• 07/03/2017

    Novo ministro da Justiça indicou à Funai condenado por arrendamento e é contra o Executivo demarcar TI’s


    Manifestação contra a PEC 215. Crédito Tiago Miotto/Cimi



    Por Renato Santana, da Assessoria de Comunicação – Cimi

    O deputado ruralista Osmar Serraglio (PMDB/PR) será empossado nesta terça-feira, 7, como ministro da Justiça. Parlamentar atuante contra a demarcação de terras indígenas, passará por Serraglio os procedimentos demarcatórios realizados pela Fundação Nacional do Índio (Funai) – alvo de uma segunda Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), na Câmara Federal, engendrada pela bancada do empossado.

    Recentemente, o novo ministro se envolveu em mais uma situação constrangedora ao posto que passará a ocupar. Conforme apurações do Ministério Público Federal (MPF), Serraglio assinou ofício pedindo ao atual presidente da Funai, Antônio Costa, que nomeasse o advogado Ubiratan de Souza Maia como coordenador-geral de licenciamentos do órgão indigenista.  

    O advogado foi condenado pela Justiça Federal pela prática ilegal do arrendamento de 3,5 mil hectares da Terra Indígena Xapecó, do povo Kaingang, nos municípios de Ipuaçu e Entre Rios, em Santa Catarina. Ubiratan e um comparsa usavam a empresa JM Consultoria Ambiental LTDA como parte do esquema criminoso e devem ressarcir a comunidade, de acordo com a Justiça, em R$ 119 mil.

    A indicação de Ubiratan à Funai preocupa o MPF: "Não apenas pela condenação sofrida por Ubiratan, mas também por sua atuação em questões relativas aos direitos dos povos indígenas do Oeste do estado (SC), muitas vezes questionada pelos próprios caciques das comunidades indígenas da região", diz trecho da nota do MPF/SC. Antes da condenação, o advogado já tinha aparecido no noticiário nacional.

    A má fama de Ubiratan ganhou reportagem no jornal Estado de S. Paulo. Em abril do ano passado, durante reunião da primeira versão da CPI da Funai/Incra defendeu o arrendamento de terras indígenas para agricultores – vedado por lei. Também convidado pela bancada de Serraglio para debates na Câmara envolvendo a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215, Ubiratan defendeu a tese do marco temporal.

    Não foi apenas Serraglio que intercedeu a favor de Ubiratan, defensor de interesses ruralistas, junto à Funai. Luís Carlos Heinze (PP/RS), Valdir Colatto (PMDB/SC), Tereza Cristina (PSB/MS) e Adilton Sachetti (PSB/MT) também assinaram o ofício. Na semana pré-carnaval, Heinze teve uma audiência com o presidente da Funai, ao lado de representantes do Ministério da Justiça e Presidência da República, para tratar de assuntos relacionados à "questão indígena" – conforme a pauta oficialmente divulgada.

    "Agora é um ruralista mesmo como ministro da Justiça. Se deputado ele (Serraglio) já defendia tudo o que defendia, como a PEC 215, a perseguição aos antropólogos e organizações aliadas da gente, como ministro vai ser muito pior. Não dá pra pensar que esse ministro vai demarcar nossas terras. A situação é insustentável", afirma Elizeu Lopes Guarani e Kaiowá, membro do Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI).   

    Demarcação no Poder Legislativo

    Serraglio é um dos principais articuladores e formuladores da PEC 215, que aguarda votação pelo Plenário da Câmara. Para o novo ministro do Poder Executivo, o procedimento administrativo de demarcação de terras indígenas deve ser transferido para o Legislativo. Em outubro de 2015, Serraglio apresentou uma proposta substitutiva – votada e aprovada – acrescentando à PEC a tese do marco temporal.     

    Comentando sobre entrevista de uma antropóloga ao jornal Folha de S. Paulo, assim o novo ministro se posicionou: "Na memória dela antes a casa dela, há 200 anos, era uma terra indígena. Ela que saia da casa e entregue a chave para a Funai. Se (a terra indígena) é imemorial, todos somos invasores. É ridículo. Essa antropóloga deve ser financiada pela Funai", disse o ruralista ao programa Notícias Agrícolas (assista aqui).

    Para o novo ministro da Justiça, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu – ao julgar as condicionantes envolvendo a homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol – que vale a tese do marco temporal. "O STF decidiu que é a partir de 5 de outubro de 1985. Se nessa data não estava na terra, não existe demarcação", disse Serraglio durante entrevista sobre a PEC 215.

    No entanto, a decisão do STF define as condicionantes de Raposa Serra do Sol como não vinculantes às demais terras indígenas do país. O ponto é que o caso Raposa passou a ser utilizado por alguns defensores do marco temporal. No pleno da Corte Suprema, a tese já sofreu derrotas importantes e os ministros deverão definir ainda este ano um posicionamento definitivo sobre o marco temporal.


    Conforme noticiou o site De Olho nos Ruralistas, "Osmar Serraglio declarou ao Tribunal Superior Eleitoral, em 2014, um patrimônio de R$ 5,4 milhões. Os bens mais valiosos estão ligados ao mercado imobiliário. Imóveis rurais, ele declarou dois. Um de 24 hectares em Nova Prata do Iguaçu (PR), por R$ 5.966,54, e outro em Umuarama (PR), que ele possui desde 1976, por R$ 409, 20. Em 1997 o deputado possuía R$ 704 mil".

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  • 06/03/2017

    Uma entrevista com Raoni: Liberdade fica comigo


    Bessa Freire e Raoni: o Xingu nas mãos


    Oito de agosto de 1980. Meio dia. Cerca de 20 peões, a mando de um fazendeiro, armados com motosserras, derrubavam árvores no Norte do Xingu. Já haviam sido advertidos que ali era área indígena. Reincidiram. Onze deles foram, então, mortos a bordunadas, numa ação unificada de noventa índios de seis nações, que teve repercussão internacional. Dias depois, Paulo Suess e eu entrevistamos para o Porantim vários líderes indígenas que negociavam em Brasília a paz com o general Nobre da Veiga, presidente da FUNAI. Entre eles, Raoni, que deu parte da entrevista num quartinho na Casa do Ceará, onde estava hospedado. Uma aula de sabedoria, de diplomacia, de solidariedade e de humor que merece ser reproduzida aqui no momento em que Raoni acaba de defender o Xingu no sambódromo do Rio. Em alguns trechos, mantivemos marcas da oralidade e do português xinguano.

