• 06/09/2016

    Luta pela democracia segue na pauta de reivindicação dos movimentos ao governo


    Em audiência com governo federal, os movimentos do campo unitário acampados em Brasília-DF, desde a madrugada desta segunda-feira (5), reivindicaram um conjunto de pautas para retomada e aprofundamento das políticas para o campo, das águas e florestas, com priorização para a destinação de terras para a efetivação da reforma agrária popular e titulação e demarcação de terras para povos indígenas e quilombolas.

    A agenda de reivindicação junto ao governo federal é sequente ao conjunto de mobilizações realizadas em todo o país pelos movimentos populares em defesa da democracia e respeito ao voto popular.

    Mobilizados pela Jornada Nacional das Trabalhadoras e Trabalhadores e Povos do Campo, das Águas e das Florestas, 2 mil militantes de todo o país ocuparam o Ministério do Planejamento na madrugada desta segunda-feira (05). A ação foi uma estratégia política para dar visibilidade às lutas da população campesina e tradicional e pressionar o governo federal para dar resposta imediata às demandas. Além da capital federal, estão sendo realizadas atividades que compõem a Jornada Nacional em 11 estados.

    Orientados pela defesa da reforma agrária ampla, os movimentos se posicionam contrários às propostas anunciadas pelo governo de Michel Temer (PMDB) e sua bancada de apoio para a questão da terra. Na avaliação dos movimentos, a aprovação do Projeto de Lei 4059/2012 que flexibiliza a aquisição de terras por pessoas físicas e jurídicas estrangeiras, a intensificação das titulações de terras, entre outras medidas, significa a privatização da terra.

    A unidade dos movimentos populares para permanecer em luta e pautar suas reivindicações em uma audiência com o governo, ainda que seja uma gestão ascendida ao poder por uma destituição não legitimada da presidenta Dilma Rousseff, vem da realidade cotidiana dos agricultores e agricultoras, povos indígenas e quilombolas, ainda mais precarizada pelas medidas adotadas durante o governo interino golpista de Michel Temer, que levou o contexto para uma situação emergencial.

    “O que nos unificou, acima de tudo neste momento, é a preocupação com a realidade no campo e com as políticas conquistadas a duras penas nos últimos anos, e recentemente ameaçadas”, pontua o presidente da Contag, Alberto Broch.

    “O que nos traz aqui são as 120 mil famílias acampadas, as 579 mil famílias com acesso bloqueado às políticas agrárias pelo Tribunal de Contas da União (TCU), produtores com acesso dificultado à assistência técnica. Precisamos extrair uma resposta do governo para dar ao povo sobre um orçamento que pertence ao povo”, destaca o integrante da coordenação nacional do MST, Alexandre Conceição.

    Retorno do MDA

    Uma das pautas prioritárias defendida pelos movimentos populares é o retorno do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Numa das primeiras ações do governo interino, pelo Decreto 8780, publicado no dia 30/05 no Diário Oficial da União (DOI), Temer extinguiu o MDA e transferiu para a Casa Civil a administração das cinco pastas ligadas à Reforma Agrária. A Casa Civil, sob administração de Eliseu Padilha (PMDB), também passa a responder pelo Incra.

    Entendido como central para a operacionalização da política pública para a reforma agrária e agricultura familiar, o MDA foi fruto da pressão dos movimentos populares após a criação do Massacre de Eldorado de Carajás. “O MDA não é um órgão do governo e nem dos movimentos sociais. É um patrimônio da agricultura familiar e camponesa”, defende Alberto.

    Participantes da audiência

    As organizações e movimentos populares que participaram da audiência pública foi o MST, Movimento Camponês Popular (MCP), Movimento das Mulheres Camponesas (MCP), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e as organizações Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), Conselho Missionário Indígena (CIMI), Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (Fetraf).

    Diante de responsáveis pelas pastas da política agrária, planejamento e cidades. Participaram da audiência o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha; presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária  (Incra) Leonardo Góes, o chefe de gabinete da Casa Civil, Roberto Severo, o ministro do estado chefe da secretaria  de governo, Geddel Vieira, o secretário especial da agricultura familiar e  reforma agrária, José Ricardo Roseno, o secretário executivo da Casa Civil, Daniel Sigelmann, o ministro de estado interior do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, Dyogo Oliveira e o assessor especial da Casa Civil, Renato Vieira. Ao fim, por reivindicação dos movimentos populares para garantia da moradia popular para o campo, com o retorno do Programa Minha Casa Minha Vida Rural, se somou o ministro das Cidades, Bruno Araújo (PSDB).

    Novas agendas

    Como encaminhamento da audiência, o governo federal se comprometeu a escutar os movimentos populares e organizações do campo unitário nesta terça-feira (06). Os movimentos devem apresentar neste dia sua pauta de reivindicação para Incra, Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e Ministérios das Cidades e do Desenvolvimento Social.

    Neste momento devem pautar, com prioridade, a permanência do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), políticas de assistência técnica e extensão rural e a faixa rural para o Programa Minha Casa, Minha Vida.

    Jornada Nacional

    A Jornada segue até dia 07 de setembro, culminando na participação dos movimentos populares na Grito dos Excluídos, realizado em contraposição ao Dia da Pátria. Além de Brasília, alguns estados sinalizam permanecer mobilizados até sexta-feira (09).

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  • 06/09/2016

    Movimentos sociais e pastorais convocam população para o Grito dos/as Excluídos/as neste dia 7

    Em sua 22ª edição, o Grito dos e das Excluídos(as) de 2016 traz o lema “Este Sistema é Insuportável: Exclui, Degrada, Mata” e será realizado em 24 estados do Brasil. Tradicionalmente, o evento é realizado no dia 7 de setembro e organizado por diversos movimentos sociais, organizações e pastorais.

    O lema do Grito dos e das Excluídos(as) baseia-se em afirmação do Papa Francisco a movimentos sociais durante encontro em Santa Cruz de La Sierra, em 2015, quando o pontífice declarou: “O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança”.

    O evento, que teve sua primeira edição no ano de 1995, é organizado de forma descentralizada e autônoma pelos movimentos e pastorais que o realizam em cada cidade. Em levantamento preliminar divulgado na segunda-feira (5), o Grito está previsto para ocorrer em pelo menos 110 municípios em todo o país.

    Acompanhe a página do Grito dos Excluídos no facebook e veja a programação em cada estado.

    No Distrito Federal, cerca de 80 movimentos e pastorais convocam a população a população a participar do Grito dos/as Excluídos/as, cuja concentração para o ato nesta quarta (7) será em frente ao Museu Nacional da República, a partir das 8h30.

    Em Brasília, os movimentos populares, sindicais e pastorais que participam da Jornada de Lutas Unitária dos Trabalhadores e Trabalhadoras e Povos do Campo, das Águas e das Florestas e ocuparam o Ministério do Planejamento na segunda-feira (5) também participarão do ato.

    Leia a convocatória:

    Convocatória para o Grito dos Excluídos 2016 – Distrito Federal, 07 de setembro

    Concentração em frente à Catedral de Brasília, a partir das 8h30

    Temer subiu ao poder de forma ilegítima e governa apenas para os ricos e poderosos. Ele quer acabar com os direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores do campo e da cidade, das florestas e das águas; das mulheres, das negras e dos negros, dos indígenas, das/os LGBTs, da juventude e das moradoras e dos moradores das periferias.

    O povo brasileiro sofre cada vez mais com a crise. Só em agosto mais de 100 mil pessoas ficaram desempregadas. O salário já não dá mais para as compras do mês. E se Temer continuar realizando suas medidas, isso só tende a piorar. Não podemos esperar nada de bom de um governo que não foi escolhido pelo povo.

