• 19/04/2017

    Dia de luta dos Povos Indígenas do Brasil, 19 de abril


    "Estamos nesse momento crucial, sob o fogo cruzado dos ruralistas, mineradoras, madeireira e piratas de toda espécie". Foto: Laila Menezes / Cimi

    Por Egon Heck, do Secretariado Nacional

    Outubro de 1988. Memorável conquista dos povos indígenas na Constituição. Pela primeira vez após a fatídica invasão primeira, os povos originários se mobilizaram para garantir seus direitos na Carta Magna. Comemoraram, porém sem ilusão. Essa seria uma das etapas na dura luta por seus direitos.

    Dormiram ao acalanto da conquista, porém de olhos abertos, pois os inimigos seculares queriam ludibriá-los novamente. Cederiam no papel, mas continuariam a invasão, a violência, o saque dos recursos naturais. Ou seja, rasgariam a Constituição, na prática. E se preciso fosse, jogariam a lei no lixo ou a rasgariam em plena luz do dia, sem o menor escrúpulo ou temor. Estamos nesse momento crucial, sob o fogo cruzado dos ruralistas, mineradoras, madeireira e piratas de toda espécie.

    Cínica e descaradamente, buscam suprimir os direitos indígenas e outras conquistas sociais da Constituição. O que deveria ter sido cumprido está sendo rasgado. Estamos em tempo de tentativa de retrocesso, sob o fogo cruzado, numa guerra sem tréguas.

    Abril Indígena
    O movimento indígena com apoio de seus aliados vem se articulando e mobilizando para esse permanente enfrentamento com as forças e interesses  que  tudo fazem para suprimir direitos constitucionais indígenas. De forma racista vem disseminando ódio e preconceitos. Talvez seja esse o momento mais feroz contra os povos indígenas desse último meio século.


    Mensagem dos povos indígenas
    aos parlamentares e ao governo que não permitiriam a supressão de seus direitos constitucionais. Foto: Laila Menezes / Cimi

    Por outro lado, é gratificante e esperançoso ver o crescimento da consciência dos povos originários na luta por seus direitos e suas alianças com aquelas forças que buscam uma transformação social na perspectiva do Bem Viver, do reconhecimento do Estado Plurinacional e da democracia que brota das comunidades e suas múltiplas expressões de organização e poder. Quem sabe dessa forma poderemos começar a enfrentar com eficácia o mar de corrupção que envergonha e conspurca o nosso país.

    Nos últimos quatro anos os povos indígenas de todo o Brasil participaram das delegações que vieram à capital federal para dizer aos parlamentares e ao governo que não permitiriam a supressão de seus direitos constitucionais.


    Hoje é um dia de luta e mobilização pelos seus direitos em aliança com todos os que lutam para construir um Brasil justo e plural. Foto: Laila Menezes / Cimi

    Acampamento Terra Livre
    Com muita emoção recordo a importante participação dos povos indígenas nos Fóruns Sociais Mundiais, em Porto Alegre, no início deste novo milênio. Ali foi definido que seria necessário dar passos mais efetivos no sentido de consolidar a luta pelos territórios indígenas, criando uma espécie de articulação nacional, um grito de guerra e de vida.

    Foi então que, a pedido dos povos indígenas da Raposa Serra do Sol, de Roraima, se passou a realizar um acampamento anual, em nível nacional, para dar visibilidade à sua luta pelo território contínuo e não a demarcação em ilhas. Conseguiram a vitória histórica da homologação desse território, em 2006. Foi então a vez de fazer pressão pela demarcação das terras dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul, de maneira especial dos Kaiowá Guarani e Terena. Foi então realizado o Acampamento Terra Livre (ATL) em Campo Grande-MS e em Altamira, em apoio aos direitos dos Povos Indígenas atingidos pela hidrelétrica de Belo Monte.

    Esse é o 14º Acampamento Terra Livre acontecendo num dos momentos mais dramáticos para os povos indígenas e os movimentos sociais. De parte do movimento e organizações indígenas, a expectativa é de que se reúnam representantes de mais de cem povos indígenas de todo o país, com cerca de 1500 participantes. Menor apenas do que a Marcha e Conferência do ano 2000, quando estiveram reunidos em Coroa Vermelha, no litoral da invasão, quase 3000 indígenas de mais de duzentos povos.

     “Unificar as lutas em defesa do Brasil indígenas é o objetivo maior da mobilização deste ano […]reunindo em grande assembleia lideranças dos povos e organizações indígenas de todas as regiões do Brasil. Neste momento de ameaças e violações dos direitos constitucionais e originários dos povos indígenas e das políticas anti-indígenas do Estado brasileiro”, afirma a convocatória da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) ao acampamento.
    O ATL é um importante momento de articulação entre lideranças de todo país e de incidência política do movimento indígena.

    Para os povos indígenas do país, hoje é um dia de luta e mobilização pelos seus direitos em aliança com todos os que lutam para construir um Brasil justo e plural.

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  • 18/04/2017

    Agronegócio não é agricultura!



    Vejam o Blairo Maggi falando com “toda a convicção” que todos podem, sem receio de colocar em risco a sua saúde, consumir os produtos do agronegócio: “carnes, grãos, algodão…”. Assim a mentira norteia a prática e a “ética” dos agronegociantes. Há mais de vinte anos minha esposa, Doroti Alice, questionava os agricultores do Sindicato dos Agricultores Rurais do município de Presidente Figueiredo (AM) que se diziam produtores rurais: “Vocês não são produtores rurais, vocês são agricultores”.

    Assistimos permanentemente em nosso país a uma ostensiva confusão, mentira e pressão do governo e da mídia, contra os agricultores, contra a Agricultura Familiar e a favor do agronegócio ao ponto deste usurpar o Ministério da Agricultura. O que o governo sustenta como Ministério da Agricultura nada mais é do que o Ministério do Agronegócio ou o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), que sustenta governos e empresas, mas não sustenta pessoas humanas e nem faz ciência agrária.

    O atual Ministério do Desenvolvimento Agrário é em verdade o Ministério da Agricultura. O Blairo Maggi nunca foi agricultor. Sempre foi e é agronegociante. É um “produtor rural” e seus peões também. O processo de produção do agronegociante já vem pronto dos gabinetes urbanos ou da EMBRAPA. Ninguém cultiva a terra. Ela é mero sustentáculo de um negócio. Para garantir o negócio a terra pode ser arrasada em sua biodiversidade e envenenada. A sua razão de ser é garantir o “negócio”. Não sustenta pessoas. Nem seu dono come o que colhe da terra arrasada e envenenada.

