• 19/04/2016

    Povos indígenas: exemplo de resistência, esperança de futuro

    Há quase vinte e oito anos, os povos indígenas obtiveram uma conquista inédita no Brasil: pela primeira vez, seus direitos originários foram reconhecidos na carta magna do país. Em dois artigos sucintos e valiosos, a Constituição Federal promulgada em 1988 lhes garantiu o direito a existirem conforme seus próprios modos de vida, a terem respeitada sua autodeterminação, sem a tutela do Estado que até então os considerava incapazes, e a terem demarcados seus territórios tradicionais.

    Tais direitos originários encontram-se hoje sob o mais intenso ataque desde que foram reconhecidos. Em meio à violência e à ameaça de novos tempos sombrios, os povos indígenas resistem e, resistindo, nos ensinam. Seu futuro é o futuro de todos nós.

    As frentes de agressão e os focos da omissão aos direitos dos povos indígenas no Brasil articulam-se nos diferentes poderes da República, com estratégias variadas, discursos ultrapassados e um único objetivo: liberar as terras tradicionais destes povos para a exploração capitalista.

    No âmbito do Congresso Federal, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215 pretende passar do poder Executivo ao Legislativo a competência para demarcar terras tradicionais e, na prática, inviabilizar as demarcações e permitir a mercantilização das terras já demarcadas. O relatório aprovado em outubro último, por uma comissão especial dominada por parlamentares financiados pelas grandes empresas do agronegócio e da mineração, somou a este já desastroso projeto um dispositivo ainda mais perverso: é o chamado “marco temporal”, segundo o qual só poderiam ser demarcados os territórios que estivessem sob posse dos indígenas em 5 de outubro de 1988.

    O absurdo desse argumento, utilizado também em três decisões recentes da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) que anularam demarcações de terras já homologadas, é desconsiderar e legitimar todas as violações sofridas pelos povos indígenas nos últimos séculos e intensificadas, sob a justificativa da “comunhão nacional”, pela Ditadura Civil-Militar estabelecida em 1964. Durante este regime, que violentava os povos ao mesmo que tempo os “tutelava” e os impedia de reivindicarem seus direitos, mais de oito mil indígenas foram mortos, conforme apurou a Comissão Nacional da Verdade (CNV).

    Além da tentativa de desmonte de direitos constitucionalmente assegurados, a paralisação das demarcações pelo Poder Executivo, com a finalidade de atender aos interesses do agronegócio, das mineradoras e do próprio governo, acaba repercutindo no recrudescimento da criminalização e da violência contra os povos indígenas.

    O ano de 2015 terminou marcado pelo assassinato de Vitor Kaingang, de apenas dois anos, no colo de sua mãe, em Imbituba (SC). Somente nos últimos meses, uma dezena de ataques utilizando armas de fogo e até mesmo agentes químicos foi registrada contra os indígenas Guarani e Kaiowá no estado do Mato Grosso do Sul, onde não se pode mais negar que assistimos a um processo de genocídio. Em abril de 2016, o cacique Babau Tupinambá e seu irmão Teity Tupinambá foram presos arbitrariamente no sul da Bahia, mesma região em que o povo Pataxó sofre com constante insegurança e violação de direitos humanos.

    Enquanto isso, os Munduruku da Terra Indígena Sawré Muybu, no Pará, aguardam a publicação do relatório que deve garantir o reconhecimento e a delimitação de seu território tradicional, mas que está emperrada porque o governo federal pretende construir sobre ele a hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, uma das 43 planejadas somente para esta bacia hidrográfica.

    Situações semelhantes repetem-se em outros estados e com outros povos, em maior e menor grau. Com a finalidade de criminalizar povos indígenas e seus aliados, foram criadas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) que são palcos das mais preconceituosas ações e afirmações. É o caso da CPI da Funai e do Incra, em andamento na Câmara dos Deputados, e da CPI criada na Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul com a finalidade de perseguir o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em seu trabalho pastoral de apoio aos povos indígenas.

    Num contexto tão desfavorável, mais importante do que eleger um dia arbitrário para celebrar o respeito à vida e à sabedoria indígena é reconhecer que os povos indígenas não são a imagem estática de um passado distante, como gostariam muitos: eles estão vivos, presentes, mesmo depois de 516 anos de violência colonial, e têm voz ativa.

    Em sua pluralidade, estes povos nos ensinam a ver o mundo e a sociedade sob outra perspectiva, na qual o lucro não se sobrepõe à vida e o viver melhor (do que os outros) não é mais importante do que o Bem Viver, em harmonia e com respeito à diversidade da natureza e à totalidade da vida.