    P. Como é que onze peões foram mortos de repente? Quando começou esse conflito?

    R. Quando fazendeiro começou a derrubar o mato, faz tempo. Fazendeiro derrubou dois km de mato aqui (indica com o dedo no mapa perto do posto de Jarina). Então o meu povo foi caçar. Ai, o Bedjai, meu sobrinho, foi lá e escutou o barulho da moto-serra. Aí ele perguntou para o Aníbal (o balseiro da Br-080). O Aníbal disse: eu escutei barulho de moto-serra. Então o Bedjai contou pra mim, né: “Olha, tem gente derrubando mato lá no Piraraju”. Então eu fui com o branco, o Aníbal, mais seu companheiro. Nós descemos aqui (indica no mapa). Aí encontramos o pessoal derrubando mato. Chegamos lá, os caras com medo de mim, tudo com medo de mim. Falei pra eles: “Não, não tem medo não. Pode voltar aqui que eu quero falar com você”. Então, ele voltou. O Aníbal conversou com ele, depois eu conversei com ele assim: “Você pode procurar outro lugar, pode encontrar mato, terra, pode fazer roça, fazer casa, plantar capim, criar boi. Mas fora daqui. Aqui não! Aqui você não pode voltar mais, você não pode fazer isso na beira do Xingu”. Então o cara falou pra mim: “Você é o dono das terras, né, mas foi patrão nosso que mandou a gente trabalhar aqui”. Então eu disse: “Essa terra é nossa mesmo. Aí eles saíram, arrumaram as coisas e foram embora. Nós voltamos pra aldeia e falamos pra Funai, pro diretor do Parque, o Cico (Chico, Francisco de Assis Silva, administrador do PNX).

    P. Quer dizer que a Funai já sabia de tudo há muito tempo? Então, porque não fez nada para impedir a guerra?

    R. É. Um dia o diretor do Parque foi lá, o Cico. Nós descemos junto com ele. Procuramos, procuramos e não encontramos ninguém no acampamento que estava desmatando. Então, o diretor do Parque falou pra mim: “Eu já vou embora, mas aqui a terra é de vocês”. Ele falou assim e foi embora.

    P. Ele não resolveu nada?

    R. Não.

    P. O que você fez?

    R. Dez dias depois subi pra outro lugar, pro Diauarum. Eu fiquei esperando pra mim visitar o presidente da Funai e contar tudo pra ele. Então eu mandei o rádio duas vezes pro presidente da Funai mandar avião pra mim ir falar com ele. Esperei três semanas, o avião não foi lá. Então tava aqui no Diauarum um primo meu, o Moikora. Ai ele disse que os caras tinham voltado pra derrubar o mato. Aí ele foi e contou pro pessoal lá. Então o Bedjai – ele fala rádio, né? – contou pra mim: “Meu tio, os caras já voltou de novo, não foi embora não”. Então ele perguntou pra mim: “Meu tio, o que a gente pode fazer?”  Aí eu falei: “Você que sabe”. Ai ele falou: “Não, você que toma conta de nós, você que sabe”. Aí eu pensei, né: bom, eu vou falar uma coisa pra você. Você vai junto com outras pessoas também – Kaiabi, Suiá, Trumai, Juruna – pra ajudar vocês a botar pra fora os fazendeiros. Eu pensei que eles não iam matar. Eu gostaria de ter ido junto com o meu pessoal, mas eu estava no Diauarum esperando avião.Então o pessoal meu foi embora. O Cico então disse: você não vai. Peça avião e vá para Brasília. Ai eu fiquei com o Cico e fui lá pra cima, pra minha aldeia, esperar o avião. Cheguei lá às 8 horas da noite. Lá minha mulher falou pra mim: “Nosso filho foi junto com o pessoal”. Então, 9 horas da noite, eu fui descer ainda atrás do meu criança. E desci e encontrei o pessoal que estava voltando. Já tinham brigado. Foi assim. Foi assim”.

    P. – Depois o pessoal afundou a balsa…

    R. É. Afundou. Afundamos a balsa prá não deixar mais gente passar nas estradas.

    P. Então, vieram pra Brasília, reuniram com o presidente da Funai –  o general Nobre da Veiga e ele prometeu desviar o traçado da Br-080?

    R. Olha, a Funai falou pra mim que vai mudar a Br-080. Aí ninguém passa mais lá. Antes o mato não foi demarcado muito bem. Tá errado. Queremos que demarque direito, direitinho. Aí seria bom pra nós, índios do Xingu, como antigamente nosso avô que morava no mato.

    P. Você acreditou nessa promessa da Funai?

    R. Olha, eu acredito um pouco e eu não acredito muito não. Eu acredito só um pouquinho. Eu vou ver se ele vai fazer bem pra nós. Só acredito mesmo quando fizer.

    P. E por onde vai passar a estrada, segundo a promessa da Funai?

    R. (indicando no mapa) Está aqui a Br-080. A cachoeira primeira é aqui (aponta a Von Martius). Nós tamos pedindo que demarque depois da segunda cachoeira, aqui (aponta com o dedo) senão vai dar problema.

    P. Mas os fazendeiros dizem que a terra é deles…

    R. (irônico) Olha, eu aprendi o português, a língua de vocês e sei nossa língua, eu sei o que é bom e o que é triste, o que é verdade e o que é mentira. Meu pessoal sabe que os brancos tão acabando nós, nosso mato, nossa terra, triste mesmo. Fazendeiro quer briga, nós não quer briga. O presidente da Funai disse: “Olha, você tá acostumado com o branco, você já mudou. Agora temos de acabar com essa briga”. Então eu falei pro presidente da Funai: “Você acredita em nós agora. Muito tempo que você não acredita. Eu sei, a vida de vocês é diferente, a nossa vida é diferente dos brancos. Eu sei isso. Você pensa que índio não pensa nenhuma coisa? Índio pensa coisa boa, coisa ruim, coisa triste. Então eu falei com o presidente da Funai, então o branco muito tempo tava matando índio, matando muito índio mesmo, como minha avó. Mataram o avô de meu pai. Se a Funai toma conta de nosso índio, precisa entender bem nossa tribo, onde ela mora, o que ela quer. Quando fazendeiro entrar em nossa terra, Funai deve dizer: por favor, procura outro lugar, volta prá lá. Isto aqui é terra dos índios. Você procura outro lugar. Eu gostaria que  Funai vai falar assim com os fazendeiros”.

    P. E você acha que o presidente da Funai entende vocês?

    R. Capaz que sim. Eu não sei. Eu entendo bem ele. Não sei se ele entende bem de mim. Eu não sei. Eu vou ver. Ele fala bom, depois ele fala coisa ruim,

    P. O que ele falou de ruim nessa última reunião?

    R. Ele falou que o meu primo, o Aruiavi, Trumai, que ele não devia ter ido contra os peões pra defender nossa terra. Ele disse: “A Polícia Federal tá procurando quem levou pessoas lá pra matar os peões”. Aí eu não gostei do que ele falou. Aí eu falei pra ele: “Bom, presidente da Funai, você quer que a gente seja preso aqui, você chama a polícia e prende todos nós aqui. Eu tou aqui. Eu sou homem. Você também é homem”. Falei assim, né? Ai ele disse: “Você não pode gritar assim”. Eu disse: “Você que falou isso. Você pensa que eu é menino. Eu sou homem e vim conversar com você. Sério, sobre nosso problema”.

    P. Você diz que os brancos mataram seus avós. Mas que brancos?

    R. Foi os portugueses, né. Português matou muito índio.



    Paulo Suess e Raoni: o teólogo e o sábio


    P. Mas e agora?

    R. Agora é fazendeiro, seringueiro, castenheiro, garimpeiro que matam os índios. Índio Kaingang morreu. Terena morreu. Guajajara morreu agora na mão dos fazendeiros. Os fazendeiros estão acabando com todo índio. Agora estou muito preocupado com o meu povo, com todo mundo, não é só o meu pessoal Txukarramae, tou preocupado com todo mundo, todo índio.