    Por isso, os movimentos sociais do campo e da cidade realizam mais um Grito dos/as Excluídos/as. Chamamos aquelas e aqueles que não aceitam os ataques deste governo para participarem.

    Com luta popular, é possível mudar essa situação.

    Fora Temer! Nenhum direito a menos!

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  • 05/09/2016

    “Por que fazer uma hidrelétrica faraônica como essa de Belo Monte?”

    Nascido em 1939 na Áustria, Dom Erwin Kräutler é formado em filosofia e teologia, ganhador de 22 prêmios, inclusive o Nobel Alternativo, e bispo emérito da prelazia do Xingu. Foi presidente do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) por 17 anos e é conhecido e admirado por sua luta contra a construção de Belo Monte e pela defesa dos direitos de indígenas, ribeirinhos, dos mais pobres e dos mais frágeis e dos extrativistas da Amazônia.

    O senhor recebeu diversos prêmios durante toda a sua vida, inclusive o Prêmio Nobel Alternativo, por sua atuação em defesa das comunidades tradicionais, dos trabalhadores rurais etc. Como o senhor se sente com relação a essas premiações?

    Quanto aos prêmios, eu os recebi sempre em nome de tantas pessoas com quem eu trabalhei ou que trabalharam comigo, porque nunca estive só, nunca me senti sozinho. Também nunca tomei iniciativas sozinho. Sempre me vi acompanhado de outras pessoas que talvez não se encontrem em alto relevo. Como bispo você automaticamente está um pouco mais na mídia. Então eu recebi esses prêmios nesse sentido, agradecendo em nome de tantas pessoas, mulheres e homens, do Cimi e de outras entidades com que eu trabalhei.

    De outro lado, o senhor recebeu diversas ameaças e sofreu um atentado contra sua vida. Mas nunca se intimidou. O medo interferiu muito em sua jornada?

    Quanto as ameaças, nunca as procurei. Quando você toma posição em favor de alguma causa, por exemplo, se coloca em favor dos povos indígenas, automaticamente está contrariando interesses de outros segmentos, como os madeireiros, os latifundiários, mineradoras, que procuram entrar nas áreas indígenas e não ficam nada satisfeitos quando alguém se opõe e defende o que está escrito na própria Constituição Federal. Então não é que a gente provoca, é que na hora em que você se coloca a favor de uma determinada causa você é contra os interesses e as vezes a ganância dos que a todo custo querem explorar as riquezas naturais do solo e subsolo de territórios indígenas.

    O medo, claro. Todos defendemos nossa vida, e quando se é ameaçado e corre risco, não é uma coisa agradável de se lidar, mas eu praticamente sempre estive convicto de que esse caminho é meu, que tenho que continuar nele apesar de todas as ameaças e intimidações que recebi.

    Como a sua fé o ajudou a enfrentar esses desafios?

    Tenho fé em Deus e fé também nas pessoas que lutam por uma causa nobre, e assim nunca me afastei, nunca deixei me intimidar. Passei alguns momentos de crise, logo quando eu recebi a proteção da parte da Polícia Militar por decisão do governo, eu me senti um pouco acuado. Lembro-me muito bem de que estava com medo de entrar numa depressão ou qualquer coisa assim, porque de repente você não pode mais andar sozinho, está sempre acompanhado por duas pessoas, tudo o que você faz, onde você se encontra, ou para onde você vai, sempre há dois soldados juntos. Pedi que não andassem fardados, mas mesmo assim não se tem mais a liberdade de estar só. A liberdade exterior está cerceada, mas a interior ninguém me pode tirar. Continuei falando, dizendo aquilo que penso e defendendo as causas que acho necessário defender.

    O MPF ingressou com mais uma ação contra a hidrelétrica de Belo Monte, por risco de colapso sanitário. Qual é a situação hoje do município de Altamira, no Pará?

    Para dizer a verdade, a situação é caótica. Havia 40 condicionantes listadas pelo próprio Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), e 23 condicionantes que eram listadas pela própria Fundação Nacional do Índio (Funai), 63 ao todo. Essas condicionantes deveriam ser cumpridas antes da instalação do canteiro de obras, e não foram cumpridas.

    Quando se começa uma construção deste porte como Belo Monte, as consequências para o meio ambiente e para uma cidade ou várias cidades ou municípios são terríveis. As condicionantes seriam saneamento básico, educação, saúde, habitação, transporte, segurança pública, a demarcação de áreas indígenas ainda não demarcadas, um monte de coisa, e tudo isso não foi cumprido, então hoje estamos numa situação em que, se você vai lá em Altamira, você fica estarrecida diante dos fatos que aconteceram.



    Como foi a transferência das famílias para suas novas casas?

    Primeiro, uma grande parte da população foi transferida compulsoriamente. Não vou dizer que essas famílias foram convidadas a se transferir para outro local, porque elas foram transferidas porque não havia outro jeito. Se fez uma série de casas, não sei quantas, casinhas em que cabe uma família talvez com quatro pessoas, e o pessoal que estava acostumado talvez com um ambiente mais amplo, mais largo, nessa situação. O primeiro impacto foi esse.

    O segundo é que foram tiradas do seu meio, do seu convívio com outras pessoas. A gente não está vivendo só numa casa, está vivendo também na vizinhança. Não vivemos sós, nossa casa não é isolada. Temos vizinhos, temos parentes, compadres, e de repente você está sendo arrancado desse convívio e colocado no meio de gente que você não conhece. Esse é outro impacto que é terrível no meu modo de ver.

    Qual a atual condição da população de Altamira?

    A criminalidade aumentou de uma maneira assustadora. Nós temos, por cada fim de semana, dois, três, as vezes até mais homicídios, e chega ao ponto de a gente quase se conformar. Tem gente que, segunda-feira, pergunta quantos morreram nesse fim de semana, “apenas um”, já pensou? É desse jeito. “Ainda bem, só um, porque tinham outros fins de semana em que eram três, quatro”. E faz tempo que está desse jeito. Não é que a segurança pública não se esforce, mas que não tem condições.

    Outra coisa, principalmente em relação à juventude: as drogas, nunca vi coisa igual. Há poucos dias, havia uma senhora comigo, professora que era diretora de uma escola. Ela não sabe mais o que fazer. Na escola, crianças ou adolescentes, doze, treze anos, as drogas correm soltas lá dentro.

    E todas as consequências da prostituição infantil, de menores, é terrível, todos esses antros de prostituição, de perdição, terrível, terrível mesmo. Não estou exagerando nada, porque eu conheço Altamira. Estou ali há mais de 50 anos, conheci essa cidade que, quando cheguei era, naturalmente, de menor porte, sete ou oito mil habitantes. Agora tem 150 mil, mas é incomparável.

    A convivência se tornou algo que não é mais de vizinhança, boa vizinhança, todo mundo se tranca. Em determinados horários que eram dedicados ao lazer, se você parar para observar, não tem ninguém em frente à casa. Antigamente Altamira era assim: o pessoal, à boca da noite, como se diz, estava sentado na frente da casa, as crianças brincando na calçada, esse tipo de coisa, o pessoal jogando conversa fora. Nada disso acontece mais, as casas são cercadas de muros altos, com cerca elétrica. Isso não é mais vida. Para mulheres na sua idade, ou um pouco mais, andar sozinha é um risco.

    Qual foi o impacto da construção de Belo Monte na cultura local?

