25/10/2019

Sínodo: a urgência de uma ecologia integral e outras formas de relações com a Casa Comum

Casa Comum e Bem Viver e os novos caminhos para uma ecologia integral. A responsabilidade com o planeta e o convite para a superação da lógica que se firma na “globalização da indiferença”.

Papa caminha com os povos em procissão de abertura do Sínodo. Foto: Guilherme Cavalli

POR GUILHERME CAVALLI, DA ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO – CIMI | ENVIADO ESPECIAL A ROMA

O Papa Francisco traz na encíclica Laudato Si (LS) a preocupação com a “Casa Comum”. Indígenas e comunidade tradicionais têm no centro de sua vida o “território” e “Bem Viver”. Com similar conotação, descrevem a responsabilidade com o planeta e convidam para a superação da lógica que se firma na “globalização da indiferença”, intensificada pelo livre mercado e resultante numa “falsa, vaga e ingénua inclusão social” (cf. EG 54).

O Sínodo da Amazônia “tornar prático” o documento papal a partir da vida dos povos, afirma a antropóloga Moema Miranda, secretária da rede Igreja e Mineração. O que pontua a leiga franciscana memora o passo dado pela Igreja com o Concílio Vaticano II, de uma fé que se compromete com a promoção humana. O Sínodo além da missão pastoral da Igreja, e tendo como base a Doutrina Social, faz presente o debate sobre ecologia, política, direitos humanos e da Terra. “Nem só a salvação da alma, mas uma Igreja defensora das possibilidades de vida no planeta”.

Em entrevista na Rádio Vaticano, a assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) aclarou a urgente necessidade de um câmbio de mentalidade para que “não se veja o Planeta como uma máquina, um relógio sem vida”. “Quando os homens foram para lua, um olhar de fora, nos fez perceber que somos todos um – humos e humanos sem separação. Se destruímos as possibilidades de vida no planeta, torna-se o impossível a existência humana”, comentou Moema.  “O antagonismo em cuidar da natureza não está entre uma vida de qualidade ou a sustentabilidade da floresta. O antagonismo está entre a ilimitada acumulação e a vida do planeta”, chamou a atenção ao propor um modelo de vida que repense o consumo.

“Mahatma Gandhi dizia no século passado:
dá pra viver todo mundo bem.
O que não cabe é a ganancia”.

Em crítica ao realismo materialista, Moema Miranda recordou a relação etimológica entre economia e ecologia. “Não nos damos conta que economia não é antagônica a ecologia. É o logos e o eco – saber sobre a casa – que deveria orientar o nomos, que indica a administração da casa”, lembrou ao trazer presente a etimologia das palavras economia e ecologia e relacionar com princípios de sabedoria e cuidado.

Moema Miranda durante coletiva de imprensa do Sínodo no dia 8 de outubro. Foto: Guilherme Cavalli/Cimi

“Quando papa Francisco esteve em Porto Maldonado afirmou que a Amazônia é uma terra disputada. Por um lado temos os povos indígenas que aprenderam a viver em comunidade com a floresta, enriquecendo e valorizando a floresta. Junto a eles temos outros povos que foram ganhando raiz na Amazônia – quilombolas, ribeirinhos, extrativistas”, pontua a antropóloga. “Do outro lado temos  o que papa Francisco chamou de avidez do grande capital.  E o papa nomeou: são as as pretoleiras, a mineração, as madeireiras, o agronegócio”, lembra Moema. “Papa Francisco chama de avidez essa coisa insaciável. Qual é o limite para o consumo?”, questiona.

“O capitalismo transformam tudo em mercadoria. Um exemplo é a mineração, que não parte da necessidade real da vida das pessoas. Ela está conectada com o ciclo financeiro que obriga a extrair mais do que precisa”, exemplifica.

Alternativas que surgem das periferias

Nos debates ocorrentes nos eventos simultâneos ao Sínodo, indígenas, ribeirinhos, seringueiros e comunidades tradicionais na Amazônia apresentam a sociedade global alternativas de desenvolvimento que leve em conta “a integralidade da Terra”, como lembra a indígena Anitalia Pijachi, do povo Okaina – Oitoto de Letícia, Colômbia. “Trazemos alternativas de desenvolver e cuidar da mãe terra, sem por abaixo as florestas. Temos muito a ensinar a sociedade. Isso por que nós da Amazônia sentirmos a dor, sobretudo nos, mulheres, sentimos porque nós damos a vida”, lembra a indígena.

