06/03/2018

Sem atendimento nas aldeias, Pataxó ocupam Pólo Base de Saúde no extremo sul da Bahia

“São dois veículos para cobrir 22 aldeias e atender 5 mil indígenas. Vivem quebrados. Então não se consegue transportar os pacientes ou levar os médicos às comunidades”, explica Valmir Pataxó, vice-presidente do Condisi da Bahia.

Cacique Aruã Pataxó (à esquerda), em Brasília: povo costuma cumprir agendas na Capital Federal. “Governo não pode dizer que não sabe dos nossos problemas”, diz Aruã. Foto: Guilherme Cavalli/Cimi

Por Renato Santana, da Ascom/Cimi

A pequena Pataxó apresentava sintomas na noite desta segunda-feira, 5, que não deixaram alternativa aos pais: da aldeia Nova Esperança, a criança deveria ser encaminhada para o hospital de Itamaraju, extremo sul baiano. Sem veículo próprio, a família precisou pagar pelo transporte até o atendimento médico. “São dois veículos para cobrir 22 aldeias. Vivem quebrados. Então não se consegue transportar os pacientes ou levar os médicos às comunidades”, explica Valmir Pataxó, vice-presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígenas (Condisi) da Bahia.

O episódio é utilizado pelo indígena para ilustrar os motivos que levaram cerca de 90 Pataxó a iniciar uma ocupação à sede do Pólo Base de Saúde, em Itamaraju, na manhã de ontem. A mobilização começou logo cedo “e não há previsão de acabar. Pedimos a presença da coordenadora do DSEI (Distrito Especial de Saúde Indígena) e do MPF (Ministério Público Federal) de Teixeira de Freitas. Caso não tenha uma solução, vamos fechar a BR-101 e para isso temos mobilizados cerca de 400 indígenas”, diz Valmir Pataxó. Ficou marcada para sexta-feira, 9, uma reunião com o Conselho Local do Pólo Base e a coordenadora do DSEI, Mônica Corrêa Marapara. A ocupação seguirá normalmente até o encontro, garantem os Pataxó.

Conforme Valmir Pataxó, os 5 mil indígenas dos territórios de Barra Velha, Cumuxatiba (antiga Cahy-Pequi) e Pataxó Hã-hã-hãe de Alcobaça sofrem com problemas que envolvem a falta de transportes, ausência de equipe médica nas áreas, contratos para vigilância e serviços gerais vencidos há cerca de dois anos. “É lixo espalhado para todos os lados, da entrada do Pólo chegando nas salas. Quem trabalha e quem é paciente têm de conviver com isso ou limpar, como acaba acontecendo na maior parte das vezes”, salienta Valmir.

Para o presidente da Federação Indígena das Nações Pataxó e Tupinambá do Extremo Sul da Bahia (Finpat), o cacique Aruã Pataxó, a situação beira a inexistência do serviço. Comentando a respeito dos chamamentos públicos em curso para a ampliação da terceirização, como forma de melhorar o serviço, Aruã acredita que o processo é uma “enganação, carta marcada. A Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) contrata quem eles bem entendem, demitem funcionários. Nenhuma consulta aos povos”.

O Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), com sede no Recife (PE), é a conveniada da Sesai que presta serviços de saúde na região. Nas última semanas, uma onda de demissões de funcionários do Pólo Base acabou tornando o serviço ainda mais precário. “Nesta segunda feira, a Sesai, por meio do IMIP, fez demissão de vários funcionários no Pólo Base, 01 médico (Barra Velha) 3 enfermeiras (Bruna, Flávia e Nilzete) e 03 agentes de saúde indígena (Barra Velha) e 01 agente (Coroa Vermelha)” (SIC), denunciou o povo pataxó em carta que circula nas redes sociais.

“Alegou pra gente que as demissões foram por questões técnicas. Mas todos sabem que é perseguição política a funcionários”, destaca Valmir Pataxó

Em sua defesa, o Imip comunicou aos indígenas que recebeu ordens da Sesai, que, por sua vez, “alegou pra gente que as demissões foram por questões técnicas. Mas todos sabem que é perseguição política a funcionários”, destaca Valmir Pataxó. Os municípios de Porto Seguro, Itamaraju e Prado estão no raio de ação do Pólo. São mais de 5 mil indígenas distribuídos em 22 aldeias. Em 2016, os Pataxó estiveram em Brasília e no Ministério da Saúde ouviram que os problemas seriam sanados, além de que 40 viaturas seriam enviadas ao Pólo Base. “Nada disso foi cumprido e estamos aqui para fazer valer o nosso direito”, frisa Luciaria Pataxó.

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