Marcha das Mulheres Indígenas manifesta repúdio ao feminicídio e à omissão do Estado diante da violência de gênero
Lideranças, mães, jovens e anciãs – que sustentam a organização indígena nos territórios, nas aldeias e na cidade, garantindo que a luta continue viva – caminharam unidas pelas ruas de Manaus

Foto: Ligia Apel/Cimi Regional Norte I
Mãos que seguram faixas e cartazes evidenciando resistência; passos dados com firmeza em uma caminhada incansável à frente de uma luta que não cessa; vozes que ecoam contra o feminicídio e a violência que o Estado não vê – todos em defesa do direito à vida e à existência com dignidade. Essas foram as marcas da 4ª Marcha das Mulheres Indígenas de Manaus e Entorno, realizada no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, pela Coordenação de Povos Indígenas de Manaus e Entornos (Copime).
O ato contou com o apoio da Rede de Mulheres Indígenas do Amazonas Makira-E’ta, da Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (Apiam), da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), do Fórum de Educação Escolar e Saúde Indígena do Amazonas (Foreeia), do Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas (Meiam) e da organização indigenista Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares).
Durante o percurso, a manifestação se encontrou com a mobilização de outras organizações e movimentos que compõem o Fórum Permanente de Mulheres de Manaus, espaço político de debates, e atuação em defesa dos direitos humanos das mulheres. “Esse encontro fortaleceu ainda mais o ato, mostrando que a luta contra a violência e o feminicídio precisa ser coletiva”, afirmou a representação do Foreeia em suas redes.
“A violência sofrida pelas mulheres indígenas é consequência do machismo e racismo estrutural da sociedade”

Foto: Ligia Apel/Cimi Regional Norte I
A Marcha seguiu o tema “Mulheres Indígenas contra o feminicídio e a violência que o Estado não vê”, e a coordenadora da Copime, Marcivânia Sateré Mawé, disse que a articulação concretizada nesse 8 de março é essencial para fortalecer essa luta. “A Marcha é uma junção dos coletivos indígenas, junto com o Fórum Permanente também. A tendência é cada vez mais nós irmos às ruas, porque o feminicídio e a violência praticada contra as mulheres são números que nos indignam e que a gente precisa ir para a rua falar, pois a gente sofre isso tudo todos os dias, principalmente nós mulheres indígenas. A luta contra o feminicídio só é possível com essa articulação, com essa junção de mãos e corações”, afirmou.
Uma das denúncias mais doloridas que as mulheres indígenas fizeram durante a Marcha foi de que “agressões contra as mulheres são uma questão cultural”. Desconstruindo o argumento, disseram que essa ideia “invisibiliza ou naturaliza a violência, perpetua o racismo e impede a proteção das mulheres indígenas”, e afirmaram que a violência sofrida pelas mulheres indígenas é consequência do machismo e racismo estrutural da sociedade. A colonização, em seu processo histórico de perda dos modos de vida tradicionais e territórios, bem como a proximidade com o modo de vida não indígena, marginalizou e desestruturou muitas comunidades originárias, introduzindo e agravando formas de violência de gênero dentro das comunidades.
Marcivânia é contundente nessa desconstrução e na revitalização da verdadeira posição das mulheres indígenas dentro de suas aldeias e comunidades. “Nunca foi cultura, pelo contrário. Nas comunidades e no núcleo familiar, as mulheres são aquelas que propagam a paz, a harmonia. Dizer que isso [a violência] é da cultura indígena é um ataque a nós, mulheres, porque ela foi introduzida a partir da relação e vivência com os brancos, mas nunca foi cultura. A relação da mulher com a natureza é de vida, uma relação da qual fazemos parte do mesmo ser. E as mulheres são as maiores cuidadoras da natureza e do território, das águas, da floresta e dos animais.
“Estamos na rua porque esse Estado continua violentando os nossos direitos”

