• 06/06/2016

    “Estamos desafiados a construir um novo projeto para o país”, afirmam movimentos populares reunidos em Mariana (MG)

    Entre os dias 2 a 4 de junho de 2016, ocorreu na cidade de Mariana (MG) o Encontro Brasileiro dos Movimentos Populares em diálogo com o Papa Francisco, no qual militantes e representantes de diversas religiões debateram temas como mineração, trabalho, meio ambiente, terra, reforma política, território e moradia. O evento em Mariana sucedeu outros dois encontros com o mesmo caráter, ocorridos anteriormente no Vaticano, Itália, e na cidade de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia.

    Foto: Cristiane Passos – CPT Nacional

    Cerca de 300 pessoas, entre representantes de movimentos populares, pastorais, pesquisadores e religiosos, participaram do encontro com a finalidade de fortalecer a articulação entre as igrejas e as organizações que defendem os direitos de povos indígenas, quilombolas, pescadores, comunidades tradicionais, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade.

    Na ocasião, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) lançou uma Campanha Nacional em celebração aos seus 40 anos de história (clique aqui para saber mais sobre a campanha e a as atividades programadas).

    O encontro em Mariana seguiu a tônica da encíclica Laudato Si’ (louvado sejas, em português), divulgada pelo Papa Francisco em junho de 2015. O documento trata sobre o Cuidado da Casa Comum e aponta alguns dos desafios impostos pela atual crise socioambiental em nível global. “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?”, questiona a encíclica.

    Além das marcantes menções ao crime ambiental ocorrido na Bacia do Rio Doce, do qual a cidade de Mariana tornou-se símbolo e razão pela qual foi escolhida como sede do Encontro, discutiu-se a atual situação política do país e as perspectivas para quem luta por “terra, teto e trabalho”, no contexto do golpe parlamentar que ocorre no Brasil.

    “Uma vez mais é preciso fortalecer a aliança das classes populares. Mais do que isto, estamos desafiados a construir um novo projeto para o país. Projeto que além de garantir terra, teto e trabalho para todos e todas, com justiça social, esteja em sintonia com a Mãe-Terra”, afirma a carta divulgada ao final do encontro em Mariana.

    Leia, abaixo, a íntegra do documento:

    Carta do Encontro Brasileiro de Movimentos Populares em Diálogo com o Papa Francisco

    Nós, Movimentos Populares e Pastorais Sociais reunidos em Mariana, Minas Gerais, em resposta ao chamado do Papa Francisco para o diálogo com os que lutam por “terra, teto e trabalho”, aqui viemos nos solidarizar com as famílias atingidas pelo maior crime socioambiental provocado em 2015 pela mineração no Brasil e alimentar nossa esperança na construção de outro mundo possível.

    Povos indígenas, quilombolas, pescadores, comunidades tradicionais, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, agentes das pastorais sociais compartilhamos nossas experiências de lutas, dificuldades numa sociedade tão desigual. Debatemos a opressão das forças do capital, a fragmentação e criminalização dos movimentos sociais e as violências contra os pobres, negros, mulheres, jovens e LGBTs. Aprofundamos nossa reflexão e partilha das formas de resistência e luta, para enfrentar esses desafios.

    Clamamos junto com a Mãe-Terra, que o uso intensivo de agrotóxicos provoca a morte de nossos povos e rios. Denunciamos que a concentração da propriedade e o estímulo ao agronegócio geram conflitos e violências no campo e na cidade, por isso se tornam urgentes e necessárias a Reforma Urbana e a Reforma Agrária.

    Queremos o fim da especulação imobiliária. Apesar dos avanços na política de moradia popular, a carência por moradia cresce a cada ano. O avanço do capital nos territórios, com estímulo ao extrativismo mineral, deixa um rastro de destruição ambiental, do qual o crime na Bacia do Rio Doce, provocado pela Vale e BHP Billiton, por meio da Samarco, com a conivência do Estado, é um dos exemplos mais terríveis.

    Neste momento de trevas no país, o encontro brasileiro surge com uma luz. Nos últimos anos, o modelo de desenvolvimentos adotado foi favorecido pelo contexto internacional, possibilitou avanços e garantias de direitos sociais, mas muito lucro para o capital.  Com a crise do capitalismo mundial iniciada em 2008, este modelo se esgotou. As forças do capital querem garantir seus interesses, mas nosso povo vem resistindo. Tomaram o governo federal por meio de um golpe, com apoio do Congresso Nacional e do Judiciário brasileiro, impondo o modelo neoliberal derrotado por quatro vezes nas urnas.

    Dizemos não às privatizações propostas pelo governo interino e golpista, não ao desemprego e à terceirização que ameaçam diretos dos trabalhadores e trabalhadoras. No Brasil, a democracia sempre foi resultado da organização e da luta do povo. Uma vez mais é preciso fortalecer a aliança das classes populares. Mais do que isto, estamos desafiados a construir um novo projeto para o país. Projeto que além de garantir terra, teto e trabalho para todos e todas, com justiça social, esteja em sintonia com a Mãe-Terra.

    Nós em diálogo com o Papa Francisco, reafirmamos o que está na Encíclica Laudato Si’: “Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. A solução requer uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza.”

    Quem não luta, está morto! Quem luta, educa.

    Com nossa fé revolucionária, fortalecemos nossa esperança na caminhada e a certeza na chegada. É preciso lutar para derrotar o golpe no Brasil, por isso nos comprometemos a ampliar as mobilizações, fortalecendo e diversificando os trabalhos de base, o diálogo entre os movimentos e ocupando as ruas. A luta imediata deve ser fermento no processo de construção de um projeto popular de país.

    Encerramos o encontro no subdistrito de Paracatu de Baixo, com nossos pés na terra devastada pela ganância do capital, e em diálogo com os atingidos reforçamos nossa solidariedade e compromisso com a luta pela justiça, reparação e empoderamento do povo da Bacia do Rio Doce.

    Após estarmos reunidos em Roma (2014), na Bolívia (em 2015), queremos convidá-lo a promover em terras brasileiras o 3º Encontro Mundial dos Movimentos Populares em Diálogo com o Papa Francisco, em outubro de 2017, em Minas Gerais. O convite é para manter viva a memória e o nosso compromisso de “cuidar bem da nossa Mãe-Terra, como Casa Comum de todos.

    Ao som dos sinos de Mariana, ecoando a dor dos Atingidos e atingidas, clamamos por Justiça!

    Mariana, Minas Gerais, Brasil, 4 de junho de 2016.

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  • 06/06/2016

    Indígenas do MS repudiam em Fórum de Educação Escolar extinção da Secadi pelo governo Temer

    Cerca de 500 professores e lideranças indígenas do Mato Grosso do Sul se reuniram entre os dias 26 e 28 de maio no VII Fórum Estadual de Educação Escolar Indígena e em carta divulgada ao término do encontro repudiaram a extinção pelo governo do presidente interino Michel Temer da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), organismo vinculado ao Ministério da Educação (MEC).

    "A Secadi tem sido um dos poucos espaços de interlocução dos povos indígenas para implementar políticas públicas nas áreas de educação escolar indígena, especialmente a política dos Territórios Etnoeducacionais, conforme o decreto 6861/2009, que define sua organização em territórios etnoeducacionais”, diz trecho da carta. A Secadi engloba ainda ações na área da educação quilombola e demais comunidades tradicionais e do campo.

    Na carta, professores e lideranças listam reivindicações para todas as esferas de poder estatal que dão conta da educação escolar indígena, com destaque para o governo estadual que insiste em não cumprir com as demandas à escola indígena. A percepção da educação diferenciada pelo Poder Público, conforme a carta, ainda é um entrave no cotidiano povos indígenas para a garantia da escola na aldeia.

    Leia a carta na íntegra:

    CARTA DE DOURADOS

    Comissão do Fórum Estadual de Educação Escolar Indígena

    Nós professores, lideranças e indigenistas, presentes no VII Fórum Estadual de Educação Escolar Indígena – FOREEIMS, realizado nos dias 26 a 28 de maio de 2016, na Terra Indígena Dourados, Aldeia Jaguapiru, Mato Grosso do Sul, cientes da dignidade humana e em defesa do bem viver, manifestamos ao Estado e à sociedade brasileira nossas preocupações, reafirmando, em primeiro lugar a necessidade de demarcar nossos Territórios Tradicionais, conforme prometido na Constituição Federal de 1988.

    Repudiamos toda forma de exclusão dos direitos já conquistados e garantidos nas legislações deste País com intuito de violar os diretos fundamentais do ser humano.

