27/02/2019

Apoiadores da comunidade Guarani Mbya da Ponta do Arado convocam vigília

Em apoio à resistência da comunidade, o grupo convida a todos que lutam pela Retomada Guarani para uma roda de conversa na Prainha de Copacabana

Visita à Retomada Guarani Mbya no Arado Velho. Fotos por Douglas Freitas/Amigos da Terra Brasil

Visita à Retomada Guarani Mbya no Arado Velho. Fotos por Douglas Freitas/Amigos da Terra Brasil

Por Verônica Holanda*

Isolados por uma cerca ilegal, os Guarani Mbya que vivem acampados na Ponta do Arado, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, estão há dois meses sendo vigiados por seguranças armados da Arado Empreendimentos. Os indígenas relatam constantes ameaças de morte. Em defesa da comunidade, um grupo de apoiadores passou a organizar vigílias noturnas na Prainha de Copacabana. O objetivo é realizar uma roda de conversa para compartilhar a situação e somar esforços aos indígenas na resistência aos ataques e ameaças.

Na madrugada de 11 de janeiro, os indígenas sofreram a primeira tentativa de homicídio. Conforme relatado pelos Mbya, dois homens mascarados atiraram em direção às barracas e ameaçaram os Guarani, afirmando que, se não deixassem a área, seriam todos mortos, inclusive as crianças. O segundo ataque ocorreu na madrugada de 25 de janeiro, quando tiros foram disparados no interior da Fazenda do Arado, causando pânico nas famílias que ali vivem há oito meses.

O Conselho Estadual de Direitos Humanos do RS emitiu, em 12 de janeiro, uma nota pública onde relatava grave preocupação com os fatos reportados pelos indígenas. “Diante da gravidade da situação, ao mesmo tempo que expressa preocupação e alerta para os iminentes riscos envolvidos, sugere às autoridades competentes, especialmente da Segurança Pública, que, para além das providências que serão tomadas pelo Ministério Público Federal, sejam adotadas as imediatas e urgentes medidas necessárias à preservação das vidas e da segurança de todas e todos integrantes daquela Comunidade Indígena”.

Entretanto, a pressão e as intimidações contra os Guarani permaneceram. Em 18 de janeiro os Mbya se depararam com uma ampliação do número de seguranças privados nas proximidades da cerca que foi colocada ao redor da comunidade para limitar o livre trânsito de seus integrantes. Também foram colocados em funcionamento sensores instalados sobre a cerca para detectar os movimentos dos Guarani e, com isso, restringir ainda mais sua liberdade.

“Submetidos à prisão física e psicológica, entre a cerca e a lagoa, eles sobrevivem ao terror cotidiano”

Além disso, o juiz de primeira instância Osmar de Aguiar Pacheco concedeu uma liminar proibindo qualquer pessoa de prestar apoio à comunidade, gerando uma multa de R$ 5 mil caso alguém leve alimentos, água e outros recursos essenciais à vida. “Ou seja, além de isolados e mantidos em cárcere privado, pois qualquer barco é proibido de chegar a praia, os Mbya estão sendo submetidos à um tratamento desumano, obrigando os que ainda resistem a morrer de fome”.

“Há uma necessidade urgente de uma vigília constante, principalmente à noite quando acontecem os ataques na retomada. Traga sua barraca, comida para compartilhar e iniciativa, a conversa é aberta para todos que lutam pela preservação das terras do Arado Velho e da Retomada Guarani de um território ancestral que é seu por direito!”.

Leia o texto na íntegra:

Retomada Mbya-Guarani da Ponta do Arado precisa de apoio!

Já se passaram dois meses desde que a Arado Empreendimentos (Fazenda do Arado) mantém a comunidade Mbya Guarani como refém, isolados por uma cerca ilegítima e ilegal, vigiada por seguranças armados e sob ameaças constantes de morte.

Na madrugada de 11 de janeiro sofreram a primeira tentativa de homicídio, quando homens mascarados atiraram em direção as barracas e ameaçaram voltar para matar à todos, inclusive as crianças. Submetidos à prisão física e psicológica, entre a cerca e a lagoa, os Mbya sobrevivem ao terror cotidiano.

Mesmo com investigação da Polícia Federal e inúmeros boletins de ocorrência, nada foi feito para garantir a segurança dos Guaranis. Mais tiros foram disparados na madrugada do dia 25 de janeiro, no interior da Fazenda do Arado, causando pânico nas famílias que ali vivem há oito meses.

Por conta das ameaças constantes, apoiadores da Retomada Mbya Guarani das terras do Arado Velho organizaram vigílias noturnas, dificultando a ocorrência de novos ataques. Privilegiando os interesses da propriedade privada e de grandes empresários, colocando o empreendimento acima do direito à vida, o juiz de primeira instância Osmar de Aguiar Pacheco concedeu uma liminar proibindo qualquer pessoa de prestar apoio aos guaranis, sob pena de multa de 5 mil reais caso leve alimentos, água e outros recursos essenciais à vida. Ou seja, além de isolados e mantidos em cárcere privado, pois qualquer barco é proibido de chegar a praia, os guaranis estão sendo submetidos à um tratamento desumano, obrigando os que ainda resistem a morrer de fome.

A comunidade do Belém Novo vive sob tensão. Moradores, pescadores da região e qualquer pessoa que presta apoio aos Mbya está sujeito à sofrer denúncias falsas e até ameaças de morte.

Há uma necessidade urgente de uma vigília constante, principalmente à noite quando acontecem os ataques na retomada. Hoje, segunda-feira (25 de fevereiro), dando início à nova vigília, estaremos realizando uma roda de conversa para compartilhar a situação e somar esforços junto aos Mbya pela resistência. Não há organizadores, somos todos autoconvocados nessa luta. A vigília será na Prainha de Copacabana! Traga sua barraca, comida para compartilhar e iniciativa, a conversa é aberta para todos que lutam pela preservação das terras do Arado Velho e da Retomada Guarani de um território ancestral que é seu por direito!

 

*Estagiária sob supervisão de Tiago Miotto

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