    Produtor rural é a pessoa a serviço do agro-negócio. Produtores rurais são pessoas “des-envolvidas” da terra e envolvidas pela máquina. A terra perdeu o seu significado primeiro, para se tornar apenas meio de acumular dinheiro ou sustentar corruptos.  A pessoa vale pelo que produz ou pelo que sugere para melhorar o empenho dos diferentes equipamentos e engrenagens das máquinas que administram e coordenam o agro-negócio. Não cria e nem faz ciência. Reduz a variedade das sementes, a biodiversidade, fonte da ciência agrária. As poucas sementes que aceita, domina com egoísmo. Detona tudo a sua volta para plantar o que é solicitado pelo mercado, pelo dinheiro. O produtor rural perdeu a noção da vida.

    O agronegócio sempre foi, é e será mau para a humanidade. O agronegócio é um penduricalho dos bancos e de governos voltados para a cidade. Nunca formou homens independentes e autônomos. Toda a crise de banco (sistema financeiro) tem como consequência imediata a crise do agronegócio.

    Além dos seus efeitos nocivos sobre a terra, é um ralo por onde passam anualmente bilhões de reais, com que o governo financia a depredação, a contaminação da mãe-terra e a corrupção. O produto que sai do agronegócio não é recomendável para consumo humano. Seria um castigo impor a um agronegociante consumir o que produz. Além disso, nenhum peão realiza sua vida ali. É um explorado inerente.

    Em 1990, enquanto participava do Tribunal dos Povos em Paris, a família aqui em Presidente Figueiredo acolheu 18 nordestinos escravos, fugidos da Jayoro. A Jayoro é um projeto de plantio e beneficiamento de cana de açúcar da Coca-Cola. Fica a 13 quilômetros daqui. Iniciou aniquilando uma enorme extensão de floresta amazônica, com milhares de espécies da vida nativa. Após o desastre ecológico, “tortura” a terra com máquinas até que aceite receber a cana-de-açúcar, uma espécie exótica que produz para a exportação. E para que nenhuma gramínea: quebra-pedra, capim-estrela, gervão ou outra qualquer, ouse levantar sua “cabecinha” em meio a aquele deserto, a Mãe-terra é “esterilizada” com agroquímicos.

    O processo de “esterilização” e de contaminação da terra acompanha todo o plantio, o crescimento e, não raro, até a colheita. As pessoas pouco valem. Cada semana um trabalhador intoxicado por venenos vem procurar socorro na cidade. E se o caso é grave, a empresa os descartam, ficando dependentes dos familiares e amig@s. As consequências vão além. O rio Urubuí que passa pela cidade também sofre as consequências. As águas da Corredeira, quase dentro da cidade, onde milhares de pessoas se banham semanalmente, estão envenenadas pelo vinhoto que sai dos domínios da empresa para os igarapés que deságuam no rio Urubuí.

    Quando visitei há poucos anos a minha terra natal, Feliz (RS), presenciei ali, com tristeza, a prática do agro-negócio. Filhos de agricultores de ontem viraram “produtores rurais”, produzindo o que o agronegócio lhes impõe: frangos, tomate, morango. “Des-envolveram-se” da mãe-terra e até da ética tradicional de seus antepassados, para se envolverem com o agro-negócio, fora do seu domínio. Produzem bens de consumo que eles mesmos não tem coragem de consumir.

    Encontrei produtores rurais que plantam tomate para seu consumo em horta separada do tomatal envenenado, criam frangos para o seu consumo familiar separado da “fábrica” de frangos que administram para seus donos que os vendem para consumo humano. É amplamente conhecido o caso dos produtores de fumo de Venâncio Aires e municípios vizinhos, onde os agrotóxicos envenenam as cabeças dos produtores ao ponto de provocarem o suicídio.

    Não podemos confundir agronegócio com o que sempre praticaram os povos indígenas nas Américas, nem com a ciência dos pequenos agricultores tradicionais do mundo inteiro ou com a agricultura familiar, todas voltadas para a policultura, para as necessidades reais e o bem-viver das pessoas, das famílias, das comunidades e até de um Estado sadio.

    A história oficial apresenta, em geral, as sociedades indígenas apenas como coletoras e caçadoras. Os povos indígenas foram, sobretudo, excelentes agricultores, tendo praticado uma agricultura adaptada e autossustentável para as diferentes regiões e situações das terras brasileiras e com uma visão infinita da terra. Com esta visão diante de nossos olhos, incentivamos aqui uma agricultura integrada: frutas, tubérculos, abelhas e pequenos animais. Uma agricultura autossustentável e que recupera áreas alteradas por sistemas anteriores e cultiva a floresta sem alterá-la ou destruí-la. Modelo que denominamos “Floresta de Alimentos” e que propicia às famílias de agricultores e às comunidades indígenas abundância para seus lares e excedentes para a troca e comercialização.

    O agricultor faz cultura e ciência na mãe-terra. Estuda a natureza na sua variedade. Se “envolve” com a terra. Dela retira primeiro a fartura para sua mesa. O excedente troca ou vende com seus vizinh@s, amig@s, ou até exporta. Mesmo valendo-se de máquinas e equipamentos, a agricultura está sempre sob o domínio das pessoas humanas. Agricultor é o sábio da mãe-terra. Ele se move com a curiosidade de um cientista no meio deste “Jardim do Éden” onde tudo e toda a vida tem o seu valor. Ele transforma, cria variedades novas. Se alegra em transferir gratuitamente as suas descobertas aos vizinhos, às comunidades vizinhas (frutos, sementes, mudas, técnicas). Foi assim, mediante a tal saber coletivo, que os povos indígenas das Américas criaram inúmeras variedades de alimentos. Muitas até hoje alimentam e colorem a Amazônia. Outras muitas, lamentavelmente, foram extintas devido aos preconceitos e às exigências do mercado do Norte, ou ainda, arrasadas pelas máquinas e pelos herbicidas do agronegócio.