    Como nos afirma o Papa Francisco, para os povos indígenas “(…) a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida”.

    Aqueles que acham que os indígenas não deveriam mais existir os apresentam como grupos “ultrapassados”, que seriam percalços ao suposto desenvolvimento da nação, compreendido sempre como num sentido único e linear.

    Onde enxergam unicamente o passado, entretanto, é que pode estar nossa única esperança de futuro e dignidade. Quando o mundo colapsa frente aos excessos de um sistema baseado no lucro, na competição e na ideia impraticável de um crescimento infinito, temos o direito de aprender com estes povos outros parâmetros de vida – mas, para isso, temos a obrigação de garantir a eles o seu direito a existir, com terra, autonomia e liberdade, “para que todos tenham vida, e vida em abundância” (Jo 10,10).

    Dom Roque Paloschi, presidente do Conselho Indigenista Missionário – Cimi, publicado originalmente no Uol Opinião

    Foto: crianças Munduruku, por Frei Sebastião Robledo

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  • 19/04/2016

    Dia do Índio: Survival lança campanha internacional contra o genocídio dos povos indígenas no Brasil

    Hoje, Dia do Índio, a Survival International lançou uma campanha para impedir a destruição de povos indígenas no Brasil, coincidindo com os Jogos Olímpicos de 2016.

    Apesar da atual situação política no Brasil, a campanha visa chamar a atenção para as graves ameaças e violações de direitos humanos enfrentadas pelos povos indígenas do país. Essas ameaças continuam independentemente da instabilidade política no Brasil.

    A campanha, ‘Pare o genocídio no Brasil’ foca na proteção de povos isolados da Amazônia como os Kawahiva, no fim da violência e roubo de terra dos Guarani no centro-oeste do Brasil, e no fim da PEC 215, uma proposta de emenda constitucional que seriamente enfraqueceria os direitos territoriais indígenas, significando um desastre para tribos ao redor do país.

    Há décadas, a Survival tem feito campanhas pela proteção de tribos isoladas – as quais, estima-se que sejam mais de 100 no Brasil. Elas são os povos mais vulneráveis do planeta. Povos como os Kawahiva estão sendo exterminados com a violência de invasores que roubam suas terras e recursos, e com doenças como gripe e sarampo, para as quais eles não têm resistência imunológica.

    No centro-oeste do Brasil, fazendeiros devastaram o território dos Guarani, e quase toda a sua terra foi roubada. Crianças Guarani passam fome e seus líderes estão sendo mortos, um a um, por pistoleiros contratados por fazendeiros. Centenas de homens, mulheres e crianças Guarani cometeram suicídio.

    Por último, a PEC 215, caso implementada, daria à bancada ruralista a chance de bloquear o reconhecimento de novos territórios indígenas, e possibilitaria o desmantelamento de terras existentes. Como as tribos dependem da terra para sobreviver, isso representaria uma ameaça existencial a muitos povos, enfraquecendo fatalmente seus direitos humanos.

    A Survival argumenta que, coletivamente, essas causas constituem uma ameaça genocida aos povos indígenas no Brasil, e que devem ser paradas.

    O diretor da Survival, Stephen Corry, afirmou: “Povos indígenas têm sido gradualmente aniquilados, por séculos, ao redor das Américas. Isso tem que acabar. Ao invés de ver as tribos como obstáculos inconvenientes ao “progresso”, o Brasil deve reconhecer que elas são uma parte intrínseca de sua nação moderna, e merecem ter seus direitos territoriais protegidos para que elas possam sobreviver e prosperar. Independentemente da crise política, esses são assuntos cruciais que devem ser levados a sério. Todos os olhos estão voltados para o Brasil, que se prepara para sediar as Olimpíadas, e está nas mãos dos brasileiros assegurar que a história olhe favoravelmente para sua geração”.

  • 18/04/2016

    MPF pode barrar exploração de silvinita em Autazes (AM) se indígenas não forem consultados

    As atividades da empresa Potássio do Brasil na região de Autazes (AM) poderão ser embargadas caso o Ministério Público Federal (MPF) conclua que não houve consulta às comunidades indígenas e não indígenas, conforme previsto pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A informação foi prestada pelo Procurador da República, Fernando Meloto Soave, por ocasião da reunião realizada na última quarta-feira, 13, na aldeia Ponta das Pedras, em Autazes, município localizado a 113 quilômetros capital amazonense.

