• 01/09/2016

    Contaminação por agrotóxicos tem afetado comunidades indígenas, diz antropóloga


    Guarani Mbya denunciam envenenamento de córrego por agrotóxicos em Capivari do Sul (RS). Foto: Roberto Liebgott/Cimi Sul

    O uso de agrotóxicos tem contaminado o solo e a água usada por comunidades indígenas em todo o país, segundo a antropóloga Lúcia Helena Rangel. A pesquisadora representou o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) na audiência pública, realizada hoje (29),  que discutiu os perigos dos defensivos, organizada pela Defensoria Pública de São Paulo e A Defensoria Pública na União.

    “Nós temos um registro constante de contaminação por agrotóxico em diversas áreas indígenas. Em alguns lugares do Brasil o problema é agudo”, ressaltou Lúcia Helena ao citar como exemplo o caso de três comunidades guarani-kaiowá no Mato Grosso do Sul. A situação dos grupos residentes nos municípios de Amambai, Aral Moreira e Paranhos foi denunciada no relatório O Direito Humano à Alimentação Adequada e à Nutrição do Povo Guarani e Kaiowá. O documento foi elaborado pelo Cimi em parceria com a Fian Brasil.

    “Os pedaços de terras que estas comunidades ocupam dentro de seus territórios tradicionais estão dominados por monoculturas das fazendas, cujo cultivo demanda o uso excessivo de agrotóxicos e de outros produtos que representam grave risco à sua saúde”, enfatiza o relatório lançado no último dia 16.

    A antropóloga destacou, no entanto, que a situação das comunidades indígenas, inclusive em relação à contaminação por agrotóxicos, tem que ser entendida em um contexto de violações de direitos. “[As violências] vão desde a posse da terra, o direito ao território, até as questões mais suaves, que são o direito a uma religião, a rituais”, ressaltou.

    O problema da contaminação por agrotóxicos se soma, de acordo com Lúcia Helena, à difusão de sementes transgênicas. “Aqui mesmo no estado de São Paulo, no Vale do Ribeira, as comunidade guarani reclamam disso. Porque passam os trens carregando milho e caem sementes. Assim como o milho transgênico dos Estados Unidos solapa a diversidade do milho mexicano”, exemplificou sobre o fenômeno em que as plantas modificadas geneticamente tendem a substituir as nativas  quando são dispersada fora das áreas de cultivo.

    Riscos

    A professora da Universidade Federal de Santa Catarina, Sônia Corina Hess, apresentou dados que mostram os riscos dos principais agrotóxicos usados no Brasil. O herbicida glifosato, por exemplo, pode apresentar, segundo a especialista, efeitos tóxicos mesmo em pequenas concentrações.

    De acordo com Sônia, experimentos feitos com ratos que beberam água contaminada por glifosato em uma quantidade muito menor do que a permitida pela legislação brasileira demonstrou diversos efeitos nocivos. “Todos desenvolveram tumores, tanto do sexo masculino quanto do sexo feminino, e alterações metabólicas muito intensas”, ressaltou.

    Sobre o 2,4-D, outro herbicida usado na agricultura brasileira, Sônia lembrou que o produto foi desenvolvido a partir do Agente Laranja, desfolhante usado na Guerra do Vietnam. O defensivo ficou famoso por ser altamente cancerígeno e causar mal formação em fetos. Segundo a especialista, caso o produto não seja purificado adequadamente, o 2,4-D pode apresentar as mesmas substâncias tóxicas presentes no Agente Laranja.

    Daniel Mello – Repórter da Agência Brasil / Edição: Jorge Wamburg
    Foto: Roberto Liebgott – Cimi Sul

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  • 01/09/2016

    Justiça suspende licença de operação de Belo Monte por descumprimento da licença ambiental

    A Justiça Federal concedeu liminar pedida pelo Ministério Público Federal (MPF) e ordenou ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) que suspenda os efeitos da licença de operação da usina de Belo Monte por desobediência da Norte Energia S.A às condições do licenciamento. A empresa deveria ter concluído a implantação de 100% do esgotamento sanitário e abastecimento de água de Altamira ainda em julho de 2014, mas até hoje não terminou as obras.

    Para a juíza Maria Carolina Valente do Carmo, o que se verificou durante o processo judicial é que “ empreendedor, com o aval do Ibama, interpretou sua obrigação de implantar o projeto de saneamento básico da forma que lhe foi mais favorável, eximindo-se de repassá-lo à administração municipal em condições de imediato funcionamento”. A empresa alega que as ligações do sistema de esgotamento sanitário com as residências da cidade deveria ser responsabilidade da prefeitura de Altamira.

    Entretanto, para a justiça federal “se a implantação de 100% do sistema de esgotamento sanitário do município de Altamira é de responsabilidade do empreendedor, cabendo-lhe cumprir o cronograma de obras estabelecido, e se os ramais de ligação domiciliar de esgoto são parte integrante e fundamental para que o sistema de esgotamento sanitário projetado alcance seu objetivo, fica claro que o cumprimento da condicionante 2.10 da licença de instalação estava a cargo do empreendedor e deveria ter sido efetivado até julho de 2014”, diz a decisão judicial.

    A condicionante do saneamento básico, considerada uma das mais importantes de Belo Monte, estava prevista desde a licença prévia do empreendimento, concedida em 2010. Pelos prazos do licenciamento, a usina deveria ter entregado sistemas de fornecimento de água potável e esgotamento sanitário no dia 25 de julho de 2014. Mesmo sabendo disso, o Ibama liberou a operação da usina e o barramento do rio Xingu no final do ano passado. Na licença de operação, emitida em novembro de 2015, o Ibama deu prazo até setembro de 2016 para que o saneamento de Altamira fosse concluído. Não foi.

    Para o Procurador da república Higor Rezende Pessoa, "até o momento, a Norte Energia e o Poder Público ficaram  inertes quanto a situação caótica do saneamento básico em Altamira, deixando de adotar as medidas apropriadas para o devido cumprimento da condicionante ambiental". A ação do MPF mostra que até mesmo em frente ao escritório do Ibama na cidade corre esgoto a céu aberto.

    A decisão judicial registra que as medidas de prevenção ao dano ambiental deveriam ter sido exigidas pelo Ibama antes da emissão da licença de operação. “O fato é que a autarquia ambiental, com base no princípio da prevenção, não deveria ter admitido a concessão da licença de operação”, diz a liminar. A licença agora fica suspensa até que seja integralmente concluída a implantação do saneamento básico, incluindo a limpeza e desativação das fossas rudimentares e poços de água, com fornecimento de água potável encanada para todo perímetro urbano da cidade de Altamira.

    A Norte Energia tem vários prazos para cumprir. Em 20 dias, precisa apresentar o plano emergencial de abastecimento de água potável e o plano técnico operacional com cronograma das obras do sistema de esgoto, sob pena de multa de R$ 20 mil por dia de atraso na apresentação. Até o próximo dia 30 de setembro, a empresa tem que efetivamente instalar todos os sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário, contemplando todos os domicílios do perímetro urbano de Altamira. A empresa e a prefeitura também terão que pagar multas se não iniciarem, em 40 dias, campanha de educação ambiental com abrangência em toda a cidade, custeada pela Norte Energia.

    Íntegra da liminar

    Processo nº 269-43.2016.4.01.01.3903
    Ministério Público Federal no Pará – Assessoria de Comunicação

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  • 31/08/2016

    Em paralelo à votação do impeachment, CPI da Funai e do Incra é recriada na Câmara


    Brasília (DF), 30 de Agosto de 2016 às 16:28

    Desde o encerramento da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Fundação Nacional do Índio (Funai) e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em 19 de agosto, deputados da bancada ruralista da Câmara dos Deputados vêm se articulando no sentido de prorrogar os trabalhos do colegiado.

    No mesmo dia que a CPI foi encerrada sem ter produzido relatório final, o deputado Alceu Moreira (PMDB-RS), então presidente da comissão, entregou na Secretaria-Geral da Mesa (SGM) um documento com a assinatura de mais de 200 parlamentares solicitando a extensão das suas atividades. Embora o documento não tenha sido aceito por razões regimentais, a bancada ruralista continuou se articulando e, na madrugada desta terça-feira (30), mesmo dia em que a presidenta Dilma Rousseff apresentava sua defesa no julgamento do processo de impeachment no Senado Federal, a CPI foi recriada.

