• 02/09/2015

    Chumbo grosso e pressa

    Assim poderíamos caracterizar a estratégia do agronegócio, bancada da bala, bancada fundamentalista religiosa e setores anti-indígenas para esse dia 2 de setembro. Chumbo grosso e pressa. Na pauta, a aprovação do relatório da Comissão Especial da PEC 215, na Câmara dos Deputados, que Daniel Guarani-Kaiowá chamou de PEC do genocídio. Em Campo Grande, capital do Estado mais violento e anti-indígena do país, assinaturas foram coletadas para a instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) contra os direitos indígenas, denominada CPI do Cimi.

    Repete-se a mesma estratégia de 1987, quando, por ocasião da Constituinte se instituiu no parlamento brasileiro a CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) com o intuito de impedir a conquista dos direitos indígenas na Constituição. O mecanismo que as mineradoras, políticos, setores militares, madeireiras, latifundiários utilizaram foi exatamente o mesmo: atacar os direitos indígenas atacando seus aliados, particularmente o Cimi.

    Naquela ocasião, Dom Luciano Mendes de Almeida, então presidente da CNBB, de forma brilhante, fez a defesa dos povos indígenas, da verdade e do Cimi. E a farsa, as mentiras foram desmascaradas e os direitos indígenas conquistados.

    Velório nos Três Poderes

    Depois da caminhada com o caixão e muita indignação pelo espaço dos poderes, sob um sol escaldante e abrasador, finalmente lideranças indígenas de vários povos e entidades aliadas de todo o país chegaram à rampa do Congresso. Depressa, as forças de segurança impediram a continuidade da caminhada. “Nós apenas queremos colocar aqui, diante dessa casa onde se encontram cúmplices do assassinato de nossa liderança Simeão Kaiowá Guarani de Nhanderu Marangatu, do Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai. Que venham os parlamentares envolvidos nesse assassinato. Vejam no caixão nosso irmão assassinado”, desabafou uma das lideranças desse povo, em meio a rituais para espantar os maus espíritos.

    O caixão contendo o nome de vários inimigos dos índios no Mato Grosso do Sul foi abandonado na rampa da casa do povo, causando um constrangimento na segurança que não sabendo como proceder pediu aos índios para retirassem o caixão. Ao que prontamente veio a resposta: “O caixão é de vocês. Ali estão assassinos dos povos indígenas”.

    Antes da ida à rampa do Congresso, foi feita uma parada, em frente ao Palácio do Planalto. Lá foi exigida da presidente da República a imediata retomada da demarcação das terras indígenas, como condição fundamental para impedir o derramamento de sangue e mais assassinatos no Mato Grosso do Sul e em todo o país.

    Um dos momentos fortes do velório de Simeão Kaiowá Guarani foi diante do Supremo Tribunal Federal. Ali foram feitas falas indignadas pela omissão e inércia do Poder Judiciário, que é ágil contra os índios e moroso quando se trata da garantia dos direitos indígenas. Foi lembrado que fazem dez anos que ali se encontra uma decisão liminar que suspendeu os efeitos da homologação de 9.300 hectares (dos quais os índios estão confinados em apenas 126 hectares). Houve a promessa de retomada do julgamento desta ação, com a máxima agilidade. As lideranças da área estiveram inúmeras vezes no STF e obtiveram do então relator da ação, ministro Cezar Peluzzo, a promessa de que já estava com seu relatório pronto e que agilizaria a decisão. Até hoje nada. A relatoria está atualmente com o ministro Gilmar Mendes!

    Celebrando a esperança e indignação

    A caminhada do velório iniciou em frente à Catedral, com uma primeira parada no Ministério da Agricultura, de Kátia Abreu, inimiga ferrenha dos direitos indígenas e uma das principais responsáveis pela expansão do agronegócio, numa onda de destruição ambiental, sem precedentes na história desse país.

    E foi na Catedral de Brasília que, às 20 horas, se encerrou a manifestação contra a violência, os assassinatos dos índios, com um culto ecumênico articulado pelo Conselho Mundial de Igrejas.

    Lá estavam lideranças indígenas e aliados. Lá estava a esperança. Nas preces e nas falas o apelo de socorro da Mãe Terra e de seus filhos primeiros, originários, os povos indígenas.

    Assim como a ação violenta e apressada dos fazendeiros e seus pistoleiros, dos políticos e seus sequazes, do grande capital nacional e internacional com seus tentáculos insaciáveis de lucro e acumulação, a esperança e a paz avançarão rumo à justiça com igualdade e diversidade respeitada.

    Se hoje os ruralistas têm balas e pressa, certamente esse dia passará para a história como mais uma luta extremamente desigual, mas heroica dos habitantes originários desse continente e seus aliados, e todos os batalhadores da vida e sobrevivência do planeta terra.

     

     

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  • 02/09/2015

    Ruralistas forçam votação de parecer favorável à PEC 215 dias depois de assassinato de indígena no MS

    Depois de ter parlamentares envolvidos nos momentos que antecederam e durante o ataque de fazendeiros contra a comunidade Guarani e Kaiowá de Ñanderú Marangatú, na manhã do último sábado, a bancada ruralista empreende novo ataque contra os povos indígenas, dessa vez na Câmara Federal. O presidente da Comissão Especial que analisa a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215, deputado Nilson Leitão (PSDB-MT), convocou para às 12h10 desta quarta-feira, 2, a votação do parecer favorável à proposta, de relatoria do também ruralista Osmar Serraglio (PMDB-PR).

