15/03/2026

“A luta é contínua, a terra é sagrada”: lideranças indígenas de onze estados relatam a realidade de seus povos

Suas histórias vêm de territórios distantes entre si, mas carregam o mesmo peso: ameaças, criminalização e uma resistência que não recua

Foto: Tiago Miotto/Cimi

Por Hellen Loures e Tiago Miotto da Assessoria de Comunicação do Cimi – Matéria publicada originalmente na edição 483 do Jornal Porantim

No final de fevereiro de 2026, lideranças indígenas de onze estados se reuniram no extremo sul da Bahia para uma partilha de lutas, estratégias e determinação. Um encontro nacional que reuniu lideranças indígenas de onze estados e diversos povos, que se somaram aos Pataxó, Tupinambá e Pataxó Hã-Hã-Hãe para trocar experiências e articular estratégias comuns para enfrentar as ameaças que rondam seus territórios e seus direitos.

A seguir, alguns dos relatos que aconteceram no contexto do encontro de lideranças. Relatos de quem não pode sair à rua com um cocar sem risco de vida; de quem vê e ouve o próprio território sendo consumido — “em vez de som da natureza, eu durmo com o som de motosserra, não querendo me acostumar, mas sendo forçada”, disse Arlene Pyhcop, liderança Gavião; de quem carrega parentes feridos na rede porque carro não chega até a aldeia; e de quem vê os jovens sendo levados pelo desespero — “temos jovens indo para a bebida, suicídios, é triste”, relatou Uina Boe Bororo, liderança da TI Tereza Cristina (MT). São também falas de quem não desiste: “vencido, até agora? Nunca”, afirmou Eva Canoé.

De Rondônia ao Maranhão, de São Paulo à Bahia, as ameaças se acumulam e se sobrepõem — agronegócio, mineração, especulação imobiliária, milícias —, mas o núcleo é o mesmo: a terra. E a recusa em abrir mão dela também.

Foto: Tiago Miotto/Cimi

“As lideranças estão sendo mortas. É, de fato, real, é intenso”

Arlene Pyhcop – Catiji Gavião (MA)

O povo Gavião, que é o meu povo, tem um histórico grande de conflitos entre os indígenas e não indígenas, principalmente por causa de extração de madeira ilegal.

Esse conflito, ele é bem intenso, com mortes. E, hoje em dia — eu acho que desde 2014 — o povo Gavião sofreu bastante por causa da extração de madeira, invasão. Agora, apareceram carvoeiros que estão fazendo carvão dentro do nosso território.

As lideranças estão sendo mortas. É, de fato, real, é intenso. E, hoje, eu não posso mais andar dentro do meu próprio território, senão eu vou ser achada morta em algum lugar, com outras lideranças. Eu não posso sair sozinha para a cidade, porque, senão, eu vou ser achada morta no meio da rua, como as lideranças são. E é muito difícil eu falar disso.

Em vez de som da natureza, eu durmo com o som de motosserra. Não querendo me acostumar, mas sendo forçada a me acostumar.

E estamos recebendo ameaças de drones também. Toda noite ficam dentro da nossa aldeia. E a gente é vigiado pelos madeireiros quase vinte e quatro horas por dia. Tá cada vez mais comum e ninguém faz nada.

E eu reforço muito o trabalho de conscientização do povo. Porque, como liderança, a gente tem um papel dentro do nosso povo. Nós, indígenas, a gente tem que ter uma visão ampla e saber o que envolve a gente. Nós temos que nos organizar como indígenas. Buscar conhecimento, expandir o nosso conhecimento. Se possível, traduzir na língua. Fazer manuais e traduzir na língua. Como fazer documento? Como eu vou fazer um ofício, por exemplo? Como que eu vou fazer um requerimento? Como que eu vou fazer uma ata de uma reunião, entendeu? A gente tem que ter essa visão de liderança e conscientizar a nossa comunidade.

Porque alguns ainda têm essa visão de que indígena não entende isso, que indígena tem que ter uma representação. Eu tenho é que saber argumentar. Eu tenho que saber dançar a dança do branco para poder dançar com ele. Porque, se eu não souber argumentar, como é que eu vou convencer? Como é que eu vou chegar lá no deputado? Meu povo precisa entender como é que os brancos falam através de documento. Através de documentos que eles se comunicam. Já nós, indígenas, a nossa cosmologia é muito diferente.