Foto: Ligia Apel/Cimi Regional Norte I
A rua e o Estado
Percorrendo as ruas de Manaus, a Marcha “reuniu vozes, corpos e territórios em um só grito contra o feminicídio e as violências que o Estado insiste em não ver”, escreveu Makira-E’ta em suas redes sociais, afirmando que estar nas ruas é primordial para fortalecer a luta em defesa das mulheres indígenas. “Marchamos por justiça, marchamos por nossas vidas, marchamos para que nenhuma mulher indígena seja silenciada. Cada passo foi denúncia, memória e compromisso com a construção de políticas públicas que garantam proteção, dignidade e direito às mulheres. Seguimos em movimento, porque quando as mulheres indígenas avançam, nossos povos avançam com elas”, enfatizam.
“Estamos na rua porque esse Estado continua violentando os nossos direitos. E quando esse Estado violenta nossos direitos, são nossos corpos, que são os nossos territórios, que pagam a conta. Uma conta muito alta por essas injustiças que o Estado continua produzindo e reproduzindo, por esse racismo estrutural que faz com que as instituições públicas não efetivem os nossos direitos”, reverberou a líder Vanda Witoto, analisando a construção e efetivação de políticas públicas indigenistas.
“Esse Estado precisa reconhecer nossas políticas públicas, já temos leis que reconhecem nossos direitos. Falta o Estado respeitá-las. Mas, enquanto nós, indígenas, estivermos dando poder [político] nas mãos dos filhos e netos daqueles que roubaram as nossas terras, os nossos direitos não vão alcançar nossos territórios, nossos direitos não vão alcançar os nossos povos”, alertou, lembrando que 2026 será um ano de escolhas de representantes reais e legítimos dos povos indígenas. “Devemos ocupar espaços da sociedade que garantam que nossos direitos sejam respeitados”.
A líder Witoto finalizou seu manifesto relacionando corpos, territórios e ancestralidade para a continuidade da luta em defesa da vida indígena. “O nosso maracá invoca toda a nossa ancestralidade que mantém os nossos corpos vivos. Mais uma vez, nós, povos indígenas, mulheres, avós, crianças, juventudes, nossos corpos estão na rua para dar continuidade à nossa existência”, anunciou.
“Quando o Estado violenta nossos direitos, são nossos corpos, que são os nossos territórios, que pagam a conta”

Foto: Ligia Apel/Cimi Regional Norte I
Juventude e identidade
Nessa perspectiva de continuidade da luta para que as conquistas alcancem as novas gerações, a jovem estudante Taíssa Kambeba declara que sua participação tem fundamento nas vidas que a antecederam lutando para que ela estivesse hoje no movimento indígena, nas ruas e na Marcha das Mulheres, fortalecendo sua identidade e a vontade de adquirir e multiplicar conhecimentos.
“Tem várias críticas por eu ser mulher e por eu ser indígena. Mais ainda por ser ativista e trabalhar pela defesa das pessoas e dos povos indígenas. Enfrento muito preconceito em todos os lugares. São coisas que mexem com o nosso psicológico. Então, estar aqui, participar da Marcha é muito importante para mim porque estou junto, não estamos sozinhas”, afirmou, esperançosa de levar em frente os aprendizados.
“Não vou deixar qualquer pessoa abalar minha cabeça e meu coração. Muitas vezes a gente é violada até em nossa fala. Não escutam a nossa opinião. Então, estando aqui, a gente já cresce no movimento e com esse objetivo na cabeça, de querer um mundo melhor, não para a gente, mas para as futuras gerações, para os nossos filhos, para nossos sobrinhos, para que eles não passem pelo que a gente passa”, disse, comentando as violências, inclusive sexuais, que as mulheres indígenas sofrem. “Que não passem pelas violações que passamos, por mãos que nos violentam tocando em partes que não são para qualquer um tocar. Para que possam crescer em um ambiente melhor, sem essas violências”, afirmou.
A jovem, com energia e vontade de aprender, resumiu seu objetivo: “Vou aprender para poder levar sabedoria. Eu vou aprender e guardar, e vou ensinar tudo o que eu puder para as futuras gerações”, concluiu.

