Memória, fé e justiça: a páscoa de Vicente Cañas na terra indígena Enawenê Nawê
A história de um dos maiores símbolos da missão junto aos povos indígenas no Brasil ganhou um desfecho concreto após quase 40 anos: o sepultamento dos restos mortais de Vicente Cañas (Kiwxi) no território Enawenê Nawê, onde viveu, lutou e foi assassinado.

Foto: Pe. Renan Dantas
Entre os dias 5 e 11 de abril de 2026, uma missão formada por representantes do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), da Operação Amazônia Nativa (OPAN), da Companhia de Jesus, da Diocese de Juína e do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT/Campus Juína) celebrou a Páscoa de Vicente Cañas (Kiwxi) com o sepultamento de sua calota craniana na Terra Indígena Enawenê Nawê, no noroeste de Mato Grosso. Foi naquele território que o missionário viveu junto ao povo Enawenê Nawê, testemunhou sua fé e entregou a própria vida na defesa dos direitos indígenas. Familiares espanhóis e indígenas de Vicente participaram da cerimônia.
Para o missionário Sebastião Carlos Moreira, do Cimi Regional Mato Grosso, a cerimônia representou o encerramento de um ciclo marcado por quase quatro décadas de luta por memória e justiça. Vicente Cañas foi assassinado em 1987 por sua atuação na defesa do território Enawenê Nawê, povo com quem escolheu viver. “Fica seu legado de determinação, coragem e compromisso com a causa indígena. Para quem acompanhou essa história de perto, permanece também a certeza de que a luta vale a pena e de que desistir nunca é uma opção”, afirmou.
Uma vida que se fez missão
Nascido na Espanha, Vicente Cañas ingressou na Companhia de Jesus ainda jovem e chegou ao Brasil na década de 1970. Em 1974, participou do primeiro contato com o povo Enawenê Nawê, ao lado de Tomás Lisboa.
A partir desse encontro, sua vida tomou um rumo definitivo. Vicente optou por um caminho de profunda inculturação: aprendeu a língua, assumiu o modo de vida do povo e passou a partilhar integralmente seu cotidiano. Foi o povo Myky que lhe deu o nome de Kiwxi — “aquele que se doa por inteiro”. Seu primeiro contato com esse povo ocorreu ao lado de Tomás Lisboa, experiência que marcou profundamente sua missão. Para os Enawenê Nawê, Vicente é reconhecido como alguém que integra o mundo espiritual e cósmico do povo, mantendo viva sua presença na memória e na espiritualidade da comunidade.

Entre o rádio, os remédios e o combustível, o barraco de Vicente permanece como testemunha silenciosa de um assassinato – Foto: Pe. Renan Dantas
O povo Enawenê Nawê
Habitantes da região do rio Juruena, os Enawenê Nawê são reconhecidos por sua forte organização comunitária e por uma cultura profundamente estruturada a partir dos ritos. Sua subsistência está centrada na pesca coletiva, atividade que ultrapassa o campo alimentar e assume dimensão espiritual.
Seus rituais, especialmente ligados ao ciclo das águas, organizam a vida social e expressam uma compreensão cosmológica na qual o mundo visível e o invisível se interligam. Foi nesse universo que Kiwxi se inseriu de maneira radical, tornando-se parte do povo.
Um passo na longa travessia da memória
A missão teve início com a saída da equipe da cúria da Diocese de Juína em direção à Terra Indígena Enawenê Nawê, localizada no noroeste de Mato Grosso. O acesso principal se dá pela BR-174, a partir de Juína, percorrendo mais de 150 quilômetros de estradas de terra. Situada na bacia dos rios Juruena e Iquê, a área abrange partes do município de Juína e regiões adjacentes, configurando-se como um território de grande relevância ambiental, cultural e espiritual.
Após aproximadamente três horas de viagem por estradas de terra, o grupo chegou ao território do povo Enawenê Nawê, sendo acolhido em um ambiente marcado pela riqueza cultural e pela profunda ligação com a natureza.
“Viver este momento junto ao povo Enawenê Nawê nos permite compreender, de forma concreta, a riqueza de sua cultura e a importância da preservação de seus territórios”
O primeiro dia foi vivido na acolhida do povo indígena Enawenê Nawê. Em um clima de profundo respeito e escuta mútua, os missionários e participantes tiveram a oportunidade de se aproximar da realidade local, ouvir atentamente as lideranças, compreender seus anseios e partilhar momentos significativos da vida comunitária, mergulhando na riqueza cultural e espiritual do povo.