“Nosso maior desafio é esse projeto da morte, a mineração em terras indígenas”

Ana Cláudia Mura, presidente da Organização de Lideranças Indígenas Mura de Careiro da Várzea – OLIMCV (AM)

O nosso povo vive um desafio muito grande. O maior desafio que nós enfrentamos dentro do nosso território são as ameaças contra as lideranças. Eu vi aqui um jovenzinho, não tão jovem, e ele já sofreu duas ameaças. Eu também não sou tão velha, mas eu já sofri várias ameaças terríveis, mas mesmo assim eu estou aqui.

Eu creio que nenhum de nós temos que abaixar a cabeça para os nossos inimigos. Temos que ficar firmes, fortes. No nosso território, nós enfrentamos vários desafios, como ameaças de lideranças, ameaças de madeireiros, ameaças de fazendeiros, de caça, pescas ilegais, porque dentro do nosso território acontece isso.

Temos também o nosso maior desafio, esse projeto da morte, como nós chamamos, que é a mineração em terras indígenas.

Eu creio que nós somos de povos diferentes, mas a nossa luta é uma só. A partir do momento que essa mineradora chegou em nosso meio, em nosso município, foi um conflito muito grande que aconteceu em nosso território.

A primeira coisa que aconteceu foi a divisão do nosso povo. Nós temos dois municípios, Autazes e Careiro da Várzea, e um povo só. Nós não temos culpa do governo ter dividido o nosso local em dois municípios.

Mas foi uma divisão, foi um conflito muito grande que a gente viveu e está vivendo com essa separação do nosso povo. E quando essa mineradora chegou, ela chegou cooptando as nossas lideranças. Isso foi uma coisa muito grave para a gente, muito cruel, porque a gente era um povo unido, vivíamos juntos ali na luta.

E sempre nós lutamos por saúde, educação, demarcação dos nossos territórios. E hoje, os nossos parentes que ficaram do outro lado, como a gente fala, que não são da resistência, eles só pensam em ganância, em dinheiro, e com isso vem matando a nossa cultura, destruindo o nosso povo.

Foto: Tiago Miotto/Cimi

Então isso é uma coisa que deixa a nossa luta fracassada, quando a gente vê o nosso povo se dividindo, tudo por causa de uma maldita mineração de uma empresa que chega em nosso território invadindo, tirando a dignidade, tirando o recurso que a gente tem.

E para nós, indígenas Mura daquela região, nós não precisamos de mineração para viver. Nós precisamos do nosso território livre, precisamos da nossa floresta, precisamos da nossa mãe terra para nós sobreviver.

Porque é da nossa mãe terra que nós tiramos os nossos alimentos, os nossos sustentos. Hoje eu estou aqui, falando em nome do povo Mura, de Careiro da Várzea e Autazes. Amanhã ou depois eu não sei nem sequer se eu vou chegar em meu território. Eu sou avó de cinco netos. Eu não sei se os meus netos vão conseguir ver ainda um peixe, uma caça, porque do jeito que está vindo o empreendimento para o nosso lado, nada está fácil.

Enquanto a gente está aqui reunido, falando, os governos estão lá fora aprovando lei para tirar nossos direitos, tirar o nosso sustento.

E o que mais nos deixa triste, falando aqui um pouco do povo de Soares, que é o foco onde está acontecendo a mineração lá na Terra Indígena Soares, o povo que está lá é um povo bem sofrido que está em cima daquele território. Não é fácil você nascer, crescer e se criar dentro do território e de uma hora para outra chegar uma mineradora tentando te expulsar do teu território, te ameaçando de morte. Então, a gente vem para esses encontros justamente para buscar força, buscar apoio, para se fortalecer nesse momento em que nós estamos precisando. E com tudo isso que a gente vive, hoje me deixa triste, como presidente de organização.

Quando a gente chega em algumas aldeias hoje, o povo está quase se dividindo, justamente porque eles vêm ouvindo as falas dos não indígenas dizendo: ‘eu vou te levar melhoria’, ‘eu vou levar um empreendimento para a tua comunidade’, ‘tu vai ter uma educação de qualidade’, ‘tu vai ter uma saúde de qualidade’. Isso é somente mentira. Eles estão enganando o nosso povo.

Tudo isso é a realidade do nosso povo. A gente passa várias dificuldades, temos vários desafios, mas nós também temos conquistas com o nosso povo, através de muitas lutas. Eu creio que a nossa maior conquista é a nossa coletividade do movimento. Hoje a gente consegue se organizar com as nossas lideranças. Nós nos organizamos através de assembleias, reuniões, no coletivo e vamos à luta.

