles que atuaram contra as centenas de desaparecidos e assassinados e torturados pelo regime militar e milhares de indígenas mortos.

    No Chile, Uruguai e Argentina houve também a lei da anistia, mas com a pressão dos movimentos sociais se conseguiu vislumbrar brechas que levaram à punição de governantes e responsáveis pelas truculências, mortes e desaparecidos.

    No Brasil não se chegou à condenação dos responsáveis pelas mortes e desaparecimentos. Na questão indígena se chegou a raras compensações individuais e coletivas pelo esbulho de alguns territórios indígenas, como no caso dos Panará, dos Gaviões do Pará e mais recentemente a Comissão da Anistia do Ministério da Justiça, pediu desculpas em nome do Estado brasileiro e indenizou membros dos Kewara – Suruí, do Pará. Tudo isso, porém, representa uma ínfima parte de todas as atrocidades cometidas contra esses povos.

    Para além do papel

    Conforme Zelic são mais de 600 mil páginas disponíveis com informações sobre os povos indígenas e violação de seus direitos. Dentre eles destacamos o Relatório Figueiredo, de 1967, em que são 7.700 páginas contendo denúncias de graves violações dos direitos dos povos indígenas. Além disso, urge que se faça o registro da memória oral das testemunhas vivas de inúmeras violações dos direitos humanos dos povos indígenas – massacres, chacinas e ações de extermínio-genocídio de populações indígenas em todo o país. Uma tarefa gigantesca para uma dívida histórica da nação brasileira para com os primeiros habitantes desse país.

    Destacamos ainda as recomendações feitas no relatório da comissão que tratou da questão indígena. A questão mais importante é a demarcação, desintrusão e garantia das terras/territórios dos povos indígenas. E junto com essa ação de reparação coletiva vem a necessária recuperação ambiental das áreas degradadas. Só assim o pedido de desculpas poderá ser sincero e consequente por parte do Estado brasileiro. Juntamente com essas ações será fundamental uma campanha permanente de informação sobre a realidade, vida e luta dos povos indígenas, que passe principalmente pelo processo formativo em todos os níveis escolares. Para alimentar essa rede de informação será importante a criação de uma Comissão Indígena da Verdade e Justiça, que aprofunde a memória e busque a justiça. Uma Comissão da Verdade exclusiva da questão indígena.

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  • 07/04/2015

    Funai não comparece a audiência sobre mineração que afetará indígenas

    A silvinita é a principal matéria-prima para fertilizantes e adubos (reprodução, site A Crítica).

    Sem nenhuma liderança indígena na mesa composta por representantes de órgãos governamentais e da empresa Potássio do Brasil, aconteceu no dia 25 de março a audiência pública para tratar da exploração de silvinita na região de Autazes, onde existem várias comunidades do povo Mura que serão diretamente afetadas. A audiência foi realizada na comunidade de Urucurituba, em Autazes, município localizado a 113 quilômetros de Manaus, a capital do Amazonas.

    A audiência pública naquela comunidade foi a segunda e era parte obrigatória para iniciar o processo de licenciamento da mina de silvinita no município de Autazes em cumprimento da Lei Estadual de Licenciamento Ambiental 3785, de 24/07/12 e da Resolução nº 001/86 do Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama.

    Representantes da empresa Potássio do Brasil tinham que apresentar o Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) nas audiências públicas.

    De acordo o diretor do Ipaam, Antonio Stroski, a Funai foi convidada a participar, porém não mandou representante para a primeira audiência realizada na sede do município de Autazes no dia 24/03, nem para aquela segunda audiência. Representantes da empresa que realizou o levantamento de impacto ambiental disseram que a coordenação da Funai não enviou o termo de referência para levantamento do impacto ambiental nas áreas indígenas.

    A comunidade de Urucurituba fica a 13 quilômetros aproximadamente da sede municipal de Autazes. Ali vivem 157 famílias das quais 50 são assumidamente indígenas do povo Mura. Segundo o Relatório de Impacto Ambiental, são sete as terras indígenas “regularizadas e de domínio indígenas sob atenção”, com 4.910 pessoas de 1164 famílias. Urucurituba e Soares serão diretamente afetadas, juntamente com Paracuhuba e Jauari, sendo que as duas últimas localizam-se num raio de dez quilômetros de distância do empreendimento.

    Na região de Autazes, a maioria das terras indígenas não está demarcada. Cerca de cinco mil trabalhadores serão levados para o local na fase de instalação do projeto. Moradores temem que isso cause transtornos irreversíveis a indígenas e ribeirinhos.

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  • 07/04/2015

    Univaja denuncia morte de crianças

    De janeiro a março deste ano seis crianças morreram na Terra Indígena Vale do Javari, situada no oeste do Amazonas, na fronteira com o Peru, distante da capital cerca de 1.150 quilômetros em linha reta. De acordo com a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari – Univaja, o atendimento às comunidades continua precário, comprometendo a saúde dos indígenas.

    As seis crianças mortas entre janeiro e março são dos povos Marubo, Kanamari, Kulina, Matis e duas Mayoruna. Os óbitos tiveram como causa pneumonia, complicações no parto e dificuldade respiratória.

    Segundo Paulo Marubo, coordenador da Univaja, as prateleiras dos polos-base estão vazias, sem medicamento e as comunidades padecem por falta de atendimento da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), órgão do Governo Federal responsável pela atenção à saúde.

    Ele reclama que o gestor da Sesai em Atalaia do Norte nega informações sobre os atendimentos nas aldeias, e tem dito às lideranças que irá processar judicialmente as organizações em razão das denúncias feitas em decorrência da falta de assistência.