    A cultura do povo paraense foi, no meu modo de ver, atingida no coração. Porque, só para explicar, o paraense tem uma cultura de hospitalidade. E certamente outras pessoas pelo Brasil afora são semelhantes, mas aqui no Sul são diferentes. Vejamos por exemplo, uma família que mora em Altamira. Os pais, parentes, tio, tia, avós, quem quer que sejam, amigos e amigas que moram no interior, quando chegam em Altamira para se tratar, fazer compras, automaticamente se hospedam na casa dos filhos, não se faz um telefonema ou qualquer coisa, “olha eu vou chegar” e tal, isso é coisa normal, normalíssima, dos filhos receberem seus pais, parentes, amigos, avós, quem quer que seja.

    E de repente está numa casa que é tão diminuta, tão pequena, que mal cabe um casal com dois filhos, e de repente vem o pai, ou vem a mãe, ou vem os avós, e você vai ter que dizer na porta “aqui não tem lugar”. E isso é horrível, a agressão não é apenas que você foi transferido de uma casa para outra, é um agressão à cultura. Imagine dentro do coração de uma pessoa ter que negar hospedagem aos próprios pais. Não tem outro jeito, não cabe, simplesmente não cabe, as casas são mais gaiolas do que moradias.

    O senhor considera que Belo Monte trouxe desenvolvimento para Altamira?

    Para mim, isso não é progresso, não é desenvolvimento, gente falava que com Belo Monte viria o progresso para Altamira, mas que progresso é esse? A qualidade de vida piorou, diminuiu-se a qualidade de vida de uma maneira assustadora. É um retrocesso.

    Em acordos envolvendo a operação Lava Jato, diretores de grandes empreiteiras reconheceram haver desvios de recursos envolvendo a construção de Belo Monte. Confirma-se, portanto, que eram outras as razões para se construir a usina?

    Sem dúvidas. Eu não posso provar porque não tenho acesso a todos esses documentos, mas todos nós ficamos apreensivos, desde o início. Aí tem areia no meio, tem boi na linha, como se dizia antigamente. E de fato agora aos poucos está se descobrindo que tinha interesses escusos por trás. Além disso, eu sustento até hoje que Belo Monte é um golpe no coração da Amazônia. Um rio está sendo sacrificado, e a gente até hoje não sabe se vai funcionar. Porque o Xingu é um rio, como dizem os geólogos, em formação. O rio não está pronto de fato. Tem outros rios que têm o seu leito determinado, não mudam mais nada, mas o Xingu é diferente, então não conhecemos as verdadeiras consequências. Não sei se os cientistas que moram aqui em Brasília entendem realmente o que é a Amazônia e o que é o rio Xingu com seus afluentes e tudo o mais. Neste ponto não quero ser profeta apocalíptico, mas eu tenho medo, porque isso pode acarretar consequências imprevisíveis que ninguém sabe hoje determinar ou definir.

    Por que o Brasil insiste em adotar fontes de energia que causam tantos danos ao meio ambiente e as populações tradicionais? Não está na hora de adotar outro modelo de desenvolvimento?

    Exatamente, tem outras possibilidades de captar energia. Estou falando da energia solar, por exemplo, em nossa área do Pará nós temos sol das 6h às 18h, mesmo no inverno, o chamado inverno que é a época das chuvas, o sol em que amanhece o dia às 6h ou 6h30 e até as 18h ou 18h30 nós temos claridade, então por que não aproveitar essa dádiva divina que é o próprio sol? E nós temos cientistas de ponta em nossas universidades aqui, por que não se investe nesses cientistas para descobrir como aproveitar essa fonte que nunca termina que é o próprio sol?

    Quanto a energia eólica eu tenho algumas reservas, mas também no litoral do Nordeste há áreas que não são habitadas, quer dizer, um parque eólico aí não estraga tanto a paisagem ou prejudica o turismo. E depois tem biomassa, tem outras fontes. Por que fazer uma hidrelétrica faraônica como essa de Belo Monte?

    Poderia fazer algumas menores, aproveitando algum afluente do rio Xingu, por que não? Não ia ter tanto estrago, deixa o leito do rio como está, mas mesmo perto de Altamira tem várias afluentes que são igarapés, são córregos, diria quase que caudalosos, tem muita água, pode-se aproveitar. Eu não sou cientista nesse ponto, mas eu sempre fiquei pensando nisso, porque estragar um rio de dois mil quilômetros de comprimento, acabar com esse rio, com o meio ambiente, estragar uma cidade, um terço da cidade vai para o fundo, e por aí vai a história. Não entendo.



    Sabemos que o senhor ajudou na produção da encíclica Laudato Si. O que o senhor acha da atribuição de coautor que recebeu?

    Que ajudei na produção parece um pouco exagerado, os jornalistas colocaram que eu era coautor. O fato é que eu estive lá com o Papa em 04 de abril de 2014, e eu sou secretário da Comissão Episcopal para a Amazônia, até tivemos uma reunião que terminou agora a pouco.

    Estou há 50 anos na Amazônia, então de repente surgiu essa proposta de ir falar com o Papa sobre ela. O cardeal Dom Cláudio Hummes então agendou, conseguiu uma audiência para mim, e fui lá 04 de abril. Por um bom tempo falei com o Papa sobre a situação da Amazônia, sobre os povos indígenas, e outros assuntos. Quanto à Amazônia, falei da sua importância como habitat dos povos indígenas.

    O Papa então me revelou que estava escrevendo uma encíclica, uma carta não só aos católicos, mas a todos os homens e mulheres de boa vontade, sobre a ecologia, e ele logo alertou dizendo que é a uma “ecologia humana” que ele quer se referir.

    Então eu disse simplesmente assim “então a Amazônia não pode faltar, a Amazônia tem que entrar nessa encíclica porque ela tem um papel importante no planeta Terra, inclusive tem uma função reguladora do próprio clima planetário, e os povos indígenas também logicamente tem que ser lembrados porque estão ligados ao meio ambiente e a ecologia”.

    E o Papa então me disse que ele tinha encarregado o presidente do Pontifício Conselho de Justiça e Paz, o cardeal Peter Turkson, de fazer um esboço de como poderia se fazer esse trabalho, essa encíclica, e pediu que eu me dirigisse a ele. Eu disse a ele “olha isso eu já fiz ontem a noite, porque fomos jantar juntos e falamos sobre isso”. Ele pediu que eu desse minha contribuição. Que eu mandasse rapidamente, urgentemente, com urgência urgentíssima a minha contribuição, que eu fiz em 19 de junho de 2014, e a encíclica saiu um ano depois, 18 de junho de 2015.

    Como foi o seu primeiro contato com o texto?

    Para minha maior surpresa e felicidade, na hora em que a encíclica saiu eu estava na chácara do Cimi em Luziânia. Fui colocar a palavra Amazônia na referência de busca e apareceu. Depois coloquei indígena e não apareceu, fiquei meio assustado, mas o Papa usou a palavra aborígenes, porque na África e na Austrália não se usa a palavra indígenas. Então entrei e reconheci na hora esses artigos 38 e 146, reconheci que seria praticamente a minha contribuição, mas eu não posso ser coautor, eu dei minha contribuição, e apareceu então nesses artigos.

    Qual a importância, na sua opinião, da encíclica?

    Eu acho que que a encíclica tem um grande valor, porque você não precisa ter um estudo avançado, digamos assim, em teologia ou em outras ciências, qualquer leiga e leigo que tiver interesse pela ecologia pode ler e vai entender. O Papa se deixou assessorar por cientistas de grande valor, porque não tem nada aí dentro que se possa criticar “olha, isso é fantasia, é coisa romântica”. A encíclica neste ponto é intocável, o recado é dado, mais uma vez digo, não apenas ao mundo católico, mas a todas as pessoas, porque somos todos responsáveis por esse mundo que é o nosso e que é nossa casa.