“Os brancos tacaram fogo dentro da nossa terra, nos ameaçando”

Uina Boe Bororo – liderança da TI Tereza Cristina (MT)

No meu território sofremos com o agronegócio cada vez mais se aproximando. Coisa triste, porque joga veneno na soja, contamina os peixes e dá muita doença que antes não tinha. E isso está afetando muito nossa comunidade.
Tem uma terra reivindicada dentro do meu território que nunca tivemos resposta sobre ela. Vamos sempre a Brasília, mas nunca chegou o momento que fala: “hoje vocês vão tomar posse dessa terra”. E, a cada demora, vai entrando loteamento.

Ano passado, os brancos tacaram fogo dentro da nossa terra, nos ameaçando, mas nós, mulheres, temos uma associação das mulheres e formamos o projeto brigada das mulheres e, [por meio dele], conseguimos apagar aquele fogo antes que atingisse as ervas medicinais e toda a madeira.

Então, nós sofremos muita pressão. E nós não podemos parar de lutar, porque nossos jovens, nossos filhos, têm que conhecer nossa história, nós moramos aqui em nossa história.

Por isso que nós estamos aqui, lutando, e nós vamos lutar todos juntos. Nós estamos aqui, cada um povo diferente, mas nossa situação é uma só, nosso problema é um só.

Foto: Tiago Miotto/Cimi

“Mesmo com sua terra demarcada, ainda assim se perde a vida”

Simão Guarani Kaiowá, coordenador da Aty Guasu – Grande Assembleia dos Povos Gua-rani e Kaiowá (MS)

“Eu percebo que essa violência que ocorre na Bahia, com os parentes Pataxó, é o mesmo que ocorre com nós, não tem diferença. Porque os ataques estão acontecendo mesmo com a terra publicada e declarada, e os indígenas sofrem essa perseguição e criminalização.

É a mesma situação nossa, Guarani-Kaiowá, que mesmo com sua terra demarcada, ainda assim perde a vida por estar ocupando o seu espaço, o seu território.

De um modo geral, a gente não vê diferença nenhuma na luta de cada um dos povos que lutam pelo seu território. A gente vê o povo Munduruku fazendo mobilização. Então, a luta não está sendo fácil. Tenho certeza que uma das pessoas lá está sendo criminalizada por fazer esse ato, por fazer essa mobilização de defender o seu território.

O governo teria que olhar melhor para não acontecer todo esse conflito e a perda das nossas lideranças, do nosso povo. Teria que enxergar e demarcar o mais rápido possível, sair do papel, porque, muitas vezes, ele suspende a homologação ou suspende a portaria declaratória por interesse dos fazendeiros, por interesse de capital.

E nós, que temos terra, nossas terras são devastadas. A gente não tem mais mata, a única que a gente está preservando é a nossa terra, é a nossa vida. Se a gente tem terra, a gente garante a nossa vida em liberdade. Se a gente não tem terra, não há saúde, não há educação, não há vida de qualidade.

Eu vejo que os parentes Pataxó estão preservando bastante, até por isso que estão sendo perseguidos. Foi invadido o seu território, foi desmatado, mas o que restou eles estão querendo proteger e, ainda assim, estão sendo criminalizados.

“Se o governo não fizer a nossa demarcação, então, nós vamos fazer”

Rosival Tupinambá, TI Tupinambá de Oliveira (BA)

Estamos aqui para dar apoio a vocês e também levar apoio. Não tem diferença de vocês para a gente, é a mesma coisa. O que nós estamos esperando? A nossa demarcação!

A portaria já está assinada, o documento já está assinado. Mas muita coisa a resolver: tem uns empresários que estão lá dentro, tem muitos areais que estão lá dentro. E o que é que eles dizem? ‘Eu só vou sair daqui quando eu receber a minha indenização’.

E a gente está inseguro. A gente não pode dar mais um passo para a frente. É como diz o velho ditado: ‘a gente tem que dar dois passos para trás para dar três para a frente’. Então, nós estamos acuados lá dentro. Mas é o que o parente dizia: a gente parou, mas a gente não tem medo. Nós indígenas, nós caciques, nós não temos medo. Se o governo não fizer a nossa demarcação, então, nós vamos fazer.