    P. Você nasceu onde?

    R. Eu nasceu em Kapoto. Por ai tem Kapoto (procura no mapa). Kapoto é aqui (indica perto do Posto Jarina).

    P. Mas esta terra está fora da área do Parque?

    R. Pois é. Ficou fora. Foi aí que eu nasceu. Meu pai e minha mãe moravam aqui, no rio Liberdade. Sempre meu pai morou aqui, no rio Liberdade. Depois, meu pai morreu no rio Liberdade. Minha mãe morreu no rio Liberdade. Minha filha nasceu no rio Liberdade.

    P. E por que vocês saíram do rio Liberdade?

    R. Ah, porque chegou uma fazenda aqui; ai eu saí pra morar aqui (mostra no mapa), depois Funai pediu que a gente saísse de lá e fosse pra onde a gente está.

    P. Os jornais disseram que você quer a estrada desviada para passar em cima da primeira cachoeira. Agora você diz que quer em cima da segunda, pegando o Liberdade. Como é isso?

    R. Eu quero. Aqui é o rio Liberdade, onde eu nasci. Então a estrada deve mudar para cá (indica no mapa) por cima do rio Liberdade. Aí é muito bom pra nós. LIBERDADE VAI FICAR COMIGO AQUI. Quando passar aqui (aponta o rio Liberdade), aí não tem mais problema, não tem confusão. Se não, um fica triste, outro triste, outro triste, confusão demais.

    P. E essa festa depois da morte dos peões? Como é a festa?

    R. Ah, sim. Sei. Nós, quando a gente pinta de preto, é que vai fazer guerra com outro gente; depois vai pra aldeia, cantando, cantando, até chegar na aldeia. Então cada parente….depois fica só homem. Ai fica todo mundo junto pra fazer festa. (Durante cinco minutos, Raoni canta em Txukarramae o primeiro Akarokri da noite).

    P. É uma festa alegre?

    R. É uma festa de luta, quando a gente vai fazer mais força.

    P. Você ficou alegre com a morte dos peões?

    R. Quem matou os peões foram os fazendeiros. Coitados né? Mas como eu falei pra vocês, se eu vai junto, eu não deixava peões morrer. Coitadinho, né? Então eu falei pro meu pessoal: vocês não podem matar peão da fazenda, coitado né? Eles tem de trabalhar com patrão deles pra ganhar dinheirinha pra comprar coisa pra vida deles. Eu falei isso né. Mas quando o pessoal chegou lá, teve dois caras que falou que índio é bobagem, vagabundo, galinha, cachorro. Então o pessoal ficou brabo e matou logo. Mas eu não gostei. Se fosse um fazendeiro, não tinha problema. Eu pode brigar com fazendeiro sem problema.

    P. Raoni, pra terminar, gostaria que você falasse de você. Quantos anos você tem?

    R. Eu não sei. Quando eu era rapaz novo já conhecia o Orlando e o Cláudio (Vilas Boas).

    P. E filhos, quantos você tem?

    R. (conta nos dedos) Nove filhos (volta a contar) 3 homens, 3 mulheres e morreu dois homens e uma mulher. Um homem e uma mulher morreram de malária. O outro morreu de trovão, pegou um choque, um raio e morreu.

    P. Como é que vocês chamam isso (aponta para o batoque)

    R. Ah, em nossa língua chama akokakô.

    P. E porque você usa o akokakô?

    R. A gente usa pra ficar mais valente, ter mais força, mais coragem.

    P. Mas o Mekaronty, seu sobrinho, é Txukarrame e não usa o akokakô…

    R. Ah, o Mekaronty não tem, porque agora ninguém mais que é jovem usa. Depois que apareceu o branco, ninguém mais usa o akokakô.

    P. (Provocando) Quer dizer, então, que com a chegada do branco e a perda do akokakô os jovens não tem a mesma coragem que você tem?

    R. (uma longa e prolongada risada)

    P. Você deu uma borduna de presente ao Nobre da Veiga?

    R. Eu dei. Ele pediu, eu dei.

    P. Você não tem medo que ele use contra você?

    R. (outra longa risada). Capaz que sim. Capaz que sim.

    OBS – Ribamar Bessa e Paulo Suess, para o Porantim, jornal em defesa dos povos indigenas. CIMI. Manaus, ano III, no. 22, setembro de 1980. As fotos originais em preto e branco foram tiradas há 37 anos. Numa delas, o mapa original foi trocado aqui por um mapa colorido mais recente do Xingu numa montagem feita por Amaro Júnior da Ugagogo de Manaus.


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  • 06/03/2017

    Dom Mol: “A guinada conservadora ameaça os pobres”

    Por Professor Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães (na foto), Reitor da PUC Minas e Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte


    Precisamos ter a consciência da gravidade do momento político, social, econômico e moral que vivemos nos últimos meses. No difícil ano de 2016, o país viu-se diante de projetos e decisões congressuais – alguns já implementados – que claramente trarão em curto e médio prazos consequências graves para os trabalhadores e os pobres. O rotundo silêncio do presente contrasta, inexplicavelmente, com o rotundo barulho do ontem.

    A conscientização e mobilização contra a chamada PEC 241 na Câmara Federal e PEC 55 no Senado, que mereceu nossa atenção e apoio, não lograram resultado. Como compreender a lógica do corte no social e na educação e ao mesmo tempo o aumento nos ministérios, nos salários de algumas categorias já bem enriquecidas em relação à grande massa de assalariados e desempregados no país? Assuntos outros como a polêmica reforma do ensino médio, a redução da maioridade penal, a reforma da Previdência Social, a transferência da responsabilidade pela demarcação das terras indígenas do Poder Executivo para o Legislativo, como inapetência do Estado frente ao contínuo agravamento das condições de vida das populações indígenas, as mudanças no estatuto do desarmamento, as alterações em leis trabalhistas, o preenchimento de inúmeros cargos importantes com políticos, empresários e juristas sob suspeita ou em adiantado processo de investigação apontam, infelizmente, para sérios retrocessos em diversas conquistas que resultaram da mobilização de milhões de brasileiros desde tempos antigos como o da Constituinte, por exemplo.

    É inegável que são propostas que, a despeito das fartas justificativas e explicações de natureza econômica e financeira, significarão ainda mais riscos, perdas e sacrifícios para os pobres. Mas não apenas estes. Famílias da chamada classe média veem rapidamente diminuir seu poder de compra, tendo que adiar sonhos como o de possuir o imóvel próprio, aumentar a família, formar os filhos na universidade ou que seja viajar e descansar da rotina de trabalho, cada vez mais massacrante e, com a pretendida reforma da previdência, com perspectivas muito longínquas de aposentadoria. A mortalidade precoce ronda cada vez mais as micro e pequenas empresas, que mal conseguem pagar os salários de seus poucos funcionários.                                          

    Mas a reação governamental a isso tem sido, por um lado, a defesa dos interesses do grande capital e, por outro, a exigência de sacrifícios dos mais pobres e a agudização das condições de sobrevivência da microeconomia e da própria economia doméstica. Mais do que poupado, o sistema financeiro é novamente privilegiado. Como no mundo todo, os bancos vão bem melhor que o país. Aliás, difícil lembrar no Brasil algum momento em que banqueiros tenham reclamado de decisões econômicas. A mais terrível síndrome brasileira da Casa Grande & Senzala arraigada no modus operandi, faciendi e vivendi sociopolítico, governamental, empresarial e, assombremo-nos todos, também do Judiciário.