    O parecer tramita em comissão instalada pela Mesa Diretora da Câmara. Caso o documento seja aprovado, a PEC 215 estará apta a ir ao voto dos parlamentares no Plenário. “Só vai piorar a situação. Vai ficar mais tenso. Mostra também que esses deputados estão ali para defender os interesses de seus grupos, mostra o quanto são cruéis. O povo indígena não vai deixar de reivindicar sua terra”, diz Otoniel Guarani e Kaiowá.  

    Se no Mato Grosso do Sul os parlamentares se engajaram num movimento que terminou em ação violenta de fazendeiros contra os indígenas, culminando na morte de Semião Vilhalva Guarani e Kaiowá, caso do deputado Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), suplente na Comissão Especial da PEC 215, no Congresso a proposta pretende transferir do Poder Executivo para o Legislativo o procedimento administrativo de demarcação de terras indígenas, quilombolas e a criação de áreas de preservação ambiental.

    A proposta, apresentada pelo então deputado Almir Sá, em 2001, vem sendo forçada pela bancada ruralista desde 2011, tornando-se prioridade depois da aprovação do novo Código Florestal, cujo texto final beneficiou o agronegócio. Em abril 2013, o movimento indígena ocupou o Plenário Ulysses Guimarães da Câmara Federal. Como parte da negociação para a desocupação, uma comissão mista, composta por indígenas e parlamentares, foi organizada. Depois de uma dezena de sessões, em audiências que contaram com juristas, Almir Sá e o próprio relator Osmar Serraglio, um relatório apontou para a inconstitucionalidade da PEC 215.

    O documento foi encaminhado para as duas comissões especiais instaladas pela presidência da Câmara, mas sem nenhuma consideração por parte da bancada ruralista. A primeira comissão não votou o parecer, até o final da última legislatura, e acabou encerrada em dezembro do ano passado. Com a eleição de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência da casa este ano, os ruralistas ganharam um aliado. Poucos dias depois de se filiar à Frente Parlamentar Agropecuária, Cunha reinstalou a Comissão Especial da PEC 215.

    Em abril deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou o Ministério Público Federal (MPF) a investigar o presidente da Comissão Especial, deputado Leitão, sobre o envolvimento do parlamentar em invasões à Terra Indígena Marãiwatsédé, no Mato Grosso, comprovado por escutas telefônicas. Nessas mesmas escutas, o relator do parecer da PEC 215, deputado Serraglio, como integrantes de esquema que pagou R$ 30 mil a lobista da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), então presidida pela atual ministra da Agricultura Kátia Abreu, para a realização de um novo parecer da PEC 215.

     

     

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  • 01/09/2015

    Coiab divulga nota de apoio aos Guarani e Kaiowá e exige providências do governo federal

    A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), principal entidade de articulação e mobilização dos Povos Indígenas da Amazônia Brasileira, vem a público, primeiramente, se solidarizar e manifestar seu incondicional apoio aos nossos parentes Kaiowá e Guarani, na luta pela autoretomada dos seus territórios; e ao mesmo tempo em que vimos repudiar, veementemente, a série de violências e atentados cometidos contra os nossos parentes, diante do acontecido nos últimos dias, e em especial ao ato criminoso do dia 29/08/2015, que levou ao assassinato do líder Semião Vilhalva, no Estado do Mato Grosso do Sul.

    O não esclarecimento e tomada de providências em tempo devido e de forma adequada ao povo Kaiowá e Guarani, somente vem a reforçar mais ainda o clima de insegurança e acirramento de conflitos que estes povos indígenas vêm sofrendo há anos nesta região.

    Por conta dos protestos e do clima de terror provocado pelos ruralistas, e com total apoio de parlamentares do poder legislativo federal, culminaram em diversos ataques aos Guaranis e Kaiowá.

    Diante do total descaso por parte do Estado Brasileiro, do Poder Público, a COIAB vem solicitar e exigir da FUNAI e de órgãos como o Ministério Público Federal, Ministério da Justiça, Secretaria Geral da Presidência da República e das Comissões de Direitos Humanos da Câmara e do Senado, providências prementes no sentido de que sejam evitadas novas tragédias de ambos os lados naquela região, e que seja garantido o direito constitucional dos povos indígenas há demarcação dos seus territórios.

    A situação é muito preocupante, pois, afeta diretamente as famílias indígenas que vivem com suas crianças, mulheres, jovens e idosos na região, estes que precisam ser resguardadas de qualquer ato de violência, genocídio e sua integridade física devem ser preservadas.

    Diante de tanta violência, contra os povos Guarani e Kaiowá, afirmamos que o governo da presidente Dilma Rousseff deve ser responsabilizado por tamanha desumanidade contra os povos indígenas do Brasil. Além de violar a Constituição Federal, e todos os tratados internacionais sobre os direitos indígenas, exigimos dos órgãos competentes e em especial do governo Dilma, o rigor na apuração e responsabilização dos atos criminosos.

    Por fim, reiteramos a nota da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB, organização de mobilização nacional da qual a COIAB é membro e conclama a todos os povos e organizações indígenas da Amazônia Brasileira, a somarmos forças nessa luta, junto aos parentes Kaiowá e Guarani e continuarmos unidos na luta pela defesa dos territórios e direitos dos povos indígenas do Brasil.