Houve também a participação em ritos tradicionais, que expressam a espiritualidade do povo e sua relação com o território, com a natureza e com o mundo espiritual. Esses momentos foram fundamentais para situar a missão não apenas como um evento pontual, mas como parte de um caminho de convivência, escuta e respeito construído ao longo dos anos.
Durante esse primeiro momento, foi também apresentado aos indígenas o significado da missão: um gesto importante para a Igreja, para os organismos missionários e, sobretudo, para o próprio povo Enawenê Nawê. Explicou-se o sentido do sepultamento da calota craniana de Vicente Cañas (Kiwxi) como um passo dentro de um caminho maior — um sinal de memória, de busca por justiça e de reafirmação dos vínculos — que não encerra a história, mas a mantém viva e em continuidade.

Foto: Pe. Renan Dantas
O segundo dia da missão foi marcado por um dos momentos mais significativos: a ida até o local do martírio de Vicente Cañas.
A equipe seguiu por uma viagem de aproximadamente seis horas de barco pelos rios da região. O percurso, longo e silencioso, foi vivido como um tempo de interiorização e preparação para o que seria encontrado ao final do trajeto. Ao chegar ao local onde Vicente viveu seus últimos dias — uma área que servia como ponto de parada antes do retorno à aldeia, como forma de proteção sanitária — todos foram tomados por um profundo sentimento de reverência. Ali, onde sua vida foi interrompida, realizou-se um momento intenso de espiritualidade, memória e escuta.
Partilharam-se relatos, recordações e experiências de quem conheceu de perto aquela realidade. O lugar deixou de ser apenas um ponto geográfico para se tornar um espaço de memória viva, carregado de significado histórico e espiritual.
Foi nesse local que se realizou o gesto central da missão. Foram sepultados os pertences de Vicente — sua maleta, o rosário, sua faca e seus documentos — juntamente com a calota craniana, que por décadas permaneceu separada. Os Enawenê Nawê realizaram seus rituais de despedida conforme sua tradição, integrando esse momento ao seu modo próprio de compreender a vida, a morte e a continuidade espiritual, em um gesto que reafirma a memória e mantém viva a ligação entre o passado e o presente.
“Ele não apenas viveu entre os indígenas — ele se tornou um deles. Foi adotado, assumiu sua cultura, sua vida”
O momento foi permeado por intensa comoção. O silêncio, o choro e os gestos de reverência expressaram a profundidade daquele instante. Familiares, missionários e indígenas partilharam uma mesma experiência: a de estar diante de um momento significativo de uma história que atravessa gerações, mantendo viva sua memória e seu sentido ao longo do tempo.
O bispo da Diocese de Juína, Dom Neri José Tondello, destacou a importância do momento: “Este é um momento histórico para a nossa Diocese. Estamos encerrando uma história que permaneceu aberta por muitos anos, mas também reafirmando o compromisso da Igreja com os povos indígenas.”
A assessora jurídica do Cimi, Dra. Caroline Hilgert, ressaltou o significado do sepultamento: “Durante muitos anos, a calota craniana foi uma prova essencial do assassinato. Hoje, ela retorna à terra, permitindo que essa história se complete.”
O padre jesuíta, doutor em antropologia e professor da Universidade Federal de Mato Grosso, Pe. Aloir Pacini, destacou: “Este momento não é apenas memória. Ele continua a nos interpelar como Igreja e como sociedade.”
Durante a missão, o professor doutorando Josemir Paiva Rocha, do IFMT – Campus Juína, destacou a relevância do momento vivido e da parceria construída entre as instituições:
“Estar aqui é uma experiência profundamente marcante, não apenas do ponto de vista acadêmico, mas humano e espiritual. Viver este momento junto ao povo Enawenê Nawê nos permite compreender, de forma concreta, a riqueza de sua cultura e a importância da preservação de seus territórios. Essa parceria entre o IFMT e as instituições missionárias fortalece o diálogo entre o conhecimento científico e os saberes tradicionais, contribuindo para uma atuação mais sensível, responsável e comprometida com a vida e com a Amazônia.”

Familiares de Vicente vindos da Espanha – Foto: Pe. Renan Dantas
A voz da família: memória, afeto e presença
A presença dos familiares vindos da Espanha trouxe à missão uma dimensão profundamente humana, revelando aspectos íntimos da vida de Vicente. O testemunho de José Antonio Cañas Sánchez recorda a simplicidade do tio missionário: “As cartas eram poucas, mas muito esperadas. Eram escritas à mão, em papel fino. Não me recordo da caligrafia, mas lembro da alegria do meu pai ao recebê-las. Vicente era uma pessoa feliz, e isso se percebia em seu rosto e em sua alma.”