    A Terra Indígena Vale do Javari abriga seis povos diferentes além de um grande número de grupos sem contato com a sociedade envolvente. Há mais de 30 anos as organizações e comunidades lutam por melhorias no atendimento à saúde, sobretudo porque há um grande número de casos confirmados de hepatite tipo “B”, que não tem cura.

    MALÁRIA AMEAÇA – As dificuldades encontradas pela Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) para atender as comunidades indígenas e ribeirinhas do município de Itamarati podem levar a um aumento dos casos de malária na região, afetando principalmente os Deni e Kanamari do rio Xeruã. O alerta foi feito pelos indígenas à equipe do Conselho Indigenista Missionário – Cimi, que atua na região do Médio Solimões e afluentes.

    Dados oficiais da FVS revelam que no período primeiro de janeiro a 20 de março de 2015, foram realizadas nas 7 aldeias do Rio Xeruã (Deni e Kanamari), 851 exames, sendo 157 positivos. Os indígenas disseram aos missionários que esse número é muito maior.

    Os Deni são encontrados no rio Xeruã, afluente do rio Juruá no município de Itamarati, localizado no sudoeste do Amazonas, a cerca de 930 quilômetros da capital, Manaus. Eles somam uma população de 715 pessoas, distribuídos em 4 aldeias, que são Terra Nova (69 pessoas), Morada Nova (286 pessoas), Boiador (205 pessoas) e Terra Nova (69 pessoas).

    Os Kanamari são encontrados no mesmo rio, e somam 261 pessoas, distribuídas em três aldeias: Santa Luzia (78 pessoas), Flexal (124 pessoas) e São João (59 pessoas).

    Nos anos 70, a população Deni esteve prestes a desaparecer em razão de casos de tuberculose que afetou grande um grande número de pessoas.

    No início dos anos 90, uma epidemia de sarampo e malária dizimou cerca de 20 por cento da população.

    Manaus (AM), 06 de abril de 2015.

    Conselho Indigenista Missionário – CIMI

    Regional Norte I – AM/RR

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  • 06/04/2015

    Entrevista especial com Egydio Schwade fala sobre legado de Pe. Iasi e critica a política indigenista brasileira

    “Quando trabalhamos no Secretariado do CIMI, sempre lutamos para que a questão indígena não mais permanecesse ligada a um Ministério do governo, mas passasse a ser responsabilidade direta da Presidência da República. Ora, a PEC 215 quer transferir a responsabilidade ao Congresso Nacional, onde sempre vencem as forças anti-indígenas”, critica o colaborador do CIMI.

     

    “O importante legado que Pe. Antonio Iasi nos deixa é a sua fé em acreditar na força escondida nos fracos e, em especial, na força transformadora que os povos esmagados encerram. Daí também o seu esforço no sentido de garantir um chão seguro para os povos indígenas”, comenta Egydio Schwade, que se tornou amigo de Iasi no início dos anos 1960, quando ambos participaram da missão jesuítica de Utiariti, no Mato Grosso.

    Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, para registrar o legado do Pe. Antonio Iasi, que faleceu na semana passada, Schwade lembra de sua convivência com Iasi e enfatiza a atuação dele junto às comunidades indígenas. “Pe. Iasi começou a se destacar mesmo no trabalho indigenista dentro do CIMI. Porque ali a sua atitude revolucionária foi aceita e valorizada. Iasi era um revolucionário incorrigível. Seja no trabalho fixo em aldeia, seja no trabalho institucional, Iasi criava conflitos. Jamais se adaptava”, recorda.

    Schwade, juntamente com padre Iasi, acompanhou as mudanças no modo de fazer missão na Igreja, após o Concílio Vaticano II, e enfatiza que antes do Concílio os registros indicavam a existência de 99 mil indígenas no país, mas após a imersão dos jesuítas nas comunidades indígenas, contabilizaram mais de 220 mil indígenas vivendo no território brasileiro. “Nós víamos claramente o índio crescer assumindo a sua identidade, voltando e conquistando a sua terra e crescendo em número e em autonomia. Creio que o princípio que orientava a OPAN na época, ou seja, ‘encarnação’ e as linhas de ação emanadas da primeira Assembleia Nacional do CIMI, em julho de 1975, estavam subjacentes às nossas aspirações missionárias (a luta prioritária pela terra, pela cultura e pela autodeterminação) desde quando o documento Lumen Gentium, do Vaticano II, chegou às nossas mãos e se tornou preocupação no nosso trabalho missionário de todos os dias”, pontua.

    Contudo, lamenta, “hoje, de fato, a participação dos bispos tanto nas Assembleias Regionais como também na Assembleia Nacional do CIMI é muito menor do que antes de 1978. O que certamente tem a ver com um acomodamento da Instituição, já que o CIMI é agora um órgão oficial da CNBB”.

    Atualmente, Egydio Schwade vive próximo à BR-174, em Boa Vista, Manaus, e convive com os índios Waimiri-Atroari. “Esse povo indígena vive uma situação particularmente complicada. É o único povo indígena do país que vive sob a tutela de uma empresa e não do órgão oficial de proteção aos índios: a FUNAI. No caso, trata-se da Eletrobras”, informa. 

    Egydio Schwade é graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Foi um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário – CIMI e primeiro secretário executivo da entidade, em 1972. Hoje é colaborador do CIMI.

    Confira a entrevista.

     

    IHU On-Line – Qual é o legado de padre Antonio Iasi?