    Somos todos Kaiowá-Guarani, Somos todos Amazônia, Somos todos Brasil!!!

    Manaus, 01 de setembro de 2015

     

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  • 01/09/2015

    Indígenas Guarani e Kaiowá peticionam no STF pedido para que ministros destravem homologação de Ñanderú Marangatú

    Lideranças da Aty Guasu, principal organização política Guarani e Kaiowá, protocolaram no Supremo Tribunal Federal (STF) na tarde desta terça-feira, 1, uma petição solicitando o fim da suspensão dos efeitos do decreto de homologação da Terra Indígena Ñanderú Marangatú, há uma década aguardando o julgamento da Corte.

    A petição foi encaminhada ao ministro Gilmar Mendes, atual relator do processo, durante protesto na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, pelo assassinato de Semião Vilhalva Guarani e Kaiowá. O indígena levou três tiros durante ataque de cerca de 100 fazendeiros, no último sábado, liderados pela presidente do Sindicato Rural de Antônio João, Roseli Maria Ruiz.

    Ñanderú Marangatú foi homologada com 9.300 hectares. Em setembro de 2005, uma ação contra a homologação acabou nas mãos do então ministro Nelson Jobim, que em decisão liminar suspendeu os efeitos do decreto de homologação da Presidência da República até que a ação fosse julgada pelos ministros do STF.

    A ação partiu da família de Roseli Ruiz, proprietária de fazendas incidentes em Ñanderú Marangatú. Dois meses depois da decisão de Jobim, em dezembro do mesmo ano, a Polícia Federal usou helicópteros, armas e dezenas de agentes para despejar de uma das áreas de Ñanderú Marangatú famílias Guarani e Kaiowá – não por coincidência das fazendas Ruiz. Os rasantes da aeronave sobre crianças em pânico até hoje são lembrados pelos indígenas.

    Outro documento foi protocolado pelos indígenas na tarde desta terça no STF, dessa vez ao presidente da corte, ministro Ricardo Lewandowski, denunciando a omissão do governo federal diante do cumprimento dos termos constitucionais envolvendo o direito à terra dos povos indígenas, as tentativas da bancada ruralista no Congresso Nacional de destruir as leis que protegem os direitos indígenas e a necessidade da Corte Suprema proteger tais direitos.

    Descaso e omissão

    A manifestação dos indígenas reuniu os povos Guarani e Kaiowá, Terena, Munduruku, Baré, Kambeba e Baniwa. A partir das 15 horas, se concentraram na altura da Catedral de Brasília e de lá, simulando um cortejo, partiram Esplanada adentro. No Ministério da Agricultura, cuja ministra é a ruralista Kátia Abreu, os indígenas pararam e fizeram rituais. Depois seguiram para o STF, onde protocolaram documentos e deram entrevista coletiva para os profissionais de imprensa que acompanhavam o protesto.

    Olhando para o caixão usado no ato, Daniel Vasques Guarani e Kaiowá, liderança da Aty Guasu, principal organização política do povo, disse: Aqui tá o corpo do Semião, a prova do que o governo federal, o Congresso e o STF fazem com nosso povo. Esse caixão representa o que o agronegócio faz com nosso povo. Presidente Dilma, esse caixão é resultado da sua falta de coragem".

    Acompanhando os indígenas no protesto, o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, deputado Paulo Pimenta, declarou que a morte de Semião é resultado da omissão e do descaso do Estado brasileiro. “Há dez anos saiu a homologação, obedecendo toda a legislação vigente de demarcação das terras indígenas. Uma ação suspende seus efeitos e uma década depois nada é resolvido e a homologação cumprida”, disse.

    O cortejo seguiu para o Palácio do Planalto. No local, os indígenas criticaram durante a presidente Dilma Rousseff pela sua opção em se associar aos ruralistas, sendo conivente com os crimes impetrados por eles no campo brasileiro. “Pra presidente parece ser mais fácil prender um índio num caixão do que o fazendeiro que mata. Nesse país parece que só funciona pro latifundiário, só funciona pra quem acha que um boi vale mais que uma criança indígena”, declarou Anastácio Peralta Guarani e Kaiowá.  

    Chamem o coveiro Cardozo

    No gramado do Ministério da Justiça, os indígenas fizeram um velório simbólico, com o caixão representando os indígenas assassinados, e chamaram pelo coveiro, o ministro José Eduardo Cardozo. “Queríamos que os governos da Europa, dos Estados Unidos, do Japão nos ouvissem e não comprassem mais um grão, um saco de açúcar, um pedaço de carne do Brasil. Quando esses produtos saem daqui, levam consigo um pedaço de corpo indígena”, desabafou Daniel Guarani e Kaiowá.

    Como o coveiro não apareceu, os indígenas tentaram subir a rampa do Congresso Nacional com o caixão, mas foram impedidos pelos seguranças. Então passaram a entoar cantos, rezas e danças rituais. “O deputado (Luiz Henrique) Mandeta (DEM-MS) estava no ataque que matou Semião. Outra deputada, a Tereza Cristina (PSB-MS), fala sempre contra indígena, não acha que temos direitos”, declararam os Guarani e Kaiowá às portas do Congresso.    

    O caixão acabou não enterrado pelos indígenas: solitário, repousou como um símbolo desagradável de um Brasil colonial, desenvolvimentista em marcha à ré, mas na rampa de traços modernos do mausoléu de mármore em que se transformou o Congresso Nacional.  