    “Nós reunimos vários elementos e parece que, de fato, a consulta não aconteceu”, explicou Fernando Meloto, acrescentando que “nós vamos analisar as informações apresentadas pelos indígenas e tomar os encaminhamentos, inclusive pedindo a paralisação do projeto”.

    O Procurador da República participou da reunião promovida pelas lideranças indígenas de Autazes e Careiro da Várzea. Ele explicou aos participantes como a consulta deve acontecer para obedecer aos requisitos da Convenção 169 da OIT –  ratificada pelo governo brasileiro e vigorando no país na forma do Decreto nº 5.051, de 19 de abril de 2004.

    Em 2015, o governo do estado do Amazonas realizou audiências públicas na cidade de Autazes e na aldeia Urucurituba, localizada a 13 quilômetros da sede municipal, para a instalação do projeto de exploração da Potássio do Brasil. Na ocasião, os indígenas não foram ouvidos. Na audiência em Urucurituba, representantes da empresa teriam informado que a Fundação Nacional do Índio (Funai) não se manifestou para responder aos quesitos relacionados aos impactos sociais e ambientais nas terras indígenas.

    Os indígenas estão preocupados com os impactos da exploração mineral. Márcia Lira Castro da Silveira, moradora da aldeia Jawari, em Autazes, conta que um dos impactos da exploração já foi experimentado pelos moradores da aldeia. “Aqui tem um local chamado Ilha do Amor, onde fica um cemitério, que já foi escavado para pesquisa em agosto de 2013. Nós reconhecemos que poderá causar muitas doenças e muitos outros problemas”, suspeita Márcia Lira. Tuxauas de várias aldeias Mura disseram ao Procurador da República que não concordam com a exploração mineral na região temendo os impactos ambientais e sociais, tais como o surgimento de doenças, o súbito crescimento populacional resultante da contratação de trabalhadores e o desaparecimento de suas principais fontes de alimentação.

    Eles disseram que já estão com a alimentação comprometida pela ação da criação de búfalos. Em muitos locais, os animais destroem plantações e os berçários de peixes.

    Os participantes criticaram duramente o Coordenador Técnico Local da Funai, Hudson Henrique. Segundo as lideranças, o coordenador da Funai não tem prestado a devida assistência, não comparece às aldeias quando solicitado e tem se omitido diante das denúncias de violações aos direitos, especialmente quando se trata de invasão das terras indígenas. 
    Da reunião com o Procurador da República participaram mais de 150 indígenas Mura de 18 aldeias dos municípios de Autazes e Careiro da Várzea.


    Manaus (AM), 15 de abril de 2016
    Cimi Norte I (AM/RR)

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  • 18/04/2016

    Carta de Solidariedade: “Bem aventurados os perseguidos e marginalizados”

    Caros irmãos e irmãs do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), escrevemos a vocês para manifestar nossa total solidariedade nesta hora de grande perseguição pela qual passam. A presença afetiva e solidária a serviço da Causa dos Povos Indígenas ao longo de mais de quatro décadas está produzindo frutos.

    Acompanhamos com apreensão e indignação todos os ataques dirigidos a vocês na CPI da Assembleia Legislativa do Estado do Mato Grosso do Sul comandada por inimigos históricos dos povos indígenas do Brasil e de todos os cantos do mundo. Temos certeza que a perseguição sofrida é por causa do compromisso evangélico de vocês. Os povos indígenas estão em luta para defesa e conquista de direitos fundamentais sempre negados, entre os quais o Direito à Terra Sagrada dos Ancestrais.

    A luta dos Povos Indígenas não será detida pelo ódio dos fazendeiros e dos que exercem mandatos eletivos, porque carrega a memória subversiva de Marçal, Nizio, Euzébio, Xicão e outros guerreiros e guerreiras plantados como sementes nestas terras duras e banhadas de sangue negro, indígena, camponês.

    Permaneçam de cabeça erguida! Vocês estão no caminho certo como disse Jesus de Nazaré: “Felizes serão quando injuriarem e perseguirem vocês e, mentindo, disserem todo o mal contra vocês por causa de mim. Alegrem-se e regozijem-se porque será grande a recompensa de vocês, pois assim perseguiram os profetas, que vieram antes de vocês”.