    O que temos a aprender com os povos indígenas? Que mensagem eles trazem para a construção de uma nova sociedade?

    Tem muita coisa que podemos aprender, mas basicamente eu queria me referir a dois pontos específicos. A primeira coisa é, de fato, como os índios se relacionam com sua terra. Para os índios, a terra não é mercadoria. Para nós brancos, a terra se compra, se vende, quer dizer, nós estamos em um mundo em que a terra tem um valor econômico, de compra e venda, de repente você compra, depois você não se agrada mais, vende, compra enormes extensões de terras, se diz dono, tem título definitivo de terras etc. Para o índio é outra coisa. Para os povos indígenas a terra é, por assim dizer, mãe. Eles têm um relacionamento de filho–mãe. A terra é o chão de seus ritos, de seus mitos, onde estão enterrados seus ancestrais, a terra de suas danças, a terra faz parte de sua própria vida. Mais uma vez, para nós, lamentavelmente, a terra é artigo de compra e venda, é mercadoria.

    E a segunda coisa que sempre me admirei, eu me lembro, quando era bispo novo, mais novo que agora, eu fui uma vez para uma aldeia, lá no Xingu, e vi um bananal. Perguntei a um índio “quem plantou esse bananal?”. O índio respondia na hora, na língua dele, “nós Kayapó todos o fizemos”. Eles têm essa ideia de “nós”, “nosso”.

    Ora, nós brasileiros, quando tem jogo, quando o Brasil está jogando contra o Chile ou contra a França ou a Itália ou o que quer que seja, nós estamos assistindo, nós estamos nos sentindo brasileiros, será que não nos sentimos brasileiros também quando se trata da defesa da nossa pátria? Os índios nos ensinam exatamente essa ideia do “nós”, esse “nós” significa que nós dois não somos apenas duas pessoas, você tem outros pais diferentes dos meus, mas os índios se entendem como parentes, quer dizer, você para mim é uma parente, uma pessoa que está ligada, e eu estou ligado a você por um laço de amizade, de fraternidade que ninguém pode cortar. Isso eu acho bonito.

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  • 05/09/2016

    Em mobilização nacional, movimentos do campo divulgam manifesto

    Os Movimentos populares, sindicais e pastorais que atuam no campo brasileiro divulgam, nesta segunda-feira (05), um manifesto para a sociedade brasileira em que afirmam a unidade do campo em defesa da democracia, da soberania territorial e alimentar e para impedir qualquer retrocesso aos direitos conquistados pela classe trabalhadora.

    O documento faz parte da Jornada de Lutas Unitária dos Trabalhadores e Trabalhadoras e Povos do Campo, das Águas e das Florestas, que ocorre de 05 a 07 de setembro, em todo o país. Entre as pautas da jornada, estão também a demarcação de terras indígenas e a titulação dos territórios quilombolas. Hoje pela madrugada, estes mesmos movimentos ocuparam o Ministério do Planejamento, em Brasília (DF), que segue ocupado.

    As atividades da Jornada de Lutas Unitária estão concentradas na capital federal, onde, na quarta-feira (7), os manifestantes também se integrarão às ações do Grito dos Excluídos, cujo lema é: ‘Este sistema é insuportável: Exclui, degrada, mata’.


    Confira abaixo o manifesto na íntegra.

    MANIFESTO PARA A SOCIEDADE BRASILEIRA DOS MOVIMENTOS POPULARES DO CAMPO BRASILEIRO

    Os Movimentos populares, sindicais e pastorais que atuam no campo brasileiro e organiza os trabalhadores rurais, quilombolas e povos indígenas realizam, entre os dias 05 a 07 de setembro, a Jornada de Lutas Unitária dos Trabalhadores e Trabalhadoras e Povos do Campo, das Águas e das Florestas. Estamos mobilizados para defender a democracia, a soberania territorial e alimentar e para impedir qualquer retrocesso aos direitos conquistados pela classe trabalhadora. Exigimos que o estado brasileiro respeite nossos direitos e os interesses do povo brasileiro.

    1. Em defesa da Soberania Nacional

    Não aceitamos as medidas que ferem a soberania nacional e os interesses de todo povo brasileiro.

    Uma delas é a ação deliberada da bancada ruralista em conluio com o governo golpista para aprovar leis que flexibilizam completamente a venda de terras brasileiras para o capital estrangeiro. A outra é a entrega do patrimônio mineral do Brasil, abrindo a exploração do pré-sal para empresas de capital internacional, sem contar as graves violações ambientais e sociais das grandes empresas, como ocorreu no caso da Vale do Rio Doce, em Mariana/MG.

    2. Em defesa da recriação do Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA) e das políticas públicas para a agricultura familiar e reforma agrária

    O fim do MDA representa um retrocesso nas políticas que, nos últimos anos, destacaram o papel da agricultura familiar e camponesa como produtora de alimentos e como o setor pode assegurar a reprodução da vida no campo. É fundamental que o MDA seja retomado e fortalecido, como um espaço governamental que promova a realização da reforma agrária ampla e a articulação e execução das políticas públicas essencial ao desenvolvimento da agricultura familiar e camponesa e do interior brasileiro.

    3. Em defesa da Terra e do Território

    a) Assentamento imediato das mais de 120 mil famílias acampadas, com desapropriação dos latifúndios e das terras que não cumprem a função socioambiental.

    O governo faz afirmações de que o ponto central de seu programa agrário é realizar a titulação de todas as terras públicas, regularizando a grilagem e ampliando a oferta de terras no mercado. No entanto, fazem isso sob o falso argumento de ampliar a oferta de créditos e serviços para assentados e posseiros. Esse processo é bastante ameaçador para as organizações tradicionais do campo brasileiro, visto que a titulação vem com o pacote do individualismo onde a mediação para a conquista não é mais a organização e sim o mérito e a competitividade.

    Neste sentido, exigimos a retomada e ampliação das desapropriações para assentar imediatamente as famílias acampadas e a implantação das políticas públicas que assegurem o desenvolvimento sustentável dos projetos de desenvolvimento.

    O governo deveria entregar ao INCRA os recursos arrecadados no sistema agroindústria, e que hoje estão retidos no tesouro apenas para cobrir o déficit primário e pagamento de juros, violando fragorosamente a lei.  Com esses recursos destinados constitucionalmente ao INCRA é possível fazer a reforma agraria e resolver os conflitos sociais no campo.

    b) Demarcação de terras indígenas e quilombolas

    Exigimos que se aplique a Constituição Federal, em seu artigo 231, que estabelece que os povos indígenas e quilombolas sejam detentores de direitos sobre as terras que tradicionalmente ocupam, e compete a União demarcá-las.
    Entre os principais desafios enfrentados pelos índios brasileiros hoje está a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215 elaborada na Câmara dos Deputados que transfere do Executivo para o Legislativo a palavra final sobre a demarcação de terras, e que solapa os direitos dos povos indígenas.

    4. Contra o Bloqueio da Reforma Agrária

    O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou uma serie de lotes de reforma agraria distribuídos de forma irregular, especialmente na região amazônica, atendendo interesses políticos, de dirigentes partidários que hoje estão no governo. 

    E por conta disso, bloqueou o acesso de todas as famílias assentadas aos recursos de crédito e a sua condição de cidadãos. É como se o governo paralisasse o INSS, apenas por que encontrou algumas aposentadorias mal dadas.
    Queremos que os lotes distribuídos politicamente para pessoas que não tem direito sejam revistos pelos órgãos competentes. Porém, avaliamos que enquanto isso ocorre não se pode penalizar a todas as famílias que em sua condição de cidadão tem esse direito.