              

               

     

     

     

  • 01/09/2015

    Indígenas convocam entrevista coletiva hoje para denunciar assassinato em Ñanderú Marangatú (MS)

    Brasília, 1º de setembro 2015 – Cerca de 70 professores e lideranças indígenas de seis povos (Guarani-kaiowá, Terena, Munduruku, Baré, kambeba e Baniwa) realizam na tarde de hoje, 1º setembro, atos em protesto ao assassinato de mais um líder Guarani-Kaiowá, Semião Vilhalva, de 24 anos. Ele foi alvejado durante um ataque armado realizado por cerca de cem fazendeiros e jagunços, acompanhados de políticos da região, ao acampamento indígena no último sábado, dia 29, no município de Antônio João, no Mato Grosso do Sul. Outros indígenas, incluindo crianças de colo, foram atingidos por balas de borracha. A área em disputa, Ñanderu Marangatú, é reconhecida e foi homologada como terra tradicional indígena desde 2005 pelo próprio Estado brasileiro. Em meio aos atos, que serão realizados em frente a órgãos públicos considerados responsáveis pela situação de abandono a que os povos indígenas estão relegados, será realizada uma entrevista coletiva às 15h30, no gramado lateral do Supremo Tribunal Federal (STF).

    O objetivo principal do ato é protestar contra a morte de mais uma liderança indígena no país, denunciar a organização e operação de ações paramilitares no Mato Grosso do Sul (estado mais violento contra os povos indígenas em todo o Brasil) e a política indigenista do Estado brasileiro que, ao privilegiar os interesses do agronegócio e das elites ruralistas, está dizimando os povos indígenas do Brasil. Este não é o primeiro assassinato de liderança indígena na mesma região. Em novembro de 1983, Marçal de Souza Tupã-Y foi assassinado e silenciado em sua luta pelo respeito aos direitos dos povos originários. Em dezembro de 2005, Durvalino Rocha foi assassinado por jagunços contratados por fazendeiros da região.

    A total paralisação das demarcações de terras, devido à omissão do poder Executivo no cumprimento de seus deveres constitucionais, é considerada pelos indígenas como a causa principal do aumento da violência nas aldeias e comunidades. Ao mesmo tempo, a bancada ruralista, financiada pelas corporações e representantes do agronegócio, coloca toda sua munição no sentido de mudar a legislação, através de diversos projetos de lei e emendas à Constituição, e conseguir ter acesso às terras indígenas e aos bens naturais existentes nelas. Além disso, parlamentares vêm, constantemente, incitando ódio e preconceito em discursos anti-indígenas em todas as regiões do Brasil. Recentes decisões do Judiciário também têm negado direitos constitucionais dos povos originários do Brasil, ao reduzir o conceito de terra tradicional, e, desse modo, funcionam como pólvora e gatilho para a sanha dos fazendeiros da região do Mato Grosso do Sul. Paralisada há 10 anos no STF, se a homologação da Terra Indígena Ñanderú Marangatú tivesse sido concluída, Simeão não teria sido assassinado.

    Diante da gravidade dos recentes ataques realizados pelos fazendeiros da região, com participação de políticos e o apoio de forças policiais, representantes da Grande Assembleia Aty Guasu Guarani-Kaiowá solicitaram ontem (31 de agosto) uma audiência com a presidente da República Dilma Rousseff. “A qualquer momento, existe possibilidade de genocídio praticado por ataques paramilitares contra nosso povo por parte de milícias que desrespeitam a estrutura do Estado, suas leis, suas atribuições e lideranças/autoridades, ferindo a soberania nacional”, afirma o ofício de solicitação da audiência.

    Com cerca de 50 mil indivíduos, os Guarani-Kaiowá compõem a segunda maior população de indígenas do Brasil. Todas as terras indígenas reivindicadas por eles totalizam uma porção de terra de apenas cerca de 2% da área do estado do Mato Grosso do Sul.

     Serviço

    O quê – Coletiva de Imprensa com lideranças e professores indígenas

    Quando – Hoje, 1º de setembro de 2015, às 15h30

    Onde – No gramado lateral do Supremo Tribunal Federal (STF), no final da Esplanada dos Ministérios

    Mais informações: Assessoria de Imprensa:

    Oswaldo Braga – 61 9979-5156, [email protected]

    Patrícia Bonilha – 61 8138-7739, [email protected]

     

  • 01/09/2015

    Cese manifesta indignação por assassinato de Semião Guarani e Kaiowá

    “Ai de vós, que juntais casa a casa e que acrescentais campo a campo, até que não hajas mais lugar e sejais os únicos donos da terra” (Isaías 5,8)

    A Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese) manifesta sua indignação com mais uma morte de um indígena Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Desta vez, a vítima foi Semião Vilhalva, morto neste sábado, 29 de agosto, com um tiro na cabeça, no tekoha Ñanderu Marangatu, no município de Antônio João.

    De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e com a Aty Guasu, que reúne lideranças Guarani Kaiowá, Simão Vilhalva foi morto por fazendeiros, que tentavam retomar uma fazenda ocupada que é reivindicada como território tradicional da comunidade Ñanderu Marangatu, reconhecida e homologada desde 2005.

    Entretanto, a suspensão dos efeitos da homologação, seguido por uma ordem de despejo, retirou os indígenas de suas terras, estendendo a situação de conflito.

