22/01/2019

Em Encontro Mundial no Panamá, jovens indígenas assumem a memória de seus ancestrais para construir um futuro de coragem, lutas e resistência

O evento reuniu jovens indígenas de 40 povos originários, vindos de onze países da América Latina e do Vietnã

Delegação indígena brasileira no EMJI, no Panamá. Foto: Cimi Rondônia

Delegação indígena brasileira no EMJI, no Panamá. Foto: Cimi Rondônia

Por Adilvane Spezia, da ASCOM/CIMI

Jovens indígenas de quarenta povos originários diferentes, vindos de onze países da América Latina e do Vietnã, reafirmam a luta e resistência de seus ancestrais durante o Encontro Mundial da Juventude Indígena (EMJI) realizado entre os dias 17 a 21 de janeiro deste ano em Soloy, território do povo Ngäbe-Bugle, no Panamá. A delegação brasileira é composta por dez jovens indígenas dos povos Tukano, Baré e Tikuna, do AM; Pataxó Hã-Hã-Hãe, da BA; Guajajara, do MA; Guarani Kaiowá, do MS; Macuxi, de RR; e Karipuna, de RO. O evento faz parte da pré-eliminatória da Jornada Mundial da Juventude de 2019, que será realizada na Cidade do Panamá.

Em ambos os eventos, a delegação brasileira tem feito denúncias em âmbito internacional sobre a espinhosa realidade que os povos indígenas têm sido submetidos, frente à invasões de seus territórios tradicionais pelo agronegócio e as violações dos direitos constitucionais pelo atual governo de Jair Bolsonaro.

“Denuncio aqui a violência e as violações de direitos que os povos indígenas do Brasil estão sofrendo. Faço um chamado a todas as pessoas de boa vontade que se unam a nós na defesa da nossa Casa Comum”

André Karipuna denuncia a situação de seu povo durante o EMJI. Foto: Cimi Rondônia

André Karipuna denuncia a situação de seu povo durante o EMJI. Foto: Cimi Rondônia

“Desde 2015, a Terra Indígena Karipuna é o alvo principal de um processo criminoso de invasão e extração de recursos naturais em terras públicas ou protegidas no Estado de Rondônia”, denuncia o jovem indígena e cacique André Karipuna. De 2000 a 2014, estes indígenas perderam 342 hectares de sua floresta. Só nos primeiros seis meses de 2017, os Karipuna perderam cerca de 1.045 hectares no coração da terra, o que equivale a três vezes a área do Central Park em Nova York. Já no primeiro semestre de 2018, 1.800 hectares foram desmatados. Dados que transformam o território no segundo colocado em terras indígenas mais desmatadas na Amazônia brasileira, completa o jovem Karipuna.

A grilagem de terras, a extração ilegal de madeira e a exploração dos recursos naturais nos territórios têm gerado constantes violações dos direitos dos povos indígenas em todo país. André os relaciona à política indigenista e ambiental do governo brasileiro, bem como, à atuação da bancada Ruralista no Congresso, onde muitas propostas desmontam ou propõem a supressão de direitos indígenas consagrados na Constituição, ignorando os princípios constitucionais e do direito internacional.

“A Terra é uma mãe para nós, para todos nós, não importa se é nacional ou internacional, não importa a etnia porque a mãe é uma só, a Terra é uma só”

Johnn Nara Kaiowá reforçou a importância do cuidado com a Mãe Terra. Foto: Cimi Rondônia

Johnn Nara Kaiowá reforçou a importância do cuidado com a Mãe Terra. Foto: Cimi Rondônia

Da mesma forma, a jovem indígena Jhonn Nara Kaiowá relata a situação dos povos Guarani e Kaiowá no Brasil, em especial a política adotada pelo chefe do governo brasileiro, a violência e as violações de direitos a que os povos indígenas estão sendo submetidos. “O povo Guarani e Kaiowá, as nossas crianças e os demais povos do Brasil estão sendo massacrados e violentados pelos ruralistas, pelas leis que o novo governo de Jair Bolsonaro está criando, mas também estamos sendo massacrados e violentados pelas armas de fogo”, denuncia a jovem Kaiowá.

Durante o Encontro Mundial da Juventude Indígena, os jovens reafirmam o compromisso de continuar lutando pelo direito sagrado da Mãe Terra, mesmo com as ameaças de morte a que os povos têm sido submetidos diariamente. “Denuncio aqui, neste espaço, a violência e as violações de direitos que todos nós, os povos indígenas do Brasil, estamos sofrendo, e faço um chamado a todas as pessoas de boa vontade, comprometidas com a vida, que se unam conosco na defesa da nossa casa comum, o planeta Terra”, afirma o jovem Karipuna.