    Durante os últimos 70 anos a metade do país foi arrasada. Uma fortuna incalculável de biodiversidade irremediavelmente perdida! O sossego dos jovens de amanhã está na variedade de vida que a mãe-terra tão generosamente oferece, pois ali poderão aprofundar os seus conhecimentos e crescer em ciência perpetuamente. A metrópole tem um futuro limitado: carro, asfalto e plástico são efêmeros. Não tem futuro!


    Das pessoas engajadas na mídia é importante, sim, ouvir reportagens-poesias sobre o “Velho Chico” ou sobre “Os catadores de Piqui de Minas Gerais”, como as que o Nelson Ribeiro do Globo Rural tem levado ao ar, mas precisamos principalmente do seu engajamento pela agricultura, pelos caminhos desta e de uma contundente crítica dos seus descaminhos. Em especial um engajamento contra o agronegócio destruidor da vida e exterminador do futuro da humanidade.


    Continuem os governos saciando a fome dos famintos com cestas básicas de alimentos como o fez o governo Lula, mas que estas “cestas” não venham do agronegócio, com produtos contaminados por venenos. Que elas tenham o selo de garantia do agricultor que produz comida sadia sem o uso de venenos. O mercado contamina os produtos e a ciência. Não há entendimento entre agronegócio e agricultura, entre produtor rural e agricultor. O Estado, as instituições de pesquisa agrária e os bancos financiadores do agronegócio confundem propositadamente agricultura com agronegócio. Enquanto a agricultura familiar sustenta mais de 70% do povo brasileiro, o agronegócio não se preocupa sequer em alimentar pessoas.

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  • 18/04/2017

    Frentes de Proteção a Povos Isolados são fechadas no AM e Focimp divulga nota em repúdio

    Os povos indígenas seguem manifestando-se publicamente contra o desmonte da Fundação Nacional do Índio (Funai) tocada a todo vapor pelo governo de Michel Temer. A Federação das Organizações e Comunidades Indígenas do Médio Purus (Focimp), em nota pública, repudia o fechamento de três Frentes de Proteção Etnoambiental dos Povos Isolados – Hi’Merimã, Katawixi e Suruwaha.

    "(…) coloca todos os povos indígenas da região do Rio Purus em completo abandono e desassistência", diz trecho da nota. A Focimp repudia também o encerramento dos trabalhos de Coordenações Locais da Funai país afora. Na próxima semana, terá início o Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília, que reunirá ao menos 1500 indígenas do Brasil.

    Leia na íntegra:

    NOTA DE REPÚDIO

    A FOCIMP – Federação das Organizações e Comunidades Indígenas do Médio Purus vem a público repudiar a decisão do presidente da FUNAI em relação às medidas tomadas na região do Médio Rio Purus sem consulta aos povos indígenas, conforme a convenção 169 da OIT.

    Repudiamos o fechamento das Coordenações Regionais da FUNAI (Cr’s) em todo o Brasil e das Frentes Etno Ambiental de Proteção aos Povos Isolados Hi’Merimã, Katawixi e Suruwaha, o que coloca todos os povos indígenas da região do Rio Purus em completo abandono e desassistência e principalmente aos povos isolados em situação de vulnerabilidade uma vez que os entornos das terras onde habitam esses povos estão sob grande pressão por interesses exploratórios.

    A FOCIMP vem deixar claro que não vai ser conivente com esse golpe de desmonte do desgoverno Temer que não nos representa e destrói todos os nossos direitos seja na saúde, educação ou na demarcação de nossas terras, incentivando assim conflitos e abrindo as portas ao agronegócio que rouba, mata e polui nossas terras e águas.

    Exigimos respeito e estaremos lutando até o último índio em defesa de nossos direitos.

    Lábrea 17 de abril de 2017.

    MARCILIO BATALHA APURINÃ

    Coordenador Executivo

    FOCIMP – Federação das Organizações e Comunidades

    Indígenas do Médio Purus

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  • 17/04/2017

    Violações e conflitos no campo batem triste recorde, segundo relatório da CPT


    "Conflitos no Campo Brasil 2016" foi apresentado hoje (17) na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em Brasília Foto: Guilherme Cavalli / CIMI

    Em 2016 foram registrados 1295 casos de conflitos por terra no Brasil, sendo 61 assassinatos, crescimento de 22% comparado ao número de homicídios do ano anterior. Estima-se uma média de quatro ocorrências por dia. Foram registradas 74 tentativas de homicídio, 200 ameaças de morte, 571 agressões e 228 prisões. Somam-se aos dados, 172 conflitos pela água e 69 violações trabalhistas, contabilizando 1536 ocorrências de conflito. Os dados presentes no relatório Conflitos no Campo Brasil 2016, organizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), apontam recorde de violações no campo, número mais elevado desde quando a CPT iniciou a pesquisa, em 1985. O estudo foi divulgado hoje (17) na Conferência dos Bispos do Brasil, em Brasília.

    Na abertura do evento, Dom Enemésio Angelo Lazzaris, presidente da Comissão Pastoral da Terra, lembra os 21 anos do massacre de El Dorado dos Carajás, onde 19 trabalhadores rurais sem-terra foram mortos pela polícia militar no sudeste do Pará. O bispo de Balsas (MA) observa que a conjuntura do país é resquício de um passado colonizador. “A base da violência de hoje é nosso passado colonial, que se repete hoje em uma política neocolonial”, denuncia. “São quatro sombras que escurecem o Brasil. A primeira é nosso modelo colonial, que dá origem a violência que enfrentamos hoje. A segunda foi o genocídio indígena, que eram mais de quatro milhões. A escravidão, somada a essas sombras, gerou a discriminação cultural. A quarta sombra, que explica grande parte da violência do campo, é a Lei de Terras do Brasil, que faz com que os pobres sejam entregues ao arbítrio do grande latifúndio”.

    Os dados mais alarmantes denunciados pelo relatório são da região onde opera o projeto MATOPIBA, do governo federal. Conflitos por terra cresceram mais de 300% em Tocantins, que passou de 24 ocorrências em 2015 para 99 em 2016. O estado, segundo Antônio Canuto, está na nova fronteira de expansão do capital. O projeto de desenvolvimento do agronegócio avança sobre o cerrado, que detém 14% da população rural do país, mas registrou 24% do total das localidades envolvidas em conflito. O membro fundador da CPT chama atenção, ainda, para os números referentes a região norte. “A Amazônia concentra grande parte da violência contra o povo do campo. São 881 ocorrências na Amazônia Legal, 57% dos conflitos se concentram na região norte do país”. O relatório aponta que dos 61 assassinatos, 48 foram registrados na região norte.