    Se a economia é que, em geral, mais impacta as pessoas, não devemos nos distrair em relação aos outros setores da vida social. Um fenômeno que parece, ao mesmo tempo, se dar também em vários países do mundo, o Brasil testemunha neste momento uma triste desaceleração e recuo em iniciativas de resgate da dignidade popular. Somada à crise econômica que, como sempre, atinge de modo mais draconiano e covarde os empobrecidos, observamos, claramente, no país, na política e nos direitos sociais, uma guinada conservadora e neoliberal.

    Importantes conquistas em termos dos dispositivos e dinâmicas de participação democráticas nas políticas públicas e diretamente nos governos dos municípios e estados via associações de bairros, de categorias profissionais, grupos sociais e redes de apoio comunitário vão se fragilizando e desmaterializando. É lamentável observar como a cidadania no Brasil, mantida historicamente em situação anêmica e emudecida, volta a ser constrangida, na exata hora em que se reanimava e reunia forças para erguer a cabeça e caminhar.

    Pode-se mencionar aqui as paradoxais medidas de imputar penalmente os adolescentes – pessoa adulta em formação – e permitir que os recém-adultos possam portar armas de fogo, o que certamente não significará a diminuição ou maior controle da violência. Pelo contrário, tudo sugere que aumentará a verdadeira guerra civil que, anualmente, dizima dezenas de milhares de brasileiros em mortes por arma de fogo, especialmente os mais jovens e negros, muitos pelas forças que deviam proteger a população. Tragédia sobre a qual a sociedade simplesmente silencia.

    Assim como também a mídia e a maior parte da sociedade não se pronunciam sobre o gravíssimo momento enfrentado pelas populações indígenas brasileiras. Nesses quase 30 anos de vigência da Constituição, que estabeleceu avanços importantes de proteção aos direitos indígenas e das populações tradicionais, essas comunidades estejam enfrentando hoje, talvez, os riscos mais graves do que em qualquer outro momento dessas três décadas. É a conclusão de um relatório apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. O relatório chama a atenção para um aspecto que parece bem sintomático do Brasil atual, em que o Estado insiste em viver divorciado da sociedade civil. O país dispõe de uma série de disposições constitucionais exemplares em relação aos povos indígenas, mas não as aplica, e o que se percebe é a deterioração intensa das condições de vida desses povos.

    Nenhuma nação pode realizar-se em meio a tanta desigualdade. É papel precípuo da Universidade não só expressar sua solidariedade às massas de pobres, trabalhadores empregados ou não, homens e mulheres de boa vontade e de todas as idades, como também contribuir para a formação da consciência crítica, cidadã, ecológica integral, progressista, ética, arejada, humanizada, inclusiva, justa e livre.


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  • 03/03/2017

    Simpósio de Missiologia destaca herança de dom Helder Câmara

    Por J.C Patias, Assessoria de Comunicação – Pontifícias Obras Missionárias  

    A herança espiritual de dom Helder Câmara (na foto) e a memória dos mártires para uma Igreja “em saída” foi tema de conferência proferida pelo monge beneditino, teólogo e escritor, Marcelo Barros, no 6º Simpósio de Missiologia. O evento realizado em Brasília (DF), dias 20 a 24 de fevereiro, reuniu cerca de 70 pessoas entre teólogos, missiólogos, pesquisadores, representantes de instituições e agentes de pastoral de todo o Brasil. Contou também com a participação de um representante da missiologia do México.

    O tempo de dom Helder como arcebispo de Olinda e Recife (1964-1985) coincidiu com o período da repressão militar. O bispo logo deixou bem claro a sua opção pelos pobres e o desejo de dialogar com todos. Essa posição irritou os responsáveis pela ditadura militar. Para calar a sua voz, os opressores e seus aliados difamaram dom Helder na imprensa, o ameaçaram de morte, prenderam lideranças ligadas a ele, assassinaram cruelmente o padre Henrique Pereira Neto (1969), boicotaram suas quatro indicações ao Prêmio Nobel da Paz, entre outras coisas.

    Padre Marcelo Barros foi ordenado por dom Helder Câmara (1969) e, durante quase dez anos, trabalhou como seu secretário e assessor para assuntos ecumênicos. Ao ligar a profecia de dom Helder, com o martírio e a proposta de Igreja “em saída”, Barros recordou que a palavra mártir (do grego: marturia) “significa testemunho do Reino que é o projeto de Deus no mundo. Os mártires são testemunhas de uma missão que é compaixão. Seguem Jesus, dedicam a vida à sua causa e por essa causa são mortos”.

    O monge explicou também, que normalmente, mártires são “os que morrem pela fé. Mas isso não é simples por que tem casos de pessoas mortas pelos que acham que estão justamente defendendo a fé”. E alertou para não fazer “um discurso triunfalista do martírio por que se o cristianismo é a religião que mais têm mártires, ela é também a religião que mais fez mártires”.

    Para Marcelo Barros é precisamos ampliar a visão. O livro dos Atos dos Apóstolos narra que Estêvão vê o céu aberto…”(At 7, 56). O profeta no Apocalipse vê o céu aberto (Ap 4, 1). Com isso, Marcelo Barros lançou o convite para alargar os horizontes sobre o martírio. “Jesus é chamado de mártir (1 Tm 6, 13; Ap1, 5; 3, 14). Ele se chama de testemunha da vida, da fé. No mártir, a Igreja vê o próprio Jesus. Vê nele o coração de sua fé, para além das divisões e das diferentes interpretações”.

    Na história da evangelização, “a Igreja Latino Americana é uma Igreja de testemunho, de mártires de sangue e de mártires passivos, silenciosos. A teologia da libertação é teologia de martírio. Entre tantos mártires temos dom Oscar Romero, arcebispo de San Salvador. Temos também os mártires Jesuítas assassinados em El Salvador (1989) que Jon Sobrino chama de mártires jesuânicos”. Na fileira dos mártires, no Brasil temos, entre outros, o Frei Tito de Alencar Lima, Irmão Vicente Cañas, padre Josimo Morais Tavares, padre Ezequiel Ramim, padre Rodolfo Lunkenbein, Pe. João Bosco Penido Burnier, Irmã Dorothy Stang, Irmã Adelaide Molinari, Margarida Maria Alves, Chico Mendes, Santo Dias da Silva, Marçal Guarani, Chicão Xucuru, Nísio Gomes…

    Marcelo Barros explicou que a teologia do martírio distingue entre os mártires ativos, (pessoas que conscientemente assumem o risco) e mártires passivos (povos crucificados), os que morrem sem saber porque.

    Em sua explanação, Barros se referiu a dom Helder como “o mártir que não mataram”. Em sua trajetória, o arcebispo de Olinda e Recife viveu três etapas: “na primeira colocou-se aberto ao mundo dos pobres; na segunda fez-se pobre com os pobres; por fim, levou a Igreja a ser ‘em saída’ e como pobre”.