    A morte de Semião Vilhalva não deixa de ser o resultado da paralisação, por parte do governo federal, dos procedimentos de demarcação das terras indígenas, e da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de suspender os efeitos da homologação da Terra Indígena Ñanderu Marangatu, submetendo estas famílias indígenas a uma crise humanitária reconhecida por organismos internacionais como uma das mais graves do mundo.

    Assim, o mínimo que podemos esperar do Ministério da Justiça, do Ministério Público Federal e da Polícia Federal é rigor na apuração dos fatos e punição aos responsáveis por mais essa vida ceifada. Além disso, reafirmamos a urgência de medidas que garantam os direitos constitucionais dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul, Estado que concentra o maior índice de indígenas mortos no país. Que também carrega denúncias de ação de forças paramilitares, que agem sob o comando de ruralistas, em ataques contra povos indígenas, ferindo o Estado Democrático de Direito.

    A CESE se solidariza com a família de Simão Vilhalva, como o povo Guarani Kaiowá, com os demais povos indígenas do Mato Grosso do Sul. Não se calarão as vozes dos guerreiros e guerreiras dessa terra, não se acovardarão os defensores e defensoras dos direitos humanos. Vilhalva, presente!

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  • 31/08/2015

    Apib divulga nota sobre assassinato de Semião Guarani e Kaiowá com críticas ao Ministério da Justiça

    A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB, manifesta, em primeiro lugar, a sua solidariedade aos familiares e aos povos kaiowá e guarani, diante o assassinato do líder Simião Vilhalva, acontecido no dia 29 de agosto último, na Terra Indígena Ñande Rú Marangatú, em Antonio João, Estado de Mato Grosso do Sul, por ação direita de fazendeiros da região, numa verdadeira operação de guerra, liderada pela presidente do Sindicato Rural de Antônio João, Roseli Maria Ruiz. Neste território sagrado já tombaram Marçal de Souza Tupã‘i, em 25 de novembro de 1983, Dorvalino Rocha, em 24 de dezembro de 2005, ano em que o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu os efeitos do decreto de homologação desta terra indígena.

    Nesta ação dos ruralistas, planejada com a participação de parlamentares federais na sede do sindicado rural de Antonio João, mulheres e crianças saíram feridas. Uma criança de um ano de idade foi atingida nas costas e na nuca por bala de borracha, munição própria das forças de segurança pública.

    Como se não bastasse, os fazendeiros perpetraram no domingo, 30 de agosto, novo ataque a uma das áreas retomadas na Terra Indígena Ñanderu Marangatu. Os ruralistas ocuparam a sede da Fazenda Piquiri.

    A APIB repudia estas ações paramilitares que sob olhar omisso e conivente do poder público vitimam mais uma liderança indígena.  E não foi por falta de aviso. Antes dos fatos, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados pediu ao governo providências no sentido da atuação da polícia na prevenção de uma catástrofe. A movimentação da Força Nacional somente aconteceu após o anúncio do ataque dos ruralistas.

    O Ministério da Justiça, principal responsável da paralisação das demarcações, mais uma vez omitiu-se das suas responsabilidades de zelar pelos direitos indígenas antes inclusive da Fundação Nacional do Índio – Funai, pois a ele é subordinada.

    Para corrigir os seus erros – sua omissão e paralisia – cabe ao governo, neste momento crítico, em que ainda segmentos sociais da direita pleiteiam o seu fim, demonstrar de que lado está, e que é guardião do Estado de Direito e da democracia, garantindo em primeiro lugar o respeito ao direito originário dos povos indígenas às suas terras e a punição exemplar dos mandantes e executores do assassinato de lideranças indígenas. Do contrário, será de responsabilidade do governo o atual quadro e a continuação das violências praticadas pelos ruralistas contra os povos indígenas.

    A APIB exige, assim, do governo Dilma rigor na apuração dos fatos e a punição dos autores intelectuais e materiais do assassinato do líder Simião Vilhalva, e que não permita mais o império da impunidade, a inversão de direitos, e ainda que órgãos do poder público estadual e local alinhados aos interesses dos ruralistas tomem conta da investigação, uma vez que, como é sabido, são subserventes a este segmento do poder econômico em Mato Grosso do Sul.

    A APIB chama, por fim, a todos os povos e organizações indígenas do Brasil, e seus aliados, a se unirem e permanecer em estado de luta na defesa das terras e territórios indígenas, custe o que custar, para assegurar os direitos fundamentais, principalmente o direito originário à terra, reconhecidos pela Constituição Federal e os tratados internacionais assinados pelo Brasil

    Brasília – DF, 31 de agosto de 2015.

    ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL – APIB

    MOBILIZAÇÃO NACIONAL INDÍGENA

     

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  • 31/08/2015

    Vamos continuar lutando e defendendo nosso direito e os direitos dos nossos filhos, netos e bisnetos até morrer!

    Esse foi o lema e compromisso das mulheres indígenas dos povos indígenas Apinajé, Karajá de Xambioá, Krahô, Xerente e Tapuia, que estiveram reunidas para aprofundar, discutir e fortalecer a luta na defesa dos seus direitos e territórios. Foram intensos os três dias de encontro, na aldeia Mrãiwhahâ na terra indígena Xerente, onde com muita dor e indignação partilharam a precariedade das políticas públicas, principalmente na questão da saúde indígena. Sofrimento que será ainda maior se aprovada a criação do Instituto Nacional de Saúde Indígena (INSI), representando a terceirização da saúde indígena, proposta que as mulheres indígenas rejeitam contundentemente.