     “O ano de 2016 é um ano especialmente violento devido ao corte de recursos de instituições, como Funai e Incra" Foto: Guilherme Cavalli / CIMI
    Para o agente de pastoral, a causa do elevado crescimento das violações de direito dos trabalhadores do campo corresponde ao desmonte das instituições fiscalizadoras. “O ano de 2016 é um ano especialmente violento devido ao corte de recursos de instituições por parte do Governo, como Funai e Incra. O desmonte dessas instituições impedem ações efetivas”.

    O secretário geral da CNBB, dom Leonardo Ulrich Steiner, ao ressaltar a importância do relatório, recorda aqueles e aquelas que as denúncias fazem memória. “Este relatório não é um livro, apenas. São histórias de vidas. São histórias de pessoas. Não podemos esquecer disso”, enfatiza o franciscano. “Conflitos no Campo Brasil 2016” traz dados sobre violências sofridas por trabalhadores da zona rural, entre eles, indígenas, quilombolas e povos tradicionais. O documento está na 32ª edição.
     

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  • 17/04/2017

    Indígenas promovem III Encontro de Lideranças em Autazes (AM)

    Por J. Rosha, Assessoria de Comunicação – Cimi Norte I | Foto: Midiã Mura


    Cerca de 200 lideranças indígenas de vários povos do interior do Amazonas estão em Autazes (AM) para o III Encontro de

    Lideranças Indígenas. O evento faz parte da III Marcha Indígena promovida pelo Fórum Estadual de Educação Escolar Indígena (Foreeia), que desde a semana passada vem mobilizando as comunidades e organizações indígenas em defesa dos direitos.

    O III encontro de lideranças acontece na aldeia São Félix, localizada no município de Autazes (AM) – distante de Manaus 113 quilômetros -, onde vivem aproximadamente 40 famílias indígenas do povo Mura.

    “Hoje vivemos um momento muito preocupante em razão do cenário político. Nossos direitos estão seriamente ameaçados e nós precisamos mostrar para o governo e para os parlamentares que não concordamos com as mudanças que eles querem fazer. Vamos defender os direitos conquistados na Constituição, pois levamos 500 anos para que o Estado brasileiro reconhecesse esses direitos”, diz Gersen Luciano Baniwa, coordenador do Foreeia.

    A realização do Encontro em território Mura tem um significado importante. Sinaliza que as organizações indígenas estão apoiando a luta daquele povo num momento em que eles buscam se articular em nível regional para impedir que mais um projeto de exploração dos recursos naturais seja implantado de cima para baixo, sem considerar a existência desse povo e à margem da legislação.

    Até setembro próximo, deve ser realizada uma consulta a todas as aldeias do povo Mura sobre o projeto da empresa Potássio do Brasil, que há sete anos se instalou na região em vista da exploração de uma reserva de silvinita – mineral de onde se extrai potássio para a fabricação de fertilizantes.

    Em acordo realizado na 1ª Vara da Justiça Federal, em março passado, ficou definido o prazo de seis meses para a realização da consulta. A Juíza Jaiza Maria Pinto Fraxe considerou que a empresa não cumpriu as determinações da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Estado Brasileiro, onde é prevista consulta aos povos e populações afetados por projetos governamentais ou privados.

    Esse, porém, é apenas um dos problemas que afetam seriamente a vida dos Mura. A maioria das terras do povo não está demarcada. As aldeias estão cercadas por fazendas, muitas delas adquiridas de forma irregular, pois os ocupantes já tinham sido informados que se tratava de terra indígena.

    “Nosso povo vem sofrendo há muito tempo com as invasões. Os búfalos dos fazendeiros invadem as roças, destroem as plantações. Em muitas aldeias os fazendeiros desmatam e destroem tudo. Não tem adiantado denunciar para a Funai ou para o Ibama, pois eles não fiscalizam ou, quando fiscalizam, não detectam as irregularidades”, diz o coordenador do Conselho Indígena Mura, Raimundo Marques de Mendonça.


    O encontro se encerrará amanhã na cidade de Autazes com a realização de uma manifestação pela garantia dos direitos constitucionais. Nos dias 19 e 20, os participantes estarão em Manaus onde será realizada a Marcha pela Resistência Indígena.

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  • 13/04/2017

    Divulgado documentário ‘Enchente: o outro lado da Barragem Norte’, sobre obra que marcou a vida do povo Xokleng Laklãnõ

     


     O documentário quer ser um espaço de diálogo com a população regional que desconhece o problema vivido pelos povos indígenas. Foto: divulgação

    Encontra-se disponível online o filme ‘Enchente: o outro lado da Barragem Norte’, lançado na última sexta feira, 7, na Universidade da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu, Paraná. O documentário denuncia os impactos da Barragem Norte ao povo Xokleng Laklãnõ. A construção, localizada no município de José Boiteux, Santa Catarina, foi concluída em 1992. Após 25 anos, a represa continua a compromete a vida da comunidade indígena, que se assentou às margens do rio Itajaí nos séculos XIX e XX.

    Assista o documentário:

    Entre os impactos causados estão impedimento de acesso à terra indígena, devido a estradas submersas, o que leva ao isolamento que chega há 40 dias, além de casas alagadas e cancelamentos de aulas. A barragem alagou as terras de várzea, cobriu a aldeias e lavouras existentes, destruiu a fonte da vida que provinha das águas límpidas e piscosas do rio Itajaí do Norte.

    Para Voia Camlém, morador da Aldeia Figueira, os impactos negativos trazidos pela construção obrigaram os indígenas a se deslocarem para áreas de difícil acesso e imprópria para as necessidades básicas do povo, como direito à moradia. “A comunidade indígena não tem mais como construir uma casa. Como viver agora? O prejuízo da barragem é que não dá para fazer uma casa embaixo da montanha”, relata o senhor em depoimento presente no audiovisual.

    O documentário realizado pela Café Cuxá Filmes e produzido pelo Conselho Indigenista Missionário – Regional Sul, Conselho de Missão entre Povos Indígenas da IECLB, Fundação de Ensino Regional de Blumenau e Universidade Federal da Integração Latino Americana, foi apresentado, em sessão de pré-estreia no dia 9 de março, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis.