    Com ternura,


    Articulação Nacional de Quilombos

    Brasil

    Associação das Quebradeiras de Coco

    Dom Pedro/MA

    Associação dos Moradores Remanescentes Quilombola de Gurutil

    Mirinzal /MA

    Associação Nacional de Ação Indigenista

    Maranhão

    Centro de Estudos Bíblico

    Maranhão

    Comissão de Direitos Humanos

    OAB/MA

    Comissão Pastoral da Terra

    Maranhão

    Comissão Pastoral da Terra

    Marajó/PA

    Comissão pastoral da Terra

    Coroatá /Maranhão

    Comunidade Nossa Senhora da Vitória

    São Luís/MA

    Comunidades Eclesiais de Base

    Maranhão

    Fundação Barros

    Brasília

    Grupo de Estudo em Desenvolvimento e Meio Ambiente / UFMA

    Maranhão

    Grupo de Voluntários Greenpaece

    Maranhão

    Irmãs de Notr Dame de Namur

     

    Jornal Vias de Fato

    Maranhão

    LEPEC/UFPE

     

    Movimento de Mulheres Camponesas

    Mato Grosso do Sul

    Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu

     

    Movimento Quilombola do Maranhão

    Maranhão

    Núcleo de Estudo e pesquisa de Questões Agrária /UFMA

    Maranhão

    Núcleo de Extensão e Pesquisa com Populações e Comunidades Rurais, Negras, Quilombolas, Indígenas – PPGSA/UFMA

    Maranhão

    Paróquia Divino Espírito Santo

    Mirinzal MA

    Paróquia Santíssimo Salvador

    Apicum Açu – MA

    Paróquia São Sebastião

    Peri Mirim/MA

    Pastorais Sociais da Diocese de Grajaú

    Maranhão

    Pastoral da Juventude / Paróquia Santa Terezinha

    São Luís/MA

    Rede Justiça nos Trilhos

     

    Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais

    São Raimundo das Mangabeiras/MA

    Comissão Pastoral da Terra

    Pinheiro/MA

    CSP Conlutas

    Maranhão

    Movimento de Defesa da Ilha

    São Luís/MA

    Grupo de Estudos Pesquisa e Extensão em Lutas Sociais, Igualdade e Diversidades- LIDA/UEMA

    São Luís/MA

     

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  • 16/04/2016

    Liderança do povo Truká é atingida por três tiros durante atentado de pistoleiros em Caruaru (PE)

    A liderança indígena Ailson dos Santos Truká está internada em estado estável no Hospital Regional de Caruaru, município do agreste de Pernambuco, depois de sofrer atentado a mão armada na manhã deste sábado, 16. Yssô Truká, como é conhecido (na foto, ao microfone), foi atingido por três disparos e um dos projeteis se alojou na região pélvica – o indígena deverá passar por um procedimento cirúrgico para a retirada da bala. Yssô está no hospital sob proteção de escolta da Polícia Federal.

    O atentado aconteceu por volta das 5 horas da manhã na frente de uma casa mantida por estudantes indígenas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que costumam passar semanas longe das aldeias por conta da atividade acadêmica. A residência fica próxima ao campus da UFPE, no bairro Nova Caruaru, região mais afastada do centro da cidade.

    Com outros indígenas Truká, incluindo um de seus filhos, Yssô arrumava bagagens no veículo que os levaria de volta para a aldeia, localizada no município de Cabrobó, quando dois pistoleiros em uma moto abordaram a liderança indígena efetuando os disparos. Yssô buscou se proteger; de quatro tiros desferidos contra o indígena, três o acertaram.

    As câmeras de vigilância das casas vizinhas filmaram toda a ação. Antes do ataque ao indígena, os pistoleiros passaram de moto para reconhecer Yssô. Na sequência retornaram e então fizeram os disparos. O filho da liderança indígena interveio, gritando aos homens não identificados: “Vocês mataram meu pai! Assassinos!”. Com isso, os pistoleiros acreditaram que de fato tinham conseguido executar Yssô e fugiram – abortando novos disparos, na medida em que fizeram a movimentação de voltar para conferir. 

    De acordo com testemunhas, não houve anúncio de assalto e nada foi subtraído de Yssô ou de qualquer outro indígena presente no local dos fatos. As autoridades policiais ainda não se pronunciaram. Yssô é uma destacada liderança do povo Truká que há décadas luta pela demarcação de terras indígenas tradicionais dispersas em ilhas do rio São Francisco.

    Dena e Jorge Truká, irmão e sobrinho de Yssô, foram duas das lideranças Truká assassinadas no processo de luta pela terra, em 30 de junho de 2005. O cacique Neguinho Truká (na foto, com o cocar sobre os ombros), também irmão de Yssô, já sofreu inúmeras ameaças de morte, atentados e passou meses fora de Pernambuco – longe de sua família – como medida protetiva. Neguinho, no entanto, afirma não ter nenhuma informação dos possíveis autores do atentado deste sábado contra o irmão. 