Ele descreve o encontro pessoal na infância: “Eu ia buscá-lo e caminhávamos juntos. Ele me contava histórias que me encantavam. Para uma criança, aquilo era fascinante. E eu o tinha só para mim naquele momento.”
Outras lembranças revelam um homem próximo e atento: “Ele tinha tempo para todos. Conversava com minha avó, com meu pai, com todos da família. Era alguém profundamente presente.”
Entre os relatos mais marcantes, surge a consciência que Vicente tinha de sua missão: “Lembro claramente de quando ele disse que não voltaria à Espanha, que o matariam por defender os indígenas e suas terras.”
A família também recorda os registros que Vicente levava consigo: “Ele mostrava imagens, vídeos, gravações. Era a forma que encontrava de nos fazer conhecer aquele povo, sua vida, seus ritos. Era como se nos levasse até lá.”
Com o passar dos anos, a compreensão sobre quem foi Vicente se aprofundou: “Depois de sua morte, fomos entendendo melhor sua história. Ele não apenas viveu entre os indígenas — ele se tornou um deles. Foi adotado, assumiu sua cultura, sua vida.”
O testemunho ganha ainda uma dimensão espiritual: “Hoje sentimos sua presença. Kiwxi está conosco. Nos protege, nos guia. Ele nunca deixou de estar presente.”
Outro elemento que marcou a família foi a percepção pública de sua grandeza: “Foi ao ver uma reportagem sobre Dom Pedro Casaldàliga, onde aparecia a imagem de Vicente, que compreendemos a dimensão da pessoa que ele foi.”
Para a Diocese de Juína, encerra-se uma história — e reafirma-se um compromisso. Vicente Cañas (Kiwxi) está na terra. E sua missão permanece viva.
“O sangue dos mártires é a semente dos cristãos” (Tertuliano, Apologético, 50,13). Com esta frase de Tertuliano recordamos um dos grandes dons da Igreja: o martírio
“Voltar ao local do sepultamento de Kiwixí nos faz perceber que muito dos seus ideais seguem vivos entre os missionários do Cimi”
Memória viva de Kiwixí
Pe. Vanildo, SJ, Jesuíta e missionário do Cimi/Regional Norte 1
“O sepultamento não foi somente um momento simbólico, mas um chamado à memória, à responsabilidade e à ação. Para o povo Enawenê Nawê, a história do primeiro contato com o Ir. Vicente, também conhecido como Kiwixí, permanece viva até hoje. De geração em geração, seu testemunho é relembrado como um exemplo de luta a ser seguido, expressão de solidariedade e inculturação que nos faz pensar na fidelidade à missão até o fim.
Pois, se fosse pelo risco e pelas mortes, há muito tempo não se falaria mais em luta pelo direito originário à terra indígena neste país. Porque, toda vez que alguém se levantou, foi atacado a ferro e fogo. O martírio de Kiwixí pela causa indígena será sempre lembrado.
Como missionário jesuíta e membro do Cimi, carrego a missão de defender seu legado em um momento crucial para os direitos indígenas no Brasil. A luta indígena hoje é concreta e urgente. É contra o garimpo ilegal, que contamina os rios e ameaça povos inteiros. É contra a grilagem, o desmatamento e a exploração predatória. É contra os assassinatos de defensores dos direitos humanos. É contra teses e projetos que tentam reescrever a Constituição, como o chamado marco temporal, que ignora expulsões forçadas, massacres e a própria história do país. Voltar ao local do sepultamento de Kiwixí nos faz perceber que muito dos seus ideais seguem vivos entre os missionários do Cimi”.
Rosa Pardo Cañas, sobrinha de Vicente Cañas
“Me sinto profundamente privilegiada por ter vivido essa experiência única. Entrar no território Enawenê Nawê para celebrar o sepultamento do meu tio, depois de tantos anos, e cumprir seu desejo foi uma honra excepcional. Compartilhar seu modo de vida, presenciar seus rituais, conversar e percorrer o território com eles equivale a viajar no tempo. É uma oportunidade que poucas pessoas no mundo podem ter.
É profundamente admirável conhecer pessoas que consagram suas vidas à proteção dos mais vulneráveis com amor incondicional e uma coragem rara nos dias de hoje. Contemplar as crianças Enawenê na escola, recebendo formação acadêmica enquanto preservam sua cultura ancestral, me trouxe uma imensa alegria. Em um mundo polarizado e marcado pela ganância, ainda existe esperança. Os Enawenê Nawê são verdadeiros guardiões da floresta”.