    Egydio Schwade – O importante legado que Pe. Antonio Iasi nos deixa é a sua fé em acreditar na força escondida nos fracos e em especial na força transformadora que os povos esmagados encerram. Daí também o seu esforço no sentido de garantir um chão seguro para os povos indígenas. E a nível institucional junto à FUNAI teve uma atuação em dois sentidos: duros questionamentos com relação aos mandantes e tratamento carinhoso para com os funcionários de base, fortalecendo o time daqueles que ansiavam por transformação. Semelhantemente na Igreja caminhou com a Igreja dos pobres. Pe. Iasi achou no CIMI o seu modo de marcar presença e de encarnar a realidade missionária. Durante todo período que passou no Secretariado Executivo do CIMI, acompanhou com especial carinho as equipes de leigos, em especial da OPAN-Operação Anchieta, hoje Operação Amazônia Nativa, principalmente em seus trabalhos de base ao longo do Rio Purus e no Noroeste de Mato Grosso, onde buscavam se encarnar na realidade dos sobreviventes de povos esmagados. Deixou também a sua mensagem de pobreza radical. Toda a sua propriedade cabia dentro de uma malinha de dois palmos e meio de comprimento, por um palmo e meio da altura, por 10 cm de espessura. Ali cabia tudo que lhe pertencia: rede, mosquiteiro e lençol de dormida, sua roupa de uso e caderno de anotações e eventualmente algum livro de leitura.

     

    IHU On-Line – O senhor lembra como padre Iasi começou a desenvolver seus trabalhos nas comunidades indígenas? Pode nos contar um pouco da trajetória dele, como ele foi enviado para fazer esse trabalho e em quais condições?

    Egydio Schwade – Lembro, sim. Conheci o Pe. Iasi em dezembro de 1963. Eu era estudante jesuíta em estágio ou mestrado de três anos na Missão Anchieta. Nós nos conhecemos em Utiariti. E mal nos conhecemos já embarcamos em uma longa viagem pelos rios Papagaio e Juruena acompanhando um médico paulistano, Dr. Paulo Machado, que prestaria alguns dias de serviços médicos à comunidade Rikbaktsa, aldeia Barranco Vermelho. Um Rikbaktsa conduzia o barco em que viajávamos. Ele também cuidava da nossa comida. A gente levava dois dias para chegar. No amanhecer o fogo já estava aceso, esquentando a água do café. O Rikbaktsa estava com a toalha de banho enrolada ao pescoço pedindo o coador de café. Mas cadê o coador? Fora esquecido. O índio não se alterou. Desenrolou a toalha do pescoço e nela coou o nosso café.

    Iasi chegou de São Paulo e foi logo nomeado superior religioso da aldeia Rikbaktsa do Barranco Vermelho. É provável que estivesse vindo de algum colégio jesuíta e desejava que tudo funcionasse assim naquela aldeia de recente contato. Tenho que confessar que tive muita dificuldade de convivência nesta nossa primeira experiência. Como ficaria apenas uns dois meses, período das férias, preferi me isolar e fiquei feliz quando pude sair dali. Nunca poderia imaginar que um dia ambos trabalharíamos muito unidos dentro de um projeto bem mais amplo do que o da aldeia do Barranco Vermelho e durante seis anos nos entenderíamos muito bem, empenhados em uma mesma luta. O Dr. Paulo Machado voltou para São Paulo após atender a saúde do povo Rikbaktsa. Voltou outras vezes e acabou um importante conferencista sobre a Amazônia, o que o levou a Diretor do INPA e, finalmente, a Ministro da Saúde ao tempo do Geisel.

     

    IHU On-Line – Pode nos contar como se deu a transição de um modelo de missão para outro após o Concílio Vaticano II? Como a missão nas comunidades indígenas era entendida e feita antes do Concílio Vaticano II e depois do Vaticano II? Em que sentido a Igreja mudou sua maneira de fazer missão pós-Concílio Vaticano II?

    Egydio Schwade – Sim, cheguei à Missão Anchieta um ano antes do Pe. Iasi. Conheci-o no internato de Utiariti, onde eu havia trabalhado durante todo o ano de 1963. Estávamos em pleno Concílio Vaticano II. Acompanhávamos com muito entusiasmo tudo que saía do Concílio. E a missão começou a viver grandes impasses: a ausência de atendimento às aldeias indígenas. O esforço missionário estava concentrado nos internatos, no caso dos jesuítas de Mato Grosso, sobre o internato de Utiariti. E em Diamantino havia o internato “Lar do Menor” para dar abrigo e oportunidade aos índios, meninos pobres de agricultores e garimpeiros darem continuidade aos seus estudos. Atuei nos dois internatos. Os padres já formados vinham normalmente com o objetivo de atuarem nas aldeias e conseguiam assim o privilégio de logo morar ali. Mas o objetivo de sua presença na aldeia era a catequese, dar assistência sanitária aos índios e de encaminhar as crianças para o Internato de Utiariti. Durante o ano de 1963 em que trabalhei em Utiariti, vi chegando da Aldeia do Barranco Vermelho, crianças, meninos e meninas Rikbaktsa, com seus enfeites, colares, cocares, e no dia seguinte os vi vestidos, ajoelhados na igreja. Os documentos conciliares urgiam mudança desta situação.