    Somos contra a titulação individual que estimula a venda de terras, fere o espírito da Reforma Agrária e promove a devolução dos lotes para os fazendeiros.  Defendemos o direito de titulação em concessão de uso real, conquistado na constituição e que dá os mesmos direitos aos assentados, sem permitir a venda das terras da Reforma Agrária. Por trás do pretenso moralismo do TCU está na verdade a defesa de uma política de estímulo à venda dos lotes de Reforma Agrária, ferindo a lei e o princípio de justiça.

    5. Em defesa das Políticas Públicas para agricultura familiar

    Todos os programas públicos de atendimento a agricultura familiar estão suspensos, como convênios de assistência técnica, recursos para compra de alimentos, construção de moradias populares, etc.

    É urgente a retomada e ampliação desses programas. Além da liberação de recursos suficientes para regularizar o acesso dos trabalhadores e trabalhadoras ao PRONERA, ATES, Terra forte, PAA, PNAE e Programa Minha Casa Minha Vida, pois esse conjunto de políticas possibilitou a valorização da presença do agricultor familiar no campo brasileiro e não podemos retroceder. A desvalorização dessas políticas pode estimular o êxodo rural, inchar os perímetros urbanos, gerando miséria e degradação humana, resgatando índices de exclusão do período assombrado do neoliberalismo no Brasil, associado a elevados índices de desemprego.

    6. Contra a Reforma da Previdência

    O governo Golpista propõe acabar com a condição de “Seguradas e segurados Especiais das trabalhadoras e trabalhadores do campo”. Ao estabelecer uma idade única para a aposentadoria, entre 65 a 70 anos, elimina as diferenças entre trabalhadores rurais e urbanos e iguala a idade entre homens e mulheres. O mais grave é que propõe desvincular os benefícios da seguridade social do salário mínimo (aposentadorias por idade e invalidez, pensões, licença maternidade, auxílios em casos de desemprego, doença, morte e salário família), o que certamente os colocará em um valor inferior ao mesmo, isto é uma ameaça ao direito da classe trabalhadora e a vida digna que estes benefícios garantem a milhões de brasileiras e brasileiros.

    A aposentadoria especial aos trabalhadores e trabalhadoras rurais é uma conquista de justiça social e que permite uma velhice mais digna. Além de ajudar a desenvolver os municípios do interior, pois fixa a população no campo. Não aceitaremos retrocesso. Lutaremos em defesa da aposentadoria rural especial.

    7. Contra o retrocesso de direitos para as mulheres

    Em momento de crise política e econômica como esta que vivenciamos, as mulheres são as mais atingidas. No que se refere aos direitos das trabalhadoras camponesas não aceitaremos o fim das políticas que visam o fortalecimento do trabalho das camponesas na produção de alimentos saudáveis.  É necessário ampliar a ATER especifica para as mulheres e implementar urgentemente o programa de quintais produtivo.

    8. Contra a Criminalização dos Movimentos Sociais

    Em muitos estados, os governos conservadores têm utilizado o aparato de segurança policial militar e o poder judiciário local para desencadear um processo sistemático de perseguição e repressão aos militantes e base social que promova luta social para resolver seus problemas.

    Já temos diversos casos de prisões e violações do direito à liberdade de expressão, organização e a liberdade de lutar. Em tempos de ruptura das instituições democráticas, denunciamos as repressões ocorridas em vários pontos do país e defendemos o legítimo direito de manifestação em praça pública.

    9. O direito ao alimento sem veneno

    A bancada ruralista em conluio com Ministério da agricultura e as empresas transnacionais que produzem os venenos, estão em uma ofensiva, para liberar com rapidez um número surpreendente de venenos agrícolas, que inclusive são proibidos nos países onde suas matrizes estão instaladas.

    O Brasil é campeão mundial em consumo de venenos, tendo uma média de consumo anual de 5,2 litros per capita, e sua consequência para os alimentos e a saúde publica são graves. A cada dia surgem estudos, pesquisas e evidências de suas consequências com a proliferação de câncer, como denunciam médicos e cientistas.

    Exigimos que a pulverização aérea seja barrada e os venenos sejam rigorosamente controlados, incluindo os impostos (hoje isentos) em sua comercialização. As empresas precisam ser responsabilizadas pelos danos que causam ao povo brasileiro.  

    Brasília, 05 de setembro de 2016

    Conselho Indigenista Missionário (CIMI)
    Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agicultura Familiar (FETRAF)
    Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG)
    Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
    Movimento Camponês Popular (MCP)
    Movimento de Mulheres Camponesas (MMC)
    Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
    Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

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  • 05/09/2016

    Temer quer corte de 30% em área social e mais verba para militares e agronegócio

    Proposta apresentada no dia do afastamento de Dilma Rousseff desmonta a tese dos apoiadores do impeachment de que o governo de Michel Temer não iria deixar os programas sociais em segundo plano.


    A reportagem é de Breno Costa, publicada por The Intercept Brasil e reproduzida por Rede Brasil Atual – RBA, 04-09-2016.


    O governo de Michel Temer começou de fato na quarta-feira (31). Não apenas porque Dilma Rousseff foi destituída do cargo, mas especialmente porque, naquela mesma tarde, chegou ao Congresso Nacional a proposta confeccionada com cuidado pela nova equipe econômica para a distribuição do dinheiro federal para o ano de 2017 – o chamado Orçamento da União.


    A análise da lista de programas de governo, em comparação à proposta apresentada no ano passado para o ano de 2016 pela ex-presidente Dilma, desmonta a tese defendida publicamente pelos peemedebistas e pelos apoiadores do impeachment de Dilma de que o novo governo não iria deixar o lado social em segundo plano.


    Sinais nesse sentido já tinham sido dados, com extinção de pastas da área, e gerado reação em setores progressistas da sociedade. Mas o que se vê na análise do Orçamento vai além. Temer acaba de propor ao Congresso a redução média de 30% nos valores para os 11 principais programas da área social do governo, já considerando a inflação do período (variação do IGP-M dos últimos 12 meses).


    São R$ 29,2 bilhões a menos para esse conjunto de programas (depois de aplicada a taxa de inflação no período), comparado ao que Dilma, já sob efeito da crise econômica, apresentou ao Congresso no ano passado. Trata-se de uma queda real de 14%. Muitos podem argumentar que, neste momento, essa redução é natural, já que o Brasil precisa apertar seus gastos. No entanto, as despesas previstas pelo governo para este ano são da ordem de R$ 3,4 trilhões – cerca de R$ 158 bilhões a mais (crescimento de 4,8%) que o previsto por Dilma um ano atrás.




    Se olharmos mais de perto, o argumento perde ainda mais força. Enquanto optou por reduzir as verbas sociais, o governo aumentou, por exemplo (e sempre já considerando o efeito da inflação no período), em R$ 1,47 bilhão as verbas programadas para ações relacionadas ao desenvolvimento do agronegócio (R$ 1,3 bilhão), a investimentos militares (R$ 175 milhões), a obras em aeroportos (R$ 186 milhões), além de ações de política nuclear e espacial, e de política externa – agora sob comando de José Serra (PSDB).


    A desvalorização das mulheres no governo Michel Temer não fica evidenciada apenas no fato de somente uma compor o primeiro escalão de seu governo (e mesmo assim após forte reação da opinião pública). Sua equipe econômica está propondo um forte retrocesso para o suporte dessa área. O programa “Políticas para as mulheres: promoção da igualdade e enfrentamento à violência” perdeu exatos 40% da verba planejada pelo governo anterior há um ano. Percentual muito próximo ao que foi também retirado de outra área relegada na composição de seu governo: 42,2% menos dinheiro para a “Promoção da igualdade racial e superação do racismo”.