    Regimento

    De acordo com o Setor do Serviço de Comissões, o regimento permite que uma nova CPI com o mesmo objeto seja criada quando a anterior for encerrada de forma inconclusa por conta do fim do prazo.

    A CPI, que pretende investigar atos da Funai e do Incra nas gestões do PT, evidencia o confronto de interesses que há no Congresso entre os parlamentares da bancada ruralista e aqueles que lutam pelos direitos de comunidades rurais.

    “A CPI é parte dos ataques sistemáticos e violentos dos ruralistas aos direitos das comunidades indígenas. Eles seguem se apossando e explorando as terras em nome do agronegócio, muitas vezes utilizando recursos públicos”, diz Cleber Cesar Buzatto, secretário nacional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

    Segundo informações da assessoria de imprensa do deputado Alceu Moreira (PMDB/RS), embora seja uma nova CPI, todos os documentos da antiga serão reaproveitados e as reuniões devem começar em duas semanas, após a eleição dos 29 titulares e relator.

    PEC 215

    Em entrevista ao Brasil de Fato, na ocasião do encerramento da CPI, o deputado Nilto Tatto (PT/SP), afirmou que a instalação da comissão seria uma ação conservadora para criar mais empecilhos para a efetivação dos direitos dessas comunidades, na tentativa de criminalizar esses grupos e a causa política das demarcações.

    Na visão dele, a CPI tinha ainda o propósito de criar um ambiente favorável para levar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215/00 a plenário. A PEC, que tramita atualmente na Câmara, objetiva transferir do Executivo para o Legislativo a competência sobre a demarcação de terras indígenas.

    Diversos movimentos que lidam com a causa já se pronunciaram contra a proposta. Para eles, a PEC representa uma ameaça porque deixaria a população indígena ainda mais vulnerável às manobras políticas conduzidas pelos grupos conservadores que dominam as casas legislativas federais.

    Edição: Simone Freire

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  • 31/08/2016

    Impunidade marca um ano do assassinato de Simião Vilhalva Guarani e Kaiowá na T.I Ñanderú Marangatú

    "Quem matou Simião Vilhalva?”, perguntam manifestantes que nesta quinta-feira, dia 1º de setembro, realizarão um ato público na Praça Ary Coelho, em Campo Grande (MS), em memória de um ano do assassinato do Guarani e Kaiowá. O questionamento não se trata de mera retórica: até o momento ninguém foi indiciado pela morte do indígena que levou um tiro na cabeça depois de ataque sofrido pelo povo, em 29 de agosto de 2015, em áreas retomadas do tekoha – lugar onde se é – Ñanderú Marangatú, município de Antônio João.

    O inquérito 293/2015 da Polícia Federal trata da morte de Simião. Está aberto, com investigações e diligências em curso. A Procuradoria da República de Ponta Porã explica que as investigações ocorrem sob segredo de justiça e com o acompanhamento do Ministério Público Federal (MPF). O inquérito, portanto, ainda não foi encerrado. Enquanto  esperam para que a impunidade não se repita como em outros casos de assassinatos, os Guarani e Kaiowá lembram de Simião.

    “Ontem (dia 29) teve uma festa bonita pro Simião. Fizemos faixas perguntando quando os  assassinos serão presos. Não só os de Simião, mas de Dorvalino (Rocha, assassinado em 2005) e de tantos parentes que morreram atropelados nesses anos de acampamento. Não esquecer eles é muito importante”, diz Inayê Gomes Lopes Guarani e Kaiowá – filha de Hamilton Lopes, liderança Guarani e Kaiowá morta em 2012. Se os responsáveis pelo assassinato de Simião seguem livres, as lideranças de Ñanderú estão na mira da Polícia Federal.

    Inayê revela que ela e outras cinco lideranças Guarani e Kaiowá de Ñanderú Marangatú foram intimadas a depor na Polícia Federal no último mês. “Pelo que eu entendi estamos sendo processados pelas retomadas do ano passado. Conforme o delegado falou, a gente tá sendo acusado de desrespeitar uma determinação da Justiça que dizia pra gente ficar apenas em pouco mais de 100 hectares de Ñanderú”, afirma. O MPF ainda não recebeu nenhuma informação a respeito desse processo e da intimação aos indígenas.

    Para Inayê a acusação parte dos fazendeiros. “Eles acham que algumas lideranças e o Cimi são responsáveis pelas retomadas. Não entendem que é uma decisão do povo, da nossa organização Aty Guasu. Se for ter que prender alguém por isso, podem construir uma prisão para os 45 mil Guarani e Kaiowá. Eles matam a gente, botam na beira da estrada e a gente passa fome, passa por tudo e seguimos com nossa luta nesses anos todos. São quase 20 anos lutando por Ñanderú e acham que é uma ou outra liderança?”, questiona Inayê. De acordo com a indígena, outro problema é que a esposa de Simião e o filho passam por dificuldades, não recebem nenhum auxílio do Estado e contam com a solidariedade da comunidade.

    A indígena explica que os ataques e ameaças cessaram nos últimos meses; o assédio agora é outro: as eleições municipais. Como a política na região é dominada pela elite agrária contrária às demarcações, os Guarani e Kaiowá vivem agora acossados pelas promessas de seus algozes, conforme relata Inayê. Como é habitual no Mato Grosso do Sul, estado que conta com mais de 60 mil indígenas (IBGE, 2010), a cesta de votos entre os povos é recheada e disputada inclusive por políticos que passam seus mandatos atuando contra as demarcações.

    "Dácio Queiroz, dono da fazenda Fronteira, é candidato a prefeito em Antônio João e prometeu pra gente que se ele for eleito tendo nossos votos vai deixar a fazenda pra gente. Primeiro que a terra é tradicional Guarani e Kaiowá. Ele não pode dar algo que é do povo. Segundo que eu não acredito nessas promessas ainda mais vindo de quem nos oprime”, explica Inayê. Para a indígena, essa é uma outra tática adotada pela elite agrária para dividir o povo.

    Os Guarani e Kaiowá ocupam 80% do total de 9.317 hectares homologados de Ñanderú. “As sedes das fazendas onde ocorreram os ataques (Fronteira e Barra) que mataram Simião não estão em nossa posse. No caso da Fronteira, o Dácio não tem colocado gado. Já na Barra, a Roseli (Silva, da família dos autodeclarados proprietários) quis botar o gado, mas a gente tomou uma decisão coletiva de não deixar porque depois se some um boi vão dizer que a gente roubou ou que estamos matando”, explica Inayê.

    Para os Guarani e Kaiowá o mais importante agora é que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) restabeleçam a homologação de 2005 – alguns proprietários de boa-fé já receberam indenizações e outros se negaram a receber. Em outubro do ano passado, dois meses após a morte de Simião, o presidente Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), desembargador Fábio Prieto de Souza, manteve uma liminar da 1ª Vara Federal de Ponta Porã que determinava a reintegração de posse de quatro fazendas retomadas pelos Guarani e Kaiowá em agosto, incluindo a Fronteira e a Barra.

    O despejo foi suspenso pela ministra Carmem Lúcia, do STF, quando uma centena de policiais já se concentravam em Antônio João para retirar à força os indígenas, que prometiam resistir. “Naquela ocasião a Funai disse pra gente que nós ficaríamos onde estávamos e os fazendeiros ficariam onde estavam. O ministro da Justiça (na época José Eduardo Cardozo) esteve aqui e falou que a questão seria resolvida pelo governo para os dois lados. Passou um ano já. Os assassinos de Simião estão soltos e Ñanderú Marangatú segue ocupada pelos fazendeiros. A violência contra nosso povo acontece por isso”, lamenta Inayê.  


    Como morreu Simião


    No início de agosto de 2015, os Guarani e Kaiowá retomaram cinco fazendas incidentes na Terra Indígena Ñanderú Marangatú (foto acima) – homologada em 2005, dez anos antes, mas com os efeitos do decreto presidencial suspensos naquele mesmo ano até o julgamento definitivo no STF. Entre as fazendas retomadas estava a Barra, de propriedade da família de Roseli Silva, entre outras vizinhas, caso da Fronteira. Roseli é presidente do Sindicato Rural de Antônio João. Na manhã de sábado, 29 de agosto, a fazendeira convocou uma reunião na sede do sindicato.

