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Foto: Guilherme Cavalli / Cimi
Em nota divulgada após 25º Capítulo Geral, Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora Aparecida, de fundação brasileira, denunciaram os retrocessos do atual governo nas políticas indigenistas. “Os povos indígenas vêm sofrendo as consequências de uma política que está beirando a "etnocídio", com desmonte da FUNAI, alteração e paralisação dos processos de demarcação das terras tradicionais, falta de políticas específicas na saúde e educação indígena e criminalização das lideranças”, ressalta a nota. A congregação religiosa optou como uma das prioridades do quadriênio 2017 a 2020 o apoio e defesa efetivamente a causa indígena.
No texto, as religiosas de vários estados do Brasil, de Guiné Bissau e Bolívia repudiaram as medidas “entreguistas antinacionais” referente a Amazônia e políticas de mineração e agronegócio. “Expressamos nossa reprovação ao sistema econômico que "justifica o sistema mundial atual, onde predomina uma especulação e uma busca de receitas financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e sobre o meio ambiente.", conforme se expressa o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si — 56, sobre nossa "Casa comum" que vem sendo explorada, agredida, violentada".
Leia a nota na íntegra:
Congregação das Irmãs Franciscanas
de Nossa Senhora Aparecida
Carta Aberta
Porto Alegre, 26 de outubro de 2017
Iluminadas pelo Tema: "Discípulas de Cristo na Itinerância e Universalidade, Comprometidas com a Vida", e o Lema: "Vi a miséria, ouvi o clamor, conheci o sofrimento e desci para libertar" (Ex. 3,7-8), nós, Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora Aparecida reunidas em nosso 259- Capítulo Geral não nos permitimos assistir caladas ao sofrimento em que o povo brasileiro está submetido, por conta de um governo ilegítimo e sem integridade moral, seja no executivo, legislativo e judiciário. Em sintonia com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil que nos lembra: "Os Direitos Sociais no Brasil foram conquistados com intensa participação democrática, qualquer ameaça a eles merece imediato repúdio." Por isso viemos nos manifestar através desta carta.
Os povos indígenas vêm sofrendo as consequências de uma política que está beirando a "etnocídio", com desmonte da FUNAI, alteração e paralisação dos processos de demarcação das terras tradicionais, falta de políticas específicas na saúde e educação indígena e criminalização das lideranças. Inspiradas pelo nosso Carisma, assumimos como Decisão Capitular: "Um compromisso mais efetivo, apoiando e defendendo a causa indígena, para que sejam respeitados e fortalecidos na sua cultura e na garantia de seus direitos.", para que todos os povos tenham vida e a tenham em abundância (cf.DA).
Expressamos nossa reprovação ao sistema econômico que "justifica o sistema mundial atual, onde predomina uma especulação e uma busca de receitas financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e sobre o meio ambiente.", conforme se expressa o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si — 56, sobre nossa "Casa comum" que vem sendo explorada, agredida, violentada.
Somando-nos a outros grupos sociais, repudiamos veementemente as medidas entreguistas antinacionais e de retrocessos de direitos constitucionais – Amazônia, Mineração, Agronegócio… . Destacamos que as consequências na vida do povo serão irreversíveis devido aos cortes e congelamento de recursos em diversas áreas sociais: saúde, educação, segurança e assistência social, impostas pelo governo atual à sociedade brasileira, à revelia da lei e de maneira autoritária. São alterações de extremo impacto social, sem apoio da população. A terceirização irrestrita e outras reformas, que precarizam o trabalho, eliminaram diversos dir&tos conquistados ao longo dos últimos anos.
Neste ano em que celebramos o Jubileu de 300 anos de devoção a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, vivenciamos mudanças na definição e fiscalização contra o trabalho escravo em nosso país, em portaria publicada pelo Ministério do Trabalho, o que provocará retrocessos lamentáveis no combate a esse crime, aumentando desproteção e vulnerabilidade de uma parcela da população já muito frágil.
Que a Nossa Senhora Aparecida, abençoe e defenda o nosso Brasil!
Ir. Iriete Lorenzzetti
Ministra Geral e Irmãs Capitulares

Roberto Malvezzi (Gogó)*
Dia 18 de janeiro de 2018 o Papa Francisco irá a Puerto Maldonado, Peru, encontrar-se exclusivamente com povos originários da Amazônia. Tudo indica que sequer haverá reuniões particulares com autoridades, sejam elas políticas ou mesmo eclesiásticas.
Essa ida a Amazônia para encontrar-se com “indígenas” já estava programada para quando ele viesse aos 300 anos de Aparecida. O golpe modificou a vinda do Papa. Embora as razões oficiais alegadas sejam outras, quem entende um pouco da linguagem diplomática do Vaticano sabe qual o motivo real.
Será a primeira vez na história da Igreja Católica, em seus 2 mil anos, que um Papa sairá do Vaticano para encontrar-se exclusivamente com indígenas. O gesto fala por si mesmo, ainda mais agora que Francisco acaba de convocar um Sínodo exclusivo para os bispos da Amazônia, em Roma, em Outubro de 2019.
Francisco ir ao encontro das populações originárias – querem ser chamadas pelo nome de seu povo, não por um apelido imposto pelos colonizadores – parece um paradoxo. Esses dias o mesmo Francisco canonizou cerca de 30 pessoas do Rio Grande do Norte por terem sido massacradas por holandeses em 1645. Depois de longos estudos ficou concluído que “foram mortos em defesa da fé católica”, numa resistência à imposição do calvinismo na região por parte dos holandeses.
Acontece que o ataque tinha também participação dos índios Tapuia, que os antropólogos dizem não ser uma etnia, mas uma designação à várias nações indígenas que habitavam o interior do Brasil e que falavam uma língua diferente dos tupi-guarani, como os Cariri.
Os Tapuia estavam em guerra declarada contra os portugueses, porque esses avançavam o interior fazendo-os escravos, ocupando seus territórios, com matanças e até torturas de lideranças. Assim como na Confederação dos Tamoios, quando os Tupinambá se uniram aos franceses contra os portugueses, os Tapuia se aliaram aos holandeses contra a prática de extermínio dos portugueses. Portanto, os povos originários entendiam da arte da guerra e de suas alianças.
É bom lembrar que só no Brasil 5 milhões de índios viraram pó pelas mãos dos portugueses. No México, América Central e Peru, milhões de índios foram chacinados pelas mãos dos espanhóis. Como diziam os Mapuche, quando derreteram quilos de ouro e os enfiaram incandescentes goela abaixo de Valdivia, o conquistador do Chile: “beba o seu Deus”.
Portanto, os povos originários das Américas têm mártires aos milhões, cujo sangue também clama aos céus.
Esperamos que Francisco retome o melhor do Conselho Missionário Indigenista, o CIMI, que não foi aos indígenas para fazer prosélitos e nem os converter ao cristianismo, mas para colaborar para que sobrevivam e mantenham seus territórios e seus modos de vida. Com esses missionários a Igreja Católica deu vários passos à frente na relação com a alteridade das populações originárias, seguindo a melhor tradição de Bartolomeu de Las Casas.
Não se obriga um muçulmano a ser católico, não se obriga um pai de santo a ser evangélico, não se obriga um Cariri ou Guarani a ser cristão. Eles têm sua própria religião e suas opções tem que ser respeitadas. O evangelho é apenas um anúncio e adere livremente quem quiser.
Não há outro caminho.
*Roberto Malvezzi – Gogó
Membro da Equipe de Assessoria da REPAM (Rede Eclesial Pan Amazônica)
Categories Ameríndia, Assessoria Teológica
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