    Também teve destaque no seminário, ocorrido nos dias 26 a 29 de agosto, as ameaças constantes das inúmeras proposições legislativas que tramitam no Congresso Nacional, que, se aprovadas, podem acabar com os direitos constitucionais dos povos indígenas. As mulheres indígenas expressaram que não vão deixar que os direitos garantidos na Constituição Federal sejam rasgados e roubados pela bancada ruralista e seus aliados. Que não vão permitir que seus territórios ancestrais sejam roubados novamente e que não vão deixar que continue a destruição da Mãe Terra pela cobiça e ambição do agronegócio, que não vão deixar que esse projeto de morte do MATOPIBA, incentivado pela ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, destrua o mais sagrado que Deus deixou, a Mãe Terra. Que vão continuar firmes na luta em defesa da terra que é sua Mãe, que dá sustento, que é para morar, fazer seus rituais, caçar, pescar e viver em paz com a natureza. Que não vão aceitar que esses projetos acabem com os rios que são o sangue que alimenta à Mãe Terra, e não vão deixar construir nos seus territórios a hidrelétrica Serra Quebrada, UHE-Santa Isabel, UHE-Perdida 2 e UHE-Rio Sono e nem deixar asfaltar as estradas nas terras indígenas. Que vão lutar para que seja respeitado seu direito na Constituição Federal e na Convenção 169 da Organização Internacional do trabalho.

    As mulheres indígenas deixaram bem claro que os conflitos estão se agravando porque as terras indígenas são muito cobiçadas pelo agronegócio e pelo grande capital. E principalmente, devido à paralisação das demarcações das terras indígenas. Pediram a demarcação urgente das terras indígenas do povo Avá-Canoeiro, Kanela do Tocantins e Krahô-Kanela no estado do Tocantins. E fizeram um pedido e apelo ao Governo Federal de demarcar as terras indígenas do povo Guarani-Kaiowá que está sofrendo muita violência e sendo massacrado pelos fazendeiros e que está fora de sua terra tradicional. Pedem que sejam respeitados seus direitos originários e que a União faça justiça aos primeiros habitantes do Brasil, que são o broto e semente da terra, e reparem a dívida histórica que o país tem com os povos indígenas, demarcando todas as terras indígenas e que sejam arquivados todos os projetos de lei que ferem e ameaçam sua vida e seus direitos e paralisados todos os projetos que ameaçam os territórios indígenas.

    A seguir, Documento Final do Seminário das Mulheres Indígenas do Tocantins:

    Aldeia Nova Mrãiwahâ, 28 de agosto de 2015.

    Nós mulheres indígenas dos povos: Apinajé, Krahô, Karajá Xambioá, Xerente e Tapuia, reunidas na aldeia Nova Mrãiwahâ do povo Xerente realizamos o seminário sobre o tema território indígena: enfrentamento às leis que ameaçam os direitos constitucionais e ameaças das mudanças climáticas. Pois a gente tá preocupada, porque existem muitos projetos de leis que ameaçam o nosso direito e nosso território e querem é acabar com nosso direito com nosso direito e território como:

    A PEC 37, 215, 237, 038 e a Portaria 303 o PL 1610 e o PL 1216, esses projetos que atinge o artigo 231 e 232 e assim também estamos preocupados porque também tem grandes projetos que ameaçam nossos território e esses projetos nós não aceitamos. Nós não aceitamos a Barragem da Serra Quebrada, Santa Isabel, Perdida 2 e Rio Sono, e também não aceitamos o asfalto dentro do nosso território Xerente, Apinajé e Krahô. E também estamos preocupados com os projetos perto da nossa terra como as monoculturas de cana, soja, eucalipto que provoca os desmatamentos que estão acabando com os nossos rios e provocando diminuição de água nas terras indígenas, como por exemplos no povo Xerente que tem aldeias que estão ficando sem água. Também denunciamos o uso de agrotóxico, que estão provocando as doenças que não existiam antes.

    Também denunciamos o projeto de morte que é o Matopiba um projeto vai matar o nosso Cerrado, é um projeto que só vai beneficiar o agronegócio e o latifúndio e as grandes empresas. Também estamos muito preocupados com a politica de saúde indígena, que cada vez piora nas nossas aldeias e ainda mais preocupa com projeto de terceirização da saúde indígena que é o INSI, esse projeto não queremos porque prejudica a nossa Saúde indígena.

    Por tudo isso, nós pedimos que a PEC 215 que não seja aprovada, assim como também todos os projetos que tramita no Congresso Nacional, também não queremos a terceirização da saúde indígena, não queremos os asfalto nos nossos territórios e não queremos a construção de nenhuma Barragem dentro do nosso território e também queremos que respeite os nossos direitos que estão na Constituição.

    Também queremos a revisão de limite da terra do povo Apinajé e Tapuio. E os indígenas que estão sem terra é para demarcar como o povo Avá-Canoeiro, Kanela do Tocantins e o Krahô Kanela e principalmente o povo Guarani-Kaiowá que está vivendo a beira da estrada, sofrendo as ameaças dos fazendeiros e morrendo atropelado na beira da estrada e pela bala dos pistoleiros.