    Missionários leigos

    Em janeiro de 1966 cheguei a São Leopoldo, no RS, para dar início aos meus estudos de Teologia. Ali já estavam estudando quatro colegas que também haviam feito o mestrado no Mato Grosso. Ansiosos para mudar a situação, já em março, escrevemos uma carta propondo mudanças profundas na Missão. A carta se dirigia a todos os agentes pastorais da Prelazia de Diamantino: Padres, irmãos e irmãs. Mas a maioria nem sequer nos respondeu e os poucos que responderam foram desfavoráveis à nossa proposta. Ninguém foi favorável. Foi neste momento que o Thomaz Lisboa, um dos quatro, e eu, decidimos organizar um trabalho de missionários leigos. A discussão do ecumenismo era então muito forte e quase todo o fim de semana visitávamos uma comunidade evangélica ou católica do Vale do Sinos, para discutir o assunto com os jovens. No início não tivemos sucesso, mas muita simpatia pelo assunto. A ideia se tornou realidade em fevereiro de 1969 com a criação da OPAN-Operação Anchieta, que, em janeiro de 1970, já enviou o seu primeiro contingente ecumênico de leigos para o Noroeste de Mato Grosso e para o Rio Guaporé em Rondônia.

    No mesmo ano de 1970, Pe. Iasi assumiu o SNAM — Secretariado Nacional de Atividade Missionária da CNBB. Imediatamente se dirigiu às Prelazias, Diocese e Arquidioceses da Amazônia. O objetivo foi constatar a importância que estava tendo a questão indígena em cada uma dessas circunscrições eclesiásticas. Da visita resultou o relatório mais contundente sobre a relação Igreja-índio na Amazônia até hoje feito. Encontrei Pe. Iasi em São Paulo, quando acabara de entregar o relatório à CNBB. Muitos bispos justificavam a sua ausência junto aos índios, alegando falta de pessoas, mas Iasi apresenta diálogos com os bispos que demonstram tratar-se mesmo de uma opção pastoral. O relatório contém o primeiro apoio e incentivo público da Igreja à OPAN-Operação Anchieta. Coincidentemente eu estava em São Paulo de passagem acompanhando a segunda turma de voluntários da OPAN que se dirigia a comunidades indígenas da Prelazia de Diamantino em Mato Grosso e Guajará-Mirim/Rondônia, onde buscariam realizar o seu sonho missionário não de catequese, mas de convivência e encarnação na realidade indígena. A OPAN foi quem ofereceu a primeira equipe para o Secretariado Executivo do CIMI, quando este, em inícios de 1974, partiu para a execução de seu primeiro programa: realização de assembleias indígenas e de encontros de pastoral indígena por regiões, das quais nasceram os primeiros nove regionais do CIMI.

     

    IHU On-Line – Em que consistia o trabalho desenvolvido por padre Iasi na Prelazia de Diamantino, em terras mato-grossenses, às margens do Rio Juruena, onde ele trabalhou com os Rikbaktsa, e mais tarde em Utiariti, com os Paresi? Que lembranças o senhor tem dessa época?

    Egydio Schwade – Em 1967, depois da experiência no Barranco Vermelho e passagens por Utiariti e pelos PareciIasi integrou a equipe de atração dos índiosTapayuna ou Beiços-de-Pau coordenada pelo Pe. Adalberto Pereira, que já vinha fazendo tentativas de contato desde 1964. Foi um ano muito difícil para ambos, pois pelo lado por onde tentaram fazer a atração, ou seja, pelo rio Arinos, os mesmos haviam sofrido massacres desde que se instalou a colonização Porto dos Gaúchosnas margens daquele rio. Em maio de 1967, fizeram a sua última tentativa de contato. Mas após sofrerem uma noite inteira saraivadas de flechas, durante as quais ambos saíram feridos, levantaram acampamento. Iasi sofreu apenas de raspão; Adalberto, porém, mais gravemente, o que o impediu de continuar no trabalho. Assim Iasi ficou encarregado de dar continuidade à tarefa da atração dos Tapayuna.

    Nas férias daquele ano, ainda estudante de teologia, fui convidado pelo padre vigário de Porto dos Gaúchos para fazer um levantamento da paróquia. Descendo de barco o rio Arinos, tive oportunidade de sentir de perto a agressividade dos Tapayuna, pois uma flecha caiu pertinho de mim. Na volta, subindo o Rio Arinos, em outro trecho do rio, encontramos um grupo de Tapayuna que se apresentou pacífico na beira do Rio. Tendo acompanhado o esforço e os perigos que o Pe. Adalberto Pereira e mais recentemente o Pe. Iasi e companheiros indígenas sofreram ao tentar um encontro pacífico com esses índios, não consegui mais dormir até o final daquela viagem. Chegando a Diamantino/MT, dirigi-me logo ao superior dos jesuítas, solicitando o envio imediato de pessoas para dar continuidade ao trabalho de Pe. Adalberto e Pe. Iasi. A resposta foi lacônica: “não temos ninguém!”; ofereci-me, então, disposto a interromper os estudos de teologia. Também não foi aceito! Acabei então deixando nas mãos do superior uma carta de alerta que concluía com uma advertência: “se neste meio tempo forem para lá aventureiros como fulano e sicrano (citei dois nomes) e desastrarem aquele povo, não os critiquemos”.

    Relatei depois ao Pe. Thomaz Lisboa, que já fora ordenado padre e que também, em carta, logo se prontificou a ir aos Tapayuna. Mas também não foi aceito. Não demorou dois meses e a FUNAI enviou as duas pessoas que citei na carta para a área. Já no primeiro contato se fizeram acompanhar por uma equipe de jornalistas das revistas Fatos e Fotos e Cruzeiro. Um dos jornalistas estava com gripe e deixou registrado em sua reportagem como transmitiu a gripe aos índios e o resultado da mesma. Consequência: em pouco menos de meio ano, o povo Tapayuna, estimado em aproximadamente 1.000 indivíduos, estava reduzido a 41 pessoas que foram transferidas em maio de 1970 para oParque Nacional do Xingu, perdendo as suas terras na margem do Rio Arinos. A transferência foi orientada pelo Pe. Iasi, mas não foi uma ação unânime entre os jesuítas da Missão Anchieta. Durante o período que passou no Barranco Vermelho, bem como dentro da Prelazia de Diamantino, o Pe. Iasi não se distinguiu muito na luta por mudanças na estrutura da presença missionária nas aldeias. Mas foi neste período que iniciou a sua luta pela garantia das terras indígenas.