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  • 13/04/2017

    CPT lançará o relatório Conflitos no Campo Brasil 2016


    O relatório de 2016 destaca o maior número de assassinatos em conflitos no campo dos últimos 13 anos, 61 assassinatos – 11 a mais que no ano anterior

    No dia 17 de abril, próxima segunda-feira, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) lançará sua publicação anual, Conflitos no Campo Brasil 2016. É a 32ª edição do relatório que reúne dados sobre os conflitos e violências sofridas pelos trabalhadores e trabalhadoras do campo brasileiro, neles inclusos indígenas, quilombolas e demais povos tradicionais.

    O lançamento ocorrerá a partir das 14h30, na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília (DF). Estarão presentes no lançamento, o presidente da CPT, Dom Enemésio Lazzaris, membros da coordenação executiva nacional da CPT, representantes da CNBB, o professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Marco Mitidiero, a filha da Nicinha, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), assassinada em Rondônia, Divanilce Andrade, entre outros convidados.

    Assassinatos em conflitos no campo batem novo recorde em 2016
    O relatório de 2016 destaca o maior número de assassinatos em conflitos no campo dos últimos 13 anos, 61 assassinatos – 11 a mais que no ano anterior, quando foram registrados 50 assassinatos. 48 destes assassinatos ocorreram na Amazônia Legal. Além do aumento no número de assassinatos, houve aumento em outras violências. Ameaças de morte subiram 86% e tentativas de assassinato 68%. Os dados mostram 2016 como um dos anos mais violentos do período em que a CPT faz o registro desde 1985.

    Assassinatos e julgamentos: os números da impunidade
    Segundo os dados do Centro de Documentação Dom Tomás Balduino da CPT, entre 1985 e 2016 foram 1.387 casos com 1.834 pessoas assassinadas em conflitos no campo. Deste total, apenas 112 casos foram julgados, e houve a condenação de apenas 31 mandantes destes assassinatos.

    Serviço:
    Lançamento do relatório Conflitos no Campo Brasil 2016
    Quando: 17 de abril (segunda-feira), a partir das 14h30.
    Onde: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – SE/SUL, Qd, 801, Conj. B, Brasília (DF).

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  • 13/04/2017

    Indígenas ocupam salas de cinema: Martírio, de Vincent Carelli, estreia hoje em 19 capitais


    Patrícia Bonilha, da Assessoria de Comunicação

    O filme Martírio, de Vincent Carelli, traz para o debate a resistência dos Guarani Kaiowá diante ao genocídio do seu povo. Com estreias marcadas para hoje,13, em 19 cidades do país, o documentário denuncia os sucessivos massacres e violências contra os povos indígenas. Com aproximadamente 50 anos de indigenismo, Vincent Carelli afirma que a resiliência secular dos povos nativos nos indica como resistir à atual conjuntura, além disso, eles nos oferecem referências para a construção de um outro futuro para a humanidade.


    A Assessoria de Comunicação do CIMI conversou com o cineasta. Na entrevista publicada originalmente no jornal Porantim, edição de outubro, dentre outros assuntos, Carelli fala também sobre o terceiro filme de sua trilogia, Adeus, Capitão, que já está em fase de produção.

    Os indígenas mostram o caminho

    Filho de pai brasileiro e mãe francesa, Vincent Carelli nasceu em Paris e veio para o Brasil com cinco anos. Criado em São Paulo, a primeira vez que teve contato com indígenas foi através de um vizinho que era missionário dominicano. Ele tinha 16 anos, e a experiência aconteceu no Pará, com o povo Xikrim. Fascinado por aquele primeiro convívio com os indígenas, desde então sua vida está profundamente vinculada aos povos nativos do Brasil. Vincent (que deve ser pronunciado “Vançant”) chegou a cursar Ciências Sociais por um ano, mas percebeu que a academia não era seu caminho e voltou pras aldeias. Após trabalhar na Fundação Nacional do Índio (Funai) por dois anos, fundou, em 1979, com um grupo de antropólogos a organização Centro de Trabalho Indigenista (CTI). Em 1986, criou o projeto Vídeo Nas Aldeias (VNA), que se tornou um importante instrumento de expressão das diversas identidades indígenas, além de reflexão sobre suas visões de mundo. Vinte anos depois, seu documentário Corumbiara obteve amplo reconhecimento. Prestes a completar 50 anos de indigenismo, seu último filme Martírio foi ovacionado no último Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em setembro de 2016. A partir de um amplo histórico fundamentado em dados oficiais, arquivos históricos e imagens produzidas por ele por mais de 10 anos, ele denuncia mais de um século de omissão diante do genocídio contemporâneo do povo Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul.

    Porantim – O que você observa de mais crucial nestes quase 50 anos de convivência com diversos povos indígenas no Brasil?

    Vincent Carelli – O Brasil mudou muito neste período, pra frente e pra trás. O movimento indígena cresceu, ganhou muito em protagonismo. Quando comecei, o controle da Funai sobre os índios era muito grande e o paternalismo autoritário extremamente desmobilizador politicamente. Ainda durante a ditadura, o engajamento da sociedade brasileira, do Cimi [Conselho Indigenista Missionário] e das ONGs trouxe para a pauta nacional a temática indígena. O movimento contra o decreto de “emancipação” foi um marco nesta história, que veio a ser coroado com a Constituinte de 88. Mesmo não tendo sido regulamentado até hoje, o Estatuto do Índio pelo menos colocou por terra o velho estatuto pelo qual o índio era considerado praticamente incapaz. A Constituinte estabeleceu, dentre outras coisas relevantes, a intermediação do Ministério Público em conflitos de interesse entre o Estado e as comunidades indígenas e o direito dos índios de terem representatividade jurídica. Apesar disso, a Funai demorou mais de uma década para aceitar a legitimidade das associações indígenas na representação de seus povos. A Funai sempre foi marcada pela sua herança autoritária militar, por pouco investimento e limitada autoridade. Além disso, os índios entenderam que precisavam assumir seu protagonismo e cuidar dos seus próprios interessses, e não ficar esperando que o Estado lhes concedesse algum direito. Hoje estamos vivendo novamente a destruição causada pelos grandes projetos, que vivemos na ditadura. Mas, atualmente, sem o recurso de empréstimos do Banco Mundial, do BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento], que foi muito importante em épocas passadas. Como o governo militar dependia dos empréstimos do Banco Mundial e do BID, isso permitia que pressionássemos estes bancos para exigir condicionantes e reparações frente aos impactos dos grandes projetos. Hoje, no entanto, o Brasil é que empresta dinheiro para estas instituições e esta estratégia perdeu sua eficácia.