Foto: Tiago Miotto/Cimi

“Quero aprender com os mais velhos, aprender na luta, lutando”

Naô Xohã Pataxó, TI Barra Velha do Monte Pascoal (BA)

Nós temos que continuar porque a luta é contínua. Nossos velhos se cansaram, muitos já se foram, mas tem parente com 80, 90 anos que ainda estão aqui, e a gente agradece muito por isso, porque ele está aqui ainda dando voz, nos orientando, nos mostrando como devemos trilhar. Hoje – eu estou com 51 anos –, já aprendi um pouco com eles e ainda tenho muito a aprender para passar para os meus jovens que estão vindo. E assim vai essa luta contínua, em busca de espaço e liberdade.

Mas a gente precisa ter cuidado. Não devemos tomar decisões precipitadas. Nosso povo é da luta, mas tudo precisa ser pensado, articulado, conversado com os caciques. Porque o que a gente não quer é perder guerrei-ros na luta. E a luta de retomada, quando a gente vai com ação direta, é como entrar no campo, no jogo. E, quando se perde um parente, o jogo quase fica perdido – fragiliza muito aquele momento. Então, nós preci-samos continuar o jogo, ainda em busca do prêmio da vitória, que é o nosso território.

Hoje, como representante do território, como vice-presidente do Conselho de Cacique, quero aprender com os mais velhos, aprender na luta, lutando, vivendo e aprendendo, e assim vamos em frente.

Eu quero perguntar aos parentes dos outros territórios: como está a luta de vocês? Continua no campo de batalha, naquela luta violenta que nós enfrentamos aqui? Aqui, em 24 anos, foi direto, um ataque direto. Co-meçou com a pistolagem das propriedades, depois passou para o Estado, os milicianos. Aí gerou um embate direto com o Estado.

“Lá não entra carro nem moto – parente doente a gente carrega na rede”

Gabriel Pankararu, Aldeia Filhos Dessa Terra (SP)

Moro na Aldeia Indígena Multiétnica Filhos Desta Terra. É uma reserva nova, ainda não foi demarcada.

Nossa luta, no começo, foi para limpar onde a reserva é localizada hoje, porque antigamente era um aterro sanitário, então o nosso povo vem sofrendo por isso. É um buraco e, para todo lado que você olha, tem serra. Lá embaixo não entra carro, não entra moto, então, ali, para a gente carregar um parente machucado, doente, a gente tem que carregar na rede.

A gente também vem sofrendo com a questão da saúde. A gente conseguiu uma médica para atender dentro da aldeia, mas a gente não tem recurso para montar um espaço, por exemplo, para ela nos ajudar a fazer o atendimento com as mulheres, que é um atendimento mais privado.

“Eu não estou pronta para morrer agora”

Cácica Rosiania kanela – TI kanela do Araguaia, Município de Luciara (MT)

A nossa luta, de todos nós que estamos aqui presentes, é por território, é por dignidade. Nós somos terra, nós somos a árvore, nós somos a água, nós somos o pássaro e nós somos a caça. E nós buscamos, em cada movimento que vamos, nós buscamos o respeito, nós buscamos sobrevivência.

Povo Tapirapé tem terra demarcada desde 1998 e até hoje está sem desintrusão. Também temos o povo Krenak esperando por uma revisão de limites do território que ficou de fora. Tem o povo Juruna, com homologação em 2023, mas sem andamento. Xerente, aguardando demarcação das glebas públicas. Tapirapé Karajá, há anos aguardando revisão de território. Povo Xavantes, aguardando desde 2012 a revisão dos locais que ficaram de fora. Canela do Araguaia, aguardando o estudo do GT.

O povo Canela do Araguaia sofre muito, porque nós não temos acesso. Lá na minha aldeia, tive que aprender a fazer de tudo: eu sou agente de saúde, eu sou enfermeira, eu costuro, tiro barro, faço de tudo que for preciso. É minha responsabilidade com o meu povo.

Sou também acompanhada, devido a ameaças, tenho que dar satisfação para sair, sofro pressões de drones quando estou dentro da comunidade. Não é fácil. Me sinto oprimida dentro da minha comunidade, não posso fazer uma caminhada no meu território. Eu não estou pronta para morrer agora.

Será que serão meus filhos e meus netos que vão seguir com essa luta? Há cinco anos eu sou cacique, mas desde antes de ser cacique eu luto pelo território, pelos nossos direitos, pela família.