    O monge recordou que a Conferência de Medellín (1968) falou em “Igreja pascal que significa ‘em saída’. Esse é um texto de dom Helder”. Em seguida observou: “temos muitas pastorais, mas não vejo preocupação de integrar as pastorais sociais como Igreja em saída. Todo mundo adorava por que dom Helder amava os pobres. A sua proposta de Igreja em saída e pobre levou dom Helder ao isolamento. Tinha uma espiritualidade descalço, ecumênica e amorosa. Isto é: pé no chão, aberta à todos e amorosa”.

    Ao trazer a experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), o conferencista afirmou que o povo dessas comunidades costuma dizer: “Queremos nossos mártires vivos e não mortos”. Nesse sentido, “o martírio não é só uma forma de morrer. É um modo de viver”, disse Marcelo Barros.

    Assista: Reportagem da Rede Vida sobre o Simpósio

    Perguntado sobre a relação entre Eucaristia em martírio, o teólogo destacou a relevância do tema e disse haver muita “Eucaristia oferecida a Deus, mas que Ele não quer e nem gosta. A Ceia de Jesus é a profecia do martírio. O anúncio da entrega da vida como comunhão. Corremos o risco de transformar a Ceio de Jesus algo contrária, sacerdotal, distante do seu verdadeiro significado. A Páscoa acontece no meio do povo, no mundo. Então a alegrai do povo é partilha, doação, é martírio”, complementou o monge.

    O martírio dos povos indígenas

    O histórico de luta dos povos indígenas no Brasil está na lógica do martírio. O casal Cleber e Marline Buzatto (na foto abaixo), missionários do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) partilharam sobre a grave situação enfrentada por vários povos indígenas, que na defesa de seus direitos garantidos pela Constituição, sofrem ataques violentos.


    A programação do Simpósio incluiu conferências, debates, grupo de estudo, testemunhos missionários e publicações. As temáticas discutidas estiveram em sintonia com 4º Congresso Missionário Nacional (4º CMN) a ser realizado nos dias 7 a 10 de setembro de 2017, em Recife (PE) que por sua vez servirá de preparação para o 5º Congresso Missionário Americano (CAM 5) em 2018, na Bolívia.

    Histórico

    Os Simpósios de Missiologia realizados pela Rede Ecumênica Latino Americana de Missiólogos e Missiólogas (Relami), com o apoio do Centro Cultural Missionário de Brasília (CCM) e das Pontifícias Obras Missionárias (POM) foram:

    1º Simpósio (São Paulo, 18 a 22 de maio de 1999). Tema: Os confins do mundo no meio de nós. A missão e os desafios do mundo globalizado.

    2º Simpósio (Brasília, 25 de fevereiro a 1 de março de 2013). Tema: Teologia para uma missão pós-conciliar a partir da América Latina hoje. Repensar e relançar com fidelidade e audácia o serviço da missiologia. Neste Simpósio é criada a Relami.

    3º Simpósio (Brasília, 24 a 28 de fevereiro de 2014). Tema: Palavra e Missão: nós e os outros Identidade, alteridade, universalidade na Bíblia.

    4º Simpósio (Brasília, 23 a 27 de fevereiro de 2015). Tema: 50 anos do Decreto Ad Gentes. Por uma nova presença da Igreja no meio dos povos na reciprocidade da missão.

    5º Simpósio (Brasília, 13 a 17 de fevereiro de 2016). Tema: Francisco, timoneiro da esperança: para uma missão a serviço do mundo de hoje e amanhã.

    6º Simpósio (Brasília, 20 a 24 de fevereiro de 2017). Tema: (Des)compassos de uma Igreja em saída. Dez anos de Aparecida à luz de uma Igreja sinodal e martirial.


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  • 02/03/2017

    Ex-cacique e indicado à Funai por ruralistas são condenados a devolver valores de arrendamento ilegal



    Em ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal em Chapecó (MPF/SC), a Justiça Federal condenou os réus Gentil Belino (ex-cacique), Ubiratan de Souza Maia, Júlio Cesar Inácio e a empresa JM Consultoria Ambiental LTDA a indenizar a comunidade da Terra Indígena (TI) Xapecó pela prática ilegal de arrendamento de suas terras, nos municípios de Ipuaçu e Entre Rios.

    De acordo com a decisão judicial, os réus Ubiratan de Souza Maia, Júlio Cesar Inácio e a empresa JM Consultoria Ambiental LTDA deverão ressarcir o valor de R$ 119 mil, enquanto o réu Gentil Belino terá que devolver R$ 27,5 mil àquela comunidade, que detém o usufruto exclusivo da terra indígena (art. 231 da Constituição Federal). O ex-cacique também foi condenado à perda dos bens adquiridos com os lucros auferidos com o arrendamento ilegal, que já foram objeto de sequestro determinado pela Justiça Federal: uma caminhonete, um arado e um trator agrícola. Os valores devem ser depositados em conta judicial e serão destinados – juntamente com o maquinário e o veículo – a entidade representativa dos interesses coletivos da Terra Indígena Xapecó.

    “No caso em tela, é substancioso o elenco documental produzido, tanto no âmbito dos procedimentos investigatórios deflagrados à apuração das ilicitudes em questão quanto no curso da instrução da presente ação civil pública, a revelar de modo inequívoco a prática de arrendamento de áreas agricultáveis inseridas na Terra Indígena Xapecó”, destacou na sentença o juiz federal Gueverson Rogério Farias, titular da 1ª Vara Federal de Chapecó.

    Apesar da condenação, o MPF recorreu da decisão de primeiro grau ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região, requerendo o reconhecimento da obrigação solidária de todos os réus indenizarem o total dos recursos auferidos com o arrendamento – mais de R$ 240 mil, em uma única safra (2013/2014).

    Investigação do MPF

    Inicialmente, em 15 de agosto de 2013, foi instaurado o Inquéritio Civil nº 1.33.002.000450/2013-17, para apurar irregularidades envolvendo um pretenso “Plano de Gestão Territorial” da TI Xapecó apresentado pelo ex-cacique Gentil Belino e seus consultores ao MPF de Chapecó. Paralelamente, a partir de relatos de arrendamento de extensas áreas daquela TI para o plantio mecanizado de soja e milho por não-indígenas, bem como de procedimentos que apuravam, entre outras, irregularidades na distribuição de áreas daquela terra indígena, o MPF também instaurou, em 24 de junho de 2014, o Inquérito Civil nº 1.33.002.000297/2014-09. Esse procedimento tinha como objetivo apurar irregularidades envolvendo o então Cacique da TI Xapecó, especialmente o possível arrendamento de áreas da comunidade para agricultores da região e a apropriação privada de bens coletivos por grupos ligados à liderança daquela terra indígena.

    Segundo apurado na investigação, os indígenas que moravam ou produziam em áreas passíveis de serem empregadas no cultivo mecanizado de soja e milho eram obrigados pelas lideranças a liberar essas áreas para a exploração direta por produtores rurais vizinhos, por meio do que denominavam de uma “parceria” entre esses agricultores não-indígenas e as poucas famílias indígenas – ligadas a antigas e atuais lideranças da TI Xapecó – que passavam a ser detentoras desses “sítios” (áreas que eram objeto do arrendamento). Essa disputa pelas áreas a serem arrendadas revelou-se como uma das principais causas de frequentes conflitos e até expulsões de indígenas que ocorriam na TI Xapecó e eram constantemente noticiados ao MPF.