    Porantim – Mesmo considerando a diversidade de povos, é possível afirmar que os indígenas têm um olhar particular, em relação aos não indígenas?

    Vincent Carelli – A narrativa baseada em uma visão de dentro, só eles podem ter. Esta perspectiva intimista, tanto do dia a dia como das lutas indígenas, tem toda uma memória, uma afetividade, uma emoção, que é só deles. Recentemente foi lançado um filme que mostra, em uma longa tomada, um índio no Mato Grosso do Sul em um amplo campo de soja, com apenas um pé de árvore, único. O índio fica tecendo considerações sobre o significado daquilo. E tudo na língua nativa. Os mais velhos só conseguem se expressar na sua própria língua, geralmente. Só eles têm esta memória e vivência. Isso já significa totalmente outra coisa. O que o Vídeo nas Aldeias almejou há 30 anos era isso: hoje tem indígena filmando no Brasil todo. O que a gente reclama é que estamos paralisados na formação. Temos índios fazendo registro e os primeiros cineastas indígenas que formamos ganharam muita visibilidade. Isso fez com que no Brasil haja muita gente interessada em apoiar produções indígenas e o cenário audiovisual brasileiro tem reconhecido a importância desta produção. Mas falta muita coisa, como um mapeamento nacional, um grande portal do cinema indígena, além de políticas públicas. Os índios não podem concorrer no mercado de editais da mesma forma porque dependem da escrita e não têm esse traquejo. Temos que formular outras vias de acesso a essa produção e aos processos de formação também, para que as produções cresçam com qualidade e possamos ampliar o escopo da difusão desses trabalhos, absolutamente necessários para povoar o imaginário brasileiro, tão distante da realidade indígena. Mas na conjuntura atual não dá nem pra pensar nisso.

    Porantim – Fale um pouco sobre a produção feita por não indígenas…

    Vincent Carelli – A produção feita por não indígenas tem de tudo, tem coisas muito boas e também tem outras equivocadas. Mas não podemos entrar nessa de coibi-la. Este tipo de apropriação cultural vem sendo muito discutido no Canadá recentemente. A própria produção indígena é fruto de uma parceria entre indígenas e não indígenas. Acho que o desconhecimento da realidade indígena é tão grande e o desinteresse sobre ela tão amplo que quanto mais produções indígenas ou sobre os indígenas forem feitas melhor. Não cabe um apartheid, um julgamento global sobre o fenômeno. Acho bastante positivo o interesse, principalmente, das novas gerações. Outra dimensão fundamental é levar esta produção pras salas de aula. Desde 2009 o VNA trabalha com esta dimensão de levar as diversas realidades dos povos para as escolas.

    Porantim – E como você avalia o chamado “cinema de índio”?

    Vincent Carelli – Sem dúvida ele traz uma inversão nesta perspectiva de exotizar os índios, do “nossa, que estranho!”, explicitando um estranhamento. O olhar indígena humaniza os índios. Ele é intimista, coloca as coisas que nos parecem estranhas no seu devido lugar e contexto. E qualquer público é capaz de perceber isso. Desde o começo, nos primeiros filmes de oficina do VNA o que chamava muita atenção era justamente a clara surpresa do público no sentido de reconhecer e explicitar que nunca tinha tido acesso à realidade indígena com um olhar de dentro. E isso toca muito as pessoas, cria empatia.


    "Há um grande empatia do público com o filme devido a este retrato atual da situação do país. O filme mostra que os indígenas resistem há mais de 500 anos, e é isso que precisamos fazer agora” Foto: : Wilson Dias/Agência Brasil

    Porantim – Os filmes atuais têm contribuído para dar visibilidade à realidade dos povos, especialmente as violações e violências sofridas por eles no Brasil?

    Vincent Carelli – Sabemos que a realidade é brutal e a grande questão por trás dos dos interesses e jogos que geram e mantêm o preconceito e a discriminação contra os povos  é a disputa por recursos naturais, especialmente a terra. O desafio de quem se dedica a dar visibilidade a esta realidade e seus contextos é ampliar o público e ser visto não só pelos amantes dos índios, que já estão do nosso lado. Ampliar o universo de difusão deste material. Na medida em que se consegue isso, se potencializa o efeito. E para isso, repito, o envolvimento das escolas é muito importante. Fazer com que os jovens em formação tenham este contato amigável, sedutor com a realidade indígena. E, nesse sentido, tem que haver a preocupação de que a produção não pode ser um panfleto chato, e de que tem que ter qualidade cinematográfica. Se não tiver esta dimensão, não atravessa fronteiras, fica num circuito muito fechado e tem pouca eficácia. Mesmo quando os indígenas fazem um cinema de dimensão mais cultural também é um cinema político. Para as minorias, a questão da identidade – não a genérica, “do índio”, mas a específica, dos povos -, a identidade étnica cultural é a mais política que tem. Não é porque está retratando o dia a dia, o xamã, os aspectos daquela comunidade que não é um gesto político. Ao contrário, pode ter até mais eficácia que o panfleto porque tem capacidade de gerar empatia, interesse, seduz, causa curiosidade. Está havendo uma nova valorização dos povos nativos, não só no Brasil. É um fenômeno mundial, e está relacionado com esta catástrofe ambiental anunciada, com a crise civilizatória do capitalismo. O contraponto de vida dos povos nativos, quaisquer que sejam eles, tornou-se uma referência para gerar uma reflexão crítica sobre a crise pela qual a gente tá passando. Este é o principal motivo deste interesse renovado pelos povos nativos e por seus modos de vida.

    Porantim – Há possibilidades de Martírio ser exibido também em salas do circuito comercial?