    Os povos indígenas sem a terra não podem viver, porque são os povos originários do Brasil e é o broto da terra e semente da terra e vamos continuar lutando e defendo nosso direito e os direitos dos nossos filhos e netos, bisneto e até morrer.

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  • 31/08/2015

    Na cama procustiana de Dilma

    Antes que alguém faça qualquer associação maldosa ou distorcida, vinculando este texto ao leito presidencial, uma nota:

    Segundo o mito grego, Procusto era um malfeitor que morava numa floresta na região de Elêusis, península da Ática, Grécia. Conta o mito que ele mandou fazer uma cama de ferro com exatamente as medidas do seu próprio corpo, nem um milímetro a menos ou a mais. Quando capturava alguém na estrada, ele amarrava naquela cama. Se a pessoa fosse maior do que a cama, ele simplesmente cortava fora o que sobrava. Caso fosse menor, ele a esticava até se ajustar ao tamanho da cama – “justa medida”. Ao que tudo indica, mais uma vez o mito encontra sua âncora firme na realidade, ou nos ajuda a entendê-la melhor.

    Há séculos a ‘cama de Procusto’ do Estado brasileiro vem buscando ‘ajustar’ os povos indígenas a suas justas medidas: escravidão, exploração das riquezas, violência, invasões multidimensionadas do corpo, da mente e dos territórios. E os ajustes são sempre na perspectiva procustiana de que a justa medida é sempre ‘do outro’, do branco português, do militar ou do civil golpista, do capital transnacional, que da prata de Potosí ao petróleo amazônico tem por justa medida a exploração exaustiva dos recursos ambientais para o enriquecimento de alguns.

    Passados séculos de permanente pressão para a tal adequação forçada – nunca sem resistência, claro –, a reedição da cama de Proscuto ganha também outras dimensões. Assim, vejamos o governo Dilma e a atual edição dos ajustes aos quais os povos indígenas, segundo a lógica governamental subserviente, devem se adequar sob justa medida.

    Devem aceitar a privatização da saúde, com o Instituto Nacional de Saúde Indígena (INSI) e o jogo sujo impositivo, enquanto o caos se instala nas comunidades mal ou não assistidas; devem resignar-se à paralisação das demarcações, mesmo que não haja impedimentos judiciais para muitas destas, pois o ‘fantasma’ que ronda o Ministério da Justiça é de que pode haver contestações futuras, então ‘já que se pode cair, não se anda’; devem se contentar e acreditar, mesmo com os números provando o contrário, no discurso repetido a exaustão de que este é o governo que mais demarcou terras indígenas; devem acreditar que as chamadas ‘mesas de negociações’, que não avançaram um milímetro desde que saíram de alguma cartola, são a solução para os conflitos envolvendo os direitos dos povos indígenas por seus territórios, mesmo que estes continuem sendo assassinados, despejados violentamente por pistoleiros e tendo seus direitos constitucionais postergados.

    Na cama procustal do governo Dilma, corta-se a cabeça e os pés dos povos à medida em que eles não se encaixam na perspectiva política e conjuntural do governo federal.

    A cabeça é cortada quando, mesmo não se admitindo, mantém-se vigente a Portaria 303 da Advocacia-Geral da União (AGU), utilizada ao bel prazer pelos inimigos dos povos; da mesma forma também decapita quando em pleno agosto de 2015 liquidou apenas 11% dos recursos para a Estruturação das Unidades de Saúde Indígena para atender estes povos, quase a mesma medida dos gastos destinados ao Saneamento Básico em Aldeias, cuja execução mal chegou aos 13% dos 60 milhões dotados. E como estará a cabeça dos mais de seis mil indígenas que vivem no Distrito Federal, onde se encontra a sede da Sesai, quando não foram gastos nenhum centavo do um milhão dotado para Promoção, Proteção e Recuperação da Saúde Indígena?

    As adequações também atingem os pés, se assim podemos dizer, pois para a Delimitação, Demarcação e Regularização de Terras Indígenas, processos que o governo do corte não admite paralisados, dos já ínfimos R$ 19 milhões dotados não foram liquidados mais que 4,3%. E para demostrar sua disposição em solucionar os conflitos – que ao contrário do que aparece no relatório do Ministério do Planejamento, não são “Conflitos Indígenas”, mas causados pela violência dos invasores de suas terras e pela anestesia governamental que vitimiza estes povos – dos vergonhosos 30 milhões dotados, nenhum centavo foi liquidado pelo mesmo Ministério da Justiça que diz não paralisar as demarcações.

    Ao que tudo indica, no processo de ajustes pretendidos pelo governo que menos demarcou terras indígenas ‘na história deste país’, o muito que ainda resta dos iniciais R$ 152 milhões do orçamento do MJ serão utilizados, na verdade, para a nova Cama Precustal de Dilma: a revisão dos marcos jurídicos que regulam áreas indígenas. Assim, na reedição da vergonhosa concessão ao capital que busca atualizar a cada dia sua exploração, as terras indígenas – cortados os pés ou as cabeças dos direitos dos povos originários – serão, enfim, compatibilizadas com as atividades produtivas para que aqueles que, alimentados por este mesmo governo, se fortaleçam para o golpe certeiro que buscam dar para ajustar o Brasil às justas medidas desmedidas.