    Conforme noticiou o site Dourados News, Roseli abriu e fechou rapidamente a reunião "antes mesmo das falas dos deputados federais Luiz Henrique Mandetta (DEM) e Tereza Cristina (PSB), além do senador Waldemir Moka (PMDB), que estavam no local com dezenas de produtores, ela se dirigiu a uma de suas propriedades rurais da região do distrito de Campestre” (29/08/2015). Cerca de 100 homens armados em 40 caminhonetes, acompanharam Roseli para a fazenda Barra e Fronteira retomadas pelos Guarani e Kaiowá.

    A imprensa foi impedida de seguir até o local com a comitiva – composta de fazendeiros da região e munícipes de Antônio João. Um câmera de uma emissora de televisão chegou a ter a fita retida. Momentos depois uma nuvem de fumaça subiu da área em que os Guarani e Kaiowá estavam: era o início do ataque. Nesse momento, o Departamento de Operações de Fronteira (DOF) já estava no local.

    Na confusão gerada pelo ataque, os Guarani e Kaiowá se dispersaram. Simião, no momento em que recebeu o tiro fatal na cabeça, estava às margens de um córrego a procura de seu filho. O corpo do indígena foi levado por outros ao encontro dos agentes do DOF e demais pessoas não-indígenas, sobretudo políticos que estavam no local possivelmente vindos da sede do Sindicato Rural de Antônio João.  Apesar da ofensiva violenta, os Guarani e Kaiowá enterraram Simião em Ñanderú Marangatú.


    Indígenas aguardam resultado


    No dia 31 de ag
    osto, dois dias depois da morte de Simião, a Polícia Federal esteve no local realizando perícia. Uma reconstituição do crime foi realizada e folhas com manchas de sangue foram localizadas levando ao entendimento de que a versão dos Guarani e Kaiowá estava correta: depois de ser baleado, o corpo de Simião foi arrastado da ribanceira de um córrego até as imediações da sede da fazenda Fronteira, onde a polícia estava concentrada nos momentos posteriores ao ataque. Para a imprensa, a advogada Luana Ruiz Silva, filha de Roseli, defendeu o uso de armas de fogo por "produtores rurais" contra retomadas indígenas. Mobilizações violentas contra os indígenas passaram a ser convocadas pelos fazendeiros (abaixo).


    “Nós ouvimos a versão dos representantes dos indígenas, inclusive o irmão da vítima, e os proprietários rurais. Ainda precisamos do laudo da perícia e vamos ouvir mais pessoas”, informou no dia 31 de agosto de 2015 o delegado da Polícia Federal de Ponta Porã, Bruno Maciel, que coordenou o trabalho. De acordo com o noticiado pela imprensa sul-mato-grossense, o corpo de Simião passou por perícia no Instituto Médio Legal (IML) antes de ser liberado para que o povo realizasse as cerimônias fúnebres.

    “Essa impunidade não pode acontecer. Quando querem prender um da gente, tendo ou não tendo provas, é rápido: chegam, leva preso, divulga nos jornais. Já ao contrário, precisa de muito tempo… tratam com cuidado, não divulgam nada, tudo fica em segredo. Nem os nomes dos presos eles divulgam. Queremos que seja assim quando um índio morre assassinado”, questiona Inayê Guarani e Kaiowá.


    Tragédia anunciada


    Na semana que antecedeu o assassinato de Simião, servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai) de Ponta Porã emitiram alertas ao governo federal sobre algo grave que estava prestes a acontecer com os indígenas. Os sinais eram evidentes: tanto em Ponta Porã quanto em Antônio João, dezenas de fazendeiros já se concentravam. A rodovia que dá acesso ao município de Antônio João chegou a ser trancada dias antes pelos fazendeiros. Boatos de que os indígenas estavam incendiando casas, matando gado e planejando ataques contra Antônio João passaram a ser divulgados em rádios e em redes sociais. Servidores da Funai e os Guarani e Kaiowá relataram ameaças durante dias.

    Tanto para integrantes da Funai e indígenas a Força Nacional deveria se deslocar de Ponta Porã para Ñanderú Marangatú. Todavia, tal ordem nunca foi dada aos agentes federais; foram para a terra indígena quando já era tarde, após o ataque de 29 de agosto. A Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal enviou ofício ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, informando sobre a gravidade da situação no dia 28 de agosto, por intermédio de ofício urgente.

    A repercussão dos episódios que culminaram na morte de Simião atingiu o mundo. Dias depois do ataque, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) acionou a Corte Interamericana de Direitos Humanos e as Nações Unidas (ONU). Nada serviu para impedir a sede de violência dos fazendeiros. As famílias Guarani e Kaiowá que continuaram nas áreas retomadas foram novamente atacadas por cerca de 60 indivíduos armados, que atiraram contra mulheres, crianças e idosos. A cada madrugada um novo ataque.
     

    Mesmo com a Força Nacional presente, ataques contra os acampamentos indígenas visando recuperar as áreas retomadas foram impetrados pelos fazendeiros. A decisão dos Guarani e Kaiowá então foi a de entregar as casas grandes das fazendas retomadas e se alojaram em outras porções das mesmas fazendas. Os governos estadual e federal decidiram por uma intervenção militar. O Exército se deslocou para a região e por lá permaneceu durante 90 dias. 

     
    Histórico de Ñanderú Marangatú


    A reivindicação de Ñanderú Marangatú pelos Guarani e Kaiowá é antiga e seu procedimento de identificação e delimitação foi iniciado em abril de 1999 e concluído em 2001, reconhecendo 9.317 hectares tradicionalmente ocupados pelos indígenas. Entretanto, no mesmo ano, fazendeiros ingressaram com uma ação declaratória para que a terra fosse considerada como “de não ocupação tradicional indígena”. A ação encontra-se ainda em tramitação.

    Os anos seguintes foram marcados por idas e vindas no processo demarcatório e a constante ingerência do Poder Judiciário na condução do procedimento demarcatório. Após o início da demarcação física dos limites da terra, em 2004, a Justiça Federal determinou a retirada compulsória dos indígenas de parte da Terra Indígena Ñanderú Marangatú – decisão que foi posteriormente suspensa. Em março de 2005, a terra teve seu Decreto de Homologação expedido pelo então presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva.

    Em julho do mesmo ano, foi impetrado mandado de segurança pelos fazendeiros da região contra o decreto. O então ministro Nelson Jobim do Supremo Tribunal Federal (STF) optou por suspender os efeitos da homologação da terra indígena. As consequências foram imediatas. Dorvalino Rocha, em 24 de dezembro de 2005, foi assassinado e duas crianças indígenas morreram em razão das péssimas condições de vida às margens da rodovia, em 2006. Desde então, a situação na região é tensa e a regularização da situação fundiária de Ñanderú Marangatú continua travada.

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  • 30/08/2016

    Seminário Nacional da Juventude Indígena: “Unir para lutar e unificar para vencer”

    “Unir para lutar e unificar para vencer”: Com essa proclamação os jovens indígenas concluíram seu encontro nacional, entre os dias 23 e 28 de agosto, em Luziânia (GO), para dar continuidade em suas aldeias e comunidades ao compromisso assumido.

    “Nós somos jovens guerreiros e por nossas terras vamos lutar,  espalhar nossas sementes, nossa aldeia germinar. Tentaram nos enterrar, mas se esqueceram que somos sementes,  e quem nasceu para viver lutando, não vai morrer de braços cruzados. Por isso reafirmamos que em cima do medo, CORAGEM!”

    “Estou ansioso”, afirmava uma das lideranças presentes ao Seminário Nacional da Juventude Indígena. Com razão, diante do complexo e iníquo cenário em que se pretende a todo custo suprimir direitos indígenas, resta-lhes a árdua luta da resistência e afirmação de seus direitos e projetos do Bem Viver.


    Enquanto jovens – e vários deles também como professores em suas aldeias – não poderiam deixar de debater a precariedade das escolas indígenas, estando a maior parte delas submetidas a ditames que contrariam a própria Constituição e outras leis que lhes garantem um escola com currículo diferenciado e de qualidade. Essa é uma das lutas que eles vêm sustentando há décadas e certamente continuarão tendo que forjar o processo a partir das realidades de cada aldeia. No Início de outubro se realizará o 2º Forum de Educação Escolar Indígena, que é um espaço de luta que está sendo construído pelos professores indígenas de todo o país. A grande maioria desses professores são jovens e com certeza estarão mutuamente construindo as bandeiras de luta do movimento.