    Vincent Carelli – Pela primeira vez foi aberta esta possibilidade, mas estou em dúvida porque é um processo que demora e eu teria que ficar segurando o filme enquanto há uma demanda grande das pessoas para ver e conhecer o filme. Por outro lado, seria uma ótima oportunidade ampliar para um público que, normalmente, não assistiria a um filme “de índio”. Temos que pensar o que vale mais a pena. Agora, certamente vai para a TV. O Canal Curta sempre esteve interessado. Talvez, como o filme é longo, seja preciso adaptá-lo em um formato de minissérie de cinco capítulos. Outra possibilidade é este circuito de festivais. Depois da repercussão do festival de Brasília, notícias sobre Martírio estão sendo publicadas em quase todas as capitais. Os movimentos sociais já estão pedindo pra gente liberar o filme e, além disso, a atual conjuntura demanda uma ampla divulgação. Estamos também trabalhando com o Mestre e o Divino, mas é difícil levar às pessoas, já que não temos uma máquina de divulgação na mão, como é próprio dos filmes comerciais. Temos que aproveitar a repercussão de Martírio pela urgência e importância de levar este tema a frente. Vamos fazer um lançamento na Aty Guasu, em Dourados, e teremos pelos menos mil cópias para os índios, também vamos distribuir pra militância, pro Cimi. Temos que consolidar as convicções e os argumentos da militância em relação ao genocídio, irmos à raiz do problema, às questões centrais, que são, primeiro, o golpe jurídico que o marco temporal representa em relação às demarcações das terras indígenas. As expulsões dos povos indígenas de suas terras tradicionais constituem um crime de humanidade, que não prescreve. Não há como zerar a história dos índios, os crimes cometidos que fizeram com que a maioria dos Guarani-Kaiowá, por exemplo, não estivesse nas suas áreas em 1988. Quem não estava, era porque tinha sido expulso, e eles não podem ser punidos porque tinham sido expulsos. A segunda questão central é que o Estado precisa assumir a sua própria responsabilidade. Se tivesse coragem de admitir os erros, como fez a Austrália, o Canadá, alguns países nórdicos, isso modificaria o rumo de todos os processos judiciais que estão correndo. Teria uma enorme repercussão no campo jurídico… Mas o Brasil não conseguiu fazer nem uma Comissão Nacional da Verdade real, um ajuste de contas com a ditadura e os crimes ocorridos nela, então, dificilmente vai reconhecer a necessidade de assumir a sua própria responsabilidade em relação aos povos indígenas. Nesse sentido, as denúncias internacionais que os Guarani-Kaiowá têm feito na Europa são fundamentais, já que eles compram nossa soja e nosso bife. O caso Guarani-Kaiowá merece um tribunal internacional.

    Porantim – No filme você destaca a religiosidade dos Guarani e Kaiowá no processo da resistência. Fale um pouco mais sobre isso.

    Vincent Carelli – Os povos nativos vivem com intensidade a sacralização, consideram-se parte da natureza. No caso Guarani-Kaiowá, o que mantém a resistência deles é justamente a força religiosa. É daí que vem a força, onde está o segredo, o motor da sua histórica resiliência. A dimensão da espiritualidade na vida deles é realmente impressionante e me marcou profundamente.

    Porantim – Adeus, capitão, o último filme da trilogia está em fase de produção?

    Vincent Carelli – Sim. A ideia é que esses três filmes proponham uma reflexão sobre a complexa realidade indígena através da minha trajetória indigenista, dos casos emblemáticos da política indigenista brasileira que acompanhei, colaborei, trabalhei. Há quem ame e há quem odeie os índios no Brasil, mas, geralmente, ambos os mitificam. Por isso é importante aprofundar e tentar entender toda a sua complexidade. A primeira filmagem de Corumbiara [que retrata o massacre de índios no sul de Rondônia] foi em 1986; a de Martírio, em 1988; e a primeira filmagem de Adeus, Capitão foi também em 1986. Neste último caso, trata-se da realidade de um povo que foi quase extinto, os Gavião Parkatêjê, do Pará. Eles conseguem se recuperar, ganham autonomia pra gerenciar seus castanhais mas, posteriormente, são devastados pelos grandes projetos da Amazônia, como a Hidrelétrica Tucuruí e a Ferrovia de Carajás. Esta questão é muito atual hoje. O Brasil investe muito pouco na Funai, mas quando tem interesses econômicos envolvidos, derramam dinheiro. Muito é usado no sentido de cooptar, de quebrar a resistência dos povos, pra garantir a construção de hidrelétricas, por exemplo. Isso desorganiza avassaladoramente, e coloca muitas dificuldades pra comunidade. O filme aborda a forte entrada do capitalismo, do dinheiro, do consumo numa sociedade igualitária. Ouvimos os Gavião, o que eles pensam. É uma reflexão e complexificação sobre essas mudanças históricas no Brasil e, novamente, sobre a relação do Estado Brasileiro com os povos indígenas.

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  • 12/04/2017

    Ato Inter-religioso em Brasília (DF) fará memória dos 20 anos do assassinato do indígena Galdino Pataxó Hã-Hã-Hãe


    Pataxó Hã-Hã-Hãe fazem ato em memória a Galdino na Praça Compromisso, em Brasília. Foto Renato Santana/CIMI

    Acontecerá no dia 20 de abril de 2017, às 18 horas na Praça do Compromisso, Brasília, DF, o Ato Inter-religioso em memória dos 20 anos do assassinato de Galdino Jesus dos Santos. Liderança do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, presente no sul da Bahia, Galdino foi queimado na madrugada do dia 20 de abril de 1997, quando dormia em uma parada de ônibus da W3 Sul, zona central da capital federal.

    O Ato Inter-religioso, que fará memória a história e vida de Galdino Pataxó Hã-Hã-Hãe e denunciará toda forma de racismo e violação de direito aos povos originários, é organizado pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, Conselho Indigenista Missionário, Rede Ecumênica da Juventude, Conselho Indígena do Distrito Federal, Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília , Comissão Brasileira Justiça e Paz e  Fórum Ecumênico ACT – Brasil. Estarão presentes indígenas relembrando a resistência e luta diante as violações dos direitos constitucionais e das políticas anti-indígenas do Estado brasileiro.

    Informações sobre o Ato Inter-religioso em memória de Galdino Pataxó Hã-Hã-Hãe.

    Quando: 20 de abril de 2017
    Horário: 18 horas
    Onde: Praça do Compromisso, entre as Quadras 703 e 704 Asa Sul do Plano Piloto – Brasília (DF)
    O que: o ato contará com apresentações culturais, depoimentos de lideranças da causa indígena e caminhada

    “Por que fizeram isso comigo?”