A luta é de todos nós. Vim aqui compartilhar a experiência, buscar experiência do nosso povo e ouvir cada um falar, porque eu sei da importância da nossa luta. Apesar de ser regiões diferentes, a nossa luta é a mesma: é o território, é o respeito, é o direito de ir e vir, o direito de sair na rua de cocar e ser respeitado.

“36 anos não são 36 dias – nós sofremos para conquistar nossa terra”

Tibiriçá Pataxó Hã-Hã-Hãe, TI Caramuru-Catarina Paraguassu (BA)

A luta é difícil, a luta é pesada, mas o indígena não desiste, certo? A gente está aqui para lutar. Nós também sofremos. Sofremos por 36 anos para conquistar a nossa terra. E 36 anos não são 36 dias. Mas, graças a Deus, agora nós temos uma placa. Eu fico sentindo com tudo que passamos, mas, por outro lado, eu sinto alegria, porque nossa terra foi demarcada, a nossa terra já está em nossas mãos.

Foto: Tiago Miotto/Cimi

“Nossas raízes estão plantadas nesse chão”

Agamenon Toá, cacique do povo Kraunã – Território Xingó/Kampiô (AL)

Esse modelo de movimento que a gente sonha ter, um movimento forte, um movimento que seja unificado é o que eu ouvi aqui bastante, na fala de todos: que o movimento é estar em permanente conexão de pessoas, como neste encontro de lideranças. Tem liderança aqui muito bem representada de cada estado, de cada regi-ão. Então, isso é um modelo de organização.

Nossas raízes vão profundas, elas vão muito mais profundas do que se imagina, do que se fala, do que se discute, então a gente tem que valorizar nossas raízes. Nossas raízes estão plantadas onde? Nesse chão. E se a gente não olhar para as nossas raízes, ficar olhando para a árvore geológica construída para cima, a gente vai ficar besta, procurando para onde não tem nada. A terra Pataxó é a terra das raízes dos Pataxó. As raízes que estão plantadas aqui de quantos mil anos? De muitos mil anos. E isso nós não podemos perder, a referência das nossas raízes tem que ser garantida para as gerações que a gente nem sabe a fisionomia ainda. Por quê? Porque quem estava aqui, nos anos atrás, que enfrentou o sistema, eles não estavam defendendo aquela terra só para eles. Eles sabiam que a gente estaria aqui um dia. E nós temos que saber que vai ter Pataxó aqui, da-qui a mil anos, depois de uma vida.

Temos que lutar!

É energias renováveis, uma série de empreendimentos, aí vem mineração, é ameaça com os minerais críticos, que saiu de fora do Brasil há alguns dias negociando as terras raras… A gente vai ter que estar mais por den-tro. Por dentro dessa história de protocolo, mais do que nunca, porque quem vai ter que elaborar esses proto-colos somos nós mesmos. É pegar quem já tem experiência e pensar como a gente quer fazer nossos protoco-los. E a questão também dos regimentos internos de gestão territorial, a gente já tem que começar a pensar nesse regimento interno sobre gestão territorial, mesmo com a terra sendo identificada.

E depois da terra demarcada? Vai ficar negociando para arrendamento, para exploração? São preocupações mais do que necessárias que devemos ter. É levar isso para dentro da sala de aula, para dentro da escola.

Conversas que devem ser utilizadas como direção, buscando mudar a história das nossas raízes, dos nossos antepassados, que tiveram essa preocupação antes de ter o papel.

“Vencido, até agora? Nunca!”

Eva Canoé, Conselheira da Organização dos Povos Indígenas de Rondônia, Noroeste do Mato Grosso e Sul do Amazonas – Opiroma, (RO)

Nossa luta não começou hoje, nossa luta começou com a invasão do Brasil e, desde então, nós não tivemos paz. Nós perdemos essa paz, porque o homem branco, ele pisou firme, mas tão firme, não só no nosso território, mas na alma do nosso povo, na nossa alma até hoje.

Todos nós que aqui estamos – homens, mulheres, anciãos, jovens, que são o futuro –, se a gente não começar agora, o amanhã nós não temos tanta certeza. Nem o governo, durante mais de cinco séculos, nunca, mais de nunca mesmo, fez alguma coisa por nós, povos indígenas. Tudo que nós conquistamos até hoje é fruto de luta, e muita luta, muito sangue derramado, muitos parentes tombados, não só parentes, mas nossos aliados também.