     

    IHU On-Line – Quem eram os companheiros de padre Iasi tanto em seu trabalho desenvolvido nas comunidades indígenas quanto no Cimi? O senhor se lembra de outros padres, intelectuais e leigos que trabalharam com ele? Que pessoas foram importantes para a formação dele?

    Egydio Schwade – Por volta de 1966 chegou à Missão Anchieta o Ir. Vicente Kañas, um espanhol. Ir. Vicente ficou o cozinheiro na casa dos jesuítas em Diamantino. Um excelente cozinheiro! Nas férias de 1968, Pe. Thomaz Lisboa e eu o conhecemos e nos tornamos muito amigos. Sentimos no primeiro contato que o Ir. Vicente estava deslocado de sua real vocação. Tinha tudo para fazer um excelente trabalho nas aldeias e na linha proposta pelo Vaticano II. E ele concordou conosco e começou a lutar para ir morar em aldeia indígena, onde era o seu real lugar. Conto isto, embora esteja falando sobre o Pe. Iasi, porque a entrada no trabalho missionário indigenista do Ir. Vicente a partir de 1969 foi determinante para a mudança de atitude missionária junto aos índios. Determinante para quem já trabalhava na missão, como para quem estava chegando, tanto para o clero como para os missionários leigos da OPAN-Operação Anchieta. Assim junto aos índios Pareci, quem realmente deu rumo ao trabalho missionário ali, foi o Ir. Vicente. Foi também determinante devido a sua tranquilidade e atitude, nos primeiros contatos nos inícios dos anos 1970, tanto dos índios Myky como dos Enawene Nawe.

    O Pe. Iasi começou a se destacar mesmo no trabalho indigenista dentro do CIMI. Porque ali a sua atitude revolucionária foi aceita e valorizada. Iasi era um revolucionário incorrigível. Seja no trabalho fixo em aldeia, seja no trabalho institucional, Iasi criava conflitos. Jamais se adaptava. Em 1971 o Gal. Oscar Gerônimo Bandeira de Melo, Presidente da FUNAI, chamou-o para seu assessor. Iasi aceitou. Mas o General o demitiu em menos de um mês. Em 1974, quando apresentei o programa do Secretariado ao CIMI, Pe. Iasi se ofereceu para integrar a equipe do Secretariado Executivo. Foi aceito e imediatamente foi a campo ocupando o terreno mais vulnerável dos povos indígenas: a participação nas assembleias indígenas e a luta pela terra. A partir daí tornou-se bem próximo e conhecido dos povos indígenas de Norte a Sul. Os jornalistas insatisfeitos com os programas da Ditadura Militar frente aos povos indígenas também se aproximaram logo de Iasi. Os missionários leigos, tiveram sua visita frequente, em especial os da OPAN, que marcavam presença junto a aldeias há séculos abandonadas pela Igreja e pelo Estado, em amplo território da Amazônia, principalmente ao longo do rio Purus.

     

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  • 06/04/2015

    Apib entrega carta de reivindicações para Presidente Dilma Rousseff

    À Excelentíssima

    Senhora Dilma Rousseff

    Presidente da República Federativa do Brasil

    Prezada Presidente:

    Nós, cerca de 150 lideranças de distintos povos indígenas de todas as regiões do Brasil, reunidos em Brasília – DF, por ocasião do Seminário de Formação, preparatório da I Conferência Nacional de Política Indigenista, a ser realizada nesta capital no mês de novembro do corrente, profundamente preocupados pela crescente e grave violação sistemática dos nossos direitos, principalmente territoriais, verificada em distintos âmbitos do Estado e da sociedade brasileira, vimos por meio da presente manifestar à vossa excelência o nosso entendimento sobre essa situação e algumas das nossas principais reivindicações para serem atendidas pelo seu governo.

    No contexto e no espírito dos objetivos da Conferência presentes no Decreto de Convocação assinado pela Vossa Excelência, que propõem avaliar a relação do Estado com os povos indígenas, reafirmar os paradigmas constitucionais e definir as diretrizes de uma nova política indigenista, manifestamos:

    Não admitimos que seu governo continue com a decisão política de paralisar os procedimentos administrativos de demarcação das terras indígenas. Por isso reivindicamos que a Senhora Presidente assine os decretos de homologação das mais de 20 terras indígenas que estão sobre sua mesa uma vez que estas estão sem qualquer impedimento judicial e/ou administrativo para o ato. Da mesma forma, reivindicamos que o ministro da justiça publique as portarias declaratórias que estão na mesma situação, e que a Fundação Nacional do Índio (Funai) também publique os Relatórios Circunstanciados de terras concluídos e até hoje engavetados. Enfim, queremos que seu governo dê continuidade à demarcação de todas as terras indígenas do Brasil, muitas das quais estão até hoje sem nenhum procedimento demarcatório instituído, ao invés de tentar modificar os procedimentos demarcatórios e publicar sucessivos instrumentos como a Portaria 60/2015, que pretende agilizar e encurtar os prazos para licenciamentos ambientais que impactarão os nossos territórios, em detrimento da nossa autonomia e flagrante desrespeito à legislação nacional e internacional de proteção e promoção dos nossos direitos, principalmente a Constituição Federal e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.