“A Terra é uma mãe para nós, para todos nós, não importa se é nacional ou internacional, não importa a etnia porque a mãe é uma só, a Terra é uma só. Por isso, a mensagem do Papa Francisco nos dá muita força para continuarmos protegendo a nossa Mãe Terra, porque nela vivemos, ela nos dá o alimento, nos dá a moradia”, afirma Jhonn Nara. Que ainda completa: “Nosso povo, mesmo morrendo, vai seguir protegendo nossa Mãe Terra. Os povos indígenas de várias etnias, vamos continuar resistindo mesmo que este novo governo queria nos matar, nós vamos continuar resistindo até a última gota de nosso sangue”.

Jovens indígenas do Brasil na EMJI. Foto: Cimi Rondônia

Jovens indígenas do Brasil na EMJI. Foto: Cimi Rondônia

Ao final do EMJI, os jovens deixaram uma mensagem às pessoas de fé e boa vontade, e assumiram o compromisso de cuidar da memória de seus ancestrais para construir um futuro de coragem, lutas e resistência. No documento, o grupo destaca a satisfação dos participantes em receber as palavras do Papa. “Nos alegra receber a mensagem do Papa Francisco no início do EMJI, onde convida a juventude indígena ‘a cuidar das raízes, porque das raízes vem a força que os fará crescer, florescer e frutificar’”.

Num ambiente de dança, música e oração, também compartilharam importantes testemunhos que nascem das realidades de nossos povos, como as lutas, anseios, sonhos, esperanças e dores, de onde vem um grito da Mãe Terra e seus filhos oprimidos. O documento ainda destaca a preocupação com “o massacre dos povos indígenas no Brasil, especialmente os Guarani, Kaiowá e Karipuna que vivem com uma ameaça imediata de genocídio”.

Confira a mensagem na integra:

Mensagem do Encontro Mundial de Jovens Indígenas

“Assumimos a memória do nosso passado para construir esperança com coragem”

EMJI

Aos povos indígenas do mundo, aos irmãos e irmãs que compartilham conosco a fé católica e as pessoas de boa vontade:

Nós irmãos reunidos, cheios de esperança, jovens indígenas de 12 países representando 40 povos originários, de 17 a 21 de janeiro de 2019 em Soloy, Região Ngäbe-Bugle, Panamá, para compartilhar nossa fé em Jesus Cristo da riqueza milenar de nossas culturas. Tratamos de temas como a memória viva de nossos povos, a importância de viver em harmonia com a Mãe Terra e de sermos protagonistas na construção do outro mundo possível. Ficamos felizes em receber a mensagem do Papa Francisco no início do EMJI, onde ele convida a juventude indígena “a cuidar das raízes, porque das raízes vem a força que os fará crescer, florescer e frutificar”.

Em uma atmosfera de dança, música e oração, também compartilhamos testemunhos importantes que surgem das realidades de nossos povos, tais como suas lutas, anseios, sonhos, esperanças e tristezas, dos quais brota um grito da Mãe Terra e seus filhos oprimidos. Entre as numerosas violações à dignidade de nossos povos, ouvimos falar das invasões e exploração de territórios originais, governos que violam as leis de proteção do cidadão, as transnacionais e os grandes projetos econômicos que violam a Casa Comum através da mineração, desmatamento, construção hidrelétrica e turismo invasivo. Da mesma forma, reconhecemos com pesar que as autoridades e os governos, que deveriam cuidar da população em geral, especialmente os mais fracos, criam alianças com poderes econômicos para realizar seus interesses individuais, marginalizando outros.

Sentimos o sofrimento que vivem, particularmente, os povos Naso e Emberá no Panamá devido à falta de resposta do governo à demarcação de seu território, o massacre dos povos indígenas no Brasil, especialmente os Guarani, Kaiowá e Karipuna que vivem com uma ameaça imediata de genocídio e o massacre de jovens nicaraguenses pela defesa dos direitos de seus povos. Da mesma forma, estamos preocupados com a ameaça e o assassinato de líderes indígenas quando eles defendem os direitos de seus povos e da Mãe Terra.

Por isso, nós, jovens indígenas, unidos em uma só voz, exigimos respeito por nossa diversidade, cosmovisões e nossos modos de viver, manifestados nas práticas do Bem Viver. Da mesma forma que nós, como povos indígenas, reconhecemos que a terra é nossa mãe, é por isso que exigimos o cuidado da Casa Comum para que todos os povos tenham vida e um futuro para oferecer às novas gerações, porque nesta terra estamos entrelaçados.

Pedimos aos governos e à sociedade em geral que reconheçam e demarquem os territórios indígenas, e proporcionem uma educação que respeite as culturas de nossos povos como culturas distintas, com suas próprias riquezas e sabedoria.

À nossa querida Igreja, solicitamos os espaços apropriados para viver nossas espiritualidades, desde nossas cosmovisões, heranças de nossas avós e avós, e respeito pelas teologias particulares de nossos povos, frutos da síntese entre nossa fé ancestral e a plenitude de nossa esperança na pessoa de Jesus Cristo.

Chegou a hora de viver com alegria a face indígena da Igreja!

 

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