“Essa terra tem dono, foi Ñanderu que a revelou para nosso povo”

Os mais de 600 indígenas que estiveram presentes no 10º Encontro Sepé Tiaraju, que ocorreu entre os dias 5 e 8 de fevereiro em São Gabriel (RS), divulgaram o documento final do já tradicional encontro do povo Guarani. A carta reafirma a resistência dos indígenas e sua luta por seus direitos, seus territórios e o respeito a seu modo de vida tradicional.
Entre lideranças, rezadores, mulheres, homens, jovens e crianças, participaram do encontro no sul do Brasil representantes dos povos Guarani Mbya e Avá do Brasil e da Argentina, Kaiowá e Ñandeva do Mato Grosso do Sul e do povo Kaingang.
“O Encontro representa a afirmação de que a nossa luta continua, assim como o sonho de Sepé pela conquista, defesa de uma Terra Sem Males e pelo direito de vivermos em paz” afirmam os indígenas no documento. “Somos os guardiões da terra e de nossas tradições, só descansaremos quando tivermos a certeza de que nossos filhos crescerão livres e tranquilos sobre nossas terras tradicionais e ancestrais”.
O 10º Encontro aconteceu na data em que se completam 260 anos do assassinato do líder Guarani Sepé Tiaraju, morto pelos exércitos de Espanha e Portugal numa emboscada em 7 de fevereiro de 1756 no hoje município de São Gabriel (RS).
“Ao massacrar nosso povo, os não indígenas consideraram que tinham eliminado nossa resistência, mas hoje sobre estas mesmas terras resistimos e lutamos contra os mesmos projetos coloniais, que em nome do lucro e da cobiça perpetuam o genocídio e destroem nossas terras sagradas”, ressalta a carta.

“Esta terra tem dono”
O documento traz, no título, uma citação atribuída a Sepé Tiaraju. A frase foi dita pelo guerreiro indígena em carta que manifestava a contrariedade e a decisão dos indígenas de resistir ao tratado de Madri, assinado em 1750 pelas Coroas espanhola e portuguesa. Segundo o tratado, a Colônia do Sacramento (atualmente pertencente ao Uruguai) passaria das mãos de Portugal para a Espanha e os Sete Povos das Missões, localizados hoje na região oeste do Rio Grande do Sul, seriam entregues pela Coroa Espanhola aos portugueses, com a remoção dos milhares de Guarani e dos jesuítas que ali viviam para o lado espanhol.
Mas os indígenas não aceitaram a determinação dos colonizadores. Contrariando o que diziam os documentos das potências coloniais, Sepé afirmou à Coroa espanhola: “Esta terra tem dono”. Os indígenas resistiram e foram massacrados aos milhares.
Resistência indígena
“Como no tempo de Sepé, seguimos enfrentando as armas dos novos exércitos: canetas e papel. São decisões políticas de Governo que beneficiam o latifúndio do agronegócio e, consequentemente, afetam diretamente os nossos povos, roubando os nossos territórios, razão de nossa própria existência, fonte de nossa espiritualidade e coração de nosso modo de ser originário”, afirma o documento produzido no evento.
Os indígenas presentes ao 10º Encontro Sepé Tiaraju denunciam Governo Federal pela paralisação das demarcações de terras, o Congresso Nacional pela grande quantidade de projetos anti-indígenas, com enfoque especial na Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, e o Poder Judiciário pela aplicação do “marco temporal” em julgamentos ligados à questão territorial indígena, desconsiderando as brutais violações que os indígenas sofreram no período anterior à Constituição de 1988. A carta critica ainda as declarações do presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), por ter afirmado que não há genocídio indígena no Brasil.
O documento ainda critica a proposta de privatização da saúde indígena por meio da criação do Instituto Nacional de Saúde Indígena (INSI) e exige o respeito aos direitos dos povos indígenas estabelecidos pela Constituição de 1988 e a retomada das demarcações de terras indígenas que foram paralisadas em diferentes estágios pelo governo federal.
“Cada passo dado para dentro de nossos territórios tradicionais, para além das fronteiras nacionais, é um passo a mais rumo a Terra Sem Mal, juntos ao pé do fogo, no som dos nossos cantos sagrados, nas danças, a vida segue circulando”, concluem os indígenas, afirmando que “a luta de um povo é a luta de todos os povos”.
Clique aqui para ler a carta na íntegra.
Fotos: Cimi Sul
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Pouco depois, o grupo de caminhonetes atacou também o terceiro e o segundo acampamentos de Kurusu Ambá, onde incidem as fazendas Bom Retiro e Barra Bonita. No terceiro acampamento, os pistoleiros incendiaram todos os barracos (foto ao lado) e pertences dos Guarani e Kaiowá e forçaram os indígenas a deixarem a área, fazendo com que ficassem desalojados até esta quinta.







O Conselho Indigenista Missionário manifesta grande preocupação com a vida e com a integridade física das famílias indígenas Guarani e Kaiowá da T.I de Kurusu Ambá, Coronel Sapucaia – MS. Desde a manhã do último domingo (dia 31 de janeiro), os três acampamentos indígenas localizados dentro deste território originário foram duramente atacados por fazendeiros e jagunços, inclusive dentro de perímetro já garantido como de posse plena dos indígenas por decisão advinda do Supremo Tribunal Federal. Um dos acampamentos foi totalmente incendiado e destruído pelos atacantes, despojando os indígenas de todos os seus pertences, inclusive roupas, cobertas e alimentos.
A Comissão Paramentar de Inquérito instalada na Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul para investigar a atuação do Cimi no estado está suspensa por decisão liminar da Justiça Federal. Os trabalhos da chamada CPI do Cimi deveriam recomeçar nesta terça-feira, dia 2, mas conforme o juiz da 2ª Vara Federal de Campo Grande Pedro Pereira dos Santos não há conflito federativo no escopo das apurações da comissão. Desse modo, a CPI do Cimi extrapola as atribuições do Poder Legislativo sul-mato-grossense para o que é de competência Federal. 

Os autores da carta destacam que estes ataques ocorrem não só por meio da violência física, mas também da violência simbólica, por meio do preconceito que considera os indígenas como “vagabundos”, improdutivos, que querem “muita terra para pouco índio”, o que não condiz com a realidade. 