    Só para essas duas áreas, o corte (R$ 72,2 milhões) poderia ser evitado com folga caso o governo decidisse não aumentar em R$ 85,7 milhões as verbas programadas para o programa nuclear brasileiro e as ações para lançamento de foguetes e satélites. Bastava que Michel Temer adiasse por um ano o sonho de chegar às estrelas.


    Mas não para por aí. Os indígenas também terão menos verba para programas de seu interesse no ano que vem, conforme planeja o governo. A “Proteção e Promoção dos Direitos dos Povos Indígenas” perdeu 14,4% dos recursos no comparativo feito pelo The Intercept Brasil. Mesmo o programa de “Promoção e Defesa dos Direitos Humanos”, embora tenha recebido um aumento absoluto de R$ 3,4 milhões na verba programada, experimentará um recuo de 6,3% no comparativo com a proposta de 2016, considerando o efeito da inflação no período.


    Um dos eixos que mais chama a atenção na análise realizada é o absoluto desprestígio das ações sociais no campo. O programa de Reforma Agrária e Governança Fundiária foi reduzido a mais da metade (queda de 52,6%). Esse é o programa que garante a distribuição de terras e que é desenvolvido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário – extinto e colocado sob o guarda-chuva da Casa Civil, com as chaves entregues para o sindicalista urbano e acusado de corrupção Paulinho da Força. O governo programa R$ 1,2 bilhão a menos para o setor. Algumas ações dentro desse programa chamam especialmente a atenção, como a redução de R$ 412 milhões para a compra de terras a serem destinadas à reforma agrária e o corte de 63,7% na ação “Promoção da Educação do Campo”.


    No entanto, não dá para dizer que é por falta de dinheiro. Os números indicam que é simplesmente questão de prioridade. Afinal, as ações de desenvolvimento do agronegócio vão de vento em popa, com crescimento programado de 7% acima da inflação. Entre as áreas específicas beneficiadas estão, por exemplo, as subvenções dadas pelo governo para viabilizar investimentos de grandes produtores rurais e agroindústrias, que subirá R$ 2,1 bilhões em relação ao proposto por Dilma no ano passado.


    O tópico educação também merece destaque. O amplo orçamento do setor, que abrange repasses para universidades federais em todo o país, além de repasses para educação infantil, entre outras ações (lembrando que aqui não entra pagamento de salários), passará, pelos planos do novo governo, por uma redução de 10,8% (R$ 5,48 bilhões a menos em valores constantes).


    Em seu pronunciamento, horas depois de confirmado oficialmente como presidente efetivo, Michel Temer citou os programas Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida. Disse ele que “aumentamos o valor do Bolsa Família” e que “o Minha Casa, Minha Vida foi revitalizado”. No entanto, o que os números apresentados ao Congresso pelo governo mostram é que haverá uma redução real de 7,4% no programa “Inclusão social por meio do Bolsa Família, do Cadastro Único e da articulação de políticas sociais” – com a diferença seria possível, por exemplo, pagar o benefício básico mensal do programa para 2,3 milhões de pessoas ao longo de todo o ano que vem. Em relação ao MCMV, a previsão é ainda mais sombria. A queda, considerando a inflação do período, é de 56,7%. No ano passado, o governo propunha a integralização de cotas para o Fundo de Arrendamento Residencial no valor de R$ 12,6 bilhões. Agora, a proposta do governo para essa integralização é de R$ 4,9 bilhões.


    Toda essa ‘numeralha’ envolve apenas a proposta inicial de gastos. Esses valores serão trabalhados no Congresso e podem aumentar ou, considerando o perfil da base aliada, diminuir ainda mais. Além disso, na execução do Orçamento ao longo do ano que vem, o governo poderá promover diretamente o chamado contingenciamento de recursos – ou, traduzindo, fazer ainda mais cortes naquilo que já foi cortado.

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  • 05/09/2016

    Organizações do campo ocupam Ministério do Planejamento durante jornada unitária


    Cerca de 2 mil pessoas ocuparam na madrugada de hoje (5) o Ministério do Planejamento, na Esplanada dos Ministérios, no Distrito Federal. A ação faz parte da Jornada de Lutas Unitária dos Trabalhadores e Trabalhadoras e Povos do Campo, das Águas e das Florestas, organizada por movimentos sociais e sindicais, que acontece em todos os estados do País, com grande concentração em Brasília.

    As atividades da Jornada de Lutas Unitária estarão concentradas neste local, onde já está sendo montando um acampamento que durará até o dia 7, quando os manifestantes também se integrarão às ações do Grito dos Excluídos.

    A questão agrária é a pauta principal da jornada, como a reivindicação de assentamento imediato das mais de 120 mil famílias acampadas em todo o País. Os movimentos exigem a reprovação do Projeto de Lei 4059/12, que permite a venda indiscriminada de terras para estrangeiros. A defesa da produção de alimentos saudáveis e de políticas de transição para a agroecologia são também alguns dos destaques da pauta de reivindicações. Outro ponto é relacionado ao desenvolvimento e infraestrutura no campo, como o fortalecimento de programas estruturantes, assistência técnica e demais programas que garantem a produção da agricultura familiar e camponesa.

    O fim da criminalização dos movimentos sociais e a demarcação de terras indígenas e titulação de terras quilombolas também são reivindicações dos movimentos.

    A reforma da previdência apresentada pelo governo ilegítimo de Michel Temer traz a perda de muitos direitos para trabalhadoras e trabalhadores, como a equiparação da idade de aposentadoria entre homens, mulheres e trabalhadores do campo e da cidade. A medida é contestada pelos movimentos, que defendem uma Previdência garantidora de direitos.
    Entre as pautas da Jornada Nacional de Lutas também está a defesa do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). As organizações exigem a restituição do Ministério extinto por Temer, mas sobretudo com sua capacidade e condições de operacionalizar as políticas públicas de direito e fundamentais para a dignidade da vida no campo, nas águas e nas florestas.

    A Jornada é realizada por organizações do campo unitário, como o MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores, MMC – Movimento de Mulheres Camponesas, MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens, MAM – Movimento pela Soberania Popular na Mineração, Contag – Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura, Fetraf – Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar, MCP – Movimento Camponês Popular, coletivos, e comissões pastorais, entre elas o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).


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  • 02/09/2016

    Relatora da ONU manifesta preocupação com situação de povos indígenas no Brasil

    A relatora especial da ONU para os Direitos dos Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, manifestou preocupação com a situação dos povos indígenas no Brasil

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  • 02/09/2016

    Brigadistas Guajajara avistam na T.I Arariboia indígenas Awá isolados combatendo incêndio

    Uma senhora, um jovem e uma criança Awá-Guajá em situação de isolamento voluntário foram vistos pelos brigadistas Tenetehar/Guajajara apagando fogo no incêndio que há dois meses devora a Terra Indígena Arariboia, no Maranhão. Se antes havia qualquer dúvida sobre o avanço das chamas, o episódio demonstra que o incêndio chegou à região de perambulação dos Awá.
     

    De acordo com os Guajajara ouvidos, os três Awá fugiram quando perceberam a aproximação dos brigadistas. “Estamos levando água para eles. Nessa época do ano os igarapés estão secos, o que é normal, mas dificulta ainda mais com esse incêndio”, explica um indígena integrante da brigada. Silvio Guajajara afirma que esses dias cerca de 70 brigadistas estão trabalhando no combate ao fogo.

