27/04/2011

Mobilização dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul

“Nós Guarani somos um povo muito pacífico, mas não desistimos de lutar pelos nossos direitos, nossas terras, um futuro melhor para nossos filhos e netos…” (Liderança Kaiowá Guarani, acampada)

Por Egon Heck

Apoio a Ypo’i

Hoje inicia mais uma grande Assembleia Guarani Kaiowá.  Mais de 500 lideranças desse povo estão se mobilizando em todo o cone sul do Mato Grosso do Sul. O Conselho da Aty Guasu havia definido a realização dessa  Assembléia em Ypo’i, como forma concreta de apoiar a luta desses seus irmãos pelo seu tekohá, terra tradicional. Seria uma maneira de novamente dizer ao Brasil e ao mundo, que a angústia de um pouco mais de uma centena de indígenas, continua: o cadeado continua fechado, o corpo de Rolindo continua desaparecido, o processo e julgamento dos responsáveis pelo assassinato dos professores Guarani Genivaldo e Rolindo continua parado. Porém a solidariedade nacional e internacional ao direito dessa comunidade indígena tem sido ampla, impedindo com que sejam submetidas a novas violências e mais sofrimentos.

As inúmeras comunidades Guarani Kaiowá que continuam acampadas nas beiras das estradas, cansaram de esperar. Já fazem dois anos do término do prazo para que fossem publicados os relatórios de identificação de todas as terras indígenas desse povo. Até hoje não se tem notícia sequer da entrega dos relatórios para apreciação e encaminhamento da presidência da Fundação Nacional do Índio (Funai).

A Aty Guasu será o momento privilegiado para discutir e tomar decisões com relação à luta pela terra, contra a violência e pelo fim da impunidade. Mas será também a oportunidade de avaliar a caminhada organizativa das comunidades e do conjunto do povo. Nela irão socializar as importantes lutas e conquistas, como a realização do Encontro dos Povos Guarani da América do Sul, na Aldeia de Jaguaty, no Paraguai; o julgamento e condenação dos assassinos de Marcos Veron, realizado em São Paulo no final de fevereiro.

Jatayvary – vitória contra a cana

No início dessa semana, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, assinou portarias declaratórias de três terras indígenas, entre elas está a Terra Indígena Jatayvary, no município de Ponta Porã. Os Kaiowá retornaram esse tekohá na década de noventa. Em 2000 a Funai fez o registro 08620.001862/2000, a partir do qual se iniciou o processo de reconhecimento da área como de ocupação tradicional do povo. Em 2005 foi criado o Grupo de Trabalho parar identificação da área. Foram vários anos de tortuoso caminho até chegar à publicação do relatório de identificação. A reação ao reconhecimento da terra indígena, por parte dos interesses do agronegócio e da agroindústria da cana, foi tão violenta que chegou à inusitada decisão judicial de requerer todos os documentos originais do processo de identificação.

Todas as contestações à identificação foram documentalmente demonstrados pela Funai, sendo agora publicada a portaria de identificação, a partir da qual o governo se compromete à fazer a demarcação física dos aproximadamente 8.800 hectares dessa terra indígena.

Essa é uma das aldeias sitiadas pela cana. Em vários momentos a comunidade afirmou que os plantadores de cana haviam dito que iriam cercar a comunidade com cerca elétrica. A empresa multinacional Bunge instalou recentemente uma usina socroalcooleira na região.

Agora a comunidade pode respirar com um pouco mais de paz, enquanto prossegue o processo de regularização de sua terra.

À Sombra de um Delírio Verde

Hoje à noite será lançado oficialmente o vídeo documentário “à Sombra de um Delírio Verde”, que traz para o debate a questão dos agro-combustíveis, e de maneira especial o impacto da cana sobre o meio ambiente e as populações Guarani Kaiowá do Mato Grosso Sul.

Um dos responsáveis pelo documentário, o jornalista Cristiano Navarro, estará presente para o debate por ocasião do lançamento do vídeo, dentro da programação da 2ª Semana dos Povos Indígenas promovido pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no MS.

A sinopse do filme afirma que na região sul do Mato Grosso do Sul, fronteira com Paraguai, a etnia indígena com a maior população no Brasil luta silenciosamente por seu território para tentar conter o avanço de poderosos inimigos. Expulsos pelo contínuo processo de colonização, mais de 40 mil Guarani Kaiowá vivem hoje em menos de 1% de seu território original. Sobre suas terras encontram-se milhares de hectares de cana de açúcar plantados por multinacionais que, em acordo com governantes, apresentam o etanol para o mundo como o combustível “limpo” e ecologicamente correto.

Sem terra e sem floresta, os Guarani Kaiowá convivem há anos com uma epidemia de desnutrição que atinge suas crianças. Sem alternativas de subsistência, adultos e adolescentes são explorados nos canaviais em exaustivas jornadas de trabalho. Na linha de produção do combustível limpo são constantes as autuações feitas pelo Ministério Público do Trabalho que encontram nas usinas trabalho infantil e escravo. Em meio ao delírio da febre do ouro verde (como é chamada a cana de açúcar), as lideranças indígenas que enfrentam o poder que se impõe muitas vezes encontram como destino a morte encomendada por fazendeiros.

O vídeo também estará sendo apresentado na Aty Guasu, em Arroyo Korá, com a presença de um dos realizadores do documentário, Cristiano Navarro.

Fonte: Cimi Regional Mato Grosso do Sul
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