    Repudiamos a criminalização das lideranças indígenas, legítimos defensores dos direitos indígenas, pois lutar pela sobrevivência é a única opção que restou frente à violência colonial que abate e confina os povos ameríndios há 516 anos. A voz do conquistadores se faz ouvir diariamente em todas em práticas e legislações injustas em todas as esferas do poder: legislativo, executivo e judiciário.

    Entre as reformas neocoloniais cogitadas pelo governo brasileiro provisório, que somos contrários, está a extinção no âmbito do Ministério da Educação da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão – SECADI. Entendemos que a extinção da SECADI, por sua vez, arrancará do âmbito do Ministério da Educação a Secretaria que representa princípios de cidadania, inclusão e combate a todas as formas de intolerância e discriminação, presentes na Constituição da República Federativa do Brasil.

    A SECADI tem sido um dos poucos espaços de interlocução dos povos indígenas para implementar políticas públicas nas áreas de educação escolar indígena, especialmente a política dos Territórios Etnoeducacionais, conforme o decreto 6861/2009, que define sua organização em territórios etnoeducacionais. Do mesmo modo, a SECADI tem sido um espaço precioso para implementação de políticas para os povos do campo e quilombolas, minimizando todas as formas de violência praticada contra estes povos ao longo de nossa história. Salientamos a importância da criação de uma diretoria de Educação Escolar Indígena dentro da SECADI-MEC e exigimos a agilidade para realização da II Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena – II CONEEI prevista a ser realizado bienalmente, sendo que foi a primeira e única realizada em 2009. O Ministério da Educação deve garantir recursos financeiros e humanos necessários para efetivar a política dos territórios etnoeducacionais e intensificar o diálogo com os representantes regionais da educação escolar indígena, reunidos nos Fóruns Estaduais e Nacional de Educação Escolar Indígena. A inoperância do Ministério da Educação nos processos de diálogo entre o Movimento Indígena e a Instâncias Governamentais tem prejudicado, inclusive, a criação da Universidade Indígena.

    Como a educação escolar indígena tem os seus pilares que garantem a diferença e a especificidade em seu amplo sentido, e neste caso, a diferença didático – pedagógica requer abertura de novas vagas para concurso público de professores que atuam nos cursos de licenciaturas interculturais indígenas;

    Reivindicamos mais vagas e maior representatividade para indígenas no Fórum Nacional de Educação;

    Defendemos a continuidade e ampliação do financiamento à Formação Inicial de professores indígenas como, por exemplo, o PROLIND, além da garantia de formação continuada para professores como a Ação Saberes Indígenas na Escola.

    PARA AS UNIVERSIDADES DE MS

    Ampliação dos Cursos de Formação Específica em áreas demandadas pelas Comunidades: Pedagogia Intercultural, Saúde Coletiva, Gestão Ambiental e Territorial dos Povos do Cone Sul e outros demandadas pelo Povos do Pantanal;

    Criar critérios diferenciados e cotas de acesso nos cursos de Pós-Graduação em nível de mestrado e doutorado para indígenas;

    Levamos ao conhecimento das reitorias a necessidade de cursos de especialização em alfabetização, letramento e gestão;

    Pleiteamos a criação no organograma das universidades públicas e instituto federal em Mato Grosso do Sul de um pró-reitoria ou diretoria para a diversidade cultural, inclusão e assuntos indígenas;

    Incluir o financiamento da Licenciatura em Educação no Campo e Intercultural Indígena “Teko Arandu” na matriz orçamentária da universidade;

    Regularizar a Licenciatura Intercultural Indígena na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, pleiteando financiamento na matriz orçamentária.

    À SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO – SEDMS

    Exigimos:

    Cumprimento das resoluções estaduais e etnoterritoriais e das metas do Plano Estadual de Educação;

    Criação da Coordenadoria de Educação Escolar Indígena na SED/MS reivindicação feita a pelo menos dez anos;

    Garantir a participação da comissão do Fórum Estadual de Educação-

    FORREIMS na elaboração, sistematização, monitoramento e avalição do PAR de MS;

    Dar autonomia financeira para o Centro Estadual de Formação de Professores Indígenas – CEFPI

    Formação continuada específica para professores indígenas;

    Formação para o exercício de coordenação pedagógica das escolas indígenas dos Territórios Etnoeducacionais;

    Criação de Escolas de Formação que garantam cursos nas mais diversificadas áreas técnicos científicos – indígenas nos dois Territórios Etnoeducacionais;

    Realização do Concurso Público Específico por etnoterritório para as escolas indígenas com a participação direta dos membros do FOREEIMS;

    Reformular o termo de colaboração para as formações de professores Indígenas;

    PARA OS MUNICÍPIOS:

    Exigimos:

    Cumprimento das resoluções etnoterritoriais e as metas dos Planos Municipais de Educação;

    Criação de uma Coordenadoria de Educação Escolar Indígena no âmbito das SEMEDs reforçando Coordenadoria, não Núcleo de Diversidade;

    Reformular o termo de colaboração para as formações de professores Indígenas;

    Que os Municípios, antes de implementar a Educação Infantil, consultem o FOREEIMS e Fóruns Locais das comunidades;

    Que seja cumprido o quantitativo máximo de alunos por sala (20 alunos) de acordo as resoluções 2.960 e 2961/2015.

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  • 06/06/2016

    Lideranças Matís ameaçam ocupar Funai se nomeação de servidor for mantida no Vale do Javari

    Lideranças do povo Matís divulgaram em nota pública contrariedade ao retorno do servidor Bruno da Cunha Araújo Pereira, da Fundação Nacional do Índio (Funai), à Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari, no Amazonas. A região possui conflitos entre populações indígenas em situação de isolamento voluntário com povos de recente contato. Uma das razões que motivam os desentendimentos envolve intervenções desastradas da Funai no Vale do Javari. Os indígenas ameaçam ocupar a sede da Funai em Atalaia do Norte (AM) se a nomeação for mantida.  

    A própria Funai, há algumas semanas, divulgou uma nota criminalizando o povo Matís. A postura do órgão indigenista estatal gerou revolta e tensão na região. De acordo com a União dos dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Unijava) a nomeação do servidor irá agravar ainda mais os conflitos e há tempos os indígenas vinham sinalizando que não aceitariam a nomeação de servidores que possuem histórico de alimentar desentendimentos, ao invés de saná-los.

    Leia na íntegra:

    NOTA DOS MATÍS

    Nós Matís reunimos na sede da FUNAI dia 26 de Maio de 2016, para exigir do Coordenador interino da Coordenação da FUNAI de Atalaia do Norte – AM, o Senhor Junior Nazaré, tendo em vista a portaria que remove o Bruno da Cunha Araújo:

    PORTARIA Nº 450/PRES, de 12 de maio de 2016, do PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO – FUNAI, no uso das atribuições que lhe são conferidas pelo Estatuto, aprovado pelo Decreto nº 7.778, de 27 de julho de 2012, com base no inciso II do parágrafo único do art. 36 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, resolve: Art. 1º Remover, a pedido, o servidor BRUNO DA CUNHA ARAÚJO PEREIRA, Agente em Indigenismo, NI-A-V, matrícula nº 1821374, da Coordenação Regional do Vale do Javari-AM, para a Coordenação da Frente de Proteção Etnoambiemtal Vale do Javari-AM. Art. 2º Estabelecer o período de 30 (trinta) dias, incluindo o trânsito, a partir da publicação desta Portaria, para que o servidor se apresente na nova unidade de lotação. Art. 3º Será facultado ao servidor declinar do prazo estabelecido no artigo anterior. Art. “4º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação”

    Por não aceitarmos a volta do BRUNO DA CUNHA ARAÚJO PEREIRA, para a FPEAVJ, levando em consideração que na reunião com o presidente da FUNAI João Pedro na câmara dos Vereadores, no dia 06/03/2016, onde nós Matís e demais lideranças presentes, pedimos que o presidente levasse o Bruno para Brasília, se o presidente estava gostando do servidor, porque esse servidor já tem criado problemas com todas as etnias.

    Na reunião com o coordenador interino Sr. Junior Nazaré, pedimos ao Junior que redigisse documento comunicando ao presidente da FUNAI, que nós Matís não queremos a presença do Bruno na Frente de Proteção Etno Ambiental do Vale do Javari – FEAVJ. Caso, o Bruno vier, serão uma afronta e desrespeito com o povo Matís. Durante a reunião nós Matís telefonamos para o Fabricio perante o Junior para saber se o Bruno Cunha ainda permanecia com a portaria acima citado.