    No início do ano passado as chamas também atingiram a área dos Awá isolados. A Fundação Nacional do Índio (Funai), naquela ocasião, chegou a informar aos Guajajara que cogitava a possibilidade de fazer contato com os Awá. Conforme o PrevFogo, departamento do Ibama destinado ao combate a esse tipo de incêndio, mais de 50% dos 413 mil hectares que constituem a Terra Indígena Arariboia viraram cinzas em 2015.

    O incêndio não está mais concentrado nas regiões das aldeias Angico Torto e Zutiwa, dizem os Guajajara. Conforme informou ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi) integrantes do Ibama no Prevfogo, infraestrutras de combate ao incêndio estão sendo deslocadas para a Arariboia, mas na semana passada diziam que conforme o monitoramento o fogo estava diminuindo. Os Guajajara não confirmam, ao contrário.

    “As chamas tão correndo nos mesmo lugares do ano passado e em novas áreas. Tanto que o fogo chegou nos isolados. Os avistamos a primeira vez há uns 15 dias, e agora novamente, mas dessa vez estavam batendo no fogo. Então cresceu”, declara um brigadista. A Survival International fez um comunicado sobre o incêndio e conforme a organização, fontes do Ibama os teriam informado de que este ano o estrago poderia ser maior.

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  • 02/09/2016

    “Donos” aparecem com escrituras da terra Aldeia Porto Velho e ameaçam expulsar os Kanela do Araguaia

    Conforme estudo de qualificação de demanda da Fundação Nacional do Índio (Funai), há pelo menos 60 anos os Kanela do Araguaia, no Mato Grosso, vivem nas terras da aldeia Porto Velho, próxima ao município de Luciara. Seu Cândido e dona Julia Kanela deixam ao povo, todavia, relatos que chegam há 100 anos de ocupação. Tempo em que conviveram com grileiros e toda sorte de invasores, mas de um nunca se ouviu falar naquelas bandas: Manoel Botelho Feijó.

    Em novembro de 2015, Manoel apareceu na aldeia localizada na margem direita do rio Tapirapé. Chegou levantando cercas, derrubando as erguidas pelos Kanela para afastar invasores e afirmando que era dono da terra porque tem escritura. “Nos reunimos com ele, explicamos que estamos ali há 100 anos, que é terra indígena, mas ele seguiu dizendo que é dono da terra quem tem escritura”, explica o cacique Lucas Kanela. Manoel largou o trabalho das cercas pela metade e sumiu.

    Na segunda quinzena do último mês de agosto, Manoel mandou um grupo de homens para a terra indígena com o objetivo de terminar o que havia começado quase um ano antes. “Filmamos e gravamos tudo, inclusive a nova conversa que fizemos com ele. Novamente disse pra gente que é dono da terra quem tem escritura. Também disse que era amigo do delegado e do juiz; se o impedíssemos de fazer colocar as cercas ele os acionaria”, diz o cacique.

    Os Kanela não deixaram. Enquanto as lideranças da aldeia estavam em uma reunião em outra aldeia Kanela, no dia 19 de agosto, policiais civis levaram intimações à comunidade onde o cacique e mais alguns indígenas deveriam se apresentar ao delegado de São Félix do Araguaia. “Como Manoel disse que o delegado era amigo dele, tememos por nossa segurança. Avisamos ao Ministério Público Federal, em Barra do Garças, que entrou em contato com o delegado para explicar a situação da nossa ocupação na terra tradicional”, conta cacique Lucas.

    Não faltam donos com escritura para a terra dos Kanela do Araguaia. Cacique Lucas afirma que no último dia 29 de julho duas caminhonetes com homens não identificados chegaram à aldeia. “Disseram que era pra gente sair dali porque a terra era do sujeito que os liderava. Tinha escritura e estava ali avisando pra gente sair. Então mais donos aparecem e é assim também em outras aldeias Kanela aqui da região. Como todos eles conseguiram escrituras da mesma área a gente não sabe”, diz o cacique.

    A aldeia, depois desses episódios, está em alerta e receosa de que pistoleiros os ataquem ou embosquem alguma liderança Kanela. “Tudo isso a gente vem passando para as autoridades. O que precisamos é do governo olhar a nossa situação. A Funai precisa dar seguimento à demarcação para afastar de uma vez por todas essas pessoas que chega aqui, nem sabemos de onde, e mandam a gente sair porque são donos, têm escrituras”, pede o cacique Lucas.

    O próprio MPF já realizou estudos na região para identificar os sub-grupos Kanela Apãnjekra, com o intuito de embasar solicitações à Funai quanto ao procedimento demarcatório. Esse indígenas chegaram no Araguaia mato-grossense a partir na primeira metade do século XX: fugiam de expulsões forçadas do Maranhão, sobretudo do território hoje demarcado como Terra Indígena Porquinhos – a aldeia antiga dos Apãnjekra foi dizimada por fazendeiros colonizadores na década de 1930. São quatro áreas em situação de regularização. Além da Aldeia Porto Velho, esses indígenas vivem ainda na Aldeia São Félix e Luciara, Aldeia Santa Terezinha e Aldeia Canabrava do Norte (Gleba São Pedro).

    Aldeia Pukanu: Terra de esperança  
             

    Pukanu significa terra da esperança, onde tudo se renova. Há pouco mais de dez anos os Kanela do Araguaia passaram a reivindicá-la. De lá os mais velhos foram expulsos em 1954. Passaram a sobreviver como boias frias nas fazendas de gado da região. Com a chegada das novas gerações, os anciãos decidiram que era hora de voltar para o lugar da antiga aldeia esbulhada. Em 2010, a comunidade vivia na Gleba Xavante I.

    Fugindo de ataques de fazendeiros na Ilha do Bananal, no Tocantins, e de conflitos com os Karajá, os Maxakali aportaram na Gleba Xavante I. A área foi cedida para a Funai que a demarcou para os Maxakali. Os Kanela do Araguaia não criaram empecilhos: sabiam que a área era de antiga perambulação dos Maxakali, de onde também foram expulsos, e então decidiram seguir para a área tradicional do grupo na Gleba São Pedro, onde instalaram a retomada da aldeia Nova Pakanu. Um ano antes, em 2009, os Kanela protocolaram um documento na Funai apresentando a demanda.

    “Nossos antigos vieram fugidos do Maranhão, no início do século 20. Depois chegou mais Kanela vindos dos massacres lá na Terra Indígena Porquinhos (povo Kanela Apãnjekra), do Escalvado. Em 1954 começou a chegar gente dizendo que era dono, com escritura e nos expulsaram. Então estamos em uma área que tem nossos antepassados enterrados, que é nossa. Vamos ficar aqui, essa é a decisão e pedimos que as autoridades garantam nossa paz. Estamos correndo risco aqui, a região é de muita pistolagem”, alerta Pedro Kanela.

    Em maio deste ano, mesmo ocupando uma área da União, a Gleba São Pedro, município de Luciara, à direita da margem do rio Tapirapé, a liderança da aldeia Nova Pakaru, Pedro Kanela, denuncia que uma pretensa dona das terras ameaçou retirá-los à força caso não saíssem de lá até o dia 24 de maio, dia marcado pelo Programa Terra Legal, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, para realizar análises na Gleba – propriedade da União e já com acordo de doação aos indígenas firmado pelo Departamento de Patrimônio da União (DPU).

