06/06/2018

Violência no campo: novos recordes

Relatório “Conflitos no campo Brasil 2017”, lançado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), registra maior número de assassinatos no campo desde 2003, com assustador aumento de massacres

Foto: Caio Motta/CPT

Foto: Caio Motta/CPT

2017 escancara o alto preço que as populações do campo, estão pagando como resultado do golpe político-parlamentar-midiático desfechado contra a democracia. Crescem de modo assustador os números da violência. 71 assassinatos (número atualizado após o lançamento dos dados em 16 de abril de 2018) é o maior número registrado desde 2003, quando se computaram 73 vítimas. É 16,4% maior que em 2016, quando houve o registro de 61 assassinatos e é praticamente o dobro de 2014, que registrou 36 vítimas.

E esse número é ainda mais gritante se se levar em conta que o número total de conflitos em 2017, 1.431 é 6,8% menor do que em 2016, quando ocorreram 1.536 conflitos. Em 2017, o número corresponde a um assassinato a cada 20 conflitos, enquanto em 2016, correspondia um assassinato a cada 25 conflitos. O índice de 2017 é maior do que em 2003, quando os 73 assassinatos ocorreram num total de 1.639 conflitos. Igual a um assassinato a cada 22 conflitos. Mas o lado mais macabro dos assassinatos em 2017 são os massacres. Cinco massacres com 31 vítimas.

Tabela de assassinatos no campo entre 2003 e 2017. Crédito: reprodução/CPT

Tabela de assassinatos no campo entre 2003 e 2017. Crédito: reprodução/CPT

Violência contra a pessoa

Mas não foram só os assassinatos que cresceram. Praticamente todas as demais formas de violência contra a pessoa cresceram em relação ao ano de 2016. As tentativas de assassinato passaram de 74 para 120 – um crescimento de 63% e um número que corresponde a uma tentativa a cada três dias. As ameaças de morte aumentaram de 200 para 226. O número de pessoas torturadas passou de 1 para 6. E o de presos foi de 228 para 263.

Um caso, que poderia ter sido mais um massacre em 2017, aterrorizou a todos pelo alto grau de brutalidade e crueldade. No dia 30 de abril, em Viana, no Maranhão, indígenas Gamela sofreram um terrível ataque em que 22 indígenas foram feridos. Dois tiveram as mãos decepadas. O ataque foi insuflado por políticos e ruralistas que não aceitam que os indígenas reivindicam o território que lhes pertence e sobre o qual há um documento do tempo do império. A Polícia Militar que estava próxima do local da tragédia não tomou nenhuma providência. Os gamela continuam tendo seu território e suas vidas ameaçadas.

O professor Carlos Walter pôs em evidência o que os números escondem. Analisando o período de 2015-2017, que ele caracteriza como período de ruptura política, e comparando-os com outros períodos anteriores, fica patente o aumento exponencial da violência neste período. Nos anos da ruptura política, 2015-2017, a média anual de assassinatos saltou para 60,6. No período de 2003 a 2006, primeiro ano do governo Lula, a média foi de 47,2; entre 2007 e 2010, segundo mandato de Lula, a média refluiu para 28,7; e entre 2011-2014, governo Dilma, a média foi de 33,7.

Também 2017 registrou uma drástica diminuição nos números de combate ao trabalho escravo. As tentativas de modificar o conceito de trabalho escravo para agradar a bancada ruralista vieram acompanhadas de orçamentos cada vez mais reduzidos e da diminuição no número de fiscais. Isso explica a redução nos números de combate ao trabalho escravo. 66 ocorrências em 2017, com 386 trabalhadores resgatados no campo. A média de ocorrências no período 2005 a 2014 foi de 226, já no período da ruptura política, 2015-2017, esta média caiu para 71.

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