    Amorim respondeu o nosso telefonema, dizendo que não iria resolver, porque o João Pedro estava saindo da presidência da FUNAI na segunda feira dia 30/05/2016. E que o Bruno não ia voltar agora, iria trabalhar com Riely em outras frentes e depois que nós Matís acalmassem, voltaria para trabalhar na FPEAVJ. Com isso, nós Matís ficamos mais revoltados, e pedimos ao Junior Nazaré fazer documentos sobre a animosidade dos Matís das aldeias do Rio branco, em ocupar a sede da FUNAI. O Junior se negou dizendo que ele não tinha autonomia de fazer esse documento. Com isso, nós Matís pedimos para ele mesmo fazer carta ao presidente da FUNAI para se exonerar do cargo de coordenador interino, porque ele não estava resolvendo nada. Diante disso, a liderança Ivan Matís deu recado ao Junior Nazaré que se ele não tomasse providencia a sede seria novamente ocupado.

    A nossa situação estão cada vez mais tensas nas aldeias com a portaria do Bruno, as lideranças tradicionais criaram ódio contra os responsáveis, não querem mais o Bruno na região. As lideranças estão prontas para descer para Atalaia do Norte e ocupar a sede da FUNAI, caso não fosse exonerado o servidor.

    Para piorar a situação, nesta segunda feira dia 30/05/2016, ao chegarmos à FUNAI para reunião que ficou marcado, fomos informados pelo vigia que as atividades na FUNAI estavam suspensas e o Junior já tinha abandonado a sede, que o Junior Nazaré comunicou apenas aqueles funcionários do seu grupo, que é o grupo do ex-coordenador. Depois deparamos que o grupo estava despachando e atendendo outros indígenas na casa da Danile Brasileira e Junior Nazaré. Como disseram que a atividade da FUNAI estava suspensa, mas os carros continuam transitando com os servidores desse grupo normalmente.

    No dia 26/05/2016, os povos indígenas do Vale do Javari, fizeram uma carta, direcionando ao senhor Exmo. Sr. Artur Nobre – Presidente Interino da Fundação Nacional do Índio – FUNAI:

    Nós povos indígenas do Vale do Javari abaixo representados, reunidos na sede da UNIVAJA – União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, nesta data (26.05.16), na sede do município de Atalaia do Norte, preocupado com atual contexto enfrentado na região, vimos reiterar nossa reivindicação da CARTA N˚006/UNIVAJA/2016datado do dia 02 de março de 2016 e entregue em mãos ao ex-presidente do órgão João Pedro Gonçalves, na ocasião da audiência realizada no dia 06 de março, no plenário da Câmara Municipal de Atalaia do Norte. De imediato, além dos 17 (dezessete) itens acordados com o Presidentedo órgão, pedimos a nomeação do DARCY DUARTE COMAPA para o cargo de Coordenador Regional da CR Vale do Javari e revogação da transferência do ex-coordenador BRUNO DA CUNHA ARAÚJO PEREIRA para Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari, tendo em vista a relação hostil do povo Matís com o referido servidor. Nosso posicionamento quanto a situação mencionada é com intuito de precaver de qualquer atitude que venha acontecer com o tal servidor. Desta forma, pedimos a celeridade do pedido e as providências necessárias quanto ao pleito acordado para que possamos reafirmar nossas parcerias com o órgão indigenista oficial”.

    Na tentativa de dialogar com a FUNAI, para evitar qualquer conflito que venha acontecer no futuro. Porém, o presidente da FUNAI João Pedro vem duvidando com nós Matís, desrespeitando a nossa forma de ser, não considerando que somos um povo de recente contato, que merece respeito pela própria FUNAI, mas, estamos prontos para ocupar e revidar qualquer problema que venha acontecer contra o nosso povo.

    Nós representantes do Povo Matís estamos exigindo da FUNAI uma atenção para evitar conflito que venha acontecer. Mas, a FUNAI não quer dialogo e não atende o nosso pedido. Para contrariar e se manterem no cargo, os servidores do órgão estão usando índio contra índio, enquanto queremos dialogar e a solução do problema em nosso meio.

    Coordenação da AIMA.

    Atalaia do Norte – AM, 30 de maio de 2016.

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  • 06/06/2016

    I Assembleia da Juventude IndĂ­gena do Nordeste define agenda de lutas pelo direito Ă  terra

    A expectativa era de um encontro na aldeia Pedra D’água, Terra Indígena Xukuru do Ororubá, município de Pesqueira (PE), mas as duas centenas de jovens indígenas do Nordeste perceberam que na verdade se tratava de uma Assembleia. Entre os dias 21 e 23 de maio, os autointulados Filhos da Constituinte, tema do encontro, se debruçaram sobre os problemas da conjuntura do país em interface com a luta de seus povos.

    O que os jovens indígenas fizeram, na verdade, uma analisar os flagrantes desrespeitos à Constituição de 1988, e não apenas no que tange os direitos dos povos. Decidiram não reconhecer o “governo do presidente interino Michel Temer como legítimo”, e foram além: “Sentimos a necessidade de fortalecer os jovens no conhecimento de seus direitos e deveres junto aos seus povos. Procuramos articular a juventude de diversos povos do Nordeste para que estes conheçam e reconheçam a importância do processo constituinte”, diz trecho da carta da I Assembleia da Juventude Indígena do Nordeste.

    A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215 também foi alvo de críticas dos jovens e a devida participação deles nas lutas de resistência a propostas do gênero. O Marco Temporal, que foi incorporado à PEC 215, passou a ser entendido pela juventude como uma nova forma de atacar o direito à terra. Essa tese defende que território indígena só pode ser demarcado caso o povo que o revindique comprove ocupação ou litígio a partir da promulgação da Constituição, 5 de outubro de 1988.

    Leia a carta da I Assembleia na íntegra:

    Carta da I Assembleia da Juventude do Nordeste

    Nós jovens e lideranças indígenas do Nordeste estivemos reunidos em assembleia, na Aldeia Pedra D’água Terra Indígena Xukuru do Ororubá entre os dias 21 e 23 de Maio de 2016, em homenagem ao grande Guerreiro da Paz Xikão Xukuru, com o tema: FILHOS DA CONSTITUINTE, se fizeram presentes nesse momento os povos indígenas dos estados da Bahia (Pataxó, Pataxó hã hã hãe, Tumbalala, Tuxá, Tupitambá), Alagoas (Xukuru Kariri, Katokinn, Koiupanká, Kalankó), Paraíba (Potiguara, Tabajara), Ceará (Kanidé, Pitaguary, Anacé, Tapeba), Rio Grande do Norte (Potiguara do Amarelão) e Pernambuco (Atikun, Entre Serras Pankararú, Kambiwá, Kampinawá, Pankará de Itacuruba, Pankararú, Pipipã, Truká, Tuxá e Xukuru), juntamente com os nossos parceiros e aliados da causa indígena.

    Partindo da preocupação mediante a conjuntura política pela a qual o nosso país passa, e não reconhecendo o governo do presidente interino Michel Temer como legítimo, sentimos a necessidade de fortalecer os jovens no conhecimento de seus direitos e deveres junto aos seus povos. Procuramos articular a juventude de diversos povos do Nordeste para que estes conheçam e reconheçam a importância do processo constituinte e como esse momento se assemelha ao qual passamos hoje, momento este de reafirmamos os nossos direitos garantidos na constituição de 1988, que naquele marco histórico contou com a participação de várias das nossas lideranças.

    Os povos presentes por meio de um túnel do tempo reviveram a memória dos processos de luta pelos os quais passaram desde o princípio da colonização até o presente momento. Podemos então perceber a força e resistência dos nossos povos, na luta pela a posse e permanência nos nossos territórios sagrados que são as moradias dos nossos encantados.

    Todas os povos presentes reafirmaram o desejo pelo avanço dos processos demarcatórios de todas as terras indígenas que ainda não tiveram esse processo concluído ou se quer iniciado, conforme rege os artigos 231 e 232 da constituição de 88, assim como a garantia do direito aos territórios já demarcados, colocando-se contra a PEC 215 que propõe um retrocesso nos direitos garantidos na constituição de 1988 e assim sendo exigimos o seu imediato arquivamento bem como a não utilização do subterfúgio do Marco Temporal pelo poder judiciário.

    A partir da conquista dos nossos territórios precisamos garantir a manutenção dos mesmos, zelando e preservando-os, com este intuito nós povos indígenas do Nordeste apresentamos como demanda o direito a uma educação especifica e diferenciada dentro das nossas comunidades, com escolas indígenas de estruturas físicas de qualidade e acesso facilitado tendo como objetivo fortalecer o projeto de futuro das nossas etnias. Buscamos também uma saúde especifica, que valorize os conhecimentos dos nossos anciões e a utilização das medicinas tradicionais e espirituais, proporcionando a manutenção dos costumes e tradições de cada povo e preservando as nossas plantas através da pratica do reflorestamento, para assim garantir a morada dos nossos encantados. Reivindicam ainda a permanência e ampliação dos cursos universitários para os povos indígenas do Brasil e que as universidades utilizem-se de artifícios para conter as inúmeras formas de preconceitos sofridas pelos os estudantes indígenas.