    Yssô passou essa última semana em Caruaru para as aulas da Licenciatura Intercultural Indígena da UFPE, da qual o indígena é aluno. Na quinta-feira e na sexta-feira, dias 14 e 15, o Truká participou ainda do ‘2º Seminário História e Culturas dos Povos Indígenas – Educação e Relações Etnicorraciais: Pedagogias e Epistemologias Outras’, promovida também pela UFPE. Um dos pontos discutidos pelo seminário foi a violência contra os povos indígenas.

  • 15/04/2016

    “Em nosso Brasil, os povos indígenas continuam sendo flagelados e crucificados”

    Durante a 54ª Assembleia Geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que ocorre entre os dias 6 e 15 de abril em Aparecida (SP), dom Roque Paloschi, presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e arcebispo de Porto Velho (RO), fez um comunicado sobre a situação dos povos indígenas no Brasil. “Em nosso Brasil, os povos indígenas continuam sendo flagelados e crucificados”, afirmou dom Roque.

    No comunicado, o arcebispo afirma que a alegria trazida pela Constituição de 1988 durou pouco. “Os setores político econômicos anti-indígenas atuam fortemente no âmbito dos Três Poderes da República e pretendem implementar ações estruturantes e sistemáticas contra os povos”, diz o comunicado.

    O informe aos bispos dá conta de que grupos ligados a interesses do agronegócio, das mineradoras e de empreiteiras buscam, por um lado, impedir o reconhecimento e a demarcação das terras tradicionais atualmente invadidas, sob posse de não índios, e, por outro, “invadir, explorar e mercantilizar as terras demarcadas, que estão na posse e sendo preservadas pelos povos”.

    Citando os projetos legislativos que visam a retirar os direitos indígenas, como a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215 e o Projeto de Lei (PL) 1610, que permitiria a mineração em terras indígenas, e o clima de criminalização que impera no Poder Legislativo brasileiro, Dom Roque Paloschi considera que “é altamente preocupante o aumento de manifestações de preconceito, discriminação e ameaças aos povos”.

    Em seu comunicado, dom Roque também alerta para as interpretações restritivas do artigo 231 da Constituição Federal feitas pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), as quais acabam por descaracterizar o dispositivo que garante aos povos indígenas a demarcação de seus territórios tradicionalmente ocupados, reduzindo sua efetividade apenas às terras sob posse dos indígenas na data de 5 de outubro de 1988.

    Tal interpretação já resultou na anulação de atos administrativos de demarcação de três terras indígenas: Guyraroká, do povo Guarani-Kaiowá, e Limão Verde, do povo Terena, ambas no Mato Grosso do Sul, e Porquinhos, do povo Canela-Apãniekra, no Maranhão.

    “A 2ª. Turma do STF, especialmente na pessoa do Ministro Gilmar Mendes, também tem insistido em negar o direito fundamental de acesso à justiça aos povos indígenas, suas lideranças e comunidades”, destaca o comunicado de dom Roque. “Os povos, suas comunidades e suas organizações nunca foram intimados e não são parte em qualquer dos processos judiciais que resultaram na anulação de atos administrativos de demarcação das três terras indígenas acima citadas, mesmo tendo seus direitos frontalmente atingidos no âmbito desses processos”.

    Dom Roque aponta ainda a “omissão como decisão de governo”, falando sobre a paralisação das demarcações de terras indígenas por parte do governo federal, e “o Retorno aos ‘anos de chumbo’”, afirmando que “os povos e seus aliados voltam a ser tratados da mesma forma que o eram nos chamados ‘anos de chumbo’ do período ditatorial”, com o aumento de perseguições, criminalizações, prisões, assassinatos e expulsões com uso de força bélica estatal e paraestatal.

    O presidente do Cimi também informou aos bispos da CNBB sobre os processos de criminalização que os indígenas e seus aliados vem sofrendo, a exemplo do próprio Cimi, que tem sido mencionado na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Funai e do Incra e enfrenta uma CPI com a finalidade específica de criminalizar a entidade, na Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul (MS), e na qual o próprio dom Roque depôs na última terça-feira (13).

