02/09/2011

A vida fala mais alto no Vale do Javari

Por volta das 14 horas do dia 27 de agosto, um pranto de dor destoou da alegria que tomava conta da aldeia São Luiz, no médio rio Javari. Muito distante dali, na aldeia Bananeira, duas horas antes um indígena de 65 anos faleceu e seus parentes choravam mais uma perda. Eles participavam do IV Encontro das Lideranças Camaçari do Vale do Javari e V Festival da Cultura Kanamari que se realizava em São Luiz, realizado entre os dias 20 e 30 de agosto passado. Foi a quinta morte este ano entre os Kanamari – um povo que tem perdido muitos dos seus membros para hepatites, malária e outras doenças que desde meados dos anos 80 cresceram e ameaçam a vida dos diversos povos do Vale do Javari. 

Festival de Cultura
Fortalecer a cultura e superar as perdas foi a palavra de ordem do V Festival da Cultura Kanamari, realizado entre os dias 25 e 30 de agosto em São Luiz – uma aldeia localizada a cerca de 200 quilômetros da cidade de Atalaia do Norte, no extremo oeste do Amazonas. Mais de 400 indígenas Kanamari, Mayoruna e Marubo de várias aldeias localizadas nos rios Javari, Itacoaí e Curuçá, na terra indígena Vale do Javari, participaram do evento.
Na chegada, os participantes e convidados eram introduzidos na mística do festival. O rio Javari, a esta época do ano, ainda está secando e a paisagem fica bastante alterada, com muitas praias ao longo do seu leito. E era na praia que a recepção começava. Um grupo de mulheres, com traje tradicional dos Kanamari, saudava a todos cantando e oferecendo caiçuma – bebida fermentada, feita de macaxeira.
À noite, os indígenas se reuniam na maloca construída especialmente para o evento e se preparavam para o momento do ritual onde dançam, cantam e consomem o Rami (ayahuasca), uma bebida feita de raízes e folhas que, para os Camaçari, serve como uma espécie de passagem entre o mundo real e seu mundo místico. “A bebida nos permite ver o que vai acontecer. Eu mesmo já vi muitas coisas”, explica o pajé Raimundo Iwi. 
Mas a tradição tem também seus aspectos, digamos, dolorosos… Antigamente, segundo disseram vários indígenas, os Kanamari resolviam suas diferenças de um modo bastante particular. Com um chicote feito de couro de anta, a aldeia se reunia e aqueles que tinham alguma rixa ou diferença por qualquer razão que fosse, tinham uma ocasião apropriada para por fim aos conflitos. 
No meio da roda, as duplas travavam uma luta que deixava marcas de ferimentos no corpo. Alguns dos mais velhos deixavam expostas essas marcas.  No festival, esse ritual foi encenado com facho da palha de buriti verde. Homens e mulheres, em duplas, se revezavam. Cada um dava, no mínimo, duas chicotadas no outro. Ainda que fosse encenação, a pancada e a dor eram de verdade. E as marcas no corpo, também…
Outra rivalidade também se resolvia no campo. As disputas, agora, eram de aldeia contra aldeia no torneio de futebol. E quando se trata de futebol os indígenas parecem muito ligados no mundo dos “Kariuá” – como eles denominam os não-indígenas. Não faltaram jogadores com o corte “moicano” – estilo de um dos mais famosos jogadores brasileiros da atualidade. Encerrando as festividades, os indígenas mostraram sua habilidade no torneio de arco e flecha.
Ano que vem o Festival da Cultura Kanamari será realizado na aldeia Bananeira, localizada no rio Itacoaí, nos últimos dias de maio, no final do tempo da cheia para que não haja dificuldades de acesso aos participantes e convidados.
“Funai tem que apanhar de couro de anta”
“A Funai coloca indígena para falar com os indígenas porque não tem coragem de ir nas aldeias. A Funai está usando você contra os índios, parente”. Assim o pajé da aldeia Bananeira, Raimundo Iwi, resumiu a indignação dos Kanamari diante de Francisco Pianco, assessor do presidente da Fundação Nacional do Índio – Funai. Pianco é de origem Ashaninka, povo indígena do Acre. 
Ele esteve na aldeia São Luiz, no dia 26/08, participando do IV Encontro de Lideranças Indígenas do Povo Kanamari do Vale do Javari, com a tarefa de dialogar sobre as mudanças resultantes da reestruturação do órgão, iniciada ainda sob o governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva. Pianco comunicou que já está na Casa Civil a proposta de alteração ao decreto 7.056 de 28 de dezembro de 2009 prevendo, entre outras iniciativas, a criação de uma coordenação técnica regional no Vale do Javari.
As mudanças na estrutura da Funai provocaram reações por parte dos indígenas em várias regiões do Amazonas e em outros estados. De acordo com o decreto, à Coordenação Técnica Regional do Vale do Juruá, sediada em Cruzeiro do Sul, no Acre, caberia a assistência aos povos do Vale do Javari e parte dos habitantes de outros municípios do Sudoeste do Amazonas – uma área geograficamente ampla e de difícil acesso em muitas localidades. 
Outra mudança que os indígenas não estão aceitando é a substituição Heródoto Jean, atual Coordenador Técnico da Funai em Atalaia do Norte. Francisco Pianco dizia que estava ali para ouvir as lideranças, mas não aceitava o posicionamento delas contrário à mudança da coordenação regional. Enquanto o assunto está sendo discutido em Brasília nestes dias, nas aldeias do Vale do Javari há forte resistência contra a nomeação de um funcionário recém-contratado pelo órgão indigenista a quem as lideranças presentes ao IV encontro dos Kanamari deram lugar na mesa de expositores mas sequer o deixaram falar. 
Os motivos do descontentamento dos indígenas não param por aí. Há denúncias de invasões de pescadores e madeireiros em vários dos rios que cortam a terra indígena, ameaçando até mesmo povos isolados, como os Korubo que em anos passados foram vítimas de muitos massacres. “Antes, somente os homens apareciam nas praias. Hoje, eles vão com a família toda, até com crianças, porque há muito tempo não acontecem conflitos, graças à demarcação da terra”, explicou Fabrício Amorim, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari.
O assessor do presidente da Funai foi muito bem recebido pelos indígenas, mas muito pouco do seu discurso tem novidade para eles. Pianco reforçou a idéia de que o estado brasileiro não sabe ou não quer mesmo dialogar com os povos indígenas. Quer, porém, como se diz popularmente, “empurrar goela abaixo” as ações governamentais – muitas das quais contrárias aos interesses dos indígenas. Por essas e outras o pajé Kanamari sugeriu: “Funai tem que apanhar de couro de anta!”.
Fonte: J. Rosha - Cimi Norte I
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