    O fortalecimento da organização da juventude foi apontando como uma das principais necessidades do movimento de luta indígena no Nordeste, para garantir a posse e permanência nos nossos territórios, partindo dessa realidade os jovens representantes dos povos presentes nessa assembleia criam um grupo que tem como finalidade articular a base para a criação de uma comissão de juventude a nível regional.

    Assim afirmamos é golpe, mas não é NOCALTE. E diga ao povo que avance.

    AVANÇAREMOS!

    Aldeia Pedra D’água, Terra Indígena Xukuru do Ororuba, Pesqueira – PE, 23 de Maio de 2016.

    Fotos: Zennus Dynis/Cimi-NE

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  • 03/06/2016

    Ex-presidente da Funai cai do cavalo

    O senador Romero Jucá teve uma carreira política meteórica. De pacato pernambucano, diretor do Projeto Rondon, foi catapultado para presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), em 1986. Sua missão era clara: abrir as terras indígenas à mineração, exploração madeireira e outros recursos naturais. Quando chegou ao prédio e política da Funai era o período da Constituinte. Encarregou-se de tirar os índios de Brasília. Igualmente expulsou vários missionários do Cimi das terras indígenas. Dentre os expulsos por Jucá estava um dos fundadores do Cimi, Egydio Schwade e família.


    Foi limpando os caminhos para executar os planos das mineradoras e outros interesses econômicos em terras indígenas.

    “Funai tem projeto para matar índios”. Essa foi a manchete do Diário do Amazonas de 11 de maio de 1988. Depois de se referir às acusações do presidente da Funai, Romero Jucá Filho, contra o Cimi, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Centro Maguta, proibindo essas instituições de entrar em terra indígena, noticia o jornal: “Nessas acusações contra as entidades de apoio à causa indígena transparece claramente a política da Funai, pouco preocupada com a situação e as reivindicações legítimas dos índios, levando adiante seu projeto desenvolvimentista etnocida, retirando do caminho todos aqueles que se possam opor a ele”.

    No jornal Folha de Boa Vista, de Roraima, do dia 6 de março de 1988, Jucá afirma que “após a demarcação das terras indígenas, a exploração do ouro e de minérios, só será permitida por empresas mineradoras”. Na mesma matéria informa que “o presidente Sarney decidiu que os garimpeiros que hoje exploram ouro em área indígena serão todos evacuados. No entanto, ele afirmou que as áreas minerais serão mantidas, ou seja: a demarcação vai ser executada somente onde não foi detectado minérios”.

    Ritual contra Jucá

    Com muita razão, os Yanomami fizeram rituais para que não ficasse no poder um dos maiores responsáveis pelo massacre de seu povo. Lembram que foi no período em que Jucá foi presidente da Funai e em seguida governador de Roraima que aconteceu a maior mortandade de seu povo, com estimativa de mais de 1.500 mortes, em razão da invasão garimpeira, de mais de 40 mil pessoas.

    “Tecnocrata… Nos cinco primeiros meses de sua gestão, o quadro de funcionários havia passado de 3.300 funcionários para 4.200. Somente em Recife, sua terra natal, o escritório da Funai chegou a ter 400 funcionários vinculados. Tentou tirar a crise do órgão das páginas de jornais, mas acabou sofrendo intervenção do TCU devido às irregularidades financeiras do órgão. Defendia a linha ‘pragmática’ de exploração dos recursos naturais das terras indígenas, e foi acusado de promover inúmeros contratos com madeireiras” (website do Instituto Socioambiental).

    É bom lembrar que, no processo Constituinte, as mineradoras tentaram de todas as formas garantir no texto constitucional a mineração em terras indígenas. A mineradora Paranapanema, instalada em território Waimiri Atroari, foi uma das patrocinadoras de uma das mais ardilosas e maquiavélicas campanhas já registradas no Brasil, contra uma entidade, no caso, o Cimi. Em consequência, o relator Bernardo Cabral apresentou um substitutivo sobre a questão indígena no qual abria os territórios indígenas “à ganância das empresas mineradoras, permitindo a exploração das riquezas minerais naqueles territórios” (Porantim, setembro 1987).


    Em 1987, Jucá assinou o convênio Funai/DNPM para exploração mineral empresarial em área indígena. Em maio de 1988, assinou portaria criando um Grupo de Trabalho (GT) para avaliar o grau de “aculturação” dos índios.

    Em setembro de 1987, os Xavantes pedem a demissão de Jucá.  No mesmo ano, o Tribunal de Contas da União pede a extinção da Funai (Porantim, setembro 1987).

    O Presidente da Funai (Jucá) opta pelo retrocesso: “A concepção de política indigenista do presidente da Fundação Nacional do Índio, Romero Jucá Filho, bate perfeitamente com o que foi proposto pelo  relator da Constituinte Bernardo Cabral e se assemelha à visão do Conselho de Segurança Nacional, até na linguagem… Ele aplaude o retrocesso, respalda o interesse das empresas mineradoras quanto ao subsolo das áreas indígenas e ataca entidades indigenistas”  (Porantim, dezembro 1987).

    Por seus relevantes serviços durante a Ditadura Militar, Jucá foi catapultado da Funai para ser governador biônico de Roraima, carregando consigo um processo no Superior Tribunal de Justiça por ter autorizado ilegalmente a extração de madeira em área indígena. Como governador de Roraima, defendeu a permanência dos garimpeiros invasores do território Yanomami.

    Jucá foi líder no Senado Federal nos governos FHC, Lula e Dilma. Atualmente era um dos mais influentes ministros do governo provisório de Michel Temer. O cavalo do poder corcoveou e Jucá caiu. Mais uma vez.

    Egon Heck
    Cimi Secretariado Nacional
    Brasília, 25 de maio de 2016.

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  • 27/05/2016

    Carta de Brasília: Pela afirmação e garantia dos Direitos Humanos e em defesa da Democracia

    A instauração pelo parlamento brasileiro – com apoio dos setores mais conservadores da sociedade (empresariado, ruralistas, grupos fundamentalistas religiosos e mídia tradicional) – do processo de impeachment contra a Presidenta da República Dilma Rousseff criou um cenário de instabilidade política e institucional que traz graves ameaças à democracia e à garantia dos direitos humanos.


    É fato que este contexto de ameaças vem se acirrando ao longo dos últimos anos – já se evidenciava de forma contundente em 2010 quando os mesmos grupos se insurgiram contra o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) –, mas tem encontrado resistência de setores organizados da sociedade civil brasileira que defendem, de forma intransigente, a afirmação dos direitos.


    Diante da complexidade da conjuntura atual e da agenda de retrocessos que vem se desenhando pelo grupo que tomou o poder de forma ilegítima, militantes e representantes de redes, movimentos e organizações reunidas/os em Brasília-DF para debater o fortalecimento do campo e da agenda popular de direitos humanos vêm por meio desta carta manifestar seu posicionamento:


    Consideramos ilegítimo o governo do atual presidente interino Michel Temer (PMDB) por reconhecer que sua ascensão foi proveniente de um golpe articulado pelos setores derrotados nas eleições presidenciais de 2014, com ampla adesão de parte do judiciário, do empresariado e da mídia;


    Contra o desmonte das garantias constitucionais como o voto. A democracia brasileira sofreu um ataque frontal com a admissão de um processo de impeachment declaradamente político contra uma presidente democraticamente eleita pela maioria do eleitorado brasileiro;


    Contra o desmonte das políticas de universalização de direitos fundamentais consolidados na Constituição de 1988 (saúde, educação, moradia, entre outros) que vem sendo sinalizado pelo governo já nesta primeira semana de mandato interino;


    Contra um ajuste fiscal que onera principalmente a classe trabalhadora e contra o desmonte de políticas que garantem direitos sociais, entre elas o Programa Minha Casa Minha Vida, o Programa Bolsa Família, SUS, FIES, PROUNI, PRONATEC;


    Contra a criminalização dos movimentos sociais e das/dos defensoras/es de direitos humanos e pela preservação da garantia constitucional do direito à livre expressão e manifestação política;


    Contra as ameaças aos direitos das mulheres e aos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, e ao desmonte das políticas públicas nestas áreas, bem como daquelas que visam mitigar o racismo, a discriminação e o genocídio da juventude negra;


    Contra a extinção do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, que demonstra o descaso do governo interino para com a garantia dos Direitos Humanos, ferindo o princípio do não retrocesso expresso no Pacto de São José da Costa Rica, ratificado pelo Brasil;


    Pela garantia da titulação dos territórios de povos indígenas e quilombolas;


    Em repúdio às violações do direito à comunicação e à liberdade de expressão, expressas pelo governo interino por meio de ações como o fim o Ministério das Comunicações e pela ingerência sobre a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) com demissões e proposta de desmonte;


    Em defesa do princípio constitucional da laicidade do Estado, que vem sendo sistematicamente violado em razão de interferências de cunho religioso nas esferas públicas e, em particular, no poder legislativo;


    Por nenhum direito a menos, em defesa da Democracia e contra o golpe parlamentar, judicial e midiático em curso no país!