“Hoje, o avô de muitos que nos violentam está mostrando que é possível outro tipo de relação com a terra e com os povos indígenas”, assegura Anitalia Pijachi ao lembrar de Papa Francisco e da Laudato Si, encíclica sobre o cuidado com a Casa Comum. “Francisco tem o coração doce, como quem tem mãe e avó, e que por isso sente a dor da Amazônica”.

“Mostramos caminhos porque quando atropelam a água, sentimos no ventre materno. Quando envenenam a terra, sentimos na pele. A Terra é o rosto da mulher amazônica”. Pijachi faz parte da delegação colombiana que conta com 21 membros na assembleia Sinodal. “Como mulher amazônica, como mãe, como filha e neta, eu falo em meio de mais de 180 avôs que estão nesse Sínodo. Contudo, eu venho pelos meus avôs e avós, porque sei de onde venho. Nosso conhecimento não é vazio, tem história e com os ancestrais apontamos caminhos”.

A indígena lembra que a “ecologia integral” se sustenta em entender o território como vida que dá indicativos para a existência. “Nosso governo é próprio e se sustenta em como viver com nossos territórios, como me relacionar com o ar e vento, com a terra, com as sementes, com os animais. E sabemos o que não tocar. É relação de respeito”.

A metodologia do Sínodo parte da realidade. Cerca de 84 mil pessoas , entre indígenas indígenas, quilombolas, ribeirinhas, pescadoras e demais comunidades amazônicas, foram consultadas para a que Igreja refletisse quais caminhos seguir. Por meio de assembleias locais ocorridas na fase preparatória do Sínodo, o processo sinodal trabalhou para ouvir os clamores, as lutas e resistências dos Povos da Amazônia. “Hoje somos ouvidos e trazemos alternativas ao mundo. Nosso modo de relacionar não torna a terra como um objeto de negocio, mas como uma mãe que da a sustentabilidade”, lembra Ernestina Makuxi, de Roraima.

“Nosso modo de vida é um convite para o amor com a terra. Não podemos nos dobrar pelo dinheiro” – Ernestina Makuxi

Monocultura: novo colonialismo

“A visão colonialista impede ver a Amazônia de outra maneira. Plantar soja e cana de açúcar é uma visão colonialista”, assegura o procurador regional da República, Felício Pontes. “É visão totalitária que transforma a floresta com maior sociobidiversidade do planeta em uma monocultura”.

“Os povos indígenas ensinam um modelo mais antigo que não vê a floresta como obstáculo ou como um lugar para ser destruído e desvendado”

Pontes foi uma das vozes mais ativas na defesa de ribeirinhos e indígenas quando o assunto era a construção da Hidrelétrica Belo Monte, em Altamira, no Pará. Em Roma, o paraense afirma serem as “empresa madeireira, pecuarista, monocultura, de energia e mineração “os novos colonizadores da Amazônia.  “A visão colonialista impede ver a Amazônia de outra maneira. Plantar soja e cana de açúcar é uma visão colonialista”, assegura. “É visão totalitária que transforma a floresta com maior sociobidiversidade do planeta em uma monocultura”.

“Os povos indígenas ensinam um modelo mais antigo que não vê a floresta como obstáculo ou como um lugar para ser destruído e desvendado”

Como alternativa, propõe a reflexão que se paute no valor econômico da floresta em pé. “O açaí e as castanhas são produtos que só existem na Amazônia. Podem ser trocados e mais lucrativos que commodities como soja e cana de açúcar. É possível respeitar a floresta e fazer dela uma fonte de renda”, garante Felício. O procurador lembrou ainda que, segundo estudos realizados em Belém (PA), são descobertas 15 novas espécies por dia na floresta amazônica. “Essa região do mundo é o maior banco genético e ali poderia estar a cura para doenças hoje incuráveis. Os povos da floresta são guardiões desse banco genético”.

Felicio Pontes na entrada para a aula inaugural do Sínodo. Foto: Guilherme Cavalli/Cimi

“Nos processos judiciais que trabalho fica claro que há uma disputa na Amazônia por dois modelos de desenvolvimento: um modelo predatório e outro socioambiental. No predatório, sempre há uma empresa madeireira, pecuarista, monocultura, ou de energia e mineração”, lembrou o procurador. “Do outro lado, podemos notar um modelo de desenvolvimento da Amazônia concebido pelos povos da floresta”.

“Sínodo poderá ajudar na passagem de uma sociedade colonialista para uma sociedade plural, que respeita a todos”

Para o paraense, o Sínodo poderá ajudar a uma mudança de pensamento que permita “passar de uma sociedade colonialista a pluralista, que respeite o modo de vida de todos daqueles que vivem na floresta e distancie a doutrina integracionista das vidas dos povos originários”.

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