    “As perseguições, as ameaças, os ataques que o Cimi e nossos missionários sofrem cotidianamente mostram que estamos trilhando o caminho certo, pois o próprio Senhor Jesus chamou de bem-aventurados ‘os que são perseguidos por causa da justiça’”, conclui dom Roque, que terminou seu comunicado lembrando aos bispos o recente pedido de perdão feito pelo Papa Francisco, em nome da Igreja Católica, aos povos indígenas em Chiapas, no México.

    Clique aqui para ler o comunicado completo.

    Foto: Augusta Eulália Ferreira

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  • 15/04/2016

    Mais um indígena Tenetehar/Guajajara é assassinado a tiros e a pauladas em Amarante do Maranhão

    Na madrugada do dia 11 de abril, Genésio Guajajara, de 30 anos, residente na aldeia Formosa, Terra Indígena Araribóia, Município de Amarante do Maranhão (MA), região Sul do estado, foi assassinado com pauladas e um tiro no tórax. Genésio estava na cidade para receber cesta básica, que estava sendo distribuída pela Fundação Nacional do Índio (Funai), quando foi assassinado. Um boletim de ocorrência foi registrado na delegacia de polícia do Município, mas até o momento não há informações quanto à autoria do crime e muito menos a motivação.

    Genésio não era de nenhuma família rica da cidade, muitos menos tinha o terceiro grau. Desta forma, o crime está sendo tratado como um assassinato “normal”. No entanto, este foi mais um crime bárbaro que poderá ficar sem esclarecimento, assim como outros crimes violentos praticados no município contra indígenas.

    Em janeiro de 2014, o indígena Mario Juruna Souza Guajajara, de 19 anos, da Aldeia Canudal, foi linchado em via pública, ferido a pauladas e ainda teve o corpo parcialmente queimado por ser ele o suspeito pelo abuso e assassinato de uma criança não indígena.

    Em julho de 2014, o indígena Ambrósio Guajajara, de 23 anos, da aldeia Formosa, foi assassinado a pauladas no cemitério municipal da cidade quando visitava o túmulo de seus parentes.

    Já em março de 2016, o indígena Aponuyre Guajajara, 16 anos, da aldeia Araribóia, foi assassinado com vários tiros por ser o suspeito de participar do assassinato de um não indígena, na cidade de Amarante. Todos os indígenas moravam na Terra Indígena Araribóia, localizada no Município de Amarante.

    Os indígenas Guajajara afirmam que os assassinatos de indígenas parecem estar liberados, portanto a população não índia sente-se no direito de matar indígenas sem nenhum remorso e com crueldade, a exemplo de Aponuyre Guajajara, morto com vários tiros, e que os assassinos permanecem impunes, como se matar índios não fosse crime.

    Além do quadro de insegurança que paira sobre o município, tanto para povos indígenas quanto para não indígenas, esses assassinatos levam a crer que a as motivações possam ser a disseminação do ódio contra indígenas ou mesmo a criação de um grupo de extermínio agindo na região.

    Exigimos medidas urgentes para a investigação dos crimes e punição dos culpados por parte da Secretaria de Segurança do estado e a intervenção do Ministério Público e Secretaria de Direitos Humanos para que apresentem à sociedade que providências foram tomadas. Caso contrário, a vida de outros indígenas podem ser banalmente tiradas pelo simples fato de serem índios.

    Cimi Regional MA – Equipe Imperatriz

    Foto: jornal Vias de Fato

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  • 14/04/2016

    Presidente do Cimi nega acusações contra a entidade e reafirma compromisso com povos indígenas

    Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul contra o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), na última quarta-feira, 13, o presidente da entidade, o arcebispo de Porto Velho (RO) dom Roque Paloschi, negou as acusações de que o Cimi incita, organiza e financia ocupações de terra no estado. Ainda, o dignatário eclesiástico reafirmou o compromisso da organização com a luta dos povos indígenas pela vida e pelos direitos constitucionalmente garantidos em séculos de resistência.

    Dom Roque explicou que, entre outras questões que mobilizam o Cimi a atuar entre os indígenas, a desigualdade e a violência sofrida por eles no país são centrais. "Os dados das violências contra os povos indígenas no Brasil e também no Mato Grosso do Sul falam mais alto do que tudo", afirmou aos deputados que compõem a Comissão. Paulo Correa (PR) e Mara Caseiro (PSDB) questionaram sobre a validade das estatísticas de violência (regularmente publicadas pela entidade em relatórios públicos), argumento que baseia a necessidade do Cimi em atuar junto às comunidades indígenas no país e, sobretudo, no estado.