    Brasília, 20 de maio de 2016


    Assinam este manifesto:

    Entidades:

    ANDI Comunicação e Direitos

    Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB

    Articulação de Mulheres Negras Brasileiras – AMNB

    Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil

    Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais – ABONG

    Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia – AATR-BA

    Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente– ANCED

    Centro Feminista de Estudos e Assessoria – CFEMEA

    Centro Popular de Formação da Juventude – Vida e Juventude

    Comissão Brasileira Justiça e Paz – CBJP/CNBB

    Comissão Pastoral da Terra

    Comitê Pró Democracia

    Conselho Indigenista Missionário – CIMI

    Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC

    Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB

    Conselho Pastoral dos Pescadores – CPP

    Criola

    Encontro Nova Consciência

    Feact Brasil

    Fian Brasil

    Fundação Grupo Esquel Brasil

    Geledés Instituto da Mulher Negra

    ICAP/MNDH

    Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – IBASE

    Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC

    Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

    IPÊS

    Justiça Global

    Marcha Mundial do Clima

    Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB

    Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH

    PAD Articulação e Diálogo Internacional

    Plataforma de Direitos Humanos – Dhesca Brasil

    Relatoria de Direitos Humanos e Estado Laico

    Sociedade Maranhense de Direitos Humanos – SMDH

    Sociedade Paraense de Direitos Humanos – SDDH

    Terra de Direitos

    URI Brasília

    Visão Mundial

    Pessoas:

    Clara Evangelista – INCRA/ABRA

    Ivanilda Figueiredo – Relatora de Direitos Humanos e Estado Laico

    Tatiane Duarte – Doutoranda em Antropologia Social – UnB

    Veet Vivarta

    Adesões:

    Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT

    Coletivo Nacional de Juventude Negra – Enegrecer

    Laboratório de Educação em Direitos Humanos do Colégio Pedro II – LAEDH

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  • 27/05/2016

    Apka’i: “A gente conhece onde a gente pertence”, diz cacique Damiana Guarani e Kaiowá

    Uma inabalável convicção marca o olhar e cada gesto desta mulher miúda. Miúda mesmo. A cacica Damiana Calvanhe tem menos de 1,40m de altura. No entanto, é fácil perceber que ela ocupa um espaço muito maior que o de seu corpo físico. Ela explica, em entrevista ao jornal Porantim, que seu nome indígena Ckunha Apyka Rendy’i significa “menina do banquinho iluminado”, sendo que o banquinho era o lugar onde o antigo Ñanderu sentava para conversar com os indígenas. Rezadeira e líder espiritual, ela também é a liderança política do povo Guarani-Kaiowá na comunidade de Apyka’i, localizada em Dourados, no Mato Grosso do Sul, e que sofre um dos ataques mais intensos do Estado brasileiro e de interesses privados para que não exista. Na 15ª Sessão do Fórum Permanente da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Questões Indígenas, ocorrida em Nova Iorque durante o mês de maio, Elizeu Guarani e Kaiowá (na foto ao lado) levou formalmente o caso Apyka’i e pediu ajuda do Fórum da ONU para que recomende ao Brasil a demarcação. 

    Cravada no sudoeste do estado brasileiro mais violento com os povos indígenas, Apyka’i fica às margens da BR 463 e, sem eletricidade e acesso à água, é uma das comunidades mais vulneráveis de todo o país. Depois do assassinato de seu pai, quando tinha 11 anos, ela presenciou a expulsão de seu povo do território tradicional. Entre retomadas e expulsões, Damiana convive com as permanentes ordens de despejo. Ao Apyka’i está sobreposta uma fazenda arrendada para a Usina São Fernando, de propriedade de um réu da Operação Lava Jato, o pecuarista e usineiro José Carlos Bumlai, cuja dívida com o BNDES e o Banco do Brasil chega a R$ 1,2 bilhão mesmo depois de decretada a recuperação judicial da usina em abril de 2013. 

    A mata foi destruída para dar lugar à expansão da criação de gado e da monocultura de cana e grãos. Liderando a resistência para retomar a terra à qual pertencem, dona Damiana testemunhou a morte de vários parentes: três filhos, um neto e o marido atropelados, e uma tia, também rezadeira, vítima da intoxicação por agrotóxicos, pulverizados maldosamente de um avião sobre o acampamento indígena. Agitando levemente o maracá feito por ela, dona Damiana mostrou, dentre outras revelações, que entende os limites da sociedade não indígena de compreender valores fundamentais da cultura de seu povo: “A gente sente a terra de outro jeito… A gente pertence àquela terra… não pode ir pra outro lugar. Como é que a gente vai pra um lugar que não é nosso?”.

    Bastante ágil, do alto dos seus inacreditáveis 74 anos (idade totalmente desconsiderada por ela, que precisou recorrer a um documento para lembrar-se), a mirrada senhora torna-se uma gigante guerreira ao descrever como o seu povo tem resistido às desumanas condições de vida nas últimas décadas, entre a beira da rodovia e as plantações de cana, e os motivos que os fazem seguir, resilientes, na luta pela terra sagrada.

    Porantim – Qual é a situação atual da Terra Indígena Apyka’i?

    Cacica Damiana – Antes tinha muito mato, rio, bicho de caça, pesca. Mas foram derrubando a mata para fazer lavoura, envenenando a terra e a água. Não tem mais bicho nenhum. Depois da morte do meu pai chegaram os fazendeiros dizendo que a terra era deles. Antes do pai morrer não tinha violência. A gente morava onde hoje é a fazenda. Tinha a ongu´su [casa de reza]. Meu pai era o grande líder do Apyka’i, cacique e rezador. Hoje eu sigo esses conhecimentos dele. Naquela época moravam umas 150 pessoas aqui e as casas eram de sapé. Os fazendeiros chegaram queimando as casas. A comunidade foi obrigada a sair depois da morte dos parentes e das muitas ameaças. Fomos para a beira da estrada, mas sempre voltamos para nossa terra, para Apyka’i. Estamos há mais de 20 anos na beira da estrada, esperando a demarcação (leia mais na página 5).

    Porantim – Hoje a comunidade vive em uma retomada de parte do território tradicional?

    Cacica Damiana – Retomamos uma pequena área de mata, entre a cana e a estrada, mas estamos novamente ameaçados. Antes de vir pra cá teve mais uma ordem de reintegração de posse a favor do fazendeiro. Eu nasci e fiquei velha ali mesmo. Nunca saí. Fomos despejados cinco vezes e sempre voltamos. Agora é a sexta tentativa de tirar a gente de lá.

    Porantim Como foram esses processos de despejo?

    Cacica Damiana – Sempre usam violência contra a gente. Já fomos despejados à força pelos seguranças da usina, quando queimaram tudo, nossos barracos, roupas… Naquela época não tinha o Cimi [Conselho Indigenista Missionário]. Às vezes, chegam atirando. Já veio jagunço disfarçado de polícia. Teve uma vez, na quinta, que foram expulsar a gente e nos recusamos a sair do local. Os produtores já jogaram veneno de avião, depois envenenaram o córrego de onde a gente bebe a água. Uma tia minha, que era rezadeira, idosa, morreu por causa do veneno do agrotóxico. Muitas crianças ficaram doentes, com coceira no corpo. Nossos animais domésticos, gatos, e de criação, galinhas, morreram. Fazem muitas ameaças, a perseguição é constante.

    Porantim – Quantas pessoas da comunidade morreram atropeladas?

    Cacica Damiana – Até hoje foram oito. Eu perdi três filhos, um neto de 4 anos e o marido. Todos foram atropelados.

    Porantim – Esses atropelamentos sistemáticos são acidentais?