    Com o intuito de dar ares de legalidade a essa prática do arrendamento, o então cacique Gentil Belino, em parceria com Ubiratan Maia e Julio Cesar Inácio, criaram um pretenso “Plano de Gestão Territorial” da TI Xapecó, por meio do qual cobravam comissão de 4% da produção agrícola dos produtores rurais não-indígenas, sendo 2% destinados a um denominado “Fundo Social” – que supostamente beneficiaria o conjunto da comunidade indígena – e o restante à Empresa JM Consultoria Ambiental LTDA, gerida por Ubiratan Maia e Julio Cesar Inácio. Essa empresa de consultoria recebeu cerca de R$ 120 mil na safra 2013/2014 apenas para redigir o tal “Plano de Gestão” que, conforme demonstrado nas investigações do MPF, não apresentava a mínima possibilidade de tornar a comunidade da TI Xapecó autossuficiente, o que, formalmente, seria a principal meta daquele documento. Na verdade, comprovou-se que o plano tinha como verdadeiro objetivo garantir “segurança jurídica” aos produtores rurais que arrendavam áreas da TI Xapecó e uma fachada de legalidade a essa prática vedada por nosso ordenamento jurídico e rechaçada, inclusive, pelo Supremo Tribunal Federal.

    A investigação do MPF abrangeu, entre outras medidas, a quebra do sigilo bancário dos envolvidos, demonstrando de forma contundente que os recursos obtidos com o ilegal arrendamento de cerca de 3,5 mil hectares da TI Xapecó – mais de R$ 240 mil em apenas uma única safra – foram destinados ao ex-cacique, sua esposa e aos consultores que agiam em conluio com aquela liderança indígena.

    Indicação

    Apesar dessa condenação, Ubiratan de Souza Maia teria sido indicado, por deputados federais que integram Comissão Parlamentar de Inquérito instaurada na Câmara dos Deputados – CPI da Funai e do Incra –, para assumir o importante cargo de coordenador-geral de licenciamento da Fundação Nacional do Índio (FUNAI).

    Segundo cópia que chegou ao conhecimento do MPF, o deputado Luís Carlos Heinze (PP/RS), em nome também dos deputados Valdir Colatto (PMDB/SC), Osmar Serraglio (PMDB/PR), Tereza Cristina (PSB/MS) e Adilton Sachetti (PSB/MT), teria encaminhado ofício ao presidente da Funai, Antonio Fernandes Toninho Costa, com a referida indicação, o que muito preocupa o Ministério Público Federal, não apenas pela condenação sofrida por Ubiratan, mas também por sua atuação em questões relativas aos direitos dos povos indígenas do Oeste do estado, muitas vezes questionada pelos próprios caciques das comunidades indígenas da região.


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  • 02/03/2017

    Campanha da Fraternidade inserida no tempo da Quaresma convida à conversão ecológica


    A Igreja iniciou nesta Quarta-feira de Cinzas, 1º de março, o Tempo da Quaresma, ocasião em que se prepara a celebração da Páscoa, centro da fé católica. No Brasil, este período também é marcado pela Campanha da Fraternidade (CF), cuja finalidade principal é vivenciar e assumir a dimensão comunitária e social da Quaresma. A CF ilumina de modo particular os gestos fundamentais desse tempo litúrgico: a oração, o jejum e a esmola.

    O texto-base da CF 2017, cujo tema é “Fraternidade: Biomas brasileiros e defesa da vida”, orienta que “as práticas quaresmais da esmola, da oração, do jejum, a conversão e a Campanha da Fraternidade tornam-se oportunidades de experimentar a espiritualidade pascal capaz de gerar, ao mesmo tempo, a conversão pessoal, comunitária e social”.

    Para o bispo auxiliar de Brasília (DF) e secretário geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Leonardo Ulrich Steiner, a Quaresma é um tempo precioso da vida da Igreja, das comunidades, mas também da vida pessoal. “Ele nos leva ao encontro de Jesus crucificado, de ressuscitado, o Reino plenificado. Por isso a Igreja sempre toma esse tempo como um tempo precioso, salvífico, de transformação, de conversão. E é neste tempo que a igreja no Brasil sempre reflete e reza uma realidade”, explica. Para dom Leonardo, a CF busca sempre uma realidade para que, no tempo da conversão, “nós também ajudemos a transformar uma realidade, nos convertamos para essa realidade”.

    Em sua mensagem enviada à CNBB por ocasião da abertura da CF 2017, o papa Francisco ressaltou que a iniciativa é “um convite a viver com mais consciência e determinação a espiritualidade pascal”. Para o pontífice, a comunhão na Páscoa de Jesus Cristo é capaz de suscitar a conversão permanente e integral, que é, ao mesmo tempo, pessoal, comunitária, social e ecológica. “Uma pessoa de fé que celebra na Páscoa a vitória da vida sobre a morte, ao tomar consciência da situação de agressão à criação de Deus em cada um dos biomas brasileiros, não poderá ficar indiferente”, alertou Francisco.

    O bispo de Livramento de Nossa Senhora (BA) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB, dom Armando Bucciol, explica que, desde antigamente a Igreja dedica um tempo como preparação para que a Páscoa do Senhor seja devidamente compreendida e vivida: a Quaresma. “Nestes 40 dias, a igreja toda coloca-se em atitude de escuta da Palavra e à luz dela e pelo seu incentivo, abre-se para uma maior coerência em sua fidelidade ao projeto de Jesus”, afirma dom Armando.

    Quaresma é tempo forte “para rever a nossa vida e, eis que a Campanha da Fraternidade se insere dentro deste processo de conversão”. As temáticas deste ano – biomas, natureza, povos originários e a encíclica Laudato Si’ do papa Francisco – “nos incentivam e convidam para que a nossa vida seja mais coerente em harmonia com o projeto de vida cristã”, observa dom Bucciol.

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  • 01/03/2017

    CNBB lança Campanha da Fraternidade 2017: “Cultivar e guardar a criação”

    Com o tema "Fraternidade: biomas brasileiros e a defesa da vida", a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) abre oficialmente, na Quarta-feira de Cinzas, dia primeiro de março, a Campanha da Fraternidade 2017 (CF 2017). O lançamento será na sede da entidade, em Brasília (DF), e será transmitido ao vivo pelas emissoras de TV de inspiração católica, a partir das 10h45.

    A campanha, que tem como lema “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2.15), alerta para o cuidado da Casa Comum, de modo especial dos biomas brasileiros. Segundo o bispo auxiliar de Brasília (DF) e secretário geral da CNBB, dom Leonardo Ulrich Steiner, a proposta é dar ênfase à diversidade de cada bioma e criar relações respeitosas com a vida e a cultura dos povos que neles habitam, especialmente à luz do Evangelho. Para ele, a depredação dos biomas é a manifestação da crise ecológica que pede uma profunda conversão interior. “Ao meditarmos e rezarmos os biomas e as pessoas que neles vivem, sejamos conduzidos à vida nova”, afirma.