    O ultimato ocorreu menos de um ano depois de uma reintegração de posse executada contra a mesma aldeia, em 7 de julho de 2015. A Polícia Militar colocou os indígenas em caminhões de transportar gado e os jogou no município de Canabrava. “No último dia 9 de maio retomamos a Gleba novamente, por isso a ameaça dessa mulher que se diz dona, mas aqui ainda estamos e contamos que se fará justiça com nosso povo que já cansou de ser expulso de um canto pra outro”, explica Pedro Kanela.

    Fotos: Ana Mendes/Cimi

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  • 01/09/2016

    MPF/PA: povos do Tapajós comemoram arquivamento de projeto de hidrelétrica e preparam resistência a novos projetos


    De Santarém, Alta Floresta, Jacareacanga, Aveiro, Altamira partiram barcos lotados com camponeses, ribeirinhos, indígenas, quilombolas e ativistas, todos rumo a Itaituba, cidade paraense que sediou, no último fim de semana, a 2ª Caravana em Defesa do Rio Tapajós. Dessa vez, a reunião tinha motivos para festejar: o arquivamento do projeto da usina São Luiz do Tapajós pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama). Mas o momento também foi de preparação para novos projetos governamentais que ameaçam a Bacia do Tapajós, formada pelos rios Teles Pires, Juruena, Jamanxim e outros tributários de segunda ordem. Em quase todos, existem dezenas de projetos de construção de hidrelétricas e portos.

    Os trabalhos da caravana foram abertos com um minuto de silêncio, em homenagem à ativista Nilce Magalhães, a Nicinha, assassinada em janeiro deste ano em Rondônia. Pescadora, Nicinha lutou contra as barragens de Jirau e Santo Antônio no Rio Madeira e ficou desaparecida por quatro meses, até que seu corpo foi encontrado dentro do lago da Usina de Jirau, no dia 21 de junho passado. O primeiro a falar no encontro foi o cacique geral do povo Munduruku, Arnaldo Kaba, que agradeceu o apoio de ribeirinhos e movimentos sociais da região contra a Usina de São Luiz do Tapajós. “Só os Munduruku não conseguiriam barrar a barragem, mas todos juntos, barramos”, disse. “O desenvolvimento para nós é agua limpa e floresta protegida”, afirmou o cacique.

    Estiveram presentes no encontro convidados do Rio Xingu, onde está sendo construída a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, a um custo socioambiental altíssimo, principalmente para ribeirinhos e indígenas atingidos de forma brutal em seus modos de vida. Raimunda Gomes, pescadora e habitante de uma ilha no Xingu que foi alagada pelo lago da usina, chegou a ter sua casa incendiada pela empresa responsável pela remoção dos moradores. “Não aceitem nenhum dinheiro, não vale a pena, o que vale a pena é permanecer no lugarzinho de vocês. Para nós, a vida não acabou, claro que não. Mas é muita peleja para se conseguir viver fora do nosso ambiente”.

    O marido de Raimunda, João Pereira da Silva, chegou a sofrer um derrame dentro do escritório da Norte Energia, durante uma das desiguais negociações a que foi submetido durante o processo de remoção. Agora, junto com instituições de pesquisa e entidades da sociedade civil, o Ministério Público Federal (MPF) tenta encontrar uma solução para garantir o retorno de todos os ribeirinhos do Xingu para a área do reservatório quando a obra de Belo Monte terminar.

    O MPF também tem um grupo de trabalho para acompanhar os projetos governamentais na Bacia do Tapajós e participou do encontro em Itaituba com a presença do procurador da República Camões Boaventura e do procurador regional da República Felício Pontes Júnior. “É hora para festejar, mas não é hora para baixar a guarda”, disse Pontes Júnior ao se dirigir à plateia. Ele lembrou que nos tributários da bacia estão sendo construídas e planejadas dezenas de barragens. Só no Teles Pires, principal formador do Tapajós, são quatro grandes barragens já em construção. Nos rios menores, como Juruena, Arinos e rio dos Peixes, existem dezenas de projetos de pequenas e médias barragens.


    “O projeto de São Luiz do Tapajós foi arquivado por uma conjunção de vários fatores”, avaliou Camões Boaventura, autor da recomendação ao Ibama para que arquivasse o licenciamento da usina. “Mas não teríamos chegado a essa conjunção de fatores se não fosse a capacidade de resistência e denúncia dos povos desse rio, que nunca desistiram de reivindicar seus direitos constitucionais e com isso enfraqueceram o projeto da barragem”, disse. O MPF continua acompanhando todos os outros projetos de barragens na bacia do Tapajós com uma equipe de procuradores que atuam em Santarém, Itaituba, Cuiabá, Sinop, Belém e Brasília.

    As etnias Rikbaktsa, Menki, Kayabi e Apiaká, do Mato Grosso, moradores dos rios Teles Pires, Juruena, Arinos, dos Peixes e Apiacás também foram para Itaituba, pedir apoio dos povos da bacia para enfrentar os projetos que já violam extensamente direitos constitucionais nesses rios. “Meu povo tem três terras indígenas em três municípios e em cada uma delas está planejada uma usina”, disse a liderança Paulo Henrique Rikbaktsa.

    Agradecendo a presença dos povos do Mato Grosso, Ademir Kaba, professor Munduruku, disse que os povos indígenas hoje mendigam uma fatia da terra que era toda deles. “Eu não tenho orgulho de ser brasileiro, porque o Brasil, o governo brasileiro, não respeita os direitos dos povos indígenas. Estamos aqui unidos com um único objetivo, que é manter a nossa vida enquanto povo, enquanto costume, enquanto religião, porque, se dependesse do governo, já tinham acabado os povos indígenas”, disse.

    “Sou filha de Montanha Mangabal, tenho orgulho de ser ribeirinha. Esse rio é minha vida. Sou acostumada com peixe, limão, pimenta e pirão de farinha. Tenho horta e uso muito a terra. Por isso não queremos hidrelétrica de jeito nenhum”, disse Tereza Lobo, moradora da comunidade no Alto Tapajós que seria afetada tanto pela Usina de São Luiz do Tapajós quanto pelo segundo projeto de barragem no rio, o de Jatobá, que ainda não foi arquivado pelo governo.

    O professor Alfredo Wagner de Almeida, da Universidade Federal do Amazonas, mostrou algumas das graves falhas nos estudos de impacto de São Luiz do Tapajós, que estão entre os motivos para o arquivamento do projeto. Com seu projeto da Nova Cartografia Social, Alfredo elabora mapas em conjunto com as comunidades. No caso da comunidade Pimental, que seria o local da barragem de São Luiz, o mapa apresentado pelas empresas a título de estudo omitiu todas as informações sobre localidades e moradores, que poderiam ser repassadas pelos próprios habitantes.

    “As pessoas vão mapear e não são capazes de listar os locais onde estão as riquezas das comunidades, os açaizais, os pontos de pesca. As comunidades têm competência bem maior do que as empresas de consultoria que recebem milhões para mapear os locais”, explicou Alfredo Wagner. Guilherme Carvalho, da Fase (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), lembrou que empreendimentos como hidrelétricas, quando se instalam, inviabilizam qualquer outra atividade na região e retiram territórios e autonomia da mão das comunidades que vivem há centenas de anos na região amazônica.

    Para a professora da Universidade Federal do Pará Edna Castro, é fundamental o respeito à memória e à vida das várias gerações que vivem no espaço amazônico. Ela lembrou a luta contra a usina de Tucuruí como um exemplo que não pode ser esquecido: após a implantação de um grande projeto estatal de desenvolvimento, processos de violência e resistência permanecem por décadas.

    Fonte: Assessoria de comunicação do MPF/PA
    Fotos: Helena Palmquist, MPF/PA

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