    "Nós ficamos perplexos, porque nós estamos aqui acolhendo a convocação à CPI, e respondendo. Agora, dizer que é o Cimi quem inventa esses dados… O estado recebeu a visita de uma representante dos povos indígenas da ONU, por que será que ela veio? Não tem problema nenhum aqui?", rebateu dom Roque. "Nao é novidade para ninguém, os números de assassinatos, o número de suicídios, entre os povos do estado. A morte, o extermínio dos povos indígenas, esse é o ódio que nós entendemos que existe".

    Os deputados também o inquiriram sobre as acusações de que o Cimi promove o uso de armas e incita a violência entre os indígenas. Dom Roque foi taxativo: "nossa missão é justamente promover caminhos de fraternidade, de paz, de verdade", explicou o presidente da entidade indigenista. "Eu tenho consciência de que nenhum missionário do Cimi está incentivando o uso de drogas ou contrabando, como o deputado Paulo [Correa] dizia, nem de armas e nem a violência. Tenho consciência absoluta e, mais, coloco a mão no fogo".

    "A retomada das terras que os indígenas estão fazendo, nao é uma decisão do Cimi. É uma decisão deles. A senhora sabe, deputada [Mara Caseiro]. Por mais que tentem dizer que é o Cimi, a senhora sabe, é a autonomia deles, e nós temos que respeitar", disse Dom Roque.

    No sentido de contribuir com os esclarecimentos, junto ao depoimento, o presidente do Cimi encaminhou um ofício explicitando os mecanismos estatutários da entidade, suas organizações financiadoras, o quadro de missionários e funcionários e também o Relatório de Auditoria Institucional Consolidado do Cimi, com as prestações de contas audidatas da entidade.

    Na próxima semana, será ouvido o secretário executivo do Cimi, Cleber Buzatto.

    Foto: Assembleia Legislativa/MS

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  • 14/04/2016

    Povos Indígenas no Brasil: 516 anos de golpes

    “Nós resistimos a mais de 516 anos de golpes. Querem nos calar. Vamos gritar mais forte. Estamos dando continuidade à luta dos povos originários desse país. Estou indignado, mas não irado. Estamos prontos para a guerra. Se me matam vou renascer”.  Essas são algumas das manifestações da delegação dos índios Xakriabá, de Minas Gerais.

    Um novo amanhecer

    Mal os primeiros clarões de mais um belo dia de outono se projetam sobre o Centro de Formação Vicente Cañas, e os Xakriabá iniciam seus rituais: pinturas corporais, afastamento de maus espíritos, agradecimentos e pedido de forças a Tupã e aos encantados. Terão pela frente uma missão nada fácil.  Lutar pelos direitos dos povos indígenas num contexto extremamente polarizado entre os que pleiteiam o impedimento da presidente Dilma e os que avaliam essa postura como um golpe.

    De uma coisa eles têm certeza: deverão estar unidos, articulados e mobilizados pelos seus direitos, seja lá qual for o desfecho da atual crise. Havendo impeachment ou não. É com essa convicção que partiram resolutos para o espaço do acampamento da Frente Brasil Popular, integrada pelos movimentos sociais, sindicatos, partidos políticos, povos e comunidades tradicionais, trabalhadores sem terra, movimento dos pequenos agricultores, atingidos por barragens, movimento das mulheres camponesas, dentre outros. Não alimentam ilusões diante da malograda política indigenista do atual governo, mas confiam no poder de transformação social a partir da luta e aliança de todas as vítimas históricas desses momentos de profundas crises econômica, política, social e ambiental. Continuarão exigindo seus direitos, independente dos desfechos conjunturais. A demarcação dos seus territórios será exigida, pois se trata de direitos constitucionais originários, portanto anteriores à criação do Estado brasileiro. Igualmente denunciarão, em fóruns nacionais e internacionais, as violências, a criminalização, as omissões e a falta de políticas públicas eficazes para a garantia de seus direitos. Estarão combatendo a PEC 215 e todas as iniciativas no Congresso, que visam tirar os direitos indígenas. Denunciarão a criminalização de lideranças indígenas, funcionários da Funai e aliados.

    Na avaliação sobre as mobilizações, os guerreiros e guerreiras, em sua grande maioria de jovens, externaram sua crença de que tem sido positiva a presença junto aos movimentos sociais e a participação no momento informativo/formativo e na mobilização contra os “impérios e monopólios da comunicação”.

    Cobraram da Funai o andamento de processos de regularização de seu território e visitaram gabinetes de ministros do Supremo Tribunal Federal. Entregaram um documento no qual chamam atenção para ameaças a seus direitos. No final do dia, a delegação ainda participou de mobilizações do acampamento da Frente Brasil Popular.