    Cacica Damiana – Não são acidentes. A gente sabe que é de propósito porque os funcionários que trabalham na usina conhecem toda a comunidade. Quando vamos para a cidade para vender os produtos da lavoura é que acontecem os acidentes. A polícia chega, faz o boletim de ocorrência, a gente conta tudo o que aconteceu, dá a descrição do carro, de como foi, tudo, mas até agora, nunca prenderam os assassinos. Os motoristas nunca prestam socorro. Sempre fogem. Uma vez foi o próprio ônibus da usina que atropelou o meu filho, Sidney. Na época, ele tinha 26 anos. Eles estão enterrados no cemitério na mata, dentro da fazenda, perto do acampamento. As cruzes estão lá.

    Porantim – Quantas pessoas moram no Apyka’i hoje?

    Cacica Damiana Hoje no Apika’i tem quase umas 50 casas.

    Porantim – A comunidade continua sem eletricidade e acesso à água?

    Cacica Damiana – Os barracos são todos de lona. Só tem uma casa de sapé porque é difícil conseguir sapé hoje. Quando não chove a gente toma água limpa do córrego. Fica longe assim [aponta para um prédio a uns 300 metros]… Quando chove tomamos água suja. Muita gente fica doente, principalmente as crianças. Na cabeceira do córrego tem um pasto que quando o gado ou um cavalo morre eles são jogados mortos na água. Apodrece a água. Mesmo assim é esta água que temos que beber porque não tem outra. É a mesma água para cozinhar, lavar roupa tomar banho, higiene pessoal, pra tudo.

    Porantim – Ocorrem muitos casos de doenças? Vocês recebem algum tipo de atendimento à saúde?

    Cacica Damiana – As principais doenças são diarréia, devido ao consumo de água suja, e coceiras no corpo das crianças. A Funasa vai a cada 15 dias. Logo que alguém fica doente eu ligo para virem buscar, pra atender. Não tem agente de saúde em Apyka’i.

    Porantim – Como conseguem garantir alimentação para a comunidade?

    Cacica Damiana Alguns de nós plantam, outros não. A gente tem muita rama (mandioca), feijão cantador, feijão comprido, feijão chopeu, macucu (batata). Quem não tem comida, a gente procura dar um jeito de conseguir. A Funai [Fundação Nacional do Índio] deveria entregar cestas básicas a cada 15 dias, nas há dois meses ela não leva. A gente tenta não deixar ninguém passar fome, mesmo que eu passe discriminação, preconceito, sempre acabo conseguindo. Se precisa, eu vou pra Dourados e peço doação em uma igreja lá.


    Porantim – Foram feitas investigações para descobrir os responsáveis pelos incêndios aos acampamentos?

    Cacica Damiana – Foram dois grandes incêndios. Um foi em 2009, quando os pistoleiros armados atacaram o acampamento, atirando em direção às casas. Um indígena [de 62 anos] foi ferido pelos tiro, outros foram feridos. Eles colocaram fogo no acampamento e nos nossos pertences. Foi tudo a mando dos fazendeiros. Era por volta de 1h da madrugada. A gente tava dormindo. Tinha acabado de construir o acampamento. Queimou barraco, roupa, queimou celular, bicicleta, tudo. Logo depois do despejo. Fizeram isso porque a gente queria pegar água, a gente pediu licença. Mas os seguranças [da fazenda] não deixam não. Teve outros ataques e ameaças e depois [em agosto de 2013], outro incêndio destruiu de novo tudo, os barracos, colchões, alimentos e nossas coisas. Começou de propósito no canavial da usina e foi pro acampamento. Ameaçaram matar a gente de novo. A polícia nunca prendeu ninguém.

    Porantim – Vocês continuam recebendo muitas ameaças?

    Cacica Damiana Eles estão sempre tentando tirar a gente, de um jeito ou do outro. Não vamos sair mais, nem morrendo, porque queremos ser enterrados ali. Antes de vir pra cá quase aconteceu mais um acidente. Uma moto vindo da usina quase atropelou meu primo, quase passou por cima dele. Era um trabalhador da usina. Mesmo a gente andando no acostamento, eles vão pra cima quando vêem que é um índio que tá vindo. Às vezes, eles ficam de longe, rodeando o acampamento, observando o local. A gente liga pra Força Nacional, eles vão lá, dão uma volta, entram na aldeia e vão embora. A polícia vai para lá e faz o que interessa para usina. Agora a comunidade não tá querendo liberar para colher a cana porque já mataram muitos de nós e nada foi feito.

    Porantim – Para a senhora, qual é a principal diferença entre os indígenas e os não indígenas?

    Cacica Damiana A gente não vive do jeito deles. Os brancos não gostam dos índios porque a gente não vive do jeito deles. E porque a terra sempre foi nossa. Em cima na nossa terra é que eles estão enriquecendo, construindo várias coisas na nossa terra. Antigamente tinha Ñanderu, nós somos geração depois dele. O Ñanderu Chiru Akandire, grande rezador, desapareceu embaixo de uma pedra, importante no Apyka’i. Aquela pedra se tornou um grande lago, daqui até aquele prédio [aponta para uma distância de uns 500 metros). A gente escuta ele fazendo reza, se movimentando. A gente sente a terra de um jeito diferente.

    Porantim – O que é mais importante na vida dos indígenas?

    Cacica Damiana A união, a harmonia, o amor um pelo outro, plantar, colher, a reza, sempre, o canto, a dança, o Ñande reko [nosso jeito de viver]. Viver livre, com alimentação. Sempre vivemos assim. A reza em nós mesmos. O conhecimento está dentro de nós. A nossa reza que faz a gente chegar em todo lugar. A diferença é que nós, indígenas, temos respeito. Respeito por todo mundo. Não somos como os karaí [não indígena] que não respeitam nosso tekoha [lugar onde se é].

    Porantim – O que a senhora quer dizer quando afirma que o conhecimento está dentro de nós?

    Cacica Damiana O conhecimento vem desde o princípio. Ñanderu transmitiu de geração para geração, através da linguagem, da reza, do canto, das histórias. A gente sabe. Ñanderu é aquele que canta, reza. Ele é um ser humano como nós, só que ele tem o poder de criar, fazer todas as coisas. Ele desapareceu, subiu pro céu. A ciência dos Guarani e dos Kaiowá é difícil de explicar. Precisa saber muito para entender. Ser profissional nessa área. Um caminho é o canto. Antigamente, todos os animais eram gente. Tem aldeias inteiras que somem. É difícil para entender com a cabeça. Mas o que temos hoje não é nosso mais. O branco tá passando muita coisa pra gente, mesmo nossos vestígios [pega na sua própria calça jeans e aponta para o seu tênis]. Antes não era assim. Nossos calçados eram feitos por nós, de plastilha. Uma espécie de borracha, toda cortada e atravessada. Meu pai usou uma até a morte dele. Ela continua lá, com ele, no cemitério.

    Porantim – Dinheiro é importante para vocês?

    Cacica Damiana [balançando a cabeça, negativamente] Não.

    Porantim – Por que não? Vocês não precisam de dinheiro para viver?

    Cacica Damiana Dinheiro acaba. A terra não. A terra dá tudo o que gente precisa. Ela tem toda a vida que a gente precisa. Terra é sangue do índio [ajoelhada, pega e esfrega a terra na mão]. Terra tem vida porque produz o alimento. A gente planta e colhe. Quem prejudica é o karaí, que estraga tudo, que faz adoecer a terra.

    Porantim – A senhora acha que um dia os brancos vão entender a relação dos indígenas com a terra, com a natureza, e vão agir de um modo diferente?

    Cacica Damiana Tem pouca pessoa que se interessa sobre o nosso conhecimento. Para ensinar os brancos é importante que os nossos jovens aprendam português. É difícil o branco mudar porque é difícil ele aprender, porque ele não tem reza, não tem canto, continua prejudicando a terra. Ainda não entendeu. Nós temos rezas para as pragas. Os brancos têm veneno, veneno que fica na terra, na água, vai para os bichos e para as pessoas. Nunca vai entender.


    Porantim – Por que os fazendeiros agem com tamanha violência contra vocês?

    Cacica Damiana – Os fazendeiros querem acabar com a gente pra tomar nossas terras. Falam que a terra é deles, mas não é. Querem expulsar a gente. Querem tirar a comida, para plantar tudo com cana. Só querem dinheiro. Como nós respeitamos eles, não fazemos reza para prejudicar eles, como fazer fechar o sol, que vocês chamam eclipse. A gente ama todo mundo e por isso não faz o mal. Mas se não demarcar a terra e continuar morrendo… se fizer ritual para fechar o sol, morre muita gente. Podemos fazer tremer a terra. Fazer reza no rio, fazer vento forte.

    Porantim – O que o governo deveria fazer para o seu povo?