    Ainda de acordo com o bispo, a CF deseja, antes de tudo, levar à admiração, para que todo o cristão seja um cultivador e guardador da obra criada. "Tocados pela magnanimidade e bondade dos biomas, seremos conduzidos à conversão, isto é, cultivar e a guardar”, salienta.

    A cerimônia de lançamento contará com as presenças do arcebispo de Brasília e presidente da CNBB, cardeal Sergio da Rocha, do secretário geral da Conferência, dom Leonardo Steiner, e do secretário de articulação institucional e cidadania do Ministério do Meio Ambiente, Edson Duarte.

    No Brasil, a Campanha já existe há mais de 50 anos e sua abertura oficial sempre acontece na Quarta-feira de Cinzas, quando tem início a Quaresma, época na qual a Igreja convida os fiéis a experimentarem três práticas penitenciais: a oração, o jejum e a esmola.

    Material

    Para ajudar nas reflexões sobre a temática, são propostos subsídios, sendo o texto-base o principal. Dividido em quatro capítulos, a partir do método ver, julgar e agir, o documento faz uma abordagem dos biomas, suas características e contribuições eclesiais na defesa da vida e cultura dos povos originários de cada bioma brasileiro. Também são apresentadas considerações ecológicas sob a perspectiva de São João Paulo II, Bento XVI e o papa Francisco. Ao final, são apresentados os objetivos permanentes da Campanha, os temas anteriores e os gestos concretos previstos para esta edição, sendo o principal a Coleta Nacional de Solidariedade.

    Os subsídios da CF 2017 estão disponíveis no site da editora Edições CNBB. É possível fazer o download do arquivo com todas partituras das músicas da CF 2017 e da Quaresma, entre elas o Hino Campanha, de autoria do padre José Antônio de Oliveira e Wanderson Freitas. Os interessados poderão baixar ainda o cartaz da CF e os spots de rádio, TV e internet preparados para a ocasião.


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  • 23/02/2017

    Bancada ruralista indica e emplaca ministro da Justiça


    Crédito da foto: Zeca Ribeiro


    O deputado federal Osmar Serraglio (PMDB-PR), membro das bancadas ruralista e evangélica, será o novo ministro da Justiça. Ele chamou atenção em 2015, ao protagonizar a luta contra as demarcações de terras indígenas: foi relator da PEC 215 na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. A PEC transfere do Executivo para o Legislativo a palavra final sobre demarcações de terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação.

    Desde 1973, quando o Estatuto do Índio entrou em vigor, apenas o poder Executivo, junto aos seus órgãos técnicos, pode decidir sobre demarcações indígenas. Por isso a proposta é considerada por indigenistas e ambientalistas como uma das maiores ameaças, nos últimos anos, contra os povos tradicionais.

    Quando a PEC 215 foi apresentada por Almir Sá (PPB-RR), em 2000, já era considerada inconstitucional, por ferir a separação entre os poderes da República. O substitutivo apresentado por Serraglio e aprovado em 27 de outubro de 2015 é considerado ainda mais agressivo, por inviabilizar novas demarcações e criar insegurança para as áreas já demarcadas.

    Esse ponto polêmico ficou conhecido como “marco temporal”, e determina que os índios só terão direito à terra que ocupavam desde 1988. A PEC aguarda votação, atualmente, na Câmara – onde Serraglio foi eleito deputado, pela primeira vez, em 1998. Ele foi reeleito nas últimas quatro eleições.

    Apoio da Frente Agropecuária

    A bancada ruralista declarou abertamente apoio à indicação de Serraglio para o ministério. O grupo postou anteontem, o seguinte recado para os jornais Estadão, Valor e para a revista Globo Rural: “Deputado @serragliopmdb é o nome indicado p/ bancada ruralista p/ Ministério @JusticaGovBR“.

    O grupo – composto por pelo menos 220 parlamentares – foi decisivo para o impeachment de Dilma Rousseff e chegada ao poder de Michel Temer e sua trupe de ministros ruralistas. E também apoiou a indicação de Alexandre de Moraes ao Supremo Tribunal Federal.

    Osmar Serraglio declarou ao Tribunal Superior Eleitoral, em 2014, um patrimônio de R$ 5,4 milhões. Os bens mais valiosos estão ligados ao mercado imobiliário. Imóveis rurais, ele declarou dois. Um de 24 hectares em Nova Prata do Iguaçu (PR), por R$ 5.966,54, e outro em Umuarama (PR), que ele possui desde 1976, por R$ 409, 20. Em 1997 o deputado possuía R$ 704 mil.

    A maior doação feita legalmente para Serraglio, em 2014, foi do frigorífico JBS, com um aporte de R$ 200 mil. Da maior exportadora brasileira de açúcar e etanol, a Copersucar, o deputado recebeu R$ 100 mil.

    Ao lado dos deputados Nilson Leitão (PSDB-MS), Alceu Moreira (PMDB-RS), Valdir Colatto (PMDB-RS) e Tereza Cristina (PSB-MS), Serraglio foi um dos responsáveis pela recriação, no fim de 2016, da CPI da Funai e do Incra A CPI visa amedrontar, com quebra de sigilos, entidades que apoiam a luta indigenista.

    O deputado paranaense também ficou conhecido por defender o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), no ano passado, ao pautar recursos que poderiam anular o processo contra seu aliado no Conselho de Ética. Quando Cunha foi finalmente preso, Serraglio lamentou: “É a queda da República!”

    (Colaborou Alceu Luís Castilho)

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  • 23/02/2017

    PMDB troca secretário e Saúde Indígena segue loteada

    A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) tem novo secretário. Marco Antônio Toccolini foi nomeado, terça (21/02), no lugar de Rodrigo Rodrigues. A indicação partiu do PMDB da Câmara, mais especificamente dos deputados federais Hildo Rocha (MA) e do líder da bancada, Baleia Rossi (SP).

    Rocha e Toccolini ocuparam cargos importantes no governo de Roseana Sarney (PMDB) no Maranhão. O deputado foi secretário de Cidades e Urbanismo e de Articulação Política. Toccolini foi secretário da Representação Institucional da administração maranhense em Brasília (saiba mais no fim da reportagem). O PMDB é um dos principais articuladores de propostas anti-indígenas no Congresso e no governo.

    A mudança na Sesai ocorre quatro dias após Rodrigues criar um Grupo de Trabalho (GT) para discutir alterações na Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI). A troca não teria relação com a criação do GT, conforme o ex-secretário, que assumiu a função em março de 2016, também por indicação do PMDB, ainda no governo Dilma (leia mais).

    Na tarde de ontem (22/2), Toccolini participou de uma reunião com indígenas de diversas partes do país. As lideranças criticaram o caráter político da nomeação e questionaram o novo secretário sobre seus planos, mas ele foi econômico em sua fala (saiba mais).