María Cañas, sobrinha de Vicente Cañas
“A viagem ao Brasil significou encerrar um processo que permaneceu aberto por 39 anos. Foi algo emocionante, triste e enriquecedor. Pude conhecer o mundo em que meu tio vivia e encontrar pessoas que, como ele, trabalham pela justiça. Também pude compartilhar com os Enawenê Nawê aspectos do seu cotidiano.
A relação direta, prática e respeitosa deles com a natureza. Senti que são pessoas muito livres, vitais e alegres, que dominam a vida na floresta.
Também me pergunto quantas dificuldades, discriminações, perigos e ameaças enfrentam simplesmente por serem indígenas.
O que mais me marcou foram os risos das crianças… e a sensação de que o processo físico e burocrático do meu tio terminou, mas continua agora um outro processo, espiritual, que segue inspirando e guiando outras pessoas.”
Angelita, sobrinha de Vicente Cañas
“O sentimento que fica é imenso, uma saudade profunda desses dias tão bonitos vividos com os Enawenê. Eles nos acolheram como sobrinhas de Kiwixí. Acordávamos às quatro da manhã para participar das danças, entrávamos nas malocas como Kiwixí fazia, junto às famílias deles, e tudo fazia com que nos sentíssemos parte daquele povo. Isso é algo que agora carregarei dentro do coração”.
Mercedes, esposa do sobrinho de Vicente Cañas
“Desde a chegada ao Brasil, tudo foi uma sequência de sensações e emoções. A acolhida em Cuiabá pelos jesuítas, ver os pertences de Vicente Cañas, ver a parte de seu crânio que seria depositada junto aos seus restos mortais. A participação na celebração da Páscoa. A viagem noturna de ônibus até Juína e o despertar atônito ao amanhecer, vendo a floresta rasgada.
Depois veio a acolhida em Juína, cheia de abraços, e a preparação para a viagem até a aldeia dos Enawenê Nawê, por uma estrada marcada pelas últimas tempestades. Tudo isso com a emoção de saber que em pouco tempo conheceria a família, o povo Enawenê Nawê, de Vicente Cañas, Kiwixí, tio do meu marido. Eu tinha o privilégio de conhecer e ser acolhida por um povo maravilhoso.
No dia 7 de abril de 2026, quatro embarcações dos Enawenê Nawê nos levaram pelo rio durante quatro horas até a barraca onde Kiwixí foi assassinado e ao local onde descansam seus restos, marcado apenas por algumas pedras. Foi um choque, uma sensação eletrizante, percorrer aquele pequeno caminho entre o rio e a barraca. E ali estava ela: a pequena barraca azul.
Ao chegar à porta, fui tomada por uma sensação de estar pisando em um lugar sagrado, um sentimento de respeito e acolhimento, como quando entro em um templo.
Ao entardecer, abri o envelope que Pep, meu marido, havia me entregue com o texto que eu deveria ler: uma carta para seu tio Kiwixí. Reunidos ao redor das pedras, começou a celebração, profundamente emocionante. Depois dos relatos das primas Rosa, María e Angelina, chegou minha vez. Eu sentia tanta emoção que já não era minha voz, era a voz de Pep. Em vários momentos, as palavras ficaram presas na garganta. Eu sentia Kiwixí ali, diante de mim, como se estivéssemos frente a frente.
Quando sua família Enawenê Nawê abriu a sepultura, não sei explicar a emoção que senti, porque no momento em que tentamos colocar em palavras, tudo se torna pequeno diante do que realmente foi vivido. Mas foi quando sua família depositou seus pertences junto aos restos mortais que comecei a sentir paz. Naquele instante, senti que tudo estava em seu devido lugar. Era como se céu — aquele céu perfeito, cheio de estrelas — e terra se encontrassem.
Na manhã seguinte, depositei as cinzas de Alfonso, irmão de Vicente e pai de Pep e Miguel Ángel – cinzas que me foram entregues com o pedido de que as colocasse junto ao irmão.
Minha experiência com a família Enawenê Nawê foi impressionante. Poder estar com eles em seus rituais, segurar a mão da mãe de Kiwixí e sentir que ela não soltava a minha, ver suas mãos acariciando nossos rostos, o meu e o das primas, enquanto nos sorria com aquele rosto tão bonito. Ver os rostos alegres das crianças e a curiosidade delas ao tocar meus cabelos brancos. Eu me apaixonei por todos eles. Obrigada, mil vezes obrigada, por essa experiência maravilhosa.”