    Cacica Damiana – O governo não respeita, faz pouco caso com nós. E, por isso, tem culpa do que está acontecendo, as mortes, os tiros. Viemos aqui, de longe, pra tratar da homologação, da demarcação das nossas terras, mas não querem conversar. Governo tem que demarcar. Se tiver justiça, tem demarcação. Como nós vamos viver? Na rua? Pedindo comida para comer?

    Porantim – O que a senhora acha que vai acontecer com os povos indígenas no Brasil?

    Cacica Damiana Corre o risco de morrer mais gente, a qualquer momento, de dia e de noite, até mesmo dormindo. Enquanto não demarcar as terras dos índios vai acontecer derramamento de sangue. A gente não tem segurança. A gente só vai conseguir o que é nosso de volta através desse movimento, de estar junto, de não desistir, e pelas nossas rezas. O branco se apodera pelo dinheiro, contrata pistoleiros pra nos matar. Nós temos nossos maracás, nossas bordunas. Esse é o nosso jeito de mostrar quem somos. A gente não pode desistir do nosso tekoha.

    Porantim – Por que, mesmo com tanta violência e sofrimento, sua comunidade continua lutando pela terra? De onde vocês tiram forças para seguir na resistência?

    Cacica Damiana A gente pertence àquela terra. Meu pai morreu ali. O Ñanderu Akandire se escondeu lá, desapareceu lá. Meus filhos, meus parentes estão enterrados ali. Não é da usina. A terra é nossa moradia, da nossa família. A gente conhece onde a gente pertence, o que é nosso, verdadeiro. Por isso é que estamos lá. A gente não pode ir pra outro lugar. Como é que a gente vai pra um lugar que não é nosso? A maior dor que sinto nessa luta pela terra pras nossas comunidades e nossas crianças é saber que a qualquer hora podem nos matar e também no momento da morte do meu pai. A nossa força vem da nossa reza, do nosso canto, do maracá, do chiru (cruz que representa o Ñanderu, o corpo e a vida). Assim que ganhamos a força que precisamos para lutar pela nossa terra. Todos têm que seguir este caminho da espiritualidade. Hoje muitos não estão lutando. Comunidade está enfraquecendo por conta de algumas religiões que não dão força, que não querem mais as nossas rezas. Vamos retomar as terras com as nossas rezas. E com a nossa força. Ser indígena é viver nossa cultura.


    Tradução do Guarani por Élson Canateiro Gomes, do povo Guarani-Kaiowá, da Terra Indígena Teyikue

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  • 26/05/2016

    Em carta da XVI Assembleia, povo Xukuru afirma que nĂŁo reconhece governo provisĂłrio de Michel Temer

    O povo Xukuru do Ororubá, do agreste de Pernambuco, realizou entre os dias 16 e 20 de maio a XVI Assembleia do povo, encerrada com a tradicional descida da Serra do Ororubá para a rua no município de Pesqueira em que o cacique Xikão Xukuru foi assassinado, em 1998. Em carta divulgada ao fim do encontro, os Xukuru afirmam que não reconhecem o governo provisório do presidente interino Michel Temer.

    Os Xukuru ressaltam a construção do projeto de vida do povo, garantindo a participação das aldeias que compõem a terra indígena, e mostram disposição de, ao lado dos povos indígenas do Brasil, enfrentar a conjuntura de ataques aos direitos indígenas.

    Leia na íntegra:

    POVO XUKURU DO ORORUBA

    CARTA DA XVI ASSEMBLEIA DO POVO XUKURU DO ORORUBÁ

    19 de maio de 2016

    Nós, Guerreiros e Guerreiras Xukuru do Ororubá, orientados pelos saberes dos nossos encantos de luz, nos reunimos na Aldeia Pedra D’água, nos dias 17, 18 e 19 de Maio, na realização da XVI Assembleia Xukuru, que teve como Tema: “Limolaigo Toípe – Nossa Educação é nossa resistência”, com representantes das aldeias: Pão de Açúcar, Pé de Serra de São Sebastião, Pé de Serra dos Nogueiras, Cana Brava, Brejinho, Afetos, Caípe, Caetano, Couro Dantas, Oiti, Caldeirão, Capim de Planta, Lagoa, Cimbres, Sucupira, Guarda, Jatobá, Pedra d`água, Curral Velho, São José, Gitó, Mascarenhas, Santana, Passagem, Pau Ferro, Cajueiro e os indígenas da cidade; além dos parceiros e aliados do nosso povo. Durante esses dias discutimos caminhos que apontam para uma prática de educação que represente com profundidade a maneira de ser e viver Xucuru.

    Passados 24 anos na trajetória da construção da política de Educação Escolar indígena Xukuru, esta Assembleia propõe uma avaliação desse período, com o propósito de perceber nossas limitações e planejar estratégias que elevem a qualidade de ensino e, principalmente, que a educação Xukuru,  cada vez mais, esteja pautada na valorização da identidade do nosso povo, que passa pela relação com a terra, no cuidado e na vivência com a natureza sagrada, sendo esses os princípios de nossa  agricultura, que identifica a forma que vivemos e convivemos nesse território.

    Para essa edição, nossa Assembleia teve a preocupação de uma maior participação das comunidades no processo de construção, através da pré-assembleia, que ocorreu entre os dias 11 a 17 de abril. Na oportunidade foi realizada uma escuta, onde as comunidades puderam expor seus olhares sobre a educação que temos e vivenciamos. Entre as várias questões, foi possível identificar que, para nossas comunidades, a educação deve valorizar a agricultura Xukuru, enquanto elemento fundamental da identidade do nosso povo.

    A nossa agricultura apresenta uma lógica onde a Natureza Sagrada é o elemento central que determina e possibilita o dialogo de saberes entre o Mundo dos Encantados e o mundo físico material. Sua racionalidade própria permite que os saberes e os conhecimentos tradicionais assumam relevância e possibilitam o avançar na construção de um novo, extremamente comprometido, através de uma relação de fidelidade com nossas origens.

    Por esse entendimento, sentimos a necessidade de lançar um olhar sobre o nosso Projeto Político Pedagógico-PPP, assim como, sobre os EIXOS temáticos que orientam a Educação Escolar Xukuru, assim como em todos os povos em Pernambuco, que são: Terra; Identidade; História; Interculturalidade; e Organização.   A XVI Assembleia do Povo Xukuru, aponta para que seja acrescentado o eixo “Agricultura” entendendo que esta, tem como princípios, o Respeito à mãe terra; Garantir o uso fruto do território e a terra livre; Atender as necessidades básicas das famílias e, não o acúmulo de riquezas nas mãos de poucos. A consciência de cuidado e zelo, e não a exploração da natureza, garantindo a nossa saúde. Esta consciência tem relação íntima com a educação do nosso povo, por ser a agricultura, um princípio organizador, um elemento da identidade Xukuru que representa uma importante expressão cultural do nosso povo, pois se articula a partir dos diversos circuitos de formação existentes no território, a exemplo dos saberes dos terreiros sagrados, nos plantios, nas observações na natureza, nos espaços de prática da religiosidade e nas escolas. É possível afirmar que nosso sistema tradicional de cura e sua dinâmica social promovem a circulação de práticas e saberes dos nossos ancestrais, através dos guardiões da cura Xukuru. Esse circuito possibilita a transmissão, construção e reconstrução de conhecimentos, através de processos próprios de nossa educação, como já se demostra na organização da nossa juventude e seus processos de formação, revelando um alcance de maturidade e sabedoria, ao entender que se faz necessário, para garantir o “futuro da nossa nação”, um constante buscar aos conhecimentos ancestrais através de diálogos com os nossos mais velhos e na comunicação com a mãe terra.

    Nesse momento, não podemos deixar de mencionar sobre o que vem ocorrendo hoje no Brasil, no que diz respeito às especificidades da luta dos Povos Indígenas. Faz parte, a mais de 500 anos, a tentativa de destruição da cultura dos Povos Indígenas das Américas.

    Inspirados pelas palavras da Liderança Naiton Pataxó Hã Hã Hãe e indignados com o atual contexto da política nacional, afirmamos que NÃO reconhecemos o atual governo, haja vista, o que está em jogo é a institucionalidade democrática. Reconhecemos que não houve muitos avanços para os Povos Indígenas nos últimos anos, no entanto, a perspectiva atual é de muitos retrocessos. Não aceitamos nenhum direito a menos. A formação de novos guerreiros e guerreiras Xukuru, passa pela consciência da manutenção do nosso território, em que pese, a nossa demarcação está resolvida, porém, estanão é a realidade da maioria dos Povos Indígenas no Brasil. Nós  Xukuru entendemos que a demarcação da terra é fundamental  na manutenção de nossos usos, costumes e tradições.

    E diga ao Povo que avance!

