27/03/2019

Indígenas ocupam sede do DSEI em Manaus em protesto contra a municipalização da saúde

Com o sucateamento e o plano de extinção da Sesai, os 300 indígenas ocuparão a sede do DSEI até que recebam uma solução para os problemas das aldeias

Mais de 300 indígenas se concentraram na sede do DSEI, localizado na zona Centro Sul da capital amazonense. Foto por José Rosha, da Ascom Cimi Norte I

Mais de 300 indígenas se concentraram na sede do DSEI, localizado na zona Centro Sul da capital amazonense. Foto: Cristina Alejandra Larrain | Equipe Javari

Por José Rosha, da Ascom do Cimi Norte I

A indígena do povo Mura, Rosa Marinho Mourão, de aproximadamente 30 anos, foi vítima da tragédia que começa a se instalar nas aldeias em vista das mudanças no atendimento à saúde propostas pelo Governo Federal. Rosa Marinho era da aldeia Murutinga, no município de Autazes (AM) – distante de Manaus cerca de 100 quilômetros – e faleceu no Hospital e Pronto Socorro João Lúcio (Zona Leste) na manhã de ontem (26/03), no mesmo dia em que indígenas de várias partes do Estado se mobilizam contra a municipalização da saúde.

“Se a Sesai (secretaria Especial de Saúde Indígena) estivesse funcionando como antes o corpo dessa senhora já estaria em Murutinga e não haveria essa movimentação aqui… Isso é preocupante. O ministro não tem consideração com os povos indígenas”, reclama a professora Amélia Braga Cabral, também do povo Mura e da mesma aldeia da falecida. Os familiares estão encontrando muitas dificuldades para remover o corpo para a aldeia.

Por volta do meio dia de hoje, mais de 300 indígenas começaram a se concentrar na sede do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), localizado na zona Centro Sul da capital amazonense. A primeira intenção deles era realizar uma manifestação, mas no final da tarde decidiram iniciar uma ocupação do prédio do DSEI até uma solução para os problemas que estão incomodando as aldeias, disseram às lideranças que coordenam o movimento.

A maior inquietação das lideranças indígenas é quanto o repasse do atendimento à saúde nas aldeias para as prefeituras. Em 2010 foi criada a Secretaria Especial de Saúde Indígena – Sesai, vinculada diretamente ao Ministério da Saúde. “Foi uma conquista dos povos indígenas e, mesmo com as dificuldades para o seu funcionamento, permitia superar alguma atenção à saúde e tinha participação dos próprios indígenas no controle social”, diz Fábio Mura, cacique da aldeia São Félix, localizada em Autazes.

Os indígenas se disseram surpreendidos pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. No último dia 20 ele anunciou mudanças na estrutura do Ministério que afetarão diretamente as aldeias e comunidades indígenas. A proposta prevê o fim da SESAI e a incorporação dos serviços destinados às aldeias por uma nova Secretaria Nacional de Atenção Primária.

No final da tarde, os indígenas decidiram iniciar uma ocupação do prédio do DSEI até receberem uma solução para os problemas que estão incomodando as aldeias. Foto por José Rosha, da Ascom Cimi Norte I

No final da tarde, os indígenas decidiram iniciar uma ocupação do prédio do DSEI até receberem uma solução para os problemas que estão incomodando as aldeias. Foto por José Rosha, da Ascom Cimi Norte I

Agenda da mobilização

No final da tarde de ontem os participantes do movimento interditaram por alguns minutos a avenida Djalma Batista como forma de dar visibilidade ao protesto contra a municipalização da saúde indígena.

Nesta quarta-feira, 27, por volta das nove horas, eles participaram de uma audiência na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas – ALEAM.

Mais de 800 indígenas lotaram a galeria daquela Casa. Zenilton Mura e Ilair Pereira tiveram acesso à tribuna para explicar aos deputados estaduais o que está acontecendo nas aldeias atualmente e o que poderá acontecer caso as prefeituras sejam incumbidas de prestar atendimento às aldeias. “A maioria das prefeituras do Amazonas não conseguem atender as necessidades das suas populações, imaginem se tiverem mais esta atribuição”, disse Ilair Pereira.

Os povos do Vale do Javari encontram sérias dificuldades no atendimento à saúde, visto que muitas aldeias se localizam em áreas de difícil acesso, onde a locomoção chega a levar 15 dias. Foto por Cristina Alejandra/Cimi Norte I

Os povos do Vale do Javari encontram sérias dificuldades no atendimento à saúde, visto que muitas aldeias se localizam em áreas de difícil acesso, onde a locomoção chega a levar 15 dias. Foto por Cristina Alejandra/Cimi Norte I

Vale do Javari – Na cidade de Atalaia do Norte, em frente ao prédio da fundação Nacional do Índio (Funai) as organizações indígenas da região do Vale do Javari mobilizaram mais de 300 pessoas dos povos Marubo, Kanamari, Matis, Mayouruna e Kulina.

“O município já tem muita demanda. O hospital que tem na cidade é do Estado e não tem investimento. Imagine quando passar a municipalização. Nós gostaríamos de manter a Sesai como está”, analisa Marcos Mayoruna.

Os povos do Vale do Javari encontram sérias dificuldades no atendimento à saúde. A terra indígena tem mais de oito milhões de hectares e fica no extremo oeste do Amazonas. Muitas aldeias se localizam em áreas de difícil acesso aonde a locomoção chega a levar 15 dias. Muitas mortes acontecem durante a remoção das aldeias para o hospital localizado na sede do município.

Em Boa Vista, capital de Roraima, na manhã de ontem, cerca de 100 indígenas e servidores da Sesai promoveram manifestação em frente à Assembleia Legislativa pela, conforme informações da Assessoria de Comunicação do Conselho Indígena de Roraima (CIR). Naquele Estado existem dois DSEI’s para atender mais de 79 mil indígenas.

Manaus (AM), 27 de março de 2019

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