    “Minhas ações vão ser pautadas justamente em ouvir cada demanda, encaminhar cada demanda e sentar com cada um que está fazendo as demandas para poder dar a atenção e o respeito que todos merecem”, disse. “Se os políticos gostam disso ou não, eu lamento. Eu quero deixar claro para todos aqui: eu sou técnico, não pretendo me candidatar a cargo nenhum e vou fazer o que vocês estão recomendando. Eu vou levar aos políticos as reivindicações”, completou. O novo titular da Sesai irá administrar um orçamento de cerca de R$ 1,6 bilhão.

    “A indicação desse novo secretário é estritamente política. Ele é indicado de um deputado do Maranhão que é totalmente alheio às questões indígenas”, critica Sônia Guajajara, da coordenação executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Apesar de reconhecer que a criação do GT foi uma demanda dos povos indígenas, Sônia demonstra preocupação com os rumos do colegiado a partir de agora.

    Retrocessos

    A nomeação pegou as lideranças indígenas de surpresa. Um grupo de Kaiapó tinha uma reunião marcada com o antigo secretário anteontem e foi avisado da mudança em cima da hora.

    O movimento indígena teme que alterações no comando da Sesai e no subsistema de saúde resultem em retrocessos. A municipalização do atendimento, que estaria sendo cogitada no Ministério da Saúde, por exemplo, é avaliada como o início do fim da política de atenção diferenciada aos índios. Em nota divulgada na segunda (20/2), a Apib expressou preocupação com a substituição do titular da secretaria. “A ideia de trocar o Secretário é pra avançar com o processo de desmonte da SESAI a exemplo do que vem sendo com a FUNAI”, escreveu.

    Em outubro, o ministro da Saúde, Ricardo Barros, tentou promover alterações no subsistema sem consultar as populações indígenas. Poucos dias após publicar as portarias 1.907/16 e 2.141/16, teve de voltar atrás e revogá-las. As medidas retiravam a autonomia administrativa e financeira da Sesai e dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). A revogação ocorreu depois de um movimento nacional de resistência, com ocupação de DSEIs e rodovias (saiba mais).

    Após a mobilização, Rodrigues comprometeu-se a realizar debates sobre o modelo da saúde indígena em todos os 34 DSEIs. Líderes indígenas receiam que o novo secretário recue dessa medida.

    “A preocupação é que os recursos da saúde indígena fiquem subordinados à fisiologia político-partidária e a sua lógica própria, que não tem nada a ver com a atenção aos problemas dos povos indígenas”, avalia Márcio Santilli, sócio fundador do ISA. “Dentro desse quadro de instabilidade e loteamento dos cargos, ficam muitas dúvidas sobre se efetivamente esse GT vai operar na direção demandada pela situação presente”, considera.

    “De portaria em portaria as coisas vão sendo mudadas, sem clareza e sem diálogo. O governo vai fazendo as coisas atropeladas e sem nenhum critério e cuidado com a administração pública”, avalia Érika Yamada, perita da ONU em Direitos Indígenas.

    Quem é Marco Antônio Toccolini?

    O ISA entrou em contato com Marco Antônio Toccolini, mas ele disse que só falaria sobre sobre seus planos para a Sesai após sua posse, prevista para esta sexta (24/2). O novo secretário confirmou que foi indicado pelo deputado Hildo Rocha, mas afirmou que não sabia porque. “Não sou político”, disse, repetindo o bordão do prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB).

    Indagado sobre sua experiência com saúde indígena, Toccolini contou que, entre 2010 e 2012, gerenciou um comitê para intermediar demandas dos índios Krikatí frente à construção de uma rodovia que atravessa suas terras, em Montes Altos, no leste do Maranhão. Entre os resultados do trabalho, enumerou a construção de um posto de saúde, escola, passarelas para pedestres, galerias para passagem de animais e o apoio à produção agrícola da comunidade.

    “Foi um trabalho de negociação, atendimento de demandas, articulação com a Fundação Nacional do Índio (Funai), secretarias de Estado e Ministério Público Federal”, afirma. Toccolini diz que essa atuação o credencia para a nova função. “Minha experiência foi muito próxima. Aprendi muito com os índios. Respeito muito os índios”, completa.


    Ele começou a trabalhar na representação do governo do Maranhão em Brasília em 2004. Entre 2010 e 2014, foi representante oficial da administração maranhense na capital federal. Nessa função, foi presidente do Fórum Nacional das Representações Estaduais (Fonare). Foi ainda professor no ensino público no Distrito Federal. É formado em Ciências Contábeis, pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), em Pedagogia, pela Universidade de Brasília (UnB), e em Educação Física, pela Faculdade Albert Enstein, também de Brasília.

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  • 22/02/2017

    Caiado divulga informação falsa sobre novas terras indígenas


    Arte: A Pública


    Por Étore Medeiros, A Pública


    Sempre crítico da política de demarcação de terras indígenas no Brasil, o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) não deixou de abordar o assunto durante a sabatina de Alexandre de Moraes ao Supremo Tribunal Federal. Protestou contra a “insegurança jurídica” e o “clima de enfrentamento” no campo.

    Ao acusar antropólogos de produzirem laudos fraudulentos para fundamentar as demarcações – na mesma linha da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Fundação Nacional do Índio (Funai) na Câmara –, Caiado queixou-se da alta demanda por novas terras: segundo o senador, 339 novas áreas estariam sendo reivindicadas como indígenas, o que corresponderia a 20% do território nacional. “Terra produtiva”, fez questão de dizer ao defender a indenização aos proprietários das áreas.

    O Truco – projeto de checagem da Agência Pública – foi atrás dos números e descobriu que não é bem assim. As 339 áreas às quais o senador faz referência foram contabilizadas pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Apresentado no relatório Violência contra os povos indígenas do Brasil, lançado em 2013, o dado é relativo a 2012 e está, portanto, desatualizado.

    O mapeamento mais recente do Cimi, com dados de 2015 e apresentado na edição de 2016 do mesmo relatório, somava 348 terras “sem providências” no Brasil. Ou seja, embora reivindicadas pelas comunidades, elas ainda não começaram a ser estudadas formalmente pela Fundação Nacional do Índio (Funai). É improvável que 100% delas estejam sobre “terra produtiva”, como ressaltou Caiado, já que 190 estão na Região Norte, que abriga a maior parte da Amazônia brasileira, e 36 são ocupadas por povos isolados.

    O Cimi não apresenta qualquer estimativa do tamanho dos territórios. Não é possível dizer, portanto, que elas correspondam a 20% do território nacional, como sustentou o senador.

    Ainda que se recorra à base de dados da Funai, a porção do território reivindicada pelos indígenas não bate com a mencionada pelo parlamentar. Mesmo que se incluam todas as terras contabilizadas pela fundação, desde aquelas “em estudo” até as completamente regularizadas, a contabilidade oficial é de 728 áreas, que, juntas, somam 1,17 milhão de km², ou 13,78% do solo brasileiro – bem abaixo de 20%.


    A análise dos dados mostrou que o senador utilizou um dado desatualizado para as novas terras reivindicadas; disse que elas ocupariam 20% do solo brasileiro, o que não tem respaldo nos dados do Cimi e nem da Funai; e também errou ao dizer que se trata de “terras produtivas” para o setor agropecuário, já que algumas das áreas correspondem a territórios de índios isolados na floresta. A afirmação do parlamentar, portanto, é falsa.

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