    Pedimos que seu governo, ao invés de se dobrar aos interesses do capital, endossando iniciativas legislativas que atropelam e buscam suprimir os nossos direitos, como o PL 7735/2014, que regulamenta o acesso ao patrimônio genético e aos conhecimentos tradicionais, adote postura de defesa irrestrita dos nossos direitos inviabilizando a aprovação de Projetos de Lei e Propostas de Emenda Constitucional como o PL 1.610/96, da mineração em terras indígenas, e a PEC 215/2000 que transfere ao Congresso Nacional a prerrogativa constitucional, atualmente do Executivo, de demarcar as terras indígenas, titular as terras dos quilombolas e criar unidades de conservação.

    Da mesma forma queremos que o governo trabalhe junto ao Poder Judiciário, principalmente a Suprema Corte, para impedir que decisões parciais de anulação de portarias declaratórias e decretos de homologação  se consolidem, considerando como marco de ocupação tradicional o 5 de outubro de 1988. Tal interpretação, se confirmada, irá  restringir os direitos territoriais de muitos outros povos, aumentando decisões contra procedimentos de demarcação de terras e o clima de conflitos e violências contra os nossos povos.

    Reivindicamos, por fim, que o governo da Vossa Excelência, efetive na presidência da Fundação Nacional do Índio – Funai, o Dr. Flávio Chiarelli Vicente de Azevedo, para acabar com longos anos de sucessivos interinos, impossibilitados de exercer plenamente a sua função, em prejuízo do eficaz e satisfatório desenvolvimento do papel institucional do órgão indigenista.

    Para terminar, informamos que os nossos povos, representados por pelo menos 1.500 lideranças,  estarão mobilizados em Brasília, no período de 13 a 16 de abril próximo, realizando o nosso XI Acampamento Terra Livre. Na ocasião, esperamos não receber de seu governo promessas, mas sim respostas concretas às nossas reivindicações aqui apresentadas e a outras tantas que ao longo desta década temos reiterado.

    Atenciosamente.

    Assinamos

    Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – Apib

    Mobilização Nacional Indígena

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  • 04/04/2015

    Porantim 374: Maiores que o poder

    Em uma conjuntura extremamente desafiadora, mais de 1,5 mil indígenas, de cerca de 200 povos, realizaram o maior Acampamento Terra Livre que Brasília já presenciou. Apesar da ampla Mobilização Nacional, a falta de comprometimento dos representantes dos Três Poderes com a garantia dos direitos indígenas evidencia uma certeza: a luta pelas suas vidas precisa ser intensificada.

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  • 04/04/2015

    Encarte pedagógico 3: Territórios e espaços de viver

    Encarte pedagógico, voltado a professores e professoras, que acompanhou a edição 374 do jornal Porantim.

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  • 02/04/2015

    PGR recorre de decisão que não reconhece Aldeia Limão Verde como terra indígena

    O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentou recurso contra decisão da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) de que a Fazenda Santa Bárbara, localizada no município de Aquidauana, Mato Grosso do Sul, não é terra de ocupação tradicional indígena da Comunidade Terena, da Aldeia Limão Verde/Córrego Seco. Para o Ministério Público Federal (MPF), a utilização do marco temporal da ocupação não levou em consideração o processo de expulsão dos indígenas. Os embargos de divergência foram apresentados ao Recurso Extraordinário com Agravo número 803.462.

    O chamado marco temporal refere-se ao julgamento da PET 3388, que tratou da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. No julgamento, o STF estabeleceu a data da promulgação da Constituição Federal, 1988, como marco temporal para análise de casos envolvendo ocupação indígena.

    De acordo com laudo pericial, houve ocupação indígena para uso habitacional das terras da fazenda Santa Bárbara até 1953, quando, em meio ao processo de demarcação, ocorreu a expulsão dos índios da área. No entanto, a ocupação para utilização dos recursos naturais e ambientais permanece até os dias de hoje, pois os indígenas ainda praticam a caça e a coleta na serra.

    “No caso, o fato de os índios terem deixado as terras em particular momento da história não decorreu de movimento natural da população. Foi, antes, produto de esforço levado a cabo pelo próprio Poder Público e por agentes econômicos interessados”, argumenta Janot.

    Nos embargos, o PGR defende a relativização da aplicação do marco temporal de 1988 em razão da saída forçada dos indígenas, além de não ter havido a descaracterização da tradicionalidade da ocupação indígena das terras. “A observância cega do marco temporal importa desrespeito à Constituição, porque impede qualquer possibilidade de reconhecimento do direito da comunidade indígena em questão às terras tradicionalmente ocupadas”, complementa.  

    Significado histórico e cultural – A terra indígena Limão Verde/Córrego Seco tem grande significado histórico e cultural para os Terena,  por ter servido como refúgio durante a Guerra do Paraguai. Documentos registram que, pelo menos desde 1865, há registros de aldeamentos indígenas no local. A partir de 1882, iniciou-se processo de colonização conduzido por um grupo de coronéis com a constituição da vila de Aquidauana e de propriedades rurais e urbanas, fazendo com que, em 1895, tivesse início o processo de titulação de terras.

    Confira a íntegra do recurso.

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  • 31/03/2015

    Direitos indígenas são defendidos durante audiência na Comissão de Direitos Humanos da Câmara

    A Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados realizou, na última quarta-feira (25), audiência pública com mais de 20 entidades da sociedade civil e representantes de movimentos sociais, além da ministra Ideli Salvatti, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, para debater propostas e chegar a uma agenda conjunta de trabalho neste ano. A audiência foi presidida pelo deputado Paulo Pimenta (PT-RS), presidente da Comissão.