    Enquanto não dorme no outro leito com o som das panelas batidas por aqueles que não se contentam com a alta do caviar e da garrafa de Moët & Chandon, o governo ajusta em sua Cama Procustal os corpos esportivos indígenas em jogos mundiais, pois isso, em sua cama de ferro, cabe.

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  • 31/08/2015

    Enquanto se intensifica os ataques contra os povos indígenas no MS, governo federal segue inerte

    Na noite deste domingo, 30, por volta das 21 horas, famílias indígenas de Ñanderú Marangatú sofreram novamente com ataques paramilitares de fazendeiros armados e seus jagunços. Os indígenas, fragilizados, famintos e aterrorizados, não esboçaram resistência, pois segundo eles o que houve ontem à noite “não foi confronto, foi uma nova tentativa de massacre”.

    Desta vez o acampamento de retomada das famílias Guarani e Kaiowá foi invadido por mais de 60 pistoleiros, que entraram realizando disparos e ameaçando crianças, velhos, mulheres e homens. O novo ataque foi realizado sobre o território sagrado de Ñanderú Marangatú, na local onde se encontra a fazenda denominada Piquiri, sobreposta aos 9.300 hectares de chão tradicional homologados pela Presidência da República.

    Ainda com as cicatrizes e traumas do ataque anterior, onde Semião Vilhalva, indígena de 24 anos, foi assassinado pelas milícias dos ruralistas à beira de um córrego onde procurava seu filho, as famílias relatam que apenas tiveram tempo de juntar alguns poucos pertences e correr para o meio da mata, buscando segurança para não serem também assassinadas.

    Apavorados e revoltados, os indígenas denunciam a inoperância das forças de segurança em garantir a vida e integridade de suas famílias. Em mensagens enviadas por telefone indagam: “Eles não estavam aqui para impedir o conflito? Para impedir massacre? Como, então, caminhonetes se juntam em bandos, e eles entram, atiram, matam e eles não fazem nada como se nem enxergassem isso? Eu vou dizer o que eles estão fazendo. Esta Força Nacional está deixando os fazendeiros invadirem nosso território e se apossarem das sedes, aí eles vêm e fazem cordão contra nossa comunidade. Estão garantindo a devolução de nosso território para os fazendeiros, e a DOF (Departamento de Operações de Fronteira), além de acompanhar os jagunços, mesmo quando estão armados, agora ajudam a levar comida para eles e abastecer os bandidos que mataram o Semião”, desabafa, inconformada, uma das lideranças. Matérias jornalísticas veiculadas ontem registraram o momento da entrega de alimentos, a qual a liderança se refere.

    Uma das poucas verdades advindas dos pronunciamentos ruralistas até agora é de que a soberania nacional está ameaçada. Realmente está, porém não pelas participações de “indígenas paraguaios”, como tentam argumentar os ruralistas e seus sindicatos, mas sim pelas ações milicianas e paramilitares dos próprios fazendeiros. Desrespeitando a democracia e os direitos individuais e coletivos, essa “gente de bem” decidiu deliberadamente abrir uma temporada de “caça aos índios”, e promover reintegrações de posse à revelia da lei, com as próprias mãos. Desse modo, investem sobretudo contra famílias indefesas, o que, além de temerário e covarde, se constitui em crimes diversos e devem ser punidos nos rigores da lei.

    Enquanto isso, o governo – em especial o Ministério da Justiça – assiste inerte a bandidagem de latifundiários sem tomar providências efetivas de defesa dos povos indígenas e nem apontar algum tipo de intervenção. Os indígenas denunciavam, desde o primeiro ataque, que o clima continuava tenso e que não se sentiam seguros com as estratégias de “segurança” adotadas pela Força Nacional que, segundo eles, estava mais interessada em manter seguros os fazendeiros do que evitar novas invasões milicianas pelo perímetro da terra indígena. O silêncio do governo continuou: sequer lamentaram publicamente o assassinato de Semião.

    José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, em sua última declaração voltada aos Guarani e Kaiowa, realizada em Brasília, no início deste mês, afirmou que não “baixaria nenhuma portaria declaratória” (procedimento demarcatório essencial e de sua responsabilidade) por conta da conjuntura de alta violência e de “ataques de direitos” advinda dos produtores rurais e da própria Justiça. Cardozo afirmava que não poderia baixar as portarias porque teria plena consciência da violência sofrida pelos indígenas. Afirmou, por fim, que não estaria disposto a agir como um “Pôncio Pilatos” frente à crucificação de “Jesus Cristos Kaiowás”. Pois bem, neste momento o ministro age exatamente como um Pôncio Pilatos, assistindo ao acirramento da violência.  Ao lavar suas mãos da responsabilidade em garantir a segurança destas famílias, Cardozo condenará quantos outros indígenas ao mesmo destino de Semião?

    Os Guarani e Kaiowá, diante da dor da perda de sua liderança, exigem que seja feita justiça. Exigem a punição imediata aos assassinos e mandantes e intervenção do Ministério da Justiça para garantir a segurança das famílias e coibir crimes e a continuidade do esbulho de seus territórios. Enquanto houver silêncio e inércia das autoridades responsáveis pela garantia da ordem e da justiça, a cada dia uma nova lápide de indígena assassinado será erguida, pois a intenção de matar é publicamente declarada por fazendeiros em reuniões e em depoimentos que circulam nas redes sociais. Até quando, senhora presidente da República e senhor ministro da Justiça, isso vai perdurar?

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