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  • 26/05/2016

    Ministro do STF define Cimi como ‘Amigo da Corte’ em processo pela nulidade da CPI da Funai/Incra

    O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Edson Fachin, declarou o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) como amicus curiae – Amigo da Corte – em processo referente a mandado de segurança, aquele que visa garantir o direito líquido e certo, ingresso pela deputada federal Erika Kokai (PT/DF) contra a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara Federal que investiga os trabalhos da Funai e do Incra na demarcação de terras indígenas e quilombolas.

    Fachin reconheceu no Cimi uma instituição com vasta atuação na questão analisada pelo processo e com condições de subsidiar a Corte para uma decisão justa. O mandado de segurança pede a nulidade da CPI da Funai/Incra justificando que sua instalação não se baseou em fatos determinados, ataca a legislação vigente que regulamenta os trabalhos da Funai e do Incra nas demarcações e criminaliza a atuação de organizações não-governamentais sem provas de que elas mantenham relações escusas com o Poder Público. A Procuradoria-Geral da República (PGR) já se manifestou pela nulidade da CPI da Funai/Incra baseada em argumentos semelhantes.

    "É conclusivo dizer que uma CPI não pode ser admitida para investigar uma infinidade de objetos. Apenas se admite CPI para averiguar fato determinado (art. 58, §3º, CF/88). A presente Comissão Parlamentar de Inquérito não tem definição coerente, auto incumbindo-se de analisar antijuridicidade em demarcações, inconstitucionalidade de Decretos do Executivo (1775/96 e 4.887/2003 – o primeiro já declarado constitucional pelo STF), ONG’s (seara privada, o que não é permitido), critérios de demarcação, conflitos por terra, denúncias de toda espécie, investigar todo o poder executivo (vide requerimento) e ainda, perquirir o devido processo legal administrativo, o Ministério Público Federal e dois casos específicos de demarcação de terra indígena e quilombola", diz trecho do mandado de segurança.

    Em dezembro de 2015, Fachin negou liminar impetrada no STF pela mesma deputada pedindo a suspensão da CPI da Funai/Incra. Na ocasião, o ministro não viu abusos por parte da Comissão. Porém, nesta última semana Fachin declarou que pode haver, neste momento, "desdobramentos dos poderes, competências e atuações típicas de uma CPI". Para o ministro do STF, "as CPI`s não possuem poderes absolutos e, bem por isso, os seus atos se submetem ao controle jurisdicional". Por essa razão, o ministro solicitou informações à Presidência da Câmara Federal informações sobre a CPI da Funai/Incra antes de proferir sua decisão sobre o mandado de segurança.

    Conforme declarou Fachin, os direitos dos índios e quilombolas estão previstos na Constituição Federal e em diplomas internacionais, caso da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Declaração da Organização das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Para o ministro, tais direitos assegurados constitucional e internacionalmente de forma alguma poderão ser afastados, "ainda que de modo reflexo por quaisquer ações ou omissões dos poderes Executivo e Legislativo", diz.

    Entre a documentação enviada pela deputada Erika Kokai no mandado de segurança, Fachin destaca a posição da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) ao demonstrar preocupação com ataques sofridos por antropólogos e antropólogas por seus trabalhos nos procedimentos de demarcação de terras indígenas e quilombolas. Os parlamentares da bancada ruralista que conduzem a CPI amiúde atacam profissionais. No caso da Terra Indígena Mato Preto (RS), do povo Guarani, a antropóloga responsável pelo Grupo de Trabalho do laudo demarcatório chegou a ser atrelada a atividades criminosas por deputados da CPI. 

    Os critérios científicos, devidamente regulados pela legislação, também foram abordados pelos parlamentares como contravenções e manipulações para usurpar propriedades privadas e transformá-las em terras indígenas e quilombolas. Quando decidiu não acatar o pedido liminar da deputada federal em dezembro, Fachin deixou claro que os integrantes da CPI não poderiam perquirir estes profissionais sobre os critérios de cientificidade dos laudos, apenas sobre a necessidade deles.

    No memorial enviado ao ministro Fachin, a Assessoria Jurídica do Cimi argumenta que a entidade não possui contratos com o Poder Público, portanto não deveria ser alvo da CPI, o que corrobora com o argumento de que o trabalho da Comissão ultrapassa os limites constitucionais determinados a ela. "A CPI que visa apurar questões ligadas a FUNAI e INCRA não dispõe de embasamento legal para investigar entidades da sociedade civil ou de direito privado e por isso deve de plano ter todos os seus atos anulados ou pelo menos aqueles referentes a elas", diz trecho do memorial.

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  • 25/05/2016

    No Amazonas, povo Madija Kulina realiza sua primeira Assembleia IndĂ­gena

    O povo Kulina é um povo numeroso que tem suas aldeias e terras indígenas distribuídas na calha do rio Juruá e também nas margens dos rios Purus e Jutaí. Os Kulina se autodenominam madija e falam a língua própria que pertence à família linguística arawa.


    Os constantes deslocamentos dos Kulina – motivados por questões culturais – se intensificaram a partir do contato com os colonizadores da região. Atualmente, temos algumas terras indígenas demarcadas para o usufruto exclusivo desse povo indígena. Contudo, esse modelo de territorialidade, na medida em que garante o direito a terra, também condiciona vários subgrupos Kulina a conviverem e dividirem o mesmo território. Esse modelo também impossibilita ou dificulta os deslocamentos.

    Nesse sentido, a homologação da Terra Indígena (TI) Kumaru do lago Ualá, como território Kulina, representou uma grande conquista. Porém, a falta de políticas públicas visando o reconhecimento e a proteção territorial, bem como o desenvolvimento de ações integrais nas áreas de saúde, educação escolar, apoio a geração de renda… Acabou garantindo apenas o território, deixando esse povo a mercê de vários tipos de explorações e violências. A introdução sistemática (e histórica) de bebidas alcoólicas, na vida dos Kulina, foi utilizada como um mecanismo chave de dominação e de afirmação de velhos preconceitos sofrido pelos indígenas. Nos últimos anos, a população da TI Kumaru tem sido vítima de uma série de assassinatos e afogamentos decorrentes do consumo de bebidas alcoólicas.

    Perante o cenário de abandono e descaso, como forma de fazer resistência e enfrentamento às problemáticas existentes e constantemente vivenciadas pelo povo,  Lideranças indígenas Kulina das oito aldeias que compreendem a Terra Indígena Kumarú do Lago do Ualá, em parceria e com o apoio do Conselho Distrital de Saúde Indígena (CONDISI médio rio Solimões e afluentes), da Associação de Mulheres Indígenas do Médio Solimões e Afluentes, da equipe do Conselho Indigenista Missionário – CIMI da Prelazia de Tefé e do Distrito Sanitário Especial Indígena do Médio Rio Solimões e Afluentes, convocaram e protagonizaram a Assembleia Indígena do Povo Madija Kulina, que aconteceu nos dias 12 e 13 de maio de 2016, na aldeia Pau – Pixuna, a qual teve como objetivo discutir a questão do consumo de bebidas alcoólicas; os assassinatos e mortes envolvendo Kulina; a educação escolar indígena; a proteção territorial; os benefícios sociais e o reconhecimento étnico.


    A assembleia contou com a participação de aproximadamente 90 pessoas. Estiveram presentes representantes várias entidades e órgãos públicos ( FUNAI – SEDE/Brasilia, Coordenação Regional da Funai do Alto e Médio Solimões – Tabatinga, Coordenação Tecnica Local da Funai de Juruá, Ministério da Saúde, SESAI Brasília, Representante da Prefeitura Municipal de Juruá, AMIMSA, UNIPI-MSA e DSEI – MRSA), bem como as lideranças de todas as aldeias da TI (Lago Preto, Pau-Pixuna, Boca do Pau-Pixuna, Campina, Beiradao, Marupa, Morada Nova e Mapiranga).
    Durante a assembleia, foi traçado um plano de ação que tem como foco o enfrentamento do problema da alcoolização como uma questão coletiva. No final do evento foi aprovada uma carta final com os principais encaminhamentos acerca das discussões.

    Para o Povo Madija Kulina a assembleia foi um momento de revitalizar, motivar e fortalecer cada um/a e principalmente coletivamente para lidarem com as problemáticas existentes nas aldeias, de festejarem com a dança do Ajié, com a parceria dos aliados, o povo possa retomar sua autoestima e poderem vivenciarem o Bem Viver.

    Clique aqui para ler, na íntegra, a carta aberta elaborada pelo povo Madija Kulina ao final de sua primeira assembleia.

    Genoveva Amorim – Indigenista
    Francisco Amaral e Fábio Pereira – Cimi/Prelazia de Tefé

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