    Representantes dos povos indígenas defenderam a pauta como prioridade para a CDHM. Paulino Montejo, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), ressaltou a importância da atuação da Comissão na garantia dos direitos indígenas “No atual momento político que o Brasil atravessa, nos deparamos com uma conjuntura de ataque sistemático, supressão e regressão dos direitos indígenas garantidos pela Carta Magna de 1988, isso em todos os âmbitos do estado brasileiro. Há uma responsabilidade do Poder Legislativo, de dar um basta a essa perspectiva etnocida e genocida que está em curso no Brasil. E a Comissão de Direitos Humanos tem esse papel fundamental”.

    Cleber Cézar Buzatto, secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), enfatizou três pontos a serem considerados pela Comissão em seu planejamento e ação neste ano: O envolvimento do governo federal para que os procedimentos de demarcação de Terras Indígenas – paralisados pelo Poder Executivo – voltem a tramitar; o apoio da CDHM na defesa do conteúdo dos Artigos 231 e 232 da Constituição Federal “que estão sendo, na nossa avaliação, também desrespeitados em algumas instâncias do Poder Judiciário”; e “principalmente o apoio aos povos indígenas na luta que eles têm feito para fazer frente ao ataque violento e sistemático que se faz aqui dentro da Câmara, especialmente pela bancada ruralista por meio de instrumentos como a PEC 215/00, o PL 7735, a PEC 237, o PLP 227 e tantos outros que tramitam nessa Casa e por isso os povos indígenas precisam do apoio incondicional e do envolvimento da CDHM para que esses ataques, esses instrumentos anti-indígenas não tenham seguimento nesta Casa.

    Buzatto defendeu ainda o envolvimento da Comissão no processo de apoio à reforma política efetiva “que seja na perspectiva de acabar com os financiamentos empresariais às campanhas políticas no país, para que nós possamos acabar com as bancadas da JBS, da Cargill, a bancada da Bungue, das indústrias armamentícias, a bancada do Bradesco, a bancada do Itaú, porque elas estão fortes por receberem vultuosos financiamentos empresariais nas suas campanhas e aqui representam os interesses desses setores contra os interesses dos povos indígenas, dos quilombolas, dos pequenos agricultores e de tantos outros setores da sociedade que são atacados”.

    Erina Batista, da Terra de Direitos, lembrou a necessidade do fortalecimento do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos. “Colocamos na responsabilidade dessa Casa avançar na aprovação do PL 4575/2009, que institui o Programa de Proteção. Precisamos estabelecê-lo como uma política pública de Estado e assim forçar os estados a aderir a essa política, porque tem sido uma dificuldade concreta fazer com que os estados assumam o seu papel de proteger os defensores de direitos humanos. A gente tem hoje um quadro em que vários estados não querem conveniar com o governo federal pra instituí-lo, e avaliamos que um dos elementos de enfraquecimento é porque o Programa não tem Projeto de Lei aprovado”.

    Rosane Kaingang, da Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (ArpinSul), organização membro da Apib, pediu o empenho dos parlamentares na aprovação de projetos favoráveis aos povos “A PEC 320, que fala da representação indígena dentro do Congresso Nacional, porque se nós povos indígenas não temos representantes aqui dentro, não podemos ser defendidos. Temos também o PL 3571, que cria o Conselho Nacional de Política Indigenista”. Ainda foram solicitadas por Rosane, em nome dos povos indígenas, duas audiências públicas. Uma para que os povos indígenas possam ser ouvidos em relação à demarcação de seus territórios, e outra para tratar do PL 7735 “Que não somente afeta aos indígenas como aos quilombolas, comunidades tradicionais e unidades de conservação”.

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  • 30/03/2015

    Decisão do STF reforça ataque aos direitos territoriais indígenas

    Menos de seis meses após as decisões que anularam as portarias das Terras Indígenas Guyraroka, dos Guarani-Kaiowá (MS), e Porquinhos, do povo Canela Apanyekrá (MA), a 2ª Turma do STF volta a colocar em questão o direito de um povo indígena à terra: os Terena da Terra Indígena Limão Verde (saiba mais).

    Publicado em 12 de fevereiro último, o acórdão da decisão, favorável à anulação da portaria que reconhece a TI Limão Verde como área tradicionalmente ocupada pelos índios, é o primeiro a incidir sobre uma terra que chegou ao último estágio do processo demarcatório – a homologação, ocorrida em 2003 –, mas o terceiro a se valer da tese do “marco temporal” para tanto. A Funai deve recorrer da decisão. Leia o acórdão.

    Essas três recentes deliberações da 2ª Turma contradizem entendimentos do próprio Supremo em outras decisões. Em outubro de 2013, ao julgar os embargos declaratórios do julgamento da Terra Indígena Raposa-Serra do Sol, a maioria do plenário do STF decidiu que as condicionantes impostas a este caso não eram vinculantes para outras demarcações sub judice. A tese do “marco temporal”, uma das condicionantes da Raposa, sustenta que os índios só teriam direito às terras efetivamente ocupadas em 5 outubro de 1988, na data da promulgação da Constituição.

    Interpretação restritiva

    Um ano depois, em outubro de 2014, o mesmo plenário negou em decisão unânime um recurso que pretendia anular a demarcação da TI Yvy Katu, do povo Guarani Kaiowá (MS), baseada justamente no fato de que o “marco” não pode ser aplicado para determinar se uma terra é ou não é indígena se a população tiver sido expulsa da área por não indígenas – o que chamamos de esbulho. (Saiba mais).