    Em carta entregue ao ministro do STF, Luiz Edson Fachin, expressam as preocupações de seu povo e dos povos indígenas do Brasil:

    Nós, Povo Indígena Xakriabá, oriundos da margem do rio São Francisco, reunidos em Brasília-DF entre os dias 11 a 15 de abril de 2016 vimos até Vossa Excelência entregar esta respeitosa carta e requerer o que nela segue:

    Nosso povo, assim como a grande maioria dos povos indígenas do Brasil, teve seu território roubado por fazendeiros sob a guarida do Estado brasileiro. Na luta pela demarcação, que já dura mais de um século, várias lideranças nossas foram assassinadas. Por esse motivo, a demarcação das nossas terras é uma dívida que o Estado tem com nossa gente.

    Ademais, não admitimos que o marco temporal, discutido pelo STF, possa impossibilitar que nossas terras nos sejam devolvidas. Essa interpretação nociva da Constituição Federal tende a retirar o direito à terra de milhares de indígenas e quilombolas, por isso pedimos encarecidamente que possa ser contra mais esse ataque a nossos direitos garantidos no art. 231 da Constituição.

    Por fim, pedimos a Vossa Excelência que possa contribuir com os povos indígenas e, para isso é necessário apenas a aplicação do direito indígena previsto na Constituição de 1988. Não aceitamos a retirada dos nossos direitos e, por isso, mais uma vez, rogamos por Vossa intervenção em nosso favor (Brasília-DF, 13 de abril de 2016. Lideranças Xakriabá).

    Quem resistiu a mais de cinco séculos de golpes, massacres, invasões, etnocídio, genocídio e toda a forma de violências, certamente atravessará esse mar de incertezas, incólumes e dispostos a continuar contribuindo com a construção de um Brasil mais justo, com menos corrupção e mais solidariedade, mais democrático e participativo.

    Egon Heck – fotos Laila/Cimi

    Secretariado Cimi – Brasília, 14 de abril de 2016.

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  • 13/04/2016

    Em nota, articulação dos povos indígenas da região Sul denuncia criminalização pela CPI da Funai/Incra

    Em nota, a Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (ArpinSul) denuncia parlamentares que integram a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Funai e do Incra de criminalizarem lideranças indígenas e desrespeitarem o direito de consulta livre, prévia e informada dos povos indígenas ao realizarem diligências de forma truculenta em seus territórios tradicionais.

    Segundo a nota, em denúncias e relatos para o Conselho Nacional de Direitos Humanos, que esteve visitando comunidades indígenas na região Sul no final de março, mesmo período em que ocorreram as diligências, “várias comunidades indígenas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina reportaram situações de constrangimento e até ameaça durante as diligencias realizadas pela CPI, realizadas com desvio de finalidade e sem a devida consulta informada a essas comunidades”, afirma a nota da ArpinSul.

    Os indígenas denunciam que, além das diligências – sob a justificativa de investigar supostas irregularidades nos processos demarcatórios – terem sido feitas sem aviso prévio às comunidades indígenas, à Funai e ao Ministério Público Federal (MPF), em desrespeito à Constituição Federal e à Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), elas foram realizadas de forma truculenta e com a presença indevida da Polícia Federal.

    A articulação indígena afirma que a CPI, sob a justificativa de investigar a Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra), “tem demonstrado seu propósito de inviabilizar politicamente os processos de demarcação de terras indígenas e de titulação de áreas quilombolas no Brasil também”.


    No documento, os indígenas também denunciam que o deputado e presidente da CPI, Alceu Moreira (PMDB-RS), durante as diligências, “tentou discutir propostas de compra de terras para que as comunidades indígenas abrissem mão de seus direitos territoriais constitucionalmente definidos”.

    A ArpinSul ainda critica “requerimentos absurdos” aprovados na CPI, como o que recentemente solicitou ao governo do estado do Rio Grande do Sul o “patrulhamento ostensivo” de comunidades indígenas. Tal ação, na avaliação da entidade indígena, impede “que membros dessas comunidades exerçam seu direito de ir e vir, vigiados por um poder de polícia que muitas vezes parece estar a serviço de interesses políticos”.

    Ao fim da nota, os indígenas pedem a ação do Ministério da Justiça para impedir abusos da Polícia Federal, a investigação dos casos de racismo e incitação de ódio e um maior envolvimento do Ministério Público Federal.

    Clique aqui para ler a nota na íntegra.

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