    Galdino Pataxó Hã-Hã-Hãe viajou à capital no dia 18 de abril de 1997 para debater com representações do poder público sobre a situação da terra do seu povo, a área de Caramuru/Paraguassu, sul da Bahia. Após reuniões e de participar de comemorações que marcavam o Dia do Índio, evento organizado pela Funai, Galdino não conseguiu voltar a pensão onde estava hospedado. Dormiu em um ponto de ônibus na Asa Sul, onde foi queimado por um grupo de cinco jovens de classe média.

    Socorrido, foi levado a um hospital de Brasília. Completamente cego, devido as queimaduras nas córneas, mas ainda consciente, identificou-se à equipe médica e indicou a localização de seus parentes indígenas. Antes de entrar em coma, perguntou repetidas vezes: “Por que fizeram isso comigo?”. Com queimaduras em 95% do corpo, Galdino não resistiu e faleceu na madrugada de 21 de abril.

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  • 11/04/2017

    Uma cerca a menos, um dia a mais: de pé, o povo Gamela luta pelo chão sagrado e pela existência

    Caminhada Gamela no município de Viana (MA). Divulgação das fotos: Povo Gamela


    Por Kum’tum Gamela, povo Gamela


    Com nossos Ancestrais, no último dia 6 marchamos sobre a cidade de Viana, aqui no Maranhão, em defesa do direito à existência e ao nosso território. Éramos homens e mulheres Gamela; guerreiros e guerreiras, alguns com poucos meses de vida. O sol brilhava forte e em cada um de nós havia um sentimento profundo da urgência da luta. Vivemos tempos difíceis.

    Um dos nossos guerreiros foi intimado a comparecer à delegacia de Polícia Civil sob a acusação de cortar cercas de arame farpado. Os povos indígenas sabem o que significam essas cercas: ameaçam nossos caminhos, mas, sobretudo, pretendem apagar nossa história, nossa memória.

    Há anos um invasor aprisionou um pequizeiro e um bacurizeiro centenários, com cerca de arame farpado. Ambos guardam em seus galhos e frutos parte de nossa memória. Jamais vamos aceitar que aprisionem o que somos. Ainda mais dentro do território tradicional. Conflitos assim sempre terminam com acusações contra nossa gente, nosso povo.

    Não somos um indivíduo. Somos um Povo! Nós cantamos: “Pisa ligeiro… Quem não pode com formiga não assanha o formigueiro”. Tomamos a decisão, apesar da oposição dos delegados, que todos e todas entrariam no prédio da delegacia. Também decidimos que não aceitaríamos ser intimados para discutir com a polícia o direito ao nosso território.  

    Adentramos ao prédio convidando o povo da cidade a se levantar para ver a (in)Justiça no Maranhão que manda prender índio e preto e manda soltar fazendeiro.

    Houve desacordo entre os delegados. Um disse não saber que a denúncia envolvia comunidade indígena; o outro gentilmente disse que os dois sabiam dos conflitos envolvendo o direito territorial indígena e que esta questão extrapola a competência da Polícia Civil. Uma vez reconhecida a incompetência da polícia, decidimos sair do prédio, deixando para trás delegados e fazendeiros-grileiros que nos tinham denunciado.

    Em resposta a esta tentativa de intimidação e imobilização, cantamos forte: “Quem deu esse nó / não soube dar…”.

    Mas há mais cercas a serem derrubadas. Em assembleia decidimos tomar em nossas mãos a educação escolar indígena diferenciada. Estamos dando passos agora possíveis. Em 31 de março, a Secretaria Municipal de Educação assumiu, em reunião com nossas lideranças, que as aulas se iniciariam no dia 3 de abril. Entretanto, no dia 5 de abril, fomos comunicados por meio de professores que as aulas não teriam prazo para serem iniciadas em função de pendências.

    Que pendências? A efetivação do direito à educação conforme legislação em vigor?

    Educação é um Direito e tem que ser do nosso jeito. Não admitimos negociar direitos. Fomos ao Ministério Público Estadual denunciar a arbitrariedade da Prefeitura de Viana. Vamos aguardar o início das aulas até o dia 10 de abril. Caso não comece, ocupamos a Secretaria Municipal de Educação. Fizemos uma roda de cantoria. Fomos ao gabinete do secretário. Deixamos nosso recado.



    Rituais marcaram as ações pacíficas dos Gamela em Viana

    Pelo direito de ter Gamela no nome

    A nossa caminhada seguiu para o Fórum da Comarca de Viana para denunciar à Justiça que o tabelião do Cartório do 2º Ofício está negando o Registro Civil de Nascimento aos nossos filhos e às nossas filhas recém nascidos.

    A conduta do oficial é uma afronta à Constituição Federal, à Convenção 169/OIT, e à Resolução Conjunta Nº 03, de 19 de abril de 2012, publicada pelo Conselho Nacional de Justiça e pelo Conselho Nacional do Ministério Público.

    Nós temos direito ao nome em nossa língua, à etnia como sobrenome, à inclusão das nossas aldeias na Certidão de Nascimento. O direito ao nome é um direito que faz com que a pessoa seja reconhecida no mundo humano. Negar nosso nome é ferir nosso lugar na vida.

    A juíza responsável pelo Cartório assumiu o compromisso de estudar a legislação pertinente, bem como consultar outros juízes e juízas para, em seguida, encaminhar uma solução. Aguardamos que o direito à nossa visibilidade étnica seja assegurada em nossos documentos.

    Sob as sombras das árvores sagradas

    Novamente tivemos que enfrentar a despreparo e a truculência da polícia. Tentaram interromper nossa caminhada, ameaçaram reter veículos, conduzir-nos coercitivamente à delegacia. Mas nós seguimos de cabeça erguida com a certeza de que lutar não é crime.

    Ao retornar ao nosso território, assumimos o compromisso – sob a sombra refrescante do bacurizeiro e do pequizeiro – que lutaremos para que eles sigam livres, sem cercas, e para que seus frutos sejam de todos nós que pertencemos a este chão sagrado.

    Este dia marcou nossas vidas em luta para defender o território às futuras gerações, às nossas florestas, aves, animais, às nossas nascentes, aos nossos rios sob a proteção e guia dos nossos Encantados.


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