    Para o advogado do ISA, Maurício Guetta, a 2ª Turma do STF equivoca-se ao adotar uma interpretação restritiva do direito indígena à terra previsto na Constituição. Ele explica: “Há consenso na doutrina e na jurisprudência no sentido de que a interpretação de direitos fundamentais deve se dar de forma ampliativa e não restritiva. Tal equívoco se evidencia com clareza no caso da TI Limão Verde, pois, além de se utilizar do limitante requisito do ‘marco temporal’, a 2.ª Turma ainda restringiu o conceito de ‘renitente esbulho’, adotado no caso da TI Raposa-Serra do Sol (TI RSS) o que se mostra grave, ainda mais se considerarmos o impacto que essa interpretação poderia ter sobre outras TIs já consolidadas formal e materialmente no Brasil”. Na opinião de Guetta, em vez de contribuir para solucionar os conflitos fundiários sobre terras indígenas, por meio de decisões como essa, o STF acaba por trazer mais insegurança jurídica tanto para indígenas quanto para não indígenas.

    Segundo a interpretação da 2ª Turma no caso de Limão Verde, a área só seria considerada indígena, caso a população não estivesse fisicamente na área – marco temporal –, mas estivesse judicialmente disputando sua posse ou em conflito com os proprietários em outubro de 1988. Nesse caso, a restrição da ideia renitente esbulho foi mobilizada para permitir a aplicação da tese do marco temporal: o relator do caso, o ministro Teori Zavascki, utilizou-se do fato de os indígenas terem sido expulsos da área em 1953 para sustentar que não ocupavam fisicamente a área em 1988.

     “Nós nunca nos afastamos daquela terra”

    A área da Limão Verde foi delimitada pelo decreto estadual (nº 795), a partir da doação de dois mil hectares de terras devolutas do município de Aquidauana (MS). E como em outras terras do Mato Grosso do Sul, excluíam, inicialmente, importantes áreas de ocupação tradicional. E mesmo expulsos das áreas não reservadas em 1953, os Terena continuaram praticando a caça e a coleta nesses locais.

    O relatório de identificação da terra registra que em 1982 o cacique de Limão Verde, Amâncio Gabriel, enviou uma carta à presidência da Funai solicitando uma equipe para realizar o levantamento da área, exígua para a subsistência da comunidade terena e intensamente invadida por fazendeiros. “(…) Nas constantes reivindicações encaminhadas, sempre referiram-se insistentemente ao cemitério tradicional deixado de fora, tanto por escrito como pessoalmente, nas sacrificadas viagens que, de vez em quando as lideranças empreendiam a Brasília, na esperança de um atendimento que não se concretizava”, registra o estudo.

    Só nos anos 1990 é que a Funai atenderia a estas demandas, identificando a área de 4.886 hectares, agora anulada judicialmente. A partir da decisão da 2ª Turma, os Terena contam apenas com a área reservada em 1928, de menos de dois mil hectares. Com base em registros documentais, depoimentos e na demonstração da presença dos Terena em Limão Verde por mais de seis gerações, esse relatório foi publicado em 1997 – registrando a incidência de mais de 30 propriedades privadas.

    Mapa mostra área da TI Limão Verde

    Logo após a homologação, 2003, os proprietários das fazendas ingressaram com ação na Justiça pedindo que a portaria declaratória fosse anulada. Os Terena, por seu turno, aguardando a desintrusão completa da área, passaram a retomar as áreas de ocupação tradicional. Em 2008, eles reocuparam os 392 hectares ocupados pela Fazenda Santa Bárbara; em 2009, as fazendas da Mocinha e Bonanza, com 150 e 400 hectares, respectivamente.

    Segundo o advogado e pesquisador indígena Luiz Henrique Eloy Amado, do povo Terena, a decisão foi recebida com surpresa pela comunidade de Limão Verde e também pelos demais Terena – que apresentaram no último dia 18 de março um pedido de anulação da decisão e querem que o caso seja analisado pelo pleno do STF (saiba mais). “Todas as lideranças ficaram assustadas com isso. Todos nós”, testemunha Eloy, lembrando que, graças à homologação, a TI Limão Verde era tida como uma das únicas terras terena garantidas.

    O advogado terena também critica a tentativa dos ministros da 2ª Turma de firmar uma nova interpretação sobre o conceito de esbulho. Para ele, do ponto de vista jurídico, não existe qualquer possibilidade de aplicação do marco temporal no caso da TI Limão Verde. “Do ponto de vista material nós nunca nos afastamos daquela terra”, afirma. Isso é comprovado pelos laudos antropológicos da Funai e também pela perícia judicial do antropólogo Andrei Cordeiro. Tanto é que em primeira instância, a comunidade ganhou. E, no TRF, quando os fazendeiros apelaram, a comunidade também ganhou. No STF, o recurso que eles usaram é muito frágil; não permite analisar a fundo os fatos”.

    Área foi local de refúgio na Guerra do Paraguai

    Eloy Amado conta que, por ter sido local de refúgio durante a Guerra do Paraguai, a TI Limão Verde tem um forte significado histórico e cultural para os Terena, que continuaram na região mesmo após a titulação das terras, trabalhando nas fazendas. Na história terena, esse período foi chamado de “tempo de servidão” (saiba mais). “Nos casos em que os Terenas não estavam [na terra] é porque eles foram colocados nas reservas pelo próprio braço estatal”, afirma. “Os índios, de fato, não poderiam naquela época reclamar os seus direitos; até então eram tutelados pela Funai. É muito recente a possibilidade de os índios irem ao Judiciário defender os seus direitos”.

    De fato, em dezembro de 2009, foi justamente com base na jurisprudência do Supremo para o julgamento da demarcação da TI Raposa-Serra do Sol que a Justiça Federal de Mato Grosso do Sul legitimou a demarcação de Limão Verde, reconhecendo que a população Terena que a ocupa foi esbulhada de suas terras durante o processo de colonização do estado.

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