Então, nós somos um povo guerreiro, um povo resistente, e nós estamos aqui lutando, lutando, lutando, e a nossa luta continua. E uma outra coisa que eu vejo é que nós, como povos indígenas, nós somos um povo muito resistente, porque nós estamos aqui resistindo há séculos. Quais são as formas que resiste tanto quanto nós? Nós somos humilhados, perseguidos, reduzidos, mas temos uma força muito grande. Vencido, até agora? Nunca!

E eu espero que nós continuemos. Esses dias, o meu marido disse assim: “será que os nossos bisnetos vão ter a mesma força que nós temos hoje, já que nós falamos tanto que a juventude é o nosso futuro, é a continuação da nossa história? Será que os nossos jovens vão mesmo continuar? Será que, no futuro, nós vamos ter território indígena? Será que nós vamos ter terra demarcada? Ou será que tudo isso vai virar cimento?”. Eu não soube responder.

Por que ele estava pensando nisso? Porque nós temos um problema muito sério no estado de Rondônia, principalmente na minha região. É um dos maiores desafios lá. Muitos frequentam a religião evangélica e, como evangélicos, eles não têm todo esse discernimento de lutar pelo nosso território. Eles querem território, mas ir para luta, praticar as nossas culturas, tudo isso é pecado. E, com o consentimento da Funai, na época, os evangélicos chegaram lá e começaram a fazer um trabalho para fazer uma lavagem cerebral do nosso povo. Eles aprenderam a falar a língua fluentemente. Uma das coisas que mantém o povo é a língua. Eles são muito falantes da língua, lá todas as crianças são falantes da língua.

Foto: Tiago Miotto/Cimi

Eu, particularmente, respeito a escolha de todos os parentes, porque nós temos o direito de escolher, mas, como indígena, eu não posso acreditar numa religião que vem para matar a sua. Porque nós temos a nossa espiritualidade, cada povo tem sua espiritualidade, sua especificidade, e todos nós tínhamos nosso Deus antes dessa invasão.

Um outro desafio também é o problema da retirada de madeira ilegal. E, há uns dois anos, começou o problema sério da soja. Não tinha soja na nossa região, agora, já chegou e está bem próxima da terra indígena, que está cercada. Primeiro fazenda, agora com soja.

Mais uma coisa boa que eu quero compartilhar é que, há uns dois anos, nós conseguimos lá na terra do Laje fazer com que o rio Laje fosse reconhecido legalmente como sujeito de direito. É o primeiro rio do Brasil reconhecido como sujeito de direito. Isso significa que ele tem o mesmo direito que nós temos. Ele precisa ser protegido, ele precisa ser defendido, porque água representa vida, sem água ninguém vive.

E uma outra conquista é que, além de todo esse processo que nós enfrentamos, nós temos a nossa organização, que está nessa luta, que é a nossa luta coletiva. Quando eu vou participar de algum encontro, a defesa do direito territorial, ela tem que ser coletiva para todos os povos indígenas do Brasil. E, quando o governo demarca o território, ele não está fazendo nenhum favor, ele está cumprindo com o dever, uma dívida impagável que o Estado brasileiro tem com o nosso povo. Porque jamais vão trazer de volta os povos que foram dizimados, as línguas que foram dizimadas. A maior parte do meu povo, que também foi massacrada, eles não vão trazer de volta. Então, é uma dívida, e cada vez que o Brasil, o Estado brasileiro, deixa de demarcar o território, a dívida dele conosco só aumenta.

E uma outra coisa que eu estava refletindo é que, quando se fala de retomada, na minha concepção, nós estamos recuperando aquilo que nos pertence, porque povos indígenas não invadem. Ele só busca recuperar aquilo que foi tirado e que é sagrado para cada um de nós, que é o nosso território. Então, essa é a minha concepção.

Uma outra coisa é que não existe indígena desaldeado. Existe indígena com seus territórios roubados. E não somos nós que invadimos a cidade, muito pelo contrário, foram as cidades que chegaram e que continuam chegando até nós. E lutar por nosso direito é direito de todos nós.

Porque um ser civilizado, ele não mata, ele não rouba, ele não oprime, ele não mente, ele respeita. Ele respeita a diferença cultural. Ele sabe o espaço dele. E, como indígena e como cidadã, todos nós sabemos que o meu direito começa quando termina o seu. E o seu direito começa quando termina o meu.

Nós temos as nossas dificuldades, os nossos desafios são muitos, mas também nós temos uma das nossas maiores conquistas: a nossa própria resistência

Share this:
Tags: