07/09/2025

Missão Catrimani: Sessenta anos de caminhada com o povo Yanomami

Em um cenário de destruição ambiental e violência extrema contra o povo Yanomami, a Missão Catrimani, há seis décadas, promove atividades de alento, força e respeito

Missão Catrimani em seus 60 anos celebra história de fé, serviço e comunhão, reafirmando compromisso com povo Yanomami. Foto: Missão Catrimani

Por Ligia Apel, assessoria de comunicação do Cimi Regional Norte I – Com informações da Equipe Missão Catrimani: Padre Bob Francis Mulega, Padre Filbert Nkanga, Irmã Suzana Kihoo, Irmã Lígia Cipriano, Irmã Argentina Paulo e Irmã Eunice Wairimu – Matéria publicada originalmente na edição 478 do Jornal Porantim

“Respeito ao equilíbrio sociocultural do povo Yanomami e acompanhamento para adaptação às mudanças ambientais e sociais decorrentes de invasões externas, buscando minimizar traumas.” Estas são as diretrizes da Missão Catrimani, iniciada em 1965 pelos padres da Consolata Bindo Maldolesi e Giovan Calleri.

Catrimani é uma região localizada na Terra Indígena (TI) Yanomami, demarcada e homologada, que abrange os estados do Amazonas e de Roraima. É uma área de difícil acesso, historicamente marcada por invasões desmedidas de garimpeiros, amparados por grandes empresários e políticos, que resultam em destruição ambiental e violências extremas, chegando perto do extermínio da vida Yanomami.

Nesse contexto, 29 comunidades, com cerca de 1.050 habitantes, organizadas em três regiões (alto, médio e baixo Catrimani), foram e continuam sendo atendidas pelos missionários da Consolata. Eles chegaram à região e construíram estruturas adequadas para atendimentos: à saúde – já que as doenças trazidas pelos invasores eram desconhecidas pelos Yanomami e provocavam epidemias –, à educação, à valorização cultural e, principalmente, para contribuir com a luta pela demarcação do território, homologada em 1992, além da proteção da terra indígena.

Hoje, passadas seis décadas da chegada de Bindo e Giovan ao Catrimani, a equipe Consolata é composta por dois padres e quatro irmãs, que seguem compro metidos com a missão. “Viemos para vivenciar os valores do Evangelho e ser testemunhas vivas do Evangelho da consolação e da vida, promovendo junto ao povo Yanomami o ideal do Bem Viver. Nossa visão é contribuir para o crescimento de um Yanomami moyami’, ou seja, uma comunidade em harmonia consigo mesma, com sua cultura e com o meio ambiente que a cerca”, diz Padre Bob Francis Mulega (IMC), que chegou à região há cinco anos para somar à missionariedade.

“Nossa presença entre os Yanomami não se resume apenas às palavras, mas sim a uma entrega total, um viver e conviver lado a lado, compartilhando as alegrias e tristezas, os desafios e as esperanças deste povo”, afirma Pe. Bob, com convicção e amor. Ele reconhece a etnoeducação como meio de respeitar e valorizar os caminhos trilhados pelo povo Yanomami e ressalta: “na religiosidade do povo Yanomami podemos enriquecer nossa própria fé e espiritualidade”.

“A força para seguir está no objetivo colocado no horizonte: promover o Bem Viver do povo Yanomami”

Fundada em 1965, a Missão Catrimani representa um modelo de presença respeitosa entre os povos indígenas. Foto: Missão Catrimani

Princípios, atividades, desafios e esperanças

Yanomami significa “seres humanos”, expressão que os distingue de animais, seres invisíveis e estrangeiros. A subsistência do povo baseia-se em caça, pesca, coleta e agricultura de coivara, atividades que garantem alta produtividade e diversidade nutricional, responsáveis por mais de 65% da alimentação.

Manter essa garantia e soberania alimentar é um desafio em uma área que exige permanente reestruturação ambiental. Apesar da entrada de alimentos externos, como açúcar e café, “a cultura agrícola e a autonomia alimentar continuam firmes”, afirma Pe. Bob.

As atividades desenvolvidas pela Missão Catrimani incluem visitas e partilhas, educação escolar indígena, saúde em articulação com órgãos governamentais, realização de oficinas temáticas sobre educação, território, cultura e mulheres, organização e participação em assembleias, fóruns e encontros, estudo e valorização da cultura e espiritualidade Yanomami, comunicação e articulação eclesial e civil em defesa dos direitos indígenas.

Os desafios são igualmente intensos: violências, ameaças e invasões nos territórios; maior integração linguística e cultural; formação e acompanhamento de novos missionários; e manutenção de redes de diálogo e cooperação com entidades externas.

Esses desafios, porém, podem ser enfrentados com a força dos princípios missionários Ad Gentes da Missão Catrimani: convivência e partilha da vida, diálogo intercultural e inter-religioso, valorização da cultura e identidade Yanomami e trabalho em parceria com organizações indígenas, acadêmicas e da sociedade civil.

A força para seguir está no objetivo colocado no horizonte: promover o Bem Viver do povo Yanomami, expresso em seus anseios por autodeterminação e valorização cultural, saúde integral e educação diferenciada, garantia territorial e respeito aos direitos originários, e no fortalecimento de uma pastoral indigenista bem orientada e comprometida com a realidade dos povos.

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