    Nesse eixo de formação política, que deverá ser um dos eixos transversais de toda a luta, também discutiram a importância de trabalharem a memória de seus povos, como uma ferramenta, uma arma, um “Porantim”. Ao invés de esperar que historiadores, antropólogos e outros cientistas venham registrar a história dos povos, é importante que os próprios jovens o façam e se capacitem em todas essas áreas do conhecimento e da sabedoria dos anciões.

    O Território, enquanto espaço integrador e fonte de vida para os povos, deve ser legalizado e garantido, numa luta contínua contra todas as investidas feitas pelo agronegócio e outros setores poderosos. Terra/território é sagrado, é mãe, é vida, e os jovens afirmam em sua carta: “Apesar de todas as ameaças lutaremos pelas nossas terras, pois somos filhos delas. Dançaremos, cantaremos, rezaremos pois nossa luta é uma luta pela nossa cultura, pela nossa tradição e modo de ser originário”.

    Alguns termos que, apesar de preocupantes, ficaram para ser debatidos e aprofundados nas comunidades, dentre a questão da política partidária e eleições. Esse é um desafio histórico que precisa ser enfrentado, não apenas pelos jovens, mas pelas comunidades e movimento indígena. Apesar dos imensos danos que normalmente são causados pelos políticos em suas incursões nos períodos eleitorais, não se vê, no final do túnel, uma saída conjunta e articulada.

    Saiba mais e leia a carta da I Assembleia da Juventude Indígena do Nordeste
    Saiba mais e leia a carta do seminário Herdeiros da História, Guerreiros da Luta, da juventude indígena da Bahia e Minas Gerais
    Saiba mais e leia a carta da Retomada da Aty Jovem (RAJ), da juventude Guarani e Kaiowá
    Saiba mais e leia a carta da Encontro da Juventude Indígena da Amazônia


    Outro tema que merece maior debate e análise é a presença de inúmeras igrejas dentro das aldeias, várias fundamentalistas, com grandes interferências na cultura e lutas dos povos indígenas por seus direitos. Ficou como sugestão ir fortalecendo as religiões e cultura próprias dos povos.

    Quanto ao processo organizativo interno dos jovens indígenas e suas alianças com outros movimentos de jovens em luta, particularmente no movimento popular e populações e povos tradicionais. Isso supõe um trabalho dentro do próprio povo e uma necessária articulação com as comunidades e participação nas lutas de cada comunidade.

    Durante o encontro, foram muitos e expressivos os momentos de rituais dos diversos povos participantes. Voltaram para suas comunidades com a certeza de que deram um passo importante na luta pelos direitos dos povos originários indígenas no Brasil.

    Leia abaixo a carta do Seminário Nacional da Juventude Indígena – ou clique aqui para acessar em pdf:

    Nós, Juventude Indígena, reunidos no período de 23 a 28 de agosto de 2016 no Centro de Formação Vicente Canãs, em Luziânia-GO, com representações dos encontros regionais: “I Assembleia de Juventude Indígena do Nordeste” na Aldeia Pedra D’água, Território Xukuru do Ororubá de 21 a 23 de Maio de 2016 no qual participaram jovens da Bahia dos Povos Pataxó, Pataxó Hãhãhãe, Tumbalalá, Tuxá e Tupinambá, de Alagoas os Povos Xukuru Kariri, Katokinn, Koiupanka e Kalankó, da Paraíba os Povos Potiguara e Tabajara, do Ceará os Povos Canindé, Pitaguary, Anacé e Tapeba, do Rio Grande do Norte o Povo Potiguara do Amarelão, e de Pernambuco os Povos Atikum, Entre Serras Pankararu, Kambiwá, Kapinawá, Pankara de Itacoruba, Pipipã, Pankararu, Truká, Tuxá e Xukuru do Ororubá; “Herdeiros da História, Guerreiros da luta” na Aldeia Sapucaeira, Território Tupinamba que aconteceu em 10 a 12 de Junho de 2016 no qual participaram jovens dos Povos Pataxó, Pataxó Hãhãhãe, Tupinambá de Olivença do estado da Bahia e Xakriabá de Minas Gerais; “Retomada Aty Jovem” na Aldeia Paraguasu/Yvy Kuarusu  em 20 a 24 de Julho de 2016 no qual participaram jovens do Povos Guarani e Kaiowá do Mato grosso do Sul; “Encontro de Juventude Indígena da Amazônia” no Centro Xare Manaus-AM, de 11 a 14 de agosto de 2016 no qual participaram jovens dos Povos Makuxi, Puruborá, Tembé, Karajá, Kayapó, Jaminawá, Mayoruna, Mura, Sabanê, Dessana, Galibi Maworno, Deni, Huni kui, Arapiun, Munduruku, Wapichana, Arara e Maraguá dos estados do Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima, Pará e Amapá.

    Reafirmamos, assim como discutido nos encontros regionais que lutaremos por  uma educação especifica e diferenciada dentro das nossas comunidades, com escolas indígenas de estruturas físicas de qualidade e acesso facilitado tendo como objetivo fortalecer o projeto de futuro das nossas etnias. E por uma Saúde específica, que valorize os conhecimentos dos nossos anciões, curandeiros, pajés e a utilização das medicinas tradicionais e espirituais, proporcionando a manutenção dos costumes e tradições de cada povo e preservando as nossas plantas através da pratica do reflorestamento e a preservação das nossas florestas, para assim garantir a morada dos nossos encantados. E também pela permanência e ampliação dos cursos universitários para os povos indígenas do Brasil e que as universidades combatam as inúmeras formas de preconceitos sofridas pelos os estudantes indígenas,

    Exigimos respeito a nós, Povos Originários, e a nosso modo de vida que tem sido afetado pelas Mineradoras, REDD, Hidroelétricas, Agronegócio, Madeireiros, Petroleiros, Grileiros, e vários empreendimentos que não respeitaram a Convenção 169 da OIT, pois não realizaram a consulta livre, prévia e informada.

    Vamos lutar contra a PEC 215 que propõe um retrocesso nos direitos garantidos na constituição de 1988, entendemos como INCONSTITUCIONAL a utilização do subterfúgio do Marco Temporal pelo poder judiciário. Repudiamos todos os ataques contra os nossos direitos constitucionais através de PEC’s, PL’s, Portarias, Mandados de Segurança ou qualquer medida ou projeto que venha prejudicar e ferir os direitos já conquistados.

    Entendemos que existe em curso, para nos intimidar e nos desmobilizar, a criminalização de nossas lutas e nossas lideranças patrocinado  pela bancada do Boi, da Bíblia e da Bala hoje existente no Congresso Nacional. Além da constante incitação à violência contra as nossas comunidades partindo de Deputados Federais que são contra a causa indígena por terem suas campanhas financiadas por empresas do agronegócio. Vemos também ataques paramilitares para nos retirar dos territórios sagrados que sempre nos pertenceu.

    E apesar de todas as ameaças lutaremos pelas nossas terras, pois somos filhos delas. Dançaremos, cantaremos, rezaremos pois nossa luta é uma luta pela nossa cultura, pela nossa tradição e modo de ser originário. Somarem-nos com nossas lideranças e fortalecidos pela união entre os diferentes povos, principalmente com os mais velhos, estamos aqui reafirmando nosso compromisso e responsabilidade de dar continuidade as nossas lutas já iniciadas por nossos ancestrais.

    Propomo-nos “Unir para lutar e unificar para vencer”, pois “Nós somos jovens guerreiros e por nossas terras vamos lutar, espalhar nossas sementes, nossa aldeia germinar”. “Tentaram nos enterrar, mas se esqueceram que somos sementes” , e “Quem nasceu para viver lutando, não vai morrer de braços cruzados”. Por isso reafirmamos que “Em cima do medo, CORAGEM!”

    Luziânia/GO, 28 de agosto de 2016

    Texto: Egon Heck – Cimi Secretario Nacional

    Fotos: Marisol Kaiowá (Geniniana)

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  • 30/08/2016

    MPF quer publicação de lista suja do trabalho escravo

    O Ministério Público Federal (MPF) solicitou ao ministro interino do Ministério do Trabalho, Ronaldo Nogueira, esclarecimentos acerca das razões pelas quais não se encontra divulgado no sítio eletrônico da pasta o cadastro de empregadores flagrados utilizando mão de obra escrava.

     
    Conhecido como Lista Suja, o cadastro traz o registro de pessoas físicas ou jurídicas autuadas em ação fiscal que tenha identificado trabalhadores submetidos a condições análogas à de escravidão e cujos empregadores tiveram direito à defesa administrativa em primeira e segunda instâncias. A publicidade da lista atende determinação da Portaria Interministerial MTPS/MMIRDH Nº 4/2016.

     
    No documento encaminhado ao Ministério do Trabalho, o MPF ressalta que desde maio deste ano encontra-se cassada a liminar concedida pelo Supremo Tribunal Federal que impedia o governo federal de divulgar novas atualizações da chamada lista suja, “ não havendo, portanto, impedimento de qualquer natureza para a publicação do cadastro”, destaca o texto.

     
    A solicitação é assinada pela procuradora federal dos Direitos do Cidadão, Deborah Duprat, e pela coordenadora da 2ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF, Luiza Frischeisen.

     
    Acesse aqui a íntegra do documento.

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  • 29/08/2016

    Guardas florestais Ka’apor sofrem emboscada e mais um ramal madeireiro é descoberto na T.I Alto Turiaçu

    Dois guardas florestais Ka’apor sofreram uma emboscada durante o último final de semana, dia 27, na Terra Indígena Alto Turiaçu (MA). De acordo com informações de integrantes do Conselho de Gestão Ka’apor, ambos estavam numa região de divisa com o povoado do Areal quando descobriram uma trilha que partia rumo ao interior da terra indígena. A seguiram e foram abordados a tiros de armas de fogo por pistoleiros.

    “Armaram a tocaia porque sabem que estamos andando pra proteger o território. Tiramos os dois parentes da área. Eles não conseguiram ver quantos eram (pistoleiros). Tiveram que fugir ligeiro. O que a gente sabe é que são os madeireiros contratando pistoleiro da região pra tocaiar nosso povo”, explica um dos Ka’apor integrante do Conselho. O indígena diz que outras trilhas para emboscadas foram abertas nas áreas limítrofes.

    Eusébio Ka’apor foi assassinado na mesma região desta emboscada. Conforme informações apuradas junto aos Ka’apor, pistoleiros e madeireiros abordam indígenas nas cidades do entorno e os obrigam a dizer onde estão as lideranças do Conselho Ka’apor, guardas florestais e aliados do povo. “Não confiamos na polícia aqui. Sempre dizem que não podem fazer nada, que é a Polícia Federal… que não aparece também”.

    De acordo com os Ka’apor, as secretarias de Segurança Pública, Direitos Humanos e Participação Popular do Maranhão têm conhecimento “das agressões, invasão de aldeias, sequestro de Iraúna Ka’apor, ameaças de morte a lideranças e nunca fizeram nada para penalizar os reais agressores”, dispara um indígena membro do Conselho. Desde 2012 os Ka’apor passaram a organizar guardas e a fortalecer as organizações sociais do povo.

    “Há um processo de resguardo do território, maturidade do povo para assumir integralmente a defesa dele. Os Ka’apor estão assumindo a dianteira e autogestão na educação, proteção territorial e sustentabilidade”, analisa um indigenista próximo aos Ka’apor. Para ele, o fortalecimento das organizares sociais do povo prejudicou a operação madeireira no território e a infiltração de agentes corruptos nas 17 aldeias Ka’apor. 

    Avivamento dos limites


    O segundo grupo da Guarda Florestal Ka’apor encontrou um segundo ramal madeireiro ativado na área limítrofe da Alto Turiaçu com o povoado de Araguaína, município de Centro do Guilherme. “Passaram pra gente que cinco caminhões e tratores trabalharam diariamente derrubando árvores. À noite retiram a madeira (foto). As toras são levadas, explicam os indígenas, para uma serraria queimada pelo Ibama em junho e reativada para o crime ambiental. A nossa revolta aqui é o descaso, ausência de fiscalização do governo”, relata a liderança Ka’apor do Conselho ouvida.

    Os Ka’apor garantem que continuam com o que chamam de avivamento dos limites da terra indígena. A estratégia tem dado certo: os guardas florestais descobriram fazendeiros que estenderam pastos para dentro da terra indígena. "Retiraram os rebanhos contrariados e perguntaram quem está financiando os indígenas”, diz a liderança. Além de  retirada de madeira, os Ka’apor começam a descobrir fazendas de gado na Alto Turiaçu.

    Seguindo a ideia de autogestão, o Conselho de Gestão Ka’apor tem acompanhado os trabalhos da Guarda e mobilizado aldeias para garantir alimentação – farinha, frutas e caças – às áreas de proteção criadas e aos acampamentos avançados.

    “Se o Estado tivesse presente, impedindo esses criminosos, nós seguiríamos fazendo o trabalho, mas com mais segurança e justiça. Queimar madeireiras ilegais, por exemplo, a gente não pode fazer ou prender os mandantes do assassinato do Eusébio, que sabemos quem são”, encerra.

    Fotos: Guarda Florestal Ka’apor

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  • 29/08/2016

    Povo Kanamari cobra ações do poder público


    Há pelo menos dois anos, os Kanamari da região do Vale do Juruá vêm solicitando atendimento em suas aldeias sem ter qualquer resposta por parte dos órgãos governamentais. Segundo relatam em carta divulgada em julho passado, os Kanamari e Tsohom Dyapá – de recente contato – vivem naquela região sem qualquer atendimento à saúde, com seus territórios expostos a invasões e submetidos a diversas formas de discriminação e violência.

    “Até o momento não foi atendida nenhuma das demandas e propostas apresentadas por nosso povo nos documentos encaminhados depois dos encontros da Comissão Kanamari Ohümahik Waman Nyama em julho de 2014 e julho de 2015 para diversos órgãos, entre eles a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), a Fundação Nacional do Índio (Funai), a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República e o Ministério Público Federal”, reclamam as lideranças indígenas.

    A carta foi divulgada no final do VII Encontro Geral do Povo Kanamari na aldeia São Luís, localizada no médio rio Javari – no oeste do estado do Amazonas, na fronteira do Brasil com o Peru. O encontro aconteceu entre os dias 12 e 16 de julho de 2016 e se destinava a discutir os problemas que afetam “nosso território, nossa vida e o futuro de nosso povo”.

    Somando forças com os povos indígenas de todo o Brasil, os Kanamari manifestaram repúdio aos ataques aos direitos indígenas promovidos principalmente por setores do agronegócio com grande número de representantes no Congresso Nacional. Eles repudiam também o atual governo e o Poder Judiciário apontando como consequência a criminalização de lideranças indígenas, de pessoas e instituições que atuam na defesa dos direitos indígenas, bem como no enfraquecimento da Funai e na não execução das políticas públicas para os povos indígenas como um todo.

    Os participantes do VII Encontro Geral do Povo Kanamari destacam, entre os assuntos discutidos, os pontos apresentados a seguir.

    Saúde

    – Criação de um Distrito Sanitário Especial (DSEI) que atenda a região do médio rio Juruá;

    – Que os DSEIs Vale do Javari e Médio Rio Solimões e Afluentes promovam a formação continuada dos Agentes Indígenas de Saúde (AIS) Kanamari;

    – Exigimos que o atendimento à saúde dos Tyohom Dyapá de recente contato seja feito em caráter permanente pela Sesai, sob responsabilidade do DSEI Vale do Javari e com acompanhamento da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari (FPEVJ/FUNAI);

    – Exigimos o atendimento permanente de uma equipe de saúde na aldeia Jarinal, alto rio Jutaí, e uma Unidade Básica de Saúde Indígena (UBSI) no local;

    – Que o DSEI Médio Rio Solimões e Afluentes garanta presença permanente das equipes de saúde nas aldeias Kanamari do médio Juruá, porque atualmente ficam apenas poucos dias e demoram muito para voltar;

    – Exigimos a construção das UBSI nas aldeias Kanamari do Vale do Javari e Juruá e também a construção do Polo Base Massapê (rio Itaquaí) e a reforma, ampliação e estruturação dos Polos Bases de São Luís (médio Javari) e de Eirunepé (médio Juruá);

    – Solicitamos o tratamento e recuperação das inúmeras crianças Kanamari diagnosticadas com desnutrição e a atuação de uma equipe multidisciplinar de saúde para acompanhamento desta questão, com atuação nas aldeias Kanamari até que esse problema seja sanado;

    – Solicitamos do DSEI Vale do Javari que sejam feitos testes rápidos de hepatites virais e outras DST como sífilis e HIV/AIDS em todos os indígenas Kanamari, bem como a intensificação no tratamento de pacientes portadores de hepatites virais e outras DST nas aldeias;

    – Reiteramos o pedido para que a SESAI faça a perfuração de poços nas aldeias Kanamari que têm problemas de acesso a água potável;

    Território

    – Reiteramos nossa reivindicação para ampliação da Terra Indígena Kanamari do Rio Juruá, porque parte de nosso território, como por exemplo no rio Itucumã, ficou de fora da demarcação. E também pedimos novamente a demarcação de uma Terra Indígena no baixo Jutaí, onde estão nossas aldeias Castanhal e Igarapé Preto;

    – Exigimos urgentemente a atuação da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari (FPEVJ) junto aos Tyohom Dyapa de recente contato no alto Jutaí, em caráter permanente, assim como esta Frente atua junto ao povo Korubo. E que para isso faça uma base na boca do rio Juruazinho;

    – Queremos o fortalecimento da atuação da Funai na região dos vales do Javari, Jutaí e Juruá. Não aceitamos que sejam feitos cortes das já insuficientes funções de DAS lotadas na Coordenação Regional Vale do Javari (CRVJ), como as Coordenações Técnicas Locais (CTL).  Além disso, a nomeação de cargos de confiança da FUNAI na nossa região deve ser feita consultando os caciques, lideranças e moradores das aldeias Kanamari e suas organizações;

    – Criação de uma Coordenação Regional da FUNAI na região do Médio Juruá com sede em Eirunepé, a estruturação da CTL Eirunepé enquanto não for criada esta CR, e a criação de mais CTLs nas regiões do Juruá e Jutaí, como por exemplo no município de Itamarati;

    – Queremos que sejam feitas ações regulares de fiscalização das áreas mais invadidas do nosso território, como o igarapé Samaúma e rio Itucumã (TI Kanamari do Rio Juruá), igarapés Jaci, Jordão, São Vicente e rio Juruazinho (TI Mawetek) e a região do médio Javari e baixo Curuçá;

    – Queremos que a Funai construa uma base de vigilância na boca do rio Itucumã, Terra Indígena Kanamari do Rio Juruá;

    – Apoio da CRVJ e FPEVJ para ações de monitoramento e vigilância territorial do povo Kanamari;

    – Queremos que a FPEVJ respeite os acordos estabelecidos com as lideranças Kanamari no rio Itaquaí, porque alguns funcionários não têm permitindo passar com carne de caça para nosso consumo durante os deslocamentos para a cidade.  Além disso queremos poder pernoitar na Base quando estamos em viagem;

    – Instalação de radiofonia em todas as aldeias Kanamari, para melhorar a comunicação entre as aldeias e entre estas e instituições que atuam com o povo Kanamari, para o aperfeiçoamento do monitoramento e vigilância do nosso território, e também o suporte às ações de saúde e emergências;

    Educação

    – Queremos que o Ministério da Educação, a SEDUC-AM e as Secretarias Municipais de Educação de Eirunepé, Jutaí, Atalaia do Norte e Itamarati garantam a formação continuada dos professores Kanamari, o acompanhamento pedagógico nas aldeias e promovam a construção e publicação de materiais didáticos específicos do povo Kanamari;

    – Reiteramos a demanda de apoio para realizarmos um grande encontro dos professores Kanamari dos vales do Juruá, Jutaí e Javari, conforme já solicitado em 2014 às autoridades municipais, estadual e federal responsáveis pela educação escolar indígena;

    – Demandamos a construção de escolas em todas as aldeias Kanamari, em discussão com as comunidades e no modelo e tipo de arquitetura e materiais que elas acharem mais adequado;

    – Que a FUNAI e SEMEDs, junto com as organizações indígenas, constituam um Grupo de Trabalho para discutir a regionalização da merenda escolar nas aldeias Kanamari;

    – Que seja continuado o programa de formação em magistério indígena do Estado do Amazonas (Piraywara) e aumentado o número de professores indígenas Kanamari nos vales do Juruá, Javari e Jutaí;

    – Solicitamos que a SEDUC-AM faça um levantamento junto com a CIKAJU para a criação de Polos de Educação no vale do Juruá, e que construa esses polos;

    – Exigimos que a SEDUC-AM termine a construção do Polo de Educação da aldeia São Luís, porque a obra não foi concluída. Também solicitamos que a aldeia Massapê volte a ser considerada um Polo de Educação e que ele seja construído;

    – Solicitamos que a Prefeitura Municipal de Atalaia do Norte compre uma canoa para cada Polo de Educação em aldeias Kanamari (São Luís e Massapê);

    Direitos sociais

    – Que a FUNAI, o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e o INSS criem mecanismos para um atendimento específico para o povo Kanamari em Atalaia do Norte e Eirunepé, em diálogo com as lideranças e organizações do povo Kanamari, diminuindo a vulnerabilidade dos indígenas que ficam longos períodos na cidade aguardando atendimento, bem como adequando outras questões relacionadas ao acesso aos benefícios sociais pelas comunidades Kanamari;

    – Queremos que os CRAS de Atalaia do Norte e Eirunepé contratem indígenas Kanamari para facilitar o atendimento de nosso povo;

    – Queremos que a FUNAI, SESAI, demais órgãos de Estado e instituições deixem de usar o nome “Kanamari” e oficializem o uso de nossa autodenominação, “Tüküna”, e que toda a documentação civil de pessoas do nosso povo passe a reconhecer esse nome, ao invés de “Kanamari”.

    Texto e foto: J. Rosha/Regional Norte I

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  • 26/08/2016

    Relatório evidencia situações de confinamento e segregação racial de indígenas na região Sul


    Ato após assassinato de Vitor Kaingang, em Chapecó (SC). foto: Daiane Servo/diocese de Chapecó

    Em uma escola no Rio Grande do Sul, crianças indígenas são incentivadas a escrever redações sobre a origem de sua aldeia e as histórias de suas famílias. Semanas depois, as redações são utilizadas – sem que crianças ou pais soubessem – em uma audiência pública em outro município, como “provas” de que sua terra não seria tradicional. Em outro município, duas gestantes indígenas buscam assistência hospitalar para realizar o parto, não são atendidas e acabam perdendo seus bebês.

    Ambas as situações descritas acima – a primeira, na Terra Indígena Kandoia, do povo Kaingang, no município de Faxinalzinho (RS), e a segunda, na Terra Indígena Re Kuju (Campo do Meio), território Kaingang no município de Gentil (RS) – são apenas dois exemplos das situações de violência e discriminação que foram relatadas pelo Grupo de Trabalho (GT) sobre os direitos dos povos indígenas da região Sul do Brasil, instituído pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH).

    A versão final do relatório, aprovado no último dia 12 de agosto em reunião do CNDH, foi divulgada nesta quarta-feira (24), e contém relatos sobre as diversas violações verificadas e registradas pelo GT nas diligências realizadas entre os meses de março e junho de 2016.

    A vulnerabilidade de comunidades indígenas na região Sul do Brasil obteve visibilidade nacional quando, em 31 de dezembro de 2015, Vitor Pinto, criança Kaingang de apenas dois anos, foi morto em Imbituba (SC), no colo de sua mãe, que vendia artesanato no município – uma prática cultural e de subsistência que é criminalizada em muitas cidades.

    O GT realizou três missões, uma em cada estado da região Sul, onde os integrantes reuniram-se com autoridades e servidores públicos e visitaram comunidades indígenas e lideranças dos povos Kaingang, Guarani Mbya e Laklãnõ (Xokleng).

    No Rio Grande do Sul, o GT visitou as terras Kaingang de Re Kuju (Campo do Meio, município de Gentil), Rio dos Índios (município de Vicente Dutra), Kandoia (em Faxinalzinho) e a Terra Indígena Iraí (município de Iraí).

    Em Santa Catarina, o GT reuniu-se com lideranças Guarani Mbya, Kaingang e Laklãnõ (Xokleng) e visitou as terras indígenas Morro dos Cavalos, território Guarani Mbya localizado em Palhoça, e a Terra Indígena aldeia Kondá, no município de Chapecó.

    E no Paraná, última das três missões do GT, reuniões com lideranças foram realizadas nas aldeias Ocoy, Guaíra e Terra Roxa, terras Guarani Mbya nos municípios de São Miguel do Iguaçu e Guaíra, e na Terra Indígena Boa Vista, do povo Kaingang, no município de Laranjeiras do Sul.

    Leia o relatório completo


    Manifestação dos Kaingang da TI Rio dos Índios (RS), que, confinados, e aguardam regularização territorial há 30 anos

    Confinamento territorial

    O relatório centrou-se em dois aspectos centrais das violações cometidas contra os povos indígenas da região Sul do país: as violações de direitos territoriais e as violação da dignidade da pessoa humana, que incluem casos de segregação étnica, discriminação racial e exclusão social.

    O documento afirma que as similaridades nas violações contra os povos indígenas nos três estados sugere “um caráter padronizado assumido pelas formas de agressão, criminalização, negligência e negação de direitos dos povos indígenas, com a participação direta e indireta de autoridades locais e agentes públicos”.

    A violação do acesso destes povos a seus direitos territoriais é destacada como a causa principal da situação de vulnerabilidade vivenciada pelos indígenas em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná.

    As terras indígenas já regularizadas na região Sul do país, segundo dados da Fundação Nacional do Índio (Funai), correspondem a apenas 0,1% da extensão territorial dos estados de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Atualmente, dos pelo menos 78,7 mil indígenas que vivem nesses três estados, pouco mais da metade – 39,4 mil – residem em terras indígenas regularizadas, segundo dados do IBGE citados no estudo.

    Há 21 terras indígenas em processo de regularização na região, que perfazem 88.712 hectares – somam, assim, outros 0,15% do território dos três estados. O relatório também aponta a existência de pelo menos outras 21 retomadas ou acampamentos no Rio Grande do Sul e 14 no Paraná, terras reivindicadas como tradicionais pelos indígenas mas ainda sem providências por parte do poder público.

    Apesar da baixa demanda territorial, os processos de regularização fundiária na região encontram-se, assim como no resto do país, estagnados: desde 2003, nenhuma demarcação de terra indígena é concluída no Sul do Brasil.

    Muitas das comunidades indígenas da região encontram-se impedidas de produzir alimentos para sua subsistência, em função da pouca disposição de terras. Na aldeia Ocoy, em Santa Catarina, por exemplo, cerca de 800 indígenas sobrevivem em apenas 230 hectares, espremidos entre fazendas de monocultura e um lago formado pelo barramento da Hidrelétrica de Itaipu. Na Terra Indígena (TI) Iraí, no Rio Grande do Sul, 350 pessoas vivem em 279 hectares; na TI Rio dos Índios, no mesmo estado, 46 famílias indígenas vivem em apenas 2 dos 715 hectares já declarados pelo Ministério da Justiça como de ocupação tradicional do povo Kaingang.

    Estas situações fazem com que os indígenas dependam de outras formas de subsistência, como a venda de artesanato nos centros urbanos próximos.


    foto: Daiane Servo/diocese de Chapecó

    Segregação e racismo

    Em 2013, obteve grande repercussão o discurso proferido pelos deputados federais Luis Carlos Heinze (PP-RS) e Alceu Moreira (PMDB-RS) numa audiência com produtores rurais no município de Vicente Dutra (RS), no qual o primeiro desqualificava indígenas, quilombolas, gays e lésbicas como aquilo que “não presta” e o segundo incitava os agricultores a agirem de forma violenta contra os povos e comunidades indígenas.

    O relatório evidenciou que situações e discurso como estes são mais do que comuns na região e que, inclusive, diligências da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra a Funai e o Incra – em visitas que foram feitas sem aviso prévio às comunidades indígenas – serviram de plataforma para criminalizar e intimidar comunidades indígenas na região. O relatório destaca o “envolvimento indevido e irregular” de “agentes da Polícia Federal, do procurador do estado e de parlamentares membros da CPI Funai/Incra na questão fundiária envolvendo povos indígenas no RS”.

    Tais discursos e incitações, aliados à situação de confinamento e estagnação das demarcações de terras, favorecem os conflitos com colonos, agricultores e fazendeiros, acentuam as práticas de discriminação e segregação e geram consequências drásticas.

    Em muitos municípios, o GT identificou que, em decorrência desta situação, indígenas são discriminados e até expulsos das cidades, inviabilizando a venda de artesanato e fomentando situações de fome e miséria.

    São múltiplos também os casos de segregação em escolas, perseguição e grave desassistência à saúde. Em uma situação extrema de preconceito, crianças e adolescentes de Re Kuju (Campo do Meio, em Gentil/RS) relataram ao GT sofrer discriminação até na hora de se alimentar e escolher seus assentos na escola.

    Em Guaíra (PR), outra situação emblemática: entre 2012 e 2014, 150 indígenas foram demitidos de seus trabalhos, o que, segundo o relatório “prejudica ainda mais a segurança alimentar das comunidades, dada a situação de confinamento territorial”. Neste período, o GT aponta que o Ministério Público do Trabalho (MPT) identificou 200 paraguaios trazidos irregularmente para trabalhar nos postos de trabalho dos quais os indígenas foram demitidos.


    Primeira missão do GT, no estado do Rio Grande do Sul. foto: Plataforma Dhesca

    Criminalização de lideranças e comunidades

    Outro padrão verificado pelo GT entre as comunidades indígenas da região Sul é a constante criminalização de lideranças e comunidades indígenas inteiras e uma atuação parcial da Polícia Federal, inclusive interferindo na organização das comunidades indígenas e respaldando ações ilegais, como o arrendamento de terras.

    Na TI Boa Vista, por exemplo, em Laranjeiras do Sul (PR), a liderança da comunidade permaneceu mais de três meses preso em circunstâncias pouco claras, e as autoridades locais negam constantemente o registro de boletins de ocorrência com denúncias feitas pela comunidade, que vive ameaçada por fazendeiros. Na aldeia Kandoia (RS), após conflito que resultou na morte de dois não-indígenas, a comunidade inteira foi cerceada, todas as pessoas da comunidade tiveram sua saliva coletava e suas lideranças, sem nenhum evidência de participação nos crimes, foram presas por mais de um mês.


    Relatório foi aclamado em reunião do CNDH. foto: Tiago Miotto/assessoria de comunicação do Cimi

    Recomendações

    Diante das denúncias constatadas, o relatório enfatiza a urgência de que os dispositivos constitucionais e infraconstitucionais, nacionais e internacionais de proteção à vida dos povos indígenas sejam observados e acionados para conter a iminente escalada de violência na região.

    O documento apresenta como recomendação geral que o Estado brasileiro, representado pelo Governo Federal, reafirme seu compromisso com os procedimentos administrativos vigentes para a regularização fundiária de terras indígenas.

    Com relação à CPI da Funai e do INCRA, uma das recomendações é de que a Secretaria de Direitos Humanos (SDH), a Funai e as Comissões de Direitos Humanos da Câmara e do Senado atuem ativamente para monitorar, investigar e propor medidas para coibir e punir a atuação racista e discriminatória de parlamentares contra os povos indígenas e seus direitos no âmbito da CPI.

    Ainda a respeito das declarações racistas, de ódio e de incitação à violência promovidas por parlamentares e autoridades públicas, o relatório recomenda que a Câmara dos Deputados analise a possibilidade de quebra de decoro parlamentar dos deputados Alceu Moreira (PMDB/RS) e Luís Carlos Heinze (PP/RS), em razão de pronunciamentos públicos de incitação ao crime e incitação à violência contra indígenas.

    O relatório também faz uma série de recomendações relacionadas aos conflitos fundiários, criminalização, atentados à vida de lideranças indígenas, operações da Polícia Federal e atuação irregular de agentes federais; ao atendimento especial à Saúde Indígena; à educação específica diferenciada e bilíngue; aos direitos humanos das crianças e adolescentes indígenas; ao direito à moradia; à manutenção e fortalecimento da assistência e políticas indigenistas; e ao racismo, confinamento territorial e segregação dos povos indígenas.

    Na tarde de quarta-feira (24), o relatório foi entregue ao Ministro interino da Justiça, Alexandre de Moraes, em audiência que contou com a presença de lideranças indígenas da região.

    O documento foi enviado à relatora especial da ONU sobre Direitos dos Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, e deve ser incluído no relatório sobre sua visita ao Brasil, ocorrida em março de 2016. O relatório final de Tauli-Corpuz será apresentado em setembro em Genebra.

    Clique aqui para ler o relatório na íntegra.

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  • 26/08/2016

    Requerimento para nova CPI da Funai e Incra mira demarcações que somam mais de 52 mil indígenas

    Parlamentares ruralistas protocolaram um requerimento na Mesa Diretora da Câmara Federal solicitando a criação de uma nova Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para “investigar fatos relativos” à Fundação Nacional do Índio (Funai) e ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A iniciativa era esperada pelo movimento indígena e entidades indigenistas.


    No requerimento, os ruralistas apontam fraudes na demarcação de 20 terras indígenas nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Bahia e Pará. No entanto, não apresentam sequer um fato determinado ou prova para tais fraudes – se restringiu a matérias jornalísticas do Canal Rural, imprensa associada e artigos de indivíduos que coadunam com as teses da CPI.

    São 52.268 indígenas, em números aproximados, diretamente na mira deste pedido de nova CPI, que compõem os povos Parakanã (PA), Kaingang, Guarani (Mbyá, Ñandeva, Kaiowá e Xeripá) – RS e MS -, Terena (MS), Xavante (MT), Pataxó (BA) e Tupinambá (BA). Os ruralistas pretendem acabar com 1.207.122 hectares em alguma fase do procedimento de demarcação – identificação, declaração, homologação e registro.

    A primeira versão da CPI da Funai e do Incra teve o tempo regimental encerrado no último dia 18 sem ao menos um relatório apresentado sobre o trabalho transcorrido durante oito meses, com três prorrogações aprovadas pela Mesa Diretora da Câmara Federal: duas com o então presidente Eduardo Cunha (PMDB/RJ) e uma pelo novo presidente, Rodrigo Maia (DEM/RJ). Todas as decisões foram monocráticas.

    Então presidida pelo ruralista Alceu Moreira (PMDB/RS), o mesmo que em 2013 incitou pequenos produtores a atos de violência contra indígenas, a CPI da Funai e do Incra esbarrou no Supremo Tribunal Federal (STF): o presidente da Corte Suprema, ministro Ricardo Lewandowski, não autorizou a quebra de sigilo fiscal de entidades que apoiam a causa indígena por entender que o ato fugia dos objetivos da CPI.

    "A CPI da Funai/Incra não ofereceu qualquer tipo de benefício à sociedade brasileira, mas serviu perfeitamente aos interesses dos ruralistas. Estes aproveitaram-se dos recursos públicos para visitar suas bases eleitorais, para amplificar o discurso do ódio e da violência contra os povos por meio de veículos de comunicação comerciais e estatais, obtendo visibilidade e promoção política e econômica a si próprios, a seus partidos, às corporações empresariais que os financiam e a seus candidatos a prefeito e vereadores na presente corrida eleitoral”, diz trecho de nota pública divulgada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi).


    No lugar de fatos determinados, teses

    Em um juntado de notícias veiculadas pela imprensa sobre o desmantelamento do órgão indigenista estatal, os ruralistas buscam induzir duas teses como fatos determinados: a Funai foi desestruturada, e assim o trabalho do órgão incorre em erros; por outro lado, quando as organizações indigenistas buscam criticar a desestruturação do órgão, desejam na verdade influenciar num sentido fraudulento as demarcações.
     

    Se hoje os ruralistas atacam a senadora Gleisi Hoffman (PT/PR) na disputa envolvendo o golpe contra Dilma Rousseff, no requerimento a citam enquanto ministra da Casa Civil na ocasião em que Gleisi pediu ao Ministério da Justiça que suspendesse as demarcações em seu reduto político, o Paraná, com base em slides da Embrapa, onde se questionava inclusive se os Guarani eram brasileiros.

    O requerimento segue tratando como fato determinado para a posse da nova CPI desentendimentos entre o próprio governo. Um deles envolve a Terra Indígena Barra Velha/Monte Pascual, do povo Pataxó. Os ruralistas citam a oposição do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) à permanência dos Pataxó no território alegando que no local funciona um Parque Nacional de proteção ambiental.

    Já no caso da Terra Indígena Apyterewa, no Pará, do povo Parakanã, os ruralistas citam a morosidade do Incra em reassentar 412 famílias de pequenos agricultores que vivem dentro dos domínios Parakanã. As famílias estão em processo de reassentamento numa fazenda de 26 mil hectares, nas cercanias da terra indígena, confiscada pela Justiça Federal de Goiás por ter sido comprada com dinheiro do tráfico de drogas. 

    "Com a nova CPI, os ruralistas pretendem continuar queimando dinheiro público em tentativas requentadas e bizarras de criminalização de lideranças indígenas e de organizações da sociedade civil que apoiam a luta dos povos em defesa e pela implementação de seus direitos no Brasil”, pontua outro trecho da nota do Cimi.


    Criar o problema e vender a solução

    Um caso emblemático é citado como ‘fato determinado’ pelo requerimento da nova CPI: a Terra Indígena Marãiwatsédé, do povo Xavante, no Mato Grosso. Foram mais de 20 anos para a homologação da terra ser assinada Pela presidência da República. Depois disso, uma verdadeira operação de guerra foi articulada pelo governo federal para desintrusar posseiros e grileiros, que ano após ano foram trazidos de todo canto do país para ocupar pequenas porções do território.

    O relator da finada CPI da Funai e do Incra, o deputado ruralista Nilson Leitão (PSDB/MT), e um dos mentores do requerimento da nova CPI, é investigado pelo Ministério Público Federal (MPF) de ser o suporte para recentes invasões à Marãiwatsédé. em escutas telefônicas realizadas pela Polícia Federal, Leitão pede “30 escrituras para ele”, registradas irregularmente por posseiros em cartórios da região.

    Um dos líderes dos fazendeiros envolvidos preso pela PF, Sebastião Prado, afirmou nas mesmas escutas que seu contato em Brasília era Leitão, por sua vez amigo de juízes capazes de reverter decisões a favor dos posseiros, grileiros e fazendeiros. O trabalho da PF ocorreu depois que agentes foram mandados de volta à Marãiwatsédé para investigar invasões que vinham ocorrendo desde a desintrusão, concluída em 2013.

    No requerimento, os ruralistas citam Marãiwatsédé alegando que os conflitos entre indígenas e ‘produtores rurais’ segue mesmo após o Executivo homologar a terra. Ou seja, o próprio relator da CPI encerrada é acusado no STF, acumulando o oitavo processo na Corte Suprema, por gerar os conflitos na terra Xavante. O documento, por sinal, é costurado por situações variáveis, mas com essa mesma ordem.


    Condicionantes de Raposa Serra do Sol e Marco Temporal

    Outra manipulação flagrante do relatório envolve as 19 condicionantes à homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Em 2013, o STF as votou. Todas foram aprovadas pelos ministros, mas com uma determinação objetiva: nenhuma delas se vinculam às demais terras indígenas do país. Todavia, os ruralistas as usam como fatos determinados como desrespeitos observados no procedimento demarcatório das terras citadas. 

    O Marco Temporal, incluído nas condicionantes, é transmutado pelo requerimento nas revisões de demarcações – chamadas no documento de ampliações. Além de também restrita à Raposa Serra do Sol, terras indígenas demarcadas antes de 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal, podem ser revistas para reparar erros anteriores inerentes aos momentos políticos, sobretudo o regime militar (1964-1985).

    Citam ainda reportagens envolvendo a venda de certidões indígenas, sem nenhuma relação com as demandas territoriais, e o recebimento em milhões de recursos públicos por parte de ONG’s, caso da Missão Evangélica Caioá, que em nada tem a ver com a demarcação de terras indígenas ou em ativismo político em defesa dela. Nesse sentido, o MPF acompanha e aciona judicialmente os envolvidos em ilícitos, como o próprio requerimento pontua.

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